Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 10 E 11/03

Comunique-se

13/03/2007 na edição 424

SEGUNDO MANDATO
Comunique-se

Presidente Lula convida Franklin Martins para assumir comunicação do governo, 9/03/07

‘O presidente Luis Inácio Lula da Silva convidou o jornalista Franklin Martins para assumir uma secretaria a ser criada no governo, unificando todas as áreas da comunicação. Com status de ministério, o órgão seria responsável por gerir as áreas de publicidade, imprensa, comunicação e também o projeto de uma nova TV pública, que deve ser criada ao longo do segundo mandato de Lula.

Franklin Martins, que atualmente trabalha na Bandeirantes e mantém um blog no portal IG, ainda não deu uma resposta ao presidente. A conversa inicial entre os dois foi produtiva, mas Martins ainda não tomou sua decisão e deve estudar melhor a proposta do Executivo antes de tomar uma decisão.

O jornalista foi convidado para assumir o lugar de André Singer, que é secretário de Imprensa e Divulgação e também porta-voz de Lula e colocou seu cargo à disposição do presidente já em 2006. Caso Martins aceite ou não o convite do presidente, o certo é que o escolhido para a função acumulará mais responsabilidades do que Singer.

Mainardi

No começo de 2006, Diogo Mainardi acusou o jornalista de usar sua influência para colocar parentes em cargos públicos. Em resposta, Martins lançou um desafio público ao colunista da Veja, afirmando que abandonaria a profissão se qualquer senador viesse a público e confirmasse que ele havia feito pressão para a contratação de um familiar seu, o que nunca se cumpriu. Um mês depois, a TV Globo anunciou que não renovaria o contrato do comentarista político. Na ocasião, os dois lados negaram qualquer relação com as acusações de Mainardi.’

Milton Coelho da Graça

Diplomacia não é mais como antigamente, 8/03/07

‘O progresso nas telecomunicações está transformando a diplomacia, da mesma forma como a gestão dos negócios, o governo e a Justiça. Bush e Lula conversam e se vêem a qualquer momento – um em Camp David, outro em São Bernardo. Portanto, não é para falar de etanol nem de novos esforços contra o narcotráfico e o terrorismo que os dois presidentes precisam se encontrar e bem rapidinho – para não ultrapassar o tempo-limite que transformaria uma ‘viagem de trabalho’ em ‘viagem protocolar’.

Bush está começando a campanha eleitoral em favor de seu Partido Republicano, num primeiro esforço de sedução do segmento que mais cresce no seu eleitorado: o de origem latino-americana. Ao mesmo tempo, as imagens que vão aparecer na televisão e nos jornais mostrarão ao público de todas as Américas que ele pretende resistir ao avanço ‘bolivariano’ do presidente Chavez, da Venezuela, empenhado em juntar o petróleo de seu país e do Equador com o açúcar de Cuba e o gás da Bolívia – um pólo energético de razoável volume, mais importante que o Iraque.

Em entrevista dada ontem, Bush definiu a intenção da viagem como a de mostrar que os Estados Unidos ‘se interessam por seus vizinhos e pela condição humana’. Uma frase bonita e, pensem bem, absolutamente verdadeira.

Mais uma armadilha para o presidente Lula

A mexida que o Conselho Monetário Nacional resolveu dar na TR, reduzindo o rendimento das 75 milhões de cadernetas de poupança e no FGTS de mais de 100 milhões de trabalhadores, é a segunda casca de banana que o sistema financeiro pretende atirar na trilha da popularidade do presidente Lula. A primeira foi o crédito consignado.

Por enquanto, parece que ainda estão botando o pé na água para ver se cola. Mas o ministro da Fazenda qualificou a decisão como ‘uma beleza’. Como disse o Paulinho Pereira, da Frente Sindical, quando o juro estava lá em cima, ninguém pensou em reforçar os ganhos financeiros do povão. Mas, quando a Selic começa a baixar e a poupança passa a ser mais apetitosa que os fundos de investimento …

Não é difícil explicar por que Chávez

Amigos londrinos me dizem que, além do petróleo venezuelano vendido a preços mais baixos para as regiões pobres da cidade, a opinião pública também está sendo influenciada por um bom número de livros e DVDs favoráveis a Hugo Chávez. O mais badalado é ‘Freedom Next Time’, do documentarista e jornalista australiano John Pilger, lançado há menos de um ano pela Bantam Press. Pilger, 67 anos, é respeitadíssimo, tem 12 livros publicados, produziu outros tantos documentários e acumulou muitos prêmios internacionais (todas as informações podem ser obtidas facilmente na internet).

Um bom resumo de seu último livro foi publicado pelo jornal de esquerda The Guardian, do qual traduzi alguns poucos parágrafos, que explicam as razões da enorme popularidade de Chávez e sua ‘revolução bolivariana’. E, naturalmente, sempre devemos levar em conta que, na década de 90, a Venezuela tinha índices de desigualdade (e violência) muito mais tenebrosos que os nossos. Vamos ao resumo do resumo:

Chavez, um ex-major do Exército, estava ansioso para provar que não era apenas mais um outro ‘homem forte’ militar. Prometeu que todos os seus movimentos estariam sujeitos à vontade do povo. Em seu primeiro ano como presidente em 1999, promoveu um número sem precedentes de votações: um referendo para saber se o povo queria ou não uma nova Assembléia Constituinte; eleições para essa Assembléia; um segundo referendo para ratificar a nova Constituição – 71% das pessoas aprovaram cada um dos 396 artigos que garantiram liberdades nunca antes cogitadas, como por exemplo, o artigo 123, que, pela primeira vez, reconheceu os direitos humanos das pessoas mestiças ou negras, sendo Chávez um deles. ‘Os povos indígenas’ – diz esse artigo – ‘têm o direito de manter suas próprias práticas econômicas, baseadas em reciprocidade, solidariedade e troca … e a definir suas prioridades.’

O pequeno livro vermelho da Constituição venezuelana tornou-se um best-seller nas ruas. Nora Hernandez, uma trabalhadora comunitária levou-me ao supermercado estatal em seu ‘barrio’ (essa palavra designa as comunidades populares), financiado inteiramente pelas receitas do petróleo e onde os preços chegam a ser metade do cobrado pelas redes de mercados comerciais. Orgulhosamente, ela me mostrou artigos da Constituição escritos nas embalagens de sabão em pó. ‘Nunca poderemos recuar’ – ela disse.

No ‘barrio’ La Veja, ouvi uma enfermeira, Mariella Machado, uma negra redonda, de uns 45 anos, levantar-se e falar sobre vários assuntos, da falta de moradia à guerra do Iraque. Naquele dia, estavam lançando a Missão Mães de ‘Barrio’, um programa voltado especificamente para a pobreza entre mães solteiras. Segundo a Constituição, as mulheres têm o direito de serem pagas como babás, e podem sacar dinheiro em um banco especial para mulheres. A partir do próximo mês, as donas de casa mais pobres receberão 120 libras (cerca de 250 reais) mensais.

Não é surpreendente que já tenha vencido oito eleições e referendos em oito anos, aumentando cada vez a sua maioria, um recorde mundial. Ele é o mais popular chefe de Estado no hemisfério ocidental. Essa é a razão pela qual sobreviveu, surpreendentemente, ao golpe apoiado por Washington. Centenas de milhares desceram dos ‘barrios’ e pediram que o Exército se mantivesse leal. ‘O povo me salvou’ – me disse Chávez. ‘Eles fizeram isso, com toda a mídia contra mim, omitindo até mesmo os fatos básicos do que estava acontecendo.’

(*) Milton Coelho da Graça, 76, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.’



NASCIMENTO vs. FSP
Comunique-se

Carlos Nascimento desmente Folha de S. Paulo, 8/03/07

‘Em carta publicada na seção ‘Painel do Leitor’ de Folha de S. Paulo na quarta-feira (07/03), o jornalista e âncora Carlos Nascimento desmentiu o repórter e colunista Daniel Castro, da própria Folha, sobre sua suposta insatisfação de ter que dividir a bancada do ‘SBT Brasil’ com Cynthia Benini. Na coluna ‘Outro Canal’ de 24/02, Castro afirmava (link disponível só para assinantes do jornal ou do UOL) que Nascimento estaria de ‘cara fechada, trancado em sua sala’ devido à decisão do empresário Silvio Santos de escalar Cynthia na apresentação do telejornal.

‘Fiquei surpreso e decepcionado ao tomar conhecimento do conteúdo da coluna ‘Outro Canal’, do jornalista Daniel Castro, na Folha de 24/02 (Ilustrada). Rigorosamente nada que se atribui a mim ou que pudesse ter revelado a alguém é verdadeiro. Principalmente as restrições profissionais à colega Cynthia Benini’, explica Nascimento em seu comunicado.

O apresentador do ‘SBT Brasil’ reitera que Cynthia, ‘como todos os demais novos integrantes do telejornal’, serão bem recebidos por ele e sua equipe e ainda alfineta o repórter da Folha. ‘Está nos fundamentos da nossa profissão: na dúvida, não publique. Só dê notícias confirmadas ou se tiver a segurança de que está próximo da verdade. E de que não está sendo usado para divulgar notícias falsas, tendenciosas e que só interessam a gente mal-intencionada’.

No mesmo espaço em que a carta foi transcrita, Castro fez a ressalva que tentou, sem sucesso, falar com Nascimento antes de publicar a coluna, conforme explicou no texto do dia 24/02.’



COMUNICAÇÃO CORPORATIVA
Marcelo Tavela

Construtora vence licitação para assessoria de imprensa do Ministério dos Transportes, 9/03/07

‘Uma licitação para serviço de consultoria e assessoria em comunicação do Ministério dos Transportes teve um resultado inusitado: a empresa vencedora trabalha com construção civil. A Amanda Construções, Administração e Serviços Ltda. está registrada na Receita Federal tendo como atividade principal a construção de edifícios. Também inusitado foi o lance vencedor da licitação: R$ 429.999,98, um centavo a menos que o segundo melhor lance e dois centavos a menos que o terceiro.

A licitação foi feita por leilão eletrônico no Comprasnet, site de compras públicas administrado pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. O pregão foi aberto às 9h30 da terça-feira (06/03), e encerrado no dia seguinte. O resultado podia ser visto aqui, mas o site inteiro está fora do ar no momento da publicação desta matéria. Uma imagem da página está reproduzida neste link.

A Amanda Construções, Administração e Serviços Ltda. fez o lance vencedor, de R$ 429.998,98. O segundo lance, de R$ 429.999,99, foi feito pela Lyon-Ex Serviços Empresariais Ltda., empresa que presta serviços de locação de mão-de-obra. E o terceiro lance, de R$ 430.000.00, foi feito pela Canal 27 Comunicações Ltda., registrada como agência de notícias. As três empresas estão sediadas em Brasília.

O quarto lance, de R$ 790.000,00 – quase o dobro dos três anteriores -, foi feito pela mineira ZL Ambiental Ltda., também especializada em locação de mão-de-obra.

Raio reincidente

O edital da licitação deixa claro o objetivo do leilão: ‘Contratação de empresa especializada para prestação de serviços de estudo, concepção, planejamento estratégico, assessoramento e apoio em comunicação social, a serem prestados de forma contínua, conforme Termo de Referência – Anexo I deste Edital’.

A Associação Brasileira das Agências de Comunicação Social (Abracom) considerou inusitado uma construtora ganhar uma licitação para assessoria de comunicação, e está encaminhando um ofício ao Ministério e ao Tribunal de Contas da União (TCU) pedindo esclarecimentos.

‘Achamos estranho que as empresas mais conhecidas do mercado só apareçam a partir da quinta colocação. E é no mínimo curiosa a diferença de um centavo entre os lances. Uma possibilidade mais difícil que um raio cair duas vezes no mesmo lugar. Aqui, o raio caiu três vezes’, definiu o presidente da entidade, José Luiz Schiavoni.

A assessoria do Ministério dos Transportes informou que, mesmo com o pregão encerrado, a empresa vencedora ainda será avaliada tecnicamente, e que o Ministério também está questionando o resultado da licitação. O Comunique-se não conseguiu contatar a Amanda Construções, Administração e Serviços Ltda., mas abre espaço para que a empresa possa se manifestar.’



INTERNET
Bruno Rodrigues

Essa tal de ‘redação para a web’, 8/03/07

‘Continuo firme em minha campanha ‘Descompliquem a web!’, e por isso passo a limpo um dos assuntos mais comentados na área de conteúdo online e que ainda suscita dúvidas diversas: o webwriting.

O que você lerá abaixo é uma adaptação de um dos textos de abertura de meu livro ‘Webwriting – Redação & Informação para a web’. Apresento várias questões básicas, mas que sanam dúvidas típicas de um ‘início de conversa’. Quis dividi-las com você – mas não hesite em enviar um e-mail caso reste alguma dúvida. Afinal, a idéia, aqui, é descomplicar!

– O que é webwriting?

É um conjunto de técnicas que auxiliam na distribuição de conteúdo informativo em ambientes digitais.

Esta ‘distribuição’ faz-se, por exemplo, pelas diversas camadas de um site, sendo a primeira camada a primeira página e, a segunda camada, as páginas que surgem a partir dos itens do menu principal – e assim por diante. E por que ‘ambientes digitais’? Em webwriting, o campo de ação são intranets, CDs-ROM, wireless, e não apenas sites internet.

– Webwriting pode ser traduzido como ‘redação online’?

Não. Em webwriting, a preocupação é com a Informação como um todo, seja ela ícone, foto, filme, som e, claro, texto. Desta forma, o texto é visto, em ambientes multimídia, como *um*dos elementos da Informação digital.

– Traduzir webwriting como redação online não só é um erro, como também restringe uma área que tem um poder de fogo muito mais amplo.

Por que o termo ‘webwriting’ ainda sobrevive, então? Tanto a Rede quanto o webwriting ainda são áreas que vivem seus primeiros momentos, mas a evolução é muito rápida. É provável que, em breve, o termo seja substituído por ‘Gestão da Informação Digital’, ou algo semelhante.

– Webwriting é a mesma coisa que jornalismo online?

Jornalismo Online é o *ramo* do webwriting dedicado à produção de informação *noticiosa* online. Quem lida com jornalismo online são as versões para internet de veículos noticiosos impressos, por exemplo.

Os profissionais que produzem conteúdo informativo para sites internet e intranets de empresas dedicam-se a informações institucionais, e este trabalho é chamado de webwriting corporativo – e não jornalismo online.

– Quem ‘criou’ o webwriting?

Quem deu a devida importância ao estudo da Informação para a mídia digital foi Jakob Nielsen, mais conhecido pela ciência que ajudou a desenvolver, a usabilidade.

Foi Jakob Nielsen que, em março de 1997, publicou em seu site – www.useit.com – o resultado da aplicação de testes voltados para o comportamento do texto no ambiente online. Ao provar que o usuário exige uma boa formatação de texto para a Web, ele chamou a atenção para a necessidade de estudo e dedicação à área da Informação digital.

– Quem é o ‘papa’ do webwriting?

Crawford Kilian, autor do livro ‘Writing for the Web’, lançado em 1998, é considerado o ‘norte’ do webwriting. Contudo, tanto o livro quanto os estudos de Kilian são focados no comportamento do *texto* em ambientes digitais, e não na Informação como um todo.

De 1997/1998 para cá, porém, muitos outros profissionais acompanharam a evolução do webwriting, e hoje já estão à frente de Kilian & cia.. Nos Estados Unidos, por exemplo, a’dama da Persuasão’, Amy Gahran, assim como Jonathan Price, o ‘rei das dicas’, são bons exemplos. O jornalista Nick Usborne, que trabalha com um ‘mix’ das idéias de Kilian e Gahran, é visto hoje como revelação nos EUA – embora eu não veja muita novidade no trabalho do rapaz.

– Que empresas contratam webwriters?

Todo o tipo de empresa. Aliás, são as empresas que pagam melhor – bem melhor – aos webwriters. As intranets, e não os sites internet, é que empregam cada vez mais os especialistas em Informação digital. Sites de comércio eletrônico também têm aberto cada vez mais vagas para webwriters, assim como as boas e velhas produtoras, embora nelas o salário não seja dos melhores.

– Existe MBA ou pós-graduação em webwriting?

Não, e você seria lesado se houvesse. Embora seja uma área promissora, tanto em mercado quanto financeiramente, o conhecimento sobre webwriting é objeto de ensino em cursos de extensão, portanto de curta duração. Mais que isso, é pura embromação.

– O webwriting está evoluindo?

Muito. Assuntos como Direito Digital, Acessibilidade, Usabilidade, Arquitetura da Informação e Comunidades Virtuais já fazem parte do trabalho do ‘gestor da informação digital’ há algum tempo. Fique atento, portanto!

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Na terça-feira da semana que vem, dia 13, tem início mais uma edição de meu curso ‘Webwriting e Arquitetura da Informação’ no Rio de Janeiro. Para mais informações, basta ligar para 0xx 21 21023200 ou enviar um e-mail para extensao@facha.edu.br.

(*) É autor do primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo online, ‘Webwriting – Pensando o texto para mídia digital’, e de sua continuação, ‘Webwriting – Redação e Informação para a web’. Ministra treinamentos em Webwriting e Arquitetura da Informação no Brasil e no exterior. Em sete anos, seus cursos formaram 1.300 alunos. É Consultor de Informação para a Mídia Digital do website Petrobras, um dos maiores da internet brasileira, e é citado no verbete ‘Webwriting’ do ‘Dicionário de Comunicação’, há três décadas uma das principais referências na área de Comunicação Social no Brasil.’

Antonio Brasil

Veja a ‘guerra do jornalismo’ na internet, 5/03/07

‘Há muitos anos, os jornalistas cobrem as principais guerras no mundo. É uma das maiores tradições e glórias da profissão. Apesar dos riscos, muitos correspondentes ficaram famosos cobrindo a guerra dos outros. Hoje, enfrentando a maior crise de sua história, o jornalismo está em guerra. Luta bravamente pela própria sobrevivência. Mas como os jornalistas cobririam essa guerra? Como eles mostrariam ao mundo uma luta em que somos ao mesmo tempo vítimas e agressores?

Uma série famosa de programas da televisão pública americana, a PBS, (ver aqui) com nome muito apropriado, o Frontline (ver aqui) ou Linha de Frente resolveu enfrentar esse desafio. News War ou Guerra do Jornalismo (ver aqui) está sendo exibido para o público americano com grande sucesso. O resultado final foi considerado excepcional pela crítica, pelos telespectadores e principalmente, pelos principais interessados os jornalistas americanos.

Trata-se de um mergulho profundo – são quatro programas divididos em dezenas de blocos um total de 4 horas e meia – que discute em detalhes todas as recentes mazelas e desafios do jornalismo nos EUA. É programa imperdível para quem precisa refletir sobre os acontecimentos recentes, organizar o pensamento e buscar soluções. Afinal, o jornalismo brasileiro tem problemas e desafios comuns com o jornalismo americano.

A boa notícia é que todos, repito, todos os programas estão disponíveis na Internet ver aqui.

Se você só quiser ler os resumos dos programas e uma ‘ espiada’ no trailer da série pode consultar este link.

Os produtores de News War fizeram uma extensa cobertura da nossa guerra. Entrevistaram mais de cinqüenta pensadores, jornalistas, políticos e especialistas de diversas áreas do conhecimento a destacar Walter Cronkite, Ted Koppel, Bob Woodward, Carl Bernstein, Dan Rather, Seymour Hersh, Jay Rosen, Jeff Jarvis e jornalistas envolvido em situações polêmicas e recentes como Judith Miller do New York Times.

Os temas debatidos variam muito e apresentam títulos ou chamadas instigantes como Os desafios enfrentados pelo jornalismo de hoje, O futuro da profissão, Quando o jornalismo errou, Os preconceitos da mídia, Os privilégios dos repórteres, Segredos, Distorções, Fontes e Investigações sobre os vazamentos na cobertura jornalística. Mas também tem muitas denúncias e mea culpa sobre a cobertura da mídia americana nos momentos que antecederam a guerra do Iraque. A guerra do jornalismo depende muito do nosso poder de reconhecer nossos erros e apontar soluções.

Apesar de buscar referencias no passado, a equipe do News War também teve o cuidado de investigar as principais novidades ou alternativas para a sobrevivência do jornalismo. De blogs com cara de telejornais aos modelos de jornalismo participativo como o YouTube News, nada ou quase nada escapou ao olhar crítico do Frontline. Afinal, eles têm longa tradição de cobrir conflitos e não podem perder essa guerra.

Mais do que um show de denúncias, News War é um exemplo do poder da televisão e do telejornalismo para cobrir notícias, investigar problemas, discutir alternativas e principalmente, mobilizar o público. Um público que se afasta dos televisores, mas que ainda acredita na relevância do jornalismo, do bom jornalismo investigativo.

A pergunta que fica no ar é por que não produzimos algo semelhante sobre o jornalismo brasileiro. Fica aqui a sugestão e o desafio. A nossa linha de frente nessa guerra não é menos importante e relevante para toda a sociedade. De qualquer maneira, a luta pelo jornalismo continua.

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar ‘Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica’ e ‘O Poder das Imagens’. É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão.’



MÍDIA & EDUCAÇÃO
Paulo Ludmer

Ignorância e Comunicação, 9/03/07

‘A subversiva introdução de progressos tecnológicos dinamiza o pensamento de hoje. Em Munique, numa próxima feira eletrônica, estará exposto um conjunto de produtos que sequer existe na imaginação da humanidade, nos dias de hoje, quanto menos em laboratórios.

O que será do jornalismo? Para nós, mais velhos, que perfuramos fitas de telex, teclamos nas antigas máquinas Remington, pedíamos (esperando durante horas) ligações nacionais e internacionais, através de telefonistas auxiliares, às vezes sentimos que ingressamos no universo da ficção.

O que será um editor, em sua escrivaninha, recebendo eletronicamente imagens, sons e textos, remetidos de dezenas de celulares, ao mesmo tempo, de todos os cantos do mundo? Antevemos um jornalista que será um seletor de informação. Mas como transformá-la em conhecimento? Em produto? E como será o processo, o ritual dessas operações? Como se construirá este profissional?

Venho sendo professor de Comunicação na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), desde 1976. Muitos de meus alunos são avôs e avós. Vários deles tornaram-se ases da profissão, em missões e cargos destacados. Agora, assisto sua permanente discussão sobre o amanhã.

Não obstante esta evolução, confio na opção de investir no desenvolvimento – pensamento e sentimento – do comunicador, enquanto me rendo à impossibilidade da permanente atualização tecnológica no universo da escolaridade. Nos dias que se seguem, um aluno de engenharia (eu fui), antes do quinto ano do curso, aprendeu obsolescências e necessitaria reciclar-se antes mesmo de receber o diploma, quanto mais cinco anos depois de bacharelado.

A verdade adquiriu uma historicidade em mutação veloz. É verdade que ainda não atravessamos fisicamente uma parede de alvenaria, mas já duvidamos se um dia cruzaremos muros de aço, reconstituindo nosso corpo além do obstáculo. Também não é inferior ousar, além do que criou o escritor Julio Verne, supondo que lembraremos do futuro (‘O tempo é curvo’, demonstrou o físico Albert. Einstein). O cosmos, de acordo com o que se compreende, é regido pela gravidade, física quântica e teoria das incertezas.

O eterno diálogo acadêmico de jornalismo transmissor da verdade desaba na medida em que a verdade tornou-se apenas um endereço. A poética controvérsia ao redor de ética na comunicação se redireciona para o conceito de que ética é o bom para a vida (moral é o bem). Para o outro e para o eu.

Neste cenário, as escolas dionisíacas e as apolíneas mantêm suas dinastias: para a primeira, há muitas eternidades; para a segunda, uma só. Para Baco, todos os deuses são Um, enquanto Abrahão sentencia que Deus é eterno e único. Para Dionísio, eu sou múltiplas perspectivas; para Apolo, sou só um.

Parece tonteria, mas ao comunicador de 2007, creio que é a essência a apreender antes de se sentar numa ilha de edição e criar 30 segundos de um comercial de cerveja misógino. Parece papo-cabeça, mas antecede um jingle de loja varejista, que maneja o inculto sonho de aquisição de uma cama a pagar nos próximos vinte meses e seis de carência.

Quantos jornalistas se debruçaram sobre o poder da força (das armas) em retirada diante do poder da sedução? Quantos se dão conta de que o primeiro tem nome e endereço, apóia-se na opressão e é substituível, enquanto o segundo é uma estratégia anônima e apócrifa, que se funda na impressão induzida de prazer e de satisfação do cliente?

Sim. A subversão tecnológica assusta, preocupa, demanda acompanhamento. Porém, a ignorância, a superficialidade e a falta do que dizer são terremotos que chegam antes.

Onde se revela o desastre? No próprio emprego da língua. A má articulação, a ausência de coesão, a inqualificável pontuação, juntas traduzem uma arquitetura inviável para a comunicação. Primeiro, porque as palavras são inocentes, infinitas e inalcançáveis. Segundo porque o espírito que elas querem traduzir também o é. Terceiro porque a ambição de entender é inócua e corresponde a descobrir as razões de Deus.

(*) Paulo Ludmer é jornalista, professor de Comunicação da FAAP, engenheiro, consultor e escritor com o site www.pauloludmer.com.br.’



JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

História da arruaça, 8/03/07

‘No espelho partido vejo

mil reflexos do meu rosto

para que eu não fique sozinho

(Talis Andrade in Os Herdeiros da Rosa)

História da arruaça

O considerado leitor perdoe desde já os inúmeros erros que esta coluna há de cometer nas próximas semanas. Janistraquis pediu férias para escrever em paz um livro que lhe consumirá os dias, pois exige monumental pesquisa. Trata-se de História da Arruaça no Brasil – do arrancarrabo ao cu de boi. Inspirou-o a seguinte mensagem do considerado leitor Jacob Godenrovsky, de São Paulo:

Moro num edifício na esquina das ruas Haddock Lobo e Matias Aires, em Cerqueira César, há 34 anos – e não durmo há 34 anos. O amigo não imagina a quantidade de putas, travestis, gigolôs, maconheiros e cracoleiros, motoqueiros e bandidos em geral que assaltam aquele espaço depois das 10 da noite, quando a lei do silêncio, etc. e tal.

Pois numa madrugada recente, com o saco cheio e o sofrimento em alta, como o crime e a corrupção no Brasil, resolvi reclamar e liguei para o número 190. Fui atendido por um sujeito de vozeirão sonolento, fiz a reclamação e ele respondeu de lá: ‘…mas o prezado precisa entender que esse pessoal tá trabalhando!’. Certamente a mãe do indivíduo milita nessa zona.

Janistraquis conhece o endereço e está convencido de que é assim, no útero da complacência, que prospera a esculhambação. Então, nalguma madrugada, os moradores vão-se reunir e fazer a chamada justiça com as próprias mãos.

Apóio inteiramente o projeto dessa História da Arruaça, mas impliquei com ‘arrancarrabo’. Por que não o correto, que é arranca-rabo?

— Ah, considerado, é pra ficar um pouco diferente…

Vergalhão!!!!!!!

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no DF, bem pertinho de onde Lula e seus asseclas festejam o efúgio de Nélson Jobim, ex-preferido do Planalto à presidência do PMDB, pois Roldão lia o Correio Braziliense quando sentiu o piscar do ‘olho’ de uma notícia:

Restos do prédio destruído à beira do Lago já têm endereço certo: cooperativas com apoio de ONG farão reciclagem do material. Enquanto acordo não sai, catadores aproveitam e pegam vergões para revender.

Mestre Roldão, que já viu tantos e tantos materiais de construção a subir na paisagem brasiliense, desconfiou:

Houve troca de VERGALHÃO (barra de aço de seção redonda usada em concreto armado) por VERGÃO (marca, vinco, arranhão na pele provocado por chicotada ou alguma outra causa: a unhada do assaltante deixou-lhe um vergão no pescoço).

Tá danado!

O considerado Camilo Viana, diretor de nossa sucursal em Minas, recebeu de Miguel Schettini, médico em Fortaleza, que por sua vez recebeu do também cearense e advogado Claudio Josino, algumas ‘balas de estilo’ (não confundir com as balas de estalo de Machado de Assis) produzidas nos Boletins de Ocorrência.

Extraídas de um relatório que vai virar livro, intitulado Herros de Puliça!, cujo autor é oficial militar lotado nos serviços de radiopatrulha do Ceará, as tais balas perdidas fariam inveja aos participantes do Enem — menos os do Piauí, conforme se verá na Nota Dez.

Senhor delegado, deu entrada no Pronto-Socorro Municipal o cidadão vítima de ‘gargalhada’. ‘Gargalhada’ no peito, no rosto e nas costas. Segue anexo um ‘gargalho’ de garrafa.

Visite o Blogstraquis e divirta-se com esses monumentos à zoofonia nacional.

Herdeiros da Rosa

Leia também no Blogstraquis a íntegra do poema do Mestre Talis Andrade, intitulado O Novo Milênio, cujo excerto encima esta coluna.

Apetite Zero

O Boletim do Consumidor transcreve matéria que saiu no site da BBC Brasil, cujo título espanta e confunde ao mesmo tempo:

Brasil lidera consumo de moderador de apetite, diz ONU

O Brasil lidera o ranking mundial de consumo de moderadores de apetite, de acordo com o último relatório anual da Comissão Internacional de Controle de Narcóticos (CICN), divulgado nesta quinta-feira em Viena.

Após o Brasil, as maiores taxas de consumo desses medicamentos foram verificadas na Argentina, na Coréia do Sul e nos Estados Unidos.

Janistraquis examinou o despacho e, só para contrariar o colunista, concluiu que o assunto não espanta nem confunde:

‘Considerado, a revelação simplesmente comprova que Lula passou a perna no país mais uma vez; como não há mesmo o que comer, o povo partiu pra ignorância e se enche de droga na tentativa de esquecer o inexistente feijão de cada dia.’

Devemos convir que se trata de tese respeitável.

Inguinorânssia

Deu na coluna do Claudio Humberto:

É Comércio, madame

Discursando no plenário, ontem, a novata senadora Kátia Abreu (PFL-TO) escorregou no tomate: ‘Segundo a OMC, Organização Mundial de Saúde…’ O significado da sigla é Organização Mundial do Comércio, onde a diplomacia brasileira, aliás, coleciona derrotas.

Janistraquis tem certeza de que a ilustre senadora conhece muito bem a grama onde pisa; no presente caso, apenas escreveu saúde com C; é quase nada, se levarmos em conta a extensão do analfabetismo nacional, né mesmo?

Irmã por quê?

Janistraquis se achegou com ar exausto de quem percorreu, a pé e a nado, todo aquele imenso arquipélago formado pelos diversos tipos de ignorância. Puxou ar para oxigenar os já sucateados pulmões e exalou:

‘Considerado, por que os anos passam, a Lusitana roda e muitos e muitos repórteres e apresentadores só se referem à peça O mistério de Irma Vap, do americano Charles Ludlan, como O mistério de Irmã Vap? Por que irmã, meu Deus!?!?!? Irmã por quê?!?!’.

É mesmo. Irmã por quê? E olhem que tal insistência acaba de completar 21 anos de idade.

Eclipse inspirador

A propósito do eclipse lunar do sábado, 3/3, as TVs produziram matérias, algumas de inspiração realmente selenita, nas quais falava-se do comportamento dos primatas diante do fenômeno; armados de paus e pedras, tentavam atingir o longínquo e malvado ser que apagava tão adorada claridade, curiosa porém compreensível atitude mais tarde repetida à força de lanças e flechas.

Janistraquis acompanhou as reportagens, saiu a campo para admirar o eclipse e depois resolveu fazer este comentário gratuito e perverso:

‘Considerado, você não acha que foi pensando naquele público d’antanho que Manoel Carlos escreveu ‘Páginas da Vida?’

Bom senso

Janistraquis, que não tem diploma de coisa alguma mas está longe de ser burro, examinou a cena legislativa da Nação, acompanhou a lengalenga em torno da redução da maioridade penal e seus asnáticos opositores e chegou à seguinte conclusão:

‘Considerado, essa cambada precisa enfiar no bestunto que acima de qualquer lei, acima até da Constituição de qualquer país, está o bom senso. Se a lei manda soltar, o juiz provido de notório saber e ilibada reputação diz que não e pronto.’

Meu secretário emprenha-se de razão, o problema é que estamos no Brasil; como notório saber, ilibada reputação e, muito menos, bom senso não se compra nos camelôs nem nos corredores do Congresso…

Taça Guanabara

Segundo Janistraquis, na decisão de ontem no Maracanã, Flamengo 4, Madureira 1, ficou claríssimo que não é o Flamengo que é a cara do Brasil; é o Madureira.

Nota dez

O melhor jornalista cultural do país, Mestre Sérgio Augusto, escreveu no caderno Aliás, do Estadão:

(…) O Instituto Dom Barreto, de Teresina, obteve a melhor média geral do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): 74,17 pontos, de 100 possíveis. (…) A superioridade do instituto é fácil de explicar. Seu reformador, o matemático Marcílio Rangel de Farias, morto no ano passado, reproduziu com pleno êxito idéias que provaram ser eficientes na Finlândia e Coréia do Sul: professores bem formados e atualizados; carga horária de estudos de mais de sete horas; currículos mais abrangentes, que incluem latim, filosofia, sociologia, hebraico, grego bíblico, e até xadrez.

Leia no Blogstraquis a íntegra deste artigo deveras revelador.

Errei, sim!

‘SEM OSSO -Receitinha da edição portuguesa da revista Elle: ‘Sauté de vitela com alcaparras e azeitonas. Para 6 pessoas – 1.200 kg de carne de vitela sem osso (…). Janistraquis quedou-se horrorizado: ‘Considerado, 1.200 quilos de carne para 6 pessoas?!?!?!’, clamou. Eu, que não tinha almoçado, ponderei com lusitana gula: e, ainda por cima, trata-se de carne de vitela sem osso…’. (abril de 1992).

Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP) ou moacir.japiassu@bol.com.br).

(*) Paraibano, 64 anos de idade e 45 de profissão, é jornalista, escritor e torcedor do Vasco. Trabalhou no Correio de Minas, Última Hora, Jornal do Brasil, Pais&Filhos, Jornal da Tarde, Istoé, Veja, Placar, Elle. E foi editor-chefe do Fantástico. Criou os prêmios Líbero Badaró e Claudio Abramo. Também escreveu oito livros, dos quais três romances.’



JORNALISMO ESPORTIVO
Marcelo Russio

Desconstruindo Leão, 6/03/07

‘Olá, amigos. Um assunto muito comentado nas rodas de jornalistas esportivos é o que se pode chamar de ‘bipolaridade’ do técnico Emerson Leão com a imprensa. Não o distúrbio psicológico, mas sim a alternação de humor entre o agressivo e grosseiro com o irônico e, por vezes, até simpático. Leão é, hoje, um dos personagens menos decifráveis do futebol brasileiro.

Quando cobria o Palmeiras (o fiz durante quase toda a permanência do treinador à frente do time em 2006), Leão era um autêntico mistério. Pessoalmente, sempre me tratou bem e respondeu às minhas perguntas com um jeito sério, porém civilizado e respeitoso. Brincou algumas vezes (posso contar nos dedos de uma mão quantas), sem jamais ser agressivo. Mas presenciei reações do técnico à perguntas e brincadeiras de jornalistas que foram absolutamente incompreensíveis, tanto pela agressividade quanto pela forma inesperada como aconteceu.

Leão sempre gostou de brincar com repórteres que estão, digamos, acima do peso. Também gostava de saber o time de cada jornalista que cobre o seu clube, para poder disparar suas farpas quando os repórteres fazem alguma pergunta que ele considere tendenciosa. Mas sua característica mais marcante é o ar professoral, de quem sempre vê o que está por trás das perguntas e dos atos. O treinador costuma lançar um olhar de ‘eu sou malandro, sei como são as coisas’ sempre que julga que uma pergunta tem segundas intenções. Mesmo quando estas não existem.

Li na semana passada que Leão pode ser uma pessoa atormentada pela mania de perseguição, ou pela vontade de vencer sempre, e isso faz com que ele atormente quem o cerca. Todos, sem exceção: jornalistas, dirigentes, jogadores (aliados e adversários), árbitros, bandeirinhas, quartos-árbitros, torcedores… quem lê esta coluna certamente lembra de algum entrevero que Leão tenha tido com pelo menos um representante de cada categoria citada acima.

Nos últimos meses, Leão está à frente de uma das maiores panelas de pressão do país: o Corinthians. Ao lado do cargo de técnico do Flamengo e da presidência da República, treinar o Corinthians não é para qualquer um. O sujeito pode ser trucidado pela pressão inerente ao cargo em um piscar de olhos. No caso de Leão, as coisas são um pouco mais acentuadas, pois o técnico não deixa que a pressão seja uma via de mão única. Ele a aumenta a níveis estratosféricos, com declarações, atos e intenções.

Dizem que Leão é um técnico com prazo de validade. Durante seis meses é uma solução, botando ordem em casas que parecem desconhecer essa palavra. Mas depois da ordem posta, ele segue com o mesmo estilo duro, que não dá um minuto de descanso a quem o cerca. E a desordem, que antes geralmente acontecia por falta de comando, passa a acontecer pelo excesso.

Para a imprensa é um prato cheio, pois ninguém no futebol brasileiro de hoje atrai tanta atenção quanto Emerson Leão. Uma coletiva sua faz a festa dos que têm uma ou duas páginas de Corinthians para fechar por dia, ou quem está com falta de assunto.

Por tudo isso, não sei se Leão é um bem ou um mal para os repórteres que acompanham o dia-a-dia dos clubes os quais ele dirige. Mas uma certeza eu tenho: assim como Romário e Edmundo, quando se aposentar, Leão fará falta.

(*) Jornalista esportivo, trabalha com internet desde 1995, quando participou da fundação de alguns dos primeiros sites esportivos do Brasil, criando a cobertura ao vivo online de jogos de futebol. Foi fundador e chegou a editor-chefe do Lancenet e editor-assistente de esportes da Globo.com.’



MERCADO DE TRABALHO
Eduardo Ribeiro

Boris define equipe que o acompanhará no JB TV, 7/03/07

‘Já estão definidos os nomes dos 12 profissionais que estarão ao lado do âncora Boris Casoy e do diretor Dácio Nitrini, no Telejornal Brasil que integrará a grade de programação da JB TV, emissora que sucede a CNT e que integra a CBM – Companhia Brasileira de Mídia, de Nélson Tanure. Todos os integrantes já haviam trabalhado com eles na redação do Jornal da Record ou mesmo no TJBrasil do SBT, exceto um produtor, Daniel Pacheco, que Dácio trouxe da TV Cultura, seu último trabalho. Os demais são a chefe de Redação Selma Severo Lins, os editores Wagner Kotsura, Renato Sardenberg e Nely Naomi e os repórteres Maria Antônia Demasi, Silvia Corrêa e Ricardo Ferraz. Na Pauta/Apuração estão Johnny Savalla, Rosana Daumas e Sueli Marques, e, na Produção, Jorge de Carvalho, além de Pacheco. As contratações para a montagem do núcleo de Brasília estão em andamento. O Telejornal do Brasil deverá ir ao ar diariamente de 2ª a 6ª.feira, das 22h às 23h, com noticiário do dia (inclusive da noite), complementado com uma presença forte de análise e reflexão, mais a presença de convidados ao vivo.

A JB TV, a propósito, instalou-se na GGP, a produtora de Gugu Liberato, em Alphaville, na última segunda-feira. A emissora chegou inicialmente a negociar com a Casablanca, gigante de pós-produção do mercado, mas a GGP acabou prevalecendo porque já está estruturada como uma verdadeira estação de televisão, com prédios, estúdios e área técnica projetados para não dever nada às tevês abertas (Gugu, como se sabe, tem planos de ter sua própria rede). A estréia da nova emissora está marcada para o início de abril.

Participação nos resultados da Abril

A propósito da informação que divulguei no artigo da semana passada, um dos executivos do Grupo Abril informou que a empresa marcou para a próxima sexta-feira, 9, o pagamento do Superação, nome dado ao programa de participação nos lucros da empresa. O bônus a ser pago, segundo apurou este J&Cia, será de 64% do salário de cada funcionário. Embora seja um bônus, o número, segundo fonte da empresa, ‘está abaixo das expectativas dos funcionários’. E quem puxou esse percentual para baixo foi a Abril Educação (Editoras Ática e Scipione), refletindo o mau momento da empresa nas negociações de livros didáticos com o Governo Federal. A Abril Educação foi a empresa que teve os piores resultados em relação ao grupo.

Nervosismo nas bancas cariocas

A correspondente deste Jornalistas&Cia, no Rio de Janeiro, Cristina Vaz de Carvalho, acompanhou nos últimos dias a guerra de preços que se travou entre os jornais populares da cidade, elevando a temperatura do mercado, e no texto abaixo comenta as razões e as estratégias da Infoglobo e O Dia para ganhar terreno entre os leitores.

Ela comenta que foram duas semanas nervosas para os populares do Rio, agora que começa o ano, depois do Carnaval. Terminada a promoção Carros Inesquecíveis, que ficou conhecida como ‘carrinhos do Extra’ e dava aos leitores automóveis em miniatura – um sucesso que provocou congestionamento nos pontos de venda -, o tablóide Meia Hora experimentou um pico de circulação, comemorado na rua do Riachuelo. Logo voltou a promoção dos carrinhos do Extra. Na sexta-feira (2/3), O Dia baixou o preço de capa para R$ 1, e ainda este mês vai dar aumento de salário a 35 repórteres na redação. Nesta segunda-feira, o Extra reduziu seu preço para R$ 0,90.

A redução de preço resultou em um incremento em torno de 25% nas vendas de O Dia, que chegaram a mais ou menos 100 mil exemplares. Para tanto, é possível que tenha contribuído também a migração de leitores do JB, que já era vendido a R$ 1 e vinha concorrendo na mesma faixa. A redução mais o carrinho trouxeram para o Extra algo como 33%, e a circulação de cerca de 300 mil. A diminuição de preços de ambos tirou cerca de 20 mil exemplares do Meia Hora, hoje com vendas da ordem de 200 mil.

Em termos de posicionamento de mercado, entretanto, Extra e Meia Hora não são concorrentes diretos. Extra vende cerca de três vezes mais que O Dia. Circulando apenas no Estado do Rio de Janeiro, tem números que beiram, e eventualmente superam, os jornais de maior circulação nacional. Enquanto isso, a distância entre Meia Hora e Expresso é de aproximadamente quatro vezes, favorável ao primeiro (200 mil contra 47 mil). A iniciativa de O Dia foi arriscada, apostando que o Extra aumentaria agora seu preço para R$ 1,30. A rapidez da reação deste último neutralizou em parte o esforço. Em uma conta hipotética, O Dia reduziu o preço em 33% para ter um aumento de circulação de 25% e pode, assim, estar comprando participação de mercado. O Extra reduziu mais de 20%, mas cresceu a circulação em mais de 35% – a conta é inversa.

Os grandes anunciantes fogem dos tablóides, cujo preço de capa não se paga. No cenário da disputa entre Infoglobo e grupo O Dia, tablóides existem como os vegetais que se nutrem da seiva de outros. Os populares de qualidade, por sua vez, apesar da receita azul, dependem de estruturas caras para manter o produto no bom padrão editorial e gráfico. Promoções ininterruptas e dumping de preço vêm corroê-la.

Fiel à promessa feita em janeiro de 2006 (J&Cia edição 522) de ‘ensanduichar’ o Extra entre dois populares, o grupo O Dia se apresenta como se a redação e a receita do jornal O Dia mais a circulação do Meia Hora fossem uma coisa só. A Infoglobo, por sua vez, põe na tela o Extra – que tem redação, receita e circulação de gente grande – e mantém o Expresso como figurante. Ainda que contemplado com promoções eventuais, seu baixo desempenho faz com que seja percebido como um título que apenas completa o portfólio da casa.

Nessa disputa aparentemente predatória, a balança pode pender para o lado com mais bala na agulha, no caso a Infoglobo. O grupo não subestima qualquer movimento do concorrente, o que tem resultado no Extra permanentemente anabolizado e com circulação crescente por conta disso. Porém, nas avaliações, não é costume considerar a poderosa alavanca das paixões que movem pessoas – talvez o dado que ombreie concorrentes de portes distintos.

(*) É jornalista profissional formado pela Fundação Armando Álvares Penteado e co-autor de inúmeros projetos editoriais focados no jornalismo e na comunicação corporativa, entre eles o livro-guia ‘Fontes de Informação’ e o livro ‘Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia’. Integra o Conselho Fiscal da Abracom – Associação Brasileira das Agências de Comunicação e é também colunista do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, além de dirigir e editar o informativo Jornalistas&Cia, da M&A Editora. É também diretor da Mega Brasil Comunicação, empresa responsável pela organização do Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.’



MÍDIA & VIOLÊNCIA
José Paulo Lanyi

Desejo (ou fantasia) de matar, 6/03/07

‘Instado por Alberto Dines, no Observatório da Imprensa, fui dar uma olhada no artigo do filósofo Renato Janine Ribeiro sobre o assassinato do menino João Hélio. O texto, emotivo e humano (a tal ponto que soa como um diálogo de uma conversa entre amigos), foi publicado na Folha de S.Paulo e tem despertado ainda mais emoções, sobretudo em razão de um detalhe: o filósofo chegou a desejar a morte dos assassinos, por isso ficou mal visto no pedaço, como observa Dines: ‘O rancor dos politicamente corretos que desabou sobre o filósofo desvenda uma das mais perigosas facetas das elites brasileiras: hipocrisia combinada com prepotência. Agarrados a totens e tabus, incapazes de encarar e escancarar suas angústias e convicções, os bem-pensantes-mal-falantes preferem recorrer ao linchamento moral de alguém que, por sua natureza e ofício, não pode compactuar com o fingimento e a mentira’.

Embora não agüente mais deparar com essa expressão, ‘as elites’, binômio vocabular tão vago quanto estranhamente generalizante, por vezes o mero ecoar de um chocalho ideológico ou político-partidário, concordo com a essência do pensamento do observador. Filósofo que é filósofo tem que dizer o que pensa- a menos que seja um arremedo de pensador.

O próprio Janine lança luz sobre esse raciocínio: ‘O intelectual é público. Só que, para ele cumprir seu papel público, é preciso acreditar no que diz. Ora, quantas vezes o intelectual afirma aquilo em que não acredita? Quantos não foram os marxistas que se calaram sobre os campos de concentração, que eles sabiam existir? Por isso, o mínimo que devo fazer, se sou instado a opinar, é dizer o que realmente penso (ou, então, calar-me)’.

Posso discordar de algumas afirmações do articulista. Relego-me, por exemplo, à condição de insensato, a julgar pela verdade que estaria contida nesta passagem: ‘Creio que só um insensato condenaria as execuções decretadas em Nuremberg’. Sabe-se que já escrevi contra a execução do facínora Saddam Hussein no mesmo espaço em que considerei o julgamento de Nuremberg uma exposição de corpos no açougue dos vencedores.

Apesar de reconhecer no filósofo em questão um ser ainda indeciso- o que me parece saudável, desde que se busque uma resposta, que nunca considero tardia-, dada a salada que fez ao tentar separar a pena de morte que pode daquela que não pode, aprovo-lhe a coragem e a sinceridade.

A reação ‘d’as elites’ ou do povão sempre será, em princípio, salutar, desde que se converse sem meias-palavras. Dessa crise deverá sair algo de bom.

Este colunista entende o filósofo. Em dadas circunstâncias, já fantasiou a morte de algum inumano. Talvez seja essa a distinção necessária. Tenho comigo que pessoas de formação verdadeiramente humanística não se regozijam num abatedouro, salvo por alguma tara. Tendo a pensar que o filósofo Janine fantasia, como eu, vez por outra, a morte dos assassinos, embora não a deseje. Trata-se de um recurso de defesa psicológica. Há uma larga distância entre fantasiar e querer. Não consigo vê-lo numa masmorra a ditar ordens de tortura medieval. Não consigo vê-lo diante do cadafalso, entre ipis e urras… Ou melhor: consigo, sim, mas só na minha imaginação. O que demonstra o que digo.

E se o filósofo for diferente daquele que se apresenta no meu imaginário? Nesse caso, considero-o com um problema. A começar por aceitar a barbárie sob o signo dessa ou daquela ideologia, ou contra essa ou aquela ideologia, o que dá na mesma…

Se isso não serve para mim, é tema para um outro artigo, aqui já não cabe mais. Resta apenas a convicção de que sempre precisaremos de pensadores honestos, ainda que possam se equivocar. Porque os desonestos sempre terão razão. Ao menos aquela que herdaram do direito divino do senso comum- esse, que, na intelectualidade, dita destinos e reputações, não raro em prejuízo da verdade de cada um e, em conseqüência, das verdades que dormitam no seio da sociedade.

(*) Jornalista, escritor, crítico, dramaturgo, escreveu quatro livros, um deles com o texto teatral ‘Quando Dorme o Vilarejo’ (Prêmio Vladimir Herzog). No jornalismo, tem exercido várias funções ao longo dos anos, na allTV, TV Globo, TV Bandeirantes, TV Manchete, CNT, CBN, Radiobrás e Revista Imprensa, entre outros. Tem no currículo vários prêmios em equipe, entre eles Esso e Ibest, e é membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes).’



DIRETÓRIO ACADÊMICO
Carlos Chaparro

Investigar e escrever, questão de método, 9/03/07

‘O XIS DA QUESTÃO – No jornalismo, como na vida, a arte do relato exige a capacidade de observar as manifestações da realidade. Mas não basta observar; é preciso compreender. Para compreender, é indispensável ir além da informação dos fatos, alcançar a explicação dos contextos. Sem isso, não há como diferenciar o importante do secundário, a aparência da essência.

1. A arte de enxergar o âmago

Um escritor pode ter todo o tempo da vida para escrever seu livro. Mas um jornalista está dramaticamente submetido à premência de prazos. Na informação diária, a partir de certo horário, os prazos se dividem em minutos; na televisão, até em segundos. E quando há pouco tempo para pensar, algumas ferramentas conceituais podem ser úteis.

O jornalista cuja capacidade de escrever mais me impressionou tinha o raro talento de, quando chegava o tempo de redigir, rapidamente decidir por onde começar uma reportagem. Era um talento tão aguçado que, freqüentemente, Francisco Calazans Fernandes (esse, o seu nome) começava a escrever pelo título, ali colocando a essência do conteúdo, em síntese perfeita.

Calazans foi repórter talentoso e atrevido, em jornais do Rio de Janeiro, Recife e São Paulo. Também chefiou redações e dirigiu projetos editoriais de grande porte. Na maturidade, dedicou-se à Educação, primeiro como secretário de Educação do Rio Grande do Norte, onde, no município de Angicos, realizou a mais bem sucedida experiência do método Paulo Freire de alfabetização (curiosamente, com financiamento total da Aliança Para o Progresso…). Dedicou-se, mais tarde, à tele-educação, dirigindo programas educacionais na TV Globo. Na aposentadoria, passou a produzir literatura de sabor jornalístico, caldeando ficção e realidade.

Em meados de 2000, com o pedido de comentários, Calazans Fernandes mandou-me uma cópia de uma dessas obras literárias em que trabalhava, já em fase de conclusão. Na leitura, redescobri, exuberante, a lucidez que com tanta facilidade levava o autor ao âmago das questões, fossem elas simples ou complicadas. E tentei imaginar qual seria o método de Calazans, para chegar com tão rigorosa precisão à definição do que é essencial.

Lembro-me bem: nos tempos do Calazans repórter, quando ele começava a escrever, o texto brotava naturalmente, parecendo jorrar de uma torneira generosamente aberta. Mas a torneira só se abria depois de resolvida a questão central: o que é mais importante? Qual a idéia-eixo?

Para resolver esse problema, Calazans às vezes espalhava montanhas de documentos e anotações pela mesa. Com rapidez mágica, fixava-se num dos papéis, destacava-o do conjunto e dizia: ‘Está aqui’.

2. O saber do fazer

Que saber era esse, contido nas práticas jornalísticas de Calazans Fernandes? Fiz-lhe a pergunta, quando ainda lecionava, para repassar conhecimentos aos meus alunos. E ele respondeu, sem teorias:

– Diante de uma reportagem, a pergunta que se formava na minha cabeça era seguinte: O que é isto? Como eu vou escrever sobre isto? – e a solução do problema tinha que estar no título. Sempre tive a convicção de que se não fosse capaz de resumir um problema, um tema ou um acontecimento num título, também não seria capaz de explicá-lo aos leitores. E se o leitor não entende, o jornalismo é inútil. Depois de resolvido o problema, o texto vinha aos galopes.

Mas Calazans deixou uma advertência preciosa:

– Eu não sei como vocês ensinam isso aos alunos. Mas no meu jeito de pensar jornalismo, as coisas só adquirem importância se forem localizadas no tempo e no espaço. Fora do contexto, nada tem importância.

Será que dá certo esse jeito de lidar com a narrativa jornalística? Vejam o resultado, num parágrafo que recorto de um texto de Calazans Fernandes, sobre as lutas de libertação do Acre:

‘Gaúchos, portugueses, judeus, árabes, norte-americanos, gente dos quatro cantos do mundo deram a sua contribuição. Mas, se não fossem nordestinos como o coronel Childerico José Fernandes de Queiroz, de Pau dos Ferros, da tromba do elefante no Rio Grande, o Acre não seria hoje brasileiro’.

3. A teoria da prática

Como professor de jornalismo, defendo a idéia de que a prática jornalística, nas redações, produz um saber que a Universidade precisa incorporar. E teorizar. Por trás da precisão que dá beleza literária ao texto de Calazans Fernandes há um método que tentarei remontar, a partir das lembranças que guardo do tempo em que, colega de trabalho na mesma redação, e querendo aprender, observava a maneira como ele trabalhava. Vamos lá.

a) Em primeiro lugar, o texto claro, preciso, empolgante e densamente informativo de Calazans Fernandes resultava sempre de investigações exaustivas. Era um incansável fabricante de perguntas, e incansavelmente, ia atrás de quem tinha as respostas. Tinha obsessão por documentos. Cruzava o que ouvia e recolhia nas andanças da rua com o referencial de livros e as revelações guardadas em arquivos de documentos. Ele próprio era um infatigável colecionador de recortes de jornais, onde ainda hoje continua a guardar a memória organizada do seu tempo.

b) A percepção do mais importante, Calazans a alcançava na fase de investigação. Logo nas primeiras conversas e no início do levantamento de dados, ele escolhia a vertente predominante, que deveria dar sentido e organização ao texto. A partir dessa escolha, delimitava o que sabia e o que lhe faltava saber, para compreender e contar a história. Ia então à luta, direcionando a busca para o aprofundamento que lhe interessava, depois da escolha do enfoque principal. E investia na pescaria de detalhes significativos, registrados com precisão inquestionável.

c) A escolha do enfoque principal sempre estava associada à preferência por um conflito, ou pela acentuação de uma leitura do conflito. Essa escolha ou essa acentuação davam rumos tanto à investigação jornalística quanto à estratégia narrativa. Às vezes, a acentuação se dava pela leitura ideológica do conflito, em outras, pela leitura política, social, econômica, cultural ou ética. Qualquer boa história jornalística pode ter várias dessas leituras, e Calazans optava por uma, como predominante e ordenadora do texto. Na prática, usava um ferramental de percepção e atribuição de significados que funciona. E que estimula a criatividade jornalística.

O resto é talento, e talento não se ensina. Mas pode e deve ser educado.’



COMUNIQUE-SE
Cassio Politi

Portal se embanana com termos jurídicos, 12/03/07

‘Jornalismo e direito são primos próximos. Quiçá, irmãos. É fundamental que o jornalista tenha noções básicas de direito e, mais importante, o telefone de um advogado sempre à mão. Isso evitaria duas baboseiras publicadas, semana passada, no Comunique-se.

Numa reportagem de 07/03, o repórter informa que o Ministério Público Federal ‘condena o jornalista [Diogo Mainardi] a pagar R$ 200 mil de indenização’. Atenta, uma leitora protesta: ‘Pô, o Ministério Público não condena ninguém’. Exatamente: o MPF entrou com a ação civil pública. Um juiz condenará Mainardi ou não.

Dois dias antes, a mancada tinha sido pior. Na matéria ‘TRT indica administrador para Gazeta Mercantil’ (05/03), aparece publicado ‘mandato de segurança’. Um leitor alertou e a redação corrigiu para ‘mandado de segurança’.

No time de colunistas do Portal, está o advogado Gilberto Martins. A redação deveria contatá-lo sempre que tiver dúvidas.

Bendito Aurélio

Um leitor reclamou do título ‘Carlos Nascimento desmente Folha de S. Paulo’. Ele argumenta que o verbo ‘desmentir’ só seria aceitável se a Folha tivesse comprovadamente mentido. Entretanto, está no dicionário que ‘desmentir’ significa ‘declarar que alguém não diz a verdade; contestar; negar o que outrem afirmara; destoar de’. Portanto, o termo ‘desmentir’ está bem empregado. O Comunique-se não errou.

A falha que aponto neste caso é outra. A redação se limitou a ler a declaração de Nascimento no ‘Painel do Leitor’ da Folha. Faltou ouvir o âncora do SBT e o colunista Daniel Castro, autor da coluna ‘Outro Canal’. A polêmica gira em torno de uma informação de Castro, que afirma que Nascimento está insatisfeito pelo fato de ter de dividir a bancada com Cynthia Benini. Nascimento diz que não é nada disso. O papel do Comunique-se é ouvir ambos.

Mais títulos

A reportagem ‘Mulheres exigem mais do jornalismo feminino’ (08/03) foi oportuna, mas pobre em conteúdo. A redação ouviu apenas profissionais da revista Nova e do Diário do Nordeste. São dois veículos importantes, sem dúvida, mas é impossível falar de jornalismo feminino sem pensar em Marie Claire, Claudia, Elle e algumas outras.

Credibilidade

Na semana retrasada, a Folha Online noticiou que parte da Editora Três tinha sido vendida para Daniel Dantas. A redação do Comunique-se divergiu da Folha Online e apostou que o negócio não estava fechado. Ainda não está e tudo indica que o Comunique-se é que tinha a informação correta.

Falou ou leu?

Faltou ambientar melhor as opiniões de leitores publicadas na matéria ‘MTE restabelece registros precários’ (07/03). A redação colheu opiniões de leitores em contato por telefone com eles? Ou colheu opiniões postadas em matérias anteriores sobre a polêmica acerca do diploma? As duas alternativas são válidas, mas é preciso explicar qual opção foi adotada.

Sigla

A reportagem ‘Câmara de Franca gera atrito com jornalistas’ (09/03) não informa em que estado fica a cidade de Franca. Deveria trazer: ‘Franca (SP)’.

Harmonia

Na semana do Dia Internacional da Mulher, leitores debateram o desempenho das mulheres neste mundo da Comunicação. Alguns são contra a existência desse dia de homenagem (08/03), outros são favoráveis. O fato positivo no rol de comentários foi a manifestação de respeito dos homens pelas jornalistas. Ponto para os usuários do Comunique-se pelo alto nível do debate.

Cassio Politi é jornalista. Trabalha com Internet desde 1997. Esteve em projetos pioneiros em jornalismo na Web, como sites da Zip.Net, e no site UOL News, do Portal UOL. Ministra cursos de extensão sobre Jornalismo On-Line e Videorreportagem desde 2001. Deu aulas em 25 estados brasileiros para mais de 2 mil jornalistas. Em janeiro de 2007, tornou-se o primeiro ombudsman do Comunique-se, empresa na qual também ocupa o cargo de diretor de Cursos e Seminários.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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Veja

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