Domingo, 17 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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ENTRE ASPAS >

Carlos Marchi

05/10/2004 na edição 297

‘José Serra, candidato do PSDB, venceu o primeiro turno da eleição para a Prefeitura de São Paulo. Até 1h25 de hoje, apurados 99% dos votos, o candidato tucano tinha 2.660.840 votos (43,53 %), contra 2.191.160 (35,85%) de Marta Suplicy (PT), com uma diferença de 469 mil votos, bem mais folgada do que faziam crer os números dos principais institutos de pesquisa nos últimos dias e na boca– de– urna feita ontem pelo Ibope (que deu empate em 40% a 40%).

Nesta eleição gigantesca, em que votaram 7,77 milhões de eleitores, o aparato de propaganda mobilizado para a campanha de Marta acabou sendo insuficiente para superar a campanha mais modesta de Serra, que usou mais os programas de TV e rádio da propaganda gratuita, alguns outdoors, cartazes e faixas nos postes e abusou das clássicas caminhadas na rua.

Já Marta contou com forte esquema de campanha chefiado pelo marqueteiro Duda Mendonça, que ajudou a eleger Lula, contou com uma alta tecnologia dos programas de TV e foi reforçada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que até comício fez, além da presença constante de ministros.

Para reduzir o travo da derrota parcial em São Paulo, o PT conquistou seis prefeituras de capitais, incluindo três vitórias consagradoras – as de Fernando Pimentel em Belo Horizonte, João Paulo no Recife e Marcelo Déda em Aracaju.

E, se perdeu o primeiro turno na maior cidade administrada pelo PT (São Paulo), o PT venceu o primeiro turno na maior cidade administrada pelo PSDB no País – Osasco. Em compensação, vai para um segundo turno difícil em Porto Alegre, fracassou redondamente no Rio e ainda sofreu derrota acachapante com Vicente Paulo da Silva, o principal líder operário do PT depois de Lula, na mais populosa cidade do ABC, São Bernardo do Campo. Vicentinho ficou com 22% contra 77% do tucano William Dib.

Ocaso

Além da disputa entre os dois principais partidos brasileiros, num segundo nível a eleição paulistana confirmou o ocaso do malufismo, fenômeno populista de direita que brotou nas décadas de 40 e 50, sob a liderança do ex– governador Ademar de Barros, chamado de ademarismo.

O resultado das urnas também apontou para o enfraquecimento dos outros partidos e líderes, como a ex– prefeita Luiza Erundina, que alcançou o porcentual de 10% nas eleições municipais de 2000 e ficou agora com menos da metade.

O PMDB, agente ativo obrigatório nas eleições em São Paulo, praticamente anulou sua participação ao apoiar Erundina sem conseguir torná– la uma candidata viável.

Restaram no cenário paulistano PSDB e PT, que vão para a disputa do segundo turno encastelados em duas importantes casamatas, o Palácio do Planalto ao lado de Marta e o Palácio dos Bandeirantes perfilado com Serra. As alianças de Marta com o governo federal e de Serra com o governo estadual deverão ser bandeiras no segundo turno. A interferência dos ‘padrinhos’ que se cristalizou no primeiro turno – aparentemente gerando bons resultados para os dois – deve se repetir no segundo turno, com Lula voltando ao programa de TV de Marta e Alckmin presente na campanha de Serra.

Agora a disputa Serra– Marta ocupará os próximos 27 dias dos cidadãos paulistanos. A propaganda eleitoral gratuita dos dois candidatos na TV e no rádio recomeça no dia 18 de outubro e vai durar 11 dias, encerrando– se no dia 29. A votação do segundo turno será no dia 31 de outubro.

Muitas novidades vão permear essa nova campanha. A principal delas é que os outros atores não entram mais no palco – a peça ficará restrita a dois únicos personagens em cena, um falando com (ou contra) o outro. Ficam de fora os chamados ‘laranjas’ ou ‘línguas de aluguel’, os candidatos sem chance que auxiliam um candidato a criticar outro. De agora em diante, quem quiser criticar o oponente vai ter de usar a própria língua e se sujeitar às reações da platéia, o eleitorado.

Os debates de televisão ganharão novo colorido, porque não haverá mais a presença dos ‘laranjas’ pouco conhecidos do eleitorado e que esfriam os ânimos e a discussão política. Com isso, crescem as possibilidades de debates mais voltados para os problemas da cidade.’



Christiane Martinez, Heloisa Magalhães e Ivana Moreira

‘Institutos vêem queda no total de pesquisas’, copyright Valor Econômico, 04/10/04

‘Os candidatos à prefeitura dos 5.563 municípios brasileiros foram mais econômicos nas campanhas eleitorais deste ano. Em comparação com a disputa anterior, em 2000, eles contrataram um volume bem menor de pesquisas estratégicas – aquelas que medem desde os pontos fracos e fortes até o percentual de intenção de voto. A constatação foi feita pelos dois principais institutos de pesquisa do país, o Ibope e o Vox Populi.

Márcia Cavallari, diretora da Ibope Opinião, diz que o instituto deverá ficar 15% abaixo da meta de faturamento projetada para o pleito deste ano. Mesmo assim, conseguirá engordar em 5% a receita (de valor não revelado) em relação ao anterior, descontada a inflação, segundo o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro.

A menor procura pelo assessoramento estratégico para candidatos também foi sentido no Vox Populi, de acordo com o seu presidente, Marcos Coimbra. Esses grandes projetos, como são chamados por ele, são contratos para três meses de trabalho.

Mesmo assim, o Vox Populi conseguiu aumentar o faturamento. Estas eleições municipais renderam uma receita de R$ 12 milhões ao instituto de pesquisas Vox Populi, 15% acima do apurado nas eleições de 2000.

O crescimento da receita foi puxado pelos contratos para pequenos projetos, com apenas duas ou três pesquisas encomendadas. ‘Apesar da proliferação de institutos locais ou regionais, muitos preferiram pagar mais para contratar um instituto nacional, valorizando a marca do resultado’, diz Coimbra. O Vox Populi realizou pesquisas em 48 municípios brasileiros.

O Ibope, por sua vez, fez pesquisas em 300 municípios – um número equivalente a anos anteriores. A diferença, diz Márcia, é que o número de pesquisas contratadas pelos meios de comunicação (rádio, TV e jornais) aumentou nessas eleições. ‘Foram 900 pesquisas em 300 municípios. Numa semana, fizemos 85 municípios.’

Em quase 100 municípios, as pesquisas são encomendadas pela TV Globo e suas afiliadas. Neste ano, porém, o Ibope conseguiu vender pesquisas para outras emissoras em cidades diferentes. Um dos exemplo é a TV Cidade Verde, afiliada do SBT, que comprou pesquisas para Cuiabá e Várzea Grande, no Mato Grosso.

Segundo Montenegro, o Ibope não mudou o perfil nem a metodologia das pesquisas que vem realizando. Ele avalia essa eleição como ‘morna’ e acha que os eleitores, na escolha do candidato, estão muito focados nas propostas de cada um, do que em quem apresenta a melhor proposta para a cidade.

Depois do segundo turno, diz Montenegro, a mídia e os formadores de opinião podem vir a federalizar a eleição. ‘A imprensa tende a federalizar e o governo acaba indo a reboque e acaba tendo que tomar uma posição.’

Ao contrário do Ibope, no Vox Populi caiu o número de contratos dos veículos de comunicação, um segmento que costumava ser importante na receita eleitoral. ‘Foi fruto da dificuldade financeira enfrentada pelos veículos’, observa o presidente do instituto. ‘Só a Rede Globo contratou.’’



Folha de S. Paulo

‘Vitória de Serra se consolidou no domingo, diz Datafolha’, copyright Folha de S. Paulo, 05/10/04

‘A diferença de sete pontos de José Serra (PSDB) sobre Marta Suplicy (PT) nas urnas começou a ser construída na sexta, após o debate da Rede Globo, e só se completou no dia da votação. Essa é a análise do Instituto Datafolha.

‘Serra cresceu três pontos em um dia [de 29/9 para 1º/10]. Foi de 34% para 37%. A diferença continuou aumentando até chegar sete pontos anteontem’, diz Mauro Paulino, diretor do Datafolha.

No domingo, a Folha publicou pesquisa que mostrava o tucano à frente de Marta (37% contra 34%), empatados tecnicamente, já que a margem de erro é de dois pontos percentuais. No voto válido, que exclui brancos, nulos e indecisos, Serra tinha 40% contra 37% da petista – a Justiça Eleitoral considera o voto válido para divulgar o resultado oficial. Antes, em 24 e 29/9, PT e PSDB tinham a mesma intenção de voto.

‘A pesquisa captou o desempate, mas não podia afirmar o que ainda não havia ocorrido. O Datafolha nem a Folha poderiam ter afirmado no sábado que Serra estava crescendo. Era uma tendência que não havia se completado. Seria precipitado’, diz Paulino.

O diretor do Datafolha aponta indícios do resultado das urnas na pesquisa. O Datafolha mostrou que 18% do eleitorado ainda cogitava, na véspera da eleição, mudar de voto. Mostrou ainda que Serra era a segunda opção preferencial e que tinha a menor rejeição. ‘A pesquisa não se limita à intenção de voto, contribui para o entendimento do processo eleitoral. Quanto mais perguntas, mais condições o instituto vai ter de apurar o resultado.’

A pesquisa Ibope, cujo campo foi na sexta e no sábado, mostrou Marta, com 36%, e Serra, 34%, também tecnicamente empatados (margem de erro de três pontos). Nos votos válidos, 40% do PT contra 38% do PSDB.

‘Em nossos levantamentos, Serra vinha na frente numericamente até sábado, quando inverteu dentro da margem de erro’, diz Márcia Cavallari, diretora– executiva do Ibope.

Para ela, a diferença em relação às urnas está ligada à migração dos votos indecisos para Serra, em vez da distribuição homogênea entre todos os concorrentes.

O debate da TV Globo entre os candidatos, na quinta– feira à noite, é apontado por Paulino como evento importante na definição do cenário. Serra surgiu como melhor avaliado no Datafolha. Outro fator, diz ele, é a decisão do voto na última hora.

Boca– de– urna

O resultado na Justiça Eleitoral com Serra na frente não apareceu na pesquisa de boca– de– urna do Ibope, que ouviu 6.000 pessoas no dia da eleição. No levantamento o instituto registrou empate: 40% para Serra contra 40% para Marta. A margem de erro é de 1,7 ponto percentual. Tanto o candidato tucano quanto Marta ficaram fora de suas margens.

Cavallari levanta hipóteses para a distorção. ‘Terminamos o campo às 14h30, duas horas e meia antes do fim da votação de votação. Uma hipótese é que eleitores de Serra deixaram o voto para o fim do dia’, diz. A diretora afirmou ainda que o instituto está investigando a amostra. ‘Vamos bater o resultado das urnas dos colégios onde fizemos boca– de– urna com os nossos resultados’.

Cavallari citou também como hipótese do resultado uma possível distribuição geográfica desigual da abstenção, prejudicando redutos petistas. ‘Não analisamos ainda essa hipótese.’ Na análise por zona, porém, as maiores taxas de abstenção estão no centro expandido, onde o tucano venceu.’

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