Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 6 E 7/05

Comunique-se

09/05/2006 na edição 380

CASO PIMENTA NEVES
Comunique-se

Júri condena Pimenta Neves a 19 anos de prisão, 5/05/06

‘O jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves foi condenado a 19 anos, dois meses e 12 dias de prisão pelo assassinato da ex-namorada, a também jornalista Sandra Gomide, ocorrido em 2000. A sentença foi anunciada na tarde desta sexta-feira (05/05) pelo juiz Diego Ferreira Mendes, do fórum de Ibiúna (SP).

O Júri condenou Pimenta Neves por homicídio duplamente qualificado, com os agravantes de motivo torpe e impossibilidade de defesa da vítima. No entanto, os jurados também decidiram, por unanimidade, que ele deve recorrer em liberdade.

Na saída do Fórum de Ibiúna (SP), em protesto, a família da jornalista Sandra Gomide saiu com o nariz pintado de vermelho, como palhaços. ‘Ele não foi preso porque tem dinheiro. Se fosse um coitado, iria direto para a prisão’, disse João Gomide, pai de Sandra.

As duas principais testemunhas de acusação, Marlei e Deomar Setti, também se indignaram com a decisão dos jurados de permitir que Pimenta Neves recorresse em liberdade. ‘Se algum dia isso acontecer com a minha filha, não vou procurar a Justiça. Vou fazer a Justiça com as próprias mãos’, disse, sendo aplaudida na porta do Fórum.

(*) Com informações do Globo Online, da Folha Online e da Agência Estado’



MERCADO EDITORIAL
Milton Coelho da Graça

Nossa mídia não está tão bem assim, 3/05/06

‘O GLOBO, com justo orgulho, festejou nesta quarta (3/5) uma pesquisa da Reuters em associação com a BBC, dando conta de que a mídia, no Brasil, é mais confiável do que o governo, enquanto a TV Globo e o próprio jornal foram indicados como as fontes mais confiáveis.

Mas o conjunto da pesquisa, caros amigos, é de entristecer. Entre os dez países onde a pesquisa foi realizada, em matéria de confiança na mídia o Brasil foi o penúltimo, ganhando apenas por dois pontos percentuais (45% x 43%) da Alemanha, onde o grupo Springer pontifica como rei mundial da imprensa amarela. Curiosidades a serem levadas em conta: 1.a percentagem obtida pela Globo (52%) só é batida pela emissora árabe Al-Jazeera, sediada em Oman e considerada porta-voz do terrorismo pelo governo americano; 2. A liderança da credibilidade da mídia ficou, pela ordem, com Nigéria, Indonésia e Índia.

Para saber mais, embarque neste link. Vale a pena.

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Clóvis e Janaína ajudam a entender

Nossa imprensa deu ampla e excelente cobertura sobre a crise do gás boliviano. Mas certamente empresários e parlamentares (especialmente da Oposição) foram ouvidos demais e, na maioria, só produziram confusão. Clóvis Rossi na FOLHA e Janaína Figueiredo no GLOBO ajudaram muito os leitores a entender todo o problema questão. Só vi na coluna do Clóvis a preciosa informação de que a Bolívia nos vende gás a um preço seis ou sete vezes menor do custo na Califórnia. E Janaína parece ter sido a única a ouvir Juan Ramón Quintana, Ministro da Presidência e cérebro número um do governo boliviano.

A Bolívia quer mesmo é um pouco mais de dindim pela sua maior riqueza e eu, sinceramente, tendo em vista que o petróleo bruto está custando mais de um dólar por barril, acho que ela tem razão.

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Clóvis também gosta de confundir

Clóvis também deflagra um debate sobre significados da palavra contrato, cujo integral cumprimento é sempre invocado por quem – é claro – esteja levando maior vantagem no acerto.

Para Clóvis, essa exigência ‘é coisa que os liberais hoje hegemônicos, sempre exigem’. E pergunta: ‘Que contrato? O contrato entre candidato e eleitor, que deveria ser sagrado na democracia. Morales (…) está agora fazendo apenas o que prometeu. (…) Democracia é assim.’ Isso também vale um bom debate, não?

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E a desembargadora ajuda o Clóvis

Para enriquecer a notinha anterior, tivemos outra notícia sobre contrato nesta quarta (3/5 – O Globo, Defesa do Consumidor). A desembargadora Cristina Tereza Gaulia, no Rio, aplicou o Código de Defesa do Consumidor e deu razão à pensionista Antonia Oliveira, que não está pagando um contrato de empréstimo com o Itaú. Antonia alegou que fez o empréstimo contando com os pagamentos de dois empregos, mas perdeu um deles e não pode mais pagar a prestação de R$ 424,19.

A desembargadora afirma que existe clara tentativa de enriquecimento ilícito do Itaú, porque, sabendo da situação difícil da cliente, cobra encargos e tarifas para movimentação da conta que Antonio somente usa para receber o salário e debitar a prestação. A pergunta é natural: contrato é sagrado ou tem limites?’



JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

Camisinha na garrafa, 4/05/06

‘‘Abro os vidros da janela/como

quem abre o veludo de uma

cena/’Boa noite, mar de Ipanema.’/

Velejas tanta luz durante o dia/ que

posso ver-te em meu escuro.’

(Claudio Mello e Souza in Passageiro do Tempo)

Camisinha na garrafa

Perplexo, abestalhado e, evidentemente, engulhado, Janistraquis leu no excelente Boletim do Consumidor, de Porto Alegre:

Pepsi indenizará consumidor que encontrou camisinha em garrafa de refrigerante.

Uma corte indiana condenou a fabricante de refrigerantes PepsiCo. a pagar indenização a um consumidor que provou ter encontrado uma camisinha dentro de uma garrafa da bebida. O tribunal considerou que o caso ‘raro’ representa riscos sérios à saúde pública e, por isso, ordenou que a empresa pague indenização de 100 mil rúpias (US$ 2.200) para uma fundação de defesa dos consumidores local, além de 20 mil rúpias (US$ 450) ao consumidor afetado.

Meu secretário suspirou:

‘Ainda bem, considerado, ainda bem que não aconteceu nem poderia acontecer no Brasil; afinal, aqui a população segue a orientação da igreja católica e não usa camisinha pra nada, nem pra sacanear os outros…’

Concordo e convido o honrado leitor a ler no Blogstraquis mais alguns detalhes do tenebroso acontecimento. Todavia, permanecerá sempre esta crudelíssima dúvida: a camisinha da Pepsi teria sido usada antes para ‘aquilo’ ou o terrorista apenas retirou-a do invólucro e fez o serviço?

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Inacreditável

A considerada Marly de Oliveira Santos, de Belo Horizonte, leu na coluna de Cláudio Humberto:

O Senado aprovou apelo de Eduardo Suplicy (PT-SP) para Lula pedir ao Iraque que não execute os assassinos do brasileiro Sérgio Vieira de Mello.

Marly não acreditou em tal excesso:

Será que é mesmo verdade? O senador Suplicy e o Senado não têm coisa melhor para fazer do que defender bandidos no Iraque?!?!?!

Janistraquis também ficou besta:

‘Dona Marly, acontece que a cada dia o Senado aperfeiçoa sua inutilidade absoluta; os anjinhos de lá deveriam, na verdade, escutar a opinião dos parentes de Sérgio Vieira de Mello antes de aprovar mais uma esquisitice deste ser absolutamente inacreditável que é Eduardo Suplicy.’

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Audiência

Até o presente instante (o colunista escreve às 23h30 de 3/5/06), Janistraquis recebeu 62, repito, sessenta e duas mensagens de considerados leitores que apontam o erro do apresentador do Jornal Nacional, Heraldo Pereira, o qual se despediu assim, naquela noite de segunda-feira, 10 de maio: ‘Uma boa noite para você e um bom domingo’.

Janistraquis festejou mais do que os militantes petistas diante da última pesquisa do Ibope em São Paulo:

‘Considerado, tais episódios não apenas confirmam a espetacular audiência do Jornal Nacional, como também o prestígio desta nossa coluninha…’

Rubro de modéstia, o colunista deseja um ótimo final de semana a todos vocês.

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Raro mestre

O considerado Mauro Santayana escreveu no Jornal do Brasil, sob o título Os outros nomes da UDN:

Mais uma vez os golpistas se reúnem. Quando um governo começa a distribuir renda, como no sistema escandinavo, a fim de sustentar um tímido ‘welfare state’, como faz Lula com o Bolsa-Família, contra ele se reúnem bacharéis e banqueiros, políticos, jornalistas e inocentes úteis.

Leia a íntegra do artigo no Blogstraquis e verifique: você pode até não concordar com uma linha sequer, mas são indiscutíveis a competência e a verve desse veterano jornalista e escritor cujo texto é sempre uma obra-prima. Santayana é um raro mestre.

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Baixada

Janistraquis leu no Panorama Econômico de O Globo, assinado pela considerada Míriam Leitão:

Petrobras e Repsol têm investimentos que representam um quarto do PIB boliviano, que é do tamanho do PIB de Duque de Caxias (RJ).

Sem nenhum intuito de ofender a nação vizinha, meu secretário concluiu:

‘Considerado, podemos dizer que a Bolívia é uma progressista cidade da Baixada Fluminense da América do Sul!’

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Bonner & Cia

Como a mídia noticiaria hoje a história de Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau? O considerado Symphronio Veiga reencontrou esta divertidíssima brincadeira que há tempos percorre a Internet e é conhecida de muitos. Porém, os que à própria ainda não foram apresentados, têm esta oportunidade no Blogstraquis.

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Robertão Porto

O Jornal dos Sports empobreceu suas páginas com o fim da coluna de Roberto Porto, ilustre botafoguense e um dos especialistas que mais conhecem futebol neste país. Ainda bem que sua competência continua firme em Loucos Por Futebol, da ESPN Brasil, o melhor programa esportivo da TV.

Janistraquis só lamenta que Loucos… seja quinzenal:

‘Deveria ser diário, considerado; é que a gente tanto aprende quanto se diverte com Marcelo Duarte, Paulo Vinicius Coelho, Celso Unzelte e o Robertão acima referido, que o cor-de-rosa Jornal dos Sports perdeu e deve estar pálido e até esverdeado de arrependimento…’

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De índio pra índio

Depois que Evo Morales fechou a siderúrgica do ex-marido de Luma de Oliveira e mandou o exército invadir as refinarias da Petrobras, Janistraquis enviou esta mensagem ao presidente Lula:

‘Sugiro ao considerado que escale o cacique Raoni (que também é pajé) para ir à Bolívia conversar com o líder cocaleiro. Ambos são índios e, imagina-se, devem se entender muito bem.’

É boa idéia. Precisamos tratar Evo com todas as honras, pois hoje em dia índio quer mais do que apito.

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Delírios

A propósito de evos, morales e apitos, leia no Blogstraquis o sensacional texto de Elio Gaspari intitulado A diplomacia do trivial delirante. Começa assim:

É do chanceler Celso Amorim o qualificativo ‘nosso guia’ para designar a clarividência diplomática de Lula. Bajulá-lo, elevando-o à condição de líder mundial, faz parte do ritual de oferendas-companheiras. O senador Aloizio Mercadante, por exemplo, escreveu que ‘não há líder no planeta que não queira se reunir com ele para trocar idéias e percepções sobre a construção do futuro’. ‘Em nossa região, a maioria dos chefes de Estado busca seu conselho.’ Será que foi o caso de Evo Morales?

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Cortaram tudo…

Debaixo do assustador título Castrado por engano, chinês recebe pequena fortuna de indenização, Janistraquis leu na Folha Online:

PEQUIM, 2 maio (AFP) – Um chinês receberá meio milhão de iuanes – US$ 62.000 – de danos e prejuízos depois de ter sido castrado por engano em um hospital do norte do país, informa a imprensa local nesta terça-feira.

Meu secretário tem certeza de que passaram a perna no infeliz:

‘Considerado, não divulgaram a idade do chinês, o que é falha gravíssima em notícia com esse teor; e se o sujeito era jovem e ainda daria no couro por longos e longos anos? Porém, uma coisa é certa: se a tragédia tivesse acontecido comigo, garanto que não admitiria indenização de menos de US$ 62.500,00!!!’

(Leia no Blogstraquis a íntegra da lamentável notícia.)

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Falsidade

Quando soube da anunciada greve de fome do ex-governador do Rio, Janistraquis comentou:

‘Considerado, o elemento quer apenas juntar o útil ao agradável; como precisa reduzir aquela barriga, deixa de comer e ceva o regime alimentar com os princípios éticos que nunca teve.’

É mesmo. No ex-governador, até o apelido/sobrenome é usurpado; como todos sabem, o ‘verdadeiro Garotinho’ é o excelente locutor esportivo da Rádio Globo, José Carlos Araújo.

Morram!

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no Planalto, de cujo banheiro é possível assistir à festa dos deputados que elegeram a safadeza como norma regimental, pois mestre Roldão aliviava os arquivos quando reencontrou esta notinha do Correio Braziliense, com o título de A luta contra o mal.

Na ocasião (27/1/06), escreveu nosso homem em Brasília:

A matéria trata do combate à hanseníase no Brasil. Cita uma entidade denominada Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase e dá a sigla misteriosa: MOHRAN, que dificilmente alguém conseguiria associar ao nome da ONG. Falada, as pessoas entenderão: ‘MORRAM’.

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Nota dez

A professora Iracema Torquato escreveu a Victor Hugo:

(…) Os miseráveis estão em toda parte, sim. O seu livro, Hugo, continua vivo e útil como nunca. Aqui, fazem da cultura do silêncio, da calúnia, simulacros (cópias de cópias) de terceira categoria: aqui reina a ditadura dos prepotentes e dos dissimuladores. Vencer e vencer. Sucesso e sucesso no mercado: eis o lema pobre que impera aos que acreditam que podem proteger-se e regulamentar uma classe profissional, via incompetência, escondendo-se atrás da exigência de um diploma de jornalismo.

É claro que todos já leram esse artigo/desabafo escrito por uma profissional de alto nível e excelente caráter, mas é importante que também fique registrado aqui.

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Errei, sim!

‘SEXO PESADO – Aviso da nossa considerada Folha de S. Paulo a futuros vestibulandos: Sexo pode pesar na hora da opção. É verdade. Janistraquis garante que já viu muitos rapazes a carregar o sexo num carrinho de mão, na porta da PUC, depois de, inadvertidamente, optarem pelo curso de Jornalismo. (julho de 1991)’



WEBJORNALISMO
Mario Lima Cavalcanti

Editor-chefe do JB Online detalha mudanças no site, 5/05/06

‘Há cerca de duas semanas, o JB Online, considerado o primeiro jornal virtual brasileiro na Internet, estreou seu novo layout acompanhando a também recente reforma gráfica da edição impressa. Aparentemente caminhando em uma mão diferente da dos outros diários digitais, o JB Online acredita estar num bom caminho com a nova mudança que é, sem dúvida, a maior já feita pelo jornal desde o seu lançamento na Internet, em 1995.

Em entrevista para a coluna Jornalismo Online, o editor-chefe do JB Online, Alexandre Fontoura nos fala sobre as mudanças e as metas da nova versão do diário. Aos 26 anos, ele é o jornalista mais antigo do veículo, com seis anos no veículo, mais da metade do tempo de existência do site.

Jornalismo Online – Quais os motivos e os objetivos da reforma do JB Online?

Alexandre Fontoura – Sem a menor dúvida, essa foi a nossa maior mudança e uma mudança bem radical se compararmos com os outros sites de jornal. Fizemos uma reestruturação completa, incluindo a Edição Eletrônica, formato pelo qual o leitor pode ler, página por página, a edição do jornal impresso na Web. Houve também uma mudança na faixa etária. Agora, o JB Online está mirando um público mais jovem.

Jornalismo Online – Em se tratando da parte gráfica, o site parece ter escolhido um caminho diferente da maioria dos jornais virtuais, optando por um desenho nada parecido com a versão anterior e pouco visto nesse tipo de veículo. Gostaria que explicasse esse novo layout.

AF – Procuramos fazer um design clean, moderno e dinâmico. A barra de rolagem lateral diminuiu muito. O site está mais objetivo e o leitor chega onde quer com menos cliques. Estamos fazendo uma aposta e os primeiros sinais já mostram que estamos no caminho certo. Além do mais, a resposta que temos da Edição Eletrônica superou as expectativas, da aceitação dos leitores até o número de acessos muito acima do esperado.

Jornalismo Online – Quais são os conteúdos que os leitores encontram somente na versão online? Existem áreas fechadas, que exijam cadastro ou assinatura paga?

AF – Conteúdo exclusivo online: Café Literário, Sala de Cinema, Games, Interface (canal sobre arte e tecnologia), moda, mobile (para receber notícias por SMS e, em breve, por PDA [Assistente Pessoal Digital, como um palmtop]), música, JBlog. Não existem áreas fechadas. Vamos voltar a pedir apenas, em alguns momentos, um cadastro para conhecermos melhor nossos leitores online.

Jornalismo Online – Aproveitando o assunto, qual a sua opinião sobre conteúdo pago na Internet?

AF – A Internet cultivou uma cultura do gratuito. A pergunta que os internautas fazem é: por que vou pagar por algo que eu posso conseguir de graça? Aliás, muitas vezes o ‘de graça’ é ainda mais prático e rápido do que o pago. Mas isso é uma visão geral da coisa. Só que a cultura do gratuito acaba esbarrando no conteúdo pago. Acho o conteúdo pago uma opção válida quando se tem um grande diferencial. Sempre vão existir as duas formas de conteúdo, assim como existem na TV.

Jornalismo Online – O que os leitores podem esperar do novo JB Online em termos de acessibilidade e de funcionalidade? No decorrer do desenvolvimento do site vocês chegaram a pensar, por exemplo, nos usuários cegos?

AF – Todo o conteúdo será acessível com, no máximo, três cliques. Sobre os cegos, não fizemos especificamente nada para eles, mas existem navegadores que lêem o conteúdo, que pode ser usado, por exemplo, para ler o Tempo Real [a seção de últimas notícias do JB Online].

Jornalismo Online – Estamos praticamente vivendo o chamado quarto estágio do jornalismo online, no qual um espaço para um maior poder de interação e de participação do leitor é quase que obrigatório. Qual a sua opinião sobre os jornais de colaboração participativa, como o OhmyNews? Ainda nesse contexto, como o JB Online pretende dar voz aos leitores?

AF – A interatividade é um dos grandes diferenciais da Internet. Temos hoje os fóruns e enquetes, que o jornal impresso também usa e publica opiniões. Por exemplo, na coluna 24 horas, da Ana Maria Tahan, há uma parte exclusiva para participação dos internautas. O leitor no JB Online cada vez tem mais espaço para expor suas opiniões e comentários. Sobre o jornalismo participativo, pensamos em adotá-lo também, mas ainda estamos fazendo umas experiências.

Jornalismo Online – Como seria essa possível experimentação do jornalismo participativo? Vocês já têm algo no papel?

AF – Isso é uma idéia que partiu de mim e que já está encaminhada. Estou fazendo alguns testes junto à equipe de tecnologia, que conseguiu um software adequado pra esse tipo de conteúdo, e já conversei com a diretoria, que disse que eu posso continuar tocando os testes. O JB Online já possui algumas áreas que permitem uma participação mais ativa do leitor, como o JBlog, mas tenho a idéia sim de implementar uma seção de jornalismo participativo com todas as funções que conhecemos, onde o leitor participa da produção de notícias, vota e as notícias com maior número de votos aparecem com destaque. Acho importante porque mistura dois pontos fortes do meio, que são a interatividade e a democracia. Temos em mente isso tudo, mas, claro, sem deixar de lado o conteúdo jornalístico produzido por nossa equipe.

Jornalismo Online – O que você considera ser o principal trunfo do novo JB Online? Em outras palavras, o que mais o motiva a acreditar que estão no caminho certo?

AF – A mudança veio muito da diretoria. Obviamente, quando o novo site foi ao ar recebemos elogias e críticas. O site passou por problemas na primeira semana e publicamos uma mensagem deixando isso claro, dizendo que estávamos providenciando melhorias. O que mais me motiva são os números [não divulgados] de page views do site e de acesso à Edição Eletrônica, que não caíram. Pelo contrário, aumentaram um pouco. A Edição Eletrônica, um produto que antes não existia, está dando bons resultados. Como eu disse, a mudança veio da diretoria, em especial do Amauri Mello [diretor de conteúdo e de convergência de mídias do JB Online. Já trabalhou no Globo.com e sua última passagem foi no jornal O Dia]. É uma aposta que eles estão fazendo. E estamos todos observando os resultados.’



MERCADO EDITORIAL
Eduardo Ribeiro

Quatro temas em destaque, 3/05/06

‘Na coluna desta semana, quero destacar quatro temas que foram notícias na edição impressa deste Jornalistas&Cia.

O primeiro deles foram as contratações de três nomes do primeiro time do jornalismo pelo Correio Braziliense/Estado de Minas, todos para reforçar a reportagem e garantir aos dois jornais do condomínio dos Diários Associados informações de qualidade, belas matérias, uma ambiciosa cobertura das eleições (e de outros temas relevantes da política brasileira) e leitores satisfeitos. Um dos que chegam é Gustavo Krieger, chefe de Redação da Época, que bateu o martelo na tarde desta 3ª.feira com o diretor de Redação, Josemar Gimenez. ‘Foi um convite irresistível, sobretudo pela oportunidade de voltar à reportagem e de integrar uma das melhores equipes do País’ diz, lembrando que foi uma decisão difícil, tendo em vista o trabalho que vinha realizando nesta sua segunda passagem por Época, onde estava já há dois anos e meio. Outro que chega é Amaury Ribeiro Jr., vencedor, no início da década, dos mais importantes prêmios de jornalismo do País (Esso e Embratel, entre outros), que estava há pouco mais de um ano na sucursal da IstoÉ, em Brasília. Amaury já esteve no Correio, foi de O Globo e agora volta para ser correspondente do jornal no Rio de Janeiro. O terceiro contratado é Gilberto Nascimento, que será correspondente do jornal em São Paulo. Gilberto também é detentor de vários prêmios, sobretudo no campo da infância e adolescência, e é outro que deixou recentemente a IstoÉ, em São Paulo, onde era editor. Ele e Amaury vão se instalar nos escritórios que o Correio mantém nas capitais paulista e carioca, por conta da atividade comercial.

O segundo assunto que gostaria de destacar é a saída do Senac – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial da STV, emissora que nasceu como TV Senac e que, mais tarde, com a entrada do Sesc – Serviço Social do Comércio, ganhou o atual nome de STV. As negociações vinham sendo feitas desde janeiro e objetivavam transferir a gestão para o Sesc. A decisão oficial foi anunciada na última 6ª.feira (28/4) e com ela as demissões de parte da equipe. Saem a diretora Geral Sandra Cacetari e o diretor de Programação Róbson Moreira (quevenhaosaci@hotmail.com), ambos fundadores da STV dez anos atrás, e também Adriana Veríssimo, Juliana Rodrigues, Bia Savone e Estela Leopoldo. Caberá agora ao Sesc fazer as nomeações e ajustes necessários, de modo a ter uma tevê inteiramente ao seu estilo.

Outro assunto relevante é a nova obra sobre o Padre Landell de Moura, que chega às livrarias nesta primeira quinzena de maio, pela Editora Record. O título diz tudo: Padre Landell de Moura: um herói sem glória. O brasileiro que inventou o rádio, a TV, o teletipo…, de autoria de Hamilton Almeida. A noite de autógrafos está sendo programada para 8/6, na Livraria Cultura, da Av. Paulista. Esta avenida, aliás, está ligada à história do Padre Landell, como muito bem sabem os gaúchos, vários deles se manifestando nesse espaço quando em duas outras ocasiões abordei o tema. Foi lá que ele realizou suas experiências, transmitindo, pela primeira vez no mundo, a voz humana à distância, sem fios, até o alto de Santana, numa distância aproximada de 8 quilômetros. Enquanto o italiano Guglielmo Marconi se consagrava como o inventor do telégrafo sem fio (radiotelegrafia), o padre-cientista Roberto Landell de Moura exibia, no final do século XIX, aparelhos capazes de transmitir não só sinais de código Morse à distância, sem fios, mas também a voz humana, música e quaisquer outros ruídos. Ele é o verdadeiro inventor do rádio. Padre Landell realizou várias experiências públicas, com o intuito de conseguir patrocinadores para a industrialização das suas invenções. Obteve patentes no Brasil (1901) e nos Estados Unidos (1904), mas nem assim foi reconhecido. Pior: foi ignorado. Acusado de ter pacto com o diabo, destruíram seus aparelhos. Além da invenção do rádio, o padre-cientista projetou a televisão e o teletipo ou o controle remoto pelo rádio. Chegou a prever as comunicações interplanetárias e ainda descobriu e fotografou o chamado efeito Kirlian. Almeida, que começou a pesquisar sobre a vida do Padre Landell há 30 anos, já publicou outros livros sobre o assunto, incluindo um na Alemanha – Pater und Wissenschaftler (Debras Verlag, 2004). A obra atual reúne a pesquisa mais completa. Narra em detalhes a vida do Padre Landell, descrevendo o contexto sócio-cultural da época (pouco favorável à produção científica). Relata como transcorreu a implantação da comunicação sem fio no Brasil (o que deixou o cientista brasileiro à margem da história, mesmo tendo um invento mais aperfeiçoado nas mãos) e compara a invenção do Padre Landell com a de Marconi. O prefácio é do astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, que considera a obra importante para se refletir sobre as condições humanas do cientista no Brasil. O professor emérito da USP José Marques de Melo comenta que essa aventura investigativa é um retrato sem retoque de um injustiçado cientista. O livro procura resgatar, enfim, o lugar que cabe ao Padre Landell na história das telecomunicações.

O último assunto é a volta às lidas da reportagem do bravo Marcelo Auler, no Rio de Janeiro. Marcelo acaba de ser contratado pelo Estadão, convidado que foi por Sueli Caldas, entrando numa vaga aberta desde a transferência, no início do ano, de Luciana Nunes Leal para a sucursal de Brasília. Auler estava afastado da reportagem há cerca de quatro anos, desde que saiu de O Dia. Antes disso, foi da Veja (aí ganhou dois prêmios Esso), Gazeta Mercantil, Folha de S.Paulo, Jornal de Brasília e sucursal do JB em Brasília, e Manchete. Estava agora na direção da TV Alerj, onde entrou no ano passado, após deixar a assessoria da Dataprev.

Aproveito para lembrar a todos que nesses próximos três dias estarei, com a equipe do J&Cia e da Mega Brasil, mergulhado no 9º Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, ao lado de aproximadamente 500 profissionais de todo o País. Vai ser uma maratona, uma agradável maratona. Assim espero.’



SUZANE & MÍDIA
José Paulo Lanyi

Richthofen continuará na prisão, 4/05/06

‘Suzane Richthofen permanecerá na prisão. Nesta quinta-feira, o Tribunal de Justiça de São Paulo anunciou dois dos três votos do pedido de concessão de habeas corpus pleiteado em benefício da acusada, que confessou a sua participação no assassinato dos seus pais, o engenheiro Manfred e a psiquiatra Marísia Von Richthofen, na casa de sua família em São Paulo, em outubro de 2002.

Dois dos integrantes da Quinta Câmara Criminal, desembargadores José Damião Pinheiro Machado Cogan e Carlos Biasotti, rejeitaram o pedido de habeas corpus. O terceiro membro do colegiado, desembargador Antonio Carlos Tristão Ribeiro, pediu vistas do processo. Ainda que, daqui a uma semana, ele vote a favor da soltura, o resultado será desfavorável a Suzane.

Os desembargadores Cogan e Biasotti entenderam que, solta, Suzane poderá fugir, um mês antes de seu julgamento pelo Tribunal do Júri, marcado para 5 de junho.

Relator do habeas corpus, Cogan também considerou que a entrevista concedida por Suzane ao programa Fantástico, da Rede Globo, reacendeu a animosidade do público contra a acusada – reação que, conforme o desembargador, havia sido amenizada durante os dois anos em que ela esteve presa.

A decisão também leva em conta a integridade física de Suzane. De acordo com o relator, a entrevista ao Fantástico ‘tornou atual a ira pública, como se vê do número de pessoas que acorreram para ver sua transferência do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa e que a assediaram’.

Em outro trecho em que fundamenta o seu voto, o desembargador considera que ‘o panorama é sombrio, sua segurança, caso seja libertada, não pode ser garantida, já que as entrevistas tornaram públicos os locais em que se recolhia. Assim a fuga se apresenta como provável às vésperas do julgamento’.

Críticas ao Fantástico

O desembargador José Damião Pinheiro Machado Cogan criticou a reportagem do Fantástico, exibida em 9 de abril. A divulgação das instruções do advogado Mário Sérgio de Oliveira à Suzane Richthofen foi, de acordo com o relator, uma ‘evidente infração ética’:

‘Em determinado momento, enquanto conversava reservadamente com seu advogado, os repórteres que haviam acordado a entrevista passaram a gravar a conversa de ambos, colocando-a no ar em seguida. Uma das vezes ocorreu em local aberto e outra no interior de residência, estando os repórteres na parte externa da mesma. Tal fato é evidente infração ética, já que a comunicação entre o acusado e seu defensor se encontra acobertada pelo sigilo funcional, como se verifica pela aplicação analógica do art. 207, do Código de Processo Penal. Não cabia aos profissionais que organizaram a entrevista divulgar ou tomar conhecimento indevido de qualquer conversa entre a paciente e os advogados que a orientavam, já que tais atos estavam acobertados pelo sigilo profissional’.

Em reforço à sua análise, o desembargador citou um jurista de renome, autor de trabalhos doutrinários acerca do papel do Jornalismo em casos análogos:

‘Ensina Darcy de Arruda Miranda que ‘o jornalista no seu magnífico sacerdócio deve ser sereno como um juiz, honesto como um confessor e verdadeiro como um justo’. (…) ‘A liberdade que se lhe outorga através de preceitos constitucionais e de lei ordinária é tão grande como a responsabilidade que lhe impõe o dever de compreendê-la e aplicá-la. Errar, só de boa fé’.

(…) ‘O gosto do sensacional e o prazer do ‘furo’ jornalístico devem sofrer as restrições que o bom senso indica e o momento ou as circunstâncias comportem. A opinião pública, definida como aquilo que pensa o povo em geral (Littré), ou o acordo dos espíritos sobre todas as coisas que interessam aos homens, é instável como as nuvens, variável como o tempo e despertável como o vento. A imprensa nem sempre a interpreta, condu-la. E nesta orientação está a sua maior responsabilidade, sua grande missão’. (Comentários à Lei de Imprensa, Volume I, RT, 1969, São Paulo, págs. 44/45).

(…) ‘…A má imprensa não só lesa interesses jurídicos e morais das pessoas a quem afeta a publicidade caluniadora ou escandalosa, como também corrompe, progressivamente, sentimentos de moralidade média da sociedade, engendra uma espécie de curiosidade e animosidade mórbidas no público…’ (ob. cit. pág. 39).

Clique aqui para ler a íntegra do voto do relator.’



GAROTINHO EM GREVE
Carlos Chaparro

Cuidado com as greves de fome!, 4/05/06

‘O XIS DA QUESTÃO – A propósito da greve de fome do sr. Garotinho, é oportuno falar das complexidades que envolvem as relações entre redações e fontes. E lembrar que o relato jornalístico (produto final oferecido aos cidadãos) deve ter cuidados e rigor com quem produz fatos e oferece falas, para a notícia. Ou, em outras palavras, sacudir a preguiça intelectual que leva as redações à mera reprodução e socialização dos discursos particulares.

1. Insólito pretexto

Quando as arengas da disputa presidencial começaram a tomar conta da pauta jornalística, decidi evitar na coluna temas e abordagens que, de alguma forma, envolvessem ajuizamentos sobre os potenciais candidatos e seus comportamentos. Mas esta greve de fome do sr. Garotinho me obriga a trair o compromisso auto-assumido. O ato, e as pretensões da greve, chamam a atenção pelo inusitado e pela tolice. Certamente também pela incoerência, já que, para protestar contra ‘a ditadura da imprensa’, o sr. Garotinho armou um show à base do insólito, exatamente para ser notícia. Ora, se – como se queixa – a Veja e a Rede Globo lhe negam o ‘direito de resposta’, porque não vai à Justiça em busca da garantia desse direito? Ou, se nada tem a esconder, porque simplesmente não esclarece com dados inquestionáveis essa estranha história de Ongs alimentadas por verbas públicas, sem licitação?

Para efeito da análise que pretendo fazer, pouco importam as formas e razões (tanto as simuladas quanto as verdadeiras) da greve de fome do sr. Garotinho. Embora lamente o fato de o jornalismo se deixar levar na conversa, atribuindo ao deprimente ‘espetáculo’ importância e significado que não tem, a greve de emagrecimento do sr. Garotinho não estará em causa no texto a escrever. Servirá, apenas, como pretexto para se falar das complexidades que atualmente envolvem as relações entre redações e fontes. Com ênfase especial nos cuidados que o relato jornalístico (produto final oferecido aos cidadãos) deve ter com a qualidade e a confiabilidade de quem produz fatos e oferece falas, para a notícia.

Ou seja: cuidado com a qualidade das fontes, que se pressupõe devam ser confiáveis, nas ações como nas intenções.

2. Face nova

A qualidade das fontes sempre foi preocupação essencial dos bons jornalistas, desde que, no início do século XVIII, Samuel Buckley, editor do primeiro jornal diário político do mundo (o inglês Daily Courant – 1705/1735), introduziu na cultura jornalística o conceito de ‘acurácia’, termo importado da Física para significar que a qualidade notícia, como produto, resultará do rigor dos procedimentos preliminares. Se tudo for feito correta e adequadamente, o resultado será inevitavelmente bom.

No entendimento de Buckley, a aplicação do conceito ao jornalismo apontava para as fontes: o segredo da boa notícia é a boa fonte. Logo, sem boas fontes não haveria boas notícias. Assim, a norma básica de rigor que, no Daily Courant, orientava os repórteres, era a de terem cuidado com a seleção das fontes.

A norma virou lição. E, como lição, atravessou séculos. Até três ou quatro décadas atrás, todos acreditávamos que bom repórter era, em primeiro lugar, aquele que tinha boas fontes. Avaliava-se um repórter, também, pela extensão e qualidade da sua agenda de fontes.

Nesse tempo, as fontes organizadas praticamente não existiam. Mesmo as entidades que tinham assessoria de imprensa ou departamentos de Relações Públicas, limitavam-se a atividades e procedimentos de bom relacionamento com a imprensa – mais visando a ‘não publicação’ do que a publicação de notícias.

Sem fontes organizadas, as boas redações se esmeravam em mecanismos e rotinas de captação de ocorrências, para que nada de importante escapasse. Organizavam-se e azeitavam-se redes de pescaria de fatos, para a elaboração de pautas em cima do que estava acontecendo ou poderia acontecer. Assim, mais do que com fontes oficiais (que pouco falavam), editores, pauteiros e repórteres trabalhavam com fontes informais (humanizadoras), fontes de referência (sábias), fontes de aferição (independentes), fontes documentais (de boa origem), fontes bibliográficas (reconhecidas) e, principalmente, fontes aliadas, cúmplices, estrategicamente localizadas e com as quais se estabeleciam relações de recíproca confiança.

Depois que a conflitante combinação democracia-cidadania-mercado-tecnologia institucionalizou os sujeitos da atualidade, as fontes se organizaram. Deixaram de ser simples detentoras de informações ou saberes que interessam ao jornalismo, para se tornarem competentes instituições produtoras de acontecimentos e falas noticiáveis. Passaram a usar a notícia como um agir tático integrado em estratégias nem sempre perceptíveis, para conflitos complexos, como esse em que o sr. Garotinho está envolvido. E fazem da notícia a sua principal ferramenta de agir no mundo e sobre o mundo.

Para o jornalismo, as fontes organizadas tornaram-se geradoras de conteúdos. Para socializar seus conteúdos, criaram e profissionalizaram interfaces profissionais com a mídia jornalística. Assumiram lugar próprio no espaço do jornalismo. Desenvolveram competência discursiva: sabem o que dizer, como dizer, quando dizer e como socializar o que dizem. E tornaram-se (em média) responsáveis por 95% do noticiário que chega à sociedade.

Ou seja: deram face nova à atualidade e ao jornalismo.

3. Momento de crise

Como já tantas vezes aqui escrevi, para a democracia e para a cultura, é ótimo que os sujeitos sociais tenham adquirido capacidade de dizer e que se tenha estabelecido no mundo essa pluralidade de vozes competentes.

Mas o jornalismo vive um momento de crise – e me refiro ao jornalismo simbolizado nos compromissos que as redações têm com a sociedade, de a informar e esclarecer de forma confiável, honesta, independente.

Uma das razões da crise é a preguiça intelectual das redações. Os conteúdos chegam prontos, recheados de sabores e encantos, como esse da greve de fome do sr. Garotinho. Assim, cai-se na mera reprodução dos discursos particulares (no cenário atual, discursos institucionalizados), com a aceitação dos significados que os próprios produtores dos acontecimentos propõem. E entrega-se quase todo o espaço às fontes organizadas, sem investigar, sem fazer a polêmica, sem fomentar a divergência, sem organizar nem oferecer referenciais críticos à discussão pública.

Não se trata de rejeitar ou repudiar a ação as fontes organizadas, até porque, sem o vigor dos discursos particulares, não há o que fazer ou dizer na narração e na argumentação jornalística. Hoje, é pelas fontes organizadas que o mundo fala e faz os seus conflitos. Porém, o jornalismo, simbolizado nas redações e em seus veículos, não pode renunciar tão facilmente ao papel de linguagem narradora independente, crítica, socialmente confiável.

Para o ser, não precisa nem deve limitar a ação das fontes organizadas. Mas tem de recuperar, e reintegrar ao método jornalístico, a contribuição das fontes relegadas ao esquecimento pela preguiça intelectual – as informais, as de referência, as de aferição, as aliadas, as documentais e as bibliográficas.

Só assim, articulando a pluralidade das fontes, o jornalismo elucidará os conflitos e socializará conhecimento.

Quanto ao sr. Garotinho, meus votos de fome saciada.’



TELEVISÃO
Antonio Brasil

Big Brother Repórter, 5/05/06

‘No domingo (30/04), o Fantástico anunciou um novo quadro: Profissão Repórter. A nova atração tem o repórter investigativo Caco Barcellos à frente de seis jovens jornalistas recém-formados. Segundo a divulgação, ‘eles vão cobrir determinado assunto simultaneamente para mostrar pontos de vista diferentes sobre um mesmo assunto’. O quadro também promete saldar uma velha dívida: ‘O público vai poder ver cenas que não são mostradas no telejornal. Vamos mostrar nossas dúvidas, incertezas, conflitos e decisões que envolvem ética também’, afirma Caco. É, pode ser.

Deve estar havendo uma onda de ‘revelações e transparência’ nas empresas Globo. Na segunda-feira (01/05), também foi anunciada a seção ‘Os bastidores de uma redação de jornal – A história por trás das histórias do Globo’ (ver aqui).

O objetivo do jornal é ‘dividir um pouco com seus leitores a maneira como ele é feito, os detalhes das grandes reportagens, o funcionamento das editorias, os bastidores da nossa redação, as opções que adotamos, a forma como trabalhamos. Tudo para, com transparência, aproximar ainda mais O Globo dos seus leitores’. Quem diria? Deve ser o clima das eleições ou o clamor do passado.

Em artigo publicado em 2001, ‘Casa dos Jornalistas’ propus um reality show parecido e descrevia a proposta: ‘Agora, só falta inventar a Casa dos Jornalistas. Do jeito que as coisas andam, daqui a pouco ainda vai aparecer algum holandês com a idéia de criar uma redação de mentirinha, contratar alguns colegas e produzir uma Casa dos jornalistas. Pensando bem, até que ia ser engraçado’. (ver aqui).

E durante o V Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, em Porto Alegre, 2002, divulguei um programa semelhante de transparência no jornalismo televisivo para a TV UERJ online:

‘O nosso projeto mais novo é Casa dos Jornalistas. Mas não se trata de mais um reality show com 12 jornalistas que ficam falando bobagens. A intenção é através de reality show mostrar os bastidores de um telejornal como forma de facilitar o aprendizado e o ensino do telejornalismo, além de estabelecer uma maior transparência na prática profissional. Nós temos tecnologia para te mostrar como é a redação funcionando o dia inteiro antes de entrar no ar…’

‘A maioria das pessoas não vai querer saber o que é uma reunião de pauta mas os alunos de telejornalismo ou de jornalismo provavelmente gostariam de ver a reunião de pauta do JN que está acontecendo agora, neste instante. Isso é conceito novo de telejornalismo, é transparência na produção de notícias. Eu acho que isso pode ser considerado meio utópico mas não custa nada sonhar.’

(BRASIL, em declaração no Fórum de Professores, em 29/04/2002, citada em ‘As primeiras experiências brasileiras de telejornalismo na Web’ da Universidade Comunitária Regional de Chapecó. Curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo. Chapecó, SC, 2002).

Valeu, Andréa Mello!

Público não é bobo

Mas não se preocupem. Ao contrário do Walter Salles, não vou perder tempo e acusar a Globo de plágio. Pelo jeito, lá, isso é normal. Segundo seus diretores, acusações semelhantes não passam de ‘mal entendidos’ e devem ser sempre resolvidas ‘amigavelmente’. (Para ler sobre as acusações de plágio na novela ‘Cobras e Lagartos’ clique no link para a coluna da semana passada ao final do texto). Bem sabemos que ‘Em televisão nada se cria. Tudo se copia’.

Mas essa tal promessa de ‘transparência’ na produção do conteúdo dos telejornais vem em boa hora. Mas deveria ser uma norma, prática profissional de jornalismo de qualidade ao invés de ser jogada promocional de marketing televisivo em ano de campanha eleitoral. Transparência na produção de telejornais deveria ser uma exigência da sociedade brasileira.

Afinal é sempre bom lembrar que TV é uma ‘concessão pública’ e jornalismo televisivo é ‘prestação de serviços’ prevista em contrato com essa mesma sociedade. O conteúdo e a produção dos telejornais deveriam ser sempre supervisionados por instituições independentes e idôneas. Isso não é sonho ou utopia. É questão fundamental para a sobrevivência da democracia.

Monitorar os limites dos jornalistas deveria ser tão importante como garantir seus direitos. O público não é bobo, e como em qualquer reality show, nos observa atentamente e tende a se afastar de um jornalismo que não garante credibilidade ou seriedade. Mera questão de tempo, educação e maturidade política.

Seleção ou panelinha?

O projeto Profissão Repórter, no entanto, promete e está em boas mãos. Caco Barcellos é um dos melhores repórteres investigativos da Globo. Fazia falta no Brasil. Era um enorme desperdício na Europa, meio perdido na cobertura internacional. Obviamente, não é a sua praia.

Agora, de volta ao Fantástico, desenvolve esse projeto promissor e, quem sabe, educativo. Tinha mesmo que ser produção do Fantástico. Na matéria publicada pelo jornal O Globo de domingo (30/04), ele diz que ‘a realização deste quadro é um projeto bem antigo. Eu gosto da narração por diversos ângulos, mas sempre focando o mesmo assunto. E para cobrir tudo isso, precisamos de muitos repórteres’. Eu acrescentaria muitos repórteres e muito dinheiro.

Sobre a participação dos jornalistas ‘recém-formados’ em Profissão Repórter, Caco diz que a média de idade dos participantes é de 25 anos. ‘A minha expectativa é de que o programa apresente novos caminhos para a reportagem. Que os novos repórteres se convençam de que o melhor jornalismo se faz mesmo é nas ruas’, destaca. ‘Eles estão todos entusiasmados e apreensivos também. Todos participam de todas as fases: escolha de pauta, apuração, gravação na rua, iluminação, entrevistas e edição. A cada programa há um ou dois desafios postos aos grupos’.

Mais uma vez, eu pergunto ao Caco: Como esses jornalistas recém-formados foram selecionados? Quem são? Foi seleção no estilo ‘panelinha’ ou QI, quem indicou? Já que se cobra tanto honestidade e transparência de políticos, só queria saber. Afinal, não tive qualquer informação sobre essa ‘seleção’ de talentos. E perguntar, não custa!

Greve de fome

Sobre outra questão delicada para as empresas Globo, a participação do novo quadro nas campanhas eleitorais ou como mostrar os bastidores de um noticiário político, Caco Barcellos, jornalista experiente, sai pela tangente: ‘Ainda não enfrentamos esse desafio. A gente não lidou com nenhum tema relacionado à campanha política, mas quando surgir teremos que discutir sobre isso’. Faz sentido.

Na mesma entrevista, ao falar sobre o conteúdo das reportagens do Profissão Repórter, Caco diz que ‘são questões que ajudam o telespectador a compreender melhor os fatos. A sociedade está cada vez mais atenta. O jornalismo está cada vez mais centrado em reportagens acusatórias. Isso envolve danos contra a honra. É preciso ser ético, dar uma oportunidade de resposta.’ Entendi.

Deve ser por isso que o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho anunciou com alarde neste mesmo final de semana ‘greve de fome’ em protesto contra as denúncias do jornalismo da Globo e da Veja. Aqui entre nós, ele estava mesmo precisando de um regime. Mas Garotinho se diz perseguido, exige supervisão internacional para as eleições presidenciais no Brasil e ‘direito de resposta’ na grande mídia, ou seja, na Globo e Veja.

Talvez Garotinho devesse falar direto com o Caco Barcellos ou com o novo contratado da Globo, o ex-assessor de imprensa da presidência da República do governo Lula, o jornalista Ricardo Kotscho (clique no link ao final do texto para ler matéria do Comunique-se com o ex-assessor). Como consultor do Projeto Globo & Universidade, ele deve fazer uma ponte entre as instituições de ensino superior do País e o mercado de trabalho. Ou seja, a Globo. De qualquer maneira, esse assunto tão polêmico diz respeito a questões éticas tão caras ao meio acadêmico. E as tais acusações estão relacionadas a um ‘garotinho’. Quem diria? Ricardo Kotscho agora responde pelas relações entre a Globo e as universidades brasileiras. Sinais dos tempos.

Aproveito também para destacar mais algumas questões importantes do novo quadro do Fantástico em relação à ética e à prática profissionais. Afinal, como bem diz Caco Barcellos na entrevista de O Globo, ‘o fim não pode justificar os meios’. Tudo a ver. Sinal de novos tempos. Quem diria que um dia eu ouviria esse tipo de declaração de funcionários da Rede Globo. E o que não se faz no Brasil para garantir um poder hereditário na TV brasileira, sair de grave crise financeira com ajuda das verbas publicitárias de governo em crise e o direito de decidir o próximo sistema de TV digital brasileiro? Telejornalismo no Brasil é mesmo muito poderoso e a profissão de repórter, principalmente de TV, ainda tem o seu glamour!

Agora, é só conferir as tais promessas de ‘revelações e transparência’ no jornalismo de TV. A partir do próximo domingo (07/05), Profissão Repórter vira um quadro do Fantástico com 12 minutos. Se for bem, tem chances de virar programa fixo em 2007. E se tiver boa audiência e ‘não incomodar os poderosos’, Profissão Repórter poderá virar um programa fixo. Nada como o clima de campanha eleitoral na TV!’



DIRETÓRIO ACADÊMICO
Cassio Politi, 5/05/06

Histórias de Maurício Kubrusly pela Europa

‘Sim, esta semana a coluna é light. Não poderia ser de outra maneira. Perguntei ao personagem (ilustre) qual a história mais rica em bastidores que ele poderia me contar. Lembrou-se de uma ocasião em que o confundiram com Pedro Bial. E ele assumiu a identidade de Bial. ‘Mas essa história está no livro. Vou me lembrar de outra’. Ele se referiu ao livro Me Leva Brasil. Buscou na memória uma meia dúzia de histórias, todas invariavelmente divertidas. As gargalhadas devem ter atrapalhado os tão concentrados redatores do Fantástico e do Globo Repórter, que ocupam salas quase vizinhas.

* * * * *

Os gritos eram em alemão e vinham de uma mulher irritada. O repórter chegou a pensar que não fosse com ele e continuou caminhando na direção do balcão. Mas viu que era o causador da bronca que o funcionário da companhia aérea levava de uma colega de empresa. ‘Que será que eu fiz de tão grave?’.

– O problema é comigo? – perguntou, em inglês.

– Sim, o senhor entrou com o carrinho pelo lugar errado – respondeu o funcionário.

Maurício Kubrusly tinha entrado no caracol que orienta as filas de check-in dos aeroportos atravessando um dos cordões laterais. Afinal, o aeroporto estava completamente vazio. Mas a moça, uma suíça, estava histérica. Queria que ele percorresse todo o zigue-zague, mesmo vendo que o saguão inteiro estivava às moscas. Não fazia sentido. E a histeria não acabou aí. Haveria mais gritaria depois. A passagem pitoresca aconteceu no final do período de gravação da série ‘Me leva Suíça’, mês passado. Foram essa e outras passagens pitorescas por lá.

* * * * *

Perigo!

Poucos dias antes da confusão no aeroporto, Kubrusly e seu cinegrafista tinham ido até uma cidade do interior da Suíça. Mostrou que não há pessoas andando pela cidade durante o dia. É totalmente deserta. Teve de usar bons argumentos para convencer a funcionária do órgão de turismo local, que o acompanhava, a aceitar seu pedido.

– Olha… eu sei que isso é proibido… mas vou te pedir.

– O quê?

– Precisamos fazer uma imagem da cidade, de dentro do carro. Preciso que o cinegrafista se sente na janela do carro, com as pernas para dentro e os pés sobre o banco. O carro anda e ele filma dali.

– Mas isso é perigoso. É proibido!

– Eu sei, mas não tem policial na rua…

E assim convenceu a moça, que, apavorada, se sentou ao volante. ‘Aí eu só pedia para ela ir mais rápido. A mulher dirigira o carro a um quilômetro por hora!’, diverte-se.

Como é?

De volta a Zurique, Kubrusly passou ao motorista o endereço. Entraram numa rua, depois em outra e em outra. De repente, Kubrusly viu um outdoor. Tinha o corpo do Cristo Redentor e, em vez da cabeça de Cristo, a cabeça da Estátua da Liberdade.

– Pára aí! Pára e volta! Preciso ver que outdoor é aquele. A gente precisa fazer uma imagem daquele outdoor!

Normal para qualquer repórter de televisão. Menos na Suíça. ‘O motorista ficou completamente maluco. Ele não entendia essa mudança repentina de planos. Gerou uma confusão na cabeça dele. Eles não estão acostumados a essas coisas’.

Polícia

Maurício se lembrou de uma passagem ali do lado, na Alemanha. Estava marcada uma entrevista com um presidente de uma grande multinacional. O jornalista se atrasou. Ao se certificar do atraso de três minutos, uma funcionária da empresa telefonou para a polícia. Queria saber se havia acontecido algum acidente na cidade. Não era normal que alguém se atrase. ‘Para se ter uma idéia de como é isso, quando um compromisso está marcado para as 9 horas, o cafezinho é servido às 8h58’.

Nas semanas em que passou na Suíça gravando o Me leva Suíça, uma versão européia e pré-Copa do Me leva Brasil, Kubrusly se impressionou com o rigor dos suíços no que tange horário e cumprimento de regras. ‘O Brasil tem muito a aprender com a Suíça’, resume.

Fila fantasma

De volta à cena inicial. Eram seis e meia da tarde e Kubrusly decidiu ir para o aeroporto de Zurique. Pegaria o avião direto para São Paulo. Antes, aproveitaria para fazer compras pessoais nas lojas do saguão, antes de embarcar. O avião partiria depois das dez. Quando viu que o balcão da companhia suíça que o transportaria estava às moscas, o jornalista aproveitou para fazer o check-in. Foi aí que decidiu passar pelo cordão que isola a fila para o check-in, quando ela existe.

Ouviu atrás de si a gritaria de uma mulher de menos de 30 anos. Era a moça, histérica, brigando com o funcionário italiano. ‘Mas não tem ninguém na fila!’, espantou-se o jornalista. Veio o rápido diálogo. Ele decidiu ignorar o alerta de que estava furando uma fila que simplesmente não existia e foi em frente. Novos gritos em alemão surgiram. Ele olhou novamente para o italiano.

– Que foi agora?

– Ela está avisando que seu carrinho está na contra-mão.

Ou seja, o carrinho estava sendo puxado por ele em marcha-à-ré porque entrara na fila pela lateral. E calhou de ser puxado para trás em vez de empurrado para a frente.

– Avisa que o carrinho vai de ré mesmo.

E assim foi.

No ar

O primeiro Me Leva Suíça foi ao ar no último domingo, 30/04. Mostrou a pequena cidade de Weggis, às margens do lago de Lucerna, por onde passará a Seleção Brasileira antes de seguir para a Alemanha, onde disputará a Copa do Mundo.’



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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

Veja

Terra Magazine

No Mínimo

Comunique-se

Gazeta do Povo

Agência Carta Maior

Todos os comentários

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 6 E 7/05

Comunique-se

09/05/2006 na edição 380

CASO PIMENTA NEVES
Comunique-se

Júri condena Pimenta Neves a 19 anos de prisão, 5/05/06

‘O jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves foi condenado a 19 anos, dois meses e 12 dias de prisão pelo assassinato da ex-namorada, a também jornalista Sandra Gomide, ocorrido em 2000. A sentença foi anunciada na tarde desta sexta-feira (05/05) pelo juiz Diego Ferreira Mendes, do fórum de Ibiúna (SP).

O Júri condenou Pimenta Neves por homicídio duplamente qualificado, com os agravantes de motivo torpe e impossibilidade de defesa da vítima. No entanto, os jurados também decidiram, por unanimidade, que ele deve recorrer em liberdade.

Na saída do Fórum de Ibiúna (SP), em protesto, a família da jornalista Sandra Gomide saiu com o nariz pintado de vermelho, como palhaços. ‘Ele não foi preso porque tem dinheiro. Se fosse um coitado, iria direto para a prisão’, disse João Gomide, pai de Sandra.

As duas principais testemunhas de acusação, Marlei e Deomar Setti, também se indignaram com a decisão dos jurados de permitir que Pimenta Neves recorresse em liberdade. ‘Se algum dia isso acontecer com a minha filha, não vou procurar a Justiça. Vou fazer a Justiça com as próprias mãos’, disse, sendo aplaudida na porta do Fórum.

(*) Com informações do Globo Online, da Folha Online e da Agência Estado’



MERCADO EDITORIAL
Milton Coelho da Graça

Nossa mídia não está tão bem assim, 3/05/06

‘O GLOBO, com justo orgulho, festejou nesta quarta (3/5) uma pesquisa da Reuters em associação com a BBC, dando conta de que a mídia, no Brasil, é mais confiável do que o governo, enquanto a TV Globo e o próprio jornal foram indicados como as fontes mais confiáveis.

Mas o conjunto da pesquisa, caros amigos, é de entristecer. Entre os dez países onde a pesquisa foi realizada, em matéria de confiança na mídia o Brasil foi o penúltimo, ganhando apenas por dois pontos percentuais (45% x 43%) da Alemanha, onde o grupo Springer pontifica como rei mundial da imprensa amarela. Curiosidades a serem levadas em conta: 1.a percentagem obtida pela Globo (52%) só é batida pela emissora árabe Al-Jazeera, sediada em Oman e considerada porta-voz do terrorismo pelo governo americano; 2. A liderança da credibilidade da mídia ficou, pela ordem, com Nigéria, Indonésia e Índia.

Para saber mais, embarque neste link. Vale a pena.

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Clóvis e Janaína ajudam a entender

Nossa imprensa deu ampla e excelente cobertura sobre a crise do gás boliviano. Mas certamente empresários e parlamentares (especialmente da Oposição) foram ouvidos demais e, na maioria, só produziram confusão. Clóvis Rossi na FOLHA e Janaína Figueiredo no GLOBO ajudaram muito os leitores a entender todo o problema questão. Só vi na coluna do Clóvis a preciosa informação de que a Bolívia nos vende gás a um preço seis ou sete vezes menor do custo na Califórnia. E Janaína parece ter sido a única a ouvir Juan Ramón Quintana, Ministro da Presidência e cérebro número um do governo boliviano.

A Bolívia quer mesmo é um pouco mais de dindim pela sua maior riqueza e eu, sinceramente, tendo em vista que o petróleo bruto está custando mais de um dólar por barril, acho que ela tem razão.

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Clóvis também gosta de confundir

Clóvis também deflagra um debate sobre significados da palavra contrato, cujo integral cumprimento é sempre invocado por quem – é claro – esteja levando maior vantagem no acerto.

Para Clóvis, essa exigência ‘é coisa que os liberais hoje hegemônicos, sempre exigem’. E pergunta: ‘Que contrato? O contrato entre candidato e eleitor, que deveria ser sagrado na democracia. Morales (…) está agora fazendo apenas o que prometeu. (…) Democracia é assim.’ Isso também vale um bom debate, não?

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E a desembargadora ajuda o Clóvis

Para enriquecer a notinha anterior, tivemos outra notícia sobre contrato nesta quarta (3/5 – O Globo, Defesa do Consumidor). A desembargadora Cristina Tereza Gaulia, no Rio, aplicou o Código de Defesa do Consumidor e deu razão à pensionista Antonia Oliveira, que não está pagando um contrato de empréstimo com o Itaú. Antonia alegou que fez o empréstimo contando com os pagamentos de dois empregos, mas perdeu um deles e não pode mais pagar a prestação de R$ 424,19.

A desembargadora afirma que existe clara tentativa de enriquecimento ilícito do Itaú, porque, sabendo da situação difícil da cliente, cobra encargos e tarifas para movimentação da conta que Antonio somente usa para receber o salário e debitar a prestação. A pergunta é natural: contrato é sagrado ou tem limites?’



JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

Camisinha na garrafa, 4/05/06

‘‘Abro os vidros da janela/como

quem abre o veludo de uma

cena/’Boa noite, mar de Ipanema.’/

Velejas tanta luz durante o dia/ que

posso ver-te em meu escuro.’

(Claudio Mello e Souza in Passageiro do Tempo)

Camisinha na garrafa

Perplexo, abestalhado e, evidentemente, engulhado, Janistraquis leu no excelente Boletim do Consumidor, de Porto Alegre:

Pepsi indenizará consumidor que encontrou camisinha em garrafa de refrigerante.

Uma corte indiana condenou a fabricante de refrigerantes PepsiCo. a pagar indenização a um consumidor que provou ter encontrado uma camisinha dentro de uma garrafa da bebida. O tribunal considerou que o caso ‘raro’ representa riscos sérios à saúde pública e, por isso, ordenou que a empresa pague indenização de 100 mil rúpias (US$ 2.200) para uma fundação de defesa dos consumidores local, além de 20 mil rúpias (US$ 450) ao consumidor afetado.

Meu secretário suspirou:

‘Ainda bem, considerado, ainda bem que não aconteceu nem poderia acontecer no Brasil; afinal, aqui a população segue a orientação da igreja católica e não usa camisinha pra nada, nem pra sacanear os outros…’

Concordo e convido o honrado leitor a ler no Blogstraquis mais alguns detalhes do tenebroso acontecimento. Todavia, permanecerá sempre esta crudelíssima dúvida: a camisinha da Pepsi teria sido usada antes para ‘aquilo’ ou o terrorista apenas retirou-a do invólucro e fez o serviço?

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Inacreditável

A considerada Marly de Oliveira Santos, de Belo Horizonte, leu na coluna de Cláudio Humberto:

O Senado aprovou apelo de Eduardo Suplicy (PT-SP) para Lula pedir ao Iraque que não execute os assassinos do brasileiro Sérgio Vieira de Mello.

Marly não acreditou em tal excesso:

Será que é mesmo verdade? O senador Suplicy e o Senado não têm coisa melhor para fazer do que defender bandidos no Iraque?!?!?!

Janistraquis também ficou besta:

‘Dona Marly, acontece que a cada dia o Senado aperfeiçoa sua inutilidade absoluta; os anjinhos de lá deveriam, na verdade, escutar a opinião dos parentes de Sérgio Vieira de Mello antes de aprovar mais uma esquisitice deste ser absolutamente inacreditável que é Eduardo Suplicy.’

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Audiência

Até o presente instante (o colunista escreve às 23h30 de 3/5/06), Janistraquis recebeu 62, repito, sessenta e duas mensagens de considerados leitores que apontam o erro do apresentador do Jornal Nacional, Heraldo Pereira, o qual se despediu assim, naquela noite de segunda-feira, 10 de maio: ‘Uma boa noite para você e um bom domingo’.

Janistraquis festejou mais do que os militantes petistas diante da última pesquisa do Ibope em São Paulo:

‘Considerado, tais episódios não apenas confirmam a espetacular audiência do Jornal Nacional, como também o prestígio desta nossa coluninha…’

Rubro de modéstia, o colunista deseja um ótimo final de semana a todos vocês.

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Raro mestre

O considerado Mauro Santayana escreveu no Jornal do Brasil, sob o título Os outros nomes da UDN:

Mais uma vez os golpistas se reúnem. Quando um governo começa a distribuir renda, como no sistema escandinavo, a fim de sustentar um tímido ‘welfare state’, como faz Lula com o Bolsa-Família, contra ele se reúnem bacharéis e banqueiros, políticos, jornalistas e inocentes úteis.

Leia a íntegra do artigo no Blogstraquis e verifique: você pode até não concordar com uma linha sequer, mas são indiscutíveis a competência e a verve desse veterano jornalista e escritor cujo texto é sempre uma obra-prima. Santayana é um raro mestre.

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Baixada

Janistraquis leu no Panorama Econômico de O Globo, assinado pela considerada Míriam Leitão:

Petrobras e Repsol têm investimentos que representam um quarto do PIB boliviano, que é do tamanho do PIB de Duque de Caxias (RJ).

Sem nenhum intuito de ofender a nação vizinha, meu secretário concluiu:

‘Considerado, podemos dizer que a Bolívia é uma progressista cidade da Baixada Fluminense da América do Sul!’

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Bonner & Cia

Como a mídia noticiaria hoje a história de Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau? O considerado Symphronio Veiga reencontrou esta divertidíssima brincadeira que há tempos percorre a Internet e é conhecida de muitos. Porém, os que à própria ainda não foram apresentados, têm esta oportunidade no Blogstraquis.

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Robertão Porto

O Jornal dos Sports empobreceu suas páginas com o fim da coluna de Roberto Porto, ilustre botafoguense e um dos especialistas que mais conhecem futebol neste país. Ainda bem que sua competência continua firme em Loucos Por Futebol, da ESPN Brasil, o melhor programa esportivo da TV.

Janistraquis só lamenta que Loucos… seja quinzenal:

‘Deveria ser diário, considerado; é que a gente tanto aprende quanto se diverte com Marcelo Duarte, Paulo Vinicius Coelho, Celso Unzelte e o Robertão acima referido, que o cor-de-rosa Jornal dos Sports perdeu e deve estar pálido e até esverdeado de arrependimento…’

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De índio pra índio

Depois que Evo Morales fechou a siderúrgica do ex-marido de Luma de Oliveira e mandou o exército invadir as refinarias da Petrobras, Janistraquis enviou esta mensagem ao presidente Lula:

‘Sugiro ao considerado que escale o cacique Raoni (que também é pajé) para ir à Bolívia conversar com o líder cocaleiro. Ambos são índios e, imagina-se, devem se entender muito bem.’

É boa idéia. Precisamos tratar Evo com todas as honras, pois hoje em dia índio quer mais do que apito.

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Delírios

A propósito de evos, morales e apitos, leia no Blogstraquis o sensacional texto de Elio Gaspari intitulado A diplomacia do trivial delirante. Começa assim:

É do chanceler Celso Amorim o qualificativo ‘nosso guia’ para designar a clarividência diplomática de Lula. Bajulá-lo, elevando-o à condição de líder mundial, faz parte do ritual de oferendas-companheiras. O senador Aloizio Mercadante, por exemplo, escreveu que ‘não há líder no planeta que não queira se reunir com ele para trocar idéias e percepções sobre a construção do futuro’. ‘Em nossa região, a maioria dos chefes de Estado busca seu conselho.’ Será que foi o caso de Evo Morales?

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Cortaram tudo…

Debaixo do assustador título Castrado por engano, chinês recebe pequena fortuna de indenização, Janistraquis leu na Folha Online:

PEQUIM, 2 maio (AFP) – Um chinês receberá meio milhão de iuanes – US$ 62.000 – de danos e prejuízos depois de ter sido castrado por engano em um hospital do norte do país, informa a imprensa local nesta terça-feira.

Meu secretário tem certeza de que passaram a perna no infeliz:

‘Considerado, não divulgaram a idade do chinês, o que é falha gravíssima em notícia com esse teor; e se o sujeito era jovem e ainda daria no couro por longos e longos anos? Porém, uma coisa é certa: se a tragédia tivesse acontecido comigo, garanto que não admitiria indenização de menos de US$ 62.500,00!!!’

(Leia no Blogstraquis a íntegra da lamentável notícia.)

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Falsidade

Quando soube da anunciada greve de fome do ex-governador do Rio, Janistraquis comentou:

‘Considerado, o elemento quer apenas juntar o útil ao agradável; como precisa reduzir aquela barriga, deixa de comer e ceva o regime alimentar com os princípios éticos que nunca teve.’

É mesmo. No ex-governador, até o apelido/sobrenome é usurpado; como todos sabem, o ‘verdadeiro Garotinho’ é o excelente locutor esportivo da Rádio Globo, José Carlos Araújo.

Morram!

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no Planalto, de cujo banheiro é possível assistir à festa dos deputados que elegeram a safadeza como norma regimental, pois mestre Roldão aliviava os arquivos quando reencontrou esta notinha do Correio Braziliense, com o título de A luta contra o mal.

Na ocasião (27/1/06), escreveu nosso homem em Brasília:

A matéria trata do combate à hanseníase no Brasil. Cita uma entidade denominada Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase e dá a sigla misteriosa: MOHRAN, que dificilmente alguém conseguiria associar ao nome da ONG. Falada, as pessoas entenderão: ‘MORRAM’.

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Nota dez

A professora Iracema Torquato escreveu a Victor Hugo:

(…) Os miseráveis estão em toda parte, sim. O seu livro, Hugo, continua vivo e útil como nunca. Aqui, fazem da cultura do silêncio, da calúnia, simulacros (cópias de cópias) de terceira categoria: aqui reina a ditadura dos prepotentes e dos dissimuladores. Vencer e vencer. Sucesso e sucesso no mercado: eis o lema pobre que impera aos que acreditam que podem proteger-se e regulamentar uma classe profissional, via incompetência, escondendo-se atrás da exigência de um diploma de jornalismo.

É claro que todos já leram esse artigo/desabafo escrito por uma profissional de alto nível e excelente caráter, mas é importante que também fique registrado aqui.

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Errei, sim!

‘SEXO PESADO – Aviso da nossa considerada Folha de S. Paulo a futuros vestibulandos: Sexo pode pesar na hora da opção. É verdade. Janistraquis garante que já viu muitos rapazes a carregar o sexo num carrinho de mão, na porta da PUC, depois de, inadvertidamente, optarem pelo curso de Jornalismo. (julho de 1991)’



WEBJORNALISMO
Mario Lima Cavalcanti

Editor-chefe do JB Online detalha mudanças no site, 5/05/06

‘Há cerca de duas semanas, o JB Online, considerado o primeiro jornal virtual brasileiro na Internet, estreou seu novo layout acompanhando a também recente reforma gráfica da edição impressa. Aparentemente caminhando em uma mão diferente da dos outros diários digitais, o JB Online acredita estar num bom caminho com a nova mudança que é, sem dúvida, a maior já feita pelo jornal desde o seu lançamento na Internet, em 1995.

Em entrevista para a coluna Jornalismo Online, o editor-chefe do JB Online, Alexandre Fontoura nos fala sobre as mudanças e as metas da nova versão do diário. Aos 26 anos, ele é o jornalista mais antigo do veículo, com seis anos no veículo, mais da metade do tempo de existência do site.

Jornalismo Online – Quais os motivos e os objetivos da reforma do JB Online?

Alexandre Fontoura – Sem a menor dúvida, essa foi a nossa maior mudança e uma mudança bem radical se compararmos com os outros sites de jornal. Fizemos uma reestruturação completa, incluindo a Edição Eletrônica, formato pelo qual o leitor pode ler, página por página, a edição do jornal impresso na Web. Houve também uma mudança na faixa etária. Agora, o JB Online está mirando um público mais jovem.

Jornalismo Online – Em se tratando da parte gráfica, o site parece ter escolhido um caminho diferente da maioria dos jornais virtuais, optando por um desenho nada parecido com a versão anterior e pouco visto nesse tipo de veículo. Gostaria que explicasse esse novo layout.

AF – Procuramos fazer um design clean, moderno e dinâmico. A barra de rolagem lateral diminuiu muito. O site está mais objetivo e o leitor chega onde quer com menos cliques. Estamos fazendo uma aposta e os primeiros sinais já mostram que estamos no caminho certo. Além do mais, a resposta que temos da Edição Eletrônica superou as expectativas, da aceitação dos leitores até o número de acessos muito acima do esperado.

Jornalismo Online – Quais são os conteúdos que os leitores encontram somente na versão online? Existem áreas fechadas, que exijam cadastro ou assinatura paga?

AF – Conteúdo exclusivo online: Café Literário, Sala de Cinema, Games, Interface (canal sobre arte e tecnologia), moda, mobile (para receber notícias por SMS e, em breve, por PDA [Assistente Pessoal Digital, como um palmtop]), música, JBlog. Não existem áreas fechadas. Vamos voltar a pedir apenas, em alguns momentos, um cadastro para conhecermos melhor nossos leitores online.

Jornalismo Online – Aproveitando o assunto, qual a sua opinião sobre conteúdo pago na Internet?

AF – A Internet cultivou uma cultura do gratuito. A pergunta que os internautas fazem é: por que vou pagar por algo que eu posso conseguir de graça? Aliás, muitas vezes o ‘de graça’ é ainda mais prático e rápido do que o pago. Mas isso é uma visão geral da coisa. Só que a cultura do gratuito acaba esbarrando no conteúdo pago. Acho o conteúdo pago uma opção válida quando se tem um grande diferencial. Sempre vão existir as duas formas de conteúdo, assim como existem na TV.

Jornalismo Online – O que os leitores podem esperar do novo JB Online em termos de acessibilidade e de funcionalidade? No decorrer do desenvolvimento do site vocês chegaram a pensar, por exemplo, nos usuários cegos?

AF – Todo o conteúdo será acessível com, no máximo, três cliques. Sobre os cegos, não fizemos especificamente nada para eles, mas existem navegadores que lêem o conteúdo, que pode ser usado, por exemplo, para ler o Tempo Real [a seção de últimas notícias do JB Online].

Jornalismo Online – Estamos praticamente vivendo o chamado quarto estágio do jornalismo online, no qual um espaço para um maior poder de interação e de participação do leitor é quase que obrigatório. Qual a sua opinião sobre os jornais de colaboração participativa, como o OhmyNews? Ainda nesse contexto, como o JB Online pretende dar voz aos leitores?

AF – A interatividade é um dos grandes diferenciais da Internet. Temos hoje os fóruns e enquetes, que o jornal impresso também usa e publica opiniões. Por exemplo, na coluna 24 horas, da Ana Maria Tahan, há uma parte exclusiva para participação dos internautas. O leitor no JB Online cada vez tem mais espaço para expor suas opiniões e comentários. Sobre o jornalismo participativo, pensamos em adotá-lo também, mas ainda estamos fazendo umas experiências.

Jornalismo Online – Como seria essa possível experimentação do jornalismo participativo? Vocês já têm algo no papel?

AF – Isso é uma idéia que partiu de mim e que já está encaminhada. Estou fazendo alguns testes junto à equipe de tecnologia, que conseguiu um software adequado pra esse tipo de conteúdo, e já conversei com a diretoria, que disse que eu posso continuar tocando os testes. O JB Online já possui algumas áreas que permitem uma participação mais ativa do leitor, como o JBlog, mas tenho a idéia sim de implementar uma seção de jornalismo participativo com todas as funções que conhecemos, onde o leitor participa da produção de notícias, vota e as notícias com maior número de votos aparecem com destaque. Acho importante porque mistura dois pontos fortes do meio, que são a interatividade e a democracia. Temos em mente isso tudo, mas, claro, sem deixar de lado o conteúdo jornalístico produzido por nossa equipe.

Jornalismo Online – O que você considera ser o principal trunfo do novo JB Online? Em outras palavras, o que mais o motiva a acreditar que estão no caminho certo?

AF – A mudança veio muito da diretoria. Obviamente, quando o novo site foi ao ar recebemos elogias e críticas. O site passou por problemas na primeira semana e publicamos uma mensagem deixando isso claro, dizendo que estávamos providenciando melhorias. O que mais me motiva são os números [não divulgados] de page views do site e de acesso à Edição Eletrônica, que não caíram. Pelo contrário, aumentaram um pouco. A Edição Eletrônica, um produto que antes não existia, está dando bons resultados. Como eu disse, a mudança veio da diretoria, em especial do Amauri Mello [diretor de conteúdo e de convergência de mídias do JB Online. Já trabalhou no Globo.com e sua última passagem foi no jornal O Dia]. É uma aposta que eles estão fazendo. E estamos todos observando os resultados.’



MERCADO EDITORIAL
Eduardo Ribeiro

Quatro temas em destaque, 3/05/06

‘Na coluna desta semana, quero destacar quatro temas que foram notícias na edição impressa deste Jornalistas&Cia.

O primeiro deles foram as contratações de três nomes do primeiro time do jornalismo pelo Correio Braziliense/Estado de Minas, todos para reforçar a reportagem e garantir aos dois jornais do condomínio dos Diários Associados informações de qualidade, belas matérias, uma ambiciosa cobertura das eleições (e de outros temas relevantes da política brasileira) e leitores satisfeitos. Um dos que chegam é Gustavo Krieger, chefe de Redação da Época, que bateu o martelo na tarde desta 3ª.feira com o diretor de Redação, Josemar Gimenez. ‘Foi um convite irresistível, sobretudo pela oportunidade de voltar à reportagem e de integrar uma das melhores equipes do País’ diz, lembrando que foi uma decisão difícil, tendo em vista o trabalho que vinha realizando nesta sua segunda passagem por Época, onde estava já há dois anos e meio. Outro que chega é Amaury Ribeiro Jr., vencedor, no início da década, dos mais importantes prêmios de jornalismo do País (Esso e Embratel, entre outros), que estava há pouco mais de um ano na sucursal da IstoÉ, em Brasília. Amaury já esteve no Correio, foi de O Globo e agora volta para ser correspondente do jornal no Rio de Janeiro. O terceiro contratado é Gilberto Nascimento, que será correspondente do jornal em São Paulo. Gilberto também é detentor de vários prêmios, sobretudo no campo da infância e adolescência, e é outro que deixou recentemente a IstoÉ, em São Paulo, onde era editor. Ele e Amaury vão se instalar nos escritórios que o Correio mantém nas capitais paulista e carioca, por conta da atividade comercial.

O segundo assunto que gostaria de destacar é a saída do Senac – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial da STV, emissora que nasceu como TV Senac e que, mais tarde, com a entrada do Sesc – Serviço Social do Comércio, ganhou o atual nome de STV. As negociações vinham sendo feitas desde janeiro e objetivavam transferir a gestão para o Sesc. A decisão oficial foi anunciada na última 6ª.feira (28/4) e com ela as demissões de parte da equipe. Saem a diretora Geral Sandra Cacetari e o diretor de Programação Róbson Moreira (quevenhaosaci@hotmail.com), ambos fundadores da STV dez anos atrás, e também Adriana Veríssimo, Juliana Rodrigues, Bia Savone e Estela Leopoldo. Caberá agora ao Sesc fazer as nomeações e ajustes necessários, de modo a ter uma tevê inteiramente ao seu estilo.

Outro assunto relevante é a nova obra sobre o Padre Landell de Moura, que chega às livrarias nesta primeira quinzena de maio, pela Editora Record. O título diz tudo: Padre Landell de Moura: um herói sem glória. O brasileiro que inventou o rádio, a TV, o teletipo…, de autoria de Hamilton Almeida. A noite de autógrafos está sendo programada para 8/6, na Livraria Cultura, da Av. Paulista. Esta avenida, aliás, está ligada à história do Padre Landell, como muito bem sabem os gaúchos, vários deles se manifestando nesse espaço quando em duas outras ocasiões abordei o tema. Foi lá que ele realizou suas experiências, transmitindo, pela primeira vez no mundo, a voz humana à distância, sem fios, até o alto de Santana, numa distância aproximada de 8 quilômetros. Enquanto o italiano Guglielmo Marconi se consagrava como o inventor do telégrafo sem fio (radiotelegrafia), o padre-cientista Roberto Landell de Moura exibia, no final do século XIX, aparelhos capazes de transmitir não só sinais de código Morse à distância, sem fios, mas também a voz humana, música e quaisquer outros ruídos. Ele é o verdadeiro inventor do rádio. Padre Landell realizou várias experiências públicas, com o intuito de conseguir patrocinadores para a industrialização das suas invenções. Obteve patentes no Brasil (1901) e nos Estados Unidos (1904), mas nem assim foi reconhecido. Pior: foi ignorado. Acusado de ter pacto com o diabo, destruíram seus aparelhos. Além da invenção do rádio, o padre-cientista projetou a televisão e o teletipo ou o controle remoto pelo rádio. Chegou a prever as comunicações interplanetárias e ainda descobriu e fotografou o chamado efeito Kirlian. Almeida, que começou a pesquisar sobre a vida do Padre Landell há 30 anos, já publicou outros livros sobre o assunto, incluindo um na Alemanha – Pater und Wissenschaftler (Debras Verlag, 2004). A obra atual reúne a pesquisa mais completa. Narra em detalhes a vida do Padre Landell, descrevendo o contexto sócio-cultural da época (pouco favorável à produção científica). Relata como transcorreu a implantação da comunicação sem fio no Brasil (o que deixou o cientista brasileiro à margem da história, mesmo tendo um invento mais aperfeiçoado nas mãos) e compara a invenção do Padre Landell com a de Marconi. O prefácio é do astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, que considera a obra importante para se refletir sobre as condições humanas do cientista no Brasil. O professor emérito da USP José Marques de Melo comenta que essa aventura investigativa é um retrato sem retoque de um injustiçado cientista. O livro procura resgatar, enfim, o lugar que cabe ao Padre Landell na história das telecomunicações.

O último assunto é a volta às lidas da reportagem do bravo Marcelo Auler, no Rio de Janeiro. Marcelo acaba de ser contratado pelo Estadão, convidado que foi por Sueli Caldas, entrando numa vaga aberta desde a transferência, no início do ano, de Luciana Nunes Leal para a sucursal de Brasília. Auler estava afastado da reportagem há cerca de quatro anos, desde que saiu de O Dia. Antes disso, foi da Veja (aí ganhou dois prêmios Esso), Gazeta Mercantil, Folha de S.Paulo, Jornal de Brasília e sucursal do JB em Brasília, e Manchete. Estava agora na direção da TV Alerj, onde entrou no ano passado, após deixar a assessoria da Dataprev.

Aproveito para lembrar a todos que nesses próximos três dias estarei, com a equipe do J&Cia e da Mega Brasil, mergulhado no 9º Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, ao lado de aproximadamente 500 profissionais de todo o País. Vai ser uma maratona, uma agradável maratona. Assim espero.’



SUZANE & MÍDIA
José Paulo Lanyi

Richthofen continuará na prisão, 4/05/06

‘Suzane Richthofen permanecerá na prisão. Nesta quinta-feira, o Tribunal de Justiça de São Paulo anunciou dois dos três votos do pedido de concessão de habeas corpus pleiteado em benefício da acusada, que confessou a sua participação no assassinato dos seus pais, o engenheiro Manfred e a psiquiatra Marísia Von Richthofen, na casa de sua família em São Paulo, em outubro de 2002.

Dois dos integrantes da Quinta Câmara Criminal, desembargadores José Damião Pinheiro Machado Cogan e Carlos Biasotti, rejeitaram o pedido de habeas corpus. O terceiro membro do colegiado, desembargador Antonio Carlos Tristão Ribeiro, pediu vistas do processo. Ainda que, daqui a uma semana, ele vote a favor da soltura, o resultado será desfavorável a Suzane.

Os desembargadores Cogan e Biasotti entenderam que, solta, Suzane poderá fugir, um mês antes de seu julgamento pelo Tribunal do Júri, marcado para 5 de junho.

Relator do habeas corpus, Cogan também considerou que a entrevista concedida por Suzane ao programa Fantástico, da Rede Globo, reacendeu a animosidade do público contra a acusada – reação que, conforme o desembargador, havia sido amenizada durante os dois anos em que ela esteve presa.

A decisão também leva em conta a integridade física de Suzane. De acordo com o relator, a entrevista ao Fantástico ‘tornou atual a ira pública, como se vê do número de pessoas que acorreram para ver sua transferência do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa e que a assediaram’.

Em outro trecho em que fundamenta o seu voto, o desembargador considera que ‘o panorama é sombrio, sua segurança, caso seja libertada, não pode ser garantida, já que as entrevistas tornaram públicos os locais em que se recolhia. Assim a fuga se apresenta como provável às vésperas do julgamento’.

Críticas ao Fantástico

O desembargador José Damião Pinheiro Machado Cogan criticou a reportagem do Fantástico, exibida em 9 de abril. A divulgação das instruções do advogado Mário Sérgio de Oliveira à Suzane Richthofen foi, de acordo com o relator, uma ‘evidente infração ética’:

‘Em determinado momento, enquanto conversava reservadamente com seu advogado, os repórteres que haviam acordado a entrevista passaram a gravar a conversa de ambos, colocando-a no ar em seguida. Uma das vezes ocorreu em local aberto e outra no interior de residência, estando os repórteres na parte externa da mesma. Tal fato é evidente infração ética, já que a comunicação entre o acusado e seu defensor se encontra acobertada pelo sigilo funcional, como se verifica pela aplicação analógica do art. 207, do Código de Processo Penal. Não cabia aos profissionais que organizaram a entrevista divulgar ou tomar conhecimento indevido de qualquer conversa entre a paciente e os advogados que a orientavam, já que tais atos estavam acobertados pelo sigilo profissional’.

Em reforço à sua análise, o desembargador citou um jurista de renome, autor de trabalhos doutrinários acerca do papel do Jornalismo em casos análogos:

‘Ensina Darcy de Arruda Miranda que ‘o jornalista no seu magnífico sacerdócio deve ser sereno como um juiz, honesto como um confessor e verdadeiro como um justo’. (…) ‘A liberdade que se lhe outorga através de preceitos constitucionais e de lei ordinária é tão grande como a responsabilidade que lhe impõe o dever de compreendê-la e aplicá-la. Errar, só de boa fé’.

(…) ‘O gosto do sensacional e o prazer do ‘furo’ jornalístico devem sofrer as restrições que o bom senso indica e o momento ou as circunstâncias comportem. A opinião pública, definida como aquilo que pensa o povo em geral (Littré), ou o acordo dos espíritos sobre todas as coisas que interessam aos homens, é instável como as nuvens, variável como o tempo e despertável como o vento. A imprensa nem sempre a interpreta, condu-la. E nesta orientação está a sua maior responsabilidade, sua grande missão’. (Comentários à Lei de Imprensa, Volume I, RT, 1969, São Paulo, págs. 44/45).

(…) ‘…A má imprensa não só lesa interesses jurídicos e morais das pessoas a quem afeta a publicidade caluniadora ou escandalosa, como também corrompe, progressivamente, sentimentos de moralidade média da sociedade, engendra uma espécie de curiosidade e animosidade mórbidas no público…’ (ob. cit. pág. 39).

Clique aqui para ler a íntegra do voto do relator.’



GAROTINHO EM GREVE
Carlos Chaparro

Cuidado com as greves de fome!, 4/05/06

‘O XIS DA QUESTÃO – A propósito da greve de fome do sr. Garotinho, é oportuno falar das complexidades que envolvem as relações entre redações e fontes. E lembrar que o relato jornalístico (produto final oferecido aos cidadãos) deve ter cuidados e rigor com quem produz fatos e oferece falas, para a notícia. Ou, em outras palavras, sacudir a preguiça intelectual que leva as redações à mera reprodução e socialização dos discursos particulares.

1. Insólito pretexto

Quando as arengas da disputa presidencial começaram a tomar conta da pauta jornalística, decidi evitar na coluna temas e abordagens que, de alguma forma, envolvessem ajuizamentos sobre os potenciais candidatos e seus comportamentos. Mas esta greve de fome do sr. Garotinho me obriga a trair o compromisso auto-assumido. O ato, e as pretensões da greve, chamam a atenção pelo inusitado e pela tolice. Certamente também pela incoerência, já que, para protestar contra ‘a ditadura da imprensa’, o sr. Garotinho armou um show à base do insólito, exatamente para ser notícia. Ora, se – como se queixa – a Veja e a Rede Globo lhe negam o ‘direito de resposta’, porque não vai à Justiça em busca da garantia desse direito? Ou, se nada tem a esconder, porque simplesmente não esclarece com dados inquestionáveis essa estranha história de Ongs alimentadas por verbas públicas, sem licitação?

Para efeito da análise que pretendo fazer, pouco importam as formas e razões (tanto as simuladas quanto as verdadeiras) da greve de fome do sr. Garotinho. Embora lamente o fato de o jornalismo se deixar levar na conversa, atribuindo ao deprimente ‘espetáculo’ importância e significado que não tem, a greve de emagrecimento do sr. Garotinho não estará em causa no texto a escrever. Servirá, apenas, como pretexto para se falar das complexidades que atualmente envolvem as relações entre redações e fontes. Com ênfase especial nos cuidados que o relato jornalístico (produto final oferecido aos cidadãos) deve ter com a qualidade e a confiabilidade de quem produz fatos e oferece falas, para a notícia.

Ou seja: cuidado com a qualidade das fontes, que se pressupõe devam ser confiáveis, nas ações como nas intenções.

2. Face nova

A qualidade das fontes sempre foi preocupação essencial dos bons jornalistas, desde que, no início do século XVIII, Samuel Buckley, editor do primeiro jornal diário político do mundo (o inglês Daily Courant – 1705/1735), introduziu na cultura jornalística o conceito de ‘acurácia’, termo importado da Física para significar que a qualidade notícia, como produto, resultará do rigor dos procedimentos preliminares. Se tudo for feito correta e adequadamente, o resultado será inevitavelmente bom.

No entendimento de Buckley, a aplicação do conceito ao jornalismo apontava para as fontes: o segredo da boa notícia é a boa fonte. Logo, sem boas fontes não haveria boas notícias. Assim, a norma básica de rigor que, no Daily Courant, orientava os repórteres, era a de terem cuidado com a seleção das fontes.

A norma virou lição. E, como lição, atravessou séculos. Até três ou quatro décadas atrás, todos acreditávamos que bom repórter era, em primeiro lugar, aquele que tinha boas fontes. Avaliava-se um repórter, também, pela extensão e qualidade da sua agenda de fontes.

Nesse tempo, as fontes organizadas praticamente não existiam. Mesmo as entidades que tinham assessoria de imprensa ou departamentos de Relações Públicas, limitavam-se a atividades e procedimentos de bom relacionamento com a imprensa – mais visando a ‘não publicação’ do que a publicação de notícias.

Sem fontes organizadas, as boas redações se esmeravam em mecanismos e rotinas de captação de ocorrências, para que nada de importante escapasse. Organizavam-se e azeitavam-se redes de pescaria de fatos, para a elaboração de pautas em cima do que estava acontecendo ou poderia acontecer. Assim, mais do que com fontes oficiais (que pouco falavam), editores, pauteiros e repórteres trabalhavam com fontes informais (humanizadoras), fontes de referência (sábias), fontes de aferição (independentes), fontes documentais (de boa origem), fontes bibliográficas (reconhecidas) e, principalmente, fontes aliadas, cúmplices, estrategicamente localizadas e com as quais se estabeleciam relações de recíproca confiança.

Depois que a conflitante combinação democracia-cidadania-mercado-tecnologia institucionalizou os sujeitos da atualidade, as fontes se organizaram. Deixaram de ser simples detentoras de informações ou saberes que interessam ao jornalismo, para se tornarem competentes instituições produtoras de acontecimentos e falas noticiáveis. Passaram a usar a notícia como um agir tático integrado em estratégias nem sempre perceptíveis, para conflitos complexos, como esse em que o sr. Garotinho está envolvido. E fazem da notícia a sua principal ferramenta de agir no mundo e sobre o mundo.

Para o jornalismo, as fontes organizadas tornaram-se geradoras de conteúdos. Para socializar seus conteúdos, criaram e profissionalizaram interfaces profissionais com a mídia jornalística. Assumiram lugar próprio no espaço do jornalismo. Desenvolveram competência discursiva: sabem o que dizer, como dizer, quando dizer e como socializar o que dizem. E tornaram-se (em média) responsáveis por 95% do noticiário que chega à sociedade.

Ou seja: deram face nova à atualidade e ao jornalismo.

3. Momento de crise

Como já tantas vezes aqui escrevi, para a democracia e para a cultura, é ótimo que os sujeitos sociais tenham adquirido capacidade de dizer e que se tenha estabelecido no mundo essa pluralidade de vozes competentes.

Mas o jornalismo vive um momento de crise – e me refiro ao jornalismo simbolizado nos compromissos que as redações têm com a sociedade, de a informar e esclarecer de forma confiável, honesta, independente.

Uma das razões da crise é a preguiça intelectual das redações. Os conteúdos chegam prontos, recheados de sabores e encantos, como esse da greve de fome do sr. Garotinho. Assim, cai-se na mera reprodução dos discursos particulares (no cenário atual, discursos institucionalizados), com a aceitação dos significados que os próprios produtores dos acontecimentos propõem. E entrega-se quase todo o espaço às fontes organizadas, sem investigar, sem fazer a polêmica, sem fomentar a divergência, sem organizar nem oferecer referenciais críticos à discussão pública.

Não se trata de rejeitar ou repudiar a ação as fontes organizadas, até porque, sem o vigor dos discursos particulares, não há o que fazer ou dizer na narração e na argumentação jornalística. Hoje, é pelas fontes organizadas que o mundo fala e faz os seus conflitos. Porém, o jornalismo, simbolizado nas redações e em seus veículos, não pode renunciar tão facilmente ao papel de linguagem narradora independente, crítica, socialmente confiável.

Para o ser, não precisa nem deve limitar a ação das fontes organizadas. Mas tem de recuperar, e reintegrar ao método jornalístico, a contribuição das fontes relegadas ao esquecimento pela preguiça intelectual – as informais, as de referência, as de aferição, as aliadas, as documentais e as bibliográficas.

Só assim, articulando a pluralidade das fontes, o jornalismo elucidará os conflitos e socializará conhecimento.

Quanto ao sr. Garotinho, meus votos de fome saciada.’



TELEVISÃO
Antonio Brasil

Big Brother Repórter, 5/05/06

‘No domingo (30/04), o Fantástico anunciou um novo quadro: Profissão Repórter. A nova atração tem o repórter investigativo Caco Barcellos à frente de seis jovens jornalistas recém-formados. Segundo a divulgação, ‘eles vão cobrir determinado assunto simultaneamente para mostrar pontos de vista diferentes sobre um mesmo assunto’. O quadro também promete saldar uma velha dívida: ‘O público vai poder ver cenas que não são mostradas no telejornal. Vamos mostrar nossas dúvidas, incertezas, conflitos e decisões que envolvem ética também’, afirma Caco. É, pode ser.

Deve estar havendo uma onda de ‘revelações e transparência’ nas empresas Globo. Na segunda-feira (01/05), também foi anunciada a seção ‘Os bastidores de uma redação de jornal – A história por trás das histórias do Globo’ (ver aqui).

O objetivo do jornal é ‘dividir um pouco com seus leitores a maneira como ele é feito, os detalhes das grandes reportagens, o funcionamento das editorias, os bastidores da nossa redação, as opções que adotamos, a forma como trabalhamos. Tudo para, com transparência, aproximar ainda mais O Globo dos seus leitores’. Quem diria? Deve ser o clima das eleições ou o clamor do passado.

Em artigo publicado em 2001, ‘Casa dos Jornalistas’ propus um reality show parecido e descrevia a proposta: ‘Agora, só falta inventar a Casa dos Jornalistas. Do jeito que as coisas andam, daqui a pouco ainda vai aparecer algum holandês com a idéia de criar uma redação de mentirinha, contratar alguns colegas e produzir uma Casa dos jornalistas. Pensando bem, até que ia ser engraçado’. (ver aqui).

E durante o V Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, em Porto Alegre, 2002, divulguei um programa semelhante de transparência no jornalismo televisivo para a TV UERJ online:

‘O nosso projeto mais novo é Casa dos Jornalistas. Mas não se trata de mais um reality show com 12 jornalistas que ficam falando bobagens. A intenção é através de reality show mostrar os bastidores de um telejornal como forma de facilitar o aprendizado e o ensino do telejornalismo, além de estabelecer uma maior transparência na prática profissional. Nós temos tecnologia para te mostrar como é a redação funcionando o dia inteiro antes de entrar no ar…’

‘A maioria das pessoas não vai querer saber o que é uma reunião de pauta mas os alunos de telejornalismo ou de jornalismo provavelmente gostariam de ver a reunião de pauta do JN que está acontecendo agora, neste instante. Isso é conceito novo de telejornalismo, é transparência na produção de notícias. Eu acho que isso pode ser considerado meio utópico mas não custa nada sonhar.’

(BRASIL, em declaração no Fórum de Professores, em 29/04/2002, citada em ‘As primeiras experiências brasileiras de telejornalismo na Web’ da Universidade Comunitária Regional de Chapecó. Curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo. Chapecó, SC, 2002).

Valeu, Andréa Mello!

Público não é bobo

Mas não se preocupem. Ao contrário do Walter Salles, não vou perder tempo e acusar a Globo de plágio. Pelo jeito, lá, isso é normal. Segundo seus diretores, acusações semelhantes não passam de ‘mal entendidos’ e devem ser sempre resolvidas ‘amigavelmente’. (Para ler sobre as acusações de plágio na novela ‘Cobras e Lagartos’ clique no link para a coluna da semana passada ao final do texto). Bem sabemos que ‘Em televisão nada se cria. Tudo se copia’.

Mas essa tal promessa de ‘transparência’ na produção do conteúdo dos telejornais vem em boa hora. Mas deveria ser uma norma, prática profissional de jornalismo de qualidade ao invés de ser jogada promocional de marketing televisivo em ano de campanha eleitoral. Transparência na produção de telejornais deveria ser uma exigência da sociedade brasileira.

Afinal é sempre bom lembrar que TV é uma ‘concessão pública’ e jornalismo televisivo é ‘prestação de serviços’ prevista em contrato com essa mesma sociedade. O conteúdo e a produção dos telejornais deveriam ser sempre supervisionados por instituições independentes e idôneas. Isso não é sonho ou utopia. É questão fundamental para a sobrevivência da democracia.

Monitorar os limites dos jornalistas deveria ser tão importante como garantir seus direitos. O público não é bobo, e como em qualquer reality show, nos observa atentamente e tende a se afastar de um jornalismo que não garante credibilidade ou seriedade. Mera questão de tempo, educação e maturidade política.

Seleção ou panelinha?

O projeto Profissão Repórter, no entanto, promete e está em boas mãos. Caco Barcellos é um dos melhores repórteres investigativos da Globo. Fazia falta no Brasil. Era um enorme desperdício na Europa, meio perdido na cobertura internacional. Obviamente, não é a sua praia.

Agora, de volta ao Fantástico, desenvolve esse projeto promissor e, quem sabe, educativo. Tinha mesmo que ser produção do Fantástico. Na matéria publicada pelo jornal O Globo de domingo (30/04), ele diz que ‘a realização deste quadro é um projeto bem antigo. Eu gosto da narração por diversos ângulos, mas sempre focando o mesmo assunto. E para cobrir tudo isso, precisamos de muitos repórteres’. Eu acrescentaria muitos repórteres e muito dinheiro.

Sobre a participação dos jornalistas ‘recém-formados’ em Profissão Repórter, Caco diz que a média de idade dos participantes é de 25 anos. ‘A minha expectativa é de que o programa apresente novos caminhos para a reportagem. Que os novos repórteres se convençam de que o melhor jornalismo se faz mesmo é nas ruas’, destaca. ‘Eles estão todos entusiasmados e apreensivos também. Todos participam de todas as fases: escolha de pauta, apuração, gravação na rua, iluminação, entrevistas e edição. A cada programa há um ou dois desafios postos aos grupos’.

Mais uma vez, eu pergunto ao Caco: Como esses jornalistas recém-formados foram selecionados? Quem são? Foi seleção no estilo ‘panelinha’ ou QI, quem indicou? Já que se cobra tanto honestidade e transparência de políticos, só queria saber. Afinal, não tive qualquer informação sobre essa ‘seleção’ de talentos. E perguntar, não custa!

Greve de fome

Sobre outra questão delicada para as empresas Globo, a participação do novo quadro nas campanhas eleitorais ou como mostrar os bastidores de um noticiário político, Caco Barcellos, jornalista experiente, sai pela tangente: ‘Ainda não enfrentamos esse desafio. A gente não lidou com nenhum tema relacionado à campanha política, mas quando surgir teremos que discutir sobre isso’. Faz sentido.

Na mesma entrevista, ao falar sobre o conteúdo das reportagens do Profissão Repórter, Caco diz que ‘são questões que ajudam o telespectador a compreender melhor os fatos. A sociedade está cada vez mais atenta. O jornalismo está cada vez mais centrado em reportagens acusatórias. Isso envolve danos contra a honra. É preciso ser ético, dar uma oportunidade de resposta.’ Entendi.

Deve ser por isso que o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho anunciou com alarde neste mesmo final de semana ‘greve de fome’ em protesto contra as denúncias do jornalismo da Globo e da Veja. Aqui entre nós, ele estava mesmo precisando de um regime. Mas Garotinho se diz perseguido, exige supervisão internacional para as eleições presidenciais no Brasil e ‘direito de resposta’ na grande mídia, ou seja, na Globo e Veja.

Talvez Garotinho devesse falar direto com o Caco Barcellos ou com o novo contratado da Globo, o ex-assessor de imprensa da presidência da República do governo Lula, o jornalista Ricardo Kotscho (clique no link ao final do texto para ler matéria do Comunique-se com o ex-assessor). Como consultor do Projeto Globo & Universidade, ele deve fazer uma ponte entre as instituições de ensino superior do País e o mercado de trabalho. Ou seja, a Globo. De qualquer maneira, esse assunto tão polêmico diz respeito a questões éticas tão caras ao meio acadêmico. E as tais acusações estão relacionadas a um ‘garotinho’. Quem diria? Ricardo Kotscho agora responde pelas relações entre a Globo e as universidades brasileiras. Sinais dos tempos.

Aproveito também para destacar mais algumas questões importantes do novo quadro do Fantástico em relação à ética e à prática profissionais. Afinal, como bem diz Caco Barcellos na entrevista de O Globo, ‘o fim não pode justificar os meios’. Tudo a ver. Sinal de novos tempos. Quem diria que um dia eu ouviria esse tipo de declaração de funcionários da Rede Globo. E o que não se faz no Brasil para garantir um poder hereditário na TV brasileira, sair de grave crise financeira com ajuda das verbas publicitárias de governo em crise e o direito de decidir o próximo sistema de TV digital brasileiro? Telejornalismo no Brasil é mesmo muito poderoso e a profissão de repórter, principalmente de TV, ainda tem o seu glamour!

Agora, é só conferir as tais promessas de ‘revelações e transparência’ no jornalismo de TV. A partir do próximo domingo (07/05), Profissão Repórter vira um quadro do Fantástico com 12 minutos. Se for bem, tem chances de virar programa fixo em 2007. E se tiver boa audiência e ‘não incomodar os poderosos’, Profissão Repórter poderá virar um programa fixo. Nada como o clima de campanha eleitoral na TV!’



DIRETÓRIO ACADÊMICO
Cassio Politi, 5/05/06

Histórias de Maurício Kubrusly pela Europa

‘Sim, esta semana a coluna é light. Não poderia ser de outra maneira. Perguntei ao personagem (ilustre) qual a história mais rica em bastidores que ele poderia me contar. Lembrou-se de uma ocasião em que o confundiram com Pedro Bial. E ele assumiu a identidade de Bial. ‘Mas essa história está no livro. Vou me lembrar de outra’. Ele se referiu ao livro Me Leva Brasil. Buscou na memória uma meia dúzia de histórias, todas invariavelmente divertidas. As gargalhadas devem ter atrapalhado os tão concentrados redatores do Fantástico e do Globo Repórter, que ocupam salas quase vizinhas.

* * * * *

Os gritos eram em alemão e vinham de uma mulher irritada. O repórter chegou a pensar que não fosse com ele e continuou caminhando na direção do balcão. Mas viu que era o causador da bronca que o funcionário da companhia aérea levava de uma colega de empresa. ‘Que será que eu fiz de tão grave?’.

– O problema é comigo? – perguntou, em inglês.

– Sim, o senhor entrou com o carrinho pelo lugar errado – respondeu o funcionário.

Maurício Kubrusly tinha entrado no caracol que orienta as filas de check-in dos aeroportos atravessando um dos cordões laterais. Afinal, o aeroporto estava completamente vazio. Mas a moça, uma suíça, estava histérica. Queria que ele percorresse todo o zigue-zague, mesmo vendo que o saguão inteiro estivava às moscas. Não fazia sentido. E a histeria não acabou aí. Haveria mais gritaria depois. A passagem pitoresca aconteceu no final do período de gravação da série ‘Me leva Suíça’, mês passado. Foram essa e outras passagens pitorescas por lá.

* * * * *

Perigo!

Poucos dias antes da confusão no aeroporto, Kubrusly e seu cinegrafista tinham ido até uma cidade do interior da Suíça. Mostrou que não há pessoas andando pela cidade durante o dia. É totalmente deserta. Teve de usar bons argumentos para convencer a funcionária do órgão de turismo local, que o acompanhava, a aceitar seu pedido.

– Olha… eu sei que isso é proibido… mas vou te pedir.

– O quê?

– Precisamos fazer uma imagem da cidade, de dentro do carro. Preciso que o cinegrafista se sente na janela do carro, com as pernas para dentro e os pés sobre o banco. O carro anda e ele filma dali.

– Mas isso é perigoso. É proibido!

– Eu sei, mas não tem policial na rua…

E assim convenceu a moça, que, apavorada, se sentou ao volante. ‘Aí eu só pedia para ela ir mais rápido. A mulher dirigira o carro a um quilômetro por hora!’, diverte-se.

Como é?

De volta a Zurique, Kubrusly passou ao motorista o endereço. Entraram numa rua, depois em outra e em outra. De repente, Kubrusly viu um outdoor. Tinha o corpo do Cristo Redentor e, em vez da cabeça de Cristo, a cabeça da Estátua da Liberdade.

– Pára aí! Pára e volta! Preciso ver que outdoor é aquele. A gente precisa fazer uma imagem daquele outdoor!

Normal para qualquer repórter de televisão. Menos na Suíça. ‘O motorista ficou completamente maluco. Ele não entendia essa mudança repentina de planos. Gerou uma confusão na cabeça dele. Eles não estão acostumados a essas coisas’.

Polícia

Maurício se lembrou de uma passagem ali do lado, na Alemanha. Estava marcada uma entrevista com um presidente de uma grande multinacional. O jornalista se atrasou. Ao se certificar do atraso de três minutos, uma funcionária da empresa telefonou para a polícia. Queria saber se havia acontecido algum acidente na cidade. Não era normal que alguém se atrase. ‘Para se ter uma idéia de como é isso, quando um compromisso está marcado para as 9 horas, o cafezinho é servido às 8h58’.

Nas semanas em que passou na Suíça gravando o Me leva Suíça, uma versão européia e pré-Copa do Me leva Brasil, Kubrusly se impressionou com o rigor dos suíços no que tange horário e cumprimento de regras. ‘O Brasil tem muito a aprender com a Suíça’, resume.

Fila fantasma

De volta à cena inicial. Eram seis e meia da tarde e Kubrusly decidiu ir para o aeroporto de Zurique. Pegaria o avião direto para São Paulo. Antes, aproveitaria para fazer compras pessoais nas lojas do saguão, antes de embarcar. O avião partiria depois das dez. Quando viu que o balcão da companhia suíça que o transportaria estava às moscas, o jornalista aproveitou para fazer o check-in. Foi aí que decidiu passar pelo cordão que isola a fila para o check-in, quando ela existe.

Ouviu atrás de si a gritaria de uma mulher de menos de 30 anos. Era a moça, histérica, brigando com o funcionário italiano. ‘Mas não tem ninguém na fila!’, espantou-se o jornalista. Veio o rápido diálogo. Ele decidiu ignorar o alerta de que estava furando uma fila que simplesmente não existia e foi em frente. Novos gritos em alemão surgiram. Ele olhou novamente para o italiano.

– Que foi agora?

– Ela está avisando que seu carrinho está na contra-mão.

Ou seja, o carrinho estava sendo puxado por ele em marcha-à-ré porque entrara na fila pela lateral. E calhou de ser puxado para trás em vez de empurrado para a frente.

– Avisa que o carrinho vai de ré mesmo.

E assim foi.

No ar

O primeiro Me Leva Suíça foi ao ar no último domingo, 30/04. Mostrou a pequena cidade de Weggis, às margens do lago de Lucerna, por onde passará a Seleção Brasileira antes de seguir para a Alemanha, onde disputará a Copa do Mundo.’



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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

Veja

Terra Magazine

No Mínimo

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Gazeta do Povo

Agência Carta Maior

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