Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CADERNO DO LEITOR > FIM DE SEMANA, 31/10 E 1/11

Carta Capital

03/11/2009 na edição 562

MÍDIA E POLÍTICA
Paulo Cezar da Rosa

A imprensa, Yeda e Lula no Pampa

‘Muita gente acredita na recuperação de Yeda Crusius, na possibilidade dela vir até a reelege-se em 2010. Crê que vencidos os inquéritos, os processos administrativos, judiciais e políticos, como o impeachment e a CPI ainda em curso na Assembleia, a governadora renascerá das cinzas numa campanha eleitoral restauradora de sua imagem e sua política. O trabalho que está sendo feito nos últimos 60 dias para Yeda reforça essa tese. No lugar da governadora geradora de conflitos, uma Yeda ‘paz e amor’ passou a ser apresentada em todos os meios de comunicação em fotos e manchetes.

Até ano passado a possibilidade de recuperação era real. Um conjunto de elementos indicava que Yeda poderia afirmar seu governo e, um pouco como Lula no pós-mensalão, dar a volta por cima. Agora, não existe mais gerenciamento de imagem que resolva seus problemas. Os que acreditam poder recompor sua viabilidade eleitoral em geral subestimam a inteligência do eleitor. Acham que o marketing e mídia podem tudo.

Os motivos que levaram Lula às alturas na avaliação do cidadão brasileiro são os mesmos que colocam Yeda entre os piores governos da história do Rio Grande. O presidente Lula chegou aos 80% de aprovação por causa da sua política e navegando na contra-mão do PIG. Já Yeda fez o inverso. Com uma proteção permanente do PIG, a governadora hoje tem cerca de 80% de desaprovação. Ou seja, assim como o PIG não derrotou Lula, o PIG não será capaz de reerguer Yeda em 2010.

Políticas inversas

A saga de Yeda Crusius no Rio Grande do Sul repete, em grande medida, a de seus antecessores. Jair Soares, Alceu Colares, Antonio Britto, Olívio Dutra, Germano Rigotto foram governadores que buscaram acertar e acabaram recusados pelo eleitor. Mas Yeda tem uma particularidade: ela sempre dependeu da força das suas ideias e pôde desprezar, em sua trajetória, partidos, forças sociais e soluções de compromisso. Até chegar, quase por acaso, ao cargo que ocupa hoje.

Tudo o que se pensar sobre Lula e suas políticas, deve-se colocar um sinal de negativo para compreender Yeda. Enquanto Lula agrega, Yeda confronta. Enquanto Lula conversa, Yeda briga. Enquanto o Brasil segue em frente, O Rio Grande vai para trás.

Yeda faz um governo que teve a ousadia de instalar uma representação em Brasília chamando-a de ‘embaixada’, como se o Brasil fosse um outro país. No governo gaúcho, confrontada com uma posição em que, obrigatoriamente, é preciso ‘fazer política’, Yeda revelou-se incapaz. Sua gestão é uma sucessão de confrontos e feitos inúteis ou negativos, a maior parte deles com os próprios aliados. Incluem-se nesta lista o vice-governador, Paulo Feijó, do DEM; o assessor morto em Brasília, que chegou a ser nomeado ‘embaixador’ da ‘representação gaúcha’; o ‘companheiro’ Lair Ferst, que teria feito uma delação premiada; o ex-secretário da Segurança Pública, Otávio Germano (PP), que teria a ver com a corrupção no Detran…. A lista é longa e deve frequentar as atas de julgamentos e condenações judiciais nos próximos anos. Diante de tudo isso, Yeda mostrou-se inconfiável ao eleitor. Ela havia prometido ‘um novo jeito de governar’. O mínimo que deveria ter cumprido seria encarar de um modo diferente a corrupção. Mas, não. Yeda acabou decorando o quarto do neto em sua casa particular com dinheiro público. Comprou puffs e assoalhos emborrachados. E não existe PIG no planeta que consiga justificar isso. Nem vai resolver o PSDB intervir no estado gaúcho, nomeando uma agência paulista para cuidar da imagem de Yeda.

O papel do PIG gaúcho

Já manifestei aqui meu distanciamento crítico quanto ao termo PIG. Esqueçam! Vocês, leitores, me convenceram de que é preciso trabalhar com o conceito. Mas vamos ao que interessa: O PIG gaúcho fez tudo o que podia e não podia por Yeda Crusius. Se alguma coisa vale a minha palavra, eu testemunho: nunca um governante teve tamanha boa vontade da mídia quanto Yeda Crusius. Nem mesmo Antônio Britto foi tão defendido. Yeda teve tudo, tudo, tudo. E ainda está tendo. E, em que pese o peso e importância da mídia na formação da opinião das pessoas, todo o apoio que foi dado à governadora não conseguiu forjar uma imagem positiva de seu governo.

Ao mesmo tempo, o PIG gaúcho vem martelando contra Lula noite e dia nos últimos anos mas também não consegue imprimir uma imagem negativa ao presidente. Ao contrário, hoje Lula tem no RS praticamente os mesmos índices que possui no país. Ou seja, o papel do PIG gaúcho, cada vez mais, é enrolar peixe no dia seguinte.’

 

O FUTURO DO JORNAL
Felipe Marra Mendonça

Salvação dos jornais?

‘Na quinta-feira 22 de outubro, a equipe responsável pelo conteúdo on-line do New York Times se reuniu na sede do jornal para discutir os rumos da edição digital. Durante o discurso de abertura, o editor-chefe, Bill Keller, falou sobre várias iniciativas nas áreas de publicidade, desenvolvimento de produto e conteúdo. Também apontou sete prioridades a ser perseguidas pela equipe digital, todas elas válidas para qualquer veículo impresso que ainda busque entender direito como fazer uma transição menos traumática para a internet.

O primeiro ponto discutido foi o papel futuro dos artigos na seção Times Topics (http://topics.nytimes.com/topics/re-ference/timestopics/index.html). A área reúne artigos com um mesmo assunto, função muito útil para leitores que querem entender uma questão mais a fundo. O segundo ponto foi a questão do nível de abertura do conteúdo do Times e como adequá-lo ao que o editor definiu como ‘a mídia social’. O terceiro foi a integração entre as operações impressa e digital, em particular o gerenciamento das equipes por parte dos editores, seguido do quarto ponto, a busca por maior colaboração entre os especialistas em conteúdo digital e a redação do jornal. Mas os três últimos pontos foram os que mais suscitaram comentários na internet, desde que o discurso de Keller, tido como privado e direcionado somente à equipe presente no Times Center, foi publicado pelo Nieman Journalism Lab (http://www.niemanlab.org), da Universidade de Harvard.

O editor-chefe revelou que passou os últimos tempos na tentativa de ler o Times somente pela internet e que todos no jornal deveriam passar a pensar na internet em primeiro lugar. Disse também que as páginas de internet do jornal deveriam ser redesenhadas para criar uma ‘ferramenta de engajamento’ com o leitor. Mas foi ao falar de uma estratégia mais robusta para a criação e desenvolvimento de conteúdos para plataformas móveis, como celulares, que Keller talvez tenha deixado escapar um segredo praticamente público, mas até então não confirmado: a existência do Apple Slate, um produto que ocuparia um espaço na linha de produtos da empresa entre o iPhone e os computadores. ‘Espero que consigamos que a redação se envolva mais ativamente no desafio de fazer chegar até os nossos leitores o melhor jornalismo na forma do Times Reader (versão digital com conteúdo pago), de aplicativos para o iPhone, do site para plataformas móveis ou o iminente Apple Slate, ou o que vier depois disso’, disse Keller.

Não se sabe se o editor-chefe falava com a autoridade de alguém que tinha visto o produto ou participado do desenvolvimento em parceria com a Apple, ou se somente é mais um representante da mídia que acredita que tal aparelho deve ser lançado em 2010. O fato é que Keller abriu o discurso citando o relacionamento especial que a Apple mantém com o Times, como acontece quando a empresa mostra a primeira página do jornal na internet durante os comerciais de tevê para mostrar que o iPhone e o iPod Touch são capazes de mostrar ‘a verdadeira internet’. Só o tempo dirá se Keller falou mais do que devia ou se a ‘tábua’ da Apple pode realmente vir a ser a salvação da mídia impressa.’

 

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