Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Carta Capital

23/06/2009 na edição 543

DIPLOMA
Ivana Bentes

Os Pré-Cogs estão chegando

‘Finalmente caiu o diploma de jornalista. Em votação histórica no Supremo Tribunal Federal.

O fim da exigência do diploma para se exercer o jornalismo no Brasil (como em tantos paises do mundo inteiro) abre uma série de novas questões e debates sobre o campo da Comunicação pós-midias digitais, bem mais interessantes que o velho muro das lamentações corporativas. Agora, será necessário constituir novos ‘direitos’ para jornalistas e não-jornalistas, free-lancers, blogueiros e midialivristas terão que inventar novas formas de lutas, comuns.

O fim do diploma tira da ‘invisibilidade’ a nova força do capitalismo cognitivo, as centenas e milhares de jovens free-lancers, autônomos, midialivristas, inclusive formados em outras habilitações de Comunicação, que eram impedidos por lei de fazer jornalismo e exercer a profissão e que, ao lado de qualquer jovem formado em Comunicação, constituem hoje os novos produtores simbólicos, a nova força de trabalho ‘vivo’.

Vamos finalmente sair do piloto automático dos argumentos prontos ‘em defesa do diploma’ que sempre escamotearam alguns pontos decisivos:

1. O fim da exigência de diploma para trabalhar em jornalismo não significa o fim do Ensino Superior em Jornalismo, nem o fim dos Cursos de Comunicação que nunca foram tão valorizados. Outros cursos, extremamente bem sucedidos e disputados no campo da Comunicação (como Publicidade) não tem exigência de diploma para exercer a profissão e são um sucesso com enorme demanda. A qualidade dos cursos e da formação sempre teve a ver diretamente com projetos pedagógicos desengessados, com consistência acadêmica, professores de formação múltipla e aberta, diversidade subjetiva e não com ‘especificidade’ ou exigência corporativa de diploma.

2. As empresas de jornalismo e comunicação são as primeiros a contratarem os jornalistas com formação superior. NA UFRJ, por exemplo, os estudantes de Comunicação e Jornalismo são ‘caçados’ pelas empresas que dão preferência aos formados, com nível superior em Comunicação, por que mudariam?

3. Esse papo de ‘quem é contra o diploma faz o jogo do patrões’, é uma velha ladainha, repetida no piloto automático da frases feitas. Raciocínio que é bem mais conservador e retrógrado que o próprio discurso das empresas/mercado que precisa empregar quem tem formação de qualidade. Que precisa de profissionais qualificados,capazes de entender os novos ambientes pós-digitais, capazes de fazer redes e de inovar em diferentes campos.

4. Os jornais já burlam a exigência de diploma pagando os MAIORES salários da Redação aos não-jornalistas, cronistas, articulistas, editorialistas, muitos SEM diploma (a exigência de diploma nunca alterou esse quadro!). As Universidades não precisam formar os ‘peões’ diplomados, mas jovens capazes de exercer sua autonomia, liberdade e singularidade, dentro e fora das corporações, não profissionais ‘para o mercado’, mas capazes de ‘criar’ novos mercados, jornalismo público, pós-corporações.

5. Nada justificava a ‘excepcionalidade’ do diploma para os jornalistas que criou uma ‘reserva de mercado’ para um pequeno grupo e que diminuía a empregabilidade de jovens formados em cinema, rádio e TV, audiovisual, publicidade, produção editorial, etc. proibidos pelo diploma de exercer…..jornalismo.

Até agora, nenhuma entidade corporativa defendeu nem pensou em uma SEGURIDADE NOVA para os free-lancers, os precários, os que não tem e nunca terão carteira assinada. É hora das associações, federações, sindicatos mudarem o discurso do século XIX e entrarem no século XXI buscando uma nova forma de SEGURIDADE PARA OS PRECÁRIOS, OS NÃO DIPLOMADOS, OS MIDIALIVRISTAS, o fim do diploma aponta para essas novas lutas.

O raciocínio corporativo constituiu até hoje uma espécie de ‘vanguarda da retaguarda’, discurso, fabril, estanque, de defesa da ‘carteira assinada’ e ‘postos de trabalho ‘, quando no capitalismo cognitivo, no capitalismo dos fluxos e da informação o que interessa é qualificar não para ‘postos’ ou especialidades (o operário substituível, o salário mais baixo da redação!), mas para CAMPOS DO CONHECIMENTO, para a produção de conhecimento de forma autônoma e livre, não o assujeitamento do assalariado, paradigma do capitalismo fordista.

A idéia de que para ter ‘direitos’ é preciso se ‘assujeitar’ a uma relação de patrão/empregado, de ‘assalariamento’, é uma idéia francamente conservadora!

O precariado cognitivo, os jovens precários das economias criativas estão reinventando as relações de trabalho, os desafios são enormes, a economia pós-Google não é a Globo fordista, não vamos combater as novas assimetrias e desigualdades com discursos e instrumentos da revolução industrial.

Devemos lutar não por cartórios do século XIX, mas pelos novos movimentos sociais de organização e defesa do precariado, lutar pela AUTONOMIA fora das corporações, para novas formas de organização e seguridade do trabalhador livre do PATRÃO E DA CORPORAÇÃO.

A General Motors nos EUA e as fábricas fordistas não vão falir sozinhas, levarão juntos o capitalismo fabril, patronal, corporativo e o arsenal conceitual, os discursos, que não conseguem mais dar conta, nem explicar, as mudanças.

Acabou o diploma de Jornalismo, mas o diploma/formação de Comunicação nunca foi tão importante! Vamos agora pensar o jornalismo público, o jornalismo do comum! E, antes que eu me esqueça: isso não tem nada a ver com ‘neoliberalismo’, vamos parar de repetir duas ou três frases clichês!

Existem hoje ‘revoluções do capitalismo’ (titulo do belo livro de Mauricio Lazaratto, inspirado em Antonio Negri e Gilles Deleuze).

Não é a toa que a garotada prefere ir para as Lan Houses ao invés de entrarem para as corporações.

A Comunicação e o jornalismo são importantes demais para serem ‘exclusivas’ de um grupo de ‘profissionais’. A Comunicação e o jornalismo hoje são um ‘direito’ de todos, que será exercido por qualquer brasileiro, com ou sem diploma.

O capitalismo cognitivo está constituindo um novo processo de acumulação globalizado, que tem como base o conhecimento, as redes sociais, a comunicação, o ‘trabalho vivo’ (Negri. Lazaratto. Cocco), existem, claro, novas formas de exploração e assujeitamento, mas também novas formas de luta!

Adeus ao proletariado fabril, diplomado ou não, viva o precariado cognitivo, os Pré-Cogs que estão chegando e são a base da comunicação, base das tecnologias da informação, base da economia do conhecimento, que alimenta a inovação e as novas lutas.

Viva a formação superior em Comunicação, em Jornalismo, viva as Escola Livres de Jornalismo e as novas dinâmicas mundanas de ensino/aprendizado e trabalho ‘vivo’.

*Ivana Bentes é professora e diretora da Escola de Comunicação da UFRJ, é formada em Comunicação com habilitação em jornalismo. Twitter: @ivanabentes’

 

Leandro Fortes

Péssima notícia

‘*Texto reproduzido do Blog Brasilia, eu vi

O fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo é uma derrota para a sociedade brasileira, não esta que discute alegremente conceitos de liberdade de expressão e acredita nas flores vencendo o canhão, mas outra, excluída da discussão sobre os valores e os defeitos da chamada ‘grande imprensa’. São os milhões de brasileiros informados por esquemas regionais de imprensa, aí incluídos jornais, rádios, emissoras de TV e sites de muitas das capitais brasileiras, cujo único controle de qualidade nas redações era exercido pela necessidade do diploma e a vigilância nem sempre eficiente, mas necessária, dos sindicatos sobre o cumprimento desse requisito.

Tenho ouvido, há anos, como continuei ouvindo, hoje, quando o STF decidiu por oito votos a um acabar com a obrigatoriedade do diploma, essa lengalenga interminável sobre os riscos que a liberdade de expressão sofria com a restrição legal a candidatos a jornalistas sem formação acadêmica específica. Esse discurso enviesado de paixão patronal, adulado aqui e ali por jornalistas dispostos a se sintonizar com os sempre citados países do Primeiro Mundo que não exigem diploma, gerou uma percepção falaciosa, para dizer o mínimo, de que para ser jornalista basta apenas ter jeito para a coisa, saber escrever, ser comunicativo ou, como citou um desses ministros do STF, ‘ter olho clínico’. Foi baseado nesse amontoado de bobagens, dentro de uma anti-percepção da realidade do ofício, que se votou contra o diploma no Supremo.

Conheço e respeito alguns (poucos) jornalistas, excelentes jornalistas, que sempre defenderam o fim do diploma, e não porque foram cooptados pelo patronato, mas por se fixarem em bons exemplos e na própria e bem sucedida experiência. São jornalistas de outros tempos, de outras redações, de outra e mais complexa realidade brasileira, mais rica, em vários sentidos, de substância política e social. Não é o que vivemos hoje. Não por acaso, e em tom de deboche calculado, o ministro Gilmar Mendes, que processa jornalistas que o criticam e crê numa imprensa controlada, comparou jornalistas a cozinheiros e costureiros ao declarar seu voto pelo fim da obrigatoriedade do diploma. É uma maneira marota de comemorar o fim da influência dos meios acadêmicos de esquerda, historicamente abrigados nas faculdades de jornalismo, na formação dos repórteres brasileiros.

Sem precisar buscar jornalistas formados, os donos dos meios de comunicação terão uma farta pescaria em mar aberto. Muito da deficiência dessa discussão vem do fato de que ela foi feita sempre pelo olhar da mídia graúda, dos jornalões, dos barões da imprensa e de seus porta-vozes bem remunerados. Eu, que venho de redações pequenas e mal amanhadas da Bahia, fico imaginando como é que essa resolução vai repercutir nas redações dos pequenos jornais do interior do Brasil, estes já contaminados até a medula pelos poderes políticos locais. Arrisco um palpite: serão infestados por jagunços, capangas, cabos eleitorais e familiares.

O fim da obrigatoriedade do diploma vai, também, potencializar um fenômeno que já provoca um estrago razoável na composição das redações dos grandes veículos de comunicação: a proliferação e a expansão desses cursinhos de trainee, fábricas de monstrinhos competitivos e doutrinados para fazer tudo-o-que-seu-mestre-mandar. Ao invés de termos viabilizado a melhoria dos cursos de jornalismo, de termos criado condições para que os grandes jornalistas brasileiros se animassem a dar aulas para os jovens aspirantes a repórteres, chegamos a esse abismo no fundo do qual se comemora uma derrota.

De minha parte, acho uma pena.’

 

IRÃ
Wálter Fanganiello Maierovitch

O Irã e a luta invisível

‘A iraniana Narges Mohammadi é parceira de Shirin Ebadi, ganhadora do Nobel da Paz em 2003. Sobre uma eventual fraude no processo eleitoral do 12 de junho, Narges disse nada poder concluir. Isto porque as eleições iranianas são ‘sempre invisíveis’, ou seja, falta transparência. O colégio eleitoral iraniano é composto de 42,5 milhões de eleitores e 85% dos inscritos compareceram para votar.

O homem mais rico do Irã e segundo na teocracia, Ali Hashemi Rafsanjani, é inimigo do presidente Ahmadinejad, que o chamou de ladrão durante a campanha eleitoral. Rafsanjani já foi presidente por dois mandatos (1989-1997) e é o guia do Conselho do Discernimento. Ele está de olho no ‘trono’ de Khamenei, que assumiu em junho de 1989, sem ser o preferido do aiatolá Khomeini. Este pendia por Hossein Ali Montazeri, que não levou a cadeira vitalícia de ‘Rahbar’, ou seja, ‘Guia Supremo’.

Na eleição de 2005, Rafsanjani tentou o terceiro mandato presidencial, com Ebadi e Narges pregando o não comparecimento. No segundo turno, perdeu para Ahmadinejad, ex-prefeito de Teerã, pouco conhecido no país, mas que conseguiu 61,7% dos votos. Para Rafsanjani houve fraude. A partir daí, ele colocou o filho Mehdi para coordenar, na universidade islâmica Azad que fundou, um grupo para pesquisar tendências eleitorais e fiscalizar apurações. Nas pesquisas, Mir-Hossein Mussavi levaria no primeiro turno, com 65% dos votos. Mas ele perdeu até na sua cidade natal, onde esperava mais de 90% de votos.

Ahmadinejad acusou Rafsanjani de financiar o candidato Mussavi, ex-premier e antigo homem de confiança do falecido aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da revolução xiita de 1979. Na totalização das cédulas de papel, com preenchimento de próprio punho e a tinta, deu Ahmadinejad com 62,63% dos votos e Mussavi com 33,8%. Os dois outros opositores, Mohsen Rezai (ex-pasdaran) e o clérigo Mehdi Karubi conseguiram, respectivamente, 1,7% e 0,9% das preferências. Mussavi buscou votos entre intelectuais, universitários, pessoas ricas, mulheres, burocratas e minorias étnicas. Ahmadinejad mirou nos pobres, homens do campo, paramilitares, nacionalistas, dependentes públicos e desiludidos com a elite clerical que controlou o país por 30 anos.

Como observou o dissidente e jornalista Akbar Ganji, hoje exilado nos EUA, todos os quatro candidatos à Presidência faziam parte do sistema teocrático. O próprio Barack Obama disse que havia pouca diferença entre Ahmadinejad e Mussavi. O mando se concentra nas mãos do chefe religioso, Ali Khamenei, que sempre preferiu Ahmadinejad.

Por enquadrados, os candidatos tiveram os nomes aprovados pelo Conselho dos Guardiães. Só que na luta invisível pelo controle do sistema teocrático iraniano, Mussavi contava com o apoio de Rafsanjani e de Montazeri, ambos prontos a puxar o tapete de Khamenei, que só perde a vitaliciedade se for cassado pelos aiatolás.

Ganji sustenta ser o presidente uma ‘marionete’ do Guia Supremo e todos os candidatos declaram-se favoráveis ao programa nuclear iraniano, causador de tensões internacionais. Com efeito, nada mudaria no Irã, pois todos os disputantes eram peças de um mesmo sistema. Na luta invisível, no entanto, as manifestações populares contra Ahmadinejad e a suspeita fraude ajudam no enfraquecimento de Khamenei. O aiatolá dissidente, Montazeri, afirmou que a fraude ficou evidente a qualquer pessoa de posse das faculdades mentais: referia-se, entre outros indícios, ao de 39 milhões de votos terem sido contados em menos de 12 horas, quando, pelo número de apuradores, levaria de 24 a 36 horas. Mais: no espaço a ser preenchido pelo eleitor, Mussavi era o número 4 e Ahmadinejad, o 44.

No primeiro protesto pós-eleição, cerca de 1,2 milhão de opositores convictos da fraude saíram em marcha da Praça da Revolução à da Liberdade. Ouviram-se gritos de ‘marq bar Khamenei’ (abaixo Khamenei). E os alinhados com Rafsanjani sustentaram o impeachmant de Khamenei por ter violado a Constituição. Isto ao cumprimentar publicamente Ahmadinejad pela vitória, antes da proclamação do resultado pelo Conselho dos Guardiães.

Pano Rápido. Os aiatolás sabem que 70% da população tem menos de 30 anos de idade e que os jovens querem liberdade. O Irã mostra-se democrático na escolha do presidente, mas viola direitos fundamentais e condena à pena de morte. Na última semana, o governo confinou em hotéis os jornalistas internacionais em trabalho de cobertura da última eleição. O Ministério da Cultura e Guia Islâmico impôs blackout ao messenger, SMS e celulares e vinculou as manifestações populares a autorizações governamentais.

Os jovens ocuparam as praças para protestar sem autorização, como na queda do xá Reza Pahlevi. E eles conseguiram driblar o bloqueio de sinais com Twitter e Facebook para divulgar mensagens para o mundo. Os aiatolás estão receosos com a perda do controle social.’

 

CINEMA
Ana Paula Sousa

O triste fim de um cidadão fora de lugar

‘O jovem brasileiro assassinado pela polícia britânica em 2005 transformou-se em Selton Mello. Jean Charles, que entra em cartaz no Brasil na sexta-feira 26, tira da própria personalidade do ator, o mais requisitado do cinema nacional, o espírito de seu personagem. O eletricista que deixou uma pequena cidade mineira para arriscar a sorte no cinza londrino ganhou, no filme, os trejeitos humorísticos e o olhar levemente triste de Mello.

O diretor Henrique Goldman, talvez pela pouca experiência na ficção, deixou-se levar pelo ator, que, apesar do inegável talento demonstrado em filmes como O Auto da Compadecida (2000) ou Lavoura Arcaica (2001), tende a repetir suas artes e manhas quando deixado à solta.. É o que acontece em Jean Charles.

Exatamente por isso, o que o filme tem de mais interessante está, ironicamente, nas figuras e cenas que rodeiam o protagonista, e não no personagem de Jean. Para recuperar o episódio, Goldman, documentarista radicado em Londres há quase duas décadas, e o roteirista Marcelo Starobinas debruçaram-se sobre uma comunidade imensa e invisível: a dos brasileiros residentes da cidade.

Nas pequenas histórias que rodeiam a ‘grande história’ fatal estão os acertos desse filme que, preso aos fatos amplamente divulgados, não alça o voo que se espera da ficção. Não por acaso, é das frestas documentais que ele tira seu frescor. Os imigrantes vivendo seus próprios papéis, como uma das primas e o ex-chefe do eletricista, e os detalhes cotidianos das ruas escapam aos lugares-comuns da história, em geral, narrada de forma linear, armada para dar dramaticidade ao desfecho.

Construído de forma a ‘celebrar a vida’, como têm dito os autores, o roteiro atinge o ponto alto após o brutal assassinato no metrô. A cena em que os primos de Jean (vividos por Vanessa Giácomo, muito bem, e Luis Miranda) são levados a uma sala da polícia londrina para receber a notícia é construída com uma mistura de frieza e emoção que, em segundos, capta o drama daqueles cidadãos pela metade, incapazes de entender o significado da palavra morgue, necrotério, em inglês.

Coproduzido por Stephen Frears, diretor de A Rainha, e Rebecca O’Brien, sócia de Ken Loach (de Terra e Liberdade), Jean Charles, em tese, inclui-se na vertente social do cinema britânico. Goldman, no entanto, ao contrário de Frears e Loach, não parece compreender, na plenitude, o drama dos homens que se sentem fora de lugar.’

 

LITERATURA
Rosane Pavam

O título certo, no meio do caminho

‘Ele intitulara seu romance O Mundo Coberto de Pennas, em referência às penas negras dos corvos cobrindo o chão seco, contidas no penúltimo capítulo do texto. O título para a obra de 1938 parecia-lhe justo, já que o romance falava da existência rala no sertão brasileiro. Por alguma razão, contudo, ele mudou de ideia ao ver o frontispício da obra datilografada. E, por cima do título, escreveu a lápis Vidas Secas.

Ele era Graciliano Ramos e seu texto, um dos maiores da literatura brasileira, inovador, entre outras razões, porque a linguagem ali apresentada vinha sem floreios, seca. Mas teria a obra se tornado eterna se seu título fosse o primeiro?

O imponderável merece a atenção dos críticos. O inglês Robert McCrum não duvida que aquilo que há em um nome, citando William Shakespeare, defina seu futuro. Em reportagem publicada pelo jornal Observer há duas semanas, McCrum sustenta que O Grande Gatsby, escrito em 1925 por Scott Fitzgerald, teria outra sorte se o americano rejeitasse a ideia de seu editor e o intitulasse a seu modo, Incidente em West Egg, sem o irônico adjetivo do título final.

1984, romance que completa seis décadas, seria identicamente estupendo se o inglês George Orwell tivesse mantido para ele seu título de trabalho, O Último Homem na Europa? E o que dizer de A Veia no Pulso, que a brasileira nascida na Ucrânia Clarice Lispector pretendia dar à sua obra finalizada em 1961, depois de dez anos de hesitações? A Veia no Pulso tornou-se A Maçã no Escuro porque Fernando Sabino, seu amigo, assim o quis.

O escritor conhecia muita coisa sobre o poder dos títulos, haja vista seu O Encontro Marcado, de 1956, e também acompanhava toda a dor que cercava a obra de Clarice. Ela não acreditava no poder desse que é um de seus mais elaborados livros, e modificou-o em diversas passagens por sugestão do amigo, que, ao fim, lamentou sua obediência. Clarice era grande, uma maçã perfeita. E, sim, estava no escuro, ‘perdidinha’, como ela confessara ao escritor mineiro em uma carta. O título de Sabino evocava uma estranha natureza- morta e, por esta razão, representava com acerto a intimidade de sua autora.

Ela deixara que outro amigo da criação literária, Lúcio Cardoso, desse à sua obra de estreia um título inspirado nas construções de James Joyce, Perto do Coração Selvagem, embora, em 1944, Clarice não conhecesse o irlandês. A autora libertou-se de Cardoso ao nominar O Lustre seu segundo livro, de 1946. O autor de Crônica da Casa Assassinada não gostou do título e protestou, talvez com razão. Clarice retrucou-lhe dizendo que o título correspondia ao que ela era, ‘pobre’.

Outra grande amiga de Clarice Lispector, a escritora Lygia Fagundes Telles, de 86 anos, gosta de usar, como a autora de O Lustre, uma palavra ‘antiga’ para definir o que lhe ocorre ao intitular seus livros, ‘inspiração’. Lygia, ao contrário de Clarice, jamais deixou que alguém desse nome a um livro seu. Ela ressalta o artifício que há em todos, mesmo os que sugerem simplicidade.

‘As Meninas, que parece superficial, tem relação profunda com minha meninice’, conta Lygia. ‘Éramos quatro filhos, sou a caçula, e sobre meus irmãos mamãe dizia: ‘Os meninos já chegaram? Os meninos estão no banho?’ E eles já eram rapazolas! Quando fiz o romance sobre as três jovens no pensionato católico, lembrei dessa maneira afetuosa com que mamãe se dirigia a meus irmãos, e as chamei de meninas, embora nem fossem mais.’

Lygia vê algo de mágico nos seus títulos, sugestões que nascem ‘das coisas mais estranhas’. Antes do Baile Verde, uma reunião de contos, não corresponde à sua narrativa preferida no livro. ‘Helga e O Moço do Saxofone são melhores, mas como dar um desses títulos ao livro todo?’ A magia está inteira em outro conto seu, justamente conhecido pela maestria do título, A Estrutura da Bolha de Sabão. O crítico de cinema Paulo Emilio Salles Gomes, seu marido, havia lhe dito que um ‘físico amigo’ estudara ‘a estrutura da bolha de sabão’ em Paris. ‘Mas bolha de sabão não tem estrutura, eu fazia bolhas com os canudos de mamoeiro!’ O crítico estimulou Lygia a escrever baseada nessas estruturas, que, nas mãos da escritora, tornaram-se psicologias em 1978. Somente no ano passado, um amigo médico, que cuidara de seu filho Goffredo e a ajudara pessoalmente quando ela o perdeu, em 2006, disse ser Jean Oury o autor da pesquisa. ‘Eu já o conhecia e em setembro ele estará no Brasil. É um psicanalista e minha narrativa tem relação com isso. Não poderia imaginar.’

O título frequentemente demora a aparecer. O escritor Cristovão Tezza só chegou àquele que daria a seu livro de 2007 na segunda tentativa. Primeiramente, a ideia era intitulá-lo O Filho Especial, já que a narrativa girava em torno do jovem com síndrome de Down. ‘Quando me estalou na cabeça ‘o filho eterno’, percebi que tinha achado o título exato’, conta. A escolha parece correta, já que o protagonista, o pai, é o narrador, e a ele pertence a sensação de que seu menino será eternamente uma criança, eternamente seu.

‘Um título é parte inseparável do livro. Um mau título, um escorregão de texto do autor’, considera Tezza. Para seu colega Milton Hatoum, às vezes, ao encontrá-lo, descobre-se também a narrativa que se está escrevendo. ‘Isso aconteceu com Cinzas do Norte, cujo título só surgiu dois anos depois de eu ter começado a escrever o romance’, ele conta. ‘A ideia veio da cena em que Mundo faz sua obra com madeira carbonizada. O título significava muitas coisas do romance: a devastação da floresta, o desnorteio de todos e também a Amazônia, o Norte.’

Em 2000, o editor de Hatoum, Luiz Schwarcz, intitulou Dois Irmãos, que evoca outro título literário brasileiro, Os Dois Irmãos, de Oswaldo França Jr., de 1976. Milton Hatoum pensara em Filhos de Zana, mas gostou da segunda versão por trazer algo de enigmático ao texto. E os personagens talvez fossem mais irmãos que filhos.

Um título, objeto inspirado, como o quer Lygia, também pode nascer de uma atitude provocativa. Eis que Machado de Assis se torna inevitável para explicar a situação. O professor de literatura Gilberto Passos sustenta que Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, tem um intuito paródico ou dois. ‘Em sua composição entrariam Mémoires d’Outre-Tombe, de François-René de Chateaubriand, livro do qual já havia, em 1848, uma tradução espanhola com o título de Memorias Postumas, e o nome de Brás Cubas, homônimo do fundador de Santos’, afirma. ‘Como o Brás Cubas machadiano trata de uma figura do século XIX sem importância, explica-se a dupla paródia. Não se trata nem das memórias do grande autor, político e diplomata francês, de origem nobre, nem as possíveis memórias de uma figura histórica brasileira da colônia.’’

 

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