Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Carta Capital

04/03/2008 na edição 475

JÚLIO LANCELOTTI
Carta Capital

Enfim, a palavra final, 29/2

‘Passados seis meses desde o início do rumoroso caso que envolveu o padre Júlio Lancelotti, o parecer do Ministério Público de São Paulo concluiu que o coordenador da Pastoral dos Povos da Rua foi vítima de extorsão. Nada além disso. À mesma conclusão chegou a Polícia Civil, em novembro do ano passado, depois de investigações que correram sob sigilo.

Em agosto de 2007, o padre denunciou a extorsão praticada por Anderson Batista, ex-interno da extinta Febem, atual Fundação Casa, a quem o padre chegou a entregar 80 mil reais. Outros três acusados também foram denunciados pelo sacerdote.

Diante do caso, a maior parte da mídia passou a dar grande destaque às acusações de pedofilia e de desvio de verbas supostamente praticados pelo religioso. Aos poucos, com menor alarde, noticiou serem infundadas. Com discrição ainda maior, informou sobre a conclusão das investigações do MP.

Ao lado da avalanche de notícias negativas, padre Lancelotti também recebeu manifestações favoráveis. Em novembro último, algumas dezenas de fiéis se reuniram em frente à sua residência, em São Paulo, para dar apoio. Na ocasião, o padre não falou com os jornalistas, mas reafirmou ser inocente. Em dezembro, o presidente Lula compareceu a um evento de Natal dos catadores de rua organizado pela pastoral liderada pelo padre e também manifestou seu apoio.

O julgamento final, que encerrará todo o episódio, deverá ocorrer nos próximos dias. O ex-deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado de defesa, critica a atuação da mídia. `Vou aguardar o julgamento para, depois, tomar providências jurídicas´, diz o advogado.

Muitos veículos de comunicação cometeram os erros do prejulgamento e da cobertura desigual quanto a notícias favoráveis ao religioso. Resta saber se algum dia, enfim, o direito à presunção da inocência será respeitado.’

RÚSSIA
Gianni Carta

Putin é o herói dos russos, 29/2

‘Professora especializada em Rússia da London School of Economics, Margot Light defende a tese de que a popularidade de Vladimir Putin, a despeito de seus percalços, tem de ser analisada do ponto de vista do povo russo.

CartaCapital: Na última coletiva de Putin como presidente da Rússia, vimos um homem combativo que parece ter a intenção de continuar no poder.

Margot Light: É difícil imaginar Putin, após oito anos no poder, aceitando ordens de Dmitri Medvedev. Isso a despeito do fato de, constitucionalmente, ser Medvedev quem deverá dar as ordens, e Putin, em tese, as cumprirá.

CC: Medvedev já venceu o pleito de 2 de março?

ML: Medvedev vencerá no primeiro turno. Ele é protégé de Putin e, no momento, o nível de popularidade de Putin é de 65%.

CC: Por que Putin é tão admirado?

ML: A Rússia voltou a fazer parte do cenário internacional como país poderoso. Por outro lado, existe o contraste entre Putin e seu antecessor, Boris Yeltsin. Yeltsin era uma figura ridicularizada no tablado político internacional. Portanto, Putin, líder sóbrio (literalmente), e saudável (é faixa-preta de judô), deixa os russos orgulhosos. Vários comentaristas ocidentais não concebem a palpável humilhação sentida pelos russos sob Yeltsin, nos anos 90. Os britânicos e os franceses deveriam ter entendido melhor esse estado de espírito russo por um simples motivo: também perderam impérios. Contudo, no caso da Rússia, houve também o total colapso da economia. Houve uma série de mudanças da noite para o dia e, assim, uma significativa fatia do povo ficou desestabilizada psicológica e materialmente. Lembre-se que essa geração dos anos 50 foi a primeira a gozar de estabilidade. Seus avós e pais passaram por momentos difíceis, como a revolução de 1917, o período de industrialização, a Primeira e Segunda Guerra Mundial…

CC: Mas um presidente que, após dois mandatos, quase certamente virará premier é algo inconcebível.

ML: Para os russos, isso é ótimo. Qualquer líder internacional daria seus olhos e dentes para ser tão popular quanto Putin – e após dois mandatos presidenciais. Nós, ocidentais, perdemos ao não analisar Putin da perspectiva dos russos. Por isso, qualquer crítica feita a Putin, vinda do Ocidente, só serve para aumentar a sua popularidade.

CC: Além de não tomar uns tragos a mais, como Yeltsin, e ter colocado a Rússia no mapa, quais seriam as razões dos russos para colocar Putin no pedestal?

ML: Quando Putin chegou ao poder, a Rússia estava terrivelmente endividada. Seus credores, em particular as instituições financeiras internacionais, ditavam a política econômica da Rússia. A riqueza obtida com o petróleo permitiu a Putin pagar a dívida externa. Isso, mais do que tudo, fez com que a Rússia se tornasse novamente um Estado soberano e independente.

CC: Mas, apesar do sucesso de Putin, a Rússia permanece um país dividido entre uma minoria de ricos e um mar de pobres, a corrupção permeia todas as camadas da sociedade e a inflação pode causar estragos em breve.

ML: Tudo isso é verdade. Putin disse na última coletiva à imprensa como presidente que não conseguiu estreitar a disparidade entre ricos e pobres; mencionou, ainda, a inflação que ronda o país. E admitiu que não conseguiu acabar ou pelo menos atenuar a corrupção. Eu apontaria outra falha: Putin falhou ao não diversificar a economia. A Rússia ainda é uma economia de Terceiro Mundo. Depende de poucas fontes energéticas (petróleo e gás) e, portanto, está à mercê de volúveis preços globais. E será que o país terá reservas suficientes para fornecer petróleo e gás num momento de demanda crescente? Outra falha de Putin: baixas somas da receita do petróleo foram investidas em projetos de infra-estrutura, estes fundamentais para tornar a Rússia uma economia moderna.

CC: Como diferencia o Putin do primeiro mandato daquele do segundo mandato?

ML: Putin certamente cresceu no papel. Sempre transmitiu a imagem de líder sério. No entanto, essa imagem parecia artificial. Mas, no segundo mandato, ele se tornou muito mais convincente. Conhece profundamente seus dossiês. Cita números, armazena vasta bagagem de informações na cabeça. Você pode não estar de acordo com suas idéias, mas ele as expõe de forma clara e objetiva. Putin é articulado. É excelente orador e é interessante notar o contraste entre ele e Bush.

CC: Mas ser superior a Bush não é muito difícil…

ML: De fato (risos). Mas Bush melhorou como orador nos últimos oito anos.

CC: O fato de Putin ser ex-espião da KGB e ex-chefe da FSB (sucessora da KGB) não inquieta os russos?

ML: De forma alguma. Claro, as pessoas não associam o trabalho feito por Putin nos serviços secretos ao de seus antecessores sob Stalin. A KGB – e depois a FSB – nunca teve o mesmo tipo de desaprovação pública que tiveram as Forças Armadas, após a derrota dos soviéticos no Afeganistão. Além disso, desde a formação da União Soviética, e após seu desmantelamento, a corrupção rolou solta entre burocratas de todos os níveis, incluindo militares de todos os escalões. Entretanto, nunca houve acusações de corrupção contra e a KGB e a FSB. Portanto, os espiões desenvolveram essa aura. E, em 2000, quando Putin foi eleito presidente pela primeira vez, todo mundo queria lei e ordem, prioridades de um ex-chefe da FSB.

CC: Ao mencionar programas de cinco anos da ex-União Soviética, a senhora também se refere a uma nostalgia pelos velhos tempos, quando Moscou era poderosa?

ML: Sim, mas essa nostalgia não inclui o império soviético. A Rússia quer que decisões internacionais requeiram algum tipo de consentimento por parte de Moscou. Eu diria que esse tem sido o aspecto primordial da política externa de Putin, ao longo de sua presidência. Putin fez um trabalho notável, ajudado, claro, pelo aumento dos preços do petróleo.

CC: Deveríamos ter medo de Putin quando ele ameaça com retaliações a propósito da independência do Kosovo?

ML: Não que tipo de retaliação Putin poderia desferir. Mas tem um bom argumento: indaga por que a Europa nunca reconheceu o norte de Chipre. A criação do Kosovo não tem precedentes. E poderá trazer conseqüências sérias para o mundo.

CC: Como vê as ameaças de Putin contra o plano americano de instalar um sistema de escudo antimísseis na Polônia e na República Tcheca?

ML: Nesse caso, as ameaças de Putin são mais reais. A Rússia, disse ele, apontará alguns de seus mísseis nucleares para esses dois países. Isso não quer dizer que ele apertará o botão, mas criará, porém, bastante desconforto. Putin não crê que o escudo antimísseis tenha como alvo a Rússia, mas o fato de lá terem sido instalados, e mais o alargamento da Otan nos Bálcãs e no Norte da Europa, favorece a percepção de que a Rússia está cercada. Encare o mapa: a Rússia está cercada.

CC: E como avaliar o fato de a Rússia estar vendendo tecnologia nuclear para o Irã?

ML: Nos anos 90, a Rússia não queria ser uma economia de Terceiro Mundo, dependente somente de suas exportações. O país tinha armas e tecnologia nuclear para competir em nível global. E assim começou a vender essa tecnologia, em nível comercial, para o sistema nuclear civil do Irã. Washington teve um confronto com Moscou e Yeltsin não aceitou receber ordens dos EUA. Foi então que Moscou passou a ver Washington como centro de um mundo unipolar. E havia o medo de que Washington iniciasse uma guerra contra o Irã. A Rússia não tem interesse que o Irã tenha armas nucleares. Moscou teme ser o alvo dessas armas nucleares porque o Irã fica muito próximo das fronteiras da Rússia. Desde então, a Rússia quer negociar através do Conselho de Segurança da ONU, o que é complicado, dada a inflexibilidade de Moscou. Contudo, os russos cooperaram com a última resolução da ONU.

CC: Estamos voltando aos tempos da Guerra Fria?

ML: Não, há uma volta a reflexos da Guerra Fria. Não importa o que a Rússia faça, e governos ocidentais automaticamente respondem de uma maneira particular – e vice-versa. Não voltaremos, no entanto, à guerra ideológica entre Washington e Moscou.’

JORNALISTAS
Rosane Pavam

Gisele-mala contra o Wonka meio-amargo, 28/2

‘Houve um tempo em que jornalistas rivalizavam com escritores. Dizendo isto melhor, era como se os periodistas (boa palavra em espanhol para os que escrevem e não permanecem) desejassem alcançar a transcendência literária ao relatar acidentes de trem. Os tempos mudaram, ou mudamos nós, e grande parte dos jornalistas não acredita mais ser necessário ou possível escavar o mundo a esta profundidade no exercício profissional.

O universo jornalístico, obediente a uma simplificação quiçá desejada pelos leitores, chegou ao ponto de não suportar nuances. O que invariavelmente lemos nos jornais é que há os comportamentos aceitáveis ou inaceitáveis. E as boas ou más atitudes são ditadas pelo padrão de alguém muito poderoso que desconhecemos, como na situação escolar em que um aluno obedece ao professor. Nem se observa mais se há duas versões para um mesmo fato. Bandido é bandido, e mocinho, mocinho da Daslu…

O profissional da imprensa – aquele que, em lugar de procurar, `sabe´ – tem suas razões para se ver transformado neste homem que só enxerga brancos e pretos sugeridos pela elite de única cor. Ele tenta transformar sua profissão, moralmente indefensável segundo a classificou Paulo Francis, em algo destacado socialmente, bom para o mercado, inofensivo aos olhos dos inquisidores capazes de sustentar mais jornalistas.

São novas as ilusões perdidas. O escritor dos jornais – e isto não é irônico – tem contas a pagar. A mudança de seu status de irresponsável filosófico-poético para observador imparcial-inflexível tornou-se a utopia que ele persegue.

Mas o jornalista precisa analisar se, em vez de chegar a isso, está se tornando um tipo ridículo, cada vez mais favorável ao pensamento que o domina, em nome de uma utopia na verdade alheia. Quem deseja respeitabilidade precisa apontar a bobagem escondida no senso comum. E só pode mostrar isto a alguém aquele que está fora de tal senso, livre para pensar diferente.

Um profissional talvez não deva perseguir o doce que não pode comprar, nem bajular o dono da maravilhosa fábrica de chocolates em troca de um. Ele deve ser, imagino, a consciência amarga do mundo, em busca de interpretá-lo. Mas é preciso que ele deseje interpretar alguma coisa. O desregramento dos sentidos de que falava Arthur Rimbaud em busca de uma verdade poética serviria, então, como uma ferramenta para alcançar a `verdade´ jornalística. Muitas vezes é possível encontrar no jornalismo quem entenda e promova tal concepção arriscada. Temos de procurar esses lugares como as formigas, as aranhas mortas.

O obituarista do `The New York Times´ Robert McG. Thomas Jr., que inventou um jeito de tratar seus cadáveres sem bajulação (leia O Livro das Vidas – Obituários do New York Times), era criticado pelas posições muito pessoais à hora de escrever sobre os homens falecidos nos Estados Unidos. E então ele dizia algo nesta linha quando perguntado se às vezes não ia longe demais: `Claro que vou longe demais, porque, se não o fizer, como saberei até onde ir?´ Isto nos leva a perguntar que problema haverá em praticar uma escrita pessoal. Vivemos em sociedade, e o que é pessoal também pode ser de todos.

Muitos jornalistas talentosos caminham em outra direção. Em direção à fábrica de chocolates dos padrões. Mas se você se lembra do livro ou do filme, até mesmo Willy Wonka, o dono da fábrica, era um perseguidor da má consciência, um educador amargo.

Leio a cobertura jornalística das semanas de moda e vejo crescer em mim um Gene Wilder de olhos arregalados, prestes a condenar meninos inteligentes, porém maus, que visitam sua fábrica fantástica. Penso: o que significa esta maneira sacralizada de encarar a moda? Na minha visão quiçá disfuncional, as semanas fashion são dignas de que um comediante como Sacha Baron Cohen as vasculhe no `Da Ali G Show´, mas os jornalistas as entendem como fenômeno de alta cultura. Pergunto-me se elas devem mesmo ser encaradas assim. Frequentemente há mais elegância, dignidade e ordem em um sem-teto de viaduto do que na jovem de passarela caminhando sonâmbula.

Lembro-me que há pouco tempo a `modelo mais do que isso´ Gisele Bündchen desfilou no Rio, à sua moda peculiar de general alemão, por um palco circular giratório que imitava a esteira de bagagens do aeroporto. O efeito interessante surgido disto era que, sobre o palco giratório, a pequena militar jamais alcançava a próxima base. Perguntei-me se aquilo seria obra de um desavisado ou se fora planejado como uma performance contra o status da moda na sociedade contemporânea. Porque a moça milionária, andando em círculos como um Pato Donald mandado à sala de preocupação por Tio Patinhas, parecia representar certa perda de sentido do Brasil. Gisele-mala, Gisele-o-que-nos-tornamos. Ali, na esteira, ela era um objeto atraente sempre de volta ao mesmo lugar, à espera de um rico que a carregasse. Não assisti a espetáculo televisivo mais emblemático de nossa subserviência desde então.

Mas eis que os jornais do dia seguinte lamentaram a irresponsabilidade da marca ao desperdiçar Gisele num palco circular, com roupas tão sem graça. Tudo bem quanto às roupas sem graça. Mas desperdiçar Gisele? Como assim? Ela é uma mulher destinada a ilustrar o desperdício – o do consumo excessivo de vestimentas – e para isto ganha além da conta, ao que parece 350 mil euros, neste caso, pela marcha de alguns minutos. Esta é, além da beleza, a importante mensagem que Gisele escreve, que a usem e a carreguem desde que paguem caro por ela, como a mala na esteira do aeroporto. Foi um desfile perfeitamente simbólico do que as celebridades e seu país estejam a representar em determinado instante.

Uma roupa é algo que vestimos e que nos torna respeitáveis. Uma semana fashion é feita para agradar aos comerciantes que inventaram tal utilidade para os vestidos. Claro que um desfile de moda não precisa ser só isto, uma apresentação para o comércio, e pode receber a interpretação livre de quem o observa. Por este motivo, seria ótimo contar de vez em quando com a cumplicidade de jornalistas desconfiados do espetáculo, dispostos a enxergar na moda uma excitante – e outra – razão.’

TECNOLOGIA
Guilherme Felitti

Microsoft e Yahoo: o flerte com a transparência como forma de sobrevivência, 29/2

‘Por motivos bastantes distintos, duas gigantes da tecnologia que tiveram seus caminhos cruzados neste mês anunciaram iniciativas surpreendentes que flertam com maior transparência em suas atividades durante a última semana.

A primeira foi a Microsoft. Em anúncio com toda a pompa que o presidente Steve Ballmer e o chief software architect Ray Ozzie pede, a gigante de software anunciou que mudaria radicalmente sua postura de protecionismo sobre informações de seus produtos e abriria, para acesso público, milhares de documentos que ajudariam desenvolvedores (rivais, inclusive) a entender como o sistema operacional Windows, o pacote corporativo Office e outras ferramentas corporativas funcionam a ponto de facilitar o desenvolvimento de complementos.

Além da documentação, a companhia se comprometeu a respeitar padrões usados comumente na internet, em uma citação explícita ao seu navegador Internet Explorer. Ao criar um padrão próprio que pouco respeitava os definidos pela W3C para reproduzir páginas e serviços, o IE se tornou sua própria vítima – em recente post no blog da equipe responsável pela oitava versão do navegador, desenvolvedores da Microsoft classificavam como `marco´ o software respeitar o teste Acid2, algo já suportado por rivais de menor popularidade, como o Opera.

Por fim, a Microsoft assumiu a direção da tradicional antagonista comunidade de software livre e afirmou que criará a Open Source Interoperability Initiative para investir em pesquisas que melhorem a interoperabilidade entre seus produtos e as soluções cujo código está disponível para acesso público. Vale lembrar que, em nenhum momento, a Microsoft se comprometeu a abrir o código fonte de seus produtos.

O que parece ser um ataque fulminante de consciência do mercado de internet por uma empresa tão restritiva quanto os códigos dos seus software muda de imagem quando o contexto é aplicado. Na semana seguinte ao anúncio feito por Ballmer e Ozzie, que substituíra o fundador e multibilionário Bill Gates a partir de junho na Microsoft, a organização ISO se reúne em Genebra para dar sua palavra final sobre a guerra entre os padrões de documentos eletrônicos Open XML, da empresa, e o Open Document Format, defendido pela comunidade de software livre e empresas como IBM, Sun e Google.

A Europa é, tradicionalmente, um terreno onde as políticas de mercado da Microsoft enfrentam restrições. Foi pelas mãos da União Européia que a companhia se viu obrigada a pagar multa de 690,3 milhões de dólares e vender uma edição do Windows XP sem o software multimídia Windows Media Player após o órgão decretar que a companhia feria a lei de posição dominante do Tratado da União Européia, formando um monopólio. A companhia tentou apelar da decisão de 2004 – em setembro de 2007, a UE confirmou a multa. Além disso, na quarta-feira 27 a UE condenou a empresa de Bill Gates a mais uma multa, desta vez de 889 milhões de euros.

Caso perca, a Microsoft estará numa situação inédita: impossibilidade de usar seu poder de mercado para transformar tecnologias próprias em padrões, terá que adaptar o pacote corporativo Office ao Open Document Format caso queira que governos com contratos de licenciamento ou empresas sem acordos exclusivos continuem a usar os softwares corporativos respeitando a decisão da ISO.

A segunda foi o Yahoo. Acuada com a oferta de compra não requisitada da Microsoft avaliada em 44,6 bilhões de dólares, preço 30% maior que o valor de todas as ações do buscador no dia anterior à proposta, a empresa criada por Jerry Yang e David Filo parecia fadada a ser engolida pela gigante de software após ver o Google, uma antes ameaça descartável, dominar o mercado de buscas, o que lhe deu de bandeja a participação majoritária na publicidade online.

O Yahoo teve chance de comprar o Google em 2002. O então CEO Terry Semel ofereceu 3 bilhões de dólares pelo serviço potencialmente devastador, mas sem modelo de negócios fechado ainda. O Google descartou – três anos depois, com suas ações indo dos iniciais 85 dólares para cerca de 300 dólares menos de um ano depois, o que dava valor de mercado de mais de 12 bilhões de dólares à empresa de Sergey Page e Larry Brin.

Assim como havia feito o Google, o conselho do Yahoo descartou a oferta. Entre os meandros de uma guerra que a Microsoft faz para convencer os acionistas do buscador que a compra é benéfica, o que traz uma hostilidade sem tamanho para o negócio, o Yahoo anunciou, meio que timidamente, que abrirá sua busca para desenvolvedores, primeiramente para a sofisticação dos resultados listados sempre que você digita a palavra que quer e digita Enter.

Nada impede o Yahoo de ir mais fundo e embarcar na radicalidade de permitir que os próprios usuários mexessem no algoritmo de busca do Yahoo Search, algo que Erick Schonfeld já havia descrito no TechCrunch antes do `Não´ à Microsoft.

Os riscos são muitos – como estão por trás das plataformas de publicidade online, os algoritmos determinam a ordem de resultados (editoriais ou comerciais) e, portanto, qual anunciante tem que pagar mais ao buscador. Qualquer um com interesse próprio no seu resultado poderia tentar interferir neste delicado balanço.

Não deixa de ser uma idéia, contudo, a ser considerada por um antigo gigante da internet que já foi símbolo de internet (lembra do `Do you Yahoo?´ nos anos 90?) e hoje rebola para não ser engolido, de uma maneira nem um pouco agradável, pela Microsoft.

Fora da história, Steve Jobs já se confessou um fã fervoroso de Bob Dylan. Se gostar de folk, Jerry Yang pode estar neste momento tomando coragem nos versos de `quando você não tem nada/você não tem nada a perder´ de `Like a Rolling Stone´.’

OSCAR
Nirlando Beirão

A tirania do red carpet, 29/2

‘Cena 1:

´Cambaleio através de todos os rostos distorcidos. George Lucas e Arianna Huffington, Jack Black e Stephen Colbert, Carrie Fisher e Meryl Streep… todos entram e saem de foco, num turbilhão. Estamos tão comprimidos que é difícil avançar. Sinto o chacra da garganta sendo fechado pelo perpétuo movimento de virar a cabeça para conferir o paradeiro de SMITH (the sexiest man in the hemisphere, segundo a revista People). E fico tão concentrada em olhar para trás que não percebo que estou pisando no vestido de Kate Bosworth.

– Ahn… desculpe, mas você está em cima do meu Balenciaga – gorjeia ela.

Kate puxa a cauda de chiffon cor de marfim debaixo de meu stiletto com um braço espectral (…). Contorno Adrien Brody, que está ocupado registrando o número de Donald Trump em seu celular´.

Cena 2:

´Sinto a plena humilhação de um ataque frontal iminente das Desesperadas. Podem imaginar o que é, aquele sentimento horrível, angustiante e desesperador de que todas as pessoas no planeta são mais bonitas, mais inteligentes, mais sensuais, mais divertidas e mais bem-vestidas do que você (…) As Desesperadas entram em superaceleração nos rompimentos públicos, fracassos de bilheteria e festas de aniversário. São particularmente virulentas durante a semana do Oscar. Os sintomas incluem overdose de Botox, Cabala, operações instantâneas, alta-costura e Ativan´.

Kodak Theater. Noite do Oscar. A passadeira vermelha. Os figurinos espantosos. A recepção pós-theater da Vanity Fair (que, este ano, por culpa da greve dos roteiristas, foi cancelada). Verdade e mentira. Ficção e realidade. Não dá para dizer. Afinal, isto é Hollywood.

As duas cenas acima poderiam ter acontecido nesse domingo 24. Poderiam. Mas estão no romance à clef que a Rocco acaba de lançar, a tempo de pegar o exagero perfumado do último Oscar. Celebutantes foi escrito, a quatro mãos, por Amanda Goldberg e Ruthanna Hopper. Duas insiders do circuito de celebridades de Hollywood S.A. Amanda, filha do produtor Leonard Goldberg (As Panteras). Ruthanna, filha do ator Dennis Hopper.

É hilariante. Para quem não teve paciência de esperar a transmissão, tarde da noite, o consolo: o livro é muito melhor do que o Oscar.

Em tempo: como esta página aqui se chama Tevelândia, seria bom ter uma ou outra palavra sobre

a transmissão via Globo. Depois de se pagar o castigo de uma interminável espera, culpa do abominável Big Brother, eis que preenche a tela a beleza inteligente e articulada de Maria Beltrão. A tevê está salva. José Wilker entrou no espírito fashion do red carpet e, se não fosse aquela meia faiscante, que ele não se acanhava de exibir, com a calça puxada quase até a cintura, a gente teria prestado mais atenção nos seus comentários sóbrios e, eventualmente, sábios. De fato, Wilker está cada vez melhor.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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