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ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > TERÇA-FEIRA, 7/11

Ataques à imprensa são os mesmos; os atacados é que mudaram

Por Leticia Nunes em 08/11/2006 na edição 406

TERÇA-FEIRA, 7/11


Ataques à imprensa são os mesmos; os atacados é que mudaram


Leticia Nunes



Leia abaixo os textos desta terça-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Terça-feira, 7 de novembro de 2006




IMPRENSA ATACADA
Janio de Freitas


Identidade


‘As reações dos lulistas fanáticos, dirigidas a jornalistas, são integralmente iguais às dos fernandistas apaixonados. A diferença não está nesses militantes em relação às críticas ou ao tratamento dado às figuras do seu altar.


Está nos jornalistas, os que receberam as reações insultuosas de um lado, mas não as do outro; os que as receberam do outro, mas não do primeiro lado; e os que receberam ou recebem dos dois.’


 




TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Telemarketing eleitoral


‘‘Get Out The Vote’, tirar eleitores de casa para votar, é a notícia que resta na cobertura da campanha para o Congresso dos EUA. Era o destaque ontem nos canais de notícias, com Fox News apontando ‘uso pesado de mensagens por telefone’ e BBC mostrando o presidente a bradar ‘tire o vizinho de casa para votar’.


Era o destaque no blog do ‘New York Times’, The Caucus, bem como nas manchetes do mesmo e do ‘Washington Post’, sobre a ‘blitz de última hora’. São ‘operações de mobilização em massa’, sobretudo dos republicanos de Bush, de maior competência na área.


Como sublinharam ‘Los Angeles Times’ e ‘NYT’, a diferença em favor do partido é que realiza ‘G.O.T.V.’ com precisão científica. As mensagens automáticas por telefone são específicas a grupos, de ‘latinos’ a idosos. A novidade são as ferramentas de pesquisa, com o eleitor instado a responder perguntas e, então, receber a mensagem direcionada. Diz a ‘Economist’, no blog recém-lançado Democracy in America, que os republicanos exageraram, com ‘truques sujos’.


AVANÇOS TREMENDOS


O site Internetnews.com entrevistou o ex-presidente da comissão eleitoral dos EUA, sob o título ‘Como o Brasil pode ser o modelo para a reforma do voto eletrônico’. A idéia é que os EUA também centralizem no governo federal a produção e o desenvolvimento das máquinas de votar -o que teria levado a ‘avanços tremendos em equipamentos e processos’ por aqui, diz um pesquisador do MIT.


BIOCOMBUSTÍVEIS LÁ


Colunistas como Thomas L. Friedman, do ‘NYT’, e democratas como Bill Clinton estão em campanha cerrada pela aprovação de um aumento nos impostos sobre o petróleo na Califórnia, também em votação hoje. Friedman, como se sabe, é entusiasta dos biocombustíveis e vem ao Brasil de ano em ano para escrever deles. O imposto maior seria usado no desenvolvimento de biocombustíveis por lá.


AS BOMBAS


Se os republicanos jogaram ‘sujo’ no telemarketing, os democratas não ficaram atrás na web. O blog MyDD, há anos na vanguarda das ações on-line, comandou estratégia de ‘bombas Google’ -a vinculação de links negativos aos nomes de republicanos. Diz o ‘NYT’ que ‘funcionou’.


OS INSULTOS VOAM


Recém-escolhido ‘a invenção do ano’ pela ‘Time’, o YouTube e seus vídeos mudaram ‘as regras’, no entender da revista, também na política. Ou ainda, no dizer do ‘NYT’, além de ‘desestabilizar o modelo de meio século de distribuição da televisão’, o YouTube e semelhantes ‘tiveram um efeito de desestabilizar também a política’ -em um momento dos EUA em que, afirma pesquisa da AP, 43% dos eleitores já se informam pela internet.


Sem limites e controles, posts com vídeos improvisados de políticos, revelando até preconceito, como no caso da expressão ‘macaca’, no episódio que é tido como síntese do impacto da ferramenta, terminaram por influenciar a campanha tradicional pela televisão. Neste ano, ela foi a mais ‘rancorosa’ na história do país, segundo o ‘Wall Street Journal’, ou aquela em que ‘os insultos voam’, no dizer do ‘Financial Times’, ontem em texto de destaque.


DE NOVO NA MODA


O britânico ‘Sunday Times’ e o francês ‘Le Monde’, também na edição de domingo, trouxeram reportagens sob títulos como ‘Brasil de novo na moda entre investidores’ e ‘Brasil e Rússia, os grandes favoritos dos mercados’.


São entrevistados operadores e consultores de grupos como New Star, F&C, Torquil Clark, BNP Paribas, SGAM e outros -que levam a conclusões como ‘gerentes de fundos estão jogando dinheiro no Brasil depois da reeleição do presidente Lula’, cuja ‘política deu segurança aos investidores’, ‘o Brasil é um dos favoritos para 2007’ etc.


E O DINHEIRO ENTRA


No título do despacho da Bloomberg, ontem, ‘Bovespa tem a maior entrada de recursos externos em nove meses’. Entrevista um gerente de fundos, do Blackrock Inc., para quem ‘agora que a eleição presidencial ficou para trás, os investidores estão olhando mais para os fundamentos do mercado -e o Brasil é uma das melhores histórias’.


Despacho da Reuters foi pela mesma linha, registrando a entrada de investimento estrangeiro em outubro e, no dia, o desempenho positivo da Bovespa por conta de ‘uma seqüência de notícias corporativas’, todas favoráveis.’





TV
Daniel Castro


Por verba, Cultura quer programa feminino


‘A TV Cultura está à procura de uma apresentadora de programa feminino. A emissora pública paulista trabalha discretamente no projeto de ‘um jornal voltado para o interesse da dona-de-casa’, segundo seu presidente, Marcos Mendonça.


O ‘Mulheres’ da Cultura já divide a emissora. O projeto nasceu na área comercial da TV, que visa atrair anunciantes de produtos domésticos e femininos. Mas encontra resistência principalmente no departamento de jornalismo, que seria responsável pela produção.


Os opositores do programa feminino argumentam que, por ser uma TV pública, a Cultura não deveria abrir espaço para uma atração tão comercial e tão explorada pelas demais TVs.


O programa iria ao ar das 12h às 13h30, no lugar do ‘Jornal da Cultura’ das 12h, que é voltado para o jovem, e do ‘Metrópolis’. A Cultura planejava ter Silvia Poppovic apresentando o programa, mas ela recusou.


O polêmico programa seria a ‘salvação’ financeira do departamento de jornalismo, que teve seu orçamento ‘congelado’.


Marcos Mendonça diz que a atração ainda é uma idéia. ‘O pessoal está discutindo’, diz.


A Cultura assina hoje convênio com a Secretaria de Estado da Cultura pelo qual será financiada, em parceria com o Sesc, a produção de 13 documentários, ao custo de R$ 300 mil cada um.


INFLAÇÃO A Record está propondo à Federação Paulista de Futebol pagar cerca de R$ 40 milhões pelo Paulista de 2007. É mais do que o dobro do que a Globo gastou pelo torneio em 2006.


VÔO CEGO A Record ameaça fazer um ‘vôo cego’ para obter os direitos exclusivos (inclusive para TV paga e internet) da Copa de 2010. Isso significa que os bispos estariam dispostos a torrar até US$ 200 milhões pelo evento, o que levaria a Globo a repetir o erro de 1998, quando, temendo a concorrência da Record, topou pagar US$ 220 milhões pelo Mundial de 2002.


MISSÃO: ACORDO Para executivos da Globo, a Record cria dificuldades para vender facilidades. Ou seja, quer fazer acordo com ela.


TORCIDA CONTRA O futuro de Adriane Galisteu no SBT depende de ‘Minha Vida É uma Novela’, que entra no lugar do ‘Charme’ de janeiro a março. Se o novo programa for bem, o ‘Charme’ vira semanal.


TV ACADEMIA 1 A ECA-USP promove sexta o seminário (aberto ao público) ‘Telenovela e Interculturalidade’, debate entre acadêmicos e roteiristas. Na abertura, o pesquisador Mauro Alencar exibirá trechos de raridades como ‘Redenção’ (a novela mais longa) e de ‘A Selvagem’ (um dos primeiros remakes).


TV ACADEMIA 2 Também nesta sexta, Marcos Schechtman (diretor) e Gloria Perez (autora) falam do processo de criação de ‘Amazônia’, próxima minissérie da Globo, para estudantes da FAAP (SP).’






NOTAS
Monica Bergamo


Xerife


‘O ministro Helio Costa (PMDB-MG), das Comunicações, telefonou para o advogado Alexandre Jobim para perguntar se, convidado, ele aceitaria a indicação para presidir a Anatel, a agência que controla o setor de telecomunicações. Jobim disse que sim, claro, aceita a missão. O nome dele já vinha sendo ventilado e ganhou amplo apoio no PMDB nos últimos dias: além de ser apadrinhado pelo pai, Nelson Jobim, o nome do advogado já recebeu o OK dos senadores José Sarney e Renan Calheiros.


Tudo a ver


Alexandre Jobim tem forte ligação com a Abert, a associação de rádios e televisões comandada, na prática, pela TV Globo. Ele foi, até o mês passado, assessor jurídico da entidade. Mas mesmo concorrentes que torcem o nariz para a platinada, como a Band, aceitam Jobim no cargo de xerife do setor.


Tribo rosada


Clodovil vai imitar Juruna, o índio que virou deputado e gravava tudo o que ouvia em Brasília: o costureiro-deputado levará para a capital uma equipe de TV, a ‘tribo rosada’, que se vestirá de cor-de-rosa e usará inclusive cocares, para filmar as cenas brasilienses, inclusive nos corredores do Congresso. Colocará tudo no ar no programa ‘Por Excelência’, que comandará e que será exibido pela CNT aos domingos. O estilista, por sinal, decidiu gravar as próprias entrevistas para evitar ‘distorções’ de suas palavras.’





SERIADOS
Lucas Neves


‘Criminal Minds’ ameaça a supremacia de ‘Lost’


‘Que urso polar, que nada. Ultimamente, a maior ameaça aos sobreviventes do acidente aéreo de ‘Lost’ tem vindo de fora da ilha: mais precisamente, do vilarejo de Quântico, no Estado norte-americano da Virgínia. É lá onde atuam os agentes da Unidade de Análise Comportamental do FBI, protagonistas da série ‘Criminal Minds’, que, depois de flertar por meses com o primeiro lugar na audiência, ultrapassou pela primeira vez, na semana passada, a cada vez mais rocambolesca saga de Jack, Kate e cia.


A diferença foi pequena: 16,72 milhões de espectadores para ‘Criminal Minds’ contra 16,12 milhões para ‘Lost’. Mas serviu para colocar o programa -em sua segunda temporada- no radar da crítica local.


A premissa é simples: nos escritórios da unidade especial, os policiais Jason Gideon, Derek Morgan, Jennifer Jareau e Spencer Reid tentam, sob o comando do agente Aaron Hotchner, decodificar a mente dos criminosos mais procurados dos EUA e impedir que voltem à carga. Os esforços se concentram, portanto, em prevenir delitos, e não em solucioná-los.


Saem as cenas de crimes e entram o estudo de padrões e a observação da conduta profissional e social de suspeitos. Essa inversão de perspectiva, aliada a personagens cujos perfis a audiência americana comprovadamente adora -como o nerd que não consegue reproduzir o brilho intelectual na vida afetiva e o veterano que retorna ao posto para exorcizar fantasmas do passado-, responde por boa parte do sucesso do programa. ‘A indústria [imprensa especializada, executivos dos estúdios e emissoras] não está assistindo, mas as massas gostam. Isso nos basta’, esnoba Matthew Gray Gubler, que interpreta Spencer (o CDF da descrição acima), em entrevista a jornalistas estrangeiros em Los Angeles. ‘Eu gosto de não ter tanta publicidade’, emenda Mandy Patinkin, voz e corpo de Jason Gideon.


Esquecer atrocidades


Longe dos holofotes da mídia, Patinkin acredita que o programa possa se concentrar no estímulo à discussão dos temas abordados (pedofilia, abuso sexual e uma vasta galeria de perversões), deixando para as atrações mais assistidas a tarefa de alimentar boatos de tablóides sobre rusgas entre atores e mal-estar nos bastidores.


Mas o ator se excede muito -e adentra o arenoso terreno da generalização- ao exemplificar o alcance que ele crê que o programa possa ter. ‘Há mais de 6 bilhões de pessoas neste mundo. Um bilhão é de fé muçulmana. Desse total, 10% são consideradas extremistas.


Acho que uma delas, ao assistir ao episódio que gravamos, poderá decidir não se explodir pelos ares’, delira Patinkin.


Ares menos soturnos são tudo a que o elenco aspira depois de uma jornada no encalço de mentes doentias. Mas, depois de mais de 30 episódios, os atores parecem já ter aprendido a se ‘desligar’ das atrocidades da ficção. ‘Para mim, é só fingimento. Finjo que é Halloween. Se você se deixa afetar, fica se sentindo mal’, diz Shemar Moore, intérprete de Derek.


‘Você tem que ter um mínimo de senso de humor, buscar encarar com leveza os assuntos abordados. Ou fica igual aos criminosos que mostramos’, acrescenta A. J. Cook, que saltou de ‘As Virgens Suicidas’, de Sofia Coppola, para os corredores do FBI, onde atende pelo nome de Jennifer Jareau.’





PRESENÇA
Eder Chiodetto


Fotos registram 20 anos de arte em perspectiva


‘O que pode acontecer em 20 anos na história da arte de um determinado lugar? É tempo suficiente para artistas surgirem, se firmarem e, por fim, abrirem fronteiras inexploradas às novas gerações?


Os 138 retratos de artistas do livro ‘Presença’, que Juan Esteves lança hoje com exposição na Fundação Stickel, em São Paulo, tendem a responder afirmativamente a essa questão. Realizados desde 1986, uma parte destes retratos foi feita para esta Ilustrada durante os oito anos em que Esteves atuou como repórter-fotográfico da Folha.


Após esse período, Esteves levou o projeto adiante até constituir hoje um acervo fotográfico de referência sobre artistas dos últimos 20 anos, incluindo, além dos artistas plásticos que estão em ‘Presença’, um grande número de músicos, cineastas, escritores, fotógrafos, arquitetos e artistas de outras áreas, tanto brasileiros quanto estrangeiros.


Referências dos artistas


Após tanto tempo, reunir esses retratos e colocá-los em perspectiva, remontando as intrincadas histórias de referências de cada artista, as escolas e tendências de cada um deles, é um exercício que pode constituir um mosaico rico da história da arte brasileira recente.


É um mosaico nada linear e bastante intuitivo, posto que é uma narração da história feita não com dados oficiais mas sim com uma soma de expressões e olhares ávidos, atentos, aflitos e sonhadores que permeiam as páginas de ‘Presença’.


No ensaio que abre o livro, o crítico de arte Olívio Tavares de Araújo remonta e costura, impulsionado pelos retratos de Esteves, os passos evolutivos da arte no Brasil, começando pelo modernismo, que no livro se faz presente pelo retrato do pintor pernambucano Cicero Dias (1907-2003).


Depois, Esteves passa por outros momentos -concretismo, Grupo Rex, Escola Brasil, Geração 80, Ateliê Abstração-, chegando às novas gerações para citar ao final a inserção da fotografia no circuito oficial das artes, representada pelos retratos dos fotógrafos Sebastião Salgado, Cristiano Mascaro e German Lorca, entre outros.


Fotos em preto-e-branco


Todos os retratos são em preto-e-branco e na maioria deles os artistas estão olhando para a câmera, geralmente em seus ateliês. Há uma clara renúncia do fotógrafo pela busca do flagrante e por imagens dos artistas em atividade, por exemplo.


Juan Esteves opta por composições estudadas, pela pose e pela luz precisa que ora resvala para uma dramaticidade maior realçando o alto contraste, ora se torna suave e mostra o artista envolto pelo ambiente. Mas é na direção do olhar dos artistas e na riqueza de detalhes que ‘Presença’ ganha força e unidade, além de se filiar mais claramente à ‘straight photography’ (fotografia direta) idealizada, entre outros, por Edward Weston (1886-1958), na década de 30.


Esse tipo de fotografia privilegia a ‘apresentação em vez da interpretação’, valorizando a profundidade de campo e o detalhamento. Um meio eficaz para Esteves falar de seu tempo e de seus ídolos realçando o humanismo das relações e a crença na arte como força propulsora da vida.


PRESENÇA


Quando: abertura hoje, às 20h, para convidados; de seg. a sex., das 14h às 20h; sáb., das 11h às 15h; até 30/11


Onde: Fundação Stickel (r. Ribeirão Claro, 37, Vila Olímpia, SP, tel. 3849-8906)


Quanto: entrada franca


Livro: R$ 120 (208 págs.); ed. Terceiro Nome/Fundação Stickel’





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O Estado de S. Paulo


Terça-feira, 7 de novembro de 2006




LULA
Dora Kramer


Dom de iludir


‘Oscila entre a franqueza absoluta e a desfaçatez total a entrevista do publicitário João Santana a Fernando Rodrigues, da Folha de S. Paulo, em que o responsável pela campanha de Lula assume sem problemas o dom de manipular impressões e emoções.


Nunca antes neste país um marqueteiro reconheceu tão abertamente que a campanha eleitoral é feita de truques, não raro dissonantes da realidade. Dois trechos chamam atenção de modo especial na exposição de suas teorias sobre comunicação política.


Uma dessas teses alimenta no ‘imaginário popular’, como ele diz, as figuras do Lula ‘fortão’ – o pobre que virou poderoso e assim serve como referência às expectativas de ascensão – e o Lula ‘fraquinho’ – acionado quando sofre ataques ‘e o povo pensa que é um ato das elites para derrubá-lo’. Uma representação, utilizada à conveniência da ocasião.


Outra tese é a conjugação de sentimentos nacional-estatizantes difusos na sociedade com a percepção, ainda que suposta, da existência de ‘tramas obscuras’.


Este estratagema, segundo Santana, foi utilizado para ‘lançar ao debate’ no segundo turno das eleições a questão das privatizações do governo Fernando Henrique.


‘Não quero questionar como foram feitas as privatizações, mas é fato que ficou na cabeça das pessoas como se algo obscuro tivesse ocorrido’, diz ele, reconhecendo como ‘fabuloso’ o benefício da privatização das telecomunicações, mas reivindicando o direito de não fazer ‘juízo de valor’ na propaganda e admitindo que o tema não foi abordado no primeiro turno porque ‘não precisou’.


No segundo, diz o publicitário, ‘enxerguei ali um monstro vivo que poderia ser jogado’. O problema, na ótica dele, foi do adversário, que não soube responder a contento. ‘O Alckmin poderia ter mostrado objetivamente o uso de telefones, de computadores, da internet.’


Quer dizer, lança-se mão de mistificações pautadas em sentimentos captados por pesquisas e a realidade dos fatos fica à mercê de quem sabe ludibriar melhor. É o tipo da conduta que não se corrige com reforma política. É questão de princípios. Ou se tem ou não se tem.’





FUTEBOL NA TV
Cristina Padiglione


Globo corre atrás de parceiro


‘Disposta a evitar pressão política sobre o que poderia configurar como monopólio nas transmissões do futebol, a TV Globo procura um parceiro para repassar parte do bolo que lhe cabe. De quebra, a emissora arruma, com isso, alguém para ajudar a pagar a conta dos custos pelos direitos de transmissão adquiridos do Clube dos 13. A Record, que há quatro anos vinha fazendo esse papel, abandonou a sociedade. Concluiu que a audiência ganha com os jogos não compensa os gastos que tem com o pacote.


Para entender os limites da Globo e as reivindicações da Record, o Estado ouviu alguns profissionais de esportes em TV, entre eles dois envolvidos diretamente nas negociações, mas todos na condição de não serem identificados. Não que o ramo seja prática clandestina, longe disso: o receio é dar a cara a bater publicamente enquanto as propostas estão em andamento. Nesse momento, a Globo trabalha com duas manifestações de interesse no negócio: a Bandeirantes, com quem já dividiu a bola em outros tempos (e outros termos), e a Sport Promotion, empresa de marketing esportivo que já arrenda horário na RedeTV! O SBT não procurou a Globo, mas iniciou pesquisa para orçar quanto lhe custaria montar uma equipe para transmitir dois jogos por semana.


A questão que afasta a Record, e não atrai outros interessados de imediato, esbarra em conflito de interesses – das Organizações Globo e do Clube dos 13. A proposta inclui três campeonatos: Copa do Brasil, Sul-Americana e Campeonato Brasileiro. Nas rodadas de quarta-feira, a Globo fica sempre com a partida de maior potencial de audiência e oferece a opção de um jogo diferente à parceira. Mas, aos domingos, nem a Globo nem o Clube dos 13 têm interesse em disponibilizar na TV aberta dois jogos diferentes para a cidade onde eles se realizam. Elementar: o cardápio do dia ainda tem de ser dividido com o canal pago da casa, o SporTV, e, principalmente, com o pay-per-view (também das Organizações Globo), nicho em que o assinante de TV tem de pagar um extra para ver os jogos. ‘Desde 2003, a fatia de faturamento do pay-per-view que a GloboSat divide com o Clube dos 13 é exatamente a metade. Cada real pago ao pay-per-view significa 50 centavos ao Clube dos 13’, confirma ao Estado o diretor da Globo Esportes, Marcelo Pinto.


Sem perspectiva de virar o jogo, a Record vem se queixando das desvantagens do negócio desde abril. A Globo alegou que não tem como mudar as regras. Até porque é ela quem banca 80% dos custos pelos direitos de transmissão. A Record pagava à Globo 20% do que ela gastava na compra do futebol. Diante das reivindicações do outro canal, a Globo chegou a baixar a oferta para 15%, mas não houve acordo.’



Record centra esforços para a Copa de 2010


‘Em 2005, quando foi fechado o atual acordo da Globo com o Clube dos 13 (vigente até 2008), a Record concorreu ao páreo e perdeu. Resistiu como subsidiária do futebol da Globo até este ano. Em outros momentos, de 1997 para cá, a Globo já teve como parceiras a Bandeirantes, a RedeTV! e a própria Record, primeiro por meio da Traffic, empresa de marketing esportivo, e depois em acordo sem intermediários.


Agora, a TV de Edir Macedo desiste do futebol nacional, por enquanto, para centrar esforços na compra dos direitos de transmissão para a Copa de 2010. Por US$ 83 milhões, a Globo conseguiu levar sozinha, no campo da TV aberta brasileira, a Copa da Alemanha. Para o Mundial da África do Sul, já botou preço: US$ 85 milhões.


É pouco, alega a Fifa, que aproveita o interesse da Record para vender, pela terceira vez consecutiva, os direitos de transmissão do Mundial ao Brasil sem intermédio da OTI – Organização para Transmissões Internacionais. A Record não é membro da OTI, com quem trava disputas jurídicas há uma década. ‘O Brasil é o único país em que uma emissora com potencial econômico para comprar uma Copa do Mundo não é associada à OTI, o que incentiva a Fifa a vender o evento diretamente a uma emissora de TV’, diz um profissional da área. Com a Fifa, o negócio se consuma em bases que mais se assemelham às de leilão, e não de preço mais ou menos estabelecido, como acontece com a OTI. A Copa da França, por exemplo, em 98, foi a última negociada via OTI, permitindo a compra do evento pela Globo, mas também pela Bandeirantes e pelo SBT.


Se a Globo levar novamente a exclusividade pelos direitos de 2010, mais uma vez poderá oferecer o evento ao mercado ao preço que lhe convém, normalmente inalcançável para os demais canais, em termos de custo-benefício.’





PARCERIA
Cristina Padiglione


Radiobrás e Cultura ensaiam noticiário em rede nacional


‘A Radiobrás e a TV Cultura começam a ensaiar o projeto de um noticiário em rede nacional. Isso incluiria a rede da TVE e toda a rede pública que hoje já transmite o jornal carro-chefe da Cultura, mais qualquer emissora pública interessada em participar do negócio. A colaboração, então, para fornecimento de conteúdo, viria de todas as emissoras. A proposta ganhará ocasião propícia para ser discutida na próxima reunião da Abepec – Associação Brasileira das Emissora Públicas, Educativas e Culturais, em fevereiro, justamente quando ocorrerá a eleição para a nova diretoria.


‘Desde que cheguei à Radiobrás, em 2003, (isso) é um velho sonho. Chegamos a apresentar essa idéia numa reunião da Abepec, ainda em 2004, mas a idéia só ganhou impulso agora, com o entusiasmo do Albino (Castro, diretor de Jornalismo da TV Cultura)’, diz Bucci ao Estado.


A idéia de Albino Castro é formar um conselho para reger o novo produto, eleito, é claro, pelos membros da nova rede. O Jornal da Cultura, exibido diariamente às 22h, entra hoje em 80% do território nacional. Os 20% descobertos correspondem à região norte, segundo a TV Cultura.


Embora o período seja de troca de comando em boa parte das TVs públicas (‘eu mesmo não sei se estarei aqui’, emenda Bucci), ele aposta que as divergências políticas não serão obstáculo. ‘Em vez de falar do futuro, vamos falar do passado’, afirma, em referência às parcerias bem-sucedidas, nos últimos quatro anos, entre a Radiobrás (órgão ligado à presidência da República, comandado pelo PT) e a TV Cultura (emissora ligada ao governo de São Paulo, comandado pelo PSDB). ‘Em nenhum momento, mesmo nos mais tensos da campanha eleitoral, houve qualquer arranhão com a Cultura nas relações editoriais.’’






LITERATURA
Ubiratan Brasil


Passagens para a Índia


‘Aos poucos, a literatura mundial vem se acostumando com o sári, o traje típico das mulheres indianas. Primeiro foi a Feira de Frankfurt, mais importante encontro de editores e escritores do planeta, que, no início do mês passado, homenageou a Índia como seu principal convidado. Dias depois, a indiana Kiran Desai tornou-se, aos 35 anos, a mais jovem autora a ganhar o Booker Prize, o mais prestigioso prêmio literário do Reino Unido, por seu romance O Legado da Perda (a ser lançado no Brasil, onde foi escrito, pela Alfaguara em 2007), relato sobre a vida no Himalaia. Sinais evidentes da expansão gradual de uma escrita exótica, mas inesgotavelmente rica e complexa. Fatores que, ao tratar de multiculturalismo e globalização, explicam o crescente interesse mundial.


No Brasil, os efeitos já são perceptíveis. Enquanto aguardam a tradução de O Legado da Perda, as prateleiras nacionais já receberam obras que bem caracterizam a força da literatura indiana: A Distância entre Nós (Nova Fronteira), em que Thrity Umrigar oferece um retrato da complexidade social que marca a atual sociedade indiana ao narrar o íntimo relacionamento entre uma patroa rica e uma empregada analfabeta, e O Palácio de Espelho (Alfaguara), épico de Amitav Ghosh que acompanha a trajetória de um garoto pobre e órfão que pula de mendigo a próspero homem de negócios.


Nascidos na Índia, Kiran, Thrity e Ghosh vivem nos Estados Unidos, liderando o chamado hibridismo, principal característica hoje da literatura de seu país, ou seja, escrita em inglês, mas salpicada de elementos ou expressões exóticas, ao contrário daquela produzida apenas nos idiomas regionais. A diferença, aliás, tornou-se uma disputa quando, em 1997, Salman Rushdie afirmou que a prosa indiana escrita em inglês é mais convincente e mais importante do que tudo o que foi publicado nos anos anteriores em qualquer um das 844 línguas ou dialetos regionais.


Indiano naturalizado britânico e mundialmente conhecido por ter sido perseguido pelos fundamentalistas islâmicos graças à sua obra Versos Satânicos, Rushdie organizou, naquela época, uma seleção de escritos indianos e, entre os 32 autores escolhidos, apenas um não escreveu originalmente em inglês. Ao mesmo tempo em que abria frente de uma batalha lingüística, o autor lançou uma polêmica no mundo literário.


Sem entrar no mérito das qualidades de cada um, prevalece a obviedade: os livros escritos em inglês encontram aceitação mais rápida e abrangente nos mercados da Grã-Bretanha e dos EUA do que aqueles produzidos em uma das línguas originais. Também a modernidade, tema mais comum na obra de escritores que não vivem em solo indiano, permite o desenvolvimento tanto de uma cultura mais sofisticada como da mais próxima do descartável.


Polêmicas à parte, o mercado editorial da Índia torna-se cada vez mais robusto, com 600 milhões de leitores, cifra que o torna o terceiro maior do mundo para livros em inglês. Ao todo,12 mil editoras lançam 80 mil novos títulos por ano, que propiciam um faturamento médio anual de US$ 685 milhões.


Em Frankfurt, o interesse foi medido pela disputa entre editores alemães, franceses e espanhóis, que aproveitaram a feira de livros para negociar 53 títulos. O boom está apenas começando.’





TURISTAS
Silvia Campos


Filme põe gringos em apuros no Brasil


‘Seis jovens americanos bronzeados e malhados divertem-se numa praia brasileira paradisíaca. Bem à vontade, uma das meninas decide fazer topless. Os universitários bebem, jogam futebol e curtem amassos calorosos numa cachoeira. Assim começa o trailer do filme Turistas, o primeiro longa da Fox Atomic, divisão da Fox Films para o público de 17 a 24 anos, que será lançado nos Estados Unidos em 1º de dezembro.


Até aí, trata-se apenas de mais um ‘filme americano cheio de estereótipos’, como admite a assistente de direção da película, a brasileira Dayse Amaral. Na continuação do trailer, no entanto, percebe-se que Turistas vai um pouco além dos eternos lugares-comuns sobre o Brasil. ‘Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer’, diz o vídeo, enquanto imagens mostram os jovens sofrerem o golpe do ‘Boa Noite Cinderela’ e serem feitos reféns numa casa na selva.


‘É uma história de Terceiro Mundo’ , explica Dayse. ‘Os jovens americanos chegam a um país terceiro-mundista, são ameaçados pela violência e trapaceados’, conta. Os vilões do filme, segundo ela, seriam um médico psicopata (interpretado por Miguel Lunardi) e os seus capangas – grupo que inclui um índio e um negro. Os criminosos querem retirar os órgãos dos americanos para doá-los a um hospital carente. A assistente de direção ressalta que a história poderia se passar em qualquer lugar. ‘Acho que não faz uma imagem negativa do Brasil.Há filmes que falam sobre canibais americanos (em referência ao ‘Hannibal’) e eles não depõem contra os Estados Unidos.’


Para a Embratur, o longa da Fox Atomic não é tão inofensivo. ‘O filme é negativo porque reafirma estereótipos incorretos’, diz a presidente da Embratur, Jeanine Pires. ‘Traz imagens deturpadas. Dá a entender, por exemplo, que o Rio é ao lado da selva, uma personagem aparece falando espanhol e há apelo ao turismo sexual. É a visão de um país selvagem.’


A preocupação da Embratur sobre Turistas é tanta que foi encomendado um plano de relações-públicas para minimizar qualquer impacto negativo. ‘Vamos acompanhar a repercussão e desenvolver ações como editoriais e reportagens positivas’, afirma Jeanine, que não acha que o longa vá espantar turistas. ‘Os espectadores são inteligentes o suficiente para discernir a ficção da realidade.’


Edson Ruy, diretor nacional de Eventos da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), acha que Turistas poderá atrair mais estrangeiros ao Brasil. Mas admite que o longa deve causar polêmica. ‘É como aconteceu com ‘Os Simpsons’, diz, referindo-se ao episódio do desenho que se passa no Rio e que recebeu críticas da Riotur.


A diretora de produção de Turistas, Cláudia Reis, também acha que o filme pode ser bom para o turismo por exibir belas paisagens, como as praias do litoral norte paulista e cenas da Chapada Diamantina, na Bahia. ‘Acho que as locações ajudarão a enaltecer a beleza dos locais de potencial turístico’, diz.


SITE


Se o filme Turistas não afastar visitantes do País, talvez o mesmo não possa ser dito a respeito do site criado para promovê-lo. O endereço www.paradisebrazil.com reúne reportagens sobre crimes cometidos contra turistas no Brasil. No blog da página, internautas deixam comentários como ‘acho que não vou mais para lá’ ou ‘acabei de marcar uma viagem – agora estou preocupado’. O trailer de Turistas pode ser visto no site www.myspace.com/turistasmovie. Ainda não há previsão de lançamento do filme no Brasil.’




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O Globo Online


Terça-feira, 7 de novembro de 2006


 



CONTROLE NA REDE
Monica Tavares e Agnes Dantas


Governo critica regulamentação da internet


‘BRASÍLIA e RIO – O ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos afirmou que o governo federal não deve apoiar o projeto de lei que prevê a regulamentação do uso da internet no Brasil como argumento para o aumento da segurança na rede. O projeto, a ser votado na quarta-feira na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, prevê entre outras ações que os usuários seriam obrigados a se identificar em determinados casos. ( para saber detalhes do projeto, clique aqui )


– Eu tenho um conhecimento ligeiro do projeto e acredito que qualquer tentativa de coibir a liberdade de expressão, ainda mais nesses tempos tão tumultuados, deve ser afastada liminarmente – declarou o ministro.


O projeto, capitaneado pelo senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), provocou fortes protestos de várias organizações e especialistas, quando foi defendida numa conferência internacional sobre crimes cibernéticos em Brasília.


Nesta terça-feira, na abertura do seminário sobre internet que está sendo realizado no auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados, o consultor jurídico do Ministério das Comunicações Marcelo Bechara criticou o projeto de lei que prevê a identificação dos usuários da rede de computadores. Ele disse que, infelizmente, a proposta já está em fase final de análise no Congresso, e que foram feitas modificações que atentam contra a inclusão digital.


– Estão querendo exigir que para acessar a internet tem que ter carteira de habitação – disse o consultor, que está representando o ministro Hélio Costa, que está na Turquia.


Para Marcelo Bechara, o projeto fere os princípios norteadores da internet. Ele entende que a identificação é um obstáculo, uma interferência, à inclusão digital. O consultor afirmou ainda que o projeto ‘mata todos os pequenos provedores de internet’, e que a pornografia está sendo usada como justificativa para que todo brasileiro seja tido como suspeito. Bechara disse que existem no país cerca de 500 pequenos provedores, que não teriam condições de fazer o cadastramento previsto no substitutivo, que reúne três projetos de lei.


O controle de acesso à internet seria feito ao iniciar qualquer operação que envolve interatividade, como troca de e-mails, salas de bate-papo, compartilhamento de arquivos, compras virtuais e acesso a serviços bancários.


A obrigação de identificar todos os usuários da internet pode ajudar no trabalho da polícia, mas é vista como um instrumento de censura por muitos especialistas. A Associação Brasileira de Provedores (Abranet) , o Comitê Gestor da Internet no Brasil e organizações não-governamentais criticaram o projeto. O especialista Renato Opice Blum defende a proposta )


Os prejuízos com golpes na internet chegam a mais de R$ 1 bilhão por ano, e e-mails falsos são armadilhas perigosas e comuns na rede.


– Nós chamamos de pescaria de senhas, onde o estelionatário envia um e-mail falso, em que a pessoa instala automaticamente um programa pra roubar senhas de bancos – diz Denny Roger, especialista em segurança na internet.


Paul Gillespie, policial canadense autor de um programa de rastreamento de exploração infantil, elogiou o projeto durante o evento. Gillespie disse que os usuários devem ser responsáveis por suas ações na internet, e questiona ‘que outra maneira de cobrar responsabilidade, a menos que você peça a identificação dos internautas?’.


Resistência


A ONG SaferNet diz que os criminosos vão burlar a lei com documentos falsos, enquanto a maioria dos usuários vai se sentir sob suspeita.


– Esse projeto não surte efeitos práticos e ele acaba restringindo as liberdades civis, prejudicando o consumidor – acredita Thiago Tavares, presidente da ONG.


Se aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o projeto segue para votação em Plenário. Se novamente aprovado, será encaminhado à Câmara, onde o projeto foi originalmente criado, e deverá passar pelo crivo do presidente Lula.’




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