Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > FLIP

Bernardo Araujo, Daniela Birman e Rachel Bertol

12/07/2005 na edição 337

‘Lágrimas, vaias, aplausos, crítica ao governo e até literatura agitaram ontem a terceira edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A mesa ‘Ritmo, poesia e política’, que reuniu o rapper MV Bill, o antropólogo Luiz Eduardo Soares e o comentarista político Arnaldo Jabor — mediados pelo jornalista e escritor português Miguel Souza Tavares — foi, de longe, a que motivou a reação mais extrema na platéia do festival até então.


Recém-chegado de Londres (onde usou, por duas semanas, uma das linhas de metrô bombardeadas na última quinta-feira), Bill foi o primeiro a falar. O rapper contou a história de sua vida, lembrando as dificuldades típicas de um jovem favelado negro no Brasil:


— Tive o que chamo de uma infância padronizada — disse. — Na escola, eu vivia perguntando aos professores para que servia uma raiz quadrada, e por que não tínhamos aulas para aprender a nos defender da polícia, fugir das drogas e escapar das balas perdidas.


O rapper e Soares falaram ainda da pesquisa que motivou o livro ‘Cabeça de porco’, escrito por eles em parceria com o empresário do cantor, Celso Athayde. O trio conversou com jovens criminosos de várias partes do país — muitos deles já mortos. E, ao comparar a cobertura da violência em lugares socialmente díspares como Ipanema e Belém do Pará, Bill se emocionou e chegou a enxugar lágrimas.


—- Parece que duas mortes podem ter pesos diferentes, se vierem de lugares como Ipanema e Belém do Pará — disse, aos soluços, enquanto boa parte da platéia o aplaudia de pé.


Soares apresentou estatísticas da violência e denúncias, chamando o racismo de ‘o grande tabu da sociedade brasileira’. O ex-coordenador de Segurança Pública do Estado do Rio e ex-Secretário Nacional de Segurança Pública do governo federal concluiu que a crise social é insolúvel, mas deve-se continuar tentando resolver os problemas.


Jabor analisou os últimos 25 anos da política brasileira. Ele começou elogiando o presidente Lula, dizendo que seu surgimento, o de um político pragmático, foi uma renovação na esquerda brasileira. Mais tarde, defendeu sob vaias o que chamou de ‘período da presidência de Fernando Henrique Cardoso’.


— Podem vaiar, essa é a hora. A vaia mostra que vocês têm uma opinião, isso é bom.


Exaltado, ele atacou ainda o governo atual (‘O Palocci e a política econômica são a única coisa que presta nessa bosta’) e a corrupção:


— Nunca tinha visto alguém com US$ 100 mil na cueca.


Os ecos da polêmica mesa chegaram ao debate seguinte, chamado Zona de Conflito, que reuniu dois correspondentes de guerra: o americano Jon Lee Anderson, autor de ‘A queda de Bagdá’, e o português Pedro Rosa Mendes, que conta em ‘A baía dos tigres’ a travessia que fez do continente africano assolado por anos de guerras.


Anderson, ao contar suas ex-periências em áreas devastadas — no Afeganistão, no Iraque, em Angola e em outros países — fez um paralelo com a situação de penúria nas favelas brasileiras.


— Luiz Eduardo Soares falou da invisibilidade de que são vítimas os pobres e os negros. O ser humano se adapta a todo tipo de situação, mas é desalentador ver pessoas em condições muito aquém do que conhecemos como humanidade. Angola, por exemplo, devido à guerra, foi um dos lugares que mais tristeza e raiva me provocaram — disse Anderson, também autor de ‘Che — Uma biografia’.


Pedro Rosa Mendes lembrou que Angola enfrentou décadas de conflitos, e a capital Luanda se transformou numa imensa favela.


— É impressionante ver Luanda, mas as pessoas que lá vivem ainda estão em melhor condição do que as que moram em outras partes do país.


A última palestra foi a do anglo-indiano Salman Rushdie, que lançou mundialmente em Paraty seu mais recente romance, ‘Shalimar, o equilibrista’.’


***


‘Flip já estuda ajustes para o próximo ano’, copyright O Globo, 11/7/05


‘O sucesso da terceira edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), encerrada ontem, animou a organização do festival a pensar na possibilidade de estender sua duração para dois fins de semana seguidos em vez de um, como aconteceu até agora.


— Esta seria a única maneira de atender a um público maior sem aumentar o tamanho do evento. Seria também uma forma de otimizar a infra-estrutura do festival. Não há custos maiores para mantê-la por mais dias. Mas não sabemos se isso já vai acontecer no próximo ano, pois as despesas para trazer os autores seriam maiores, embora nenhum deles receba cachê — afirmou o diretor de arquitetura da Flip, Mauro Munhoz.


A festa este ano seguiu o mesmo padrão dos anos anteriores: na abertura, quarta-feira, houve a homenagem a um autor, desta vez Clarice Lispector, e um show de abertura, com Paulinho da Viola. Os debates, com estrelas literárias como o anglo-indiano Salman Rushdie e Ariano Suassuna, aconteceram entre quinta-feira e ontem. Ao longo dos cinco dias, a cidade recebeu 12 mil pessoas e as 290 pousadas do centro ficaram lotadas.


Evento teve investimento de R$ 3,8 milhões


No encerramento, ontem, a atração ficou por conta do escritor israelense David Grossman. Integrante da última mesa do evento, ele fez a platéia dançar ao som do hip hop que compôs a partir de 150 frases retiradas de adesivos de carro, e gravado por um grupo israelense.


Os organizadores investiram R$ 3,8 milhões no evento, dos quais R$ 1,2 milhão vieram de permutas com empresas e o restante por intermédio de patrocínios e doações. Cerca de 600 pessoas participaram da realização da festa.


Reforçando a tendência dos outros anos, as mesas de maior impacto foram as que abordaram temas sociais e políticos, como a de MV Bill, Luiz Eduardo Soares e Arnaldo Jabor e a da inglesa Jeannette Winterson. Desconhecida da maioria dos brasileiros, ela foi aplaudida de pé ao ler um manifesto político em defesa do poder transformador da arte.


— O público brasileiro gosta de não-ficção. Talvez porque seja mais fácil se identificar com os temas discutidos. Foi pensando nisso que criamos a série Mar de Histórias (em que se debateram ‘Dom Quixote’, ‘As mil e uma noites’ e a Bíblia). Era uma maneira de falar de ficção por um viés de não-ficção — afirmou a responsável pela programação, Ruth Lanna.


Organizadora destaca caráter internacional


Nem Ruth nem a editora inglesa Liz Calder, idealizadora e presidente da Flip, quiseram adiantar os nomes de possíveis convidados para 2006. No entanto, disseram que temas como a relação entre cinema e literatura ou meio ambiente poderão entrar na programação. Segundo Liz, a Flip é muito mais internacional que os festivais literários da Europa (pouco mais de um terço dos convidados este ano era de estrangeiros), além de ter um público mais jovem e instalações mais bonitas e confortáveis:


— Foi uma festa bastante variada, com uma mistura de autores que funcionou muito bem. Algumas mesas foram bastante provocadoras. A Flipinha (com atividades para crianças) também cresceu. A única coisa que não funcionou muito bem foi o mau tempo.


De acordo com Mauro Munhoz, uma das boas coisas deste ano foi o modo como os moradores da cidade se apropriaram do evento, participando de atividades como as da Flipinha, que envolveram cinco mil alunos e 300 professores em 30 escolas da cidade.’




Ancelmo Gois


‘Ecos da Flip I’, copyright O Globo, 11/7/05


‘O americano Jon Lee Anderson, superjornalista que cobriu a guerra do Iraque e é uma das estrelas da Festa Literária de Paraty, estressou-se ontem.


Depois de esperar 1h40m por seu prato em um restaurante indiano, Anderson se levantou irritado: ‘Eu consigo agüentar Bagdá, mas não dá para suportar isso aqui.’


E foi embora.’




***


‘Ecos da Flip II’, copyright O Globo, 11/7/05


‘Pergunta de uma criança para o escritor Luis Fernando Verissimo, na tenda infantil, a Flipinha:


—Você gosta de suco de uva?


— Só quando ele já fermentou um pouco mais — respondeu Verissimo, o queridinho absoluto do público em Paraty.’




Matthew Shirts


‘A primeira Flip a gente nunca esquece’, copyright O Estado de S. Paulo, 11/7/05


‘Do outro lado da porta da sala de onde escrevo, correm e gritam centenas de crianças em volta de enormes bonecos de Dom Quixote e Sancho Panza, piratas de Robert Louis Steveson e diversos outros personagens literários ilustres.


Os bonecos enfeitam a praça em frente da Igreja da Matriz (acho que é assim que é chamada, pelo menos). Há dois ou três personagens pendurados das janelas da própria igreja, aliás, numa amostra do ótimo humor que tomou conta desta cidade histórica de uns dias para cá.


Nos bares ao redor da praça, turistas tomam cerveja e discutem… Bem, não sei o que estão discutindo, mas a conversa é animada. Ao fundo, imponentes montanhas tropicais, cobertas por mata atlântica furam nuvens que espalham raios de sol ao cair da tarde. A cena é linda e comovente.


Como você talvez já tenha imaginado, elaboro estas mal traçadas na sala de imprensa da Festa Literária de Paraty, situada na frente da igreja. É a minha primeira Flip. Aqui se reúnem escritores do mundo todo para trocar idéias, beber, lançar livros e se divertir, de um modo geral. Não sei como nunca vim antes a este evento. Duvido que haja lugar melhor no mundo neste momento.


Antes de entrar na sala, vinha dando umas voltas em torno da praça em busca de idéias quando dei de cara com meu amigo Arnaldo Jabor, que escreve às terças aqui mesmo no Caderno 2. Falei para ele que buscava inspiração para a crônica. Ele me respondeu que fazia o mesmo. ‘Vou escrever sobre você, Jabor’, retruquei.


Momentos antes havia visto Luis Fernando Verissimo, hoje decano dos cronistas brasileiros, saindo do seu hotel. Ocorreu-me que em nenhum outro lugar seria possível encontrar tantos cronistas do Caderno 2 num espaço de tempo tão curto.


Continuei andando em torno da praça e, algumas voltas mais para frente, fui abordado por um casal bonito na casa dos 30 e poucos anos, que me perguntou se eu estava à procura da crônica. Respondi que sim, como é que sabiam? Dá para perceber?, indaguei, ligeiramente preocupado com a transparência das minhas feições.


– Não, não é isso – explicaram. É que você escreveu na semana passada que perdera sua crônica e a gente queria saber se a achou.


– Aquela não encontrei mais – lamentei. Estou em busca de uma nova.


É esse o tipo de conversa que se tem nas ruas daqui por estes dias.


Um outro turista literário me abordou logo depois e pediu para eu assinar um livro do João Ubaldo Ribeiro. Não é a primeira vez que me confundem com ele. Pouca gente sabe disso, mas os baianos são muito parecidos com os americanos, no geral. Eu não conheço João Ubaldo pessoalmente, mas parece-me que somos velhos amigos de tanto lê-lo, e logo tentei pensar numa maneira divertida de sacaneá-lo com a dedicatória do seu livro. Não me ocorreu nada à altura do imortal, porém, e fui obrigado a explicar que eu não era ele.


Foi depois disso que vi o escritor e cozinheiro americano Anthony Bourdain. Falava ao celular e calçava uma espécie de sandálias havaianas, apesar do frio e das poças d’água deixadas pelas chuvas dos últimos dias.


Sou fã do Bourdain e me ocorreu que se eu o seguisse e visse o que comia poderia render uma crônica. Afinal, ele escreve sobre culinária e bem sei que ele gosta de experimentar umas porcarias pela rua. Já tive ocasião de perguntar a ele qual era a melhor coisa que comera em São Paulo. A resposta foi o sanduíche de mortadela do Mercado Municipal, como você talvez se lembre de outra crônica minha.


Não foi difícil segui-lo, porque Bourdain é muito alto e já li muitos romances policias e conheço as técnicas todas. Mas depois de um quarteirão me senti meio ridículo e invasivo e resolvi abandonar o projeto.


Voltei para a praça, onde soube, através de jornalistas amigos meus, que terroristas árabes haviam explodido bombas no metrô de Londres e que caíra mais um ministro do PT. As notícias do mundo lá fora chegam aqui e se espalham de boca em boca. Soam hostis e longínquas. Vou procurar saber os detalhes apenas quando voltar para a chamada civilização.


É que o astral daqui, para usar uma expressão antiga, é bom demais.


Não há terrorismo nem corrupção. Só escritores.’




Luiz Fernando Vianna


‘Para autores, Flip é alternativa a ‘circo’’, copyright Folha de S. Paulo, 11/7/05


‘Confiando no que dizem os escritores, a Flip (Festa Literária Internacional de Parati) está encontrando um lugar confortável em um circuito que deixa muitos autores desconfortáveis: o dos festivais de literatura. ‘Hoje é possível viver de feira em feira literária. Agora me consideram escritor e posso viver como turista literário. Certamente conseguiria ser muito mais conhecido do que sou hoje sem a necessidade de escrever mais livros’, afirmou Chico Buarque, astro da Flip 2004, em recente entrevista ao jornal espanhol ‘La Vanguardia’.


Principal nome da Flip 2005, o anglo-indiano Salman Rushdie disse que não costuma participar de muitos eventos como esse, mas quis fazer em Parati o lançamento internacional de ‘Shalimar, o Equilibrista’, seu novo romance, por ser amigo da inglesa Liz Calder, idealizadora da festa, e de Luiz Schwarcz, dono da editora Companhia da Letras.


‘Está sendo muito mais agradável lançar aqui do que naqueles eventos nos Estados Unidos, que são maçantes, com uma entrevista atrás da outra’, afirmou ele, reconhecendo que ‘há 30 anos não havia essa expectativa de o escritor ser um vendedor de livros’. ‘Muitos autores lamentam isso, eu não. Mas preferiria falar de um livro muito depois de ele ter sido lançado, para que as pessoas já tivessem lido’, disse Rushdie, que relativizou sua condição de ‘celebridade literária’: ‘Não sou uma Britney Spears. Acho que as pessoas que me procuram têm algum interesse no que eu escrevo’.


O português Pedro Rosa Mendes, autor de ‘Baía dos Tigres’, disse que nem poderia ter vindo a Parati, pois está atolado de trabalho, mas não resistiu a conhecer a cidade histórica, ainda mais depois do incentivo do angolano José Eduardo Agualusa, seu amigo e um dos destaques da Flip 2004.


‘Ele me disse que não era desses encontros em que os autores ficam intelectualizando tudo e, no fundo, vão apenas viajar. Estar em um festival literário deve ser conseqüência do seu trabalho, não um lugar para exibição’, disse ele, para quem ‘há um certo circo’ nas feiras de livros.


Gonçalo Tavares, que está lançando dois livros no Brasil, tem em comum com Mendes a nacionalidade e os conselhos de Agualusa para que participasse da Flip. Ele disse que acabara de recusar dois convites quando aceitou vir a Parati. ‘É preciso ter equilíbrio. A divulgação tem que ser feita, mas ficar nesse circuito, de feira em feira, é prejudicial. Meu trabalho é ler e escrever’, disse ele, que passou 11 anos lendo e escrevendo, e nos últimos três lançou 16 livros.


O romancista israelense David Grossman afirmou que encontros literários o atraem por causa da possibilidade de ‘cheirar escritores que só conhecemos pelos livros’. Ele disse ter adorado a ‘atmosfera’ da Flip e que já sonhava há muito tempo conhecer o Brasil. ‘Tinham me dito que há uma cultura do meio-termo no Brasil, de acomodação das diferenças. É tudo o que não temos e devíamos ter em Israel’, contou.


Para o autor de livros policiais José Latour, cubano radicado no Canadá, participar da Flip é um ‘trabalho’. ‘Não é turismo, pois vim conhecer outros escritores, outras opiniões, outras tendências, e isso influi na minha literatura’, disse Latour, que já participou de feiras nos EUA, na Espanha e na Holanda, mas considera a Flip singular. ‘São 600, 700 pessoas pensando em literatura, filas de autógrafos, é surpreendente. Nunca vi nada assim’, afirmou.’




NARCISO VERNIZZI
Folha de S. Paulo


‘Morre o jornalista Narciso Vernizzi, o ‘homem do tempo’’, copyright Folha de S. Paulo online, 11/7/05


‘O jornalista Narciso Vernizzi, 86, morreu nesta segunda-feira em São Roque (59 km a oeste de São Paulo), vítima de falência múltipla dos órgãos. Conhecido como o ‘homem do tempo’, Vernizzi trabalhava havia 57 anos na rádio Jovem Pan.


Segundo informações da rádio, o jornalista sofreu uma fratura exposta após ter levado um tombo, no início da semana passada.


Vernizzi foi submetido a uma cirurgia mas, durante a operação, sofreu um aneurisma. Ontem, o jornalista teve uma hemorragia, seguida de complicações no fígado e rins.


Casado com Alice de Aguiar Vernizzi, teve dois filhos: Sérgio e Celso Vernizzi, ambos jornalistas.’

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