Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > CRISE POLÍTICA

Boris Fausto

07/09/2005 na edição 345


‘Entre os muitos produtos da crise, ganhou algum destaque a discussão sobre o papel dos intelectuais. Indo direto ao assunto, iniciemos com uma pergunta: quem são os intelectuais?


Se quisermos não propriamente uma definição, mas uma descrição aproximativa, diríamos que os intelectuais constituem um grupo social que se distingue por um nível cultural específico, mais voltado para a formulação de idéias abrangentes e pelo objetivo de definir visões do mundo. Desse modo, diferenciam-se de grupos com conhecimentos especializados de ordem prática, como economistas, advogados, ou dedicados a analisar cenários sociopolíticos de maior imediatidade -caso dos jornalistas. Ressalvemos que o recorte não exclui linhas de aproximação, nem pretende sugerir uma gradação de hierarquia entre ‘sábios pensantes’ e pessoas apenas especializadas.


Embora situados no plano das formulações mais abstratas, em países como o nosso, os intelectuais tendem também a intervir na vida política, em graus variados. Seu alvo preferencial de atenções concentra-se no poder, seja para criticá-lo, muitas vezes com virulência, seja para se agasalhar, confortavelmente, sob suas asas. Houve até um momento na história do Brasil, no período do Estado Novo (1937-1945), que, com as devidas cautelas, alguns intelectuais desempenham concomitantemente esses papéis.


O grupo intelectual, como se sabe, é essencialmente heterogêneo, ocupando diversas posições no espectro político. Nos países marcados por fortes injustiças sociais, tende a situar-se majoritariamente à esquerda, num arco histórico que vai da social-democracia ao comunismo. No Brasil e em outros países, a corrente comunista ganhou maior influência, por ter atrás de si o aparelho internacional montado pela União Soviética e por contar com um discurso como o marxismo, detentor da ‘chave da história’.


Essa opção de muitos intelectuais redundou na crença nas virtudes do partido único, portador da consciência do proletariado, capaz de realizar a tarefa revolucionária de implantação do socialismo. Redundou também na crença de que essa tarefa vinha sendo efetivada, desde 1917, na União Soviética. Mais ainda, redundou na glorificação de Stálin -guia genial dos povos- e na entronização dos líderes nacionais dos partidos comunistas, no altar-mor do stalinismo. O ícone brasileiro, quase não seria preciso dizer, foi Luiz Carlos Prestes.


O culto à personalidade do ‘Cavaleiro da Esperança’ potenciou um traço da nossa cultura, isto é, a crença no herói salvador, capaz de acabar com o sofrimento do povo, encarnando o partido, cuja linha errática estava sempre certa. Dessa e de outras distorções resultaram o abandono da tarefa da construção da cidadania e a descrença nos princípios democráticos. Por muitos anos, um grande número de intelectuais de esquerda acreditou que ‘democracia formal’ não passava de um simples instrumento, a serviço de um radioso futuro revolucionário.


O relatório Kruschev, a queda do Muro de Berlim, a transformação da China do ícone Mao Tse-tung numa versão peculiar de capitalismo autoritário e o advento do regime militar no Brasil, dolorosamente, abriram os olhos da maioria dos intelectuais de esquerda. No processo de democratização do país, nos anos 1980, um grande número desses integrou-se na construção do PT, alguns com uma perspectiva socialista democrática, outros ainda encantados com o autoritarismo revolucionário e outros ainda a partir de raízes católicas, tingidas de messianismo. Foi uma opção respeitável, por um partido que pretendia organizar a classe trabalhadora e estar à frente dos movimentos sociais.


Mas a ressalva não serve para deixar de lado a grande responsabilidade dos intelectuais de esquerda, por semear muitas ilusões e por colaborar na construção da figura carismática de Lula, em circunstâncias por certo distintas dos tempos do PCB. A trajetória social e as características pessoais do atual presidente, inusitada na história do Brasil, facilitaram essa tarefa. Engendrou-se assim, engatando com as tradições de nossa cultura política, o carisma do herói salvador, por mais que se exaltassem as virtudes da organização partidária. O irmão-gêmeo do carisma foi o desprezo pela bagagem cultural -o pão nosso de cada dia dos intelectuais!-, em nome de uma intuição rara, que fazia do líder carismático ‘o melhor dentre todos nós’. A contrapartida para quem apontasse a inadequação desse caminho ou criticasse as formulações equivocadas sobre a economia e a natureza da sociedade era a rotulação desqualificadora: elitista, preconceituoso, colonizado, neoliberal etc.


Tudo isso acabou como acabou. Hoje, há quem se agarre ao barco que navega num pântano, de quem dele saiu há bom tempo e há quem se entregue a silêncios embaraçados e até a delírios conspiratórios.


Mas essas opções pessoais importam pouco. Importa bem mais a percepção de que os intelectuais podem ter um papel relevante na sua área específica, ou seja, na ampliação de perspectivas, na análise mais abrangente de nossos problemas, na formulação de propostas. Duas condições mínimas para tanto me parecem, porém, indispensáveis: o respeito ao pluralismo democrático e a certeza de que, mesmo para avançar no campo especulativo, é preciso levar em conta o saber técnico e não se desprender da terra, embarcando no mundo dos sonhos.


Boris Fausto, historiador, é presidente do Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional) da USP. É autor de, entre outras obras, ‘A Revolução de 30’ (Cia. das Letras).’



Kennedy Alencar


‘Lula volta à TV e fala sobre crise em cadeia nacional ‘, copyright Folha de S. Paulo, 7/09/05


‘Em pronunciamento de rádio e TV hoje à noite, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebaterá a crítica da oposição de que o crescimento da economia se deve ao bom cenário internacional e voltará a abordar a crise política.


Por seis minutos, Lula dirá, por exemplo, que resultaram de ações do governo as principais descobertas sobre corrupção da crise e argumentará que fez a sua parte ao pedir investigações rápidas quando apareceram denúncias.


O presidente citará dados do relatório elaborado pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, mostrando as ações do governo em resposta às acusações de corrupção. Citará dados da Polícia Federal, da Receita Federal e da Corregedoria Geral da União. Tratará ainda do trabalho das CPIs no Congresso.


Lula dirá também que é injusto a oposição afirmar que o PIB (Produto Interno Bruto) cresce favorecido pelo cenário internacional e que o ritmo poderia ser mais forte se a política econômica fosse menos ortodoxa. Dirá que foram decisões do governo que garantiram, na sua visão, um crescimento econômico com baixa inflação.


Voltará a dizer que não permitirá que supostas ações da oposição na crise por conta das eleições de 2006 coloquem a economia em risco. E repetirá dados econômicos positivos, como o desempenho da exportações.


Correção


Faz duas semanas que Lula prepara um pronunciamento. A data de 7 de setembro foi vista como uma oportunidade para Lula ‘corrigir’, segundo suas próprias palavras, o discurso de abertura da reunião ministerial no dia 12 de agosto. Naquele dia, Lula olhava para o teto e usou um tom de voz burocrático. Agora, pretende falar de forma mais enfática, disseram auxiliares, e repetir de forma mais articulada o que tem dito em seus discursos de improviso.


Lula chegou a pedir modificações em textos preparados pela equipe do ministro Luiz Dulci (Secretaria Geral). O pronunciamento ficou aos cuidados do publicitário Paulo de Tarso da Cunha Santos, da agência Matisse. Ele fez as campanhas de Lula em 1989 e 1994, além de trabalhos de publicidade no governo.


Será o primeiro pronunciamento oficial gravado por Lula que não será feito pelo publicitário Duda Mendonça, que fez a campanha em 2002. Desde que depôs à CPI dos Correios e admitiu recebido pagamento de Marcos Valério no exterior, Duda deixou de cuidar da imagem do presidente.’



Luiz Francisco e Ranier Bragon


‘Empresário nega à Câmara ter pago propina a Severino ‘, copyright Folha de S. Paulo, 6/09/05


‘O empresário Sebastião Augusto Buani, 54, negou ontem, em depoimento que prestou na Câmara dos Deputados, que tenha pago propina ao presidente da Casa, Severino Cavalcanti (PP-PE), como forma de obter privilégios em um contrato de exploração de um dos restaurantes do Congresso.


‘Eu não tenho dinheiro nem para pagar minhas contas, quanto mais para pagar propina. Eu não paguei propina a ninguém’, afirmou, após o depoimento. Foi a primeira vez que Buani falou sobre propina.


Conforme a última edição das revistas ‘Veja’ e ‘Época’, Severino teria recebido uma mesada de R$ 10 mil de Buani, ao longo de 2003, para permitir que o empresários renovasse os contratos de arrendamento que mantinha com a Câmara. Buani comanda a rede de restaurantes Fiorela -um deles fica localizado no 10º andar da Casa.


Apesar de negar a existência de propina, Buani e seu advogado, Sebastião Coelho da Silva, foram evasivos em várias respostas e deixaram no ar a possibilidade de comprovação de parte das denúncias.


‘Algum fato ou outro pode ser procedente’, disse o advogado. ‘Vou dar meu depoimento completo, tudo o que tiver de dizer, à Polícia Federal’, afirmou Buani. A pedido de Severino, a PF abriu inquérito para investigar o caso.


Documento


No depoimento de ontem, Buani não negou possuir um documento assinado por Severino concedendo a ele prorrogação do contrato de arrendamento do restaurante do 10º -pelo qual paga R$ 11.580 ao mês- por cinco anos. O documento não consta dos arquivos da Câmara e seria, de acordo com as denúncias publicadas nas revistas, uma das evidências do suposto favorecimento a Buani em troca do pagamento de propina.


‘No momento próprio, vai ser apresentado o que eu tiver’, se limitou a dizer o empresário.


Severino é suspeito de ter cobrado de Buani o ‘mensalinho’ quando era primeiro secretário da Casa. Além disso, teria recebido, juntamente com o deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE), ainda de acordo com as denúncias das revistas, propina de R$ 40 mil do empresário em 2002 também para ajudá-lo a manter o contrato do restaurante. Patriota seria o homem de contato entre Severino e Buani.


Severino nega todas as acusações e diz que foi vítima de uma tentativa de extorsão por parte do empresário. Ontem, a oposição pediu formalmente o seu afastamento até que sejam concluídas as investigações.


Buani prestou depoimento por cerca de três horas a uma comissão de sindicância da Diretoria Geral da Câmara, formada por três assessores jurídicos.


No depoimento, distribuído aos jornalistas, o empresário responsabiliza indiretamente pelas denúncias o ex-funcionário Izeilton Carvalho, que era até a quinta-feira o gerente-executivo do seu restaurante na Câmara. Segundo funcionários, Carvalho saiu do emprego porque teria uma oferta de emprego em Rio Verde (GO).


‘Tomei conhecimento pela imprensa de que quem fez a denúncia teria feito em troca de vantagens financeiras’, afirmou Buani. De acordo com a ‘Época’, Carvalho elaborou um dossiê com as acusações e tentou vendê-lo à revista, que não aceitou.


Buani também negou à comissão de sindicância ter conhecimento do dossiê em que as acusações contra Severino são relatadas -supostamente feito com base em anotações sobre a propina feitas pelo próprio empresário. ‘Raramente anotava as ocorrências havidas com empregados ou de qualquer ordem no curso da execução do contrato com a Câmara. As anotações se restringiam àquelas relativas a movimentação financeira, controle de cheques e eventos’, disse.


O advogado do empresário, entretanto, disse, após o depoimento, que Carvalho era funcionário de confiança e, como tal, pode ter usado ‘um ou outro manuscrito’ de Buani para elaborar o relato. ‘Ele [Buani] fez as anotações rotineiras de trabalho, mas não fez nenhum dossiê’, afirmou.


Fim do contrato


Durante o depoimento, o empresário recebeu uma notificação da diretoria da Câmara informando a intenção de rompimento unilateral do contrato de exploração do restaurante, que vence no dia 14.


Buani diz dever à Câmara R$ 105 mil, mas afirma possuir um crédito de aproximadamente R$ 30 mil por eventos que teria realizado. Ele tem cinco dias para contestar a intenção da Câmara.’



Ranier Bragon


‘Documento apócrifo detalha pagamento ‘, copyright Folha de S. Paulo, 6/09/05


‘A Folha teve acesso à cópia do documento intitulado ‘A História de um Mensalinho’, cuja autoria é negada pelo empresário Sebastião Augusto Buani. O documento tem duas páginas e diz que Severino Cavalcanti teria recebido 13 pacotes de dinheiro em 2003, o que totalizaria R$ 84 mil, e que ligava de ‘seis a dez vezes ao dia’ para cobrar do empresário a propina de R$ 10 mil mensais.


O texto está escrito na primeira pessoa e seria um suposto desabafo de Buani. O empresário disse ontem desconhecer a existência do relato, que atribui ao seu ex-gerente-executivo Izeilton Carvalho. A Folha não localizou Carvalho para confirmar se foi ele quem produziu o documento. Segundo a revista ‘Época’, Carvalho tentou vender o dossiê com as informações contra Severino, mas a revista não aceitou.


Segundo o dossiê, outro suposto documento, o que teria sido assinado por Severino concedendo uma prorrogação ilegal do contrato dos restaurantes e lanchonetes de Buani na Câmara, teria sido redigido pelo deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE), aliado de Severino. ‘Tudo começou no ano de 2002 quando solicitei à Primeira Secretaria [então comandada por Severino] a nossa programação de contrato de concessão’, diz o texto. A intenção seria continuar explorando por mais três anos os três restaurantes, inclusive o do 10º andar, o Fiorela, e seis lanchonetes que Buani administrava.


‘Não conseguimos, foi então que ao comentar [com] o Gonzaga Patriota, ouvimos dele a promessa em [sic] nos ajudar’, continua o texto. O relato diz que, dias depois, Buani foi chamado ao gabinete de Severino, que o recebeu ao lado de Patriota. ‘Gonzaga Patriota falou: ‘Temos uma saída’. E foi para o computador e digitou um termo que dizia, de acordo com ao [sic] pagamento tal, artigo tal, autorizo tal prorrogação até janeiro de 2005’. Segundo o texto, Severino ‘prontamente assinou’ o papel redigido por Patriota.


Uma eventual renovação até 2005 da concessão de todos os restaurantes da Câmara comprovaria o beneficiamento de Severino a Buani. Os órgãos técnicos da Câmara orientavam por uma renovação anual. Buani não negou nem confirmou a existência do documento no depoimento que prestou ontem.


Severino admite que pode ter assinado sem saber do conteúdo. Patriota nega ter patrocinado os encontros e diz ser ‘fantasiosa’ a versão: ‘Fiquei atônito. Nunca aconteceu isso. Sou um homem sério, tenho cinco mandatos’.


Ainda no suposto encontro teria havido o primeiro pedido de propina. ‘Estamos em ano de campanha, estamos no maior sufoco e precisamos de ajuda’, teriam dito os dois deputados, segundo o texto. ‘Acabei cedendo, pois não via outra alternativa. Com muita luta consegui reduzir o valor pedido, acertando em R$ 40 mil.’ O dinheiro teria sido entregue aos dois numa agência do Bradesco.


Já em 2003, quando solicitava reajuste nos preços de suas lanchonetes, Buani teria sido achacado em R$ 10 mil mensais: ‘Era cobrado quase que diariamente pelo próprio Severino’. A propina seria entregue a duas funcionárias de Severino, ‘Gabriela’ e ‘Rucélia’. Severino teria pego o dinheiro pessoalmente em duas ocasiões. Um cheque de Buani teria sido descontado por um motorista de Severino para pagar uma fatura de seu cartão de crédito.


A história tem dois pontos nebulosos: 1) na maior parte de 2003 Severino foi segundo secretário da Câmara, posto que não tem ingerência sobre os contratos administrativos; 2) 2003 foi o ano da edição do Ato da Mesa 18, que determinou o fim do monopólio na exploração dos restaurantes e lanchonetes da Câmara. Não há registro de oposição de Severino.’



***


‘‘Veja’ diz não ter pago para obter relato de propina’, copyright Folha de S. Paulo, 6/09/05


‘Procurada ontem pela Folha, a revista ‘Veja’ confirmou o teor da reportagem a respeito da propina que o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, teria recebido do empresário Sebastião Buani, e descartou que tenha obtido qualquer informação em troca de pagamento.


Segundo o redator-chefe da ‘Veja’, Mario Sabino, ‘a revista não construiu sua reportagem comprando informação, coisa que jamais fez.’ ‘Temos documentos que comprovam o achaque do Severino e iremos publicá-los em nossa próxima edição’, afirmou Sabino.


Sem citar a ‘Veja’, as revistas ‘Época’ e ‘IstoÉ’ afirmaram neste fim de semana terem sido procuradas por supostos interlocutores de Buani que estariam dispostos a vender informações sobre o ‘mensalinho’ pago pelo empresário a Severino.’



Daniel Castro


‘MTV chama ‘panelaço’ contra corrupção ‘, copyright Folha de S. Paulo, 7/09/05


‘Emissora do Grupo Abril voltada para o público jovem, a MTV vai incentivar hoje, feriado cívico, um ‘panelaço’ contra a corrupção. A emissora interromperá sua programação às 16h55 e, durante dez minutos, exibirá na tela uma tarja com os dizeres ‘Desligue a TV e vá bater panela’. Ao fundo, apenas o barulho de panelas.


A MTV apresenta desde ontem chamadas convocando sua audiência para o ‘panelaço’. Zico Goes, diretor de programação, diz que soube do protesto pela internet e resolveu adotá-lo, adaptando-o à campanha que exibe desde o ano passado, incentivando a leitura _diariamente, entre 14h30 e 16h, uma vinheta de cinco minutos diz: ‘Desligue a TV e vá ler um livro’. É a primeira vez que a MTV se manifesta sobre a crise.


Além disso, a MTV apresenta desde ontem à tarde uma vinheta que funciona como um editorial (opinião da emissora). Durante 45 segundos, a VJ Marina Person lê um ‘texto-desabafo’ em que mostra indignação diante do escândalo do ‘mensalão’. O texto fala em ‘moralistas que estão bancando picaretas e picaretas que estão bancando moralistas’.


‘A coisa não é contra o PT nem contra o governo, é contra a classe política. Isso aí já existe há tempos. É uma campanha de conscientização. A mensagem é para se ligar nessa confusão porque no ano que vem tem eleições. Nossa postura é sempre dizer para [o jovem] ficar atento’, afirma Goes.


OUTRO CANAL


Banquinho A Band ainda não assume, mas Raul Gil já é dela. O contrato foi assinado na semana passada. A emissora ainda não divulga porque o apresentador tem contrato com a Record até 31 de outubro. Na Band, ele deverá ter um programa aos domingos.


Caravana Anteontem, na gravação do ‘Programa Raul Gil’ do próximo sábado, cerca de 20 mulheres que estavam na platéia do teatro da Record exibiam camisetas e uma faixa com a frase ‘Fica, Raul Gil’. A dúvida é se a Record colocará isso no ar.


Coffee-shop Manoel Carlos (autor) e Jayme Monjardim (diretor) jantaram anteontem no Rio com Ana Paula Arósio. No ‘menu’, o personagem (central) que a atriz desempenhará em ‘Páginas da Vida’, novela das oito da Globo que substituirá ‘Belíssima’, em 2006. Em outubro, Monjardim e Manoel Carlos devem viajar para Amsterdã em busca de locações internacionais.


Ovação José Hamilton Ribeiro, repórter que cobriu a Guerra do Vietnã, deu uma palestra ontem de manhã para 30 jornalistas de todo o país que freqüentam curso de especialização em telejornalismo promovido pela USP (Universidade de São Paulo) e pela TV Globo. No final, a organização do curso mostrou um vídeo com momentos marcantes da carreira de Ribeiro, que foi aplaudido, de pé, durante mais de cinco minutos.’



O Estado de S. Paulo


‘Severino, como era de se esperar ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 6/09/05


‘A eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) para a presidência da Câmara dos Deputados significou um verdadeiro marco. Marco da insensibilidade e da incompetência articulatória tanto do governo Lula quanto do PT. Participando da disputa dois candidatos petistas, um aceito apenas pela ala majoritária do partido – mas indigesto para a grande maioria dos deputados federais – e outro repudiado pelo Planalto (ao qual fora fiel) por motivos não muito claros, venceu o chamado ‘rei do baixo clero’ – graças aos ‘votos no Cacareco’ dos que não aceitaram a imposição do candidato petista. Já bem conhecido por suas posições despudoradamente fisiológicas, por seu exacerbado corporativismo – que sempre o levou a defender aumentos de ganho e de vantagens para sua ‘classe’ parlamentar – e sobretudo por seu primarismo, Severino Cavalcanti, guindado ao comando de uma das Casas do Legislativo, constituiu, por si, uma aberração. E de lá para cá ele apenas confirmou a ausência de qualificações intelectuais e éticas para permanecer em tão importante função pública.


Se Severino representa algum grupo político – e mais certo seria dizer que não representa nenhum -, este seria, exclusivamente, o próprio ‘baixo clero’. E esse agrupamento, felizmente não majoritário na Câmara, não é assim chamado por formar um bloco de tímidos e modestos – e muitos deles nem o são -, mas sim por caracterizar certas carreiras políticas regionais, mais interessadas em obter prebendas, cargos públicos para parentes e amigos, além de vantagens pessoais. E claro está que tais motivações se situam bem distantes do que possa ser considerado interesse público. Se o ‘baixo clero’ é formado por políticos pouco notórios, Severino Cavalcanti adquiriu notoriedade justamente por sintetizar suas características na participação continuada que tem tido na Mesa da Câmara.


Depois de ter proferido muitas inconveniências – para dizer o menos – como presidente da Câmara, o deputado Severino chegou ao auge da quebra de decoro ao pleitear ‘pena branda’ para os parlamentares que praticaram crimes como a oferta, distribuição ou recebimento de ‘mensalão’, o uso de caixa 2 em campanhas eleitorais e delitos correlatos. Neste sentido a reação do deputado Fernando Gabeira, em uma das cenas mais agressivas já vistas no Parlamento nos últimos tempos, significou um verdadeiro desabafo de uma grande maioria de parlamentares, que vê na figura do deputado Severino um fator de permanente desmoralização da Casa. Por tudo isso nem teria sido necessário o novo escândalo do ‘mensalinho’, para que deputados de vários partidos se mobilizassem, com o objetivo de destituir o presidente da Câmara.


É pesada e exige investigação a acusação do empresário Sebastião Augusto Buani, proprietário do restaurante Fiorella, instalado no 10º andar do prédio anexo à Câmara dos Deputados. Segundo o empresário – que ontem, em depoimento à Comissão de Sindicância da Câmara, negou o que dissera à revista Veja -, o deputado Severino Cavalcanti, na condição de primeiro-secretário da Mesa Diretora, teria cobrado propina (um ‘mensalinho’ de R$ 10 mil) de março a novembro de 2003, para que seu restaurante continuasse funcionando naquele local, depois de vencido o respectivo contrato de locação. Além de ter anotado em pormenores os pagamentos, o empresário mostrou um documento, obviamente sem valor jurídico, em que Severino ‘prorrogava’ aquela locação, desconsiderando a exigência legal de licitação. Se comprovado, além de quebra de decoro o caso poderia implicar concussão – a extorsão praticada por servidor público.


Por iniciativa de um grupo de partidos – PFL, PSDB, PPS e PV, além da ala esquerda do PT – que deve ser engrossado por outros e por importantes lideranças da Casa, haverá a tentativa inicial de convencer Severino Cavalcanti a se licenciar do cargo de presidente da Câmara, até que sejam apuradas as graves denúncias que lhe são imputadas. Caso ele não concorde com esse afastamento – e já é conhecida sua teimosia -, o grupo tentará obter o apoio de todas as bancadas partidárias nesse pedido de afastamento. Também não funcionando essa solicitação reforçada, os partidos que apóiam a destituição de Severino entrarão com uma representação contra o deputado, no Conselho de Ética da Câmara, por quebra de decoro. De qualquer forma, ‘mensalinho’ à parte, esta é uma oportunidade de se agir em benefício da boa imagem da Câmara dos Deputados e dos Poderes de Estado do Brasil, por extensão.’



DECORO & IMPRENSA


Carlos Heitor Cony


‘Trajes menores ‘, copyright Folha de S. Paulo, 7/09/05


‘Na primeira legislatura do Congresso Nacional após a ditadura do Estado Novo, o primeiro deputado cassado por falta de decoro parlamentar foi Barreto Pinto. Não tenho certeza se havia ‘mensalão’ naquela época, talvez houvesse, mas sem dar tanto na vista. O que deu na vista é que o deputado, que vivia com uma milionária num palacete na avenida Oswaldo Cruz, foi fotografado de cueca.


Não consta que houvesse dinheiro na jogada. Uma cueca é uma cueca, serve para outra coisa, embora possa servir para guardar dinheiro.


A história é conhecida, pelo menos o foi na época. Figura extravagante, Barreto Pinto gabava-se de viver como milionário, conquistara uma famosa cantora lírica, dona do palácio Martinelli. Plebeu de origem, gostava de aparecer como um ‘grand seigneur’. O fotógrafo Jean Manzon, de ‘O Cruzeiro’, foi fazer uma entrevista com o deputado. Pediu uma foto em que ele, de casaca, estivesse bebendo champanha, no esplendor de seus domínios.


Combinaram que Barreto Pinto vestiria apenas a casaca, a camisa e a gravata, a foto seria tirada da cintura para cima -com a boa vida que levava, o deputado havia engordado e seria difícil espremê-lo dentro da calça adequada. A revista publicou a foto inteira, a casaca, a cueca e, dentro delas, o deputado.


A sociedade (a mesma que hoje está estupefata com outra cueca) ficou pasma, digo mais, ficou repugnada diante de um representante do povo que se apresentava à face da nação em trajes menores (naquele tempo, cueca era palavra que não se publicava na imprensa, o politicamente correto adotado pelos jornais era a expressão ‘trajes menores’).


Não sei por que estou falando em cueca no dia de hoje, em que a pátria comemora o 183º aniversário de sua independência. Os primeiros portugueses que aqui chegaram estranharam as ‘vergonhas’ dos nossos índios. Melhoramos muito com nossos trajes menores.’



TODA MÍDIA


Nelson de Sá


‘De morte! ‘, copyright Folha de S. Paulo, 7/09/05


‘A ‘prova’ foi recebida com cautela nos sites, canais de notícias, depois os telejornais. Para o ‘Jornal Nacional’, ‘pode ser a prova’.


Era a manchete no site da ‘Veja’, em pleno fim de tarde de terça, ‘Documento ilegal prova benefício a empresário’, mais a foto de Severino.


A cautela contrastou com o descontrole dos blogs, que saíram proclamando a queda. Claudio Weber Abramo foi o mais contido:


– Taí. Severino de fato prorrogou indevidamente o contrato de concessão.


Cesar Maia partiu logo para as exclamações:


– Veja Online ataca Severino! De morte!


Jorge Bastos Moreno:


– Acabou-se o que era doce.


E Ricardo Noblat:


– Severino está ferrado.


Desde a manhã os blogueiros vinham em suspense, esperando ‘a qualquer momento’ a prova que deixaria Severino no ‘beco sem saída’.


Para registro, Severino ganhou seu quinhão de defensores, alguns inusitados.


O amigo Ciro Nogueira falou desde a manhã para Band, Band News, rádio Bandeirantes, os telejornais todos.


Mais curioso foi ler, no site da Agência Estado, antes de aparecer a prova, que Aécio Neves se declarou ‘contra o afastamento de Severino’. Naquele momento, a manchete no site do PSDB dizia que ‘o pepista deveria se afastar do cargo’.


Na escalada do ‘JN’, PSDB, PFL e simpatizantes foram um passo adiante:


– Oposição se organiza para pedir a cassação.


Já na primeira manchete do ‘SBT Brasil’:


– A importância do caso Severino vai além do personagem. Trata-se da disputa política pela terceira cadeira na linha da Presidência da República, o que explica muita coisa.


É o que os blogs do Globo Online vêm dizendo desde anteontem:


– A nova eleição na Câmara seria um espetáculo dramático. A oposição radicalizaria ao máximo para botar um dos seus -que, uma vez eleito, daria seguimento a um pedido de impeachment contra o presidente da República.


Na Agência Nordeste, o pefelista ACM Neto respondia que é ‘piada de mau gosto a hipótese de que a oposição’ busca, ao tirar Severino, ‘abrir caminho ao impeachment’.


Mas Roberto Freire nem esconde. Disse à CBN que ‘o processo de impeachment de Lula só não foi deflagrado até o momento por falta de mobilização da sociedade’.


Que prossegue, pelo que se viu ontem em São Paulo. Os números eram os mais variados, ainda que quase sempre ‘segundo a Polícia Militar’.


Na Folha Online, ‘cerca de mil’. No Globo Online, ‘cerca de dois mil’. No site da Agência Estado, ‘cerca de seis mil’. Na rádio Jovem Pan, ‘cerca de dois a três mil’. Na CBN, ‘três mil’. No ‘Jornal da Record’, ‘cinco mil’. No ‘JN’ e ‘Jornal da Band’, ‘três mil’.


O Blog do Cesar Maia ironizou, afirmando que a meta era ‘para levar 30 mil no mínimo’ mas o que apareceu foi ‘pífio’. O título da nota:


– Aqui entre nós: o ato fracassou!


NO AR


Roberto Jefferson, em comercial, diz estar ‘sujeito até à cassação, mas de cabeça erguida’: – Desmontei o maior esquema de corrupção da história do Brasil. Mostrei ao Brasil, mostrei a sua gente o que é o governo do presidente Lula.


OTIMISMO E MEDO


William Bonner e Boris Casoy só destacaram, nas manchetes de Globo e Record, que aumentou ‘a estimativa de crescimento para este ano’. Na escalada do SBT, Ana Paula Padrão fez o contraste:


– Otimismo: previsões indicam que a economia deve crescer mais do que se esperava. Pessimismo: Brasília reforça a segurança do Sete de Setembro com medo de manifestações.


É o Grito dos Excluídos que faz a capital cercar seus prédios. Vai ecoar de Aparecida do Norte a São Paulo e Brasília e questionar precisamente a economia. Com os sem-terra na dianteira, quer um ‘novo modelo econômico’, segundo a manchete do site Carta Maior, próximo dos movimentos sociais.


Mas Lula insiste. ‘Convocou rede’, destacou a Record, e vai celebrar o crescimento.’


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PRIMEIRAS EDIçõES > ITÁLIA

Boris Fausto

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

ITÁLIA

“O fenômeno Berlusconi”, copyright Folha de S. Paulo, 15/01/04

“Como entender o fenômeno Berlusconi, por duas vezes à frente do governo italiano, não obstante a descarada confusão que faz entre seus interesses privados e a esfera pública, em benefício dos primeiros?

Uma explicação simples consistiria em dizer que o primeiro-ministro italiano magnetiza uma grande parte da sociedade, graças ao poder que detém nos meios de comunicação. De fato, ?IL Cavalieri? é o homem mais rico da Itália, controlando um vasto império financeiro, imobiliário e, especialmente, três canais de televisão. A explicação faz sentido sob muitos aspectos, pois, como ninguém ignora, o poder da mídia, em particular da televisão, é um dado integrante da sociedade contemporânea, a tal ponto que a construção de imagens, o recorte das notícias, a ênfase nesta ou naquela figura têm um impacto enorme nas mentes e nos corações, para usar uma expressão que se tornou banal, mas nem por isso menos verdadeira.

Usando sobretudo seus canais de televisão, Berlusconi contribuiu poderosamente para despolitizar o debate na mídia italiana e modelou os gostos e inclinações de um eleitorado fiel, com uma forte concentração entre mulheres que assistem à televisão por longas horas. Mas esse é o lado ?soft? do fenômeno Berlusconi, que se associa também ao clientelismo sob formas extremas, à corrupção de membros do poder público, no Parlamento e no Judiciário, à intimidação de opositores na mídia, a acusações de entendimento com a máfia.

Não é o caso de multiplicar os exemplos. Mais importante é tentar entender como um homem com essas características, à frente de um partido personalista (Forza Italia), por ele talhado sob medida, exerce tanto poder na história recente da Itália. Mesmo porque, por maiores que sejam os trunfos de quem controla a mídia, há algo mais na sociedade do que um poder avassalador fabricante de imagens, de um lado, e mentes em branco, prontas a receber mensagens sedutoras, de outro.

Um livro escrito por Paul Ginsborg, historiador inglês e professor na Universidade de Florença -?Italy and Its Discontents?-, resenhado por Alexander Stille, em ?The New York Review of Books? (outubro de 2003), explora aspectos importantes das razões da ascensão de Berlusconi.

Ginsborg conta a história de uma televisão italiana fortemente monopolista e politizada até meados dos anos 70. Na década de 50, havia uma única emissora, a RAI 1, dominada pela Democracia Cristã, a que se seguiram outras, influenciadas por socialistas e comunistas. A televisão privada foi autorizada somente em 1976, com uma base local. Por aí penetrou a empresa de Berlusconi, gozando de poderosos apoios políticos, saltando leis e etapas, até chegar ao império constituído pela hoje denominada Mediaset. Com o faro da modernidade, por mais discutível que seja, ele atraiu cada vez mais espectadores, com programas de prêmios, filmes americanos, novelas e, principalmente, shows de uma gritante vulgaridade.

Um aspecto importante das observações de Ginsborg diz respeito aos setores sociais em que o primeiro-ministro tem particular influência. A análise vai no sentido de assinalar a existência na Itália de um amplo estrato social de pequenos empresários, comerciantes e industriais. Esse setor, assim como o composto pelos profissionais, sistematicamente encontra formas de sonegar impostos, disso resultando que os assalariados pagam uma das mais altas taxas impositivas de todo o mundo. De passagem, isso não nos soa familiar?

Tais setores de classe média encantam-se com a capacidade de manipulação de Berlusconi, com o mito do vencedor e, em sua maioria, tendem a perdoar os imensos ?pecados? do líder, pois não estão isentos de culpa eles próprios, ainda que em escala infinitamente menor. A observação, guardadas as muitas diferenças, não nos soa também familiar, se pensarmos nos líderes populistas da nossa direita?

Um último aspecto a ser apontado refere-se às alternativas ao poder de Berlusconi, para que não se pense em uma ?inata fascinação italiana? por figuras de seu talhe. Sua primeira vitória, em 1994, acabou em um estrepitoso fracasso, e ele foi obrigado a renunciar, em apenas oito meses, diante de denúncias de corrupção de funcionários, políticos e juízes. Mas a coalizão de centro-esquerda que o sucedeu acabou não se sustentando, enquanto ele reconstruiu sua imagem, apoiando-se na rede dos aderentes próximos, de jornalistas a membros do Parlamento.

A coalização durou mais de seis anos, mas não conseguiu manter-se no poder, em parte como resultado de seus próprios erros. Berlusconi voltou com muito mais força, garantindo seu poderio pela via de uma legislação que lhe concede privilégios e lhe dá base legal para eternizar seus oligopólios.

Por ora, parecem frágeis as possibilidades de alteração desse quadro, não obstante alguns resultados de eleições locais, a recente anulação judicial da lei que lhe garantia imunidade e sintomas de insatisfação entre outras forças componentes do governo, como é o caso da ex-fascista Aliança Nacional, liderada por Gianfranco Fini.

Mas tudo indica que é cedo para falar de uma reviravolta.”

“Fo é processado por peça que satiriza o líder”, copyright O Estado de S. Paulo, 15/01/04

“Um membro do Força Itália, partido do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, está processando o Nobel de Literatura Dario Fo por difamação em sua nova peça. O senador Marcello Dell?Utri pede 1 milhão de euros por danos resultantes de alegados ?ataques pessoais infundados? feitos por Fo na peça satírica L?Anomalo Bicefalo (O Anômalo Bicéfalo).

?Dario Fo sempre foi um grande artista. Ninguém questiona isso?, disse o advogado de Dell?Utri, Pietro Federico. ?Mas isso não é sátira. É perseguição. A sátira deve fazer as pessoas rirem de fatos reais. Mas Fo está oferecendo informações falsas. Ele é negligente. Isso causa danos à honra de meu cliente.?

?Faço sátira há 40 anos?, disse Fo terça-feira. ?Isto é um paradoxo. É grotesco.?

?Essa gente quer calar todo mundo?, afirmou a mulher de Fo, Franca Rame, ao jornal La Repubblica.

Na peça, Fo e Rame fazem os papéis de Berlusconi e sua mulher, Veronica Lario. O personagem de Fo é baixo e gordo e gesticula e reclama de seus problemas para a esposa. Seu amigo Vladimir Putin, o presidente russo, vem à Itália para ficar numa vila siciliana, mas é baleado por rebeldes chechenos.

Parte do cérebro de Putin é implantada em Berlusconi, transformando-o num homem confuso, bebedor de vodca, que fala russo e se preocupa com alguns homens bloqueados num submarino.

Na peça, o primeiro-ministro é atacado por todos os motivos, da baixa estatura à aprovação de leis em benefício próprio, passando pela direção de um monopólio de mídia e pela censura às críticas contra seu governo.

?Estamos cansados?, disse Fo, de 77 anos. ?Mas achamos que não poderíamos ficar sentados vendo o que está acontecendo na Itália.? Como os críticos de Berlusconi vêm sendo boicotados pela emissora estatal Radiotelevisione Italia, Fo reclama que os artistas estão sendo metaforicamente ?defenestrados? da RAI do mesmo modo que os dissidentes esquerdistas eram literalmente lançados pelas janelas das delegacias nos anos 70, quando o autor escreveu a célebre peça Morte Acidental de um Anarquista.

Em referências a Dell?Utri, que está sendo julgado por supostamente lavar dinheiro da Máfia por meio da empresa de publicidade Publitalia, de Berlusconi, Fo acusa o senador de ligações com o crime organizado e o narcotráfico. Um mafioso arrependido, Antonino Giuffre, alegou que o siciliano Dell?Utri, um fundador do Força Itália e ex-parceiro de negócios de Berlusconi, ajudou a convencer a Máfia a apoiar o partido no início dos anos 90.

Dell?Utri sempre negou todas as acusações e o governo de Berlusconi desmentiu as alegações sobre a Máfia. Fo planeja transmitir seu espetáculo ao vivo para telões em teatros no país todo. Os advogados de Dell?Utri também entraram em contato com a TV via satélite Sky Italia para convencê-la a não transmitir L?Anomalo Bicefalo, o que está programado para este ano.

?Se essa peça chegar à TV, os danos serão de pelo menos 2 milhões de euros?, disse Federico.”

“Farsa, tragédia e comédia em palco italiano”, copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 18/01/04

“As cortantes sátiras de Dario Fo sobre as autoridades e os poderosos o conduziram ao topo das letras italianas, um pináculo decorado com um prêmio Nobel. Em sua nova peça, no entanto, o autor escolheu para usar como alvo aquele que é seu alvo favorito, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi (que na semana passada perdeu sua imunidade, em decisão da Corte Constitucional da Itália, e agora pode ser julgado em processo no qual é acusado de corrupção), de uma altura consideravelmente mais modesta. Aproximadamente 75 centímetros, para ser exato.

?No começo da tirada esquerdista [?A Anomalia de Duas Cabeças?] explica-se que Berlusconi passou por uma cirurgia de emergência na qual foi transplantada parte do cérebro do presidente russo Vladimir Putin para a cabeça dele. (…) Isso foi inspirado pela amizade entre os líderes, que tendem a usar roupas combinadas durante suas conferências de cúpula?

?Membros do partido político de Berlusconi tentaram obter uma cópia do texto de ?A Anomalia de Duas Cabeças? antes mesmo de saberem que era sobre o primeiro-ministro?

Fo passou mais de metade de uma encenação lotada de sua peça ?A Anomalia de Duas Cabeças? retratando Silvio Berlusconi como uma espécie de anão tirânico.

?Não somos tão cruéis com relação a ele?, disse Fo, que trabalha na peça e continua ágil mesmo aos 77 anos de idade. ?Dizemos somente que ele é uma espécie de anão, como se fosse uma marionete.?

Para criar o efeito, Fo fica em pé em um fosso por trás do palco principal, com os seus braços escondidos por pequenas calças listradas e as suas mãos manipulando pequenos sapatos lustrosos.

E como se o sapateado dele pelo palco na forma de uma espécie de boneco de ventríloquo libertado não fosse absurdo o bastante, a premissa da peça envolve uma reviravolta que acaba conseguindo ser ainda mais surreal.

No começo da tirada esquerdista em larga medida improvisada e de estrutura muito livre contra o primeiro-ministro conservador, explica-se que Berlusconi passou por uma cirurgia de emergência, na qual parte do cérebro do presidente russo Vladimir V. Putin foi transplantada para a cabeça dele. Isso acontece depois que terroristas tchetchenos atacam os dois líderes a tiros enquanto eles se preparam para dormir praticando caratê em quimonos que são combinados.

Laços russo-italianos

A sátira foi inspirada pela amizade entre os líderes, que tendem a usar roupas combinadas durante suas conferências de cúpula (chapéus de pele em dachas russas e calças de linho em vilas da Sardenha).

Berlusconi enfureceu muitos políticos europeus em uma entrevista coletiva no mês passado ao defender as ações de Putin contra os separatistas da Tchetchênia.

Além daquilo que Fo menciona no palco como o número do ?Dr. Jekyll e Mr. Hyde?, com referências ao gosto que Berlusconi veio a adquirir pela vodca e memórias dos tempos da KGB, a peça coloca em destaque uma preocupação muito real na vida cultural contemporânea da Itália.

Críticos como Fo sentem que o poder político e a imensa influência cultural de Berlusconi -o primeiro-ministro é um magnata da mídia e a pessoa mais rica de seu país- criam um conflito de interesse que acaba servindo de ponto de origem à censura.

?É um momento difícil para a sátira?, disse ele no camarim, antes do espetáculo. ?Berlusconi tem suas mãos em toda parte. A sátira precisa ter a tragédia como base. Bem, a Itália agora é verdadeiramente trágica. Nunca estivemos tão por baixo.?

E o mesmo se aplica a Berlusconi, na peça, o que o teria deixado muito insatisfeito com a forma pela qual é retratado.

?Há um comediante italiano que trabalha dentro de um buraco?, declarou o primeiro-ministro durante uma entrevista, ?para criar a impressão de um anão demoníaco?.

?Não acredito que eu seja um anão?, afirmou.

?A nova geração come melhor e pratica mais esportes que eu, mas sou um italiano médio.?

Berlusconi também argumentou que a esquerda ?ataca o governo e especialmente o primeiro-ministro da Itália continuamente?.

Fo rebateu dizendo que ele e outros satiristas são as verdadeiras vítimas. Disse que membros do partido político de Berlusconi haviam tentado obter uma cópia do texto de ?A Anomalia de Duas Cabeças? -que ele interpreta ao lado de Franca Rame, sua mulher e constante colaboradora. ?Antes mesmo que soubessem que se tratava de Berlusconi?, afirma Fo.

Fo disse ter recusado entregar o texto a uma reunião de diretores de teatro que ele classifica como ?politicamente motivada?, em Milão, embora afirme que a produção da peça não foi atrapalhada de maneira alguma.

Sátiras

Funcionários próximos a Berlusconi dizem que até mesmo a acusação de que o primeiro-ministro interfere é absurda, apontando que há muita sátira sobre ele na Itália. As primeiras páginas dos jornais italianos rotineiramente exibem caricaturas do primeiro-ministro e charges nas quais ele é satirizado. Os programas de humor e sátira da TV italiana dão grande destaque a Berlusconi com regularidade.

Mas os críticos geralmente alegam que há muitos outros lugares em que a sátira não encontra lugar. Nas últimas semanas, o presidente italiano se recusou a assinar uma lei aprovada pelos aliados de Berlusconi no Parlamento Italiano que possibilitaria uma futura expansão das propriedades do primeiro-ministro no setor de mídia, enquanto as emissoras estatais de televisão suspenderam os programas de alguns humoristas depois que o grupo midiático controlado por Silvio Berlusconi os classificou como ?propaganda política? e ameaçou realizar abertura de processos.

?Eles não os censuraram, simplesmente; os enxotaram?, afirmou Fo.

A família de Silvio Berlusconi controla grandes editoras e empresas de distribuição de filmes, jornais e três dos sete canais nacionais de televisão italianos. Três dos demais canais são controlados pelo governo.

O espetáculo

Apesar de todas as suas graves acusações, ?A Anomalia de Duas Cabeças? tem uma levada quase de vaudeville. O espetáculo consiste em larga medida de piadas de gordo, baixinho e careca sobre o primeiro-ministro e seus assessores. Há também ataques praticamente escatológicos não somente à política de Silvio Berlusconi mas também à sua vida pessoal e à sua ética.

E é exatamente por isso o que os fãs de Fo esperam; é isso o que desejam.

Em uma das noites do espetáculo, os compradores no saguão do teatro arremataram cerca de 5.000 (por volta de R$ 17.700) em produtos relacionados a Dario Fo, como seus livros, suas pinturas e seus vídeos.

?O Papa e a Bruxa?, uma sátira a outro dos alvos prediletos de Fo, vendeu bastante. Os produtos de maior sucesso, no entanto, são mesmo aqueles que atacam Berlusconi.

No começo do espetáculo, Rame disse à platéia que o casal planejara descansar e se recuperar pacificamente de algumas doenças, mas que as novas leis adiando o julgamento de Berlusconi por corrupção e expandindo seus interesses de negócios os haviam trazido de volta.

?Não tínhamos escolha a não ser voltar ao palco?, afirmou.

Retorno

Os 1.400 espectadores que lotaram o teatro para aquela apresentação pareciam gratos por isso. O espetáculo de três horas de duração vendeu todos os ingressos para sua temporada de uma semana na capital italiana, e o casal saiu em turnê pela Itália para mais outras 50 apresentações.

No entanto, dentre os espectadores havia quem considerasse que a peça sequer fosse necessária.

?A essa altura, a realidade tornou-se sátira?, disse Augusto Derrone, 59.

?A Itália é sempre mais surrealista, e a sátira não tem espaço para fazer seu trabalho.? (Tradução Paulo Migliacci)”

“Fo é processado por sátira a Berlusconi”, copyright Folha de S. Paulo, 18/01/04

“O senador Marcello Dell?Utri, do mesmo partido do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, Forza Italia, está processando Dario Fo por difamação na peça ?A Anomalia de Duas Cabeças?, informou o jornal britânico ?The Guardian? na quarta-feira passada.

A indenização pedida é de 1 milhão pelos danos causados por ?ataques infundados e pessoais?.

Segundo o advogado do senador, Pietro Federico, ?Dario Fo sempre foi um grande artista. Ninguém questiona isso. Mas isso não é sátira. É perseguição. A sátira deve fazer as pessoas rirem de fatos reais. Mas Fo está oferecendo informações falsas. Ele é negligente. Isso causa danos à honra de meu cliente?. Ao que Dario Fo respondeu: ?Faço sátira há 40 anos. Isto é um paradoxo. É grotesco?.

Prêmio Nobel de Literatura em 1997, o diretor, dramaturgo e ator Dario Fo ganhou fama internacional com suas sátiras e farsas políticas. Os principais alvos de seus textos são o capitalismo, o imperialismo e a corrupção no governo italiano.

Nascido em Sangiano, perto de Milão, Fo enfrentou momentos de repressão durante a carreira. Censurado, exilado da TV por 15 anos e proibido de entrar nos EUA, foi processado pelo menos 47 vezes e preso, acusado de subversão, em 1974. A cada provocação, rebatia com críticas aos adversários.

Entre as peças representadas no Brasil estão ?Morte Acidental de um Anarquista? e ?Não Roubarás?. Seu ?Manual Mínimo do Ator? foi publicado em 1998.”

“Desigualdade na Lei”, copyright Jornal do Brasil, 15/01/04

“A derrota sofrida esta semana pelo primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, perante a Corte Constitucional da Itália, chega ao Brasil como exemplo que devia ser meditado e – quando possível – seguido. Lá, decidiu-se que era inconstitucional a lei de imunidade, que vinha impedindo a reabertura de processo criminal contra Berlusconi, acusado de corromper juízes e obter decisões para favorecer suas empresas, na década de 80, em processo de privatização.

A convicção da mais alta instância da Justiça italiana – ao decretar o fim do privilégio para o primeiro-ministro – era que a imunidade violava o princípio constitucional da igualdade de todos perante a lei. Agora, Berlusconi, mesmo sendo o homem mais rico e mais poderoso da Itália, vai ter que sentar no banco dos réus como qualquer mortal.

O Brasil devia mirar-se no exemplo dos juízes italianos que não pouparam a pose, o dinheiro nem o cargo de seu primeiro-ministro. Deram ao mundo a lição de que uma democracia não deve comportar a existência de cidadãos de primeira e de segunda categorias.

A Constituição Federal brasileira assegura que todos são iguais perante a lei. Mas o que se vê na realidade não é bem assim. Alguns são sempre mais iguais do que outros. Há situações de privilegiamento mascarado de prerrogativas de cargo ou de função. Parlamentares, autoridades e militares integram a lista dos desiguais. Para esse grupo de cidadãos de primeira existe o foro especial.

Em 2001, o Congresso Nacional ainda tentou dar uma amenizada na situação de desigualdade. Aprovou emenda à Constituição que foi saudada como o fim da imunidade parlamentar para crimes comuns. Mas preservou o foro especial. Que seja, embora o ideal é que só fosse usado no julgamento dos crimes de responsabilidade, para que não sirva de escudo ao bandido investido de autoridade.

Bom mesmo seria que todos os cidadãos tivessem tratamento igual diante dos olhos vendados da lei. A Itália acaba de mostrar ao mundo que a justiça não repele a democracia.”

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