Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Carta Capital

10/08/2010 na edição 602

ELEIÇÕES 2010
Cynara Menezes

Eleitor, telespectador

A campanha presidencial resume-se agora a aparecer na tevê. Dilma Rousseff tenta faturar no primeiro turno. José Serra e Marina Silva buscam adiar o fim do jogo.

A partir de agora, mais do que eleitores, comandam o jogo os senhores telespectadores. Com o começo da temporada de debates e, a partir do dia 17, do horário eleitoral gratuito, a agenda televisiva passa a ditar as regras da campanha presidencial. Importante para Dilma Rousseff, do PT, que precisa consolidar-se como a candidata de Lula, e para Marina Silva, do PV, que aposta na grande exposição para crescer nas pesquisas, a televisão é considerada por especialistas como a única chance que o tucano José Serra tem de reverter um quadro que lhe é, a cada dia, mais desfavorável.

Em queda nas pesquisas, Serra terá de se equilibrar entre desconstruir a candidata petista e ao mesmo tempo não fazer ataques diretos à adversária e ao governo Lula, que tem batido sucessivos recordes de popularidade. Terá ainda de andar na corda bamba entre ser e não ser oposição, já que a adoção de uma postura mais agressiva pelo tucano e seu vice Índio da Costa, no último mês, tem sido apontada como uma das razões para uma perda mais sensível de eleitores no Nordeste e no Brasil de maneira geral.

Quanto mais critica Dilma e o PT, mais o PSDB a faz conhecida do eleitorado, que pretende votar no candidato apoiado pelo presidente da República. Na última pesquisa do Instituto Sensus divulgada na manhã da quintafeira 5, dia do debate na Rede Bandeirantes, o primeiro entre os cinco programados até o fim do primeiro turno,

Dilma Rousseff aparece com 41,6% das intenções de voto, contra 31,6% de Serra e 8,5% de Marina Silva. Só a soma dos chamados ‘nanicos’ não permite afirmar que o cenário, neste momento, é de uma eleição de um único turno. Mas, como escreve o sociólogo Marcos Coimbra à página 31, a ex-ministra chegou aos 40% sem que Lula ainda tenha, de forma maciça, pedido voto ‘olhando nos olhos’ do eleitor.

 

TELEVISÃO
Lilian Milena, Brasilianas.org

Laurindo Leal Filho sobre a TV Cultura

As recentes declarações do presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, sobre a necessidade de reestruturação e renovação na programação da TV Cultura, além das possíveis demissões, trouxeram à tona, novamente, a discussão a respeito da gestão das TV’s Públicas no Brasil.

Diante da exposição dos percalços da emissora paulista, uma série de questionamentos emergiu em meio às especulações sobre o futuro da TV Cultura. Comparações entre a formação histórica da TV Pública brasileira e os modelos criados, por exemplo, na Europa e nos EUA ganham espaço no debate e procuram levantar explicações para a crise.

Para o sociólogo e jornalista Laurindo Leal Filho, a TV Cultura ‘fica ao sabor das decisões do governo do momento’, não funcionando sob a lógica do investimento público. Em entrevista à equipe do Brasilianas.org, Lalo, como é mais conhecido, parte do caso da TV Cultura e investe numa reflexão que perpassa pelos principais problemas da gestão pública da comunicação no Brasil. ‘A TV Pública tem a obrigação e a missão de apresentar e de dar bons produtos de televisão pro público, e ao fazer isso, ela cria no público um novo conceito de televisão e esse público vai exigir da emissora comercial a mesma qualidade que ele vê na TV pública’.

Confira, abaixo, a íntegra da entrevista:

Brasilianas.org – A TV Cultura necessitava passar por um processo de reformulação nos moldes decididos recentemente pela Fundação Padre Anchieta reduzindo, por exemplo, o quadro de funcionários?

Laurindo Lalo Leal Filho – A Fundação Padre Anchieta é um patrimônio da população do Estado de São Paulo, construído há várias décadas e que precisa ser preservado de qualquer maneira. A TV Cultura é, até hoje, o principal, o mais bem acabado modelo de TV Pública no Brasil. E ele – este modelo – não pode ser, de maneira alguma, ser destruído.

Eu tenho estudado a TV Cultura desde o seu início. Ela sempre passa sempre por fases difíceis em função das ingerências de governos estaduais sobre a administração. E nós estamos vivendo outra vez esse tipo de problema.

O Conselho Curados, da Fundação Padre Anchieta, tem muito pouca autonomia em relação aos governos do estado e acaba sofrendo esse tipo de ingerência.

B – E, isso se deve à questão orçamentária…

Lalo – … A questão financeira deve ser vista sobre a ótica de que é obrigação do Estado investir numa televisão pública de qualidade. Porque, no Brasil, a televisão tem um poder muito forte na educação, na cultura, na informação das pessoas. A maioria da população brasileira, e mesmo no estado de São Paulo, se informa e se entretêm através da televisão.

Então, a Televisão Cultura não pode ficar sob a lógica do mercado, de que ela deve ser superavitária, sob a lógica de que os seus investimentos devem ser cortados de acordo com as orientações do governo do estado. Ela tem que ter autonomia financeira, deveria ter um orçamento garantido pela legislação do estado de São Paulo. Um orçamento que dê conta das suas necessidades.

O que não pode acontecer é se tratar um serviço público de rádiofusão como se o mesmo pudesse funcionar sob a lógica do mercado. Não. Eu tenho que funcionar sob a lógica do investimento público.

Assim, como é fundamental o governo investir em saúde, em educação, ele tem que investir em televisão pública. E, nesse sentido, é importante que os recursos sejam, fundamentalmente, do estado. Claro que você pode ter outras fontes alternativas, mas elas, no caso brasileiro, devem ser complementares aos orçamentos do estado.

B – E quais seriam os instrumentos financeiros das TVs públicas?

Lalo – Acho que a TV pública pode até, no máximo, ser mantida com algum tipo de financiamento de apoios culturais. Nunca publicidade, porque a publicidade desvirtua o papel da TV pública. Ela joga a televisão no mesmo saco das televisões comerciais. E, aí, ela passa a disputar audiência para conseguir publicidade. Em consequência disso, tende a abaixar a qualidade da programação.

No máximo, uma fonte alternativa seria a dos apoios culturais. Ou seja, uma determinada empresa patrocina um programa e o nome dela aparece como patrocinadora. Acho que esse é o limite máximo que a gente pode fazer de concessão para uma TV pública receber um auxílio externo.

Mas acho que, majoritariamente, tem que ser investimento público. Mas, investimento público gerido não pelo estado, gerido pela sociedade através, no caso da TV Cultura, de um conselho curador autônomo, independente, e não subordinado ao estado.

Infelizmente a TV Cultura, nos últimos anos, o Conselho foi cada vez mais controlado pelo mesmo grupo político, e hoje ele se curva as decisões do governo estadual.

B- O uso comercial do acervo da Cultura não ajudaria como fontes de recursos?

Lalo – Ela já faz isso. Mas é uma renda que atinge um percentual muito pequeno. Por mais que você invista nisso, em relação ao custo numa emissora, nunca vai passar dos 5%. É importante, mas não é suficiente.

B- Então, como você disse, os Conselhos não mudam…

Lalo – As mudanças são feitas, mas sempre em torno do mesmo grupo político. Não é que são os mesmos, eles têm uma alternância. O problema é que esses membros são escolhidos pelo próprio Conselho. Os representantes da sociedade são escolhidos pelo próprio Conselho. E eles acabam escolhendo pessoas alinhadas sempre com o mesmo grupo político.

Então, isso faz com que esse Conselho não seja, efetivamente, representativo da sociedade paulista. E ele tem um diálogo muito restrito com a sociedade. A sociedade tem dificuldade de ter acesso a esse Conselho, de se manifestar….de levar suas demandas.

Na verdade, um conselho curador tem que ser o canal da sociedade para junto da emissora. Esse Conselho [da TV Cultura] é muito distante da sociedade.

B- É possível dar exemplo de uma TV Pública que aproxime o Conselho da sociedade?

Lalo – Acho que a TV Brasil está indo bem nesse caminho. O Conselho da TV Brasil, da EBC, é bastante diversificado e as suas indicações, agora, são feitas através de consultas públicas. Na última renovação de três membros, havia sessenta e poucos indicados por setores representativos da sociedade, organizações da sociedade. Ele está caminhando para ser um conselho bastante representativo. E avança muito em relação ao Conselho da TV Cultura.

B – Qual foi a melhor gestão que a TV Cultura já teve?

Lalo – As gestões melhores são aquelas que o governo do estado se afasta e dá autonomia ao gestor. Então, em alguns momentos, por exemplo, no governo Montoro, nos anos 80, houve um certo afastamento e os gestores puderam criar mais, tiveram liberdade pra criar mais, pra poder diversificar, sem muitas interferências.

Um dos momentos melhores da TV Cultura foi entre o final dos anos 80 e começo dos anos 90, quando chegou a ter 12 pontos de audiência no Ibope, com sua grade de programação infantil, que até hoje é lembrada pelos adultos que eram crianças na época. Era uma referência de qualidade.

Aquilo mostrou que a TV Cultura, quando ela tem recursos, liberdade e competência… Porque é esse o trinômio, se você consegue juntar esses três fatores, a TV Cultura tem condições até de competir com qualidade pela audiência. No início dos anos 90 a TV Cultura chegou a dar 12 pontos de audiência no Ibope e obrigou as emissoras comerciais, o SBT, por exemplo, a mudar sua grade de programação infantil, a melhorar a grade de programação, porque estava perdendo pontos pra TV Cultura.

Então, veja a importância da TV pública, ela tem a obrigação e a missão de apresentar, de dar bons produtos de televisão pro público. E, ao fazer isso, ela cria no público um novo conceito de televisão, e esse público vai exigir da emissora comercial a mesma qualidade que ele vê na TV pública.

Então, não só produz e oferece programa de qualidade, mas acaba, como que quase um subproduto desse trabalho, fazendo com que a TV comercial também se veja obrigada a melhorar a qualidade da programação. Um bom investimento numa TV publica, dando a ela liberdade e trazendo profissionais qualificados, faz com que toda a televisão, no final, melhore.

B – O que o faltou para o Brasil ser uma BBC?

Lalo – Faltou uma política no início do rádio aqui no Brasil. Na década de 30, era quando era só rádio, faltou uma política de incentivo à rádio difusão pública. E se entregou esse setor da sociedade para a iniciativa privada.

Só foi se pensar efetivamente numa TV pública na década de 50, quando o Getúlio Vargas cogitou de criar a TV Nacional, dando um canal de televisão pra rádio nacional do Rio de Janeiro, mas ele sofreu uma carga brutal contrária de empresários que já tinham constituído suas emissoras que eram dominantes. E que são eles mesmos que estão aí até hoje, salvo o Chateaubriand, que faliu e morreu.

Como não houve, no início, um empenho do estado de impulsionar o rádio e a televisão pública, os empresários foram ocupando esse setor. E quando o Estado tenta voltar a ter alguma ação protagonista nesse setor, recebe uma carga contrária muito grande, porque os empresários não querem abrir mão do privilégio que é ocupar esse setor.

Na Europa foi o contrário, o estado, desde o começo, foi quem criou as emissoras. As emissoras públicas sempre deram a linha, a tônica, e só foram ter concorrentes privados agora a partir da década de 80, majoritariamente.

Aqui no Brasil o que ocorreu foi o inverso do que ocorreu na Europa. Lá a prioridade foi dada, desde o início ao serviço público. Aqui no Brasil, quando surgiu o rádio, com o Roquette Pinto, a ideia era fazer que nem a BBC, os ouvintes se quotizavam pra manter a rádio, que era a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.

A BBC também é assim, só que é assim até hoje. São os telespectadores e ouvintes que mantém, com uma taxa, o funcionamento dela, pra que tenha liberdade em relação ao estado e não dependa, também, da propaganda.

B – Provavelmente porque os governantes europeus já viam a comunicação como um quarto poder?

Lalo – Os estados já sabiam da importância, claro! Por isso já tinham que preservar a independência em relação a interesses comerciais, por exemplo. Agora, eles foram fazendo de tal forma que o estado criou, montou, mas abriu mão do controle.

O controle, em quase todos esse países, nas TVs Públicas, é um controle da sociedade. Como está se tentando fazer com a TV Brasil. Os conselhos são conselhos que saem da sociedade, não é o Estado que determina. Não é o Estado que impõe. O Estado às vezes até financia, mas ele não manda, não dirige. Quem deve dirigir é a sociedade através desses conselhos.

B – Acredita que o que ocorre com a TV Cultura, neste momento, é decorrência de falhas no gerenciamento na maneira como foram implementadas as programações, que poderiam não ser tão ‘atraentes’, ou o problema está restrito ao âmbito político…?

Lalo – Acho que são as duas coisas. De um lado, uma série de falhas nos últimos 15 anos em que o PSDB está no governo do estado de São Paulo, e que indicou sempre os seus gestores. A TV Cultura não conseguiu, nesses últimos 15 anos, o sucesso que teve anteriormente. São comportamentos que chamo de erráticos: vai por um lado, vai para o outro, tenta se popularizar… Chegou-se a criar programas popularescos para atrair audiência. Ou então, sendo usado, nitidamente, pelo governo do estado pra fazer política, pra difundir os interesses do partido que está no governo.

A solução não é cortar, é o contrário. Porque a solução que se apresenta agora, é cortar tudo, pelo que estou lendo, é cortar salários, é cortar recursos…

Sendo que a solução é exatamente o contrário: é investir em equipamento, investir em tecnologia. Mas, principalmente, investir em capacidade, em competência profissional, em profissionais de qualidade que existem nesse mercado e estão loucos pra produzir alternativas a essa televisão comercial que está aí.

E a TV Cultura tem, apesar de todas essas crises, um patrimônio físico, cultural e histórico, que não pode ser, de maneira alguma, jogado fora. É a televisão pública mais bem equipada do Brasil. A mais bem instalada do Brasil. Só isso dá condições pra ela de receber incentivos financeiros e receber impulsos criativos, e se tornar uma televisão imbatível do ponto de vista da qualidade.

Mas a solução, que está me parecendo, é a solução neoliberal de cortar, de reduzir, de enxugar. Quando a política pública que a sociedade necessita é de investir, de ampliar, de ousar, de criar…

B – Sobre essa dicotomia entre a cultura popular e a cultura erudita, não seria necessário mudar a programação para atrair as massas…

Lalo – Isso já ocorreu, quando o Alckmin era governador, as pessoas colocadas por ele lá [Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta] foram nessa direção, de fazer programas popularescos pra nivelar por baixo a TV Cultura. Quando o papel dela é jogar um pouquinho pra cima, em termos de qualidade, mas de uma forma atraente que faça com que o público vá gradativamente descobrindo que há uma alternativa na televisão. Não é pra ficar dando aula de alemão, nem fazendo alta literatura, mas é fazer programas musicais, até dramaturgia, seriados. Enfim, que atraiam o público também.

E já foi demonstrado de que, se isso for feito, há audiência pra televisão. Não é pra fazer nada erudito e que vá só atender uma parcela insignificante da população. Não é isso. Mas descobrir um meio termo entre isso e o que a televisão comercial faz. Você tem que ir além do que a televisão comercial faz, sem necessidade de ficar num gueto, que só algumas pessoas entendem e assistem.

Esse é o desafio da TV pública. Ela não pode ficar refém de índices de audiência, mas também não pode desprezar a audiência. Não pode ser refém do Ibope, como são as emissoras comerciais, mas também não pode desprezar esses índices, porque tem que levar em conta que trabalha com dinheiro público e esse dinheiro público deve ser usado pra atender os interesses da população. Se ela dá traços de audiência, não está atendendo os interesses da população.

A TV pública tem que trabalhar nesse limite, que é estreito, mas é fabuloso pensar que pode caminhar para uma alternativa que está aí, sem ser erudito, sem ficar no Olimpo, longe da realidade.

B- Até importante você ter falado disso, porque lembro de, em domingos, ter tentando assistir a programação da TV Cultura e ver programas de ópera… uma coisa muito rebuscada no horário da tarde…

Lalo – Você pode fazer perfeitamente um programa agradável, alegre, no domingo à tarde, já que o público brasileiro está acostumado a ver programas de auditório – porque é Gugu, Faustão, Silvio Santos, sempre a mesma coisa… – e perfeitamente fazer um bom programa de auditório, agradável, estimulante, sem cair naquela baixaria…

Dou um exemplo claro: a TV Bandeirantes colocou no ar um programa chamado ‘É tudo improviso’, nas férias do CQC, e agora estão colocando no ar, me parece que na terça-feira, umas 11 horas da noite… é um grupo de teatro que faz improviso, trabalha com humor mas improvisando sempre, mas de alto nível. Esse grupo se colocado numa TV pública, num domingo a tarde, estaria conquistando um público de telespectadores acostumados a esses programas de variedades, pra um outro nível de produção artística, até trazendo gente pro teatro, ou pra música mais elaborada. Enfim, é esse o desafio, buscar a partir do referencial que a sociedade se acostumou, algo a mais.

B – Audiência incomoda os demais canais que, por sua vez, podem pressionar as TVs públicas para não melhorarem a programação?

Um papel dos conselhos é defender a TV pública das ameaças da TV comercial. Porque se a TV pública começa a ter maiores índices de audiência, a TV comercial pode se adapta e melhorar para concorrer, ou começa a fazer pressões políticas sobre a televisão pra não deixá-la conquistar esses índices de audiência. Esse talvez é um dos maiores desafios.

B – Porque a questão ideal seria ajudar a transformar outros os outros canais, entretanto todos os outros canais, em vez de prezarem pela mudança…

…acabam exercendo pressões sobre o governo. Enfim, sobre quem tem algum tipo de poder sobre a TV pública pra evitar que ela concorra efetivamente pelos índices de audiência.

Talvez um dos maiores desafios que uma TV pública de qualidade tem a frente quando começa a melhorar, é enfrentar as pressões dos empresários das emissoras comerciais.

B – Existe algum exemplo da participação pública da sociedade além da TV Brasil?

Vou te dar um que conheço, mas que está em processo de formação que é a TV Pernambuco. Ela está sendo reestruturada e foram chamados pra reestruturação pessoas e movimentos que vêm há muito tempo trabalhando pela democratização da comunicação em Pernambuco. Eles fizeram um processo de 3 meses – terminou agora no começo de julho – de discussão da sociedade. Eu fui convidado e participei de um desses debates em que tinha 200, 300 pessoas discutindo o que esperavam de uma TV pública. Fizeram um projeto e entregaram pro governador, em julho. E é bem possível que até o final do ano eles passem a implementar esse projeto. Então há uma luz no fim do túnel. A TV Pernambuco é uma luz no fim do túnel e não um trem que vem no sentido contrário.

 

Felipe Corazza

Novo capítulo no desmonte da TV Cultura

A TV Cultura de São Paulo está prestes a dar mais um passo rumo ao desmonte. A bomba, desta vez, veio do blog do colunista Daniel Castro, do portal R7. Na manhã desta quarta-feira 4, o blogueiro anunciou que a emissora paulista demitirá 1.400 funcionários – o quadro atual é de 1.800 -, venderá patrimônio e passará a atuar apenas como uma produtora de conteúdos, deixando de lado sua estrutura e sua história.

Segundo a nota publicada por Castro, João Sayad, presidente da Cultura e ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo, tem carta branca do governador Alberto Goldman para ‘reduzir ao máximo a produção de programas e cortar o número de funcionários em quase 80%’.

A nota do blogueiro vai além: ‘Sayad pensa até em vender o patrimônio da TV Cultura. Já encomendou aos advogados da emissora um estudo sobre a viabilidade de a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV, se desfazer de seus estúdios e edifícios na Água Branca, em São Paulo’.

Segundo uma fonte de dentro da emissora, o processo começou ainda na gestão de Paulo Markun à frente da emissora, com diminuição de repasses do governo, aposta em publicidade privada e planos para cortar o investimento em produções ‘da casa’. Entre os funcionários mais antigos, a sensação é de que há um desmonte quase irreversível a caminho. A única esperança é que um novo governador – ‘menos serrista’ – amenize ou mesmo breque a sangria.

A notícia correu pela rede de microblogs Twitter e, apenas no início da tarde, a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, divulgou um comunicado oficial. Sem falar explicitamente em demissões, o texto chama a Cultura de ‘patrimônio querido dos paulistas e brasileiros’. Logo em seguida, começa a listar os motivos pelos quais este ‘querido patrimônio’ deve ir abaixo. Eis o anúncio na íntegra:

‘Comunicado Oficial Fundação Padre Anchieta

04/08/2010 13h56m

Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:

A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.

Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas.’

Reação

Mesmo antes do comunicado oficial, internautas já demonstravam indignação no Twitter. As mensagens faziam referência à história da emissora, à boa qualidade da programação e, algumas, relacionavam a derrocada da Cultura às sucessivas gestões tucanas no governo do estado.

As manifestações dos twitteiros condensaram-se sob o tópico #salveatvcultura. Para decepção dos navegantes, a ‘tag’ não chegou a figurar entre os Trending Topics – lista dos assuntos mais discutidos na rede no momento. Na relação paulista, a Cultura perdeu para Bon Jovi, Luan Santana, Amy Winehouse e outros mais cotados.

 

Rosane Pavam

As ideias descontinuadas

Os rumos que a TV Cultura tomará até a posse do novo governo paulista, em janeiro próximo, não passam distantes daquilo que pensa o atual presidente da Fundação Padre Anchieta, responsável por geri-la. Ou, dizem alguns de seus detratores, o que o presidente João Sayad deixa de pensar para o futuro da emissora é o seu norte.

Os 1,8 mil funcionários da empresa já sabem que o ex-secretário estadual de Cultura de São Paulo entre 2007 e maio de 2010 pretende reduzi-los à mínima presença, fiel à ideia de que a emissora de missão pública precisa render mais, liberada de seus serviços, alegadamente custosos. Mas o presidente não lhes mostrou de forma transparente, até o fechamento desta edição, um plano de reestruturação. O Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo informou ter solicitado uma reunião com Sayad para esclarecimentos.

No dia 4, disse a Fundação Padre Anchieta em seu site: ‘A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.’ O texto respondia indiretamente ao que publicara naquele dia o portal R7, por meio do jornalista Daniel Castro. Anunciado no perfil de seu blog como responsável por ‘elevar a cobertura de televisão, tratando o veículo como uma indústria’, Castro disse que a Cultura demitiria até 1,4 mil funcionários.

O texto prosseguia afirmando que Sayad transformaria em estatal a emissora, que tem orçamento de 240 milhões de reais, um terço dele nascido diretamente de recursos governamentais. Segundo o texto, Sayad se desfaria da sede da TV Cultura em São Paulo, reduzindo-a a um andar de prédio comercial. Ele a transformaria em coprodutora de programas. A vocação do Jornal da Cultura seria a partir de agora não a de noticiar, mas de debater a notícia. E o Metrópolis, revista de cultura, poderia acabar.

Daniel Castro acertou no geral, mas errou no particular, dizem fontes ligadas à emissora que não desejam se identificar. Os funcionários demitidos seriam entre 500 e 600, somente aqueles não regidos pela CLT, já que, em ano eleitoral, os empregados sob essa legislação estariam assegurados em seus cargos. Principalmente, no próximo ano, a concretização dos planos de Sayad estaria sujeita ao que determinasse o novo governador para a tevê. E que novo administrador pagaria o custo político dessas demissões? Sayad é ligado a José Serra, candidato à presidência, mas seria preciso avaliar o que pensa disso outro tucano, Geraldo Alckmin, se eleito governador.

Os bastidores falam em ‘desmonte’ da emissora com o objetivo de fazê-la caber na verba destinada pelo governo estadual, de 80 milhões de reais. Os dois terços atualmente não provenientes dela, nascidos da publicidade e da prestação de serviços, seriam eliminados. Ao pagar integralmente a conta, o Estado decidiria o que veicular. Pelo contrário, como está hoje, segundo a crença dessas fontes, a emissora pública de direito privado tem autonomia razoável em relação ao governo. Por pouco, até, ela permitiu que uma reportagem sobre pedágio nas rodovias paulistas, supervisionada pelo então diretor de Telejornalismo, Gabriel Prioli, fosse veiculada no Jornal da Cultura, no início de julho. A direção deu-se conta a tempo da apuração e vetou a transmissão da matéria, demitindo Prioli, que iniciara suas funções sete dias antes.

Ao jornal Folha de S.Paulo, no dia 5, Sayad disse que não faria demissões. Ao Estado de S. Paulo, na edição do mesmo dia, afirmou que ‘haverá mudanças nos quadros, isso é certo’, e elencou os programas a serem extintos: Manos e Minas, sobre hip-hop, e Login, confirmando o perfil analítico do Jornal da Cultura. O Metrópolis continua. O Vitrine acabará, à espera de reformulação. E uma sede bem menor para a emissora seria uma ‘implicância’ sua, um ‘projeto a longo prazo’.

CartaCapital tenta, desde o dia 4, que Sayad a receba em entrevista. O presidente e sua assessora de imprensa, dizem as secretárias, revezam-se em reuniões. Mas não foi difícil falar sobre o assunto com o então secretário de Cultura em março do ano passado. Embora a conversa principal girasse em torno do ensino de música, Sayad disse o que pensava sobre a emissora.

‘A TV Cultura, eu assisto pouco, mas quando assisto é sempre um alívio perto da Globo’, afirmava, para lamentar a ação talvez tímida de Paulo Markun, então presidente da fundação, na resolução do ‘problema administrativo’ (número excessivo de funcionários). Sayad pregava comprar programas ‘fora’. Propunha abrir o jornalismo para ‘novos talentos’. ‘É difícil fazer um jornalismo diferente da TV Globo, mas tem de experimentar. Se for para ver jornal, vejo o Nacional. O da Cultura traz as mesmas notícias, mas é atrasado e tem menos graça.’

Julgava a programação infantil da emissora ‘muito bem-sucedida’. A seu ver, o programa de entrevistas Roda Viva, criado em 1986 durante a reabertura política, teria perdido sua força, já que toda a mídia buscara, a partir dele, também cobrar ações governamentais. ‘E a vida política também perdeu importância.’ Não via em Heródoto Barbeiro a escolha ideal para conduzir as entrevistas (em sua gestão, o jornalista foi afastado). Observava a inutilidade de perguntas de ‘meia hora’ feitas pelos jornalistas, que na verdade teorizavam diante do entrevistado e atrapalhavam uns aos outros no momento de falar. O formato, dizia, não favorecia o questionamento. ‘O que parece ser difícil (para o entrevistado) é muito fácil. A cadeira roda e, se aparece uma pergunta difícil, você deixa outro jornalista falar.’

O programa deve receber, a partir deste mês, Marília Gabriela e mais dois jornalistas fixos para a condução das entrevistas. Dois outros profissionais, a depender do entrevistado, entrarão na bancada. O entrevistado não deverá estar mais abaixo dos entrevistadores, mas em seu nível.

Sayad alegava ainda admiração por programas da Public Broadcasting Service, a PBS americana, entre eles o político Esquerda-Direita (‘Eles se matam discutindo, é divertido ver’), embora já o julgasse ‘chato’ naquele momento. ‘Falta brasileiro para fazer isso. Um bom programa de debates vivo, inteligente.’ Gostara do documentário Violência Sociedade Anônima, comprado e exibido pela emissora. ‘A TV Cultura poderia ser a Secretaria da Cultura, no sentido de financiar projetos, muito melhores do que a velharia que há hoje lá. Eu quero os novos.’ Ele lamentava que se comentassem gêneros como a bossa nova, quando a emissora poderia ir atrás das novidades musicais. Quando CartaCapital lembrou-lhe que a Cultura abordava o hip hop, ele desconversou: ‘Dizem que é bom, mas eu não sei.’ Manos e Minas, programa sobre o movimento, está na lista atual de suas ideias descontinuadas.

 

LITERATURA
Breno Altman, Opera Mundi

A FLIP consagra a cultura do espetáculo

A Festa Literária Internacional de Paraty, que realiza sua oitava edição entre 4 e 8 de agosto, transformou-se em acontecimento marcante da vida cultural brasileira. Considerada um dos principais festivais mundiais do gênero, atrai milhares de participantes, atenção da imprensa e convidados ilustres. Nas devidas proporções, é um pequeno Woodstock das letras, que anualmente toma de assalto a aprazível cidade fluminense.

Apesar dos perrengues, pois a infraestrutura do município-sede costuma sucumbir ao excesso de visitantes, a diversão é garantida. Quem gosta de livros e ideias tem a chance de conviver com uma penca de bons autores e usufruir de opiniões sobre os mais diversos assuntos. Não é todo dia, afinal, que intelectuais renomados descem à planície e transitam entre o distinto público.

Mas há outras abordagens possíveis sobre a FLIP, além do entretenimento. Uma delas, quase irresistível, é comparar atividades nas quais essa intelectualidade antes se envolvia com seu papel atual, na era do avassalador predomínio da indústria cultural. A acareação talvez seja ilustrativa da reviravolta de sua função social após a crise dos projetos-mundo, no poente da Guerra Fria.

Escritores e artistas normalmente se reuniam, até então, para se posicionar diante de situações que alarmavam a sociedade e afetavam o mundo da cultura. Suas ferramentas eram congressos, simpósios e conferências que articulavam os intelectuais como agente coletivo. Os produtos dessas iniciativas – resoluções, manifestos ou declarações – buscavam a comunicação com outros setores sociais. O objetivo era utilizar talento e prestígio para construir vontades públicas.

Os exemplos brasileiros mais conhecidos, nesta lógica, foram o I Congresso Brasileiro de Escritores (1945) e as diversas reuniões da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência durante os anos 70. Mas são inúmeros os eventos que, durante décadas, expressavam o esforço autônomo da intelectualidade para forjar conexões com a sociedade, vertebrados por entidades representativas.

Marketing como ciência

Mesmo movimentos de ordem estética, como a Semana de Arte Moderna (1922), cuja estrutura era semelhante a um festival, faziam parte do reposicionamento político-cultural e procuravam um discurso criativo que se fundisse a determinados programas de país. Esse também foi o caso dos Centros Populares de Cultura, do Cinema Novo e do Tropicalismo, para falarmos de outras experiências notórias.

A intelectualidade e os artistas eram, como hoje, produtores de bens culturais, inseridos no mercado e concentrados em conseguir o ganha-pão através da comercialização de suas obras. Mas a esfera de cidadania, política ou estética, era razoavelmente protegida contra o assédio das razões mercantis, graças a uma rede de instituições estatais, partidárias e associativas que respaldava a cultura orgânica.

No entanto, o predomínio das ideias liberais, chancelado com o colapso do socialismo no Leste Europeu, foi limando essa blindagem e criando as condições para que o mercado estendesse seus tentáculos sobre espaços outrora salvaguardados. Apenas deveriam sobreviver criações que pudessem ser transformadas em mercadoria rentável, submetidas à lógica do espetáculo e regidas pelas normas do marketing, a principal ciência social dos novos tempos.

Darwinismo cultural

Ainda que diversas organizações, ligadas à arte e à ciência, continuem a promover encontros relevantes, essas realizações são cada vez menos divulgadas pela imprensa. O jornalismo cultural, aos poucos, também terminou capturado pelos interesses empresariais, que demandam aval midiático para acelerar a rotação de seus estoques.

O ímpeto dessa mudança mergulhou artistas e intelectuais em uma espécie de darwinismo cultural, marcado pelo medo de sucumbir em um ambiente no qual somente os escolhidos pelo mercado poderiam sobreviver. A competição e o individualismo derivados desse temor acomodatício acabaram por minar formas coletivas de organização e a própria integração da intelectualidade ao processo histórico.

Assim chegamos à FLIP. No lugar de entidades do ramo, o comando cabe a uma organização não-governamental alimentada com recursos de editoras e seus patrocinadores. Os escritores, de protagonistas, viraram atração. Cada autor ou cada patota em seu quadrado, opiniões e inspirações são exibidas à assistência, e acaba por aí a sinergia com os plebeus.

Casamata do liberalismo

Tudo é bem pensado. Não há estandes emporcalhando as ruas de Paraty. O festival é como um showroom a céu aberto: os produtores e suas obras podem ser vistos, ouvidos e tocados, mas não comprados. O mercado toma conta da cultura, porém preserva seu verniz de forma elegante, de tal sorte que os diletos visitantes não se sintam consumidores, mas personagens.

O simbólico dessa edição da FLIP talvez esteja no convite a Fernando Henrique Cardoso para fazer a palestra de abertura. Um dos maiores intelectuais da história brasileira, antigo cardeal do pensamento crítico, havia antes se convertido em presidente da República para fazer reformas pleiteadas por forças de mercado. Na feira de Paraty, colocou sua biografia e inteligência a serviço da indústria cultural.

O país vive mudanças econômicas, sociais e até políticas de relevância. A duras penas, a soberania pública tenta recuperar o terreno perdido ao espaço privado nos anos 90. Mas o mundo da cultura, cujo centro de gravidade deslocou-se para o eixo formado por empresas e mídia, aparece ironicamente como casamata de um liberalismo agonizante. Ainda que, nas calçadas paratienses, esse conservadorismo moderno transborde de charme, beleza e erudição.

 

Bruno Huberman

Flip: a gota d’água

A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), conhecida como o maior e mais importante encontro literário do Brasil, em sua edição de 2010 parece ter se desvirtuado. Pela primeira vez em sete edições, um autor que não dedica a sua obra à ficção será homenageado. Postumamente, o sociólogo Gilberto Freyre, autor de Casa Grande & Senzala, é o protagonista em Paraty.

Contudo, não é só o homenageado o motivo de revolta da classe literária nativa. De todos os convidados, apenas sete são escritores de ficção. E destes, apenas uma é estreante em Paraty, a autora Carola Saavedra, que lança Paisagem com dromedário na Festa.

Este foi o primeiro ano em que um número maior de pessoas ligadas ao âmbito literário passou a se mostrar publicamente contra os rumos da Flip. A discussão começou quando o ‘agitador cultural’, escritor e entusiasta do evento Marcelino Freire disse que não iria para a edição deste ano em seu perfil na rede de microblogs Twitter.

Em seu blog, Freire narra toda a saga que o levou a não ir a Paraty. Marcelino não foi um dos convidados e na hora de reservar pousada, organizar toda a viagem, acabou desistindo. ‘Por mais boa-vontade que eu tenho, não entendo a presença do ex-presidente abrindo os trabalhos da Festa. Logo ele, que nunca gostou do Freyre. Em ano de eleição?’.

O tom assumido pela Flip também já afastou o baiano João Ubaldo Ribeiro, que boicotou a edição de 2004 sob a queixa de que se tratava de um evento voltado para autores da Companhia das Letras. Reportagem do jornal Folha de S. Paulo desta quarta-feira 4 mostra que os autores convidados para a Flip registram aumento das vendas após participarem da Festa. Misha Glenny, por exemplo, teve um crescimento de 100% nas vendas de seu McMáfia (Companhia das Letras) após ter participado do evento em 2008.

Ainda segundo a mesma Folha de S. Paulo, o orçamento da edição 2010 da Flip é de R$ 6,3 milhões, sendo que 63% vêm de dinheiro público e os outros 37% de dinheiro privado. O principal patrocinador da Festa é o Itaú Unibanco, que conta com aproximadamente 75% de sua cota de renúncia fiscal da Lei Rounet. Esse apoio do Unibanco é histórico e vem desde as primeiras edições. A revista Piauí, editada pelo cineasta João Moreira Salles, membro da família dona do banco, foi lançada na FLIP de 2006.

O diretor-presidente da Casa Azul, associação que organiza a Flip, Mauro Munhoz disse em entrevista a Folha que ‘a Flip é um projeto puro-sangue, voltado para literatura e para as políticas públicas do território. O puro-sanguismo tem seu custo: não colocamos estandes, não é um feira comercial. A Flip se enraizou na geografia humana do local’. Para a poetisa Ana Rusche, que já participou de algumas edições, nunca como convidada, o formato da Festa é infeliz, os custos para assistir às mesas e participar dos outros eventos da programação são muito altos e não há acesso para os quilombolas da região.

Em 2006, ainda, o escritor Marcelo Mirisola botou a boca no trombone e sofreu as consequências. Na ocasião, Mirisola foi a Paraty financiado pelo próprio Marcelino Freire, que na época ‘mandava e desmandava na Flip’, diz Mirisola. Para o escritor, todo o evento é cercado de problemas, a começar por ser uma festa, como o próprio nome já diz. Os escritores vão para aparecer e o público ‘que é essa classe média angustiada que compra livros na Livraria da Vila e vai à Casa do Saber [ambas as instituições mantêm sedes provisórias em Paraty durante a Flip], para ver’. Mirisola continua: ‘A partir do momento em que essas dondocas deixam de ir às compras na Oscar Freire para estudar Schoppenhauer na Casa do Saber alguma coisa está errada’.

Ainda segundo Mirisola, a culpa do pouco espaço reservado aos autores de ficção na edição deste ano é dos próprios escritores que se submetem às editoras e não cobram cachê para participar da Flip, enquanto que para qualquer outro encontro literário há este pagamento. Para Mirisola, um festival literário deste porte teria que servir para discutir a sociedade, ‘e não para as madames de Higienópolis’.

Flap

Os altos preços de Paraty, desde estadia, passando pelo transporte até a entrada para os eventos, fizerem com que a poetisa Ana Rusche, ao lado de um grupo de amigos das faculdades de Direito e Letras da Universidade de São Paulo (USP), criassem uma alternativa à Flip. Assim surgiu a Flap, que é uma brincadeira direta ao nome da festa de Paraty e a cada ano muda o seu significado.

Em 2006, após a edição experimental de 2005, propuseram embates, em 2007, contaminações; em 2008, aglutinaram autores de toda a América Latina, não best-sellers, mas nomes relevantes tanto em relação à criação quanto à representatividade – em 2008, espalharam a Flap por mais espaços, indo aos Saraus. Na edição de 2009, discutiu-se a queda de Muros: simbólica e politicamente. Agora, em 2010, segundo uma das organizadoras do evento, Maiara Gouveia, ‘usando os artifícios da rede virtual e a estrutura cheia de vitalidade e popular dos Saraus, vamos debater de que modo se expõe ou se oculta a literatura de um público mais amplo por meio dos eventos literários. Não pretendemos ser os paladinos que levam literatura à periferia. Pretendemos, sim, mostrar o que eles produzem, o que eles pensam, as formas literárias deles’.

Segundo Rusche, a proposta da Flap é algo mais urbano e próximo das pessoas que já estão dentro do circuito literário, além de abrir espaço para os escritores iniciantes. Há também uma maior preocupação política. Discutir o custo do papel e o valor do livro, o monetário e o intelectual, são pautas naturais da Flap. Outra marca do festival é a atenção para a poesia, que ocupa o limbo tanto no mercado editorial quanto nos encontros literários – das 19 mesas da Flip, apenas uma debaterá a poesia.

 

INTERNET
Felipe Marra Mendonça

Leitores em debandada geral

Rupert Murdoch acaba de dar com os burros n’água: a internet não se dobrou coletivamente aos seus desejos de cobrar pelo acesso ao site do Times londrino. O desastre ferroviário teve início em novembro de 2009, como relatado nesta coluna, na edição 572, de CartaCapital.

Murdoch tinha dois objetivos. O primeiro era impedir que ferramentas de busca conseguissem indexar e oferecer resultados com links para os sites da sua empresa, a News Corp. O raciocínio, segundo entrevista da época, era que as ferramentas de busca essencialmente plagiavam o conteúdo de seus jornais. ‘São as pessoas que simplesmente pegam tudo e saem correndo, que roubam nossas matérias, que as pegam sem pagar. É o Google, é a Microsoft, é o Ask.com, um monte de pessoas.’ O segundo era conseguir que os leitores de seu site passassem a pagar pelo material consumido. Acreditava que ter uma montanha de leitores não pagantes oferecia pouco valor para seus anunciantes e preferia ter menos pessoas acessando os jornais de sua empresa, desde que fossem usuários pagantes.

Pois bem, o Times (www.timesonline.co.uk) foi o primeiro dos sites do grupo a testar a teoria de Murdoch e ergueu seu muro contra a escumalha não pagante em 2 de julho. A ideia era de que os usuários pagassem uma libra pelos primeiros 30 dias de acesso e depois duas libras a cada semana. Os assinantes da versão impressa teriam acesso gratuito. Antes do ‘fechamento’ completo o jornal deu uma semana de acesso a quem se registrasse gratuitamente no serviço Times+. Uma nota publicada no site britânico Beehive City (www.beehivecity.com), editado por três jornalistas saídos do Times, revelou a terra arrasada em que se tornou a edição virtual de seus antigos empregadores. Cerca de 150 mil leitores aceitaram registrar-se com o Times+, pouco mais de 12% do número de leitores do site durante o período gratuito. Desses, somente 15 mil aceitaram pagar pelo acesso ao Times. Ou seja, Murdoch conseguiu perder 98,8% dos leitores do site do Times ao passar a cobrar pelo acesso aos textos do jornal. Um fracasso retumbante.

Um exemplo bem menos traumático da transição da celulose para os bits foi dado na semana passada pela Amazon. A empresa anunciou um aumento na venda de seus livros eletrônicos a ponto de ultrapassar a dos livros de capa dura, formato em que os lançamentos são tradicionalmente colocados no mercado norte-americano. A Amazon vendeu 143 livros eletrônicos para cada cem livros de capa dura comercializados durante o último trimestre, uma relação que aumentou para 180/100 somente no mês de julho. Além disso, a empresa vendeu três vezes mais livros eletrônicos no primeiro semestre deste ano em comparação ao ano passado.

Os números são importantes, mas o mercado de livros eletrônicos ainda fica longe dos números de seus antecessores físicos. O mercado de livros nos Estados Unidos tem receita anual de 35 bilhões de dólares, mas os livros eletrônicos perfazem menos de 1% do total, com 81 milhões de dólares em receitas. A morte do papel, portanto, deve demorar um pouco mais.

 

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