Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 17 E 18/5

Carta Capital

20/05/2008 na edição 486

RAÇA
Rosane Pavam

Demônio familiar, 15/5

‘Cento e vinte anos se passaram desde a abolição da escravatura no Brasil, mas, segundo nos diz uma recente pesquisa do IBGE encomendada pela Secretaria Especial da Igualdade Racial, o tempo não erodiu suficientemente a desigualdade entre negros e brancos no país. As regiões portuárias de Recife, Salvador, Rio e São Luís, onde aportaram os negros africanos durante o tráfico, ainda concentram seus descendentes. Isto quer dizer que os negros não se expandiram com segurança para regiões outras onde se dava o desenvolvimento industrial. Um século e duas décadas depois, as portas para seu crescimento não se abriram suficientemente.

Estes dados aterradores atingem um brasileiro naquele sentimento de orgulho de si mesmo que ainda pode lhe restar. Como nos momentos em que nos damos conta das precariedades educacionais em todos os níveis, voltamos a imergir em pesadelo anunciado e republicado com a exposição de uma realidade estatística. Desde os anos 1800 escritores e pensadores debatem-se contra a infâmia do analfabetismo e da escravidão, sempre levados a novos versos e manifestos a cada pesquisa nacional que decida assumir o assunto de frente. Mas ainda não se fez tudo para diminuir as desigualdades sociais até este século. Em que espelho a nossa face se perdeu?

Lembro-me de uma situação que o Brasil viveu na segunda metade do século 19, quando o poeta romântico José de Alencar, após escrever ‘O Guarani’, pôs-se a ser realista no teatro do Rio. Alencar percebia com que felicidade acorriam comerciantes e caixeiros a essas arenas de representação onde era possível comer peixe frito envolto em jornal durante as farsas intervaladas. Éramos os elisabetanos possíveis. No teatro São Pedro de Alcântara, o ator João Caetano exercia seu vozeirão romântico, e havia melodramas, tragédias neoclássicas e comédias para gostos robustos; no Teatro Ginásio Dramático, fincavam pé os opositores desse campo, aqueles que queriam representar os dramas de casaca burgueses, responsáveis por reproduzir a vida social contemporânea com sobriedade ou, no máximo, um sorriso.

Alencar desejava atingir o grande público, mas também ‘refiná-lo’ segundo uma tendência européia. Por conta disto, pôs-se a escrever o que chamou de comédia, na falta de palavra melhor para designar seu retrato de costumes. Era programático nosso poeta romântico, paradoxalmente partidário do realismo quando escrevia para o palco. Ele queria acompanhar as tendências francesas de representação livrando a comédia de um tom baixo. Mais: achava que, com seu teatro, contribuiria para impedir a desagregação indesejada da burguesia em formação.

Os valores burgueses, segundo Alencar, eram os da irmandade familiar. Esta era a classe social imperativa, que possibilitaria a todos um letramento, uma acomodação a ideais nobres favorecidos por um sistema de trocas livres. Entre estes ideais estava a aceitação, por parte dos pais, de que os filhos fossem o que desejassem na vida _ que pudessem, os homens, escolher entre o dote e o amor, e que as mulheres se revelassem a um tempo inteligentes e recatadas, sob o domínio de quem aceitassem por marido! O professor-titular da Universidade de São Paulo João Roberto de Faria explica este fenômeno em ‘A Comédia Realista de José Alencar’, assim como Décio de Almeida Prado o fizera em ‘Teatro de Anchieta a Alencar’, dois estudos brilhantes sobre o autor e seu mundo.

Na juventude, este Alencar que viveu 48 anos, até 1877, fora um liberal anti-escravista, como aquele Joaquim Nabuco defensor da monarquia se pautara pela convicção abolicionista. Mas, ao se aproximar do fim da vida, Alencar tornou-se um conservador, para quem a liberdade aos negros não seria ideal ao pleno funcionamento de um sistema produtivo não mecanizado, ainda necessitado de muitas mãos sofridas para se pôr em funcionamento. A abolição, a seu ver, não serviria também para os negros, que se veriam soltos à rua repentinamente, sem preparo ou sem ter a quem recorrer depois de anos de aprisionamento (uma tese aproximada, como sabemos, daquela do passarinho de gaiola que libertamos e matamos).

Em que bela confusão se meteu José de Alencar à procura de conduzir à aceitação o abjeto que há no homem! Em 5 de novembro de 1857, ele fez estrear, no Teatro Ginásio Dramático, sua comédia realista em quatro atos ‘O Demônio Familiar’, e até hoje os críticos acadêmicos se debatem em entender suas intenções. Seria abolicionista ou não? Machado de Assis, grandemente respeitoso da grandeza literária de Alencar nesse instante, acreditava que sim. O resto do mundo, talvez, que não.

Como se disse, esta é uma comédia, embora somente em alguns momentos possamos sorrir dela. Os personagens que eventualmente conduzem ao riso são o pretendente Azevedo, que a todo instante exercita seu francês para que ninguém o compreenda, muito menos as mulheres que deseja comprar com o casamento; e Pedro, o escravo de alcova que, ao trocar cartas de amor e intenções, decide reacomodar os casais às conveniências financeiras familiares e, por conseqüência, às dele, escravo.

Pedro fala ‘errado’ e ‘infantil’, como se a ausência de educação associada à imaturidade lhe pudesse ser condenada como cacoete. Um exemplo de como fala: ‘Moça gasta muito; todo o dia vestido novo, camarote no teatro para ver aquela mulher que morre cantando, carro de aluguel na porta, vai passear na rua do Ouvidor, quer comprar tudo o que vê.’ Pedro quer garantir a possibildade de, no futuro, ser cocheiro de algum dos pares que já imagina formar. Pensa como um rico mas não fala como um. Um desses casais poderá comprá-lo para que viva, no futuro, melhor do que hoje. O personagem central Eduardo, que nesse tipo de comédia é o raisonneur, aquele que resume ao espectador as intenções morais educativas do texto, começa a desconfiar dessa ação e a repudia.

E como funciona seu repúdio? Ele quer estabelecer a ordem nova. Mas Pedro, que trabalha para ajudar seus donos, o faz segundo um sistema ultrapassado, segundo crê Alencar. Diz Eduardo a propósito: ‘Os antigos acreditavam que toda a casa era habitada por um demônio familiar, do qual dependia o sossego e a tranquilidade das pessoas que nela viviam. Nós, os brasileiros, realizamos infelizmente esta crença; temos no nosso lar doméstico esse demônio familiar. Quantas vezes não partilha conosco as carícias de nossas mães, os folguedos de nossos irmãos e uma parte das afeições da família! Mas vem um dia, como hoje, em que ele na sua ignorância ou na sua malícia, perturba a paz doméstica; e faz do amor, da amizade, da reputação, de todos esses objetos santos, um jogo de criança. Esse demônio familiar de nossas casas, que todos conhecemos, ei-lo.’

O demônio familiar é Pedro, o negro. E, para livrar-se de sua ação demoníaca, Eduardo assina sua libertação. Pedro beija-lhe a mão agradecido e diz: ‘Pedro vai ser cocheiro em casa de Major!’

Que cocheiro seria esse, sem linhagem, cobrando por seus serviços? A liberdade, diz Eduardo, é a punição para Pedro, e não, como seria de se supor neste caso, um sem-número de chibatadas aplicadas nas costas. ‘… a tua carta de liberdade (…) será a tua punição de hoje em diante’, diz o raisonneur ao serviçal liberto, ‘porque as tuas faltas recairão unicamente sobre ti; porque a moral e a lei te pedirão uma conta severa de tuas ações’.

Sim, o castigo para um negro, acreditava Alencar, seria sua liberdade. Mas é verdade que podemos interpretar tudo de outro modo: ao libertar o negro, seu dono faz um gesto no sentido de exigir da burguesia um posicionamento contra esse demônio sobre o qual ela não acordara ainda – o demônio da escravidão, que ela deveria expulsar de seu convívio.

Este é um debate talvez comparável àquele que envolve a suposta traição de Capitu a Bentinho, no romance ‘Dom Casmurro’, de Machado de Assis. Mas é um debate do tempo reduzido a pó. Por meu lado, decido ressuscitá-lo porque ele me ajuda a explicar por que às vezes parece ilusória a liberdade dos negros que somos, de uma forma ou outra, todos nós.’

 

DIREITOS DE TRANSMISSÃO
Fabio Kadow

Disputa por exclusividade, 16/5

‘Não é só no Brasil que os grandes clubes de futebol discutem um acordo sobre as cotas de transmissão das próximas temporadas. De olho na grande audiência e, conseqüentemente, na verba dos anunciantes, o assunto ‘direitos televisivos’ domina a agenda no mundo todo e o futebol não é o único alvo das emissoras. O Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou que abriu concorrência na Europa para as emissoras interessadas em adquirir os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 e das Olimpíadas de 2016. De acordo com o COI, além da questão financeira, serão analisados vários quesitos, como o compromisso com o evento, a capacidade de oferecer transmissões com alto padrão de qualidade e o alcance da audiência.

Nos Estados Unidos, a ESPN venceu a disputa pelos direitos do tradicional US Open de tênis. Serão pagos 140 milhões de dólares por sete anos de contrato (de 2009 a 2016). A rede norte-americana passa a ser a primeira a conquistar, simultaneamente, os direitos de transmissão dos quatro Grand Slam. São os mais importantes torneios de tênis do circuito mundial. Reúnem, além do US Open, Wimbledon, Roland Garros e o Aberto da Austrália.’

 

O FUTURO DO JORNAL
Felipe Marra Mendonça

A imprensa no papel vai acabar?, 16/5

‘A circulação dos maiores jornais americanos continua a cair. Os dados do fim de agosto apontam para um futuro difícil. Os únicos que registraram crescimento foram o USA Today, que de tão simplista é quase um infográfico de várias páginas, e o Wall Street Journal, que teve suas vendas puxadas por leitores que queriam saber se Rupert Murdoch destruiria as virtudes do jornal depois da compra da publicação em julho de 2007.

Outros jornais importantes, como o New York Times e o Washington Post, sofreram quedas na circulação, mas a situação é ainda pior para os jornais locais. O Dallas Morning News perdeu 10,6% dos leitores e o Atlanta Journal-Constitution, 8,5%.

Esse cenário reforça a tese dos que defendem que o único caminho possível para a imprensa é migrar para a internet. É de se notar que a migração é tida como forçada, como uma medida extrema e desagradável. Contudo, não é o que mostra o Capital Times, de Madison, Wisconsin.

A última edição impressa do jornal saiu em 25 de abril e a transição foi explicada aos leitores no editorial ‘O novo velho Capital Times’. Paul Fanlund, editor da publicação, escreveu que a idéia era ‘assegurar que Madison, o condado de Dane e o Wisconsin tivessem uma voz independente para a paz, a justiça econômica e social e que se a verdade ao poder todo dia’.

Mais adiante, Fanlund sustentou que o fundador do jornal ‘nos diria para ficarmos despreocupados com o formato do Capital Times e nos concentrar no conteúdo e no caráter da nossa mensagem. E, como sempre, (ele) teria razão. Continuaremos a dar ao povo a verdade e a liberdade para discuti-la, e tudo vai dar certo’.

Alguns podem achar o otimismo de Fanlund um pouco exagerado, mas é importante que alguém da chamada imprensa tradicional demonstre uma reação além do simples pânico quando confrontado com a ‘ameaça da internet’. A circulação do Capital Times teve seu auge nos anos 60, quando atingiu 40 mil leitores. Antes do fechamento, a tiragem era de 18 mil.

A decisão de acabar com a edição impressa tem o potencial de ampliar o número de leitores e também dinamizar o conteúdo editorial. O Capital Times tem como forte a cobertura do noticiário local de Madison e a nova edição on-line deve reforçar essa imagem, coisa que os grandes jornais de cobertura nacional e os portais não têm. É o que argumentou o professor de jornalismo James Baughman, da Universidade de Wisconsin, ao New York Times. ‘Se existe essa janela de oportunidade para os jornais na internet, ela é a cobertura local. A versão on-line do Capital Times deve dar certo por isso.’

Baugham faz um paralelo interessante ao dizer que os jornais com edições vespertinas eram a internet da época, ao publicar os resultados atualizados dos jogos de beisebol ou os valores da Bolsa. Eram mais lucrativos do que seus competidores matutinos exatamente por isso.

É essa a oportunidade que a internet oferece e a transição do papel para a tela, se bem-feita, pode ser benéfica e lucrativa. Como escreveu o editor Fanlund no texto de despedida da edição impressa do Capital Times. Para ele, ‘tudo vai dar certo’.’

 

DOSSIÊ
Mino Carta

Os tiros da Toneleros ecoam?, 16/5

‘Os esqueletos deveriam estar bem guardados nos armários e os fantasmas engolidos pelo tempo. Ou não? A oposição demo-tucana e seu porta-voz, a mídia nativa, ainda ouvem o eco dos tiros da rua Toneleros como os astrônomos o ruído do Big Bang difuso no universo. E 54 anos demonstram valer, à escuta dos opositores da nossa política, mais que os 10 bilhões, ou mais anos, percebidos em Jodrell Bank e adjacências.

A memória não é o forte das gerações mais recentes, e nem tanto. Vale a pena, portanto, recordar que os tiros da Toneleros, rua carioca, remontam aos começos de agosto de 1954 e foram dirigidos contra o grande acusador do governo constitucional de Getúlio Vargas, Carlos Lacerda. Um o atingiu no pé, outro matou seu acompanhante, o major Vaz, da Aeronáutica.

Foi o lance crucial de uma crise que vinha desde o início do governo Vargas, combatido em duelo ao último sangue não somente porque não lhe perdoavam a ditadura estadonovista, mas também, e sobretudo, a política nacionalista. À sombra de Vargas nasceram, por exemplo, Volta Redonda e a Petrobras, e leis trabalhistas que há tempo soam como obsoletas, embora à época fossem revolucionárias aqui na terrinha.

Tio Sam sempre contou com magníficos advogados na Terra Brasilis. A tocaia urdida na Toneleros por profissionais contratados pelo ‘anjo negro’ de Vargas, númeno e fenômeno dos guarda-costas, Gregório Fortunato, é episódio digno do Oeste selvagem, e a campanha liderada pelo tribuno da aristocracia udenista, a denunciar desmando e corrupção, ganhou fôlego e substância. O Palácio do Catete, sede do governo nacional no Rio capital, segundo Lacerda, fora submergido por um ‘mar de lama’.

A tragédia tropical encerra-se com outro tiro, aquele do suicídio de Getúlio, direto ao coração, na noite de 24 de agosto de 1954. O povo chorou muito a morte do ‘velhinho’ e os planos da elite foram realizados, a rigor, somente com o golpe de dez anos depois. E nem mesmo a contento de Lacerda e companhia. Rondavam o território raposas mais espertas.

Os intérpretes da pantomima dos dias de hoje, 54 anos depois, não figuram na família das raposas, embora suponham nascer do conúbio entre estas e os lobos. Creio que Dante colocaria Lacerda no Inferno. Não existe, porém, um único, escasso personagem na oposição demo-tucana que se pareça com ele, mesmo vagamente, em cultura e oratória.

Não há semelhança, tampouco a mais pálida, entre os tiros da Toneleros e o chamado dossiê anti-FHC, que devora as energias oposicionistas na tentativa de manter o assunto nas primeiras páginas. Como se deu em outras ocasiões quando se pretendeu provar que um mar de lama invade o Palácio do Planalto, o Alvorada, a Granja do Torto, a patética expectativa por uma situação capaz de derrubar Lula acaba por se esvair em sua própria fragilidade

Não é que a mídia deixe de se empenhar no limite de seus modestos alcances. Observe-se, contudo. Apresenta-se como ‘dossiê’ o que não passa de planilha. Atribui-se o vazamento a um burocrata menor, em conluio com outro do mesmo porte, assessor do senador Álvaro Dias, quando o vazamento é obra deste senhor, indiscutível no lance. Procura-se demonstrar uma chantagem sem que surjam os indispensáveis chantagista e chantageado. Trata-se em vão de demolir no nascedouro uma eventual candidatura da ministra Dilma Rousseff em 2010, com o exclusivo resultado de torná-la a cada dia mais conhecida do Oiapoque ao Chuí.

Tem mais. Há uma identificação tão profunda entre Lula e o povo brasileiro, tamanha carga de empatia, que torna o presidente indestrutível. Investir contra ele recorda Dom Quixote da pior maneira. A oposição e a mídia demo-tucanas não vivem a demência empolgante do herói de Cervantes, trafegam é pela raivosa incompetência dos medíocres.

Lula, nas circunstâncias, é a pedra que o vento não molda e a água não fura, seja bom seu governo para o povo brasileiro, ou não. Convém neste momento cogitar apenas de outra questão: o próximo presidente, venha de onde vier, não será um ex-metalúrgico dotado de formidável carisma. E, na ausência de um líder que goza da aprovação incondicional, governar ficará mais difícil.’

 

CULTURA
Manuela Azenha

A virada volta ao interior , 16/5

‘Neste fim de semana (17 e 18 de maio), a Virada Cultural, evento que já se consagrou na capital paulista, se espalha por dezenove cidades do Estado. Araçatuba, Araraquara, Assis, Bauru, Campinas, Caraguatatuba, Franca, Indaiatuba, Jundiaí, Marília, Mogi das Cruzes, Presidente Prudente, Ribeirão Preto, São Bernardo do Campo, São José do Rio Preto, São João da Boa Vista, São José dos Campos, Santos e Sorocaba terão 24 horas ininterruptas de atividades culturais das 18h do sábado às 18h do domingo.

A segunda edição do evento escalou os municípios que, além de demonstrar o interesse em participar, puderam bancar o custo da produção, exceto as despesas relativas aos artistas, que são responsabilidade da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.

Segundo o coordenador do evento, André Sturm, os cinco milhões de reais investidos pelo governo estadual para oferecer apresentações gratuitas por 24 horas ininterruptas seriam uma tentativa de melhorar a deficiente difusão cultural do país. Em 2003, de acordo com o IBGE, apenas 10% dos brasileiros tinham acesso à cultura. Mesmo assim, os municípios ditos ‘com tradição cultural’ foram privilegiados na escolha dos participantes.

Irão se apresentar nomes conhecidos dentro e fora do Brasil, como o jazzista John Pizarelli, o bluesman Kenny Brown, as bandas Nação Zumbi e CPM22 e o cantor Zeca Baleiro, assim como alguns artistas locais das próprias cidades participantes. A proposta desse intercâmbio, que custou três milhões de reais ao todo para as cidades, seria ampliar o acesso e a integração cultural dessas populações. (Confira a íntegra da programação em cada cidade)

Hoje, no Brasil, é destinado a cultura 0,7% do orçamento federal, apesar da UNESCO exigir o mínimo de 1%. Parece que dentro do governo há dificuldade em entender o papel da cultura e sua relação com a educação e a economia do país.

Confira entrevista que Sturm concedeu a CartaCapital sobre a Virada Cultural Paulista.

CartaCapital: Como foi feita a escolha dos municípios que vão participar?

André Sturm: O primeiro critério foram os municípios que são capitais das regiões administrativas do estado.

O segundo critério foram cidades que têm vida cultural, tradição cultural e também, ao mesmo tempo, cidades que procuraram a Secretaria no ano passado mostrando interesse em participar. Por fim, cidades que toparam participar, porque nós até convidamos algumas cidades que não puderam ou não quiseram participar por motivos variados.

CC: A Secretaria distribuiu a verba para esses municípios?

AS: Não. A Secretaria se responsabiliza por toda a programação, o que significa a contratação, o pagamento dos artistas e o que a gente chama ‘Sou Colocado’, ou seja, o pagamento do cachê mais todas as despesas que envolvam transporte, alimentação, hospedagem dos artistas. As cidades ficam responsáveis, e aí é um custo que elas têm, pela estrutura de palco, luz e som para que os shows possam acontecer.

CC: O senhor diz que um dos critérios adotados foi a existência de tradição cultural no município. O que impede um município de ter vida cultural? O senhor acha que seria um problema de verba?

AS: Quando eu digo vida cultural, na verdade, mais do que vida cultural, foram municípios que procuraram a Secretaria com propostas de atividades culturais. A gente levou em consideração o interesse. O ano passado nós só fizemos em dez cidades. Esse ano a gente tinha vontade de ampliar. Na hora em que a gente decidiu ampliar, o primeiro critério foi aquele das capitais regionais. Chegamos nesse e decidimos fazer um pouquinho maior. Então o ano passado algumas cidades procuraram a Secretaria para fazer a Virada ou algum grande evento. Então a gente pegou essas cidades e procurou.

CC: No Brasil existe um problema de difusão da cultura, além de produção. Segundo dados do IBGE de 2003, noventa por cento da população brasileira não tem acesso a cultura. Existe algum projeto que atue nesse sentido? O senhor acha que a Virada consegue levar cultura aos municípios?

AS: Olha, a Secretaria tem uma preocupação, eu diria, é prioridade da Secretaria justamente o acesso. Então a Virada Cultural é uma iniciativa de dar acesso, ou seja de dar um grande evento, que durante 24 horas a população pode de um lado retomar a cidade, porque os eventos acontecem em pelo menos dois locais, em várias cidades são três ou quatro locais ao mesmo tempo acontecendo eventos. Portanto é um momento em que tanto a periferia quanto as populações dos centros da cidades podem estar convivendo e usufruindo de uma maratona de atividades culturais.

CC: Qual é o grau de autonomia das prefeituras? Elas têm alguma interferência na programação?

AS: Têm. A programação é discutida com elas. A programação é responsabilidade da Secretaria da Cultura do Estado, mas ela é discutida com as cidades. As cidades fazem algumas sugestões, a gente apresenta sugestões e dentro do que é possível, disponível e viável, a gente fecha a programação.

CC: E qual é o critério? Existe algum artista local que se apresenta?

AS: Trabalhamos com artistas das cidades. Alguns se apresentam nas próprias cidades e outros fazem um intercâmbio. Por exemplo, a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto se apresenta em São José dos Campos. O Grupo Teatral de Araraquara vai para Santos. Além disso, há os artistas conhecidos, que não têm necessariamente relação com as cidades.

CC: O senhor acha que a falta de verba foi um problema para alguns desses municípios?

AS: Sim. Em um caso, pelo menos, com certeza foi. Teve um município que tem um enorme evento nesse final de semana, o que impossibilitou outro evento de maior porte. Em uma outra cidade, aconteceu uma mistura das duas coisas –falta de recurso e outro evento de porte realizado recentemente. Basicamente esses dois motivos: simultaneidade e falta de recursos que fizeram algumas cidades não participarem.

CC: Quanto foi gasto na Virada Cultural e de onde vem a verba?

AS: O investimento da Secretaria da Cultura do Estado é de 5 cinco milhões de reais e vem diretamente do orçamento da Secretaria. A gente estima que as cidades todas juntas estão gastando três milhões.’

 

 

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Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

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