Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > ELEIÇÕES / EUA

Carlos Eduardo Lins da Silva

02/11/2004 na edição 301

"Na eleição presidencial americana que mais interesse despertou na população do país em mais de 40 anos, os principais veículos de comunicação se dividiram no apoio a um dos dois candidatos com ênfase sem precedente no passado, o que fez aumentar a impressão de que o país está realmente rachado ao meio.


É tradicional os jornais e revistas manifestarem apoio em editorial a um dos aspirantes à Presidência. O que quase nunca aconteceu antes foi um jornal, como o ‘New York Post’ de ontem, transformar sua primeira página em quase um pôster do seu preferido e publicar na página de opinião somente artigos a favor dele (no caso, Bush).


É indiscutível que, entre jornalistas e pessoas de comunicação, a maioria nos EUA se alinha com os liberais. Nos últimos três anos, no entanto, impressiona quantos veículos de comunicação assumiram ostensivamente sua opção conservadora, como a rede de TV Fox News, diversas cadeias nacionais de rádio e muitos jornais e emissoras de TV locais.


Talvez em reação a esse fato novo e talvez também para se redimir de inúmeros erros durante a cobertura do pós-11 de Setembro e da Guerra do Iraque, justificados pelo sentimento de patriotismo incutido na sociedade pelo governo Bush, a chamada mídia ‘liberal’ exagerou na simpatia ao candidato da oposição.


O Center for Media and Public Affairs divulgou ontem estudo em que revela que desde 1988 nenhum pretendente à Casa Branca recebeu cobertura tão simpática dos noticiários das grandes redes de TV quanto Kerry em 2004.


Na noite de segunda-feira, por exemplo, o programa ‘Frontline’, da PBS, um dos melhores do gênero de documentários da TV, mostrou uma biografia comparada de Bush e Kerry, claramente inclinada em favor do democrata.


Apesar da polarização ideológica, a maior parte da cobertura da campanha presidencial de 2004 não perdeu o caráter fundamentalmente sensacionalista, superficial e de concentração em assuntos triviais (como a vida pessoal dos candidatos e sua família, aspectos duvidosos de sua biografia etc.) que caracteriza o jornalismo político nos EUA.


Grande parte do noticiário desse tipo foi motivada neste ano pela avalanche de publicidade paga por grupos supostamente apartidários que tiveram atuação facilitada por lei eleitoral aprovada em 2002 que tinha como objetivo diminuir a propaganda eleitoral.


Os grupos, chamados de ‘527’ por causa do artigo da lei que possibilitou sua formação, se organizam em torno da defesa de causas específicas (direito do aborto, porte de armamentos e assim por diante).


A lei permite que essas associações paguem anúncios para divulgar suas causas. Na prática, acabaram sendo instrumento para atacar um dos candidatos à Presidência, como o grupo auto-intitulado como ‘em busca da verdade sobre o que ocorreu no Vietnã’, que provocou celeuma ao alegar que John Kerry não havia feito por merecer as condecorações que ganhou em combate no Sudeste Asiático.


Os debates entre os candidatos tiveram papel importante nesta eleição. Com uma audiência de 160 milhões de espectadores, superior em 30% ao recorde anterior, serviram para mostrar aos oponentes de Bush que John Kerry tem pelo menos as condições mínimas necessárias para o exercício da Presidência.


Cerca de 40% dos eleitores nunca haviam visto e ouvido Kerry antes do debate inicial em 30 de setembro. Muitos deles estavam dispostos a votar na oposição, mas ainda não sabiam que grau de confiança podiam depositar no seu candidato.


Por não ter cometido nenhum grande erro, por ter demonstrado conhecimento dos assuntos com que terá de lidar se vencer o pleito, Kerry, embora sem entusiasmar, foi capaz de se provar uma alternativa viável para o cargo.


Na noite de ontem, as redes de TV se armavam de todos os cuidados para evitar a repetição do vexame de 2000, quando declararam sucessivamente Bush, Gore e depois Bush de novo eleito presidente dos EUA, com base em pesquisas de boca-de-urna que se provaram deficientes.


As pesquisas ficaram ainda mais difíceis neste ano porque boa parte dos eleitores votou dias antes ou pelo correio. Numa disputa tão acirrada quando esta, previsão confiável de resultado antes da apuração oficial se tornou quase impossível. Carlos Eduardo Lins da Silva, jornalista, é diretor da Patri Relações Governamentais & Políticas Públicas."



Antonio Brasil


‘Eleições americanas: ‘Que percan los dos!’’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 29/10/2004


‘As eleições americanas chegam à sua reta final. Ainda bem. Creio que ninguém agüenta mais. Para um observador ‘estrangeiro’ é difícil acompanhar tantas informações e denúncias sem importância e irrelevantes em uma campanha tão medíocre e com tão poucos fatos novos em uma série de ‘não-eventos’. A mídia e os marqueteiros fazem um show de imagens com pouquíssimo conteúdo e ninguém parece se importar muito. Para uma imprensa cada vez mais partidária, o importante não é informar os fatos. O importante é torcer e apoiar o seu candidato.

É igualmente difícil perceber a diferença entre os candidatos a presidência dos EUA. O discurso tende a ser irritantemente semelhante em muitos dos temas mais importantes e relevantes como a guerra contra o terror e contra o Iraque, por exemplo.Ambos candidatos enrolam, enrolam e não dizem o mais importante: quando as tropas americanas sairiam desse novo Vietnam.

Dessa forma, não pude resistir à lembrança dessa manchete histórica dos nossos ‘hermanos’ argentinos quando do jogo entre Brasil e Inglaterra pela última copa do mundo: Entre o ruim e o péssimo, ‘Que percan los dos!’

Pode parecer meio irresponsável e raivoso demais, mas essa pérola do ‘irracionalismo’ jornalístico platense também é representativo da falta de opções na política americana. Como bem diz o ‘terceiro’ candidato Ralph Nader, ‘os EUA não passam de uma ditadura de dois partidos.’ Apesar da nação dividida, as diferenças entre um partido democrata com uma plataforma política para agradar a maioria conservadora se assemelham muito com o partido republicano com uma plataforma igualmente conservadora, porém, ‘mais amistosa’.

Ignorado pela mídia, e conseqüentemente pelo público, o candidato alternativo Ralph Nader é o único com coragem de declarar abertamente que os EUA não deveriam ter invadido o Iraque e que as tropas americanas deveriam se retirar imediatamente. Ele não enrola. Não é a toa que é o candidato ignorado pela mídia. Afinal, a guerra do Iraque, como ele faz questão de dizer em suas palestras em universidades americanas como a Rutgers University, é financiada pelas grandes corporações dos EUA. E esse tipo de declaração não é pouca coisa em uma campanha de tantos ‘conchavos’ com as grandes empresas. Não é a toa que ele foi o candidato do ‘subversivo’ documentarista Michael Moore em 2000.

Para quem não se lembra, o mesmo Ralph Nader foi acusado pelos democratas de ter contribuído para a derrota do ex-presidente de John Clinton, o pouco carismático Al Bore, perdão pelo trocadilho, o Al Gore. Em 2004, apesar das pesquisas ‘apertadas’, os democratas precisam de um milagre para convencer o público americano de que o candidato John Kerry não é uma nova versão piorada do candidato derrotado em 2000.

A mídia americana, obviamente, está interessada somente nos dois principais candidatos. A questão da guerra do Iraque passou a ser um ‘consenso’ útil e agradável. Afinal, a mídia americana em geral, e, principalmente as grandes redes de TV, também fazem parte dessas imensas corporações que tanto lucram com as guerras e que são alvos dos ataques do candidato independente Ralph Nader. Ele não tem a menor chance. Mas a sua própria existência e persistência refletem a necessidade de mais representatividade em processo político já meio caduco que insiste em fórmulas simples: nós versus eles.

Os Estados Unidos de hoje são um país muito diverso, com muitas etnias e culturas que buscam identidade e representatividade em partidos ultrapassados e por demais semelhantes. A pluralidade de opiniões nos EUA não encontra mais ressonância em jogo com cartas marcadas pelos dois únicos partidos hegemônicos. E quem sofre é o eleitorado que tenta se adaptar a essa falta de opções viáveis. A campanha eleitoral insiste em diferenças de forma mas retém os mesmos conteúdos. No fundo, republicanos e democratas são muito parecidos, as campanhas são longas, caras e inconseqüentes. Não há uma discussão séria em termos de alternativas contrárias e nada muda de verdade.

O último recurso meio desesperado da campanha democrata foi trazer diretamente do hospital, da mesa de operações cardíacas, o pobre do ex-presidente Clinton para ajudar a ‘levantar’ o moral do partido. A manobra pode ter funcionado. Mais de 80 mil pessoas nas ruas da Filadélfia, fotos nas primeiras páginas dos principais jornais e matérias nos principais telejornais. Mas dava pena ver essa as imagens de um ex-presidente que ‘vendia’ entusiasmo, saúde e tantos outros atributos pouco mencionáveis de volta aos palanques de uma campanha eleitoral com tão poucos heróis ou ‘bons momentos’.

A campanha eleitoral americana de 2004 é um grande tédio. Não há idéias ou propostas novas, o debate se tornou mera troca de acusações, os candidatos são muito fracos e aqui entre nós, os argentinos estão certos: ‘Que percan los dos’.’



Nelson de Sá

‘Blogs invadem e sacodem cenário político americano’, copyright Folha de S. Paulo, 31/10/2004

‘No último fim de semana, um blogueiro do ‘Oxblog’, para tentar explicar o fenômeno dos próprios blogs nesta eleição presidencial nos Estados Unidos, recorreu a uma citação do texto clássico de Alexis de Tocqueville ‘Democracia na América’ (1835). Em tradução livre:

– Mal você põe o pé em terra americana e é abalado por uma espécie de tumulto… Quase que o único prazer que um americano conhece é participar e discutir as medidas do governo.

Na seqüência em seu livro, sem citação no blog, Tocqueville observa que ‘até as mulheres’ participam dos debates políticos, que ‘são um substituto para o entretenimento teatral’.

Este foi o ano da invasão do ‘teatro’ político da América pelos blogs. Os mais bem-sucedidos passaram até a contar com anúncios publicitários.

O citado ‘Oxblog’ foi um dos destaques da recente premiação do ‘Washington Post’, para os melhores em ‘política e eleições’, na escolha dos leitores.

A premiação foi dominada por blogs pró-republicanos como o ‘The Corner’, criado pela ‘National Review’, mas o domínio conservador nesse campo em realidade acabou há meses, com a entrada em cena de estrelas pró-democratas como o ‘Daily Kos’.

Direita e esquerda

Os blogs ou weblogs, diários de internet, surgiram há cerca de uma década nos EUA, usados por técnicos de empresas de software para discutir entre eles os detalhes de suas criações e, aqui e ali, assuntos pessoais.

Na virada do milênio, entraram em cena as primeiras referências blogueiras voltadas inteiramente à política, mais ou menos conservadoras em sua maioria.

Eram jornalistas como Mickey Kaus, do ‘Kausfiles’, na revista on-line ‘Slate’, Andrew Sullivan, do ‘Daily Dish’, e Matt Drudge, do semiblog ‘Drudge Report’. Ou então um advogado como Glenn Reynolds, do ‘Instapundit’, e toda a federação de extremistas do ‘FreeRepublic’.

Mas já dois anos atrás o quadro começou a mudar. O jornalista Josh Marshall, que foi editor na ‘American Prospect’ e já escreveu para a ‘New Yorker’, liderou o questionamento do líder republicano Trent Lott por um histórico de declarações racistas -que levou à sua queda.

O êxito do blog de Marshall, ‘Talking Points Memo’, abriu caminho para outros ‘liberais’ (esquerdistas, no jargão político americano), que agora, às vésperas da eleição presidencial, dominaram a cena. Ao mesmo tempo, após cinco anos, Mickey Kaus anuncia que pode parar com o blog depois da eleição.

Mas a concorrência ainda é grande.

Foi no ultraconservador ‘FreeRepublic’, há cerca de um mês, que o blogueiro Buckhead fez o primeiro questionamento dos documentos apresentados pela CBS, sobre o histórico militar de George W. Bush, iniciando uma campanha que terminou levando a rede a se retratar.

350 mil leitores

Uma instituição independente de pesquisas nos EUA, a Pew Internet and American Life Project, levantou que há cerca de dois milhões de blogs no país, para todos os gostos.

O maior deles em política, o mais acessado de acordo com o ‘New York Times’, com 350 mil leitores diários, é o ‘Daily Kos’, do engajado Markos Moulitsas. Ele não esconde que é um blogueiro com uma missão: eleger o democrata John Kerry para a Presidência dos Estados Unidos.

O ‘Daily Kos’ faz uma crítica sem freios da administração Bush e destaca o que pode, em boas notícias, sobre candidatos democratas ao redor do país. De quebra, faz arrecadação paralela de recursos para as campanhas.

Ele próprio, Moulitsas, foi parte da campanha derrotada de Howard Dean, adversário de Kerry à indicação democrata no primeiro semestre. Uma campanha que, voltada quase integralmente à internet, estimulou a onda de blogs ‘liberais’ de 2004.

Outra blogueira dada como ‘liberal’, mas que faz sobretudo uma sátira da corte política, obcecada por detalhes pessoais e de comportamento, a jornalista Ana Marie Cox, do ‘Wonkette’, perde apenas para Moulitsas em termos de repercussão.

Foi ela quem deu projeção, por exemplo, às supostas revelações de Jessica Cutler, meses atrás, de envolvimento sexual com membros da Casa Branca.

Cox, Moulitsas e outro blogueiro pró-democrata, Atrios, do ‘Eschalon’, vêm se destacando num fato recente e inusitado: o crescimento da publicidade.

Curiosamente, estrelas como Josh Marshall lamentam que o faturamento mensal de até US$ 10 mil tenha profissionalizado os blogs e tirado parte da diversão -além de impor questionamentos de política comercial, por exemplo, sobre anúncios republicanos, aliás, aceitos por Marshall.

Pior aconteceu com o também liberal ‘Daily Kos’, que passou a enfrentar campanhas de blogs republicanos pela retirada de seus anunciantes -campanhas como aquelas que ele mesmo fazia, contra a grande mídia.

São as dores da institucionalização dos blogs, evidenciada pelo inédito convite para cobrirem o mais institucional dos eventos no ‘tumulto’ político dos Estados Unidos: as convenções dos partidos Republicano e Democrata.’



Comunique-se

‘Kerry consegue mais apoio da imprensa escrita do que Bush’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 1/11/2004

‘O candidato democrata à presidência dos EUA, John Kerry, conquistou o apoio de 229 meios de comunicação impressos, em contraste com os 134 que apóiam o presidente George W. Bush, segundo dados divulgados neste domingo por suas respectivas campanhas.

No país, é tradicional que a maioria das publicações se pronuncie em seus editoriais sobre o candidato que apóiam, não só para a Casa Branca, mas para o Congresso e os cargos estaduais e locais.

Kerry conseguiu o apoio de 229 publicações, entre elas 200 jornais, com o total de 22 milhões de leitores. Desses jornais, 47 – com 3,6 milhões de leitores – apoiaram Kerry depois de terem expressado apoio a Bush nas eleições de 2000.

A campanha de Kerry destacou o apoio do diário ‘Orlando Sentinel’, que não apoiava um candidato democrata havia 40 anos, enquanto o ‘Bangor Daily News’ não o fazia desde o século XIX.

Além disso, o candidato democrata foi apoiado por diversos veículos em espanhol, entre eles os dois jornais de maior circulação: ‘La Opinión’, de Los Angeles; e ‘El Diario-La Prensa’, de Nova York.

A campanha de Bush destacou, por sua vez, o apoio recebido de diários localizados em estados estratégicos para a eleição. Sharon Castillo, uma porta-voz da campanha republicana, enalteceu o apoio obtido entre as publicações de estados do sudoeste, como Novo México e Arizona, onde vivem muitos latinos. (c) Agencia EFE’

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