Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 17 E 18/11

Carta Capital

20/11/2007 na edição 460

OPERAÇÃO MECENAS
Pedro Alexandre Sanches

A cultura na mira

‘Desencadeada na terça-feira 6 pela Polícia Federal (PF), a Operação Mecenas levou a cultura às páginas policiais do noticiário, o que não é freqüente. De quebra, conduziu integrantes de um festival independente de rock´n´roll, o Porão do Rock, a um labirinto de discussões sobre mecenato, leis de incentivo cultural e corrupção.

´Uma denúncia desse porte, num ministério ligado a nós, que somos uma ONG cultural, é óbvio que vai interferir´, espanta-se Leonardo Barros, que preside a organização não-governamental Porão do Rock, originada do festival de mesmo nome, pelo qual já passaram nomes como Marcelo D2, Titãs, Lobão, Skank, O Rappa, Los Hermanos, Ratos de Porão, com platéias de até 10 mil pessoas.

´Segundo o delegado, há até gravação de partilha de dinheiro entre os participantes do esquema´, afirma, na outra ponta, o secretário-executivo do Ministério da Cultura (MinC), Juca Ferreira. Ele refere-se a uma funcionária do MinC e a quatro produtores culturais de Brasília, todos presos na operação. Três deles são músicos conhecidos na cidade, com CD gravado em nome da banda roqueira Plastika, e participam da equipe que viabiliza o Porão do Rock, por intermédio da empresa que administram, a G4 Produções.’

 

INTERNET
Felipe Marra Mendonça

A quem cabe proteger os internautas?

‘´Tecnologicamente e financeiramente vocês são gigantes, moralmente vocês são pigmeus.` A frase é dirigida ao Yahoo! e foi proferida na semana passada por um deputado da Califórnia durante uma reunião do Comitê de Relações Exteriores do Congresso americano em que Jerry Yang, CEO da companhia, depôs durante três horas. Outro deputado comparou a empresa californiana aos colaboradores nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

O foco do depoimento de Yang foi o modo como a empresa falhou em proteger a privacidade de um usuário chinês, o jornalista Shi Tao. A questão não difere muito das batalhas travadas entre o Google e a Justiça brasileira pelos dados pessoais e registros dos usuários domésticos do Orkut, mas é muito mais séria.

Shi trabalhava para o Contemporary Business News, publicação da província de Hunan. Ele foi condenado a dez anos de prisão, em abril, por ´divulgar segredos de Estado` para o exterior. O crime consistiu em enviar para grupos de defesa dos direitos humanos, baseados fora da China, e-mail contendo um documento oficial.

Datado de 20 de abril de 2004 e intitulado ´Nota relativa ao trabalho da manutenção da estabilidade´, o documento informava aos jornalistas que alguns dissidentes políticos poderiam voltar ao país durante o 15º aniversário dos protestos da Praça Tiananmen, e que isso poderia afetar a ´estabilidade` interna. Dessa maneira, o governo pedia aos jornalistas que não divulgassem qualquer notícia relativa ao assunto.

O e-mail de Shi foi enviado a partir de uma conta do Yahoo! e publicado em alguns sites fora do país. O governo chinês pediu mais informações sobre o remetente ao escritório do Yahoo! em Hong Kong, que as entregou sem pedir explicações. O jornalista foi detido oito meses depois, em novembro de 2004.

O principal executivo da empresa pediu desculpas à família de Shi e disse que faria o possível para que ele fosse libertado, mas que não sabia que a informação pedida pelo governo chinês tinha qualquer relação com um dissidente político. ´Não acho que ninguém tentou fazer algo de errado´, disse Yang ao comitê.

O executivo também disse acreditar numa política de engajamento do governo chinês, que poderia levar a uma maior abertura. Mesmo com as restrições atuais, Yang acredita que a internet permite que o povo chinês esteja mais informado, mas evitou falar a favor de um projeto de lei que impediria companhias americanas de cooperarem com o governo chinês ou outros regimes que impeçam a liberdade de expressão e informação.

Mesmo assim, o Yahoo! vendeu suas operações no país para Alibaba.com e disse que a transação fazia parte de uma busca por modos de estruturar as operações em países estrangeiros, para evitar que dados caiam nas mãos de governos repressivos.

A preocupação dos parlamentares americanos com a segurança de informações privadas fica evidente, mas falta fazer a lição de casa. As companhias de telecomunicações nos EUA entregam rotineiramente os dados dos usuários para a Agência de Segurança Nacional, o que efetivamente configura um enorme grampo sobre todo o tráfego de dados na internet americana. Seja numa democracia, seja numa ditadura, não existe mais privacidade na internet.’

YOKO ONO
Pedro Alexandre Sanches

Lost in translation

‘Ela está aqui, a Yoko?´, pergunta uma senhora ao segurança. Outra senhora, que acompanha a primeira, inverte o eixo para repetir quase a mesma pergunta: ´A Yoko, onde é que está?` Nestes dias, Yoko Ono está em todos os lugares. Esparrama-se pelos vários andares do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no centro histórico de São Paulo, na inauguração da mostra Yoko Ono – Uma Retrospectiva, no sábado 10.

Yoko está no Brasil por uma semana. Nesse dia, ela circula ladeada por seguranças e se mistura às próprias obras e à multidão que também se espalha por cinco andares (lotados) do CCBB. Uma revoada de fotógrafos a persegue sem trégua, num pelotão que irmana profissionais dos veículos ditos mais ´sérios` aos mais ´fofoqueiros´.

No térreo, um grupo de adolescentes entra em estado de comoção quando Yoko faz a primeira aparição e acena da sacada interna do mezanino. A menina pré-adolescente banha-se em pranto e grita ´eu vi a Yoko!´, mais para si que para os colegas. O corpo do garoto de uns 16 anos treme enquanto ele estende para o alto um velho disco de vinil. Na capa, aparecem a artista japonesa que viveu Hiroshima e Nagasaki de dentro do país natal e seu famoso ex-marido britânico (você sabe quem, não é preciso declinar o nome), assassinado por um fã na entrada do Dakota Building, em Nova York, em 1980.’

 

ALEJANDRO JODOROWSKY
Cynara Menezes

O mago que filma

‘Chileno radicado na França, Alejandro Jodorowsky é tão cult, mas tão cult que você, provavelmente, nunca ouviu falar dele. Ou não se lembra mais onde escutou este sobrenome tão sonoro, de origem russa. Aos 78 anos, Jodo, como dizem os íntimos, é um multimídia que sempre circulou pelas mais variadas expressões artísticas. Os fãs de quadrinhos, por exemplo, vão avivar a memória ao associá-lo ao francês Moebius, de quem foi roteirista na série Incal (publicada no Brasil pela Devir). Também foi parceiro de Arno e Milo Manara.

No teatro, criou, ao lado do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, o Movimento Pânico, em 1962. Foi numa peça de Arrabal que Jodorowsky se inspiraria para seu segundo filme, Fando e Lis, de 1967, cuja violência causou protestos ferozes no México, quando foi lançado. Discípulo de Marcel Marceau na juventude, criaria para o mestre francês diversos espetáculos de mímica. No mês passado, publicou uma HQ, Pietrolino, em homenagem a Marceau, morto em setembro. Jodorowsky é ainda um homem místico, autor de mais de uma dezena de livros, entre títulos de ficção e outros dedicados à psicomagia, terapia que inventou.’

 

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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