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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ENTRE ASPAS > FAHRENHEINT 9/11

Brian E. Crowley

03/08/2004 na edição 288

‘O diretor e produtor Michael Moore, de ‘Fahrenheint 9/11’, declarou que nas eleições presidenciais de novembro estará com suas câmeras voltadas para a Flórida. O estado, que em 2000 teve graves falhas na apuração e acabou sendo o responsável pela vitória de George W. Bush, segundo o cineasta, estará sob ‘fortes refletores’ durante toda a votação e apuração dos votos. Ele pretende usar imagens de irregularidades e problemas na votação como provas judiciais. Mas não revelou se elas fariam parte de algum novo documentário.

Moore também disse que pretende estimular, financiando custos operacionais, a formação de um ‘exército de advogados’ que estarão atentos a tudo o que estiver acontecendo, prontos para recorrerem à Justiça caso percebam alguma irregularidade.

– Vamos trabalhar para que essas eleições não desrespeitem os direitos civis e ocorram dentro da legalidade – disse ele, durante um encontro com líderes políticos da Flórida.

Muitos eleitores negros, segundo o diretor, relataram que tiveram problemas para votar no estado nas eleições de 2000. Em Palm Beach, a votação teria sido confusa, com longas filas e muita gente sem conseguir votar.

– Vou ficar no estado durante todo o tempo. Com a ajuda da sociedade, vamos conseguir fazer com que essas eleições sejam diferentes, sejam transparentes e corretas, o que não aconteceu da última vez – disse Moore.

O diretor reconheceu, no entanto, que tem poucas chances de registrar em imagens eventuais problemas que ocorram durante as votações.

– Na verdade, tenho três câmeras que estarão de plantão. Mas esse é um estado grande. Não sabemos quando nem onde os problemas podem acontecer. Mas vamos tentar. Em 2000 muitas irregularidades não foram comprovadas por causa da falta de imagens – disse ele.’



Jaime Biaggio

‘Cesta básica: Bush na linha de fogo’, copyright O Globo, 27/07/04

‘Pela primeira vez na história do mercado de cinema dos EUA, o filme nº 1 na bilheteria do fim de semana foi um documentário. O feito ocorreu um mês atrás. E não foi lá muito surpreendente, se a gente for pensar bem. Afinal, é ‘Fahrenheit 11 de setembro’. É Michael Moore. Tudo com ele foge um pouco às normas desse mercado.

Moore é um documentarista popstar, de rosto conhecido, e ‘Fahrenheit 11 de setembro’, que estréia no Rio nesta sexta-feira, foi lançado em centenas de salas nos EUA. E esses dois fatos se explicam pela mesma razão: ele sabe chamar atenção para si e para suas bandeiras. Ou ainda, promover suas bandeiras através de sua imagem de cara simpaticão, mas implacavelmente ‘do contra’ no que se refere à lógica fria do mundo globalizado.

No entanto, este novo filme, um assumido manifesto anti-Bush, centrado na política externa antipática e agressiva do governo americano no pós-11 de setembro, é bem diferente de ‘Tiros em Columbine’, vencedor do Oscar de melhor documentário no ano passado. É um filme mais claramente militante, um pouco menos propenso a fazer rir (e mais ácido quando o faz; chega mesmo a ridicularizar o presidente dos EUA em dados momentos). E Moore aparece pouco na tela, embora sua presença na porta de lugares como o Congresso americano e a embaixada da Arábia Saudita ainda renda a seus interlocutores perguntas incômodas.

Esse, contudo, não é o ponto mais forte do filme. Através de uma vasta rede de colaboradores, Moore coletou imagens reveladoras, em especial dos soldados americanos no front no Iraque. Por um lado, há aqueles que lamentam estar ali e se dizem ludibriados pelo governo – algo que o público americano, o alvo principal deste filme, não vira na televisão ainda, dado o medo de discordar do governo que atingiu as emissoras de lá. De outro lado, há os que compram a tese de Bush e vestem-se com o ódio mais irracional para investir contra os iraquianos. Num dado momento, recrutas descrevem a adrenalina que sentem quando combatem da forma mais pueril, lançando mão de frases sinistras (no sentido original da palavra) como ‘esmagar o inimigo’. Há ainda o registro assustador da invasão de uma casa em Bagdá pelo exército americano, que intimida os moradores.

Por último, é um filme onde o diretor, de maneira possivelmente inédita em seu trabalho anterior, procura ganhar a platéia pela emoção. Isso se dá, em especial, nas cenas protagonizadas pela mãe de um jovem soldado morto no Iraque. Roger Ebert, um dos mais conhecidos críticos americanos de cinema, encerrou sua resenha de ‘Fahrenheit 9/11’ com a frase: ‘Bush não deve explicações a Michael Moore. Mas a essa senhora ele terá de se explicar’. Ela é o grande trunfo do documentarista.

Por tudo isso, este filme tem realmente o poder de ajudar a mudar o resultado da eleição nos EUA. E exatamente por isso, Michael Moore anda rindo à toa. Bafafás recentes como o ataque de espectadores irados em Las Vegas à cantora Linda Ronstadt, que ousara dedicar uma música a Moore, só ajudam o filme a ter mais repercussão. Tudo está indo de vento em popa para ele.’



Pedro Guimarães

‘Inimigo público número 1’, copyright Correio Braziliense, 27/07/04

‘Assim como nas grandes produções de Hollywood, em que uma boa idéia pode desencadear número sem fim de versões e remakes, a onda mundial de falar mal de George W. Bush já rendeu também outros produtos audiovisuais além do filme de Michael Moore, que estréia sexta no Brasil. Em Paris, na mesma semana de estréia de Farenheit 9/11, duas outras produções sobre temas análogos chegaram aos cinemas. Trata-se de filmes complementares ao documentário de Moore, que aprofundam em determinadas questões que o documentarista norte-americano apenas sugere, e apresentam formas de argumentação, convencimento ou organização de idéias diferentes das de Moore. No fundo, é tudo a mesma coisa: propaganda antiBush.

O primeiro deles é Le monde selon Bush (O mundo segundo Bush), de William Karel, produzido com recursos franceses – o co-produtor é um canal público, que teve direitos de transmitir o filme com exclusividade antes do cinema, e foi visto por 2,3 milhões de pessoas em 18 de junho. Le monde selon Bush é antítese do filme de Michael Moore. Organiza-se em torno de entrevistas de gente que conviveu com Bush nos primeiros anos de mandato, ex-agentes da CIA, professores, historiadores, intelectuais (o escritor Norman Mailer) e, como manda o figurino jornalístico, até aliados do presidente. Trata friamente o tema – o que Michael Moore passa léguas de distância de fazer – e pode ser considerado mais profundo e imparcial estudo audiovisual da questão 11 de Setembro-Iraque até agora.

Na questão do conteúdo, segue os passos de Farenheit 9/11, colocando questões como a suposta fraude eleitoral de 2000, a relação da família Bush com os magnatas do petróleo mundial e a fuga misteriosa dos Bin Laden no dia seguinte aos atentados. Porém, Le monde selon Bush dá voz a figuras importantes da cena política americana ignorados por Moore. Entre eles, David Frum, ex-colaborador do presidente, autor do discurso que antecedeu a invasão do Iraque e criador do termo Eixo do Mal; Colin Powell, secretário da defesa; e Hans Blix, inspetor-chefe da ONU, pessoalmente difamado e desacreditado pelo governo Bush ao relatar a inexistência de armas nucleares no Iraque. O filme vai fundo em questões de importância no desenrolar dos fatos mundiais, como a influência do vice-presidente Dick Cheney, ligações do avô do presidente com o III Reich e o caso Carlyle, empresa financiadora da campanha de Bush e que contava com o irmão de Bin Laden como membro investidor.

William Karel (especialista em documentários políticos, com filmes sobre a CIA e a extrema direita francesa) oferece, por seus entrevistados, pérolas da descrição das ações do presidente americano. Bush é descrito por alguns como stupid guy (cara estúpido), radical religioso ou mero boneco. O governo americano recebe alcunhas de ‘urubus sobre a carniça’, ‘pequena máfia’, ‘escroques’ e até ‘prostitutas de sauditas’.

Fascismo

Mas a maior acusação de todas vem de outro documentário sobre o assunto. Desta vez, por uma americana, Christine Rose, estreante na direção de filmes com Liberty bound (Limites da liberdade). Rose gasta quase meia hora do filme tentando mostrar como o governo de George W. Bush pode ser descrito como regime fascista e mais precisamente como o presidente teria similaridades alarmantes com Adolf Hitler. Seja pelas ações (cerceamento das liberdade individuais e constante vigília sobre a vida privada dos americanos; coerção violenta por parte de força militar organizada contra cidadãos de seu próprio país) ou tendo como exemplo seu percurso político (entrada no governo de maneira legal, mas ilegítima; alegações de ir à guerra para defender o povo do seu país contra ameaça externa), a diretora tenta provar que, mesmo Bush não tendo idéia de dominar o mundo, como o alemão, sua linha lembra Hitler.

O ponto de partida de Christine Rose é bem menos pretensioso que o de Michael Moore. A diretora tenta mostrar como a paranóia pós-11 de setembro influenciou o cotidiano de americanos normais, no momento em que sua vida privada passou a ser vigiada. Christine Rose, que também cresceu no Texas, vai atrás de um professor de escola preso por ter virado as costas ao presidente durante um discurso; de um americano expatriado na Europa, interpelado durante as férias nos Estados Unidos por ter mencionado o incidente de 11 de setembro; e de um homônimo de Michael Moore, veterano do Vietnã, que viu policiais federais baterem à sua porta depois que um e-mail contra a guerra, enviado por ele, foi interceptado pelo serviço de informação americano. Este Michael Moore foi proibido de ir a Washington e os agentes secretos chegaram a questionar que ele queria assassinar Bush.

Christine Rose organiza seu documentário de maneira mais parecida com a de Michael Moore. Ela intervém nas entrevistas, filma a si mesma durante as enquetes e se envolve emocionalmente com a história. Um dos fatos inéditos apresentados é a gravação da discussão entre o serviço de controle aéreo norte-americano e o piloto do avião U93, que viria a ser derrubado sobre terreno vago na Pensilvânia. Durante a breve conversa, o piloto afirma duas vezes que uma bomba está para ser ativada dentro do avião. O filme de Christine ainda não tem data para estrear no Brasil. O mundo segundo Bush está sendo negociado com a tevê brasileira.’



Silvana Arantes

‘Partidários por natureza’, copyright Folha de S. Paulo, 30/07/04

‘‘Faça alguma coisa’, diz o letreiro final de ‘Fahrenheit 11 de Setembro’, o petardo anti-Bush do cineasta norte-americano Michael Moore, que estréia hoje em 50 cinemas brasileiros.

Pelo teor indignado do filme, é natural o espectador concluir que o objetivo do diretor é que seu público levante da cadeira e aja para impedir que o atual presidente norte-americano prossiga com a série de decisões que afetam os EUA, o Iraque, o mundo, conforme Moore diz e pretende demonstrar no filme.

Porém, abaixo da frasezinha interpelativa, o caminho sugerido é: www.michaelmoore.com, o endereço farta e rotineiramente abastecido com as ‘notícias do Mike’. Está instalada a dúvida.

Michael Moore quer desbancar George W. Bush da Casa Branca e assim livrar-nos de todo mal ou simplesmente promover a si mesmo? O vencedor da Palma de Ouro 2004 é um militante disposto a fazer do cinema instrumento de intervenção na realidade ou um esperto manipulador de imagens interessado em fama e dólares?

Aberração

‘Ele efetivamente é um cineasta militante e efetivamente é um cineasta de mercado, o que parece uma aberração para nós, brasileiros’, diz Lúcia Murat, diretora hoje dedicada à ficção (‘Brava Gente Brasileira’, 2000), mas que iniciou seu caminho no documentarismo. É de Murat ‘Que Bom te Ver Viva’ (1989), painel da superação emocional de militantes brasileiras torturadas durante o regime militar.

‘Que Bom te Ver Viva’ é tributário de uma tradição de documentários engajados que vicejou no Brasil nos anos 60 e 70. O cineasta Vladimir Carvalho, que se destacou nessa geração, dirigindo (‘O País de São Saruê’, 1967), produzindo (‘Cabra Marcado para Morrer’, de Eduardo Coutinho, 1964) e fazendo assistência (‘A Opinião Pública’, de Arnaldo Jabor, 1967) de filmes, diz que ‘tem a maior simpatia pelo embate, pela coragem, pela disposição de Moore de tornar o cinema participante da batalha política’. Mas aponta o exibicionismo de Moore como uma diferença entre o militantismo cinematográfico do americano e o dos brasileiros.

‘Nossos filmes também armavam o bote, mas entravam de peito aberto na realidade. Já o que Moore faz é muito mais um corpo a corpo com a idéia política.’

Discurso

Ou, como diz João Batista de Andrade, contemporâneo de Carvalho em títulos como ‘Liberdade de Imprensa’ (1967), ‘Moore tem uma idéia e conduz o espectador para mostrar aquela tese’. O resultado, para Andrade, é que ‘você vê que ele está vendendo a idéia dele. É um cara político que, em vez de fazer o discurso, filma o discurso. Como cinema é menor, porque não traz descobertas’.

O estilo discurso filmado de Moore requer que o espectador concorde com a premissa da qual partem seus filmes. É o que observa o documentarista Kiko Goifman (‘Morte Densa’), para ressalvar que considera Moore importante, por enquanto.

‘Partilho dos mesmos pontos de vista dele [o antiarmamentista de ‘Tiros em Columbine’ e o anti-Bush de ‘Fahrenheit 11 de Setembro’] e provavelmente concordarei com o próximo [‘Sicko’, sobre o sistema de saúde americano, previsto para 2005]. Mas imagino que posso chegar a odiá-lo se, por exemplo, ele fizer um filme a favor da pena de morte.’

Goifman cita, com essa opinião, outro aspecto do fenômeno Moore. Discordar dos filmes de Moore equivale a ser contra o próprio diretor, primeiro a promover a simbiose entre ele e sua obra.

‘Michael Moore praticamente incluiu uma variável no campo do documentário. Existem os documentários de pessoas desconhecidas, que são todos os outros, e existem os documentários ‘estrelando Michael Moore’’, diz o documentarista brasileiro José Padilha (‘Ônibus 174’).

Que Michael Moore é ator de seus próprios filmes, todos concordam. Para Padilha, além disso, o cineasta norte-americano usa o cinema como ‘arma de vingança’ contra quem o incomoda, seja o presidente da General Motors, Roger Smith, em ‘Roger e Eu’ (1989), ou o presidente de seu país, em ‘Fahrenheit…’.

Apesar de todo o questionamento ético, que se estende ao hábito de Moore de desrespeitar entrevistados e exibir cenas sem autorização, Padilha diz que ‘não é fácil se livrar da obra dele com uma frase’. Primeiro, porque ‘os filmes são bons de ver, não adianta negar’. Em segundo lugar, porque Moore ‘revolucionou o documentário no mundo, financeiramente’. É um fato.

‘Fahrenheit 11 de Setembro’ foi o primeiro documentário a arrecadar mais de US$ 100 milhões. O dado é mais significativo quando se sabe que a produção do filme custou de US$ 6 milhões, o que quer dizer que o filme se tornou lucrativo desde a estréia nos Estados Unidos, quando arrecadou cerca de US$ 23 milhões. Esse é um privilégio negado até a superproduções como ‘Homem-Aranha 2’, que estreou nos Estados Unidos arrecadando US$ 115 milhões, mas cuja produção consumiu estimados US$ 200 milhões.

Não-ficção

Esses resultados, todos concordam, contribuíram para que o filme documentário fosse visto com outros olhos pelos distribuidores cinematográficos, furando o cerco de produção destinada à TV e ao circuito de salas de arte.

‘Se não houvesse Michael Moore, ‘Ônibus 174’ não teria sido exibido nos cinemas nos Estados Unidos’, resume Padilha. A cineasta Tetê Moraes (‘Terra para Rose’, 1987), que prepara o filme ‘O Sol Caminhando Contra o Vento’, sobre as atividades do jornal alternativo ‘O Sol’ nos anos de 1967 e 1968, diz que ‘o importante é que o documentário reocupa seu espaço e prova que, no território da não-ficção, há muitas linguagens possíveis, assim como no da ficção’.

Mesmo admitida a convivência de linguagens díspares e até conflitantes, permanece a questão de gosto. Aí também Moore fica longe da unanimidade. ‘Ele me parece um diretor muito ‘entrão’, sensacionalista. Prefiro uma coisa em que você revele personagens, tenha empatia por eles’, diz Sandra Werneck, diretora do atual líder nacional de público, ‘Cazuza’ (2,3 milhões de espectadores), que também tem trajetória pelo documentário.

Ficção ou não-ficção, para ambas vale a advertência do cineasta Glauber Rocha (1939-1981), um polemista como Moore, mas de outra estirpe: ‘A câmera é um objeto que mente’.’

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