Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > MEMÓRIA / RÁDIO NACIONAL

Beatriz Coelho Silva

18/10/2005 na edição 351

‘O nome de Diler Trindade é associado ao cinema brasileiro de grandes bilheterias, como Xuxa, Os Trapalhões e Padre Marcelo Rossi, mas seu xodó, guardado na sede de sua empresa, é a coleção de fotos do período de ouro da Rádio Nacional, de 1947 a 1954. São instantâneos e retratos posados de artistas do star system nacional, numa época em que a imagem deles só chegava ao público nas chanchadas da Atlântida, na Revista do Rádio, Noite Ilustrada ou outras do gênero. Foram feitas pelo pai do produtor, que assinava simplesmente Diller.

‘Ele era o fotógrafo oficial da Rádio Nacional, então o maior veículo de comunicação, que tinha sob contrato o melhor elenco artístico do País’, conta Diler, que passou a infância entre refletores, filmes e papéis fotográficos, reveladores e artistas que queriam ter o retrato feito por um especialista. ‘Minha casa era uma estúdio fotográfico. Havia três quartos, um para meus pais, outro servindo para as fotos e um terceiro que era laboratório. E havia sempre um entre e sai de gente famosa, mas eu era criança e não ligava. Como dormia na sala, aquele movimento todo mais me aborrecia que agradava.’

O que não o impediu de guardar cerca de 5.000 negativos, em acetato ou vidro. Preciosidades, como a foto de Linda Batista conversando com o presidente Getúlio Vargas, diante de um atento e adolescente Hermínio Belo de Carvalho. Emilinha Borba na plenitude dos 30 anos, justificando a paixão que despertou em Orson Welles, Ary Barroso e Fernando Lobo num papo informal, Cauby Peixoto, quase adolescente, tentando ser tão chique quanto Joel de Almeida, da dupla Joel e Gaúcho, Dalva de Oliveira elegantíssima e Ângela Maria, exibindo o corpo de violão (como se dizia então) num maiô ousado (para a época, hoje seria um vestido) tendo uma Praia de Ipanema sem prédios ao fundo.

Há fotos dos bastidores da Rádio Nacional, como a que reúne Francisco Alves (o Rei da Voz), Francisco Carlos (apelidado El Broto), as irmãs Linda e Dircinha Batista, Jorge Goulart e o cantor João Dias (que imitava Francisco Alves), ou a de Sivuca com a sanfona, mas jovenzinho e de cabelos curtos. Há também fotos para divulgação de espetáculos e discos, como a de Nelson Gonçalves jovem e bem apessoado, Virgínia Lane exibindo as lendárias pernas sentada sobre um piano e Doris Monteiro, linda e adolescente, languidamente deitada no sofá. Ou ainda de Lúcio Alves, no início de carreira, com ares de galã.

Dolores Duran era um caso especial. Tem uma infinidade de fotos, inclusive uma que levou a compositora de A Noite do Meu Bem a chamar Diler de Chopin da fotografia. Alguns nomes muito falados, mas pouco fotografados estão na coleção. O violonista Luiz Bonfá brinca com um cachorro na Praia de Ipanema, mas Radamés Gnatalli posou diante do piano. E o moreno elegante que posou ao lado da cantora Marlene é o compositor Assis Valente, preferido de Carmem Miranda.

‘Meu pai guardava tudo porque sabia da importância de seu trabalho. Estou digitalizando para não manusear os originais’, explica Diler Trindade, que usou as fotos no docudrama Nelson Gonçalves, que fez sobre o cantor. ‘Era um projeto de resgate cultural, como Zico, necessário, mas de lucro previsto. O próximo é sobre Elizeth Cardoso, usando o material desse arquivo como base.’

Ele já pensou em fazer livros sobre um dos artistas ou juntar os cantores de rádio mas, certamente absorvido pela atividade de produtor que lança, no mínimo, seis títulos por ano, vai adiando. Só uma vez, no início dos anos 90, houve uma pequena mostra durante o Rioshow Festival, um encontro de artistas que virou disco e entrou para a história. Um dos espetáculos reuniu as famílias Jobim e Caymmi (os patriarcas Tom e Dorival, a filharada, parentes e aderentes) e foi noticiado até no New York Times. ‘Veja só, meu nome estava lá’, comenta, sem afetação. ‘Mas a idéia de chamar o Caymmi foi do Tom.’

O maestro soberano era de uma geração entre o Diler pai e o filho e ficou amigo do primeiro porque trabalhava com Radamés Gnatalli, então, arranjador todo-poderoso da Rádio Nacional. No entanto não há fotos de Tom. ‘Até 1958, ele era desconhecido, mero assistente de Radamés, mas se dava muito bem com meu pai’, lembra. ‘Décadas depois, quando ele já era consagrado e eu, um publicitário que ia fazer a campanha dos classificados de um jornal carioca, procurei Tom para gravar o jingle, ele se lembrou de meu pai. No Rioshow Festival, foi o primeiro nome que procurei e logo aceitou.’

Diller, no entanto, não quis ser fotógrafo. ‘Porque passei a infância incomodado com aquele entra e sai na minha casa. Comecei como jornalista, passei a publicitário e daí, a produtor de cinema. E nunca interferi na fotografia de qualquer filme. Contrato um diretor de confiança e dou carta branca’, explica. ‘Mas preservar essas fotos é questão indiscutível. Sempre precisarei delas para algum filme que resgate a memória do País.’’



AUDIOVISUAL
Folha de S. Paulo

‘País é destaque na maior feira do mundo’, copyright Folha de S. Paulo, 17/10/05

‘O Brasil será homenageado no Mipcom, o maior evento do setor audiovisual do mundo, que será realizado de hoje até a próxima sexta, em Cannes, na França.

O Mipcom (Mercado Internacional de Comercialização de Programas de Televisão) conta com a presença de representantes de mais de cem países e é uma vitrine para emissoras e produtoras independentes venderem novelas, séries e outros formatos.

Amanhã, como parte do Ano do Brasil na França, o Mipcom terá o Dia do Brasil, para a divulgação da produção de conteúdos da TV brasileira. Nesta edição, o governo, segundo o MinC, uniu-se a redes comerciais e públicas e a produtores independentes para planejar a participação na feira.

‘Nosso objetivo é demonstrar que o Brasil está apto a se destacar no cenário mundial de teleprodução e teledifusão’, afirmou o secretário Orlando Senna.

O fórum do Dia do Brasil será encerrado pelo ministro Gilberto Gil (Cultura), que não obteve sucesso na tentativa de emplacar a criação da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e Audiovisual). Ele falará sobre a importância sociocultural da TV no Brasil e de políticas públicas para o setor. Haverá discursos, entre outros, de Gustavo Dahl, da Ancine (Agência Nacional do Cinema), e Jorge da Cunha Lima, da Abepec (Associação Brasileira das Emissoras Públicas Educativas e Culturais).’



INCLUSÃO DIGITAL
Elvira Lobato

‘Inclusão digital é cara, lenta e ineficiente’, copyright Folha de S. Paulo, 16/10/05

‘Na entrada do Complexo do Alemão -conjunto de 13 favelas da zona norte do Rio de Janeiro, com cerca de 140 mil moradores- está a evidência da falta de planejamento e da desorganização do maior programa de inclusão digital do governo federal.

Em um dos acessos da favela Nova Brasília, que faz parte do complexo do Alemão, fica um telecentro do Gesac (Governo Eletrônico – Serviço de Acesso ao Cidadão), cujo projeto total já consumiu cerca de R$ 100 milhões.

O posto da Nova Brasília tem cinco computadores e uma antena para conexão à internet via satélite. Os computadores, instalados na associação de moradores, não têm programas básicos, como editor de texto, o que impede a população de usar os equipamentos para escrever currículos, por exemplo. Como só permitem a consulta à internet, são pouco usados. O governo paga R$ 1.000 por mês para manter o ponto conectado ao satélite.

A 30 metros da associação, fica a creche Lar de Rebeca, fundada pelo pastor Jessé Santos, da Igreja Evangélica Assembléia de Deus. A creche ganhou 12 computadores usados do Banco do Brasil e contratou a conexão à internet por banda larga (via companhia telefônica) ao custo mensal de R$ 135 por mês. A solução do governo federal é menos eficiente e custa sete vezes mais do que a criada pelo pastor.

O Gesac foi estabelecido por decreto no governo Fernando Henrique Cardoso para democratizar o acesso à internet. Por ser via satélite, é uma conexão cara, que deveria ser usada apenas em locais que não dispõem de alternativas mais baratas, via rádio ou por cabo, oferecidas pelas empresas de telefonia, TVs a cabo e outros prestadores de serviços.

Levantamento feito pela Folha constatou a existência de pontos do Gesac em locais que poderiam estar sendo atendidos de forma mais barata. É dinheiro público gasto desnecessariamente. O fenômeno acontece em várias regiões do país.

A CGU (Controladoria Geral da União) fez auditoria em 120 locais de funcionamento do sistema Gesac e concluiu que 30% das instituições visitadas não tinham acesso à internet, apesar de existirem as antenas, modens e infra-estrutura de rede.

Se o mesmo percentual for projetado para os 3.200 pontos de acesso existentes, serão quase 1.000 locais fora de uso.

A auditoria constatou ainda os seguintes problemas no projeto: lentidão para conexão à internet, limitação de uso pela população por falta de monitores capacitados e acesso limitado a professores e docentes em cerca de 10% das escolas visitadas.

Cerca de 400 pontos do Gesac estão instalados em áreas militares, que são fechadas para o público. No site oficial do programa, no entanto, elas figuram como abertas à comunidade.

Rádio mais barato

Em Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul, o Colégio Estadual Rodrigues Alves tem 20 computadores ligados à internet por três diferentes formas de conexão em alta velocidade: 14 usam a rede de banda larga da Brasil Telecom (por cabos), 5 usam conexão via rádio, e um faz parte do Gesac.

A transmissão por rádio custa R$ 180/mês à escola e foi contratada em 2000, por decisão dos pais dos alunos que consideravam o acesso à internet imprescindível para modernizar o ensino. No caso, o Gesac sai 5,5 vezes mais caro do que a opção por rádio.

No alto do Morro de São Carlos -favela entre as zonas norte e sul da cidade do Rio- está um exemplo da distorção apontada pela Controladoria Geral da União. No site do governo, consta que há um ponto do Gesac funcionando no Instituto Santo Antônio de Pádua, da Igreja Católica, mas no local existe só a antena.

A escola de informática, que chegou a ter 11 turmas, fechou há dois anos, quando a instituição rompeu o contrato com o CDI (Centro de Democratização da Informática), ONG voltada à disseminação do uso de computadores em áreas carentes. Restou só a antena cravada na parede da igreja, no alto da favela.

Em Osasco, na Grande São Paulo, a Associação das Mães Unidas de Novo Osasco, de assistência social, conta com quatro computadores do Gesac fora de uso desde março deste ano por falta de manutenção.

Sertão

Na auditoria feita em 120 pontos do Gesac, a Controladoria Geral da União constatou que, em 14% das instituições que tinham conexão, havia só um computador instalado, o que significa subutilização do sistema. O programa, segundo a auditoria, foi planejado para ter, em média, seis computadores por ponto, ligados em rede.

A subutilização é uma realidade no Nordeste, região mais carente de inclusão digital. Em Curral de Cima, na Paraíba, a 70 Km de João Pessoa, o secretário municipal de Educação, João Batista Padilha, disse que o governo havia prometido cinco computadores, mas mandou apenas um. A cidade tem 5.419 habitantes e 15 escolas de 1º grau, todas sem linha telefônica. Há 29 computadores nas escolas. Sem conexão com a internet, são usados pelos professores e pela administração.

Em Cuité de Mananguape, cidade com 6.000 habitantes também na Paraíba, a arquidiocese foi informada pelo governo de que seriam enviados seis ou sete computadores para o acesso comunitário à internet.

Como a casa paroquial é pequena, o padre Joseilson Oliveira preparou um salão distante do centro da cidade, onde seriam dados os cursos de informática. Só recebeu um computador e o local ficou inadequado. ‘Não pudemos montar o curso só com uma máquina. O computador acabou sem uso e está há cinco meses parado’, conta o padre.’



***

‘Governo contata centro de internet por meio de carta’, copyright Folha de S. Paulo, 16/10/05

‘Para entrar em contato com centros de acesso eletrônico, o Ministério das Comunicações teve de recorrer às quase ultrapassadas cartas. Em setembro, o Ministério das Comunicações enviou correspondência a todos os endereços onde consta a existência de instalações do Gesac, indagando sobre a situação do serviço. A necessidade de recorrer aos Correios para se comunicar com uma estação de acesso à internet dá uma dimensão dos problemas do projeto.

O secretário de Telecomunicações do ministério, Roberto Pinto Martins, disse que foi preciso enviar as cartas porque os telecentros não têm e-mail.

O ministro das Comunicações, Hélio Costa, afirmou que o projeto será reestruturado. Segundo ele, estima-se que cerca de 400 estações do Gesac estejam sem uso há pelo menos seis meses. As estações que não responderem à carta enviada pelo ministério serão desligadas, conforme o ministério.

Em relação aos equipamentos em áreas militares, o ministro disse ter abordado o tema com o presidente Lula. Segundo Costa, o Ministério da Defesa deverá assumir o pagamento da conexão dessas estações, já que elas são de uso exclusivo de militares. ‘Não faz sentido mantê-las dentro de um programa governamental voltado para o acesso público à internet’, resumiu.

Para Costa, o governo perdeu o controle sobre o programa Gesac. Uma das razões para o descontrole foi a participação paralela de vários ministérios no projeto.

O Ministério da Educação, segundo Costa, determinou a localização dos pontos (2.200) destinados às escolas, sem consultar as Comunicações; a Defesa, por sua vez, determinou a localização das antenas nas áreas militares. Sindicatos e organizações não-governamentais foram escolhidos pelo Ministério da Ação Social. O resultado, segundo Costa, é que o Ministério das Comunicações desconhece a localização exata das antenas.

Hélio Costa defende a reorganização das ações do governo que visam à inclusão digital. Ele sugere que o Ministério das Comunicações fique responsável pela conexão dos vários programas existentes, para que possa administrar o uso das tecnologias. Dessa forma, o governo federal faria uma licitação para todos os meios de conexão à internet (cabo, radio e satélite) e o ministério escolheria o meio mais barato disponível para cada área.’



***

‘ONG cobra por uso de ‘web gratuita’’, copyright Folha de S. Paulo, 16/10/05

‘Criado para permitir acesso gratuito à internet em comunidades pobres, o Gesac tem postos em que ONGs cobram para permitir o uso dos computadores. No Vale do Jequitinhonha e no norte de Minas Gerais, organizações não-governamentais cobram R$ 1 a hora pelo acesso. A distorção, constatada pela Folha resulta da dificuldade financeira das ONGs, que dizem não ter dinheiro para bancar as despesas do telecentro.

O governo de Minas fornece os computadores, a União dá acesso à internet, mas a manutenção dos telecentros recai sobre as ONGs.

O Ministério das Comunicações informou que recebeu denúncia de que o serviço estaria sendo cobrado em Teófilo Otoni (MG) e afirmou que investiga o caso. A cobrança pelo acesso à internet em telecentros públicos foi constatada pela Folha em vários municípios mineiros. A medida é aprovada pelos comitês locais de gestão dos telecentros.

Em Brasília de Minas, perto de Montes Claros, a ONG Serviço de Obras Sociais administra oito computadores enviados pelo governo do Estado que estão conectados à internet pelo sistema Gesac. A ONG diz que cobra pelo uso da internet para cobrir gastos com energia, papel e tinta para impressora. A maior demanda seria por cursos de informática e poucos acessam a internet.

Em Pavão, perto da divisa com a Bahia, o telecentro foi instalado na Associação Cidadania e Fraternidade. Segundo a vice-presidente da entidade, Mara Pereira da Rocha, o governo federal instalou a antena do Gesac no início de 2004, mas os computadores só chegaram em janeiro deste ano.

O serviço, porém, só foi inaugurado há duas semanas. Segundo ela, os computadores foram configurados pelo governo apenas em agosto, o que explica o atraso na inauguração do sistema. A tarifa para uso da internet é igual à cobrada em Brasília de Minas.

Pavão tem um histórico de frustrações com as iniciativas governamentais no campo da informática. Na escola estadual Caio Nelson de Sena, de 800 alunos, o laboratório de informática, com 11 computadores, nunca funcionou. A diretora em exercício da escola, Neide Soares, diz que o maquinário, do programa TV Escola, chegou incompleto, faltando peças. ‘Foi dinheiro jogado fora, um descaso total. A escola pintou a sala, comprou ar-condicionado para receber os computadores e nunca pôde usá-los.’’



Elio Gaspari

‘Aula de atraso e exemplo de avanço’, copyright Folha de S. Paulo, 16/10/05

‘Com o naufrágio da MP do Bem atolou mais uma vez o programa de financiamento de computadores baratos para o andar de baixo. (De R$ 1.400 até R$ 2.500 no varejo.)

Esse acidente legislativo mostra como é difícil planejar e executar uma providência que, pelo menos em tese, ajuda quem precisa. Consumiram-se quase três anos em negociações entre o Congresso, a Receita Federal, o Planalto, o BNDES e o baronato da indústria nacional. Cada um deve ter uma explicação para justificar a demora. Todos ficam devendo o resultado: computador na loja que é bom, nada.

Com o propósito de ilustrar o preço da lengalenga, aqui vai uma breve história da transformação da Índia no maior exportador de software fora do grupo dos países de maior desenvolvimento. São cerca de US$ 18 bilhões anuais.

Até 1984 o país não tinha indústria de informática mas, como o Brasil, tinha um baronato de reserva de mercado. A importação de um computador levava de seis a 64 meses. Entre 1976 e 1977 importaram-se 441 máquinas. Nisso mataram Indira Gandhi, e seu filho Rajiv, um piloto de jatos na aviação comercial (casado com uma aeromoça italiana), assumiu o governo.

Em 20 dias ele simplificou e reduziu as tarifas de importação de máquinas e programas. Mais tarde, liberou geral para seis pólos de desenvolvimento. Hoje a IBM está cortando 13 mil empregos na Europa e nos Estados Unidos e vai criar 14 mil na Índia. Estima-se que, entre 2000 e 2015, terão migrado 3 milhões de empregos dos EUA para a Índia.

Em 1984 achava-se que Rajiv, assassinado em 1991, era um boboca.’

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ENTRE ASPAS > MEMÓRIA / RÁDIO NACIONAL

Beatriz Coelho Silva

18/10/2005 na edição 351

‘O nome de Diler Trindade é associado ao cinema brasileiro de grandes bilheterias, como Xuxa, Os Trapalhões e Padre Marcelo Rossi, mas seu xodó, guardado na sede de sua empresa, é a coleção de fotos do período de ouro da Rádio Nacional, de 1947 a 1954. São instantâneos e retratos posados de artistas do star system nacional, numa época em que a imagem deles só chegava ao público nas chanchadas da Atlântida, na Revista do Rádio, Noite Ilustrada ou outras do gênero. Foram feitas pelo pai do produtor, que assinava simplesmente Diller.

‘Ele era o fotógrafo oficial da Rádio Nacional, então o maior veículo de comunicação, que tinha sob contrato o melhor elenco artístico do País’, conta Diler, que passou a infância entre refletores, filmes e papéis fotográficos, reveladores e artistas que queriam ter o retrato feito por um especialista. ‘Minha casa era uma estúdio fotográfico. Havia três quartos, um para meus pais, outro servindo para as fotos e um terceiro que era laboratório. E havia sempre um entre e sai de gente famosa, mas eu era criança e não ligava. Como dormia na sala, aquele movimento todo mais me aborrecia que agradava.’

O que não o impediu de guardar cerca de 5.000 negativos, em acetato ou vidro. Preciosidades, como a foto de Linda Batista conversando com o presidente Getúlio Vargas, diante de um atento e adolescente Hermínio Belo de Carvalho. Emilinha Borba na plenitude dos 30 anos, justificando a paixão que despertou em Orson Welles, Ary Barroso e Fernando Lobo num papo informal, Cauby Peixoto, quase adolescente, tentando ser tão chique quanto Joel de Almeida, da dupla Joel e Gaúcho, Dalva de Oliveira elegantíssima e Ângela Maria, exibindo o corpo de violão (como se dizia então) num maiô ousado (para a época, hoje seria um vestido) tendo uma Praia de Ipanema sem prédios ao fundo.

Há fotos dos bastidores da Rádio Nacional, como a que reúne Francisco Alves (o Rei da Voz), Francisco Carlos (apelidado El Broto), as irmãs Linda e Dircinha Batista, Jorge Goulart e o cantor João Dias (que imitava Francisco Alves), ou a de Sivuca com a sanfona, mas jovenzinho e de cabelos curtos. Há também fotos para divulgação de espetáculos e discos, como a de Nelson Gonçalves jovem e bem apessoado, Virgínia Lane exibindo as lendárias pernas sentada sobre um piano e Doris Monteiro, linda e adolescente, languidamente deitada no sofá. Ou ainda de Lúcio Alves, no início de carreira, com ares de galã.

Dolores Duran era um caso especial. Tem uma infinidade de fotos, inclusive uma que levou a compositora de A Noite do Meu Bem a chamar Diler de Chopin da fotografia. Alguns nomes muito falados, mas pouco fotografados estão na coleção. O violonista Luiz Bonfá brinca com um cachorro na Praia de Ipanema, mas Radamés Gnatalli posou diante do piano. E o moreno elegante que posou ao lado da cantora Marlene é o compositor Assis Valente, preferido de Carmem Miranda.

‘Meu pai guardava tudo porque sabia da importância de seu trabalho. Estou digitalizando para não manusear os originais’, explica Diler Trindade, que usou as fotos no docudrama Nelson Gonçalves, que fez sobre o cantor. ‘Era um projeto de resgate cultural, como Zico, necessário, mas de lucro previsto. O próximo é sobre Elizeth Cardoso, usando o material desse arquivo como base.’

Ele já pensou em fazer livros sobre um dos artistas ou juntar os cantores de rádio mas, certamente absorvido pela atividade de produtor que lança, no mínimo, seis títulos por ano, vai adiando. Só uma vez, no início dos anos 90, houve uma pequena mostra durante o Rioshow Festival, um encontro de artistas que virou disco e entrou para a história. Um dos espetáculos reuniu as famílias Jobim e Caymmi (os patriarcas Tom e Dorival, a filharada, parentes e aderentes) e foi noticiado até no New York Times. ‘Veja só, meu nome estava lá’, comenta, sem afetação. ‘Mas a idéia de chamar o Caymmi foi do Tom.’

O maestro soberano era de uma geração entre o Diler pai e o filho e ficou amigo do primeiro porque trabalhava com Radamés Gnatalli, então, arranjador todo-poderoso da Rádio Nacional. No entanto não há fotos de Tom. ‘Até 1958, ele era desconhecido, mero assistente de Radamés, mas se dava muito bem com meu pai’, lembra. ‘Décadas depois, quando ele já era consagrado e eu, um publicitário que ia fazer a campanha dos classificados de um jornal carioca, procurei Tom para gravar o jingle, ele se lembrou de meu pai. No Rioshow Festival, foi o primeiro nome que procurei e logo aceitou.’

Diller, no entanto, não quis ser fotógrafo. ‘Porque passei a infância incomodado com aquele entra e sai na minha casa. Comecei como jornalista, passei a publicitário e daí, a produtor de cinema. E nunca interferi na fotografia de qualquer filme. Contrato um diretor de confiança e dou carta branca’, explica. ‘Mas preservar essas fotos é questão indiscutível. Sempre precisarei delas para algum filme que resgate a memória do País.’’



AUDIOVISUAL
Folha de S. Paulo

‘País é destaque na maior feira do mundo’, copyright Folha de S. Paulo, 17/10/05

‘O Brasil será homenageado no Mipcom, o maior evento do setor audiovisual do mundo, que será realizado de hoje até a próxima sexta, em Cannes, na França.

O Mipcom (Mercado Internacional de Comercialização de Programas de Televisão) conta com a presença de representantes de mais de cem países e é uma vitrine para emissoras e produtoras independentes venderem novelas, séries e outros formatos.

Amanhã, como parte do Ano do Brasil na França, o Mipcom terá o Dia do Brasil, para a divulgação da produção de conteúdos da TV brasileira. Nesta edição, o governo, segundo o MinC, uniu-se a redes comerciais e públicas e a produtores independentes para planejar a participação na feira.

‘Nosso objetivo é demonstrar que o Brasil está apto a se destacar no cenário mundial de teleprodução e teledifusão’, afirmou o secretário Orlando Senna.

O fórum do Dia do Brasil será encerrado pelo ministro Gilberto Gil (Cultura), que não obteve sucesso na tentativa de emplacar a criação da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e Audiovisual). Ele falará sobre a importância sociocultural da TV no Brasil e de políticas públicas para o setor. Haverá discursos, entre outros, de Gustavo Dahl, da Ancine (Agência Nacional do Cinema), e Jorge da Cunha Lima, da Abepec (Associação Brasileira das Emissoras Públicas Educativas e Culturais).’



INCLUSÃO DIGITAL
Elvira Lobato

‘Inclusão digital é cara, lenta e ineficiente’, copyright Folha de S. Paulo, 16/10/05

‘Na entrada do Complexo do Alemão -conjunto de 13 favelas da zona norte do Rio de Janeiro, com cerca de 140 mil moradores- está a evidência da falta de planejamento e da desorganização do maior programa de inclusão digital do governo federal.

Em um dos acessos da favela Nova Brasília, que faz parte do complexo do Alemão, fica um telecentro do Gesac (Governo Eletrônico – Serviço de Acesso ao Cidadão), cujo projeto total já consumiu cerca de R$ 100 milhões.

O posto da Nova Brasília tem cinco computadores e uma antena para conexão à internet via satélite. Os computadores, instalados na associação de moradores, não têm programas básicos, como editor de texto, o que impede a população de usar os equipamentos para escrever currículos, por exemplo. Como só permitem a consulta à internet, são pouco usados. O governo paga R$ 1.000 por mês para manter o ponto conectado ao satélite.

A 30 metros da associação, fica a creche Lar de Rebeca, fundada pelo pastor Jessé Santos, da Igreja Evangélica Assembléia de Deus. A creche ganhou 12 computadores usados do Banco do Brasil e contratou a conexão à internet por banda larga (via companhia telefônica) ao custo mensal de R$ 135 por mês. A solução do governo federal é menos eficiente e custa sete vezes mais do que a criada pelo pastor.

O Gesac foi estabelecido por decreto no governo Fernando Henrique Cardoso para democratizar o acesso à internet. Por ser via satélite, é uma conexão cara, que deveria ser usada apenas em locais que não dispõem de alternativas mais baratas, via rádio ou por cabo, oferecidas pelas empresas de telefonia, TVs a cabo e outros prestadores de serviços.

Levantamento feito pela Folha constatou a existência de pontos do Gesac em locais que poderiam estar sendo atendidos de forma mais barata. É dinheiro público gasto desnecessariamente. O fenômeno acontece em várias regiões do país.

A CGU (Controladoria Geral da União) fez auditoria em 120 locais de funcionamento do sistema Gesac e concluiu que 30% das instituições visitadas não tinham acesso à internet, apesar de existirem as antenas, modens e infra-estrutura de rede.

Se o mesmo percentual for projetado para os 3.200 pontos de acesso existentes, serão quase 1.000 locais fora de uso.

A auditoria constatou ainda os seguintes problemas no projeto: lentidão para conexão à internet, limitação de uso pela população por falta de monitores capacitados e acesso limitado a professores e docentes em cerca de 10% das escolas visitadas.

Cerca de 400 pontos do Gesac estão instalados em áreas militares, que são fechadas para o público. No site oficial do programa, no entanto, elas figuram como abertas à comunidade.

Rádio mais barato

Em Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul, o Colégio Estadual Rodrigues Alves tem 20 computadores ligados à internet por três diferentes formas de conexão em alta velocidade: 14 usam a rede de banda larga da Brasil Telecom (por cabos), 5 usam conexão via rádio, e um faz parte do Gesac.

A transmissão por rádio custa R$ 180/mês à escola e foi contratada em 2000, por decisão dos pais dos alunos que consideravam o acesso à internet imprescindível para modernizar o ensino. No caso, o Gesac sai 5,5 vezes mais caro do que a opção por rádio.

No alto do Morro de São Carlos -favela entre as zonas norte e sul da cidade do Rio- está um exemplo da distorção apontada pela Controladoria Geral da União. No site do governo, consta que há um ponto do Gesac funcionando no Instituto Santo Antônio de Pádua, da Igreja Católica, mas no local existe só a antena.

A escola de informática, que chegou a ter 11 turmas, fechou há dois anos, quando a instituição rompeu o contrato com o CDI (Centro de Democratização da Informática), ONG voltada à disseminação do uso de computadores em áreas carentes. Restou só a antena cravada na parede da igreja, no alto da favela.

Em Osasco, na Grande São Paulo, a Associação das Mães Unidas de Novo Osasco, de assistência social, conta com quatro computadores do Gesac fora de uso desde março deste ano por falta de manutenção.

Sertão

Na auditoria feita em 120 pontos do Gesac, a Controladoria Geral da União constatou que, em 14% das instituições que tinham conexão, havia só um computador instalado, o que significa subutilização do sistema. O programa, segundo a auditoria, foi planejado para ter, em média, seis computadores por ponto, ligados em rede.

A subutilização é uma realidade no Nordeste, região mais carente de inclusão digital. Em Curral de Cima, na Paraíba, a 70 Km de João Pessoa, o secretário municipal de Educação, João Batista Padilha, disse que o governo havia prometido cinco computadores, mas mandou apenas um. A cidade tem 5.419 habitantes e 15 escolas de 1º grau, todas sem linha telefônica. Há 29 computadores nas escolas. Sem conexão com a internet, são usados pelos professores e pela administração.

Em Cuité de Mananguape, cidade com 6.000 habitantes também na Paraíba, a arquidiocese foi informada pelo governo de que seriam enviados seis ou sete computadores para o acesso comunitário à internet.

Como a casa paroquial é pequena, o padre Joseilson Oliveira preparou um salão distante do centro da cidade, onde seriam dados os cursos de informática. Só recebeu um computador e o local ficou inadequado. ‘Não pudemos montar o curso só com uma máquina. O computador acabou sem uso e está há cinco meses parado’, conta o padre.’



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‘Governo contata centro de internet por meio de carta’, copyright Folha de S. Paulo, 16/10/05

‘Para entrar em contato com centros de acesso eletrônico, o Ministério das Comunicações teve de recorrer às quase ultrapassadas cartas. Em setembro, o Ministério das Comunicações enviou correspondência a todos os endereços onde consta a existência de instalações do Gesac, indagando sobre a situação do serviço. A necessidade de recorrer aos Correios para se comunicar com uma estação de acesso à internet dá uma dimensão dos problemas do projeto.

O secretário de Telecomunicações do ministério, Roberto Pinto Martins, disse que foi preciso enviar as cartas porque os telecentros não têm e-mail.

O ministro das Comunicações, Hélio Costa, afirmou que o projeto será reestruturado. Segundo ele, estima-se que cerca de 400 estações do Gesac estejam sem uso há pelo menos seis meses. As estações que não responderem à carta enviada pelo ministério serão desligadas, conforme o ministério.

Em relação aos equipamentos em áreas militares, o ministro disse ter abordado o tema com o presidente Lula. Segundo Costa, o Ministério da Defesa deverá assumir o pagamento da conexão dessas estações, já que elas são de uso exclusivo de militares. ‘Não faz sentido mantê-las dentro de um programa governamental voltado para o acesso público à internet’, resumiu.

Para Costa, o governo perdeu o controle sobre o programa Gesac. Uma das razões para o descontrole foi a participação paralela de vários ministérios no projeto.

O Ministério da Educação, segundo Costa, determinou a localização dos pontos (2.200) destinados às escolas, sem consultar as Comunicações; a Defesa, por sua vez, determinou a localização das antenas nas áreas militares. Sindicatos e organizações não-governamentais foram escolhidos pelo Ministério da Ação Social. O resultado, segundo Costa, é que o Ministério das Comunicações desconhece a localização exata das antenas.

Hélio Costa defende a reorganização das ações do governo que visam à inclusão digital. Ele sugere que o Ministério das Comunicações fique responsável pela conexão dos vários programas existentes, para que possa administrar o uso das tecnologias. Dessa forma, o governo federal faria uma licitação para todos os meios de conexão à internet (cabo, radio e satélite) e o ministério escolheria o meio mais barato disponível para cada área.’



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‘ONG cobra por uso de ‘web gratuita’’, copyright Folha de S. Paulo, 16/10/05

‘Criado para permitir acesso gratuito à internet em comunidades pobres, o Gesac tem postos em que ONGs cobram para permitir o uso dos computadores. No Vale do Jequitinhonha e no norte de Minas Gerais, organizações não-governamentais cobram R$ 1 a hora pelo acesso. A distorção, constatada pela Folha resulta da dificuldade financeira das ONGs, que dizem não ter dinheiro para bancar as despesas do telecentro.

O governo de Minas fornece os computadores, a União dá acesso à internet, mas a manutenção dos telecentros recai sobre as ONGs.

O Ministério das Comunicações informou que recebeu denúncia de que o serviço estaria sendo cobrado em Teófilo Otoni (MG) e afirmou que investiga o caso. A cobrança pelo acesso à internet em telecentros públicos foi constatada pela Folha em vários municípios mineiros. A medida é aprovada pelos comitês locais de gestão dos telecentros.

Em Brasília de Minas, perto de Montes Claros, a ONG Serviço de Obras Sociais administra oito computadores enviados pelo governo do Estado que estão conectados à internet pelo sistema Gesac. A ONG diz que cobra pelo uso da internet para cobrir gastos com energia, papel e tinta para impressora. A maior demanda seria por cursos de informática e poucos acessam a internet.

Em Pavão, perto da divisa com a Bahia, o telecentro foi instalado na Associação Cidadania e Fraternidade. Segundo a vice-presidente da entidade, Mara Pereira da Rocha, o governo federal instalou a antena do Gesac no início de 2004, mas os computadores só chegaram em janeiro deste ano.

O serviço, porém, só foi inaugurado há duas semanas. Segundo ela, os computadores foram configurados pelo governo apenas em agosto, o que explica o atraso na inauguração do sistema. A tarifa para uso da internet é igual à cobrada em Brasília de Minas.

Pavão tem um histórico de frustrações com as iniciativas governamentais no campo da informática. Na escola estadual Caio Nelson de Sena, de 800 alunos, o laboratório de informática, com 11 computadores, nunca funcionou. A diretora em exercício da escola, Neide Soares, diz que o maquinário, do programa TV Escola, chegou incompleto, faltando peças. ‘Foi dinheiro jogado fora, um descaso total. A escola pintou a sala, comprou ar-condicionado para receber os computadores e nunca pôde usá-los.’’



Elio Gaspari

‘Aula de atraso e exemplo de avanço’, copyright Folha de S. Paulo, 16/10/05

‘Com o naufrágio da MP do Bem atolou mais uma vez o programa de financiamento de computadores baratos para o andar de baixo. (De R$ 1.400 até R$ 2.500 no varejo.)

Esse acidente legislativo mostra como é difícil planejar e executar uma providência que, pelo menos em tese, ajuda quem precisa. Consumiram-se quase três anos em negociações entre o Congresso, a Receita Federal, o Planalto, o BNDES e o baronato da indústria nacional. Cada um deve ter uma explicação para justificar a demora. Todos ficam devendo o resultado: computador na loja que é bom, nada.

Com o propósito de ilustrar o preço da lengalenga, aqui vai uma breve história da transformação da Índia no maior exportador de software fora do grupo dos países de maior desenvolvimento. São cerca de US$ 18 bilhões anuais.

Até 1984 o país não tinha indústria de informática mas, como o Brasil, tinha um baronato de reserva de mercado. A importação de um computador levava de seis a 64 meses. Entre 1976 e 1977 importaram-se 441 máquinas. Nisso mataram Indira Gandhi, e seu filho Rajiv, um piloto de jatos na aviação comercial (casado com uma aeromoça italiana), assumiu o governo.

Em 20 dias ele simplificou e reduziu as tarifas de importação de máquinas e programas. Mais tarde, liberou geral para seis pólos de desenvolvimento. Hoje a IBM está cortando 13 mil empregos na Europa e nos Estados Unidos e vai criar 14 mil na Índia. Estima-se que, entre 2000 e 2015, terão migrado 3 milhões de empregos dos EUA para a Índia.

Em 1984 achava-se que Rajiv, assassinado em 1991, era um boboca.’

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