Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 26 E 27/1

Carta Capital

29/01/2008 na edição 470

ANTOLOGIAS
José Onofre

Fast-food editorial

‘As antologias de contos ‘universais’ são organizadas por alguém com preguiça de fazer um trabalho sério e destinadas a consumidores com preguiça de ler. A verdade é que essas reuniões de contos são o fast-food do mundo editorial, o hot-dog literário. Elas podem ser por assunto, época ou região e ainda há subdivisões. O que têm em comum é que atendem a um padrão: três ou quatro boas histórias num charco de textos desnecessários.

As intenções, claro, são sempre as mais edificantes e o organizador de Contos de Amor do Século XIX é Antonio Manguel, argentino naturalizado canadense, que durante alguns anos leu para Jorge Luis Borges e decidiu seguir a carreira literária. Escreveu A Biblioteca à Noite e Uma História da Leitura, um tedioso desfile de conceitos cujo resultado final está definido numa velha frase: ‘O que é bom não é novo e o que é novo não é bom’. Nesta antologia, visivelmente um trabalho acessório na sua vida, ele reúne contos sobre o amor, o que nem sempre é o caso.

São 26 contos ingleses, franceses, espanhóis, norte-americanos, alemães etc. A linguagem do século XIX é aborrecida e nem todos os autores alcançam uma gentileza primária: ser interessante. O melhor de todos pertence ao escocês Robert Louis Stevenson. A Praia de Falesá é um precioso momento de literatura sólida, uma explosão colorida e aventureira sobre os mares do Sul, com seus interesses, sua violência, a hipocrisia religiosa, a superstição e a permanente consciência da destruição.

Robert Louis Stevenson é um grande e maravilhoso escritor. Na companhia desse número 1, acomodam-se autores como Tolstoi, Henry James, Eça de Queiroz, Rudyard Kipling, Machado de Assis, Balzac, Goethe, Turguêniev, Edith Wharton e Oscar Wilde. Depois é a vez de Hawthorne, Pirandelo e Trollope. Logo depois, vem um desfile daqueles para se ler por último.

Uma antologia limitada por um assunto e uma época, nunca será esclarecedora sobre, no caso, o amor vivido ou pressentido no século XIX, nem sobre este século examinado pelos olhos desta paixão. Para um escritor que adota a paternidade intelectual de Borges e escreveu dois trabalhos sobre a leitura, Manguel é ingênuo ou apressado.

Na década de 70, ainda sob a ditadura, os à época jovens escritores argentinos publicaram modesta antologia de contos chamada Así lo Escriben los Duros Sobre el Amor, que traz, na diversidade de estilos, a diversidade do amor. Os contos não se parecem. Alguns são duros mesmo, na linguagem e no amor, e outros são de estilo duro e sentimentos suaves.

Manguel fez escolhas e, depois, tentou dar-lhes sentido nos textos de abertura. Os textos têm o desagradável gosto de quem obteve os dados parcamente e parcamente os costurou. Manguel é tratado com grande respeito e há até aquela cansativa e ridícula subordinação a um nome.

É possível que Antonio Manguel seja legítimo e não mais um dos luminosos conversadores deste continente. Mas seus dois livros sobre a leitura são óbvios, só organizam o sabido e, quando tentam escapar do destino pedestre das idéias, tendem a ficar encardidos e amassados.

A antologia vale por esse conto de Stevenson e pela presença de tão colorida memória de seus pares. Os outros (uma dinamarquesa sombria, uma argentina e alguns figurantes espanhóis) saem do desconhecimento para, após os célebres 15 minutos de Warhol, voltarem à penumbra onde viviam.’

 

FEBRE AMARELA
Rogério Tuma

Surto de desinformação

‘A febre amarela tem sido foco de interesse da mídia nas últimas semanas e, aparentemente, provocou uma epidemia de desinformação. É bom esclarecer que esta é uma doença silvestre, isto é, ocorre em matas e florestas. Sua transmissão acontece por meio de uma complexa associação: macaco infectado, vetor do vírus (mosquito Aedes aegypti) e humano não imunizado. A doença ocorre principalmente em macacos e os humanos são verdadeiramente turistas acidentais nesse ciclo. Além disso, a doença parece não passar de humanos para humanos.

Apesar de não ser impossível haver casos em centros urbanos, isso não ocorre oficialmente desde 1954 nas Américas, salvo seis casos suspeitos em Santa Cruz de La Sierra em 1997. No Brasil, não há relato de casos em centros urbanos desde a epidemia de 1929, no Rio de Janeiro, que provocou quase 500 mortes, de três casos observados em Sena Madureira, no Acre, em 1942.

A febre amarela foi erradicada das cidades graças ao trabalho de dois ilustres médicos brasileiros: Emílio Ribas e Oswaldo Cruz. O primeiro iniciou a campanha contra o mosquito em 1901, quando ainda não era uma certeza de que o mesmo era o vetor da doença. O segundo criou, em 1903, o serviço de profilaxia (vacinação).

A vacina contra a febre amarela é altamente eficaz e capaz de conter qualquer epidemia. Além disso, a capacidade de produção do Instituto Bio-Manguinhos atende a toda a demanda. Este ano, serão produzidos 30 milhões de doses. Desde 2000, mais de 170 milhões foram distribuídos, principalmente em áreas de risco, onde vivem apenas 35 milhões de pessoas. Este trabalho do Ministério da Saúde faz com que o índice de proteção da população seja altíssimo, o que praticamente impede uma epidemia.

A vacina é feita com um vírus atenuado, isto é, um subtipo de Flavivírus, que provoca uma doença bem menos grave que o subtipo da febre amarela. Mas ambos são tão parecidos que os anticorpos que o corpo humano produz contra o vírus da vacina combatem também o verdadeiro vilão. A vacina promove a imunização por pelo menos dez anos em mais de 99% dos vacinados. Made in Brazil, abastece toda a América do Sul.

O perigo, porém, está nas reações que a vacina pode provocar, especialmente na revacinação (desnecessária), em que reações não são incomuns e podem até ser letais.

Campanhas de vacinação devem ser restritas apenas às áreas de risco. O Ministério da Saúde tem agido de forma clara e certa nesse sentido, mas a mídia continua, mesmo que involuntariamente, a alarmar a população desnecessariamente.

À população caberá, sempre, combater o vetor, ou seja, matar o mosquito. Com isso, estará combatendo também outra doença muito mais preocupante e epidêmica, a dengue, que causa muito mais prejuízo e é uma ameaça muito maior que a febre amarela. Só no ano passado, 500 mil infectaram-se e 136 morreram. Mas, em vez de combater o criadouro do mosquito nos vasos do quintal, as pessoas estão fazendo filas para ser vacinadas contra a febre amarela.

Quando os jornais noticiam internações por conta de febre amarela em grandes centros, como Belo Horizonte e Brasília, não fica claro que estas pessoas viajaram para o interior de Goiás e para o oeste mineiro, locais onde se contaminaram nas matas. Deixar de citar o foco da doença é desinformar, e faz com que os habitantes dessas cidades se sintam ameaçados. E corram para o posto de vacinação.

A vacina promove a proteção nas áreas onde existe a doença, mas não é inócua. Se alguém for vacinado ou revacinado sem necessidade e vier a falecer por isso, cabe uma reflexão da mídia sobre o seu papel nessa morte. Até 21 de janeiro, foram anunciados 31 casos de reações adversas à vacina, dois em estado grave. É uma situação em que a desinformação pode matar mais gente que a própria doença.

Não é obrigação apenas do governo orientar corretamente os cidadãos, é de todos. Pelo menos neste caso, não adianta os editoriais cobrarem mais ação do governo. Seria mais útil publicar a informação clara sobre quem, realmente, deve receber a vacina e quem deve dispensá-la.’

 

MÚSICA
Pedro Alexandre Sanches

Pânico na indústria

‘Tradicional casa fonográfica dos Beatles e dos Rolling Stones, a gravadora britânica EMI anunciou, em 15 de janeiro, uma reestruturação que implicará a demissão de 1,5 mil a 2 mil de seus funcionários nos próximos seis meses. Considerado o total de 5,5 mil contratados no mundo todo, o encolhimento resultante será de cerca de um terço.

Poucos dias antes, a empresa havia sido publicamente ameaçada por um dos líderes de vendagem de discos, o cantor de pop dançante Robbie Williams. Provavelmente inspirado pela greve de roteiristas que há três meses abala Hollywood, Williams declarou-se em greve contra a EMI e afirmou que não entregará o álbum que deve à casa, com lançamento previsto para setembro.

Segundo o jornal britânico The Times, um dos grupos de rock mais populares do planeta, o Coldplay, estaria disposto a aderir à greve. ‘Artistas querem trabalhar com gente de música, não com homens de negócios’, afirmou o empresário da banda, Dave Holmes, em referência à recente aquisição da EMI pelo fundo de investimentos britânico Terra Firma, em meio à crise de vendas e denúncias de fraude na gestão anterior.

Na quinta-feira 17, o anúncio de que os Rolling Stones lançarão um CD por outra gravadora (a norte-americana Universal) forneceu indicação de que não será renovada a parceria de 16 anos com a EMI, que expira em maio. Em 2007, Paul McCartney rompeu uma ligação de quatro décadas e meia com a multinacional, que vive às voltas com litígios judiciais com o espólio dos Beatles. O CD mais recente de Paul foi lançado em parceria com a rede de cafés Starbucks.

‘O foco da redução de pessoal é eliminar possíveis áreas de duplicidade de funções dentro do grupo, permitindo mais agilidade nas tomadas de decisão e uma estrutura mais sustentável dentro do novo cenário’, ameniza Marcelo Castello Branco, presidente do escritório brasileiro da EMI, que esteve no epicentro das denúncias de fraude em 2006. Segundo ele, a filial local (que tem Marisa Monte e Charlie Brown Jr. entre os nomes mais rentáveis) passou por ajustes recentes e, assim, supostamente não seria colhida pelas novas turbulências na matriz.

Os conflitos na EMI formam a ponta mais estridente de um cenário a cada dia mais grave, o da derrocada das grandes gravadoras de discos diante da pirataria, downloads, circulação virtual de música e inadaptação aos novos tempos.

Parece sintomático que outra das maiores gravadoras, a Sony BMG, busque âncora salvadora no ‘disco mais vendido de todos os tempos’, Thriller, de Michael Jackson, com 105 milhões de cópias desde o lançamento, em 1982, até hoje. Prepara para março uma reedição pomposa, acrescida de DVD, gravações inéditas e novas versões de Billie Jean, Beat It e outras músicas, pilotadas por artistas da moda na black music, como will.i.am, Akon, Fergie e Kanye West. Tão assolado por escândalos quanto a indústria por rombos, Michael em pessoa permanece calado e em constante crise criativa.

Outra figura-símbolo do atual momento do mundo da música chama-se Britney Spears, também da Sony BMG. Ex-atriz mirim do Clube do Mickey, ela colabora com o pão nosso de cada dia da mídia sensacionalista com uma sucessão interminável de dramas pessoais, atitudes descontroladas e ameaças suicidas.

Tratada como piada, enquanto se autodestrói em público, Britney faz ‘sucesso’ por razões que nada têm a ver com música. Mas em Blackout, CD ultracomercial lançado no fim de 2007, espalha pistas sobre seu estado e o das gravadoras. Não é surpresa este pânico na indústria, canta, entre lamúrias como vocês não vão prestar atenção em mim? e vocês querem um pedaço de mim? Vendeu até agora cerca de 2 milhões de exemplares, ante 22 milhões do recorde da artista, em 1999.

O estado de espírito não é só dela, mas da maioria dos nomes de ponta no atual mercadão musical. Britney, Robbie Williams e as jovens Amy Winehouse e Lily Allen marcam presença menos pela música que pelas incessantes idas a clínicas de reabilitação e desintoxicação. Rehab, interpretada por Amy com vozeirão de cantora antiga de jazz, foi uma das canções mais expressivas de 2007. Querem me levar para a reabilitação/ E eu digo não, não, não, ela canta, entre uma e outra internação.

Outro dos pontos controversos da propalada reestruturação da EMI diz respeito à busca de patrocinadores privados para os artistas sob contrato. ‘Isso não é novidade. Artistas como Marisa Monte, Caetano Veloso e Ivete Sangalo atuam exemplarmente dentro dessas possibilidades’, diz Castello Branco. ‘Queremos ser um driver dessas alternativas e atuar em parcerias que contribuam para a maior visibilidade de nossos projetos.’

Pode não ser novidade, mas o fato é que, pressionadas pela insuficiência de lucro nas lojas, as gravadoras cada vez mais tentam abocanhar outras fontes de receitas dos artistas, como as de shows e contratos publicitários. A Sony BMG, por exemplo, anunciou a criação da subsidiária Day 1 Entertainment, uma ‘agência de talentos’ para gerenciar as carreiras de músicos e, talvez, jogadores de futebol.

‘A previsão é de que neste primeiro ano a Day 1 faça de 300 a 400 shows e contrate de três a cinco artistas no Brasil. Só na América Latina já chegamos a 50 artistas’, comemora o gerente-geral local da Sony BMG, Alexandre Schiavon. ‘Apesar de outra grande queda de mercado neste ano, que, creio, deva ficar em 30%, fechamos o segundo ano consecutivo com lucro e 21% acima do ano anterior.’

Devem estar relacionadas a esse novo contexto afirmações do empresário de Robbie Williams, Tim Clark, de que o novo todo-poderoso da EMI, Guy Hands, age como um ‘fazendeiro’ que ‘escraviza’ seus contratados. No ano passado, Williams teve de amargar o fato de a EMI usar o relativo fracasso comercial do álbum Rudebox como um dos bodes expiatórios da crise que levou à venda ao fundo de investimentos. Agora, um editorialista financeiro do Times tomou partido da EMI e classificou como ‘risível’ a queixa sobre escravidão. Astros do rock, lembrou, estão entre os seres humanos mais ricos e paparicados do planeta.

Mas não são inéditas acusações como a de Williams. Em 1994, George Michael processou a Sony por um suposto ‘contrato de escravidão’. E perdeu. Em 1993, Prince estampou na bochecha o termo ‘escravo’, em protesto contra sua gravadora na época, Warner. Em 2007, ele distribuiu o CD mais recente gratuitamente, em shows e encartado numa edição do jornal britânico Daily Mail.

Contra o modelo criado pelas gravadoras insurge-se um novo, capitaneado por outro nome ejetado da constelação da EMI, o Radiohead. No fim do ano passado, o grupo alvoroçou a indústria mundial ao lançar o álbum In Rainbows de modo independente e virtual. Inicialmente disponível apenas no site da banda, foi comercializado em download, por um preço a ser definido individualmente pelos consumidores, e que poderia ser igual a zero.

Os resultados concretos do levante do Radiohead ainda são controversos, mas é fato que o grupo conquistou repercussão ímpar e se libertou da faixa média de direitos autorais praticada pela indústria cultural (em regra, cerca de 10% do total das vendas) e ficou com a totalidade do valor arrecadado no sistema ‘faça você mesmo’.

Outro exemplo de mudança de foco nas relações entre a música e a indústria fonográfica foi dado pelo brasileiro Gilberto Gil, que na segunda-feira 21 se despiu das vestes de ministro da Cultura para anunciar, numa entrevista coletiva no escritório brasileiro do Google, a criação de um canal exclusivo dentro do site de compartilhamento de vídeos YouTube.

O endereço www.youtube.com.br/gilbertogil passa a disponibilizar, gratuitamente, a produção audiovisual do músico, o que inclui desde vídeos históricos a gravações inéditas de ensaios, cenas caseiras, bastidores e colaborações de fãs. Em apresentações recentes, o artista tem fugido à praxe proibitiva de casas de espetáculos para pedir que os espectadores filmem os shows em câmeras e celulares e os publiquem eles mesmos na internet.

Segundo Gil, o acordo com o Google não significa o abandono de um contrato de 30 anos com a Warner. ‘Acho que meu próximo disco, Cordel Banda Larga, será o último no antigo formato. Mas pretendo manter o vínculo com a Warner, até porque é instrutivo para eles, para que possam vivenciar comigo novos modelos de negócio’, diz.

O músico-ministro contorna a questão ética por trás da duplicidade de funções que exerce e de um possível uso político do canal exclusivo no site do Google: ‘Me atenho ao lado artístico e empresarial. Se alguém filmar uma solenidade e publicar, a gerência do canal vai entender se é conveniente ou não manter’. A gerência é feita pela equipe que faz o site de Gil, coordenada por sua esposa, Flora.

Como acontece em todo o YouTube, o canal se move na linha tênue entre a oficialidade e a informalidade, já que é farta a quantidade de pirataria em circulação, como em fonogramas pertencentes a gravadoras e editoras ou imagens antigas de propriedade de emissoras de tevê. ‘Alguém me mostrou um vídeo de Gil com os Mutantes no festival da Record (de 1967). É o caso de conversar com a emissora e legalizar o que ainda não for legal’, afirma o presidente do Google Brasil, Alexandre Hohagen, que chefia uma equipe de 200 funcionários, iniciada há 30 meses. Na semana de estréia, o vídeo estava livremente disponível no canal.

A diretora de marketing do Google local, Patrícia Pflaeging, admite a tensão por trás da mudança de modelos, falando do susto da gravadora diante da proposta de liberar a obra de Gil no YouTube: ‘Na primeira reunião, a Warner queria morrer’. O músico afirma: ‘É um exercício menos para o artista que para a gravadora, que precisa desesperadamente encontrar modelos ágeis, sair daquela coisa mastodôntica das ‘majors’ e entrar um pouco no universo das ‘minors’.

Patrícia diz que uma carta-acordo foi assinada pelo Google e por Gil, mas o artista e Hohagen são uníssonos em afirmar que não existe um contrato em termos comerciais nem geração de receitas para nenhuma das partes. ‘É uma ação que não visa lucro nenhum. Neste momento, o objetivo é puramente artístico’, diz o presidente do Google.

Se é assim mesmo, nesse ponto os 10% de direitos autorais pagos por gravadoras aos criadores são trocados por um redondo zero via internet. Quanto ao Google e ciberempresas correlatas, entra-se num território de lucro mais ou menos impalpável. ‘Se atrair mais usuários, posso expandir o negócio, levar mais visitas ao site do Gil’, afirma Hohagen, sem quantificar.

Mas, ao contrário do que Gil sugere, conglomerados de nome Google, Microsoft ou Apple nada têm de ‘minors’. E são eles os adversários posicionados atrás das ruínas das velhas e palpáveis fábricas de discos.’

 

CINEMA
Ana Paula Sousa

‘Fazer cinema no Brasil é difícil para qualquer um’

‘Há um par de anos, Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli decidiram tornar pública sua porção cinéfila. Na Mostra de Cinema de São Paulo, o casal passou a ser visto não apenas nos acontecimentos mais badalados, mas também em sessões-cabeça, como uma exibição de Império dos Sonhos, de David Lynch, num domingo de manhã. Pareciam querer dizer que, atores bonitos, tinham virado outra coisa. Em 2005, exibiram Stress, Orgasmos e Salvação, primeiro filme com direção de Riccelli e roteiro de Bruna. Mas a produção, sofrível, passou em brancas nuvens.

Dois anos mais tarde, o casal voltaria às telas da Mostra com O Signo da Cidade. Após percorrer vários festivais com boa recepção do público, o filme estréia em São Paulo na sexta-feira 25 e segue, nas semanas seguintes, para outras cidades. É inegável o salto qualitativo. O Signo da Cidade, ao contrário do primeiro filme, sabe onde quer chegar. Com suas histórias entrecruzadas à la Crash ou Amores Brutos, repete uma fórmula que tem agradado as platéias e procura emocionar.

Fatalista, no sentido de tratar o destino como algo inevitável, e catártico, o título inclui-se na vertente cinematográfica que flerta com a auto-ajuda. Mas Riccelli discorda da definição e tira outra da manga. ‘Mostramos personagens desesperados, solitários, que procuram uma programa de rádio ou uma astróloga e colocam o destino nas mãos dessas pessoas’, descreve.

O Signo da Cidade quer mostrar as solidões que a cidade de São Paulo oculta. Acerta em algumas, carrega nas tintas em outras. Soa excessivo, por exemplo, o número de suicidas que cruzam o caminho da astróloga vivida por Bruna. Uma das qualidades do filme é o elenco (confira em www.osignodacidade.com.br), que inclui atores como Juca de Oliveira, Eva Wilma e Denise Fraga, capazes de nos fazer acreditar nas aflições dos personagens.

Na terça-feira 22, antes de seguir para a pré-estréia, Carlos Alberto Riccelli conversou, por telefone, com a reportagem de CartaCapital. Afável, admitiu que, em fase de lançamento de filme, falar com a imprensa se torna uma das prioridades de um diretor.

CartaCapital: A primeira pergunta é tão óbvia quanto inevitável. Em que momento você decidiu que queria virar cineasta?

Carlos Alberto Riccelli: O cinema é uma paixão desde criança. Quando eu era menino, meus pais sempre nos levavam, eu e três irmãos, ao cinema. Íamos ver as chanchadas da Atlântida. Eu comecei a ser ator sonhando fazer cinema. Por mais que adorasse teatro, era nos filmes que eu me encontrava. Mas, dirigir, foi algo que surgiu de forma não programada, apesar de eu sempre ter me interessado por tudo que se passava no set e de ficar pensando em como determinada cena poderia ser feita. Foi quando a Bruna começou a fazer o programa Gente de Expressão que acabei pegando a câmera várias vezes. Eu era produtor, mas sempre sobrava alguma coisa de direção para mim.

CC: Você considera seu primeiro filme, Stress, Orgasmos e Salvação, uma espécie de exercício? Ele parece, de certo modo, bem mais improvisado que O Signo da Cidade.

CAR: Foi, de alguma maneira, um exercício, mas eu encarava como um filme pra valer. Stress … é baseado num conceito, mas é algo que me interessa muito.

CC: E o novo filme, nasceu do que? Da história, da vontade de falar de São Paulo?

CAR: O processo de criação é algo muito estranho. Não sei o que veio antes. Trabalhamos o roteiro da Bruna durante três anos. No fim, chegamos onde nem imaginávamos.

CC: O filme repete a estrutura de várias produção contemporâneas, como Crash, por exemplo. Isso foi algo intencional?

CAR: Não. Na verdade, a Bruna sempre gostou de escrever para vários personagens. É por isso que o filme tem essa estrutura de painel. Além do Crash, se você pensar, Amores Brutos, Magnólia ou Short Cuts também são assim.

CC: O filme também é bastante fatalista, não? Me chamou a atenção, por exemplo, o número de suicidas …

CAR: Você tem que criar conflitos e depois resolver.

CC: Mas São Paulo acaba surgindo também como uma cidade de solitários e, de certa maneira, neuróticos …

CAR: Existe uma indiferença das pessoas em relação ao próximo. Não é por maldade, mas pela competição. A vida corrida faz com que não tenhamos de olhar para o outro. E aí muita gente liga para um programa de tevê ou procura uma astróloga e joga a solução na mão dessas pessoas. Muitas vezes, elas acabam tendo um final trágico. Mas às vezes também encontram que as ajude. Isso é uma coisa que toca muito as platéias. Ao final, as pessoas vêem um pouco de esperança. É um filme que ajuda as pessoas.

CC: Nesse sentido, tem um quê de auto-ajuda …

CAR: Fala-se muito em auto-ajuda hoje em dia. Mas o filme não é isso, não tem essa pegada.

CC: O fato de você e a Bruna serem atores conhecidos deve facilitar o lançamento, não? Pelo menos, vocês não devem sofrer do problema de invisibilidade que atinge boa parte dos filmes brasileiros.

CAR: Olha, fazer cinema é difícil para qualquer um no Brasil. A gente não consegue espaço no circuito, por exemplo. E não adianta ser mais ou menos conhecido. Os donos das salas querem saber se o filme vai dar dinheiro ou não. Estamos fazendo essa promoção a um real, no dia do aniversário de São Paulo, para chamar a atenção e acreditamos no boca-a-boca. Se as pessoas gostarem, elas vão falar para os amigos. É nisso que apostamos.’

 

 

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Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

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