Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 28 E 29/11

Carta Capital

01/12/2009 na edição 566

DRAMATURGIA
Orlando Margarido

Tempos de Gloria

‘O professor de teatro vetou. Daniel Filho descartou. Se dependesse do nariz torcido desses e outros luminares, Marisa, Maria de Fátima, Ana Terra, Maria Moura e as atuais Baby e dona Lindu poderiam ainda existir, mas quem sabe se permaneceriam. Contudo, lá estão na memória da tela pequena e agora ampliadas no cinema, essas mulheres rebeldes, valentes, vilãs e generosas valorizadas por um só rosto que não se impõe pela beleza espetacular, mas é iluminado e de uma capacidade de transformação admirável. Foi pouco batizá-lo com o simbólico nome de Gloria e, por isso, ainda mereceu os complementos Maria e Cláudia, homenagem a outras bravas mulheres de outrora da família.

Para o público, apenas Gloria Pires, econômica assinatura artística que vale muito desde o fim dos anos 70, quando a estreante de 6 anos de idade passa à adolescência sob o olhar do espectador, surpreso com o talento precoce. Sua carreira a partir daí torna-se uma prova de amor e resistência no meio comumente marcado pela perenidade. Universo esse rejeitado por certa parcela intelectual, mas adorado pela audiência, que soube seguir a atriz da televisão para as salas de cinema, quando assim lhe foi conveniente. Para Gloria, pouco afeita a análises complexas, sua trajetória se justifica pelos tempos certos.

O mais antigo desses tempos é o da telenovela, que ela conhece e doma muito bem há pelo menos três décadas. O mais novo, no entanto, ainda é envolto em mistérios e peculiaridades com os quais tenta se acostumar. Trata-se do tempo cinematográfico, diz ela repetidas vezes na entrevista realizada durante o 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, encerrado na terça-feira 24. Gloria participou da mostra duplamente como a mãe Lindu de Lula – O filho do Brasil, filme-evento de Fábio Barreto, que ela socorreu com empenho modelar, e como a insegura e ansiosa Baby de É Proibido Fumar, personagem pela qual ganhou o prêmio de melhor atriz, primeiro reconhecimento no cinema. Nesta comédia dramática pontuada de humor negro, projeto de caráter independente da paulistana Anna Muylaert, considerado o melhor filme da edição, surge quase uma não Gloria, sem o glamour da figura televisiva e os inevitáveis, mesmo para ela, tiques teimosos da teledramaturgia.

Exagero dizer que estaria nascendo dessas experiências uma nova persona, já que par a par sua trajetória também se acomodou cedo ao cinema, quando o próprio Barreto lhe proporcionou a estreia em Índia, a Filha do Sol, em 1981, parceria reiterada treze anos depois com O Quatrilho. Convites sempre houve, garante ela, que vê na fragilidade dos roteiros de um período da produção brasileira o motivo da falta de entusiasmo. Procurava uma história válida por si, independentemente de ser filmada.

Sem nunca esquecer sua origem profissional, ela manteve-se atenta às exceções, caso de Memórias do Cárcere (1983), de Nelson Pereira dos Santos. Mas Gloria concorda que a presença na tela grande se intensificou desde 2006 com os dois títulos Se Eu Fosse Você, recordistas de bilheteria, até porque desdobramentos da alma televisiva. O detalhe desafiador, lembra ela, foi a simultaneidade dessas produções. ‘Jamais teria planejado isso tudo junto, pois o cinema tem outra conjuntura, o tal tempo cinematográfico, que ainda é difícil entender’, alega. ‘Está longe do cotidiano sabido das novelas, de estrutura programada, que se domina.’

Gloria, que literalmente engatinhou nos estúdios de rádio e tevê, não exibe um vinco de contrariedade ou tédio ao comentar sobre essa ladainha por vezes maçante da teledramaturgia. Ao contrário, seus grandes olhos negros se abrem ainda mais e as marcantes sobrancelhas se arqueiam para tratar com orgulho da linguagem da qual soube tirar proveito a seu favor. Um aprendizado que veio inicialmente de casa, onde a menina se acostumou à atmosfera liberal proporcionada pelo pai, o ator e humorista Antônio Carlos Pires, e pela mãe Elza, uma mistura equilibrada de dona de casa, companheira profissional e produtora do marido, ambos já falecidos. ‘Ela foi a minha Lindu, dedicada e preocupada comigo e minha irmã, e muito correta.’

Certa vez, conta, ficou doente e a mãe a obrigou a ir até a escola para que ficasse claro não se tratar de um fingimento. Era necessário, pois Gloria dava seus primeiros passos na carreira. É nesse contexto que ela ouve as duas primeiras negativas que abalariam a ingenuidade da infância. A primeira veio de Daniel Filho, colega de seu pai, quando este sugeriu Gloria para um teste na novela O Primeiro Amor. Filho a reprovou, mas a vocação ficou clara com a decisiva estreia na novela Selva de Pedra, em 1972, com 9 anos de idade.

Ao sucesso crescente, impõe-se o dilema de conciliar profissão e estudo. Submetida a um conselho de professores para que seguisse aulas particulares e apenas prestasse os exames obrigatórios, Gloria recebe passe livre de todos os docentes, exceto do professor de teatro. ‘Irônico’, diverte-se. Não se tem notícia das possíveis reflexões posteriores desse mestre de olhar enferrujado. Quanto a Daniel Filho, parece penitenciar-se da gafe com frequentes escalações da atriz para novelas e filmes por ele dirigidos, como A Partilha (2001), O Primo Basílio (2007), além do serial Se Eu Fosse Você.

Assim como o diretor e produtor, outros como o autor Gilberto Braga também motivaram Gloria na decisão de se bancar atriz. Não sem crises sérias. Pela idade ainda imatura que se lançou no ofício, ela chegou a se afastar das câmeras por um ano. ‘Foi sofrido, ficava com a boca seca e medo só de pensar em atuar.’ Mas persistiu. Em 1978 interpretou Marisa, a adolescente problemática de Dancin’Days, primeira de uma bem-sucedida parceria com Braga. No ano seguinte, nem sequer finaliza os capítulos de Cabocla, devido a um estresse. Em seu lugar, entra uma amiga de grande semelhança física. ‘Cheguei a ficar traumatizada com o cheiro do estúdio, das máquinas, dos cenários, da tinta.’

Assume, no entanto, toda a responsabilidade pela escolha de prosseguir na carreira. ‘Sempre fomos muito bem orientadas em casa’, reitera. ‘Se apressei um pouco as coisas no início, depois passei a respeitar o tempo e tudo deu certo.’ Ganhou, claro, a teledramaturgia em momentos hoje referenciais como a vilã Maria de Fátima de Vale Tudo, e o formato de minissérie, então tímido, com O Tempo e o Vento (na saga inicial de Ana Terra), e O Memorial de Maria Moura.

Atualmente Gloria vive um antigo sonho que também veio no tempo certo. Passa temporada de um ano em Paris com o marido e músico Orlando Morais, que grava um CD, e os três filhos do casamento. É da união anterior com Fábio Jr. que surgiu a terceira geração artística da família. Para a filha Cléo Pires, com quem contracena em Lula, Gloria está agora no tempo de dar conselhos, como sua Lindu.’

 

INTERNET
Felipe Marra Mendonça

A vida real

‘Dados de mercado inconsistentes… problemas com a API da Cantor. Sistema de operações fora do ar.’ Essa mensagem, enviada automaticamente pelo sistema de transações financeiras da corretora Cantor Fitzgerald, às 8h46 da manhã, pode ter o sido primeiro relato dos ataques contra as Torres Gêmeas, em Nova York, em 11 de Setembro de 2001. A Cantor Fitzgerald tinha escritórios na torre 1 e a mensagem é uma entre as mais de 500 mil pagers que foram interceptadas durante aquele dia. Elas foram divulgadas pelo Wikileaks em um endereço especial (911.wikileaks.org) entre 25 e 26 de novembro na mesma hora em que foram originalmente transmitidas nos dias 11 e 12 de setembro de 2001. Mostram a evolução dos boatos, do pânico e da reação de policiais, agentes do governo, militares e pessoas comuns durante o dia. Essa é parte do objetivo do Wikileaks, que pretende estabelecer ‘um registro completamente objetivo de um momento que definiu o nosso tempo’ e que ‘espera que a entrada das mensagens no registro histórico vai levar a um entendimento com mais nuances de como essa tragédia e suas consequências poderiam ser evitadas’.

O Wikileaks não discute como conseguiu as mensagens, atitude louvável e compreensível de um site (www.wikileaks.org) que prima por divulgar documentos sigilosos e que incomodam os donos do poder. Uma possibilidade é que funcionários das empresas de pagers que originaram as mensagens – Arch Wireless, Metrocall, Skytel e Weblink – tenham arquivado e enviado os registros para o site. Outra, indicada pela CBS News no blog Taking Liberties (www.cbsnews.com/sections/taking_liberties), envolve uma simples interceptação das mensagens quando elas foram enviadas. Cada aparelho pager, hoje cada vez em maior desuso, ‘ouve’ as mensagens sendo enviadas pelas torres de transmissão e somente intercepta aquelas que possuem o código de sua operadora, ignorando outros códigos. Depois, presta atenção para o conteúdo das mensagens para saber se alguma é direcionada ao usuário final daquele pager. É o que o Taking Liberties chama de um ‘acordo de cavalheiros’ que pode ter sido facilmente quebrado.

É fascinante acompanhar o lado humano daquele dia que para a maioria dos brasileiros se desenrolou em televisores como uma trama improvável. Algumas mensagens são desconcertantes, como uma enviada às 6h56 da manhã do dia 11: ‘Fique esperto, chegou a hora’. Pode ter sido algo tão banal como um treinador que tenta animar um atleta para alguma competição, mas à luz daquele dia é um texto quase premonitório. Um pouco mais tarde, às 8h34, uma mãe escreve ao filho: ‘Tenha um bom dia. Seja forte. Tome cuidado. Eu te amo, todos nós te amamos. Mamãe’. Após os ataques, às 9 da manhã, alguém escreve que ‘Ellen tentou falar com Derek, Brock e Mark, mas não conseguiu, os andares deles são os de cima’. Por fim, às 11 da manhã, outro usuário responde que está bem e traduz a experiência coletiva daquele dia, seja ao vivo, seja pela televisão. ‘Eu vi tudo. Estava no telhado para ver o primeiro incêndio quando vi o segundo avião bater na segunda torre. Incrível, literalmente… estava dentro de casa quando elas caíram. Ainda estou no apartamento, sem lugar para ir… É o fim do mundo como o conhecemos.’’

 

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