Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Carta Capital

29/11/2006 na edição 409

CASO EMIR SADER
Carta Capital

Um sociólogo na berlinda

‘Eleito recentemente secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), o sociólogo Emir Sader comemorou a distinção oferecida por seus pares apenas um pouco antes de amargar o rigor de uma decisão judicial que, entre outras punições, o condenava a perder o emprego de professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Na seqüência da violenta decisão da Justiça da qual recorreu, ele passou a sofrer ataques de uma parte da imprensa. Notadamente, mais uma vez, a revista Veja. Sobre isso, ele falou a CartaCapital.

CartaCapital: O senhor foi apanhado por uma onda de ataques. Por quê?

Emir Sader: Isso tudo resulta do processo movido pelo presidente do PFL contra mim, porque o chamei de racista. Uma sentença absurda – como já foi demonstrado pelo Ministério Público -, de um ano de prisão, mais a perda do cargo de professor universitário, conquistado por concurso público. O que suscitou uma onda muito grande de solidariedade, que parece ter incomodado aos que querem demonstrar a tese do tango Cambalache: ‘Nada es mejor, todo es igual’.

CC: Quem são eles?

ES: Gente que defende os interesses dos poderosos e que tratou de retomar acusações sobre um projeto universitário financiado pela Fundação Rosa Luxemburgo, cujos relatórios foram integralmente aprovados pela sua transparência e lisura e, inclusive, renovados duas vezes desde então. Acusações que foram extensivas a Ivana Jinkings e à Editora Boitempo – que sustenta não apenas um trabalho sério e digno, mas também de reconhecida qualidade -, sem uma prova sequer e sem nenhum fundamento (quem quiser se informar melhor sobre esse episódio, pode fazê-lo lendo a nota pública do projeto no endereço http://www.outrobrasil.net). Em resumo, uma pessoa que ia utilizar todos os recursos para publicar um livro do projeto, abandonou-o, quando soube que teria de haver licitação. Essa foi ganha pela Boitempo, que publicou o livro no prazo definido e com a qualidade requerida, e com menos recursos. Quem abandonou o projeto levanta – incrivelmente – acusações de superfaturamento, quando ele queria receber mais, sem licitação.

CC: Com que intenção?

ES: Com a intenção de nos desqualificar, tentar demonstrar que é impossível existir intelectuais críticos, independentes, de esquerda, vinculados aos movimentos sociais e aos partidos populares, para poder justificar sua inserção comprometida no establishment.

CC: As acusações de Veja valem-se de um informante de esquerda…

ES: Eu me preocuparia se a revista Veja tivesse me elogiado. Se essa revista escolhe a alguém como ‘ícone’ da esquerda, é que já é de direita. Quem ataca a direita é atacado pela direita. Quem ataca a esquerda ganha elogios e generosos espaços da direita – contanto que siga atacando a esquerda – como recompensa. Essa é a ‘esquerda’ que a direita gosta, como bem dizia Leonel Brizola. Isso se dá no marco da perda de discurso por parte da direita. A derrota eleitoral foi também uma derrota do discurso conservador. E a grande mídia, que acreditava ser demiurgo da realidade e que vive de discursos, caiu num vazio. Daí a queda para um nível tão baixo, de tentativas de desqualificação – e para isso utilizam-se de todos os tipos de expedientes e mentiras -, especialmente dos que julgam que fomentaram uma opinião pública alternativa. Lutam desesperadamente contra uma perda de influência e queda de tiragem de suas publicações.

CC: O manifesto que circula em seu apoio é uma articulação de petistas?

ES: Há quase 20 mil assinaturas. Entre os signatários estão pessoas como Antonio Candido, Luis Fernando Verissimo e Chico Buarque. O manifesto foi citado em três artigos da Folha de S.Paulo, sem que os leitores soubessem de sua existência. Uma parte da imprensa perdeu, quase por completo, a dignidade nesse último ano e meio da mais longa e violenta campanha eleitoral. Alinharam-se em bloco, jogaram todas as fichas e foram derrotados. Portam-se como partidos da direita brasileira, como havia sido a imprensa, por exemplo, nos anos prévios ao golpe de 1964. E os partidos da direita comportam-se igualmente de acordo com as pautas e as linhas da grande mídia. Sem democratização da mídia, não haverá democracia real no Brasil.’



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