Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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ENTRE ASPAS >

Bia Abramo

28/09/2004 na edição 296

‘Elas gritam . E gritam. Gritam quando entra a apresentadora. Gritam quando ela dança. Gritam quando ela rebola diante das câmeras. Gritam quando ouvem alguma insinuação maliciosa. Gritam quando entra um homem. Gritam quando ele sorri, quando ele fala.

Por que gritam tanto as moças e meninas que vão ao ‘Jogo da Vida’? O programa tem ocupado com audiência razoável uma faixa extensíssima do domingo na Bandeirantes, das 15h30 às 19h30. Em vez das variedades habituais, a atração comandada por Márcia Goldschmidt é monotemática: relacionamentos amorosos, em suas várias modalidades. Claro, há coisas imutáveis nos atuais programas de auditório: os comerciais que aparecem sem pausa nem transição; a dupla função de apresentador(a) e garoto(a)-propaganda; o fato de tornar-se a vitrine para uma espécie de submundo de celebridades diversas; o culto à personalidade do apresentador(a) e a palavra de ordem ‘Alegre-se ou morra’. E, sim, também em o ‘Jogo da Vida’ o tempo é esticado a ponto de deixar de fazer sentido.

Por que diabos, então, elas gritam daquela maneira, sempre esganiçada, quase sem trégua? Um programa de auditório pressupõe auditório, é claro. Até há uma expressão algo ofensiva para denominar o público que vai a esses programas, dado o grau de histeria que se espera do comportamento dessas pessoas. Ou seja, o auditório grita, via de regra desde sempre. A audiência participativa está na definição desse tipo de programa.

Mas, as meninas, moças e mulheres que vão ao ‘Jogo da Vida’ gritam mais. A impressão é que elas gritam o tempo inteiro. Não é verdade, elas até que dão umas pausas para Márcia Goldschmidt falar, apresentar, apalpar, pontificar e anunciar. Mas é por um segundo apenas, depois elas recomeçam. A gritar.

Ah, então será que é por causa do assunto? Afinal, os diversos quadros do programa falam de sexo, amor e seu arsenal de vicissitudes: sedução, abandono, separação, reconciliação e traição. Todos assuntos titilantes, palpitantes -sobretudo para o público feminino. Algo proibidos, interditados e reservados. Mas, não, estão na TV, no centro da sala, em pleno domingo, desfilando diante da família. Em vez da reserva, o constrangimento de ver as intimidades dos outros desfilando na tela e as próprias refletidas no tubo. Então, aqui, a ‘alegria’, a emoção pré-fabricada de 99% dos programas de auditório, não basta -e nem é bem-vinda, na verdade.

É preciso pontuar a transgressão programática, é preciso ensurdecer qualquer tentativa de se relacionar com esses assuntos de maneira pessoal, privada -e, eventualmente, diferente daquela que é encenada no programa. Controlar, em suma, a emergência de qualquer emoção verdadeira -ninguém na TV está interessado nela.

Portanto, há que chegar à beira do desvario. Daí os gritos incessantes, os uivos, os ululos.’



TV COM UÍSQUE
Carlos Heitor Cony

‘O marinheiro triste’, copyright Folha de S. Paulo, 25/09/04

‘Madrugada dessas, a chuva com rajadas frescas, como costuma dizer o boletim meteorológico, uma janela aberta na área de serviço, e lá fui eu impedir desastre maior. Havia uma garrafa de uísque em cima da pia, quase no fim, resolvi tomar aquela dose única antes de voltar para a cama.

Perdi o sono, e a pequena dose de uísque pediu outra. Apanhei uma garrafa nova e, para fazer companhia a mim mesmo, tive a triste idéia de ligar a TV. E dei de cara com um cara vagamente conhecido, que não identifiquei de pronto, dizendo besteiras sem fim a propósito de tudo o que lhe era perguntado.

De repente, descobri que o relógio no pulso esquerdo do sujeito era igual ao meu. Daí parti para a camisa, depois a voz, finalmente o rosto, e vi que era eu mesmo, numa entrevista antiga. Pelas referências ao 11 de Setembro, desconfiei que ela fora gravada em 2001. Falta de material para a grade da madrugada, sobretudo nas emissoras a cabo, e os programadores empurram material de arquivo.

Folguei que fosse tão tarde e, afora eu, ninguém deveria estar vendo e ouvindo aquilo. Mas o uísque, que não era grande coisa, ficou pior. Geralmente aproveito um intervalo no sono para ler ou ouvir música, ou simplesmente nada fazer, só pensar na vida e na morte da bezerra.

Lembrei um poema de Manuel Bandeira sobre o marinheiro triste que, alta noite, volta ao navio amarrado ao cais. ‘Ias triste e lúcido, antes melhor fora que voltasse bêbado’.

Meu navio seria a cama, e nela me amarraria no cais do sono. Não estava bêbado nem disposto a beber demais. Na TV, o sujeito dizia que a terceira guerra mundial estourara com as torres do World Trade Center.

Logo em seguida, numa inesperada mudança de tema, ele jurava que nunca mais escreveria qualquer livro. Não por causa da guerra que estourava, mas por causa dele mesmo, que já estava estourado.

Desliguei a TV. Antes fora que não a tivesse ligado.’



AS PANTERAS
Daniel Castro

‘Seriado ‘As Panteras’ volta à TV aberta’, copyright Folha de S. Paulo, 25/09/04

‘Séries clássicas exibidas pela Globo no início dos anos 80, ‘As Panteras’ (‘Charlie’s Angels’) e ‘Ilha da Fantasia’ (‘Fantasy Island’) vão voltar à TV aberta. Elas reestréiam a partir do dia 4 de outubro na Rede 21, canal UHF da Band que também está presente em outras 13 capitais brasileiras.

Estão no ‘novo’ pacote de séries do 21 _que já exibe as recentes ‘Sex and the City’, ‘Seinfeld’ e ‘Will and Grace’_ as também clássicas ‘I Love Lucy’ (que estreou nos EUA em 1951), ‘Agente 86’ (produzida entre 1965 e 1970) e ‘Jornada nas Estrelas – Star Trek’ (1966/1969), que gerou vários filmes, além de ‘Louco por Você’ (‘Mad About You’), ‘Guerra, Sombra e Água Fresca’ (‘Hogan’s Heroes’) e ‘Married with Children’.

A Rede 21 vai exibir essas séries (algumas em reprise na TV paga) na faixa das 19h às 20h. O canal também acaba de adquirir um pacote de 92 filmes antigos. E fechou acordo com o canal pago E! e passará a apresentar ‘The True Hollywood Story’, série documental que mostra o lado podre da fama e bastidores.

‘As Panteras’ foi um dos maiores sucessos da TV americana no final dos anos 70. ‘Ilha da Fantasia’ tornou famosos no Brasil seus protagonistas: Mr. Roarke (Ricardo Montalban) e Tatoo (Hervé Villechaize).

A Rede 21 deve fechar 2004 com um crescimento de 54%, com faturamento de R$ 18 milhões.

OUTRO CANAL

Profissão perigo 1

O repórter Bruno Kauffmann, da afiliada da Globo em Ribeirão Preto (EPTV), morreu anteontem à noite, aos 31 anos, em um acidente de carro na região de Sertãozinho (SP). Segundo o site da EPTV, Kauffmann e o cinegrafista Sebastião Elias ‘voltavam para a emissora após uma reportagem em Barretos’.

Profissão perigo 2

A morte de Kauffmann revela uma rotina cada vez mais comum nas afiliadas da Globo no interior. Para economizar, elas demitiram nos últimos anos os motoristas de seus carros de reportagem. Repórteres e cinegrafistas vêm se revezando na função. Kauffmann pilotava o carro (da EPTV) que capotou.

Índice

Festa na Record: o ‘reality show’ ‘Sem Saída’ registrou anteontem média de seis pontos no Ibope. Foi mais do que ‘Casa dos Artistas’ (SBT), que deu cinco, segundo dados da Record.

Vestibular 1

Terminou ontem o ‘pitching’ (processo de seleção em que o proponente de projeto o defende diante de uma banca examinadora, como em teses) promovido pelo canal pago GNT.

Vestibular 2

Doze projetos de produtoras independentes foram analisados pelo GNT. Os escolhidos serão divulgados dia 1º. No ‘pitching’ de 2003, foram escolhidas quatro propostas, entre elas ‘Gente Pop’ e ‘Beleza Comprada’.’

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