Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > ORIENTE MÉDIO EM CRISE

As revoltas, a ditadura americana e a traição midiática

Por Luis Eustáquio Soares em 01/03/2011 na edição 631

Acredito que um revolucionário se faz lutando com os povos, mas não porque seja melhor ou porque queira ser um ‘legítimo’ líder no decorrer da luta. Um revolucionário de verdade nada mais é que ‘um qualquer’, um do povo, sem qualquer distinção ou privilégio.

O desafio de estar com os povos a fim de, como o povo, através do povo e pelo povo, por mais clichê que pareça, e tendo como limite sua própria vida ( mas nunca a do outro, sobretudo a do povo), não pode servir de pretexto para mandar o exército assassinar o povo, seja o seu povo, de sua nacionalidade – ou qualquer outro povo.

Quando um ‘Zé Ninguém’ morre exatamente por ser ‘Zé Ninguém’, por estar vulnerável, por não ter proteção policial, econômica, simbólica, é o povo que morre. É, pois, a revolução legítima que morre! Ser revolucionário não é simplesmente ser corajoso ou ser aquele que enfrenta as forças imperialistas, que são as que, por excelência, massacram sem cessar os povos. Ser revolucionário é ser como o povo; é fazer-se como um ‘Zé Ninguém’, no meio do povo, colaborando para que o povo não esteja a serviço de qualquer poder que não seja o seu próprio revolucionário poder: o poder de não deixar matar de forma alguma o ‘Zé Ninguém’, o povo.

Se Muammar Kaddafi teve influência direta na morte de um ‘Zé Ninguém’, um único que seja, ele matou também os vestígios de revolucionário que ele tenha tido ou possa vir a ter, nessa ou noutra circunstância histórica, razão pela qual, sem pestanejar, ele deve abandonar o Governo da Líbia e, se algum serviço ainda puder prestar, revolucionariamente, que seja este: que abandone imediatamente o poder procurando colaborar para que o ‘Zé Ninguém’ assuma o poder o mais longe possível das garras dos centros imperialistas americanos, europeus, inclusive o mais longe possível da concentração de poder midiático, essa outra forma de matar o ‘Zé Ninguém’, de matar o povo.

Um jogo de máscaras

Todo poder ecoa ou realiza uma sentença de morte: ou faz o que eu quero ou eu te mato. É por isso que toda e qualquer forma de poder sedimentada no tempo e no espaço é como uma moeda: tem duas faces; cara e coroa. Num lado da moeda – ou da face do poder – esboça-se um perfil que produz o efeito de ilusão de que o poder é mole, acolhedor, paternal, compreensível, democrático, festivo, alegre, amável. No outro lado da moeda delineia-se a real face de morte do poder, uma caveira, razão pela qual através dessa outra face somos alertados de que o poder é duro, ameaçador, inflexível, autoritário, bravo, violento, matador, mas necessário para combater o mal inscrito nas caveiras de outras faces duras da profusão de rostos de poder que se espalham pelo mundo: o poder econômico, o poder patriarcal, o poder étnico, o poder bélico, o poder científico, religioso e assim por diante.

É por isso que os Estados Unidos são uma ditadura de rosto ou partido único, como toda ditadura – e como toda forma de poder despótico. A diferença da ditadura estadunidense em relação a outras, entretanto, está diretamente implicada com os efeitos de engodo, dissimulação e estratégia produzidos pelo jogo de máscaras de suas duas faces: uma dura e outra mole. Essas duas faces se expressam respectivamente através do Partido Republicano e do Partido Democrata. O primeiro é duro, razão pela qual, quando no poder, é representado pela face de homens e mulheres que são a encarnação física da dureza, da ameaça e da autoridade despótica. Bush, sob esse ponto de vista, é apenas a última caricatura ou face dura do Partido Republicano a governar os Estados Unidos. Outras virão, infelizmente.

Mais dissimulações e estratégias

A segunda face do poder americano é a face mole, representada pelo Partido Democrata. A face mole joga com as máscaras do desejo de justiça e de liberdade do povo americano e dos povos do mundo, razão pela qual é a face que finge encarnar o rosto que, nessa ou naquela circunstância histórica, os povos do mundo gostariam de ver no poder, como se fossem eles mesmos – os povos – que estivessem no centro do poder mundial.

É por isso que, quando a juventude estava na moda ou mesmo foi inventada, na década de sessenta, que o Partido Democrata conseguiu eleger o primeiro presidente jovem da história dos Estados Unidos: o presidente Kennedy. É igualmente por isso que o Partido Democrata, na última eleição, conseguiu eleger o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, Obama, porque era mesmo o momento dos povos do mundo serem levados a acreditar que a democracia americana é uma democracia de fato, tanto é assim que um negro pode se eleger e ganhar uma eleição, como mito geral do desejo de justiça étnica e econômica que têm no negro o seu mais fiel representante, pela dura razão de que a modernidade capitalista soergueu-se fundamentalmente através da escravidão e humilhação dos povos do continente africano.

Obama é, por isso mesmo, um engodo, uma dissimulação e uma estratégia, porque o lado mole da face do poder é isto: um engodo, uma dissimulação e uma estratégia. Tudo devidamente articulado para produzir efeitos de ilusão de que a ditadura estadunidense é uma exuberante democracia. Haverá um dia, como mole parte ditatorial do engôdo, da dissimulação e da estratégia, que um homossexual assumido será presidente dos Estados Unidos, ou uma mulher lésbica, ou um latino, um ex-preso, ex-drogado, ou, ainda, todos esses perfis acumulados: negra, mulher, lésbica, latina, ex-drogada, ex-presa; um mosaico de perfis certamente mais determinado a produzir mais engôdos, mais dissimulações e mais estratégias, em nome da face dura do poder, a que manda em primeira e última instância.

O exemplo execrável dos duros poderes

A cada vez que a face mole do poder mimetiza os perfis humanos que encarnaram, encarnam e encarnarão os desejos de justiça e alegria dos povos, maior potencial terá o centro do poder para produzir novas formas de engôdos, novas formas de dissimulação e inacreditáveis ações estratégicas. Esse é, portanto, o desafio número um de Obama, sua promessa às avessas: produzir engôdos, dissimulações e ações estratégicas como jamais o centro do poder americano teceu e entreteceu.

É aqui que entra, como parte dessa ousadia de engôdo, de dissimulação e de ação estratégica, a relação intrínseca entre WikiLeaks e as atuais revoltas populares no grande Oriente Médio e no norte da África: ambos são parte do engôdo, da dissimulação e da estratégia do centro de poder americano e suas ramificações teológicas perfiladas na eterna promessa da terra prometida de Israel (a de ser dono de todo o planeta), como o outro lado invisível da face transcendental que aureola todo poder ditatorial: a face de Deus.

Mesmo que o WikiLeaks seja ou tenha sido uma honesta forma de jornalismo investigativo, à época de sua praticamente inexistência, não há dúvidas: se já não era, agora WikiLeaks é parte atual do engôdo, da dissimulação e da estratégia do centro mole do poder americano. A lógica é simples: querem jornalismo investigativo? Na era da face dura do poder, a era Bush, eles não existiam? Viva, que agora ele é possível: WikiLeaks e seu herói, Julian Assange, entram em cena.

Mas por que entraram e entram em cena o WikiLeaks e as revoltas populares dos povos árabes nos exatos momentos que entraram e entram? Ou, modificando a pergunta: por que os grandes meios de comunicação do mundo aceitam pagar, filtrar, mediar e difundir as informações de WikiLeaks precisamente no final do ano passado e início deste? Qual relação pode ter entre WikiLeaks e as revoltas populares no grande Oriente Médio e norte da África, se ambas forem de fato um engôdo, uma dissimulação e uma ação estratégica da face mole laico-teológica do poder americano-sionista? Por que os cabos fofoqueiros de WikiLeaks não conseguiram prever o mínimo vestígio de revolta popular nessa ‘explosiva’ região do planeta? (E explosiva por ser uma região condenada historicamente a ser o exemplo execrável dos duros poderes, através de mirabolantes estratégias constituídas pela face mole do duro poder colonizador europeu, até antes da Segunda Guerra Mundial; e pelo mole duro poder americano, após a guerra das bombas de Hiroshima e Nagasaki.)

Uma farsa geral diariamente teatralizada

A resposta é simples: o WikiLeaks é uma cortina de fumaça e foi usado para desviar a atenção dos povos e poderes do mundo, tendo sido igualmente usado para ajudar a dar um matiz mais real às revoltas populares, pois podemos alegar que são realmente espontâneas, logo legítimas, uma vez que nem mesmo as embaixadas americanas conseguiram detectá-las. Esse é um lado da estratégica obamamania por engôdos e dissimulações a serviço do mais duro poder que jamais existiu na história da humanidade: o duro poder americano; o poder ditatorial que mais vidas ceifou no decorrer de sua curta existência.

E por que as embaixadas americanas iriam incentivar notícias negativas contra elas mesmas?

A resposta novamente é simples. Essas mesmas embaixadas precisavam que os povos e poderes do mundo gastassem suas atenções com as fofocas produzidas pelo chamado ousado, criativo e destemido internético jornalismo investigativo, a fim de que elas, as embaixadas americanas, pudessem preparar os golpes ou engôdos dissimulados e estratégicos que interessam: derrubar os governantes não alinhados do Oriente Médio e norte da África, principalmente se tiverem petróleo, como no caso do Líbano, mesmo que ao preço de derrubarem também os alinhados, com o objetivo central de chegar ao país que interessa, Irã. Essa dissimulada estratégia é parte da guerra que Estados Unidos e Israel realizam há alguns anos incessantemente contra Irã, porque este é hoje o país que mais resistência e influência produz contra os Estados Unidos e Israel no Oriente Médio e Norte da África (mas não apenas), afetando diretamente os geopolíticos interesses do duro imperialismo ocidental-americano-sionista.

Quer dizer, então, que as revoltas populares no norte da África e no Oriente Médio não são legítimas aspirações por justiça de seus povos? Sim e não.

E sim e não porque devemos sempre considerar que na frente de toda face dura do poder, das supostas ditaduras dos países orientais, existe a mole face do engôdo, da dissimulação e da fatal estratégia do disfarce fílmico do real cinema produzido pela hollywoodiana empresa bélica dirigida pelo Pentágono, pelo Departamento de Estado, pelas embaixadas americanas pelo mundo afora, incluindo a mais poderosa delas: a embaixada americana de Israel ou, como queiram, a embaixada israelense dos Estados Unidos, sempre devidamente protegidas e mistificadas pelas israelenses embaixadas americanas encravadas estrategicamente, dissimuladamente (e com muito engôdo) nos não menos moles perfis ditatoriais dos grandes meios de comunicação espalhados pelo planeta, então rebaixados à condição de incessantemente editarem noticiosas mediações golpistas gestadas pelos poderosos perfis duros escondidos e protegidos pela farsa geral diariamente teatralizada por, novamente, moles perfis midiáticos, sempre bem pagos para produzirem engôdos, dissimulações e orquestrações estratégicas contra tudo que seja livre criação de si, do outro e do mundo, fora de toda humilhação, submissão e vendida midiática traição.

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Poeta, escritor, ensaísta e professor na Universidade Federal do Espírito Santo

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