Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Carta Capital

07/10/2008 na edição 506

ERROS
Carlos Leonam e Ana Maria Badaró

O caldeirão do Machado, 3/10

‘Sabe O Grito, a obra-prima de Edvard Munch? É meio assim que a gente se sente, com aquela cara de ‘oh, horror!’, quando nossos comunicólogos prosseguem cometendo erros de português escalafobéticos, enquanto pilotam seus programas de rádio e televisão. Recentemente, um veteraníssimo âncora maculou seu espaço vespertino no rádio saindo-se com um ‘escrevido’ em vez de ‘escrito’. Gulp!

Errar é humano, mas persistir no erro é ignorância mesmo, se não da língua, do viés educativo dos meios de comunicação. Ou será que jornalistas e apresentadores, e principalmente suas respectivas equipes, têm vergonha de admitir a mancada? É vergonha ou presunção? A espera por uma errata ou mea-culpa no ar é sempre vã. Por que não é o profissional de comunicação seu próprio ombudsman, em vez de apostar que o ouvinte passará batido pela agressão cometida ao vernáculo? Na-na-ni-na-não. Conosco não, violão.

Poucos dias depois, quando a orelha ainda se recuperava daquela pedrada, uma jovem titular de um programa cheio de atitude na tevê aberta mandou essa em plena hora do Angelus, ao se referir ao filme de Bruno Barreto, Ônibus 174: ‘O seqüestro foi ‘cobrido’ com exagero pelas tevês, blá-blá-blagh!’ E foi em frente embolando as coisas. Onde estariam o diretor, o produtor, o continuísta, o maquiador? Será que ninguém dá um toque? Não cremos.

Sendo assim, não dá para ficar noticiando e debatendo a péssima qualidade do ensino no País, enquanto a tevê e o rádio brasileiros não assumirem os erros daqueles que são a sua voz. A mídia impressa há muito faz isso, com a diferença de que a esmagadora maioria dos erros é de conteúdo, o que mostra, estatisticamente, o zelo pela língua escrita. Então, por que não cuidar da língua falada?

Para não ficar malhando a classe, vamos até ao presidente do STJ, Gilmar Mendes, que disse em entrevista no início da semana passada: ‘É necessário fazer um ‘corrigidozinho’ no documento’. É mole? Será um regionalismo? É de endoidecer, doutor, e de deixar a gente, num primeiro momento, sem saber quem está certo.

Last but not least, um eminente e simpático intelectual, economista, diplomata, ex-embaixador, ex-ministro, em meio à enxurrada de análises televisivas na Segunda-Feira Negra, disse sobre a acachapante e planetária crise econômica: ‘O importante é o ‘desfazimento’ do cenário de desconfiança’. O queixo caiu mais do que o índice Dow Jones.

E justo quando se anuncia mais uma reacomodação da língua portuguesa, já que não dá para chamar de reforma ortográfica as subtrações propostas pelos doutos lingüistas (vamos sentir saudade do trema?). Machado de Assis faz cem anos de ausência, com erros desse tipo varando o éter. Como foram captados en passant, dão uma média das formas não registradas.

Sendo o assunto recorrente (não por nosso desejo), podem pensar que estamos repetindo pauta, e ainda corremos o risco de nos acharem uns pentelhos puristas, em vez de ouvintes acidentais. Deixemos Camões descansar e desta vez peçamos a Machado, o Bruxo do Cosme Velho, que mexa em seu caldeirão uma providencial sopa de letrinhas como só ele sabe.’

 

 

COLUNISTA
Sergio Lirio

O juiz sem medo, 3/10

‘Outro dia tive a honra de participar de um debate ao lado de Wálter Fanganiello Maierovitch. Foi em Campinas e o centro da discussão era a histeria instalada nos poderes, os permanentes e os transitórios, em conseqüência da Operação Satiagraha. Wálter permitiu-se desviar um pouco do foco e deu uma aula sobre um de seus assuntos prediletos e do qual é um dos maiores especialistas do mundo: as máfias italianas.

Enquanto Wálter relatava ações violentas e descaradas de mafiosos contra aqueles que os investigavam, perguntei-me qual a diferença entre a Itália de antes da Operação Mãos Limpas (deixemos de lado a atualidade infeliz da terra de Berlusconi) e o Brasil de agora. Minha conclusão: aqui, até o momento, não foi necessário explodir nenhum representante do poder público, a exemplo do que fez o crime organizado italiano com Giovanni Falcone e Paolo Borsellino.

Não que inexistam Falcones e Borsellinos no Brasil. Acho que até os há, em quantidade não desprezível, entre os integrantes do Ministério Público e do Judiciário. Vários andam protegidos por escolta e vivem sob constante ameaça de morte. Concluo, porém, que, à parte exemplos extremos, nestes rincões abaixo do Equador impõe-se cotidianamente outra realidade presente nas análises de Wálter, e que também integra a agenda de preocupações da União Européia, a criminalidade dos potentes, ou dos poderosos, para recorrer a uma palavra mais precisa no português.

A força no Brasil dos poderes, permanentes e transitórios, é tamanha, e ainda mais avassaladora quando descobrem interesses comuns, que bastam mecanismos menos hollywoodianos, mas igualmente eficientes, para torpedear investigações ameaçadoras. A invenção de crises institucionais, por exemplo. A moda nestes dias é apontar a existência de um ‘Estado policial’ a colocar em risco a preservação do ‘Estado de Direito’. Mas de onde viria a ameaça à nossa incipiente democracia? Do grampo até agora não comprovado de uma conversa pueril entre o presidente do Supremo e um senador coadjuvante? Ou de ataques a policiais e juízes envolvidos em investigações de figurões das finanças e da política?

Não falta quem resista à ação dos potentes no Ministério Público e na Justiça. No jornalismo também, mas em número infinitamente menor. Wálter é um deles. Como destaca Mino Carta no prefácio do livro recém-lançado do colunista de CartaCapital, ao aceitar colaborar regularmente com a revista, após deixar a Secretaria Nacional Antidrogas do governo FHC, Wálter, além de magistrado de carreira reconhecida, virou jornalista competente. Mais até: desde a sua estréia em nossas páginas, em 2000, revelou pendores de repórter, capaz de enxergar antecipadamente assuntos relevantes ao País e ao mundo. Até o gosto por ‘furos’ ele incorporou.

Graças ao magistrado-jornalista, os leitores de CartaCapital souberam de antemão quem era Osama bin Laden, antes de ele vir a ser o terrorista mais procurado do mundo, odiado no Ocidente, celebrado em extensas porções do Oriente. De sua autoria, ‘O príncipe da morte’, publicada em 1º de agosto de 2001, um mês antes do atentado ao World Trade Center, é uma reportagem profética, que costuma despertar inveja em jornalistas de carreira ainda apegados aos princípios básicos da profissão (confesso a minha).

De lá para cá, Wálter tratou semanalmente na revista das diferentes facetas do crime organizado e do terror, estejam eles instalados em uma bela cidade italiana, nas matas e palácios da América do Sul ou em cavernas do Oriente Médio. Refletiu sobre a Justiça, a política, as questões de Estado, com a autoridade alicerçada em uma carreira e uma vida límpidas. Parte dessa produção intensa e analítica foi reunida em Na Linha de Frente pela Cidadania (Michael, 383 págs., R$ 49), coletânea de artigos publicados em CartaCapital em quase nove anos.

O subtítulo ‘A criminalidade dos potentes’ expressa a consciência de que da atuação de poderes superiores, quase divinos, raramente alcançáveis pelas mãos da Justiça, emergem os principais entraves ao combate ao crime organizado e aos saqueadores de colarinho-branco. A capa traz ainda uma frase de Borsellino: ‘Quem tem medo morre a cada dia. Quem não tem morre uma vez somente’. Wálter, tenho certeza, só morrerá uma vez.’

 

 

PUBLICIDADE
Ana Paula Sousa

O homem-slogan, 3/10

‘Washington Olivetto fala como quem constrói slogans. ‘Meu filho mais velho? Está quase com a minha idade’, graceja, quando o assunto é a família. Se a conversa salta para os bilhetes que manda à farta, explica por que jamais são escritos à mão. ‘Minha letra é inviável. Quem recebesse teria de levar o bilhete a uma farmácia.’

O dono da W/Brasil, a maior agência de capital nacional do País, tem dado mil entrevistas por conta do lançamento do livro O Primeiro a Gente Nunca Esquece (Planeta, 372 págs., R$ 79,90). Em todas sai-se com frases que poderiam entrar num comercial sobre ele. Na última semana esteve nos programas de Ronnie Von, Luciana Gimenez e Jô Soares. Para cada um, uma historieta. Para cada um, uma tirada. ‘O livro é a relação da publicidade com a cultura pop. Desmentiria minha tese se me recusasse a fazer todo e qualquer programa de televisão. Como minha atividade é de um adequador de linguagem, me moldo ao público para ser bem compreendido’, diz.

Olivetto conta certas coisas como se tivessem sido inventadas, e não vividas. Quem vai entrevistá-lo descobre que as perguntas são quase desnecessárias. Não é de surpreender que o homem que inventou o Garoto Bombril, há 30 anos no ar, o cachorro da Cofap, o primeiro sutiã, o casal Unibanco e o ratinho da Folha de S.Paulo saiba entreter quando fala de si. ‘Sei que, para a minha atividade, a exposição é obrigatória e útil. Mas não me exponho pessoalmente. Minhas entrevistas dizem respeito ao meu trabalho. Não tiro fotos para mostrar minha casa’, delimita.

Um dos mais premiados publicitários brasileiros, foi o primeiro a tirar os comerciais dos intervalos da programação para torná-los, de uma vez por todas, assunto. Os criadores da DPZ abriram a trilha nos anos 1960. Mas quem soube percorrê-la com total desenvoltura foi Olivetto. ‘O bom trabalho de criação é aquele que, de tão direito, adquire a síndrome da perda da autoria. Parece que ninguém fez. Você olha e diz: ‘Esse produto só podia ter essa propaganda’. Quando isso acontece, todo mundo quer saber quem fez’, aposta.

Ironicamente, apesar de ser a cara da propaganda brasileira, Olivetto é também o seu avesso. Regras das quais não abre mão, como não atender a contas de governo ou fazer campanhas políticas, não negociar a remuneração e rir dos produtos, ficaram um tanto anacrônicas.

*Confira a íntegra desta reportagem na edição impressa’

 

 

 

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Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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