Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Carta Capital

28/10/2008 na edição 509

FUTEBOL
Sócrates

Maquiavel explica, 24/10

‘Além de mais um escandaloso 0 a 0, jogando em casa contra a Colômbia e sem apresentar quase nada de futebol, o que mais estranhei no último jogo da seleção no Maracanã foi a presença do auxiliar técnico Jorginho na coletiva de imprensa do treinador Dunga. Isso sem falar das respostas evasivas, sem conteúdo, do ‘comandante’, que em nada ajudam a desvendar o seio dessa microssociedade chamada seleção brasileira, representante de todos nós. Prestar contas dos resultados obtidos pela instituição, parece-me, não é visto como obrigação por quem a dirige, como se todos os apaixonados por futebol e pagantes dos eventos promovidos pela CBF devessem ser tratados como meros curiosos ou coisa pior e malcheirosa.

Voltemos a Jorginho, a quem respeito como cidadão, ainda que muito menos ao seu chefe, o qual, em situação claramente desvantajosa, dele exigiu os préstimos para orientá-lo em suas ocas respostas. Esse fato é mais que preocupante, é trágico. É um gigantesco sinal de insegurança que, quando está presente nos sentimentos de quem possui cargo de direção tão importante, nos leva a imaginar o que provocaria em seu poder decisório no caso de um contratempo de grandes proporções. Talvez o imobilizasse, impedindo também qualquer reação de seus atletas. Um líder jamais pode dar mostras de que está perdido e acuado, pois sua tropa dele se afastará. Já dizia Maquiavel, séculos atrás, no seu genial O Príncipe.’

 

 

MÚSICA
Felipe Marra Mendonça

Um réquiem para os CDs , 24/10

‘Os chamados tocadores de MP3, um termo definitivamente arcaico para uma tecnologia moderna, lançaram um novo segmento do mercado fonográfico e lentamente torturam o CD rumo a uma morte lenta e inexorável. Isso não é um problema, os consumidores agora se voltam para a música digital e as gravadoras não têm o que temer.

Essa é a teoria. Um dado revelado no ano passado por Steve Jobs, da Apple, é importante para entender a necessidade de um ajuste nesse segmento. Somente 3% de todas as músicas contidas em um iPod, em média, foram compradas legalmente e baixadas da internet. O resto pode até ter uma origem legal, ou seja, foi retirado de um CD comprado em loja pelo consumidor, mas a grande maioria foi baixada pelo usuário em sites ou com programas de compartilhamento de arquivos. Essencialmente, pirataria digital.

Fora os questionamentos legais e morais da prática, talvez parte do problema esteja no preço praticado pelas lojas digitais. As tradicionais e tão copiadas faixas de 99 centavos de dólar, cobrados desde o lançamento do iTunes Store há mais de cinco anos, geraram um lucro imenso para a Apple. São mais de 5 bilhões de faixas vendidas até junho, sem contar as receitas provenientes da venda de seriados de tevê e filmes.

É um grande sucesso, mas repita-se que somente 3% das músicas contidas em qualquer iPod têm origem legal. Poderia ser um número muito maior.

É aí que entra a LaLa (www.lala.com), companhia com uma estrutura interessante de preços para as músicas em seu sistema. Com a anuência das quatro grandes gravadoras, a LaLa permite que cada usuário registrado ouça uma música inteira de graça, só uma vez, no serviço on-line – isso vale para um limite de 60 músicas, ou seja, é possível criar um bom playlist grátis. Se ouvir até 30 segundos, pode ouvir quantas vezes quiser. Se pagar 10 centavos de dólar, pode ouvir a música quantas vezes quiser, de onde quiser, desde que tenha um computador com acesso à internet e velocidade de conexão de banda larga.

Ou seja, não são mais 99 centavos, são 10 centavos por música. A canção pode não ter sido baixada para um iPod ou semelhante, mas desde que o consumidor tenha acesso à internet, isso não é problema, é de sua propriedade. Caso queira baixar, são outros 79 centavos, um total de 89, ainda abaixo do quase 1 dólar original.

E as músicas que o usuário já tiver? Sem problemas, podem ser todas jogadas para dentro da conta pessoal no LaLa e ouvidas de qualquer lugar. ‘Nosso iPhone, nosso iPod, nosso superaparelho mágico é o navegador de internet’, disse o fundador da companhia, Bill Nguyen, à Wired. ‘Apostamos que o futuro de tudo está no navegador. Esqueça os aparelhos, esqueça todo o resto.’

Nguyen talvez seja otimista demais, talvez não, mas entra num nicho interessante entre sites puramente musicais, como o Pandora (www.pandora.com, inacessível fora dos Estados Unidos), outros que oferecem uma espécie de fusão de rede social com músicas como o Last.fm (www.last.fm) e o Blip.fm (www.blip.fm, dos favoritos da coluna), e serviços de compra de músicas como o iTunes Store e sua legião de cópias bem ou malfeitas. Agora resta ver se vai sobreviver. É uma guerra intrigante.’

 

 

CINEMA
Ana Paula Sousa

Câmeras politizadas, 24/10

‘‘Entramos, de novo, numa era política. Durante muito tempo, se achou que a resposta para tudo estava no mercado. Agora se sabe que não. Se a política voltou à sociedade, é natural que surja com mais força no cinema.’ O diagnóstico de Marco Bechis, diretor de Terra Vermelha, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, encontra eco nas 22 salas que acolhem os filmes do festival. ‘Sinto-me menos só do que há vinte anos, quando comecei.’

Bechis, nascido no Chile, crescido entre São Paulo e Buenos Aires e radicado na Itália, autor de um cinema engajado (Garaje Olimpo trata da ditadura argentina), associou-se à Gullane Filmes, do Brasil, para contar a história dos índios guarani-kaiowá, de Mato Grosso do Sul. Fez um filme marcante. Dos índios que representam a si à complexidade da disputa com os fazendeiros, Terra Vermelha se quer político. Mas se quer, sobretudo, cinema. ‘Sempre penso primeiro em como dizer, e não no que dizer.’

Parece ser essa a trilha percorrida pelo cinema político nestes anos 2000. Cada vez mais, os filmes que se propõem a trazer à tona uma tese fazem isso por meio de narrativas elaboradas. Da Itália, co-produtora de Terra Vermelha, vêm outros dois exemplos dessa linhagem. Gomorra, sobre a máfia napolitana, constrói-se nos moldes do ‘entretenimento inteligente’, com lances de espionagem e ação. Il Divo, de Paolo Sorrentino, a despeito de ser calcado em informações históricas, transforma o ex-ministro Giulio Andreotti num personagem daqueles que só a ficção parece capaz de forjar.

Nos EUA, bancado pelo bilionário Jeff Skoll, produtor de Syriana e Boa Noite e Boa Sorte, o documentarista Errol Morris fez, a sua maneira enfática, um manifesto político. Procedimento Operacional Padrão ouve os soldados que torturaram os iraquianos em Abu Ghraib. Dá voz a discursos chocantes pela passividade. A guerra está incorporada também ao musical CSNY/Déjà Vu, nascido das apresentações da banda de Neil Young, que gritou contra a ‘cortina de fumaça’ criada para disfarçar combates no Iraque e Afeganistão.

Leon Cakoff, o diretor da mostra, diz que, em princípio, todo filme é político. ‘Falar em política, em qualquer parte, lembra palanque e maus políticos. Mas o cinema é o mais sutil dos palanques’, define. Após refletir sobre títulos presentes a esta edição, Cakoff observa: ‘Os cineastas têm passado seu recado com técnicas de roteiro, personagens e conflitos. Esses filmes não são nem didáticos nem ideológicos, são a busca de uma verdade’. De uma verdade com nuances que a mídia, em geral, não parece disposta a ver.’

 

 

BIENAL
Rosane Pavam

Arte escorregadia, 24/10

‘O visitante depara com as performances do pavilhão, passa pela catraca na altura da rampa, percorre o primeiro andar onde há vídeos, biblioteca e serviços e alcança o segundo andar vazio. Caminha por ele e chega ao terceiro andar. Lá, relaciona-se com instalações, pinturas e esculturas e ganha o prêmio final neste ciclo de divertimentos. Por um tubo imenso e externo ao prédio, escorrega até o térreo de novo, onde artistas dançam, cantam, interpretam e celebram a 28ª Bienal Internacional de São Paulo.

A organização do evento, que começa no domingo 26 com 42 artistas de 21 países e segue até 6 de dezembro, espera a atitude festiva de seu público. Gratuita, a Bienal transparece vocação popular, de combate a uma tendência numérica observada nas suas últimas edições. Em 2006, foram 535 mil visitantes, ante os 917 mil de 2004 e os 670 mil de 2002, quando o evento ainda cobrava ingresso.

Ana Paula Cohen, curadora-adjunta desta edição, formada em Artes Plásticas pela Universidade de São Paulo, profere as palavras com cautela e um sem-número de interdições. O rigor dessa acadêmica de 32 anos parece excessivo, dada a natureza do evento, intitulado em vivo contato e com o propósito simples de aproximar o público. O térreo da Bienal virará uma praça onde o povo se encontrará e exercerá ‘fricções’. O restante do prédio ficará destinado a ‘interações’.

Em 1975, o escritor Tom Wolfe escreveu A Palavra Pintada para mostrar como o conceito dominou a arte depois do impressionismo. Segundo Wolfe, o crítico tomou o lugar do artista, ou se tornou ele próprio. Neste formato, a palavra precede, forma e suplanta a obra, o que transformaria o curador, vezes várias, em uma espécie de falador. Antigamente, a curadoria apenas cuidava para que um acervo de museu não se deteriorasse. Agora, determina, com raciocínio que pode parecer brincante, mas é articulado, por onde a arte caminhará.

Ana Paula surge certeira em suas palavras. Não quer, por exemplo, que chamem de contemplativo o prestigioso terceiro andar que prepara, no qual as obras de 26 artistas de todo o mundo, 13 deles brasileiros, refletem sobre a história da Bienal de São Paulo sustentados pelo mobiliário do colombiano Gabriel Sierra. ‘Tudo o que desejamos é um público menos contemplativo para este evento’, disse em entrevista por telefone, na segunda-feira 20.

A contemplação está na base da arte, mas, se Ana a rejeita, é porque a associa à passividade. Como ficar indiferente, diz, a um coletivo de estilistas, artistas plásticos, designers e ilustradores como o avaf, assume vivid astro focus? De nacionalidades múltiplas, os performáticos (Ana prefere dizer performer artists) espalham adesivos coloridos, grafites e pichações pelo ambiente expositivo, se deste modo se pode chamá-lo. É natural que esperem do público alguma agitação em troca.

Qual seria a razão, contudo, para que os curadores nos desejassem sempre agitados?

Depois de tamanha troca de energias entre o artista e o público no térreo, talvez fosse natural aguardar a quietude dos observadores no terceiro andar. Lá eles estarão diante de obras que relêem itens do arquivo histórico Wanda Svevo. Não parece estranho, por exemplo, contemplar uma peça do brasileiro Iran do Espírito Santo. O artista faz com que olhemos não o interior de um quarto, mas nossa própria imagem em uma fechadura. ‘Contemplar significa ver com atenção e, sobretudo, especular. Nada há de passivo nisso. Pelo contrário: é ação que requer enorme empenho’, acredita o professor Teixeira Coelho, curador-coordenador do Masp. Para ele, trata-se do exato oposto da ‘impaciência visual’ anotada pelo crítico Harold Bloom em feiras de arte, bienais e em toda a cultura visual de nossos dias. Teixeira observa uma curiosidade: ‘Para a cultura da impaciência de hoje, é preciso remover o obstáculo, skandalon em grego, e o escândalo parece ser, para muitos, a contemplação’.

*Confira a íntegra desta reportagem na edição impressa’

 

 

 

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Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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