Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ENTRE ASPAS >

Carta Capital

14/04/2009 na edição 533

SATIAGRAHA
Mino Carta

Márcio Chaer vs. Agatha Christie

‘Nem sempre a leitura dos jornais nos ilumina em relação aos eventos (no Brasil, muito raramente). Serve, porém, para esclarecer e sublinhar a posição, a orientação, a linha política de quem escreve.

Por exemplo. Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da República mais popular da história do Brasil, segundo a mídia brasileira é o mais ignorante e desastrado. Constata-se que a informação se curva diante da opinião. Fica claro, isto sim, que o jornalismo verde-amarelo sofre os efeitos de um implacável ódio de classe.

O site Consultor Jurídico acaba de divulgar uma lista de jornalistas ‘perseguidos por Protógenes’, o delegado federal da Operação Satiagraha. Encabeçam a lista quatro profissionais de CartaCapital: na ordem, Luiz Antonio Cintra, Mino Carta, Sergio Lirio e o colaborador Paolo Manzo. A notícia aterradora foi repercutida com expressiva solicitude pelo portal Comunique-se e pelo Blog do Noblat.

Que dizer a respeito? Clamar contra mais um atentado contra a liberdade de imprensa? Cuidar de imediato resguardo para as famílias dos perseguidos? Acobertar-se atrás de disfarces e camuflagens? Fugir para Montecarlo ou embrenhar-se na selva amazônica?

Outra alternativa, menos aventurosa, é buscar a proteção de Daniel Dantas. Ou, ao sermos perseguidos pelo delegado Protógenes, não contaríamos automaticamente com ela? Soa a conclusão como axioma irrecorrível. Imagino o espanto dos leitores de CartaCapital, surpreendidos por um golpe de cena que nem os mais ardilosos e competentes romancistas policiais ou diretores de thrillers cinematográficos ousariam excogitar.

Claro que só mesmo os pensadores do Consultor Jurídico poderiam imaginar a trama, pela qual o banqueiro do Opportunity, o nosso orelhudo, serve-se desta publicação para criticá-lo e acusá-lo sem lhe dar quartel. Nós preferimos manter os pés no chão, a fantasia em repouso e a hilaridade às bandeiras despregadas.

O Consultor Jurídico baseia-se em documentos de autoria atribuída ao delegado Protógenes, como sempre vazados diretamente do Departamento de Polícia Federal, subordinado ao Ministério da Justiça, e apresentados como prova de perversas manobras.

Não é o caso de exigir fidelidade às regras do jornalismo de quem o confunde com assessoria comercial, como se dá com o dono do Consultor Jurídico, Márcio Chaer. Analisemos, de todo modo, as provas da perseguição ao acima assinado. O delegado Protógenes focaliza um editorial publicado a 2 de abril de 2008, em que analiso a demissão de Paulo Henrique Amorim do portal iG. Leio: ‘Mino Carta afirma que há interesses poderosos por trás da demissão, e cita os proprietários do iG (BrasilTelecom, fundos de pensão e Daniel Dantas)’.

Como seria da compreensão até do mundo mineral, o delegado foi tão somente leitor atento. E obviamente não me perseguiu ao se referir a fatos de quase três anos atrás, a um telefonema grampeado de Naji Nahas a Antonio Delfim Netto, colaborador de CartaCapital. Irritou-se o investidor com considerações minhas sobre seu papel de negociador de um acordo entre Telecom Italia e Daniel Dantas, e ameaça uma ação judicial. Delfim convence-o a desistir deste caminho e promete falar comigo.

Não falou. Limitou-se a me repassar via fax uma carta de Nahas, de comedido protesto. À qual respondi, em editorial da edição de 28/6/2006, para acentuar que CartaCapital só contara a verdade factual. E lá pelas tantas: ‘CartaCapital afirmou que o senhor Nahas, por sua assessoria, recebeu 20 milhões de euros. Mentira, retruca ele. Quem sabe a importância não seja esta exatamente, mas a questão, no fundo, é de lã caprina. Senhor Nahas, seja como for, a grana foi conspícua’. E foi acima do que dizíamos: 25 milhões de euros.

A leitura dos documentos vazados para o Consultor Jurídico indica que, em lugar de perseguir jornalistas, o delegado Protógenes cuidou, como lhe competia, de acompanhar comentários e informações divulgadas pela mídia a respeito do alvo da Satiagraha, o banqueiro orelhudo do Opportunity.

As atividades do site em questão é que favorecem a correta interpretação dos seus propósitos. Estamos diante de mais um baluarte de outra maciça, conquanto patética operação, voltada não somente para criminalizar caçadores de criminosos, mas também a confundir ideias, desviar atenções, manipular o pensamento da minoria arrogante dos frequentadores e dos aspirantes a fregueses da Daslu.’

 

INTERNET
Felipe Marra Mendonça

Mais uma vítima da pirataria

‘Uma das grandes bandeiras da indústria de entretenimento é a luta contra a pirataria. Entre os argumentos mais sacados pelos executivos da área, para que os usuários pensem antes de baixar um filme ou um disco pela internet, é o que alega que o ato pode custar o emprego de um trabalhador do setor. Nesta semana, houve a comprovação da tese. Roger Friedman, colunista de entretenimento da rede americana de notícias Fox, publicou no site do canal (www.foxnews.com) uma resenha de X-Men Origins: Wolverine e foi prontamente demitido de seu cargo. O pecado de Friedman: assistir a uma cópia pirata e inacabada do filme, disponível na internet, mais de um mês antes do lançamento oficial. Importante sublinhar que o filme foi produzido pela 20th Century Fox, parte do conglomerado News Corporation, dono também da Fox News.

O vazamento do filme causou transtornos para o estúdio e resultou em uma investigação do FBI. As primeiras notícias do surgimento de cópias piratas de Wolverine surgiram em 1º de abril e poucos acreditaram que fossem verídicas. Em 24 horas, no entanto, cerca de 500 mil espectadores haviam obtido uma cópia da obra. O estúdio tentou exigir que todos os sites que hospedavam cópias as retirassem dos servidores, mas foi impossível conter a propagação digital.

Algo semelhante tinha acontecido antes do lançamento de Hulk, em 2003. Cópias piratas surgiram na internet cerca de duas semanas antes do lançamento oficial e as resenhas escritas por usuários foram desfavoráveis ao filme, o que pode ter afetado o interesse nos cinemas. A procura por ingressos ficou muito aquém da esperada. Até agora, as resenhas preliminares de Wolverine sustentam que o enredo é muito simples e que a história é pouco mais inteligente do que a de um gibi, mas que talvez essa seja a intenção original. A cópia pirata não tinha todas as sequências completas de efeitos especiais e outros trechos não haviam ainda sido editados.

O colunista Friedman não se importou muito com a qualidade do filme e parece ter ficado mais impressionado com a facilidade da pirataria na internet. ‘Foram realmente poucos segundos até que o filme começou a passar na tela do meu computador’, afirmou.

Na sexta-feira 3, o estúdio colocou em seu site uma resposta à resenha de Friedman, classificando-a de ‘repreensível’. A News Corporation também declarou ter pedido para a Fox News retirar o texto do site, algo que aconteceu. Durante o fim de semana, o site Deadline Hollywood Daily (www.deadlinehollywooddaily.com) noticiou a demissão do colunista. Friedman descobriu a exata medida da ‘tolerância zero’ pregada por Rupert Murdoch em relação à pirataria virtual.’

 

MÚSICA
Pedro Alexandre Sanches

O executivo bossa-nova

‘Há 40 anos, um carioca nascido em 1935 no Leblon, ‘quando o bairro era um areal’, foi convocado para fundar uma casa de música chamada Som Livre. Era propriedade da Rede Globo a casa ‘livre’ dirigida por João Araújo, hoje aposentado, mas ainda participante do meio fonográfico, como presidente de honra da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD).. Sua figura ganharia relevo não só como presidente da gravadora da Globo, mas também como pai do desassossegado roqueiro Cazuza (1958-1990), uma das primeiras vítimas publicamente assumidas da Aids no Brasil.

Num panorama crescentemente asfixiado, a Som Livre galoparia nas décadas seguintes até se tornar a única gravadora brasileira com poder suficiente para levantar a voz dentro de um aglomerado de multinacionais. A ferramenta primordial seria a consolidação de uma indústria de trilhas sonoras para as novelas de tevê. O tráfego de canções, das gravadoras à Som Livre, viraria o combustível do processo, e forjaria uma resistente relação de dependência mútua entre os dois lados da moeda.

Em geral avesso a entrevistas, Araújo não responde ‘sim’ nem ‘não’ a uma das perguntas fatídicas que perseguem a indústria musical, sobre se naquela transação se praticava o jabá, o suborno de gravadoras a emissoras de tevê e rádio para transformar suas músicas em ‘sucessos’. Mas responde com uma história que ajuda a desnudar bom pedaço daqueles jogos de codependência.

‘Eu precisava ter repertório internacional para botar em andamento minha jogada, e a Som Livre não tinha nenhum. E os presidentes das multinacionais precisam muito de uma coisa que é ranking, ver seu desempenho em comparação com os outros. Então eu distribuía o ranking da Som Livre entre as gravadoras’, explica, aninhado em seu recém-inaugurado escritório de consultoria, no mesmo Leblon natal onde o pai, pernambucano, veio se instalar, como chefe de gabinete do então ministro da Fazenda (ele não sabe precisar se na era Vargas ou antes). O espaço é todo decorado em branco, preto e vermelho, em homenagem à mítica gravadora independente Elenco, propulsora da Bossa Nova nos anos 1960.

‘O que era para ser da Som Livre eu passava para as gravadoras.. Não tinha ninguém a quem provar e eles tinham de provar para os patrões deles lá fora’, continua. ‘Isso valia muito para a carreira de um presidente de gravadora e para a remuneração dele.’ Uma das assessoras de imprensa presentes começa a tossir e Araújo muda simpaticamente de assunto.’

 

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