Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ENTRE ASPAS >

Carta Capital

10/02/2009 na edição 524

BLOG DO ALÉM
Redação CartaCapital

Impressões do mundo digital

‘A coluna Blogs do Além, criada pelo publicitário Vitor Knijnik e que estreou na edição 500 de CartaCapital, procura imaginar como seriam as páginas pessoais de personalidades do passado.

‘Relutei muito em fazer este blog. Mas não há outro jeito de encontrar leitores. Reconheço que, se o inventor da imprensa inaugura um blog, o ato em si representa uma adesão ao coro dos que pregam que todas as publicações que utilizam o suporte de papel irão acabar logo, logo. Foi minha mulher (a mãe da imprensa) quem me convenceu de que já era hora de entrar para o mundo digital.’

Assim começa o primeiro post de Gutenberg em sua estreia no Blogs do Além. No texto, o inventor da imprensa, além de contar como sua esposa o incentivou a participar do mundo digital. E explica: ‘Os meios digitais venceram. Hoje mesmo voltei de um funeral de um jornal bem tradicional. Triste. Chovia muito, e as poucas páginas que restavam ficaram molhadas’.’

 

 

DESPEDIDA
Mino Carta

O silêncio é de ouro

‘Quando escolhi o Brasil como lugar definitivo da minha vida, optei também pelo jornalismo. Existe uma indissolúvel conexão entre as duas atitudes. E explico. Até o golpe de 1964, fui jornalista com séria dedicação profissional. De alguma forma mercenário, no entanto. Cheguei a dirigir uma revista de carros sem saber dirigir os próprios.

Diga-se que, depois da renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, quando a pressão militar só permitiu a posse de João Goulart, sucessor constitucional, ao forçar a adoção do Parlamentarismo, eu ficara de sobreaviso. Mas o golpe desabou também sobre a minha alma e motivou minhas escolhas definitivas.

Percebi como dever a prática do jornalismo em um país submetido à ditadura imposta pela classe dominante, com a inestimável ajuda dos seus gendarmes, e que se uma única, escassa linha da minha escrita sobrasse para o futuro teria conseguido conferir um mínimo de importância à minha profissão. Faço questão de sublinhar que não agia desta maneira pelo Brasil, e sim por mim mesmo.

Quarenta e cinco anos depois, vivo uma quadra de extremo desalento, em contraposição às grandes esperanças alimentadas durante a ditadura. Guardava a convicção de que, ao raiar finalmente o sol da liberdade, o Brasil atingiria a maioridade como Estado Democrático de Direito. Esperanças logo frustradas pela rejeição da emenda das eleições diretas após uma campanha a favor que honra o povo brasileiro. Fez-se, pelo contrário, a conciliação das elites, nos exatos moldes previamente desenhados pelo general Golbery do Couto e Silva. A aposta do Merlin do Planalto estava certa e vale até hoje. E o povo? Que se moa.

Fez-se a conciliação para eleger Fernando Collor e para derrubá-lo. E novamente para eleger Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998. A Carta aos Brasileiros assinada por Lula foi uma tentativa de aparar arestas antes do pleito de 2002, aparentemente mal-sucedida, por ter convencido um número bastante diminuto de privilegiados. A conciliação veio depois da posse, a despeito do ódio de classe que até o momento cega a mídia.

A mim, que estou de olhos escancarados, a Carta do candidato convenceu por considerá-la sincera. Naquela época, não me cansei de definir Lula como um conciliador desde os tempos da liderança sindical. No governo, contudo, ele foi muito além das minhas expectativas. Ou, por outra: deu para me decepcionar progressivamente.

O balanço de seis anos de Lula no poder não é animador, na minha visão. A política econômica privilegiou os mais ricos e deu aos mais pobres uma esmola. Há quem diga: já é alguma coisa. Respondo: é pouco, é uma migalha a cair da mesa de um banquete farto além da conta. O desequilíbrio é monstruoso. Na política ambiental abriu a porta aos transgênicos, cuidou mal da Amazônia, dispensou Marina Silva, admirável figura, para entregar o posto a um senhorzinho tão esvoaçante quanto seus coletes.

A política social pela enésima vez sequer esboçou um plano de reforma agrária e enfraqueceu os sindicatos. E quanto ao poder político? O Congresso acaba de eleger para a presidência do Senado José Sarney, senhor feudal do estado mais atrasado da Federação, estrategista da derrubada da emenda das Diretas Já e mesmo assim, graças ao humor negro dos fados, presidente da República por cinco anos.

Outro que foi para o trono, no caso da Câmara, é Michel Temer, um ex-progressista capaz de optar vigorosamente pelo fisiologismo. Reconstitui-se o ‘centrão’ velho de guerra, uma das obras-primas da conciliação tradicional. Enquanto isso, o Brasil ainda divide com Serra Leoa e Nigéria a primazia mundial da má distribuição de renda, continua a exportar commodities, 55 mil brasileiros morrem assassinados todo ano, 95% ganham de 800 reais por mês para baixo. E 2009 promete ser bem pior do que pretendiam os economistas do governo.

Houve, e há, justificadíssima grita quanto às privatizações processadas no governo FHC. E que dizer do BNDES que hoje subvenciona bilionários para armar a BrOi, a qual (modesta previsão) acabará nas mãos de ouro de Carlos Slim? E que dizer da compra pelo governo de 49% das ações do Banco Votorantim à beira da falência? Em um ponto houve melhoras sensíveis, na política exterior. E aí vem o caso Battisti. Até este serve ao propósito da conciliação, a despeito das críticas desta vez bem fundamentadas da mídia.

O ministro Tarso Genro disse em Belém que a favor da extradição de Battisti se alinham os defensores da anistia aos torturadores da ditadura, ‘com exceção de Mino Carta’. Agradeço a referência, observo, porém, que o ministro cai em clamorosa contradição. Não foi ele quem, em rompante que beira a sátira voltairiana, sugeriu à Itália baixar uma lei da anistia igual àquela assinada no Brasil pelo ditador de plantão, no caso João Figueiredo?

Talvez o ministro não saiba que, enquanto no Brasil vigorou o Terror de Estado, na Itália houve uma gravíssima e fracassada tentativa terrorista de desestabilizar o Estado Democrático de Direito instalado desde o fim do fascismo por caminhos impecáveis, a começar pela eleição de uma Assembleia Constituinte exclusiva. Lei de anistia por que se, de acordo com o direito italiano, e o de todos os países civilizados, crime de sangue é um somente, sem distinção entre comum e político?

Se eu digo, entretanto, que o Festival de Besteira assola o País desde a época de Stanislaw Ponte Preta, e que se o ministro merece o Oscar do Febeapá, ao menos o professor Dalmo Dallari faz jus a uma citação, recebo as mensagens ferozes e as agressivas admoestações de centenas de patriotas. Pois quem disse que na Itália dos anos 70 estava no poder um governo de extrema-direita, ou que se Battisti for extraditado, de volta ao seu país corre até risco de vida? Ou afirmou que Mestre e Milão, norte da Península, são muito distantes, quando entre as duas cidades há menos de 200 quilômetros? Sem contar que, como me levam a observar vários frequentadores do meu blog, Battisti foi o autor do homicídio de Mestre e apenas o idealizador daquele de Milão.

Está claro que o ministro Tarso não erra ao dizer que a mídia nativa está sempre a agredir o governo de Lula, e contra esta forma desvairada de preconceito CartaCapital tem se manifestado com frequência. Ocorre que, ao referir-se à extradição negada, a mídia está certa, antes de mais nada em função dos motivos alegados, a exibir ao mundo ignorância, falta de sensibilidade diplomática e irresponsabilidade política, na afronta a um Estado democrático e amigo.

De todo modo, Battisti transcende sua personalidade de ‘assassino em estado puro’, segundo um grande magistrado como o italiano Armando Spataro, para se prestar a uma operação que visa compactar o PT e empolgar um certo gênero de canarinhos patriotas. Isto tudo me leva a uma conclusão desoladora, embora saiba de muitíssimos leitores generosos e fiéis: minha crença no jornalismo faliu. Em matéria de furo n’água, produzi a Fossa de Mindanao. Iludi-me em demasia, mea-culpa.

Donde tomo as seguintes decisões: despeço-me do Blog do Mino e, por ora, calo-me em CartaCapital. Quanto ao cancelamento do blog, confesso certo alívio, com a pronta aprovação da minha fiel Olivetti e dos meus reflexivos botões. Acumulei dúvidas quanto a este espaço, livre também para insuportáveis manifestações de incultura e grosseria. Creio em contrapartida que a revista ainda precise de minha longa experiência profissional, que completa 60 anos no fim de 2009.

Confiei muito em Lula, por quem alimento amizade e afeto. Entendo que o Brasil perde com ele uma oportunidade única e insisto em um ponto já levantado neste espaço: o próximo presidente da República não será um ex-metalúrgico com quem o povo se identifica automaticamente. É possível que conte com a simpatia da mídia, não terá o apoio incondicional da nação, privilégio de Lula. Conforme demonstra aliás o índice de aprovação do presidente, cada vez mais dilatado.

Vai sobrar-me tempo para escrever um livro sobre o Brasil. Talvez não ache editor, pouco importa, vou escrevê-lo de qualquer forma, quem sabe venha a ser premiado pela publicação póstuma.’

 

 

TECNOLOGIA
Felipe Marra Mendonça

Karaokê moderno

‘O Songsmith, da Microsoft (http://research.microsoft.com/en-us/um/redmond/projects/songsmith/), é um programa que cria músicas, desenvolvido pelo laboratório de pesquisas da empresa. Tornou-se, involuntariamente, responsável por versões deliciosamente cretinas de clássicos do pop.

Criar músicas não é difícil: basta plugar um microfone no computador e cantar. Os algoritmos do programa montam um acompanhamento adequado ao ritmo da canção e ao tom de voz. Em alguns minutos, é possível criar um novo hit das paradas de sucesso ou ao menos um novo sucesso no YouTube.

Não se trata de um programa muito sofisticado. Imagine que um programador tenha capturado a essência de todos os botões dos órgãos eletrônicos da Casio e os juntasse em uma composição musical. É possível, por exemplo, criar uma música a partir deste parágrafo. Nem sequer é preciso cantar. Apenas uma leitura pode criar um reggae.

A qualidade do acompanhamento é questionável, mas isso não tira o mérito técnico do Songsmith. Imagine cantar a capela e, em segundos, ouvir a nova música, com a progressão de cordas e o ritmo que acompanha perfeitamente o vocal.

As cordas são selecionadas a partir da voz. O programa analisa a frequência e escolhe as cordas. Surge, então, a melhor sequência para criar uma melodia. Tudo é adaptado ao ritmo selecionado, como reggae, salsa ou metal pesado. Em entrevista ao Ars Technica (arstechnica.com), Dan Morris, um dos pesquisadores da empresa, disse que os criadores do Songsmith ‘capturaram a essência da música num algoritmo de computador’.

A parte divertida é refazer músicas. Uma busca no YouTube com o nome do programa traz resultados excelentes dessa ideia. O sucesso Never Gonna Give You Up, de Rick Astley, foi refeito com uma base de metal pesado e a versão remixada pelo Songsmith ficou muito melhor do que a original. Wonderwall, do Oasis, vira um pancadão digno de danceterias que faria Noel Gallagher chorar. A experiência pode ser comparada ao ato de acompanhar um violentíssimo acidente rodoviário em câmera lenta: não se consegue parar de assistir, mesmo que seja horripilante. O Songsmith certamente vai satisfazer quem sempre acreditou que as músicas do Nirvana ficariam muito melhores como um belo solo de banjo.

Ainda não se sabe o que os engenheiros da Microsoft acham do sucesso do Songsmith, ao remixar músicas consagradas. É enorme o sucesso indireto que o programa tem tido em sites como o YouTube. Pode não ser exatamente o tipo de publicidade que a empresa tinha em mente, mas é muito bom subverter um software ‘sério’ como passatempo.’

 

 

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