Terça-feira, 17 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº995
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 19 E 20/7

Carta Capital

22/07/2008 na edição 495

CASO DANIEL DANTAS
Mino Carta

Disputa na rua principal, 18/07

‘A máxima do príncipe de Salina, ‘muda-se alguma coisa para não mudar coisa alguma’, no Brasil tem uma versão peculiar: ‘Deixa como está para ver como fica’. A primeira é vincada pelo cinismo e pela certeza na afirmação perene da lei do mais forte. A verde-amarela contém na receita uma larga pitada de medo. Sabemos o que, entre nós, significa amarelar.

Muitos graúdos nativos estão com medo neste exato instante, basta um mínimo de interesse para senti-lo. Esperam que tudo fique como está, que o amarelo se sobreponha ao verde, e isto vale sobretudo para quem conhece o significado das cores. CartaCapital faz sua aposta na linha contrária, e reforça a idéia de que alea jacta est, os dados estão na mesa. A esta altura, é impossível voltar atrás no processo precipitado pela operação que incrimina Daniel Dantas e Cia.

O medo é traço marcante da índole brasileira. Os donos do poder o sofrem porque temem qualquer alteração nos seus privilégios, provocada, quem sabe, por algum sinal de rebeldia partida de um povo que traz no lombo o sinal do chicote da escravidão. Tal é o fundo musical do enredo tradicional. Mas a ameaça parte de outro canto. Daniel Dantas e Cia. pertencem legitimamente, digamos assim, ao establishment nativo, e o caso monumental, a crise recém-deflagrada, revela uma dimensão de longe maior do que poderia parecer.

Está em jogo a mentalidade predatória do país da minoria branca. Quem se supunha impune ad aeternitatem tem de repensar suas convicções e a si mesmo. É disputa soturna e por ora em boa parte encoberta. Há quem a apresente como desafio no arrabalde, entre mocinhos e bandidos contingentes, sem que fique claro quem é quem de um lado e de outro.

Permito-me dizer, de saída, que, no entendimento de CartaCapital, o juiz De Sanctis e o delegado Protógenes são atípicos e galgam corajosamente a poeira da rua principal. Se o relatório já conhecido de autoria do delegado, capaz de embasar as primeiras decisões do juiz, não tem a necessária substância na parte que diz respeito aos envolvimentos da mídia, em compensação é mais do que suficiente para exibir a profundidade do mal, a gravidade da situação, as responsabilidades compartilhadas pelos donos do poder.

Recordo um dia de novembro de 1998, quando pude ouvir trechos de uma gravação ilegal de telefonemas grampeados na sala da presidência do BNDES. O grampo remontava a alguns meses antes, quando Luiz Carlos Mendonça de Barros, então ministro das Comunicações para, tempos após, assumir o próprio BNDES, diz a quem substituiria, André Lara Resende: ‘Temos de fazer os italianos na marra (leia Telecom Italia) que estão com o Opportunity, eu vou praí para fechar o esquema’. E acrescenta: ‘Vamos fechar daquele jeito que só nós sabemos fazer’.

Eis a semente do enredo que chega agora ao auge. Pois é, só eles sabem fazer. Nada a ver com mortais comuns. Quem fica em xeque são os semideuses, situados de um lado e de outro, nas facções contrapostas, acostumados com a impunidade e treinados para a chamada conciliação das elites, o entendimento entre desafetos quando a paz dos graúdos se faz necessária.

Este conúbio forma uma pasta de súbito uniforme, na qual os componentes se mesclam à perfeição de sorte a não permitirem discernir uns dos outros. É isto que avulta no relatório do delegado Protógenes, a mistura compacta e aterradora. O documento com suas 240 páginas é parcial, há outro de 7 mil, cartapácio disposto a destruir criados-mudos, e com ele chegaremos ao fundo do poço.

CartaCapital insiste: estamos só no começo. Nada impede que a máxima do príncipe de Salina vingue como sempre. O homem não é um bicho confiável. Mas antes, acreditamos, virá um vendaval.’

 


Redação Carta Capital

Jornalismo à brasileira, 18/07

‘O chute no cachorro morto é um esporte bastante difundido no País. O cachorro em questão ainda não morreu, mas dá sinais de agonia. Basta para o jornalismo ‘investigativo’ brasileiro mostrar toda a sua coragem. Tem sido comovedor acompanhar o empenho dos bravos repórteres na cobertura da Operação Satiagraha. Realmente é preciso muito empenho para se dedicar à estafante tarefa de recortar e colar os diálogos pinçados do relatório parcial da Polícia Federal sobre os crimes atribuídos a Daniel Dantas, Naji Nahas e respectivas quadrilhas, conforme concluiu o delegado Protógenes Queiroz. Ou reproduzir as informações assopradas de afogadilho por uma fonte com acesso privilegiado à investigação.

De repente, o que era delírio, perseguição, vira matéria-prima do ‘furo’, do esforço jornalístico de bem informar. Merecem aplausos, nossos repórteres ‘investigativos’. Uma questão: onde estavam todos quando CartaCapital, dois anos atrás, revelou as mesmíssimas histórias ora apresentadas como novidade ao distinto público? Certamente, atrás de mais uma ficção, como os dólares de Cuba e assemelhados. Outra, se nos é permitido: essa imprensa que se diz independente se esforçou de verdade para esclarecer os fatos que originaram e alimentaram o escândalo conhecido como ‘mensalão’?

Uma modesta contribuição desta revista aos demais jornalistas. Segue-se uma lista com o resumo de reportagens publicadas em 2005 e 2006, auge dos escândalos que atingiram o governo Lula. Nos últimos dias, várias dessas histórias já foram apresentadas como ‘furos’. Outras, dado o alvo da Satiagraha, têm grande potencial de aparecerem por aí como se novidade fossem. Basta os repórteres acessarem o site www.cartacapital.com.br. O conteúdo completo está disponível em nossa página.

Edição 348, de 29 de junho de 2005

A reportagem ‘O orelhudo tá nessa’, a partir da página 28, narra a participação de Daniel Dantas no Valerioduto e conta como petistas, entre eles Sílvio Pereira, Delúbio Soares e José Dirceu, defenderam interesses do Opportunity no governo. O advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, vulgo Kakay, amigo de Dirceu, é apresentado como intermediário entre Dantas e o ex-ministro da Casa Civil. Atenção jornalistas investigativos, um executivo do Citibank contou a CartaCapital um diálogo que teve com Dantas. O banqueiro brasileiro disse à turma do Citi que havia pago 5 milhões (não informou se de dólares ou reais) a Kakay para ‘resolver seus problemas no governo’.

Edição 354, de 10 de agosto de 2005

Em ‘A Conexão Lisboa’, CartaCapital conta os objetivos da viagem do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza a Portugal. O resto da imprensa atribuiu a viagem, da qual também participou Emerson Palmieri, tesoureiro do PTB, como tentativa de lobby pela privatização do IRB, a empresa estatal de resseguros. Marcos Valério teria se apresentado como ‘representante do governo’ na ocasião. A revista revelou que o motivo da viagem foi outro: discutir a venda da Telemig Celular à Portugal Telecom. O plano de Dantas era negociar a empresa de telefonia celular mineira com os portugueses e usar o dinheiro para comprar a Brasil Telecom dos demais sócios (Citi e Telecom Italia), mantendo os fundos de pensão como minoritários. O problema era a oposição desses fundos. Eles consideravam que, quando gestor, Dantas usava a BrT em proveito próprio.

O mais firme adversário da idéia era Sérgio Rosa, presidente da Previ (fundo dos funcionários do Banco do Brasil). Rosa liderava os outros fundos na resistência. Com a ajuda de petistas, entre eles Henrique Pizzolatto e Dirceu, Dantas tentava demover Rosa da presidência da Previ. Marcos Valério teria ido a Lisboa garantir aos executivos da Portugal Telecom que não haveria problemas com as fundações nem obstáculos por parte do governo. Pizzolatto recebeu dinheiro do Valerioduto.

Uma auditoria da Brasil Telecom apontou no fim de 2005 que o Opportunity provocou prejuízos de 600 milhões de reais à operadora, ao usar a estrutura e o dinheiro da companhia em proveito próprio.

Edição 363, de 12 de outubro de 2005

A reportagem ‘Segredos do Brasil’ conta a expectativa de autoridades de que a abertura do disco rígido dos computadores do Opportunity pudesse revelar nomes de políticos e empresários graúdos em operações suspeitas. ‘O HD pára o Brasil’, afirmou uma alta fonte do governo.

Relata-se ainda a pressão que o então ministro José Dirceu teria exercido sobre o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e a Polícia Federal a favor de Dantas. Conta-se, por fim, as tentativas de desqualificação de Edson Vidigal, então ministro do STJ, que deu decisões desfavoráveis ao Opportunity.

Edição 377, de 25 de janeiro de 2006

Na quarta-feira 16 de julho, a Folha de S.Paulo revela aos seus leitores ter tido acesso a um documento que CartaCapital publicou com detalhes mais de dois anos atrás.

Em ‘A agenda e a crise’, descrevem-se os encontros de Humberto Braz, à época presidente da Brasil Telecom Participações e atualmente preso por tentar corromper um delegado federal que atuou na Satiagraha, com figuras centrais do chamado ‘mensalão’. Aparecem na agenda de encontros, além de Marcos Valério, Ivan Guimarães, Duda Mendonça, Kakay e Cristiano Paes, entre outros. Braz também se reuniu quinze vezes com Eduardo Rascovisky, lobista carioca que tentou corromper o marido da juíza Márcia Cunha, segundo relato da própria magistrada. Titular da 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, Márcia Cunha tinha tomado decisões contrárias aos interesses do Opportunity na disputa pelo controle das empresas de telefonia. Como o suborno não funcionou, a juíza passou a ser alvo de ataques. Um dossiê contra ela foi parar na imprensa. Márcia Cunha respondeu a um processo administrativo no tribunal e a quatro pedidos de suspeição feitos por advogados de Dantas.

Edição 395, de 31 de maio de 2006

‘Dantas e os petistas’ expõe as relações de próceres do PT com o banqueiro, a partir da estranha reunião na casa do senador Heráclito Fortes após a divulgação, por Veja, de contas falsas do presidente Lula, ministros e autoridades. A revista do Grupo Abril atribuiu o dossiê a Dantas. Na casa de Fortes, e na presença do ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça) e dos deputados petistas Sigmaringa Seixas e José Eduardo Cardozo, o banqueiro teria negado ser o autor do dossiê (acabou indiciado, em 2007, por calúnia).

CartaCapital contou como Cardozo havia defendido interesses do Opportunity ao solicitar uma investigação da venda da CRT, operadora do Rio Grande do Sul, à Brasil Telecom. Essa operação serviu para Dantas encobrir os reais motivos da contratação da Kroll para bisbilhotar desafetos e concorrentes.

Edição 396, de 7 de junho de 2006

‘A Fábrica de dossiês’ revelou há dois anos que Dantas mandou espionar juízes. É uma longa lista de documentos apreendidos por conta da Operação Chacal, em 2004. Nos dossiês há referências a tucanos, petistas, policiais federais, magistrados e empresários nacionais e estrangeiros. Os leitores de O Estado de S. Paulo ficaram sabendo da história recentemente.’

 

MÍDIA & POLÍTICA
Luiz Antonio Cintra

Brizola sem retoques , 18/07

‘Assessor de Leonel Brizola a partir da década de 80, o jornalista cearense Francisco das Chagas Leite Filho, FC Leite Filho, como é conhecido, extraiu, dessa convivência e de inúmeras entrevistas que realizou inclusive no exterior, as histórias para a biografia El Caudillo. Recém-lançada na Câmara dos Deputados, em Brasília, onde o jornalista é assessor da liderança do PDT, aborda em detalhes o período em que Brizola foi eleito governador do Rio Grande do Sul, aos 37 anos, quando viveria sua fase heróica. E seus dois mandatos de governador do Rio de Janeiro, marcados pelo enfrentamento com a mídia, de modo geral, e com a Globo, em especial.

CartaCapital: Brizola nasceu no meio rural, mais tarde foi fazendeiro no Uruguai. Em que medida o mundo rural o influencia?

Francisco das Chagas Leite Filho: Não sou sociólogo nem antropólogo, por isso optei por fazer um perfil biográfico. É apenas um lado da biografia que está no livro. Mas é possível pegar o exemplo dos irmãos dele. Brizola foi o único cara que sobressaiu entre os irmãos. Era um cara muito inteligente, muito esperto na verdade, sempre muito ligado à mãe, dona Oniva, professora primária. Todos receberam a mesma educação. Dos cinco irmãos, alguns meios-irmãos do segundo casamento de dona Oniva, um é motorista de caminhão, outro, pequeno produtor rural, e outro, advogado. A irmã mais velha, Francisca, a Quica Brizola, também teve importância na família. Essa história da influência do meio é muito relativa. Não concordo com aqueles que apresentavam Brizola como uma figura ressentida por ter vindo do meio rural, onde seu pai foi assassinado. (O pai foi morto pela brigada militar gaúcha, em 1923, quando Brizola tinha menos de 2 anos, após a assinatura de um acordo de paz firmado entre os maragatos, grupo de José Brizola, e os chimangos, governistas. José participava de um regimento guerrilheiro cujo comandante se chamava Leonel, de onde o menino batizado Itagiba tiraria o nome com o qual ficou famoso.)

Quando olhamos para a figura do Brizola, vemos que não existe nada disso, ao contrário. Quando perdia uma eleição, nunca apelava para golpes ou ameaças. A linguagem do Brizola, esta, sim, era uma linguagem toda campesina, com aquelas parábolas que ele criava.

CC: Na fase inicial, ainda nos anos 40, Brizola entra para a política na esteira do getulismo. Qual a importância da relação dele com Getúlio Vargas?

FCLF: No começo, Brizola forma a chamada ala moça do PTB. Como era um cara muito atirado, vê-se ainda muito jovem deputado estadual. Mas cogitou de uma composição orgânica. Para compor a ala moça, pega alguns líderes operários, líderes estudantis, do comércio… era muito jovem e muito esperto, tinha vivido na pobreza e visto muita coisa. E faz um conjunto que era de fato um autêntico partido político, um partido na sua essência. Não tinha essa representatividade dos partidos atuais, desfigurados, a enganar o eleitor. Com Brizola não foi assim, mesmo porque naquele momento o Rio Grande do Sul era um estado muito politizado. Então eles estudavam a situação do ferroviário, do estudante, do operário, e organizavam programas. Não consegui saber como se deu essa aproximação, mas de repente está lá Brizola, então um jovem deputado estadual, virando quase confidente de Vargas. O velho, que também era muito esperto, tinha dois pombos-correios, como dizia Batista Luzardo, inclusive para operações internacionais. O Brizola, um dos dois, então muito novinho, estava com 23 ou 24 anos, o outro era o futuro presidente João Goulart, então colega de Brizola na Assembléia Legislativa. Quando Vargas era presidente, o Itamaraty foi chefiado por um cara do PSD, depois demitido por Vargas, o Neves da Fontoura, um sujeito terrível. Então Vargas não confiava no Itamaraty e tinha os seus próprios emissários durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, para mandar recados a Perón. (Alinhado aos EUA, Neves da Fontoura foi um dos líderes do PSD a apoiar Vargas na eleição de 50, contra o candidato do partido, Cristiano Machado. Com o apoio, foi convidado a voltar ao Itamaraty, posto que ocupara no governo Dutra.)

CC: Como o senhor definiria o estilo Brizola de administrar?

FCLF: Essa é uma coisa muito interessante de observar. Veja que ele fazia tudo na base da mobilização. Hoje os grandes planos de educação, por exemplo, não funcionam, porque a população não está engajada naquilo, não está participando. No Rio Grande do Sul, por exemplo, ele construiu escolas pequenas, mas bem organizadas. Chegou a fazer 6,3 mil escolas no primeiro mandato de governador. Mas não foi só educação. Trouxe uma refinaria para o Rio Grande do Sul, criou uma siderúrgica, o banco de desenvolvimento regional, abrangendo os três estados do Sul do País. Uma das minhas fontes, radialista, me disse que quando queria debater seriamente a situação da categoria tinha de ir para o Rio Grande do Sul, onde havia liberdade para o debate político. O mesmo acontecia com os estudantes. E lembremos que o restante do Brasil era conservador, reacionário.

CC: Nesse primeiro mandato como governador, Brizola encampou as concessionárias de energia e telefonia do estado, ambas multinacionais de capital norte-americano. Como se deu esse episódio?

FCLF: Brizola dizia que a decisão viera de um estalo. Ele não era uma pessoa lida, culta, e sim vivida. Dizia que aprendia tudo no fazer, na experiência. E, de repente, vê Porto Alegre e o estado todo praticamente sem energia ou telefone. Quando verifica o que está acontecendo, encontra as duas empresas querendo aumento nas tarifas e deixando de investir, utilizando equipamentos antigos, alguns caindo aos pedaços. Chama os detentores das concessões, diz que essa situação é insustentável. As empresas eram muito poderosas, inclusive porque contribuíam para as campanhas eleitorais, desconfio que até mesmo para a campanha do Brizola. Ele propôs a criação de uma empresa mista, mas só topariam se houvesse o aumento da tarifa. Então decidiu, numa operação supercomplexa, encampar as duas. A essa altura, Fidel Castro já estava há mais de um ano no poder e ainda não tinha feito isso, e Brizola manda ver… É nesse momento que Brizola sela o destino da vida dele. Todas as multinacionais e todo o sistema econômico voltam-se contra ele.

CC: Pouco depois há o caso da encampação feita por João Goulart, mediante uma régia indenização…

FCLF: Jango encampa, mas elas queriam uma indenização absurda, muito alta. E Brizola denuncia na imprensa e o Jango acaba não pagando. Quem vai pagar é Castello Branco, depois do golpe. Foi uma das primeiras coisas que os militares fizeram.

CC: Brizola não contava com a virulência da reação?

FCLF: Ele foi transformado na ovelha negra do País pela mídia norte-americana. Todos os documentos e relatórios eram contra ele. Mas, para ele, a operação não passava de um ato administrativo. Não imaginava a repercussão violentíssima. Em seguida, já em 1961, vem a Campanha da Legalidade, quando ele se afirma como líder de projeção nacional. E como um grande general também, é preciso ver isso. (Brizola articulou o movimento para garantir a posse de João Goulart. Vice-presidente de Jânio Quadros, eleitos por partidos distintos, conforme a legislação da época, Jango encontra-se em viagem à China quando Jânio renuncia. Os ministros militares se insurgem contra a posse de Jango e negocia-se a adoção do regime parlamentarista, de modo a esvaziar o poder de Jango, também presidente do PTB, o partido de Brizola.)

Com 38 anos, Brizola foi um verdadeiro Napoleão, cercou o Exército, assumiu todas as comunicações, colocou a rádio e o Última Hora no Palácio Piratini, foi o grande líder da mobilização. O discurso dele, quando ameaçam bombardear Porto Alegre, é coisa que passou para a história. Às vezes, a gente pensa que o Brasil não tem heróis, mas tem, sim.

CC: Nesse episódio, o fato de Jango ter aceitado a saída parlamentarista, apesar da resistência orquestrada por Brizola, deve ter sido uma grande frustração, não?

FCLF: Aí acontece a primeira briga dos dois cunhados, já que Brizola foi casado a vida toda com dona Neusa Goulart, irmã de Jango. Depois, já no exílio, eles passariam 12 anos sem se falar. Quando Jango decide não resistir, Brizola fica louco da vida… Brizola era um homem da confrontação e sabia que Jango era um contemporizador, um homem da conciliação. Quando foi deposto pelos militares, em 1964, Jango achava que voltaria em seis meses. Ele ficaria afastado, como ficou Getúlio, depois reascenderia. Mas acabou morrendo de desgosto.

CC: Brizola chega a denunciar o acordo que Jango fazia por baixo dos panos para indenizar as empresas norte-americanas com o pagamento de valores exorbitantes. Qual foi o impacto dessa denúncia?

FCLF: O impacto foi violento. João Goulart ia viajar para os Estados Unidos em seguida… caiu ministro, caiu o diabo, foi um escândalo enorme. Isso é muito próprio dos governos, que sempre têm responsabilidades de sustentação, e Jango não queria ficar mal com os Estados Unidos, achou melhor ceder. Qualquer outro governo faria o mesmo, provavelmente. Brizola, nunca. Ele tinha um corte transformador, revolucionário, se bem que no fim da vida ele se definiria reformista em lugar de revolucionário. E não tinha coisa nenhuma de reformista, talvez ele fosse um Hugo Chávez, mais cauteloso, mais sábio.

CC: Em 1982, a Globo e militares reformados tentaram fraudar as eleições e tirar a vitória de Brizola. O sistema de informática para totalização, administrado pela empresa Proconsult, incluía o nome de Moreira Franco nos votos brancos, enquanto a Globo preparava a opinião pública apresentando as parciais vindas do interior, onde Brizola perdia. A tentativa não vingou, porque foi denunciada por Brizola à imprensa internacional.

FCLF: Não era só a Globo. No fim da vida, ele esclarecia que, apesar de a Globo pegar muito no pé dele, era todo o sistema econômico… eram Globo, Bandeirantes, Manchete… todos contra ele.

CC: A relação de Brizola com a educação, no caso dos Cieps, passa pelo contato dele com Darcy Ribeiro. Como se deu esse encontro?

FCLF: Com Darcy e Niemeyer. Darcy era muito ligado ao Jango e se aproximou de Brizola já no exílio, quando Jango morre. Então, Darcy volta depois de ter passado dez anos exilado. Aí a aproximação foi grande, a ponto de Darcy ser o vice-governador de Brizola, e passar a pôr em prática o programa de Anísio Teixeira, aquele projeto de uma escola em período integral, que era um velho projeto de Brizola também. Eu sei que Brizola dizia que a educação estava acima de tudo, a favor da educação ele não se preocupava com quanto iria gastar, com o orçamento. No último ano do governo carioca de Brizola, 55% do orçamento do estado vai para a educação. No caso dos Cieps, vê-se de que forma a mídia trabalhava. A mídia, braço direito do poder econômico, colocava a classe média contra Brizola, dizendo que os Cieps iriam ameaçar as escolas burguesas, inclusive a particular. Os Cieps eram escolas fenomenais, mas para o estudante pobre. E a mídia envenenando, atiçando os professores do ensino tradicional contra os professores dos Cieps. O professor do Ciep tinha de ser muito especial, ganhava o dobro, era mais jovem e bem mais motivado.

CC: Durante o mandato como governador no Rio, Brizola também foi um dos últimos a deixar de apoiar Fernando Collor, que havia sido eleito sustentado pela mídia contra Lula. Não era contraditório?

FCLF: Brizola dizia que se aliava até com o diabo, desde que fosse em benefício da população. Em outros tempos, aliou-se até com Plínio Salgado, líder do integralismo. Antes de Brizola assumir, o governo federal estadualiza a dívida da construção do Metrô do Rio, e o novo governador fica sem dinheiro para gastar em outras obras. Tem de pagar o Metrô e outras dívidas, já que o estado, como sempre, tinha muitas dívidas deixadas pelo governo anterior. Com o tempo, ele inaugura as obras dele, a Linha Vermelha. E tem os Ciacs, que são a versão federal dos Cieps. Quando Collor decide fazer 4,5 mil Ciacs, passa a ter um projeto, porque até então não tivera nenhum.

CC: E a relação dele com o PT e Lula?

FCLF: Brizola nunca falou isso, mas sempre senti pelos seus movimentos que ele queria que Lula fosse o vice dele. Mas Lula já estava envenenado contra Brizola, isso quando ele chegou do exílio. Tenta várias vezes e leva várias portas na cara de Lula e do pessoal que o cerca. As coisas vão se encrespando, se encrespando, e chegam a um rompimento. Mas como são ambos homens do campo popular, sempre se unem no segundo turno, tanto é que Brizola, na eleição de 1989, transferiu todos os votos para Lula. No primeiro turno, a votação de Brizola foi de 400 mil votos a menos que Lula, mas já estava na cara que era tudo feito para Lula ir para o segundo turno.

CC: Por que Brizola perde a eleição de 1989? Ao que consta, ele não se empenhou devidamente.

FCLF: Brizola estava muito ressabiado com o aparato midiático, não só as tevês, as revistas e os jornais, mas também os institutos de pesquisa, respaldados pelos grandes grupos. Dizia sentir que uma mão o puxava para trás, não deixava ele fazer uma boa campanha. Referia-se também ao quadro internacional: a queda do Muro de Berlim, o fim da União Soviética e até a queda do Daniel Ortega na Nicarágua. Todos os governos militares substituídos por civis eram ligados ao neoliberalismo, que no Brasil começou com Sarney. Brizola sofreu perseguição do governo Sarney, a mídia inteira o achacava. Ele passou oito ou nove dias sem participar do programa eleitoral, um verdadeiro suicídio político. Quase não viajava, passava a maior parte do tempo no Rio. Antes mesmo do resultado do primeiro turno, quando ainda estava à frente de Lula, já dizia que aquela eleição não era para ele, que achava que não teria vez naquela eleição, diante da violência da mídia contra ele. Dizia que o momento era do neoliberalismo. Apontava para o que chamava de onda collorida que atingia a mídia, a ‘narcotizar as pessoas’. E que, nesse contexto, na opinião dele sua mensagem dificilmente chegaria ao povão. Entendia também que os empresários jamais permitiriam o desenvolvimento autônomo do País, sem dependência externa. Além disso, enquanto Collor fazia cinco ou seis comícios por dia pronunciando meia dúzia de chavões e viajando em jatinhos e com um grande aparato, Brizola era um pregador. Compreendeu que não teria como enfrentar todo o marketing de Collor.’

 

 

INTERNET
Thomaz Wood Jr.

Distopia virtual, 18/07

‘A edição de julho e agosto da revista The Atlantic traz na capa uma incômoda questão: ‘Estará o Google nos tornando estúpidos?’ Nicholas Carr assina a matéria de 4.193 palavras e muitas provocações. A perspectiva crítica não é nova. Nos anos 70, a IBM e seus paquidérmicos mainframes serviram de inspiração para o temível HAL, o computador do filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. Nos anos 90, não faltaram teorias conspiratórias contra a Microsoft ou libelos contra os efeitos danosos do PowerPoint e do MS-Word. O alvo do momento é a onipresente Google, por seus ambiciosos planos de ‘organizar o conhecimento humano’.

O incômodo humano com os avanços tecnológicos é antigo. Como lembra Carr, Sócrates lamentava o desenvolvimento da escrita. O ateniense viveu entre 470 a.C. e 399 a.C. e foi um dos fundadores da filosofia ocidental, mas não deixou registros. Salvou-nos Platão, que o transformou em personagem de seus diálogos. Sócrates temia que as pessoas passassem a contar com a palavra escrita como um substituto para o conhecimento que antes levavam em suas mentes, tornando-se portadoras de grandes quantidades de informações, mas sem lhes compreender propriamente o significado. Isso faria com que fossem consideradas sábias, quando na verdade eram essencialmente ignorantes. No século XV, com o desenvolvimento dos sistemas de impressão, por Johannes Gutenberg, uma nova onda de temores afligiu os pensantes. O medo que então se instalou foi de que a ampliação da disponibilidade de livros provocasse preguiça intelectual, tornasse os indivíduos menos estudiosos e enfraquecesse suas mentes.

Não se pode dizer que os medos eram infundados. Muitos efeitos negativos foram comprovados como verdadeiros, assim como os enormes benefícios que não foram inicialmente previstos. Da mesma forma, não se deve ignorar os incômodos gerados pela disseminação das novas tecnologias, ainda que as vantagens percebidas sejam inegáveis.

Em 1882, lembra Carr, a visão de Friedrich Nietzsche começara a falhar. Escrever, para o filósofo, transformara-se em agonia. Salvou-o uma máquina de escrever. Porém, a tecnologia cobrou seu preço. O texto de Nietzsche tornou-se mais compacto e telegráfico. O meio havia transformado o conteúdo, a forma de escrever e, portanto, a forma de pensar. Se o mesmo é verdade para as tecnologias atuais, então estamos diante de um novo desafio.

A convivência intensa com websites, e-mails, orkuts, facebooks e youtubes está alterando o uso que fazemos da memória e interferindo em nossa atividade cerebral. As novas mídias provêem informações e ainda influenciam a forma como refletimos sobre o que vemos e lemos. Temos cada vez mais dificuldade para enfrentar textos longos e densos. Concentração e contemplação tornaram-se capacidades raras. A atenção se dispersa, os olhos lacrimejam, a cabeça pesa. Estamos nos acostumando a pensar em soluços, em ziguezague. Estudos recentes mostram que adotamos na internet um comportamento similar ao zapping diante da tevê. Saltamos de página em página de forma quase randômica. Não lemos, no sentido tradicional da palavra, acompanhando uma trajetória ou mergulhando, pela pena do autor, em imagens e sentidos. Na internet, embarcamos em uma navegação desorientada, por um mar de signos que nem sempre se relacionam. Terminamos as jornadas como o turista que visita cinco países em sete dias e retorna considerando-se conhecedor da cultura européia. Maryanne Wolf, psicóloga da Tufts University, teme que o novo estilo enfraqueça nossa capacidade de leitura mais profunda. Na internet, segundo ela, apenas decodificamos informações. Por excesso de informação e pressão de tempo, não avaliamos ou interpretamos os textos.

Para Carr, o quartel-general da Google, na Califórnia – o Gloogleplex – é a igreja maior da internet e sua religião é o taylorismo. Carr se refere à administração científica e aos estudos de tempos e movimentos desenvolvidos no início do século XX por Frederick Winslow Taylor. Seus métodos, ao buscar ganhos de produtividade, transformavam operários em autômatos. Segundo a visão dos senhores da Google, a internet deve ser uma máquina hipereficiente, um algoritmo perfeito, a permear toda a atividade cerebral da nossa Era do Conhecimento. O que Taylor fez pelo trabalho manual, a Google está fazendo pelo trabalho mental, dispara o autor. Talvez estejamos, de fato, nos transformando em ‘homens-panqueca’, amplos e finos, capazes de nos conectar com uma vasta rede, mas sem profundidade alguma. Como afirmava o filósofo praiano Bordallo, muito antes da internet: no fundo, é raso.’

 

TELEVISÃO
Ana Paula Sousa

Nem Globo nem riso, 18/07

‘Eles não são mais João Grilo e Chicó. E parecem menos dispostos a fazer graça. Dez anos depois da filmagem de O Auto da Compadecida, série tornada longa-metragem de sucesso, Matheus Nachtergaele e Selton Mello voltam a se cruzar nas telas. Quis o acaso que assim fosse. Os dois atores-símbolo da chamada retomada do cinema brasileiro debutam ao mesmo tempo como diretores e fazem, cada um a seu modo, pequenos ensaios sobre a dor.

Mello, de 35 anos, ganhou, no sábado 12, o prêmio de melhor diretor no novo Festival de Paulínia (interior de São Paulo) com Feliz Natal. Nachtergaele, 39 anos, apresentou A Festa da Menina Morta em Cannes e foi selecionado para o Festival de Gramado, em agosto. Astros da tevê, figuras carimbadas do cinema, podiam fazer do set uma extensão da fama. Arriscaram-se, porém, em terrenos acidentados.

Globais, deixaram para lá a Globofilmes e buscaram abrigo numa pequena produtora, a Bananeira. Comediantes, afastaram-se do riso e deram voz a personagens em agonia. Famosos, deixaram menos rígida a agenda para falar sobre os projetos inaugurais. ‘É diferente dar uma entrevista como diretor. Como ator, você defende um personagem. Aqui tem uma pessoa. Acho que vou começar a ser mais bem compreendido, o diálogo é outro’, acredita Selton. ‘Poucas vezes, como ator, pude mostrar quem sou. Talvez em Lavoura Arcaica e O Cheiro do Ralo. Mas nunca me expus como agora.’

Nachtergaele, que está na Bahia gravando a série Ó Pai, Ó para a Globo, também sente o mistério da autoria rondá-lo. ‘O ator expõe uma visão de mundo que nem sempre é dele. Como diretor, você mostra a sua filosofia de mundo’, imagina. A Festa da Menina Morta, filme de ar barroco, lembra o próprio Matheus, sobretudo no desvario sonhador do protagonista Santinho (Daniel de Oliveira). ‘Acho que todos os personagens mostram um pouco do que sou. Cada um é uma faceta minha. O filme é a fábula da minha vida.’

A despeito das diferenças estéticas e temáticas, algo une os dois filmes. Ambos parecem fruto de um desejo radical de expressar-se. Reproduzem também uma série de referências cinematográficas, típica dos estreantes que muito viram antes de fazer. Há as influências de cineastas-farol, como John Cassavetes e Lucrecia Martel, para Mello, e Ruy Guerra e Akira Kurosawa, para Nachtergaele. Há, ainda, os sets compartidos, já que cada um atuou, do fim dos anos 1990 para cá, em cerca de 20 longas-metragens. ‘Pude colocar em prática as maneiras como fui ou não fui dirigido. Trabalhei com diretores carrascos, omissos e sabia de que maneira trabalharia. Eu queria trabalhar com delicadeza’, define Mello, voz rouca, fala tranqüila. ‘Tentei fazer um filme de ator, de sensações.’

A câmera de Lula Carvalho, sempre em busca dos olhos, em planos fechados, reflete a tentativa. A escolha de Darlene Glória e Paulo Guarnieri também. ‘O maior fantasma de um ator é o esquecimento. As escalações são muito viciadas e preguiçosas’, diz o agora diretor.

Selton Mello topou com Guarnieri numa revista de celebridades, carregando o caixão do pai, Gianfrancesco. ‘Vi aqueles olhos tristes e pensei: ‘É ele’!’ Guarnieri, há oito anos, desistira de ser ator. Voltou com uma missão. ‘O Selton me disse: ‘A máscara que eu quero é aquela de você carregando o caixão do seu pai’.’

A comunhão dos atores com os papéis é algo evidente nos dois filmes. Ao trocar de lugar, Mello e Nachtergaele quiseram fazer da direção um encontro íntimo, um entendimento entre aqueles que falam a mesma língua. Em ambos, há, inclusive, excessos narrativos derivados dessa espécie de catarse.

‘Me parece que o cinema é um grande grito’, diz Nachtergaele. ‘Acho que fiz um filme simples e brutal’, emenda Mello. As definições resumem o que os moveu a entrar na aventura cinematográfica pela porta da autoria.

Também é fruto dessa opção outro ponto de convergência dos projetos: a presença da produtora Vânia Catani. Nascida no sertão mineiro, ela começou a trabalhar com imagens na TV Minas e, rapidamente, aderiu à cinefilia e à videoarte. Virou produtora pelas mãos de Pedro Bial, quando, em tempos pré-Big Brother, o apresentador da Globo transpôs Guimarães Rosa para o cinema em Primeiras Estórias (1999).

O destino de Bial todos sabemos. O de Vânia foi abrir a Bananeira Filmes, produtora também de Narradores de Javé (2003). ‘A bananeira está sempre brotando. É difícil matar uma bananeira. Eu gostava desse conceito. E também queria fazer uma provocação com a mania de usar banana como um nome pejorativo. Deu certo. Fora do Brasil, ninguém esquece o nome da produtora’, brinca.

Foi Vânia quem, em 1999, sugeriu a Nachtergaele que escrevesse as histórias que guardava consigo. ‘Aluguei uma casinha em Rio Acima (MG) e passei 40 dias escrevendo, sozinho’, relembra. Ele escrevia à mão, tomava banho de cachoeira e via mariposas voarem. A Festa da Menina Morta, filmado em Barcelos, na Amazônia, reproduz, de certo modo, aquele cenário apartado.

O primeiro dinheiro para a produção veio em 2002. Só em 2007 se completou a captação e aconteceu a filmagem. ‘O fato de eles serem conhecidos não fez diferença para a captação. A cara deles é que vende’, pontua Vânia. ‘Um produtor internacional chegou a me perguntar que tipo de produtora era eu que não colocava os dois nos filmes. Também houve distribuidores, aqui, que sugeriram que eles fizessem ao menos uma ceninha.’ Não apareceram.

‘O papel do produtor é transformar o sonho do outro num sonho seu, é uma entrega muito grande’, diz Vânia. ‘Alguém me disse: ‘Eu vi as logomarcas no filme, vi o seu trabalho’. Não é isso, não é isso mesmo.’ Além da produtora, os filmes têm em comum a fotografia de Lula Carvalho (de Tropa de Elite) e a direção de arte de Renata Pinheiro, figuras da nova geração técnica do cinema brasileiro.

Fato é que nem fama nem festivais garantirão a carreira dos longas-metragens. O filme de Selton Mello, com estréia marcada para 21 de novembro, deve ser lançado com 20 cópias. O de Nachtergaele ainda não conseguiu distribuição. ‘Essa é uma esquizofrenia do cinema brasileiro. Os distribuidores têm medo dos filmes mais autorais’, diz ele. Nachtergaele descobriu, enfim, que a frase de seu personagem no filme Amarelo Manga – ‘No cinema pode tudo’ – não é de todo verdadeira. ‘Descobri o contrário. Descobri o limite técnico, os limites das pessoas’, confessa. ‘Também tenho uma noção mais clara de tudo que tem de acontecer para eu entrar em cena, de quanta coisa é necessária para que eu esteja ali.’

Os dois apostam em mudanças no modo de atuar após a experiência de mandar a claquete bater. ‘Como ator, é fácil você se acomodar. No Lavoura Arcaica, tive de pensar no porquê da minha profissão, no que estava fazendo’, reflete Mello. E o que era? ‘Estava virando um burocrata, fazia tudo igual.’

O filme sobre o dia de Natal, ‘essa data obrigatória e, até por isso, reveladora’, é, para ele, o trabalho da virada. ‘Esta é a primeira experiência de uma nova fase da minha vida’, repete, seja num debate, na entrevista ou no palco tinindo de novo, em Paulínia, durante o recebimento do troféu.

Nachtergaele, discurso menos pensado que o do colega, afirma: ‘Acho que o cinema é uma poesia visual e sonora que existe para que alguma coisa seja poupada do ciclo infernal da vida’. Com verbo semelhante, define os diferentes espaços, onde, como ator, dá vida a um montão de tipos. ‘Todos os meios se dão as mãos numa espécie de ciranda. A tevê mostra a poesia para quem não pode vê-la em outro lugar. O teatro é a mais religiosa das artes. O cinema tem sido a estrela dessa tríade, o lugar de reunião das pessoas.’

Ele, que participou da inesquecível montagem de O Livro de Jó, com o Teatro da Vertigem, e tornou-se ator no palco, fez caminho oposto ao de Selton Mello, astro mirim crescido na tevê. Partiram de lugares diferentes. Mas, no meio do caminho, vindos de lados contrários, encontraram-se. E seus sonhos eram quase iguais.’

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