Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Carta Capital

26/05/2009 na edição 539

TECNOLOGIA
Felipe Marra Mendonça e Daniel Pinheiro

Conexões reais e virtuais

‘Os últimos quinze anos promoveram certa confusão sobre o que é, de fato, tecnologia. De 1994 para cá, as grandes novidades se concentraram especialmente na chamada Tecnologia da Informação, principalmente nas que envolvem o uso de um computador pessoal, mas houve também avanços impressionantes em outros campos.. Hoje é possível, por exemplo, atravessar o Canal da Mancha em menos de duas horas, demonstração inequívoca do sentido mais estrito que o termo ‘tecnologia’ carrega. Nada se compara, porém, à revolução trazida pela internet moderna, que criou uma nova maneira de o mundo se relacionar.

Entre o surgimento do primeiro navegador web amigável até a invenção de uma nova maneira de jogar videogames trazida pelo Nintendo Wii, segue uma lista dos momentos memoráveis da tecnologia nestes quinze anos de existência de CartaCapital. Um adendo importante: por mais que os Jetsons nos prometessem o carro voador e o teletransporte desde os anos 1960, eles ainda não foram inventados, ou ao menos não adotados em larga escala.

O túnel do Canal da Mancha (1994)

O túnel sob o Canal da Mancha (Channel Tunnel) foi inaugurado em 6 de maio de 1994, depois de seis anos em construção. Os seus quase 51 quilômetros ligam Folkestone, na costa inglesa, a Calais, na França. Três serviços regulares usam o túnel: o serviço de passageiros Euro-star, que liga Londres a Lille, Bruxelas e Paris, o Eurotunnel Shuttle, trens que carregam motoristas e seus carros, e também de carga. Os serviços foram interrompidos somente três vezes nos últimos quinze anos, sempre por incêndios nos trens de carga.

Em 1996, um incêndio em um caminhão danificou 46 metros de um dos túneis e os serviços foram normalizados seis meses depois. Em 2006, o túnel fechou por algumas horas, quando outro caminhão pegou fogo em trânsito, e o mesmo aconteceu novamente em 2008. Mesmo com os acidentes, esse monumento da tecnologia moderna liga Londres a Bruxelas, Lille e Paris em, no máximo, duas horas e 50 minutos.

Netscape Navigator (1994)

O Netscape Navigator não foi o primeiro navegador da internet, mas causou um salto no uso da rede depois do seu lançamento, em novembro de 1994. Criado por Marc Andreessen em cima do Mosaic, um navegador anterior e sem fins comerciais que ele próprio havia criado um ano antes, enquanto ainda era estudante da Universidade de Illinois, o principal salto do Netscape era diminuir o tempo de espera até que algo surgisse na tela. Até então, o normal era que a página só fosse mostrada depois que tudo tivesse sido recebido e essa espera em uma conexão discada era no mínimo frustrante. O Net–scape mostrava o texto e os gráficos enquanto eles chegavam, assim o usuário podia começar a ler o conteúdo de uma página tão logo tivesse digitado o endereço. A internet começava a ficar mais amigável e menos sisuda.

A internet moderna (1995)

A internet teve seu embrião num projeto do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 1969, mas o que permitiu que ela se tornasse o que é hoje foi uma decisão da Fundação Nacional das Ciências dos Estados Unidos, em maio de 1995. Até então, a rede era limitada para pesquisa, educação e assuntos governamentais, e qualquer tráfego comercial era restrito a sites que promovessem esses usos. Quem quisesse criar sites puramente comerciais precisava utilizar conexões e redes que não tivessem qualquer contato com a rede educacional.

O crescimento dessa rede paralela permitiu que os primeiros usuários privados se conectassem a ela em 1992, quando a Delphi se tornou a primeira provedora, oferecendo tanto conexão quanto um endereço de e-mail. A Fundação Nacional das Ciências decidiu não mais custear a rede educacional em 1995 e empresas como AOL, Prodigy e CompuServe começaram suas operações. Era o começo da internet moderna.

DVD (1995)

O DVD é fruto de um entendimento de várias empresas com o objetivo de evitar a luta destrutiva entre os formatos VHS e Betamax, ocorrida nos anos 80. A batalha parecia se estabelecer entre os formatos MMCD, apoiado pela Philips e pela Sony, e o SD, apoiado por empresas como JVC, Toshiba e Pioneer.

Os produtos seriam essencialmente iguais, uma nova geração de CDs de alta densidade com capacidade suficiente para acomodar um filme, além de poder ser utilizado como mídia para computadores. A IBM conseguiu fazer com que os dois grupos se unissem e concordassem em criar um padrão em comum, o DVD, em 1995.

Java (1995)

A linguagem Java foi lançada, em 1995, pela Sun Microsystems com uma filosofia interessante. Era a possibilidade de escrever o código de um programa uma só vez e esse mesmo rodaria em qualquer plataforma. O programador poderia, por exemplo, criar um jogo de cartas na linguagem Java que poderia rodar da mesma maneira em PCs, Macs ou celulares. A Sun estima que ela, hoje, opera em mais de 800 milhões de PCs, 2,1 bilhões de telefones celulares e um sem-número de sistemas GPS, terminais lotéricos, aparelhos médicos e até em máquinas de cobrança em estacionamentos.

O Deep Blue bate Kasparov (1996)

O Deep Blue foi o primeiro computador a bater o campeão Gary Kasparov no xadrez, mas a IBM fazia tentativas desde 1989, quando o seu Deep Thought (Pensamento Profundo) perdeu do russo. A vitória finalmente veio no dia 10 de fevereiro de 1996, quando o Deep Blue se tornou o primeiro computador a ganhar um jogo de xadrez contra um campeão mundial sob condições regulamentares de partida. Kasparov acabou vencendo a série ao ganhar três jogos e empatar outros dois. Um ano depois, a máquina recebeu um belo upgrade, um novo nome (Deeper Blue) e ganhou a série de revanche. Parte da beleza do Deep Blue estava no sistema que era capaz de analisar milhares de jogos de mestres enxadristas e enxergar possibilidades de inserir jogadas específicas na partida em que estava. Kasparov pediu acesso aos outros jogos que o Deep Blue analisava e tinha jogado, para poder entender melhor o seu oponente, sem sucesso. O russo solicitou uma nova série, mas a IBM negou o pedido e desmontou o Deep Blue.

Palm Pilot (1996)

Pouca gente se lembra do Palm Pilot, mas o lançamento dele, em 1996, foi o embrião da enxurrada de PDAs e smart-phones presentes atualmente no mercado. O Newton, da Apple, lançado em 1993, também é lembrado como precursor desses aparelhos, mas o Palm Pilot foi o que realmente popularizou o conceito de um portátil com as funções básicas de um computador. A principal tecnologia presente era o Graffiti, um sistema de reconhecimento de escrita que não era exatamente intuitivo. O programa forçava o usuário a aprender um alfabeto muito peculiar, ou seja, só sabia reconhecer a própria escrita. Hoje, a Palm continua fabricando telefones e PDAs, mas o surgimento da versão móvel do Windows deixou-a distante da preferência dos consumidores.

Google (1996)

O Google é parte tão corriqueira da vida dos usuários da internet que é comum ouvir a sugestão de ‘dar uma googada’, quando se tem alguma dúvida. O site de buscas teve início como projeto de pesquisas de Larry Page e Sergey Brin, dois doutorandos da Stanford University em 1996. A dupla acreditava que a melhor maneira de catalogar os resultados de uma busca pela internet seria criar uma lista com base na relação entre os sites. Ou seja, aqueles que tivessem mais links apontados para eles seriam por lógica mais interessantes.. Doze anos depois, a empresa tem a marca mais importante do mundo, segundo a consultoria inglesa Millward Brown, e vale cerca de 24 bilhões de dólares.

EV1 (1996)

O EV1, da General Motors, foi o primeiro carro elétrico produzido em massa e comercializado normalmente em concessionárias a partir de 1996. Os primeiros EV1 foram disponibilizados em Los Angeles, na Califórnia, e Tucson, no Arizona, e não podiam ser comprados. Os consumidores entravam em um acordo de leasing com a montadora e assim faziam parte do que era essencialmente um teste em larga escala do setor de engenharia da GM. O projeto foi interrompido em 1999 e todos os carros, retirados pela montadora até 2003 e posteriormente destruídos. Algumas teorias dão conta de que ele foi retirado por ser uma ameaça séria à indústria petrolífera, mas o certo era que um carro de 80 mil dólares passava a custar cerca de 35 mil durante o leasing. Era um rombo que a GM não podia sustentar.

Jonathan Ive (1998)

O inglês Jonathan Paul Ive entrou na Apple em 1992, mas seu impacto no mundo da tecnologia foi sentido com o lançamento do iMac original em 1998. Ive tinha sido nomeado por Steve Jobs como chefe de desenho industrial da empresa um ano antes, em 1997, e foi dada a ele a responsabilidade de criar uma nova linguagem visual para os produtos da Apple. O designer inglês fez muito mais que isso. Ele tirou os computadores da ditadura das caixas bege ou pretas e inaugurou uma era em que cores vibrantes os trouxeram para mais perto do consumidor. O iMac tinha uma casca translúcida e duas cores principais, o azul e o verde. Edições sucessivas acrescentaram novas cores, novos materiais, e, hoje, o iMac é feito de alumínio e vidro. Mas o produto mais importante criado por Ive é outro, o iPod, lançado em 2001.

Wi-fi (1999)

A tecnologia para a transmissão de dados por rádio existia antes de 1999, mas nesse ano o padrão das redes foi estabelecido por empresas que se reuniram em um grupo chamado Wi-Fi Alliance. A decisão de padronizar os equipamentos permite conexões de banda larga sem o uso de cabos, algo que parece natural no estágio atual do desenvolvimento das redes de comunicações, mas foi um salto importante. Quem hoje se irrita por ter de usar um cabo de rede sabe bem o quanto as redes sem fio são úteis.

A paranoia Y2K (2000)

O ‘problema do ano 2000’ só se tornou um problema porque a maioria dos soft-wa-res em uso pelo mundo tinha sido pro-gra-mada para interpretar datas no formato ‘dia/mês/ano’, e a parte do ano era com-posta de dois dígitos. Tudo funcionaria muito bem até o ano de 1999, mas ninguém sabia direito o que iria acontecer quan-do viesse o ano 2000. Sistemas poderiam interpretar o ano ‘00’ como 1900, ou até como 19100. Os mais preocupados che-ga-vam a imaginar um cenário apocalíptico para a virada do ano, quando computadores enlouquecidos iniciariam a Terceira Guerra Mundial com o lançamento de mísseis russos à meia-noite do dia 1º de janeiro de 2000. O que de mais nuclear aconteceu durante a virada de ano foi a pane em um sistema de alarme de uma usina em Onagawa, no Japão. O resto, como se sabe, continuou funcionando direito, embora muitos especialistas digam que a resposta dos sistemas de emergência no dia 11 de setembro de 2001 foi melhor exatamente pelo preparo durante a virada de 2000.

iPod (2001)

O iPod foi lançado em 23 de outubro de 2001, depois de pouco mais de um ano de desenvolvimento na Apple sob a supervisão direta de Steve Jobs. A ideia era fazer com que os consumidores comprassem ainda mais iMacs. Grande parte dos consumidores da Apple de então estava concentrada nas universidades e a ideia de trocar músicas pela internet começava a ganhar força. Jovens gravavam CDs, ligavam caixas de som aos computadores, mas não tinham boas opções na hora de levar essas músicas por aí. Os aparelhos tinham pouca memória interna, eram pouco portáteis ou os sistemas internos eram difíceis de ser navegados. Eram praticamente inúteis. A sacada de Jobs foi contratar uma empresa externa para desenhar os sistemas de menus, escalar o badalado Jonathan Ive para desenhar o aparelho e colocar um disco rígido dentro do aparelho para aumentar a capacidade interna. O produto final tinha o tamanho pouco maior que um baralho, corpo de metal e plástico branco e capacidade de 5 GB, para comportar cerca de mil músicas. O iPod de maior capacidade no mercado, hoje, tem tela maior, espessura menor e capacidade de 120 GB, ou 24 mil músicas. E, claro, faz muito sucesso. São mais de 150 milhões de unidades vendidas entre os vários modelos disponíveis.

Segway (2001)

O Segway é uma espécie de patinete de duas rodas paralelas munido de tecnologias ultra-avançadas. É o modo mais simples de descrever o que antes do lançamento, em 2001, tinha sido chamado por Steve Jobs de uma invenção ‘tão importante quanto o PC’. Talvez o cofundador da Apple não tivesse visto o aparelho e, sim, acreditado em todo o rebuliço causado pelas especulações do que poderia ser o produto misterioso de Dean Kamen, seu criador. No fim, o Segway tornou-se a solução para um problema que não existia.

O último voo do Concorde (2003)

O mundo da tecnologia retrocedeu com a aposentadoria do Concorde, em 2003. As duas operadoras do avião supersônico, Air France e British Airways, concluíram que ele não dava lucro e, portanto, não fazia sentido que ele continuasse a voar pelos céus do Atlântico Norte, entre Nova York e Paris, ou Londres. Ou seja, uma estimativa contábil foi a parte decisiva no passo atrás que ditou que seria melhor cruzar o Atlântico Norte em cerca de sete horas, e não em duas horas e meia. Hoje, dezoito dos vinte Concorde construídos estão em exposição em museus ao redor do mundo.

Skype (2003)

O Skype é parte fundamental de uma revolução nas telecomunicações. Criado na Estônia em 2003, o programa popularizou as ligações VoIP, ou voz sobre IP. Ele permitiu ir além das mensagens instantâneas para a comunicação de voz pela internet. A popularidade do programa tornou-o a maior operadora de ligações internacionais em 2008. Foram 33 bilhões de minutos em ligações internacionais, ou cerca de 8% de todo o tráfego internacional de voz sobre redes telefônicas.

YouTube (2005)

O YouTube foi fundado por três empregados do site de pagamentos on-line PayPal. O site ficou tão famoso que foram gerados vários mitos sobre sua fundação, mas a história mais difundida é a de que os três criadores estavam em um jantar e na próxima manhã tiveram dificuldades para trocar os vídeos que tinham feito naquela noite. Ao buscar uma maneira mais fácil de fazer isso acabaram pensando em um site em que usuários pudessem colocar vídeos e depois compartilhar com amigos ou um público mais amplo. O sucesso foi tão grande que o gigante Google decidiu comprar o site por 1,65 bilhão de dólares em 2006.

Nintendo Wii (2006)

Os videogames começaram décadas antes do Wii e a tecnologia dos consoles evolui a passos rápidos, mas o mérito da Nintendo foi trazer a diversão dos videogames para as massas. Grande parte do apelo do Wii foi permitir que pessoas que nunca antes tinham se interessado por videogames se sentissem confortáveis. Ou seja, traduzir movimentos naturais para a tela. Um jogo de tênis requer que o jogador segure o controle como uma raquete e faça o movimento de atingir a bola, não uma combinação indecifrável de botões. Uma prova do sucesso do Wii foi o surgimento de uma liga de boliche virtual entre aposentados no estado de Nova York. Videogames não são mais coisas de criança, mas uma alternativa de entretenimento.’

 

LUTO
Redação CartaCapital

A exatidão das palavras

‘O jornalista José Onofre, colaborador de CartaCapital desde novembro de 2001, morreu em Porto Alegre dia 19, aos 66 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória decorrente de diabetes. Um escritor dentro da imprensa cultural, Onofre exerceu o jornalismo por quatro décadas, em diários como Zero Hora, Gazeta Mercantil e O Estado de S. Paulo, nas revistas Senhor e IstoÉ e na Editora Abril. Conhecia como poucos cinema e literatura, e em CartaCapital os comentava em resenhas e na seção Calçada da Memória. A arte americana das palavras simples e contundentes orientava sua escrita. Há anos José Onofre vivia só e adorava gatos, mas, jornalista dos jornalistas, será lembrado pela capacidade de submeter as palavras às suas decisões. ‘Um dos melhores textos da imprensa brasileira morreu nesta terça-feira, na capital’, disse, sobre ele, o site do Zero Hora.’

 

CARTA CAPITAL
Mino Carta

Como remar contra a corrente

‘Ponto e linha. Claro, objetivo. Pingos nos is. Preto no branco. A nova sobriedade. Back to basics. Direto, confiável. Mais qualidade, menos ‘flash’. Humor sutil e sofisticado.

O texto é de autoria de Mariana Ochs ao estabelecer os fundamentos do projeto gráfico que CartaCapital põe em prática a partir desta edição. Mariana, diretora de arte respeitada até na Madison Avenue, é velha conhecida dos nossos leitores. Cuidou da fisionomia da revista por três vezes e agora realizamos a sua quarta e preciosa intervenção. Mariana é boa intérprete do princípio dos gregos antigos pelo qual ética e estética são sinônimos. Os esclarecimentos acimaprovam a sintonia com o ideal helênico.

Esta edição é especial e atípica, por ser comemorativa de 15 anos de vida de CartaCapital a começar pela concepção. A qual se deu nestes mesmos dias de 1994, quando quatro jornalistas reuniram-se para inventar seu próprio emprego. Alhures estava difícil. Bob Fernandes, Nelson Letaif, Wagner Carelli e o acima assinado. Quanto ao novo projeto de Mariana, adapta-se à especificidade da edição, mas se mostrará mais claramente, em todos os seus alcances, a partir do próximo número. De linha, digamos assim.

Volto ao quarteto e à enésima aventura. Meu sobrinho Andrea, saudosa figura que se foi cedo demais, comandava a Editora Carta Editorial, fundada pelo pai, Luis Carta, dezoito anos antes. Ausente meu irmão, chamado pela Condé Nast a fundar a Vogue España em Madri, Andrea pilotava a editora e pretendia lançar uma nova publicação, de Economia e Negócios. Procurou-me com o afeto de sempre, respondi: ‘Sem falsa modéstia, isso eu não sei fazer’.

Luis ligou-me da Espanha, torcia para que eu, desempregado, topasse a parada. Expliquei: ‘Saberia fazer, creio eu, uma publicação sobre o poder, onde quer que se manifeste, na política, na economia, nos negócios, na cultura, em quaisquer gramados’. A ideia foi aceita. Chamei companheiros de outras jornadas e quinze anos atrás traçamos o plano de uma revista necessariamente mensal por causa dos recursos modestos. Houve hesitações apenas em relação ao seu nome. Alguém sugeriu Carta, eu recusei. Receava que soasse como exigência minha. Andrea queria Capital. Ficou como ficou.

Meados de agosto de 1994, ela foi às bancas. Em março de 1996 tornou-se quinzenal, solidamente amparada no primeiro projeto gráfico de Mariana Ochs. O plano era mais ambicioso quanto à periodicidade. A realização levou, porém, mais de cinco anos. A semanal nasceu na penúltima semana de agosto de 2001, mais uma vez programada graficamente por Mariana. Inicia-se aqui a separação de Carta Editorial e sua substituição pela Editora Confiança. Em seguida à eleição do ex-metalúrgico, em 2002, chovem as calúnias contra uma publicação que ousa remar contra a corrente. Revista chapa-branca, panfleto partidário.

Preto no branco, recomenda Mariana. Temos é uma mídia de pensamento único, leves nuanças não bastam para encobrir a senha geral. CartaCapital empenha-se em exercer o jornalismo em que acredita, baseado na fidelidade canina à verdade factual, na aplicação diuturna do espírito crítico, na fiscalização desabrida do poder. Não se expõe a sardinha à brasa de ninguém com o intuito de favorecer este ou aquele. Respeite-se o império dos fatos, nunca poluídos pela opinião. CartaCapital jamais esconde o fato, não nega, contudo, a sua opinião, e aferra-se a ela.

É quanto basta para inquietar. Às vezes me pego a imaginar o que se daria se fosse brasileira a The Economist, a semanal de maior prestígio no mundo. Ela distribui no Reino Unido pouco mais de 200 mil exemplares, tadinha. Comparem com os números de Veja. Sempre acontece que o planeta se curve diante do Brasil. Pois é, o que não se aquietou nestes quinze anos é a arrogância da minoria, seu exibicionismo provinciano contraposto ao medo pânico de perder os privilégios. Ou, simplesmente, de vê-los ameaçados. Os nossos 15 anos bastaram, no entanto, para convencer The Economist a fechar conosco uma magnífica parceria, que nos habilita a publicar seus textos em perfeita concomitância, como ocorreu com o número de fim de ano, realizado a quatro mãos.

Estética e ética. Opinião exposta sem meios-termos. Ainda exemplos. Na edição nº 30 de agosto de 1996 CartaCapital cavava sua trincheira contra o neoliberalismo em pleno ataque. Estava certa, ficou provado doze anos depois. De Bush, a semanal desde a penúltima semana de agosto traçou o perfil implacável, necessário, porém, no nosso entendimento, logo após a implosão das Torres Gêmeas, setembro de 2001.

Em 2002, antes do pleito presidencial, tomou partido a favor da candidatura Lula, por tê-la como a melhor. Prática comum do jornalismo dos países mais avançados, apontada por aqui, pela mídia da falsa isenção, como deslize moral imperdoável. Incrível, não nos arrependemos. E em 2006, às vésperas do segundo turno da reeleição, denunciamos as mazelas midiáticas urdidas para deter a avançada lulista, graças a uma reportagem de Raimundo Pereira, que certamente contribuiu para despertar algumas consciências.

Nesta edição evocamos nosso tempo de vida. Elegemos personagens e situação representativas do período para trafegar por este trecho de tempo e contá-lo aos nossos leitores. Não pretendemos a abrangência absoluta, a cobertura total. Acreditamos, de todo modo, ter iluminado diversos instantes deste passado recente. Pelo caminho, não descuramos de recorrer ao humor, como Mariana Ochs propõe. A vida, de resto, consagra todos os dias, hora a hora, a simbiose implacável entre a tragédia e a comédia, sem olvidar a farsa.

A ironia é arma afiada contra quem a desconhece. Ainda assim, Raymundo Faoro, mestre de todos nós, cuidava de me precaver: não exagere por esta senda, a maioria pensa que você fala sério. Pois é, às vezes a gente exagera.’

 

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