Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 18 E 19/08

Comunique-se

21/08/2007 na edição 447

TV PÚBLICA
Marcelo Tavela

Franklin confirma sede da TV pública no Rio, 17/08/07

‘O Rio de Janeiro será a sede da TV Brasil. A informação foi confirmada pelo ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Franklin Martins, que acompanhou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em visita à Vila Parapanamericana na sexta-feira (17/08). Perguntado sobre a nota da coluna de Ancelmo Gois em que Lula confirma o Rio de Janeiro como sede, Franklin comentou: ‘Quem sou eu para duvidar do presidente?’.

Nos próximos dias, deve chegar ao Congresso a medida provisória ou projeto de lei – ainda não está definido – sobre a fusão da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que mantém a TVE, e a Radiobrás, que dará origem à rede pública de comunicação.

Entre os fatores que pesaram para o Rio, estão o fato da Acerp ser uma organização social e não uma estatal – o que também facilita a contratação de profissionais – e contar com um prédio novo que poderá acolher a área administrativa da TV Brasil, entre outras. Seus estúdios e sua redação passam também por uma reforma.

Já comunicada da decisão, a direção da TVE estava reunida até o início da noite de sexta-feira (17/08) debatendo algumas modificações. Enquanto isso, os funcionários da emissora comemoravam com um churrasco em um bar próximo.

São Paulo

O primeiro programa feito conjuntamente por TVE e Radiobrás tem data de estréia: o Edição Nacional de 10/09. Mas já na segunda-feira (20/08) a reunião de pauta será feita em conferência entre Rio, Brasília e São Paulo. A TV Brasil começa a ser transmitida na capital paulista, no dia 02/12 – o mesmo do início das transmissões digitais. As instalações em São Paulo estão sendo montadas com organização de Florestan Fernandes Filho, e devem acolher, futuramente, cerca de 100 profissionais.

Definida a sede e a fusão com a Radiobrás, os funcionários da TVE darão ênfase a questões organizacionais que já vinham sendo discutidas. A Acerp tem hoje 1200 funcionários, sendo 450 servidores e os demais, contratados. Além de garantir o emprego dos profissionais, os funcionários pedem que seja criado um banco de oportunidades, para que vagas abertas em outras praças sejam divulgadas internamente.

‘Pedimos ambém igualdade de condições entre a TVE e Radiobrás, incluindo salários e benefícios equivalentes’, informa Neise Marçal, chefe de reportagem da TVE. ‘Enviamos ofícios para o ministro Franklin, para o [ministro do Planejamento] Paulo Bernardo e para a [Chefe da Casa Civil] Dilma Rousseff, que está desenvolvendo o modelo de gestão da TV Brasil. O Franklin considerou justo o nosso pedido’, completa.’

Eduardo Ribeiro

Sede da Rede Pública de TV será no Rio, 15/08/07

‘O Rio de Janeiro ganhou a batalha para ficar com a cabeça de rede da nova emissora de tevê pública que está sendo gestada pelo Governo Federal, sob a coordenação do ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

A revelação foi feita na noite desta terça-feira por Ottoni Fernandes Jr., secretário-adjunto da Secom, durante a conferência que proferiu na abertura do 7º Congresso Brasileiro de Comunicação no Serviço Público, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo. A decisão foi tomada, segundo ele, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o aval de Martins. Uma das razões da escolha do Rio de Janeiro é a distância em relação ao poder central, o que, na visão deles, deverá conferir maior liberdade e independência às decisões da organização.

Ottoni falou também sobre os trabalhos para a fusão das estruturas da Acerp (a associação controladora da TVE), que é homogênea, e a da Radiobrás, mais fragmentada, ambas resultando no que deve se chamar Sistema Público de Informação. Garantiu que não haverá demissões, devendo todos os cerca de 1.400 empregados serem aproveitados na estrutura em construção. Afirmou ainda que está nos planos a criação de uma ouvidoria, para dar voz e poder de crítica à sociedade, e disse que a troca de conteúdo entre as várias tevês públicas do País, como as universitárias, as legislativas e as educativas, será estratégica tanto na qualificação da programação quanto na viabilidade econômica do projeto.

O secretário-adjunto revelou ainda que estão sendo estudadas várias alternativas de geração de recursos para a nova tevê pública, entre elas doações diretas da sociedade, patrocínios institucionais, venda de conteúdo e venda de serviços. O governo não quer que o projeto dependa apenas de verbas oficiais e também não aceitará a venda de espaços publicitários, devendo as receitas neste campo advirem exclusivamente de inserções institucionais.

O anúncio de que o Rio vai sediar a emissora foi feito diante dos 200 presentes à solenidade de abertura do 7º Congresso, evento que vai reunir, até a próxima 5ª.feira, 16/8, cerca de 400 participantes.

Le Monde Diplomatique lança edição impressa no Brasil

Pouco mais de um ano depois de reformular, editorial e graficamente, sua edição na internet, chegou às bancas no último dia 6/8 a versão brasileira impressa de Le Monde Diplomatique, a Diplô, como é mais conhecida, publicação francesa sinônimo de jornalismo crítico e sem concessões à superficialidade e considerada o mais importante veículo de política internacional do mundo.

Fundada em 1954, a revista é editada em mais de trinta países e sua tiragem total supera 1,5 milhão de exemplares. Sob a responsabilidade de uma entidade civil, o Instituto Pólis, com o apoio da Action Aid Brasil e patrocínio da Petrobras e da Fundação Banco do Brasil, a versão brasileira da Diplô tem 40 mil exemplares mensais, 40 páginas e custa R$ 8,90. Tanto o site (editado pelo Instituto Paulo Freire), como a edição impressa integram um projeto maior, que engloba o lançamento de uma série de livros temáticos de bolso – o primeiro deles, Alternativas ao Aquecimento Global, chega às livrarias esta semana – e a construção, a partir de setembro, na internet, do Caderno Brasil, um conjunto de canais participativos para debater em profundidade o país, a globalização e suas alternativas. As duas entidades atuam de forma autônoma, mas em colaboração.

Segundo o editor da Diplô impressa, José Tadeu Arantes, a revista terá 70% de material traduzido da edição francesa e o restante de produção nacional, principalmente artigos escritos por analistas e intelectuais progressistas, ‘que dêem a ela um foco plural e heterogêneo, mas democrático’. Com mais de 30 anos de experiência, Arantes começou sua carreira no extinto semanário Movimento e teve passagens por diversos veículos, principalmente revistas, entre elas, Superinteressante, Globo Ciência e Scientific American, e, até recentemente, comandava História Viva, da Duetto. Os contatos dele são 11-3256-9130 e diplomatique@diplomatique..org.br . Antonio Martins é o editor do site.

Mudanças na Gazeta Mercantil

José Eduardo Gonçalves deixou na última semana, após reunião com o diretor-geral Flávio Pestana, o cargo de diretor de Redação da Gazeta Mercantil, que ocupava desde março de 2005. José Eduardo, nesta sua segunda passagem pela Mercantil (a anterior foi entre os anos de 1986 e 1987, como repórter da editoria de Transportes), contabilizava dez anos de casa. Como diretor de Redação da GZM, coordenou o projeto de atualização gráfica e editorial do jornal, implantado em abril de 2005 e baseado na reestruturação da equipe de jornalistas, criação de novas editorias e mais um caderno diário, inclusão de fotos e modernização da infografia.

Antes, ele foi editor sênior do Núcleo de Projetos Especiais de janeiro de 2002 a setembro de 2004, sendo responsável pela criação e edição de suplementos focados em vários setores da economia brasileira; e diretor das unidades regionais de negócios de Curitiba e Fortaleza de outubro de 1997 a novembro de 2001. A partir de abril de 2006, acumulou ainda os cargos de membro do Conselho Editorial e editor sênior de Economia do Jornal do Brasil, sendo responsável pela criação do caderno dominical ‘Economia, Negócios & Serviços’, lançado pelo JB em novembro passado. Também atuou como comentarista de Economia do Telejornal do Brasil, apresentado por Boris Casoy na TVJB, desde seu lançamento, em maio passado; e editor-chefe de setembro de 2004 a março de 2005 da Forbes Brasil, revista com a qual continuava a colaborar como colunista desde maio de 2006.

Também se despediu da GZM há pouco mais de uma semana o articulista Glauco A. Melo de Carvalho, que ali estava desde 1974 e que nos últimos anos também acumulava participação no Conselho Editorial do jornal. Pernambucano de nascimento, Glauco, antes da GZM, foi editor de Economia da Folha de S.Paulo e esteve também na fase inicial da revista Exame, na Editora Abril, na equipe de Mathias Molina.

PIB, nova revista de Economia, chega ao mercado dia 23/8

Ricardo Galuppo (ex-Forbes), Nely Caixeta e Clayton Netz (ambos ex-Exame) lançam no próximo dia 23/8, pela Totum, uma nova revista de Economia, a PIB, Presença Internacional do Brasil. Bimestral, a publicação terá 18 mil exemplares em português e sete mil em inglês. Chega com a idéia de ser uma vitrine das empresas brasileiras no Exterior, mas também promete ser didática, instrutiva e divertida.

A revista terá distribuição dirigida e só estará à venda em algumas bancas estratégicas, ao preço de R$ 10. No Exterior, será dirigida para o mercado financeiro, jornalistas e acadêmicos de EUA, França, Inglaterra, Espanha e América Latina.

O primeiro exemplar conta, entre seus colaboradores, com Costábile Nicoletta, Maria Helena Tachinardi, Paulo Moreira Leite, Paulo Sotero, Luiz Felipe D’Avila, Marcelo Cabral, Juliana Garçom, Rebeca Moraes, João Paulo Nucci, Lia Vasconcelos, Aline Lima, além das correspondentes Adriana Setti, em Barcelona, Andréa Flores, em Paris, e Juliana Vale, em Pequim.

O lançamento oficial será no Centro Brasileiro-Britânico (rua Ferreira de Araújo, 741), a partir das 18h30. O telefone da Totum é 11-3097-0847.

(*) É jornalista profissional formado pela Fundação Armando Álvares Penteado e co-autor de inúmeros projetos editoriais focados no jornalismo e na comunicação corporativa, entre eles o livro-guia ‘Fontes de Informação’ e o livro ‘Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia’. Integra o Conselho Fiscal da Abracom – Associação Brasileira das Agências de Comunicação e é também colunista do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, além de dirigir e editar o informativo Jornalistas&Cia, da M&A Editora. É também diretor da Mega Brasil Comunicação, empresa responsável pela organização do Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.’

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Lula indicará membros de conselho gestor da TV Pública, 17/08/07

‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicará os membros do Conselho gestor da instituição que comandará a TV Pública. A informação foi divulgada durante a 20ª edição do Fórum do Planalto, na quinta-feira (16/08). O conselho terá de 15 a 20 representantes da sociedade com estabilidade em seus cargos. O grupo será responsável pelo órgão que deve fazer a gestão participativa da sociedade na nova rede pública.

De acordo com o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Franklin Martins, o conselho não será composto por ‘representantes corporativos’ se referindo a associações e sindicatos que poderiam incluir seus interesses nas decisões da rede. O ministro não quis mencionar nomes ou perfis que o governo quer.

Durante o Fórum Nacional de TVs Públicas, uma das recomendações aprovadas foi de que Estado e governo não tivessem maioria no conselho. Desde abril, um grupo de trabalho coordenado por Martins discute a nova rede. A nova instituição agregará a Radiobrás e a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp).

(*) Com informações da Agência Brasil.’

CASO RENAN
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Grupo Abril desmente irregularidades na negociação da TVA, 17/08/07

‘O Grupo Abril considerou ‘leviana’ a acusação do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre supostas irregularidades na venda da TVA para a Telefônica. O comunicado oficial da editora foi uma resposta ao requerimento do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) para que se investigue a transação. Ele fez a solicitação para a Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) na quarta-feira (15/08).

Renan afirma que a operação de venda desobedeceu a legislação. ‘A necessidade de apuração do caso tornou-se um consenso depois da denúncia apresentada por Renan. É preciso que a comissão se pronuncie’, declarou Crivella, ao apresentar o requerimento.

A Comissão deve marcar uma audiência para ouvir presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Ronaldo Sardenberg; o conselheiro Plínio de Aguiar Júnior, também da Anatel; e os presidentes dos conselhos diretores da TVA e da Telesp.

Leia a nota do Grupo Abril:

A Editora Abril informa que as revelações de Veja sobre o senador Renan Calheiros foram rigorosamente apuradas e, portanto, as confirma integralmente. As aflições e problemas do senador derivam de suas condutas. Estas foram consideradas suficientemente problemáticas pelos seus pares e pelo Procurador-Geral da República, que as encaminharam para investigação, de um lado, para o Conselho de Ética do Senado Federal e, de outro, para o Supremo Tribunal Federal.

É fruto do desespero do senador a acusação leviana de que ainda haja alguma coisa a verificar na transação entre a TVA e a Telefônica.

A Abril reitera que a parceria em questão está rigorosamente dentro da lei e já foi aprovada pelo Conselho Diretor da Anatel após nove meses de tramitação e análise.’

Luiz Carlos Barreto, ex-diretor do diário alagoano O Jornal, confirmou que o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) foi um dos compradores do Grupo O Jornal. Em depoimento prestado na sexta-feira (17/08) ao corregedor do Senado, Romeu Tuma (DEM-SP), Barreto disse que o presidente do Senado e o usineiro João Lyra se reuniram várias vezes com Nazário Pimentel, ex-proprietário do grupo, para fechar a negociação.

Segundo denúncia da revista Veja, Renan e Lyra foram donos da JR Radiodifusão, porém registraram a empresa em nome de laranjas. A JR comprou o grupo – que edita O Jornal e é dono da Rádio Correio – e ganhou em 2005 a concessão para outra rádio em Alagoas. A sociedade durou até o fim daquele ano, e o senador seria hoje secretamente dono das duas rádios.

Barreto afirmou que O Jornal foi vendido por R$ 700 mil, além dos encargos trabalhistas e fiscais. Ele esteve em várias reuniões com Renan, Lyra e Pimentel, mas não tem como comprovar as informações.

Depoimento de Lyra

João Lyra depôs na quinta-feira (16/08) em Maceió, e apresentou a Romeu Tuma notas promissórias totalizando R$ 650 mil com a assinatura de um representante de Pimentel e de Tito Uchôa, primo de Renan Calheiros e legalmente um dos donos da JR Radiodifusão. O senador divulgou carta negando as acusações.

‘A situação é delicada. O Uchôa é a parte principal. Ele é acusado pelos dois (Barreto e Lyra) de ser o representante do senador Renan e fez toda a movimentação em nome dele’, disse o senador. Uchoa já comunicou Tuma que poderá comparecer no conselho de ética do Senado ‘com um imenso prazer’.

(*) Com informações da Agência Brasil e Agência Senado.’

INTERNET
Bruno Rodrigues

Estadão vs Blogs, Pierre Lévy e Martha Stewart, 16/08/07

‘Há situações que são simplesmente bobas. Não há melhor adjetivo para algo que é criado para incomodar por incomodar, mas que nem coceirinha faz. Chega a ser constrangedor. É o caso da campanha que o Estadão está fazendo contra – tenho vergonha até de escrever – os blogs. De acordo com o jornal, os blogs (todos) não são fonte confiável (nunca).

Antes de tudo, tinha que ser o Estadão, mesmo? Não podia ter sido a Gazeta de Itapapira do Sul, ou seja, um jornal, sei lá, menos esclarecido?

Dá tanta vergonha que, se daqui a alguns meses, alguém comentar comigo sobre este assunto, sou capaz de fazer cara de paisagem e perguntar, bem devagar, ‘Campanha contra os blogs? ‘Estadão’? Não, você deve estar enganado’. Eu só gasto o seu tempo e o meu aqui, nesta coluna, porque muitos me pediram ‘Bruno, fale sobre este absurdo em sua coluna, vai!’.

Tenho aprisionado, em uma ilha rochosa no meio do Oceano Índico, um monstro da implicância que eu bem poderia libertar para fazer algum estrago, pois já o ouço implorando pela luz do dia, e grunhindo ‘Estadão… Ão’.

Mas sou um cara equilibrado e sensato, e toda esta história é tão sem graça, que penso que o monstro da implicância corre o risco de morrer de tédio. Não, quando ele morrer, que seja por uma boa causa, pelo menos.

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Pierre Lévy é um cara legal. O teórico das novas mídias veio ao Brasil, mais uma vez, para falar sobre a vida digital. Concordo com a Folha – ops, concorrente do Estadão! quieto, monstro! – quando ela diz que Lévy é de um otimismo inabalável. Ele vê a web como uma mídia a ser constantemente experimentada e, principalmente, criticada.

Este, para mim, é o grande valor de Pierre Lévy. Ele não é defensor ferrenho de nada novo e ‘revolucionário’ que surge na Rede como a web 2.0, e nem rejeita o que já nasce polêmico como o Second Life.

Sobre a web 2.0, ele diz que a grande virada é que ficou mais fácil qualquer um ‘usar’ a tecnologia disponível na Rede e produzir conteúdo próprio. Mas este é apenas o ponto zero para o que ainda está por vir. Quanto ao Second Life, ele não entende por que tanto bafafá. Lévy o encara apenas como mais um ambiente de relacionamento, como o Orkut, porém muito mais atraente visualmente e com (algumas) possibilidades para empresas.

Neste momento em que há uma caça às bruxas velada a quem simplesmente critica movimentos como a web 2.0, sites como o YouTube e ambientes como o Second Life, é bom ouvir Pierre Lévy.

Ele nos remete ao básico – nada é totalmente bom ou totalmente ruim. Há que observar, estudar e criticar. Assim caminha qualquer mídia. Pergunte aos veteranos da televisão, por exemplo, e verá.

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Adoro Martha Stewart. Martha é aquela que ficou um ano na prisão e mais outro em casa, fiscalizada pela polícia, por ter recebido ‘informação privilegiada’ sobre o mercado de ações.

Eu já perdoei Martha. Eu e o público americano. Para quem não a conhece, ela é uma Ana Maria Braga chique que, além de ter programas de tevê e rádio sobre culinária, marcenaria – isso, mesmo, marcenaria – e jardinagem, é a dona de um império de Comunicação chamado OmniMedia. Um dos tentáculos da empresa é um portal na web de cair o queixo.

A novidade sobre o www.marthastewart.com veio este mês na Wired, a revista sobre tecnologia mais pop (e lida) do planeta. Martha é capa da edição especial ‘faça você mesmo’ – neste aspecto, casa e tecnologia se cruzam -, e a empresária foi, por questões óbvias, chamada para um ping-pong rápido com o editor da revista.

Martha Stewart anunciou a criação da Marthapedia, ou seja, uma enciclopédia online e colaborativa, onde os usuários poderão editar verbetes sobre questões que dizem respeito ao universo prático e caseiro. Parece risível, mas começo a achar interessante. Afinal, a tão falada Wikipedia tem como proposta se tornar ‘a’ enciclopédia sobre tudo, e iniciativas assim sempre esbarram – e escorregam – quando vão com muita sede ao pote.

Sei não, mas corre o risco da Martha acabar criando um dos projetos web 2.0 mais interessantes da Rede, capaz de encher os olhos de Pierre Lévy. E, lamentável, deslanchar uma nova campanha do Estadão, desta vez em defesa das enciclopédias de papel.

Desta vez, nem me falem. Vou fingir que não vi.

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No dia 28 inicio mais uma edição de meu curso ‘Webwriting e Arquitetura da Informação’ no Rio de Janeiro. Serão cinco terças-feiras seguidas, sempre à noite. Para mais informações, é só ligar para 0xx 21 21023200 e falar com Cursos de Extensão, ou enviar um e-mail para extensao@facha.edu.br. Até lá!

(*) É autor do primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo online, ‘Webwriting – Pensando o texto para mídia digital’, e de sua continuação, ‘Webwriting – Redação e Informação para a web’. Ministra treinamentos em Webwriting e Arquitetura da Informação no Brasil e no exterior. Em sete anos, seus cursos formaram 1.300 alunos. É Consultor de Informação para a Mídia Digital do website Petrobras, um dos maiores da internet brasileira, e é citado no verbete ‘Webwriting’ do ‘Dicionário de Comunicação’, há três décadas uma das principais referências na área de Comunicação Social no Brasil.’

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Sites de jornais dos EUA perdem audiência, diz estudo, 17/08/07

‘Washington, 17 ago (EFE).- Com a exceção dos grandes periódicos de tiragem nacional como o New York Times, o Washington Post e o USA Today, as páginas web da maioria de jornais dos EUA perdem audiência, segundo um novo estudo.

O relatório publicado na quinta-feira (16/08) pela Universidade de Harvard, e que pode ser acessado em www.ksg.harvard.edu/presspol/index.htm, se baseia no acompanhamento de 160 sites de periódicos, cadeias de televisão e outros meios de imprensa durante o período de um ano.

A análise destaca como significativo o aumento de tráfego, em torno de 10% em média, que registraram no último ano os sites de jornais de tiragem nacional como o New York Times, o Washington Post e o USA Today.

‘Pelo contrário, as páginas da maioria do resto dos periódicos – quer seja de jornais de cidades pequenas, médias ou grandes – perderam audiência’, indica o relatório, insistindo em que, em termos médios, esses sites têm bem menos visitantes que há um ano.

Os autores da pesquisa concluem que a web ameaça sobretudo os jornais. Esses meios de imprensa estiveram entre os primeiros a colocar notícias na internet, mas segundo o estudo essa vantagem inicial foi diminuindo perante a crescente concorrência de meios de imprensa eletrônicos e provedores de conteúdo não tradicionais.

Segundo a Universidade de Harvard, a internet representa também uma maior ameaça para a mídia local do que para as que já desfrutam de alcance nacional. ‘Porque reduz a influência da geografia na escolha de uma fonte informativa, a internet favorece aqueles que têm uma marca, essas poucas organizações que saltam à mente dos americanos quando buscam notícias na web’.

Quanto ao mais, o estudo reflete um forte aumento no número de visitantes às páginas web das cadeias de televisão mais conhecidas do país, como a CNN, ABC, CBS, NBC, MSNBC e Fox. Segundo o relatório, o tráfego médio desses sites aumentou em mais de 30% durante o último ano.

Os que desfrutaram maiores aumentos de audiência foram os provedores não tradicionais, como os buscadores e os blogs.

Entre os mais beneficiados estão Google, Yahoo!, AOL e MSN, além de sites como newsvine.com, topix.net, digg.com e reddit.com.

(c) Agencia EFE’

CVM & CENSURA
Claudia Reis

CVM quer censurar jornalistas?, 17/08/07

‘A notícia de que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu consulta pública para rediscutir a atuação de analistas de valores mobiliários tem gerado opiniões bastante apaixonadas entre os profissionais de imprensa. O edital de audiência pública que propõe alterações na instrução CVM nº 388 sugere a criação de normas de conduta também para os jornalistas que cobrem o setor. A maior parte das opiniões postadas aqui no Comunique-se aponta a atitude da CVM como tentativa de coibir nossa atividade, censurar, perseguir, amordaçar e calar a imprensa. Mas que tal tentarmos enxergar a questão de forma menos banal?

A primeira questão que devemos discutir é: o jornalista é ou não um profissional tecnicamente capacitado para emitir opiniões relacionadas a investimentos ou indicar esta ou aquela ação, este ou aquele fundo para o cidadão? Quantos jornalistas realmente conhecem análise fundamentalista, dominam técnicas de valuation (precificação de ativos) e legislação de mercado?

Os jornalistas brasileiros não têm o costume de emitir opiniões ou análises sobre fundos de investimento, ações ou outros ativos. Produzem suas reportagens com base nas análises e opiniões de fontes do mercado, reproduzindo-as e, em geral, atribuindo a fonte a cada uma das informações divulgadas. Ainda assim, têm poder para influenciar fortemente a cotação de papéis. A alta ou queda de uma ação, o sucesso ou fracasso de um IPO, podem depender da simples decisão de divulgar ou não uma informação apurada com uma fonte de mercado. Não podemos esquecer também que a imprensa é referência para os milhares de investidores individuais que entraram nos últimos anos no mercado de capitais e que acreditam no que lêem.

Conheço jornalistas de finanças extremamente capacitados que são tão conscientes de seu papel que criaram uma espécie de auto-regulamentação. Eles vivem o dia-a-dia do mercado, acompanham os principais papéis na Bovespa e nas bolsas internacionais, têm acesso às análises dos melhores bancos de investimento e decidiram, por conta própria, não investir diretamente em ações. Esta sábia decisão já é norma oficial em alguns dos veículos mais sérios do País e se antecipa a algumas normas de conduta que poderão ser propostas pela CVM. Por que não?

Acha que isso é bobagem? Não sejamos ingênuos. É impossível não imaginar que um profissional de imprensa poderia divulgar uma informação para esquentar uma ação na qual está comprado. Ou, ao contrário, deixar de divulgar para não perder dinheiro. Se você acha que nenhum jornalista é tão antiético assim, sinceramente, o leitor/investidor não tem obrigação de achar.

Vou dar outro exemplo para ilustrar o quanto nossa categoria está pouco preparada para lidar com normas internacionais neste momento em que o mercado de capitais brasileiro atravessa o melhor período de sua história, com dezenas de novas empresas entrando em bolsa. Tive a oportunidade de acompanhar IPOs (oferta inicial de ações nas bolsas de valores) e de ouvir, de colegas que atuam em redação e assessoria, que o quiet period (período de silêncio) estabelecido pela resolução 400 da CVM é ‘um absurdo’. A maioria diz que é ‘censura’ e que ‘atrapalha o trabalho’.

Este período de silêncio, que começa quando a empresa manifesta a intenção de abrir capital e só termina com a publicação do resultado da operação nos jornais (em geral, um mês após o IPO), está longe de ser censura – ainda que a CVM seja, por vezes, demasiadamente rigorosa. Ele existe em todos os países onde há bolsas de valores ativas para garantir a uniformidade de informações, dando a todos os investidores as mesmas ferramentas para decidir investir ou não na companhia. As informações estão no prospecto da operação. Portanto, é justo e democrático.

Ainda que seja mais fácil para nós, jornalistas, levantar a bandeira apaixonada da censura para evitar discutir algo que nos obrigaria a pensar melhor sobre o nosso trabalho, a discussão aberta pela CVM é um passo fundamental para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro e vem em ótima hora. Devemos apenas fazer nosso dever de casa e nos preparar para participar dela.

(*) Diretora executiva da Approach Gestão de Informação. Jornalista, possui MBA em Finanças e CNPI (Certificação Nacional do Profissional de Investimento). Atuou 15 anos na grande imprensa, em editorias de economia e finanças.’

Milton Coelho da Graça

Até jerico ama a liberdade, 16/08/07

‘Aparentemente incomodada pela ótima qualidade do noticiário e das análises financeiras produzidas pela imprensa (especialmente pelo jornal Valor), a diretoria da Comissão de Valores Mobiliários – CVM – resolveu tentar subordinar esse trabalho a critérios determinados pela própria CVM.

Claro que a autarquia tem pleno direito de procurar aprimorar a qualidade dessa nova categoria de profissionais que procuram explicar o que está acontecendo no mercado e orientar os investidores. Ela tem todo o direito de ‘certificar’ esses profissionais, da mesma forma como a Ordem dos Advogados, os CREAs etc. fazem esse trabalho em relação a outros profissionais.

Mas imaginem se a OAB ou o Conselho da Magistratura resolvessem também determinar como ou quem pode dar notícias sobre o trabalho da Justiça. Ou se um Conselho de Medicina determinasse como ou quem pudesse divulgar o que está acontecendo num hospital.

Para evitar essa ‘compulsão regulatória’ de que todo burocrata sofre, em maior ou menor grau, os constituintes de 1988 foram curtos e grossos: a liberdade de imprensa é plenamente garantida, sem restrições, PONTO. Sugiro que a FENAJ e a Associação Brasileira de Imprensa, bem como todos os sindicatos de jornalistas do Brasil, enviem aos diretores da CVM um exemplar da Constituição.

E encerremos rapidamente este assunto, antes que outros burocratas (entre os quais até coleguinhas absorvidos pelos atrativos do aparelho) comecem a inventar razões ‘sociais’ para as idéias de jerico da CVM.

Sepúlveda, uma cria da UNE

No Congresso da União Nacional dos Estudantes em 1956, a bancada mineira foi decisiva para a montagem da frente que derrubou o servilismo da entidade diante do Ministério da Educação, um servilismo bem ‘lubrificado’ por favores, cargos e viagens – exatamente como até hoje é a prática de todos os governos do Brasil e alhures em relação a todas as entidades sindicais e estudantis. A idéia básica que triunfou naquele congresso, defendida por estudantes católicos, socialistas e comunistas, era a da plena democracia representativa, a entidade deveria ser representativa de todo o seu conjunto e não apenas de um grupo ou partido mais espertinho.

Um dos líderes dos estudantes mineiros chamava-se Sepúlveda Pertence, que está se aposentando, 51 anos depois daquela virada na UNE, como ministro do Supremo Tribunal Federal, após uma brilhante carreira jurídica, que a ditadura Militar tentou interromper em 1969 com a cassação (Pertence era promotor público em 1969), mas que a redemocratização do país consagrou até levá-lo ao posto mais ambicionável por um jurista: a presidência do STF entre 1995 e 1997.

(*) Milton Coelho da Graça, 76, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.’

MEMÓRIA / JOEL SILVEIRA
Felipe Cruz

A última entrevista de Joel Silveira, 17/08/07

‘Fonte:O Diario de Todos os Dias News – A lição que Joel me deu (e que dava para todos que o entrevistaram) ele tinha aprendido com outro mestre do jornalismo, Herbert Matthews, diretor do New York Times. Joel perguntou a Matthews que conselho ele daria para uma pessoa ser um bom repórter. A resposta que Matthews deu a Joel desde então passou a ser a principal lição que Joel repassava a todos os outros jornalistas. Matthews disse para Joel: ‘Olha Silveira, são três dicas. Primeiro: paciência; Segundo: insistência e Terceiro: sorte’. Joel ouviu atentamente o conselho e rebateu: ‘Mas Mr. Matthews você tendo a terceira, você tem as outras duas’. E Matthews concluiu: ‘É, Você tem razão’.

A verdade é essa mesma. Para ser um bom repórter é necessário contar com a sorte, mas não só com ela, você precisa dar chances para que a sorte se manifeste. Por conta disso, eu ouvi de uma grande amiga jornalista que era necessário ter o ‘felling jornalístico’. Ou seja, literalmente sentir o que é notícia e correr atrás dela antes que seja tarde. Essa mesma amiga disse que percebeu que eu tinha esse ‘felling’ quando me passou uma matéria chatíssima para fazer, totalmente jabá, e eu acabei descobrindo um monte de irregularidades e inverti a pauta.

Com Joel não foi diferente. Realizamos, no local onde trabalho, o Instituto Millenium, uma série de entrevistas com formadores de opinião. Vários nomes possíveis para serem entrevistados são citados. Contatamos alguns, entrevistamos outros, entretanto, eu não conseguia tirar Joel da cabeça e pensava: Temos que entrevistar esse cara! Ele já estava muito velho e se demorássemos muito poderia ser tarde. Além do mais, eu como jornalista foca e admirador de Joel não poderia nunca desperdiçar a oportunidade de ouvir preciosas dicas do mestre do jornalismo. Após a morte de Joel mandei esta entrevista para o jornalista Geneton Moraes Neto e a resposta que ele me deu não poderia ser diferente: ‘Que bom que você teve o privilégio de ouví-lo’. Que bom mesmo!

Joel sempre se lamentava de ter perdido a chance de entrevistar Ernest Hemingway, grande escritor e jornalista da época, que solitário bebia conhaque num café de Paris. Antes de falar com ele, porém, Joel foi ao banheiro e quando voltou Hemingway não estava mais lá. Joel dizia: ‘Perdi a chance de pedir uma entrevista. O pior que poderia acontecer era levar um soco de Hemingway – o que garantiria uma bela matéria’. Seguindo a máxima de Joel e obviamente sem querer perder a oportunidade de entrevistar o próprio Joel resolvi descobrir seu telefone.

Mas, voltando ao assunto da sorte. Para ser um bom repórter, além da sorte, como disse, temos que dar oportunidade para a sorte se manifestar. Pensei comigo: Quero entrevistar o Joel, mas não sei como contatá-lo. Ele está muito velhinho e ninguém em sã consciência vai me dar o telefone da casa dele. Imagina! Alguém ligar para a casa de alguém e dizer: ‘Oi, aqui é o Felipe e eu gostaria de entrevistar o senhor Joel’. Para descobrir o telefone dele eu usei o método mais arcaico, rudimentar e (pasmem!) eficiente que existe. Usei a lista telefônica! Sim, nela ainda é possível achar o telefone de um monte de gente.

E fiz justamente isso. Liguei para a casa do Joel e pedi para entrevistá-lo. Dono de uma simpatia extra-terrestre ele me atendeu com extrema atenção e cordialidade. Fiquei ainda mais fã. O único pedido feito por ele foi que a entrevista fosse feita por telefone. Não queria se expor, parecia que estava pressentindo o fim iminente. Consegui com Joel uma coisa que não consigo com nenhum entrevistado: ligar e marcar no mesmo dia a entrevista. Todos querem prazos, marcam datas e quase nunca cumprem com o prometido. Joel foi diferente.

Sempre admirei o trabalho de Joel Silveira, aliás, da minha turma eu era um dos poucos que conhecia o trabalho dele. Afinal de contas estamos em uma época que pessoas admiram mais quem aparece na televisão do que repórteres de verdade, como é o caso de José Hamilton Ribeiro, Geneton Moraes Neto entre muitos outros ‘ilustres’ desconhecidos dos novatos jornalistas (eu incluso). Joel publicava no blog Sopa de Tamanco periodicamente as ‘Pílulas de Vida do Doutor Silveira’, datilgrafadas por Geneton. Em uma delas ele próprio avaliou: ‘Tudo – pessoas, acontecidos e lembranças – vai se tornando cada vez mais remoto. Eu próprio : pode haver coisa mais remota?’

Confesso que após encerrar a entrevista com Joel me veio uma certa decepção de foca ao lembrar de uma pergunta que poderia ter sido feita ou algum comentário sobre algum fato histórico relevante que esqueci de mencionar durante a conversa. Comentários que poderiam enriquecer e deixar cada vez mais interessante o nosso bate-papo.

A edição do áudio ficou por conta do meu amigo jornalista Douglas Gonçalves. Abaixo, faço uma breve apresentação sobre Joel e transcrevo a entrevista. Arredondei algumas declarações para deixar o texto mais claro e incluí uma pequena resposta que Joel me deu, sobre a polêmica Portaria 264 (das classificações indicativas da TV) que no áudio ficou cortada devido a um pequeno incidente com a ligação.

Felizmente o saldo é extremamente positivo e Joel registra em áudio algumas de suas memórias legando para as novas gerações uma pequena parcela de sua experiência jornalística.

A Entrevista

(*) Jornalista e blogueiro. Escreve para o blog O Diario de Todos os Dias News e é formado pelo Centro Universitário de Barra Mansa (UBM). Atualmente cursa pós-graduação em Comunicação Empresarial, também pelo UBM. Trabalhou como repórter nas redações de jornais do sul-fluminense e na assessoria de imprensa da montadora PSA-Peugeot-Citroen, em Porto Real. Atualmente trabalha como jornalista no Instituto Millenium, no Rio de Janeiro.’

***

A Entrevista

‘Fonte:O Diario de Todos os Dias News – Há uns três anos ganhei de presente de algumas amigas jornalistas o livro ‘A Milésima Segunda Noite na Avenida Paulista’ do desconhecido (para mim, claro) Joel Silveira. Olhei com certo estranhamento aquela capa preta e não dei muito crédito para o que eu poderia encontrar ali. Agradeci as minhas amigas pelo presente e imaginei que por se tratar de jornalistas elas com certeza saberiam me presentear com uma boa obra literária ou, como foi o caso, com um espetacular livro sobre jornalismo. Foi nessa época que conheci o nome Joel Silveira e desde então passei a admirar o trabalho que este repórter desenvolveu ao longo de 60 anos de puro jornalismo.

Confesso que meu desejo era visitá-lo pessoalmente e talvez, quem sabe, conseguir um autógrafo no livro que me despertou o gosto pelo jornalismo literário. Infelizmente não foi possível visitá-lo, pois Joel, ao longo de seus 88 anos já não se sente tão à vontade para receber as pessoas em sua casa. Não tem problema, Joel com uma simpatia ímpar, me atendeu ao telefone e com a maior paciência do mundo ouviu minhas perguntas resultando em um ótimo bate-papo. Foram apenas 15 ou 20 minutos de conversa. Por delicadeza e respeito a saúde de Joel não quis me estender para não perturbá-lo além do necessário.

Joel Silveira é uma dessas raras pessoas que para descrevê-las é impossível não cair na tentação de utilizar clichês e adjetivos. Como, por exemplo, falar sobre um jornalista que tem em seu currículo a correspondência da Segunda Guerra Mundial, entrevistas com cinco presidentes, inclusive Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, sem cair no lugar comum de dizer que ele é um dos mais importantes jornalistas brasileiros e testemunha ocular da história? Joel, era na realidade, um exemplo do que poderíamos chamar de ‘Enciclopédia Ambulante’, o que ele falava é porque ele tinha visto.

Como se não bastasse simplesmente o fato de ter presenciado a Segunda Guerra, ele também foi correspondente internacional por anos, quando teve a oportunidade de conhecer pessoalmente três Papas. Além disso, trabalhou para um dos mais importantes empresários da comunicação brasileira, Assis Chateaubriand, nos Diários Associados. O apelido: ‘Víbora’, foi dado, inclusive, pelo próprio Chatô, e deve-se ao fato de Joel, em sua carreira de jornalista, ter se orgulhado de cultivar com suas reportagens mais desafetos do que aliados. Manuel Bandeira, por exemplo, descreveu seu estilo como ‘uma punhalada que só dói quando a ferida esfria’.

Simpático ao extremo, Joel Silveira, conversou comigo sobre política nacional, violência no Rio de Janeiro, seus novos livros e a sua experiência na Segunda Guerra Mundial. Sua especialidade era mesmo contar a história já que muita coisa relevante literalmente aconteceu bem em frente aos seus olhos. Modesto também, Joel não se considerava como ícone do jornalismo nacional e maior expoente do jornalismo literário e sim ‘um bom datilógrafo’.

Joel Silveira há oito anos não escrevia mais nada porque sofria de catarata e de uma doença que o deixava com as pernas muito inchadas. Por isso, ele quase não saía de seu apartamento. ‘As notícias chegam até a mim, eu não vou mais às notícias. Porque eu não tenho mais condições. Também eu estou muito velho, estou com 88 anos’, justificou. Mesmo assim ele conseguiu reunir material para lançar nos últimos anos dois importantes livros, editados pela Companhia das Letras, sobre a história brasileira: ‘A Milésima Segunda Noite na Avenida Paulista’ e ‘A Feijoada que Derrubou o Poder’.

Dono de uma crítica ácida, ao longo da vida disparou críticas a quem achou que merecesse. O gosto pela maledicência continuava o mesmo, e não perdoava nem personagens inofensivos como os alpinistas, os turistas e os tocadores de cavaquinho. Sobre o Brasil ele dizia: ‘O Brasil me lembra uma bomba-relógio feita às pressas e de mecanismo defeituoso. Dessas que nunca explodem’.

É curioso ler as respostas que ele costumava dar, pacientemente, à pergunta-clichê que lhe faziam quase todos os entrevistadores: ‘Que reportagem você gostaria de fazer hoje?’ Silveira respondeu que seu sonho era cobrir a guerra do Kosovo. Tempos depois o assunto era outro, e outra era a resposta: ‘Gostaria de escrever um perfil dessa moça, a Mônica Lewinsky’. Já respondeu que gostaria de fazer uma grande reportagem sobre a violência do Rio de Janeiro. E para mim disse que teria vontade de ir para o Iraque e cobrir a guerra de lá. ‘Hoje o assunto é o homem da Al Qaeda, o Bin Laden. Hoje eu gostaria de entrevistar o Bin Laden’, revela. Como sempre, a Víbora, gostava mesmo de encrenca.

Você como uma testemunha ocular da história, você já viu muita coisa…

Eu conheci cinco presidentes da República

É justamente sobre isso que queremos conversar. Para você, que já entrevistou Getúlio Vargas, por exemplo, de Getúlio até os dias de hoje o que melhorou ou piorou na política brasileira?

Piorou muito. Porque o Getúlio, apesar de ditador, era um homem honesto, pessoalmente honesto. Aliás, todos os ditadores militares eram pessoalmente honestos. A ditadura militar neste ponto de vista você não pode dizer nada. Foram tiranos, perseguiram, prenderam, torturaram, mas eram figuras honestas. Castello Branco, Garrastazu Médici, João Baptista Figueiredo e Geisel, apesar de tudo eram pessoas honestas. De lá para cá a coisa piorou muito. Você está vendo o caso do Renan Calheiros e o ex-governador do Distrito Federal, Roriz. Estão todos aí, uma coisa terrível.

Em uma entrevista, você disse que nunca gostou de Getúlio.

Não, nunca gostei. Porque o Brasil no século XIX teve Rodrigues Alves, que foi um grande estadista. E no século XX teve Getúlio, que foi o homem que deu início à industrialização do Brasil. Teve também o Juscelino Kubitschek que fez Brasília e fez, principalmente, a estrada Brasília-Belém. Com essa estrada o Brasil recuperou todo o miolo deserto onde não havia nada, naqueles descampados terríveis do cerrado.

E na sua opinião porque eles foram grandes estadistas?

Porque, você sabe, no Brasil, Rodrigues Alves modernizou, principalmente no Rio de Janeiro, foi no governo dele e do Pereira Passos que transformaram o Rio em uma capital. Aqui era uma cidade incrustada entre morros. Eles abriram a Avenida Central, depois Getúlio abriu a avenida que hoje tem o nome dele. E sem dúvida, foram eles, no século XIX o Rodrigues Alves e no século XX o Getúlio e Kubitschek.

A gente pode supor que você conheceu dois tipos de Rio de Janeiro, o primeiro como capital da república, considerada a Cidade Maravilhosa. O Rio de Janeiro atual, com uma infinidade de favelas, violência, assalto…

É terrível. Hoje, o Rio de Janeiro, segundo a Unesco, é a cidade mais violenta do mundo. Eu sempre morei aqui em Ipanema e Copacabana, você saía à noite, ia para o Arpoador, dava duas, três horas da madrugada, geralmente quando tinha alguma lua cheia eu gostava de ver. Enfim, não acontecia nada. Hoje você não pode nem sair de dia. A cidade está sitiada.

Você já sofreu algum tipo de violência ou assalto por aqui?

Não, felizmente não. Nunca, nunca sofri. Eu sou exceção, né!?

Você disse em outra entrevista para a revista Imprensa que depois de cobrir a Segunda Guerra e testemunhar um monte de mudanças, se tivesse 20 anos novamente teria vontade de ir para o Iraque e entrevistar Saddam Hussein e Bin Laden.

Claro! Porque é o assunto. Hoje o assunto é o homem da Al Qaeda, o Bin Laden. Hoje eu gostaria de entrevistar o Bin Laden.

E que pergunta você faria para ele?

Para saber exatamente o que ele pretende, porque o Bin Laden é um homem milionário. Inclusive aparentado com a família da Arábia Saudita. Então como é que esse homem riquíssimo, que poderia ter uma vida de luxo, vive encurralado lá nas montanhas do Afeganistão e doente. E essa coisa de destruir como fez com as Torres Gêmeas em Nova York. Gostaria de saber exatamente isso: Quem é ele e o que ele pretende com isso.

Que lição de vida você pode passar para a gente depois de cobrir guerras e ser correspondente internacional em vários países, pela revista Manchete?

É, exato. Pela Manchete, pelo Diário de Notícias, principalmente pelos Associados, do Chateaubriand. Certa vez, em Roma, eu estava conversando com o Herbert Matthews, grande jornalista que depois foi diretor do New York Times. Ele tinha feito, ao lado do Hemingway, a cobertura da guerra da Espanha, a guerra civil. De modo que ele falava muito bem espanhol. E eu era o correspondente mais jovem, tinha 26 anos, de maneira que ele se encheu de afeto por mim, tratava como ele fosse meu pai. Sempre que eu estava lá ele me chamava para conversar. Um dia eu perguntei para ele: ‘Mr. Matthews, que conselho o senhor daria para ser um bom repórter?’ E ele respondeu: ‘Olha Silveira, são três. Primeiro: paciência; Segundo: insistência e Terceiro: sorte’. Aí eu disse para ele: ‘Mas Mr. Matthews você tendo a terceira, você tem as outras duas’. E ele respondeu: ‘Você tem razão’. Foi o conselho que ele me deu e é o conselho que eu dou a todos os jovens repórteres que me procuram e fazem essa pergunta que você está me fazendo agora.

Hoje em dia os jornalistas não vão muito para rua, ficam na redação…

É porque hoje você faz uma guerra do bar, né!? E esta tudo lá, tem Internet, os meios de comunicação hoje são fantásticos.

Você acha que isso prejudica a reportagem?

Até a Segunda Guerra Mundial, o repórter, no meu caso e no caso do Rubem Braga, nós tínhamos que estar junto com as tropas. Não podia ficar no bar esperando que a notícia chegasse até a gente. A gente que tinha que ir atrás das notícias. E acompanhávamos os pracinhas nos postos mais avançados. Com um agravante, porque sofríamos os mesmos perigos dos pracinhas, dos soldados, mas não podíamos ter armas. Correspondente não pode usar arma, nem canivete. Porque se for preso é considerado franco atirador. Porque soldado quando é preso com arma não é fuzilado. Corríamos os mesmos perigos dos pracinhas mas sem o direito portar qualquer espécie de arma.

Você chegou ver alguma batalha de perto na Itália?

Claro! Eu fui o primeiro correspondente a chegar ao Monte Castelo. Depois vi Montese. E no dia 29 de abril de 1945 eu vi o Mussolini espetado, o Starace, o Pavolini, a amante do Mussolini. Todos eles pendurados em uma haste em um posto de gasolina. Aí é que eu pensava comigo: Puxa vida! Durante 22 anos esses homens dominaram essas terras. Olha ao que estão reduzidos. Todo mundo jogando pedras. Ficou lá o dia inteiro, depois tiraram e enterraram e sumiram com os corpos, até hoje ninguém sabe. Só quatro anos depois é que o governo italiano, na democracia cristã, devolveu o corpo de Mussolini para a mulher dele, a Raquele Mussolini. Ela o enterrou onde ele nasceu.

O jornalista Geneton Moraes Neto…

Esse é um grande repórter! Para mim, hoje, é o maior repórter do Brasil.

Ele tem um blog, onde ele escreve periodicamente e publica as ‘Pílulas de Vida do Dr. Silveira’

É exato.

Pego um exemplo publicado recentemente escrito pelo senhor assim: ‘É mais decente emagrecer do que engordar no poder. Sem falar que dá menos na vista’.

Engorda no poder porque está roubando! Isso depois o Geneton manda também para a revista Continente lá de Pernambuco e é publicado lá.

Como é essa sua experiência de ter acompanhado o jornalismo brasileiro nos primórdios e hoje publicar essas pílulas de vida na internet?

Há oito anos que eu não escrevo nada. Estou paralítico e fico aqui em casa o dia inteiro. Estou ouvindo agora música clássica. Ouvindo os telejornais… As notícias chegam até mim, eu não vou mais às notícias. Porque eu não tenho mais condições. Também eu estou muito velho, estou com 88 anos.

Sobre a questão da portaria 264, que regulamenta a classificação indicativa nos filmes e programas de TV? Essa portaria poderia ser futuramente transformada numa espécie de censura prévia?

Isso é um perigo, um perigo. A intenção pode ser boa mas é perigosa.

A portaria 264 pode ser um caminho para levar a censura?

Não tem dúvida, não tem dúvida, não tem dúvida!

Sobre seus livros mais recentes, você publicou ‘A milésima segunda noite na Avenida Paulista’ e a ‘A Feijoada que Derrubou o Poder’, que fala a respeito da feijoada que aconteceu dias antes do golpe militar?

Exatamente, aconteceu na véspera do golpe.

Como foi essa história?

Foi na casa do João Pinheiro Neto, que era ministro do Trabalho e estava chefiando a reforma agrária. No almoço estava o Brigadeiro, o Ministro da Aeronáutica, o Ministro da Guerra. Estava toda a cúpula do Jango. E eles diziam: ‘Se o avião subir nós derrubamos!’, e o Almirante dizia ‘Se o navio sair eu não deixo passar do porto’. E nada disso! No dia seguinte veio a revolução e foi conversa fiada. Eles não sabiam de nada na véspera do golpe.

É possível fazer o download da entrevista em MP3 clicando aqui.

(*) Jornalista e blogueiro. Escreve para o blog O Diario de Todos os Dias News e é formado pelo Centro Universitário de Barra Mansa (UBM). Atualmente cursa pós-graduação em Comunicação Empresarial, também pelo UBM. Trabalhou como repórter nas redações de jornais do sul-fluminense e na assessoria de imprensa da montadora PSA-Peugeot-Citroen, em Porto Real. Atualmente trabalha como jornalista no Instituto Millenium, no Rio de Janeiro.’

JORNALISMO ESPORTIVO
Marcelo Russio

E viva o Debate Bola!, 14/08/07

‘Olá, amigos.

Como muita gente sabe, eu morei em São Paulo por cerca de três anos, e me identifiquei demais com o jeito de ser das pessoas, e com a própria cidade. Tanto a forma de viver, quanto as pessoas e as características próprias da capital paulista me cativaram de imediato. Enquanto morei por lá, uma coisa que me agradou demais foi a quantidade de programas esportivos na TV e nas rádios paulistanas. E um deles me chamava a atenção: o ‘Debate Bola’ da hora do almoço, na Rede Record.

Quando li, aqui no Comunique-se, que o programa estava para ser tirado do ar, confesso que tomei um susto. Afinal de contas, ele é popularíssimo na cidade, e visto não só por torcedores, como também por jogadores, técnicos e jornalistas, que não raro ‘filam’ uma ou outra entrevista ao vivo para suas matérias.

Não discuto aqui se o programa é ou não é dedicado integralmente ao jornalismo esportivo, se há ou não inúmeras interrupções para propaganda, ou se tem ou não uma tendência à comédia pastelão. Mas o fato é que ele trata de esporte, quase que exclusivamente de futebol, e tem repórteres nos treinos dos quatro grandes clubes de São Paulo todos os dias, informando os torcedores, e fazendo links ao vivo dos clubes que estão mais em evidência. Ou seja, informa e, sobretudo, emprega. Ler que o programa, que tem uma boa audiência, e que caiu no gosto dos torcedores, seria tirado do ar, confesso, me chocou e entristeceu.

Mais tarde, li que a diretoria da Record teria reconsiderado e decidido manter a atração no ar. Menos mal, já que diversos empregos serão mantidos, e a atração permanecerá. O ruim da história é ver o quanto a Record ainda é volátil em sua programação. Não se ouve que o Globo Esporte, por exemplo, sairá do ar. Sabe-se que não sairá. Criar uma marca jornalística exige paciência e investimento em qualidade e confiabilidade. Investimento, até onde se imagina, não é problema para a Record. O problema é o foco no futuro. Se a emissora acena com a possibilidade de retirada do ar de um programa que é do gosto dos torcedores dos times de São Paulo, acredito que a paciência necessária para que ele seja uma referência permanente na hora do almoço dos telespectadores não exista, ou não seja tão grande assim.

Vamos torcer para que as idéias apareçam na cabeça daqueles que mandam na emissora. Para que o mais fácil, que é substituir um programa de esportes por uma atração enlatada, ou algum programa de outra natureza mais chamativa a outros públicos, não seja feito.

(*) Jornalista esportivo, trabalha com internet desde 1995, quando participou da fundação de alguns dos primeiros sites esportivos do Brasil, criando a cobertura ao vivo online de jogos de futebol. Foi fundador e chegou a editor-chefe do Lancenet e editor-assistente de esportes da Globo.com.’

JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

Analfabetos, 16/08/07

‘E sempre tenho que mudar as velas

arrebentadas de vento

com remendos colhidos

dos violentos panos do tempo

(Nei Duclós in Novos Poemas)

Analfabetos

Mais abestalhado do que o íntegro senador Suplicy diante das safadezas de seu partido, Janistraquis leu na Folha Ilustrada:

Público quer ver mais filmes dublados

Salas de cinema passam cada vez mais produções faladas em português; exibidor afirma que a tendência já é ‘realidade’

Grandes estúdios e redes reconhecem crescimento na venda de ingressos; São Paulo já tem salas com mais cópias dubladas

Meu secretário examinou a matéria de cabo a rabo, principalmente rabo (confira no Blogstraquis), e concluiu:

‘Considerado, tudo bem, viva a língua portuguesa, porém a ‘preferência’ por filmes dublados não é nenhuma ‘tendência’, como defendem os politicamente corretos. Acontece que o brasileiro está cada vez mais analfabeto e ler as legendas de um filme não é para qualquer um.’

Clássico da morte

Janistraquis pede atenção para a suposta ameaça do PCC e da Mancha Verde (a mais violenta das torcidas palmeirenses) aos flamenguistas que pretendem viajar a São Paulo no final de semana. Olhem o que está escrito no JBlog de Gustavo de Almeida, no Jornal do Brasil:

É mais do que sabido que foi a Raça Rubro-Negra que matou o palmeirense Gão, que veio no ônibus da Mancha Verde….o único problema é que o Gão seria do Partido, lêia-se (PCC)… tou sabendo que vai rolar uma emboscada e um revide assim que a escolta paulista deixar o ônibus de vocês…não estou aqui pra ameaçar, estou para alertar, pq não quero ver mais mortos nesta batalha.

Leiam no Blogstraquis a íntegra da ameaçadora nota.

Ecos da explosão

O considerado Roldão Simas Filho, diretor da nossa sucursal no Planalto, de onde se pode avistar o ego do ministro Jobim a sobrevoar o palácio, pois Roldão, que organizava seu arquivo implacável e relia avidamente os jornais, implicou com o texto da página 9 do Correio Braziliense de 6/08:

Foram necessários três segundos para demolir o prédio da empresa aérea atingido pelo Airbus há 20 dias.

Mestre Roldão, que é químico aposentado, ensina a todos nós, jornalistas:

‘Ser necessário dá impressão de que a demolição foi demorada. Melhor seria ‘Bastaram três segundos …’; ou então: ‘Só foram necessários três segundos…’

Negócio da China

Janistraquis acompanhou pelo noticiário das TVs a queda de pontes e edifícios nessa China que cresce a bandeiras despregadas. Todavia, os chineses têm usado tanto material de terceira categoria nas próprias construções que Janistraquis desconfia de que há nas tragédias repetidas muito mais do que apenas chineses:

‘Considerado, tem brasileiro na coisa; você já imaginou o que pode desabar quando a construtora Gautama se junta ao Sérgio Naya num negócio da China?!?!’

Colunista Fidel

Janistraquis festejou a notícia segundo a qual Fidel Castro foi contratado como colunista pela Caros Amigos, revista dirigida por nosso velho e querido amigo Serjão de Souza:

— Considerado, você sabe que, digam o que disserem, continuo fã do Comandante desde aquela entrada triunfal em Havana em 1º de janeiro de 1959. A contratação foi grande achado de Caros Amigos, porém algo me preocupa…

— Mas o que poderia preocupar o doce companheiro?

— É que Fidel não tem diploma de jornalista e a Fenaj pode botar a revista numa roubada.

É mesmo; quando a Fenaj entra pela porta (dos fundos) é mais prudente a gente sair pela janela.

Presente da pomba!

Deu no Meio&Mensagem Online:

Red Label promove ação de marketing com VIP

Leitores passam a ser convidados para ‘reuniões de pauta’ mensais com jornalistas da revista da editora Abril

Janistraquis quedou-se fascinado:

‘Considerado, depois de uma garrafa de uísque, não existe presente melhor para os leitores; como sabemos, uma reunião de pauta estimula a inteligência, apura a criatividade, ensina o caminho das pedras, dá o lustro e faz crescer.’

Contrabando

A propósito de notinhas ‘contrabandeadas’, eivadas de palavrões, que a imprensa publica de vez em quando (leia a matéria de Tiago Cordeiro neste Comunique-se), Janistraquis recorda uma famosa dos tempos nos quais era possível passar recado sem desrespeitar ninguém. Está no blog Bar do Bulga, do jornalista Marcelo Bulgarelli.

CAUSOS DA IMPRENSA

A situação estava ‘braba’ no Correio da Manhã. O jornal já sofria um tremendo cerco econômico do Governo ditatorial e, naquela altura, os anunciantes privados mais fortes tinham recebido ‘recomendação’ para não colocar publicidade no jornal da Sra. Niomar Moniz Sodré Bittencourt.

Eram tempos heróicos e, também, de muitas notícias políticas, em especial sobre golpes militares.

A manchete do bravo Correio da Manhã trazia mais uma delas: a do general Papadopoulos, na Grécia. A notícia começava na primeira. página e continuava na Internacional. Inclusive, trazendo a justificativa do próprio general para a tomada do poder. E, exatamente nesse parágrafo, saiu em um minúsculo corpo 6, negrito: ‘Sobre o golpe, disse Papadopoulos: Niomar, pague-nos o 13° salário’, etc., etc.

Janistraquis e eu lemos o ‘recado’ dos gráficos do Correio da Manhã, escrito, se não nos falha a memória, ainda em 1964. Apenas não nos lembrávamos de que o ‘contrabando’ ocorrera na matéria sobre Papadopoulos.

Sibadadas

O considerado Everaldo Leite, bancário acreano que vive no Rio desde menino, ‘gostaria de saber’ nossa opinião sobre a notícia abaixo, extraída da sempre bem-informada e divertida coluna de Claudio Humberto:

Neolacerdista

O senador Sibá Machado (PT-AC) resolveu tomar gosto pela figura histórica e fascinante de Carlos Lacerda.

Para emitir opinião abalizada, ó Everaldo, Janistraquis precisa saber qual é o Lacerda que encanta o notável Sibá Machado:

‘Pois é, considerado, entre as muitas caras lacerdianas, há duas que se destacam: a do Lacerda intelectual, grande orador, inteligência brilhante, e a do golpista arrependido, cassado pelos militares nos quais pretendia passar a perna. O façanhoso senador do PT precisa definir a preferência.’

De minha parte, creio que Sua Excelência não ligou o sobrenome à pessoa; o Lacerda que ele conhece e admira é certamente Thiago Lacerda, intérprete do guerreiro Garibaldi na minissérie A Casa das Sete Mulheres.

Talento arretado!

Leia no Blogstraquis a íntegra de Apesar de Tudo, cujo excerto encima esta coluna. Nei Duclós é um talento raro e impermisto, senhor de versos de gaudiosa macheza, como os considerados leitores já estão carecas de saber.

Assassinato

O considerado Sérgio Pavarini, jornalista em São Paulo, mas sempre de olho na terra de Lula, passeava os olhos pelo pernambucano Jornal do Commercio quando encontrou esta:

Uma criança de 11 anos e dois adolescentes, um de 13 e outro de 14, assassinaram, na última sexta-feira, a aposentada Maria Anunciada da Conceição, 87 anos. O crime ocorreu na casa da vítima, no Sítio Cabeça de Vaca, na zona rural de Limoeiro, Agreste de Pernambuco. Os meninos foram apreendidos no sábado e confessaram o assassinato.

Pavarini estranhou o verbo metido a besta:

Noves fora a tragédia inominável, usar o verbo ‘apreender’ dessa forma caracteriza um português, digamos, agreste.

Janistraquis acha que se trata de agreste com clima de caatinga, ó Pavarini.

Nota dez

A propósito do vigésimo aniversário da morte de Cláudio Abramo, o considerado Roberto Müller Filho escreveu na Folha de S. Paulo:

(…) Herdei-lhe uma bengala, preciosa lembrança que guardo com grande carinho. Por via das dúvidas, ela está, enquanto escrevo, ao meu lado. Talvez para inspirar-me, quem sabe para tê-la ao alcance dos olhos, para evitar que Cláudio a utilize como reprimenda à ousadia de escrever sobre ele, seja pela pobreza do texto que estou produzindo, seja constrangido pelos elogios que certamente escorrerão do teclado enquanto tento conter a emoção que a lembrança de sua figura majestosa desperta.

Confira no Blogstraquis a homenagem do discípulo ao Mestre que tanta falta faz ao jornalismo.

Frangueiro

Depois de assistir, com u’a mão no bolso e a outra no coração, a mais uma inexplicável vitória vascaína, ontem à noite (4 a 2 no Atlético Paranaense), Janistraquis suspirou:

‘Considerado, como é milagroso vencer quando se tem o pior goleiro do mundo.’

Chama-se Sílvio Luís, tem dois metros de altura e costuma fazer, debaixo do travessão, o que Renan Calheiros faz, no banheiro, no açougue e, principalmente, no gabinete senatorial.

Errei, sim!

‘TRAGÉDIA BÍBLICA – Ex-coroinha e ex-congregado mariano, assinante da revista Família Cristã, Janistraquis entrou esbaforido em nosso escritório. ‘Considerado!, considerado!, uma tragédia!’, ornejou. Aflitíssimo, exibiu-me página do Estadão com este título: Novo testamento revoga anterior.

Também imaginei, a princípio, que Adão e Eva, Esaú mais Jacó, a arca de Noé, tudo aquilo que adubou e regou nossa fé tivesse sido desviado da estrada de Damasco para os caminhos do brejo. Tive equilíbrio, porém, para ler a matéria; referia-se, graças a Deus, a testamentos legais, jurisprudência, essas coisas.

Indignado, embora aliviado, Janistraquis desabafou: ‘Considerado, não se publica um título deste; já imaginou se cai nas mãos de uma pobre freirinha velha?’ (setembro de 1990).

Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP), ou japi.coluna@gmail.com.

(*) Paraibano, 65 anos de idade e 45 de profissão, é jornalista, escritor e torcedor do Vasco. Trabalhou, entre outros, no Correio de Minas, Última Hora, Jornal do Brasil, Pais&Filhos, Jornal da Tarde, Istoé, Veja, Placar, Elle. E foi editor-chefe do Fantástico. Criou os prêmios Líbero Badaró e Claudio Abramo. Também escreveu nove livros(dos quais três romances) e o mais recente é a seleção de crônicas intitulada ‘Carta a Uma Paixão Definitiva’.’

CRISE EXTERNA & MÍDIA
Carlos Chaparro

Se há crise, há quem ganhe com ela…, 17/08/07

‘O XIS DA QUESTÃO – Não sabemos nem saberemos quem são nem onde estão os pais da crise. Mas que eles existem, não há como duvidar. Atrás de redes de computadores, e no comando delas, eles materializam esse capitalismo globalizado capaz de ganhar dinheiro, simultaneamente, em várias partes do mundo, combinando fusos horários para gerar causas num lado do planeta e colher efeitos no outro.

1. Não há perdas sem ganhos…

‘Os mercados mundiais têm dia de pânico’.

‘Medo da crise global contamina negócios’.

‘Mantega diz que não é possível sair ileso da crise’.

Nos jornais de hoje, de ontem, de anteontem, as manchetes têm sido essas, ou com esse tom. Elas nos falam de um mundo, o dos negócios financeiros, mais uma vez sacudido por uma instabilidade gigantesca, universal, que se encolhe e se estende em movimentos que ninguém sabe de onde vêm nem para onde vão. E que fazem estragos nas economias nacionais e na vida das pessoas.

Aguém por aí consegue nos explicar o porquê e o como dessa crise que tem o estranho poder de criar e expandir pânico em escala universal?

Tento entender a crise na leitura de jornais. Há opiniões, palpites, achismos. Aqui e ali, tímidas predições, tão oscilantes, de um dia para o outro, quanto os índices por meio dos quais a crise se manifesta, e se expande ou encolhe.

O relato dos jornais e a análise dos especialistas nada esclarecem. E nos passam a sensação de que a crise é um movimento sem comando inteligente. Obra de um caos espetacular, funcionando acima da vontade e da inteligência do bicho homem.

E com um detalhe enganador: a acreditar no noticiário dos jornais, esta é uma crise (como tantas outras já acontecidas no mercado financeiro) em que todos perdem e ninguém ganha.

Ora, isso é simplesmente impossível. Se alguém em pânico vende ativos que tem, para fugir do risco de perdas maiores, só vende porque alguém quer comprar. E compra barato para lucrar mais, lá na frente.

Até a próxima crise…

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No mercado financeiro, como em qualquer outro mercado de risco, há os que perdem e os que ganham. Não há como não ser assim. Mas os jornais e os analistas só falam em prejuízos e de quem os sofre. Não encontrei uma só palavra, uma só revelação, que me desse indícios de quem ganha.

E há os que ganham. Ou alguém duvida disso? Com mais um detalhe, que o nosso jornalismo econômico também esquece: quando, num dos extremos da gangorra, são multidões os que perdem, no outro extremo, os poucos ganhadores ganham muito.

E assim é o capitalismo, com sua lógica vital, a do consumismo, que o sábio Milton Santos chamava de ‘fundamentalismo’ da globalização perversa.

2. Jogo de xadrez

Desconfio, entretanto, que o nosso jornalismo econômico jamais nos revelará quem produz e controla crises como esta. Quem são, onde estão eles? Ou elas? Que rosto têm? – esses poderosos senhores do mundo do dinheiro real, que talvez fosse mais adequado chamar de mundo do dinheiro simbólico, já que tudo se reduz a índices e tudo se movimenta ao ritmo dos índices.

Não sabemos nem saberemos quem são nem onde estão os pais da crise. Mas que eles existem, não há como duvidar. Atrás de redes de computadores, e no comando delas, eles materializam esse capitalismo globalizado capaz de, em jogos interativos de fluxos informacionais, ganhar dinheiro, simultaneamente, em várias partes do mundo. Combinam fusos horários para gerar causas em um dos lados do planeta, e colher efeitos, no outro. Agem como se o mundo fosse um tabuleiro de xadrez sobre o qual têm domínio absoluto. Sempre prontos e aptos para dar o xeque-mate nos que têm defesas frágeis. E é contra esses poderosos e misteriosos pais das crises, para se defenderem eles, que os governos europeus já negociam a montagem de mecanismos de vigilância. Não querem que as economias nacionais voltem a ser apanhados de surpresa por vendavais como este.

3. Predadores e maestros

Não sei grande coisa de economia. De finanças, menos ainda. Mas entendo o suficiente para saber que as crises sempre convêm a quem tira proveito delas. E se alguém as produz e controla, não há grande risco em conjeturar que elas são produzidas e controladas exatamente por quem delas tira lucros.

Antes que alguém pense que estou bazofiando, quero esclarecer que aprendi a fazer essa leitura das crises com um empresário, um grande empresário brasileiro, que sempre conviveu muito bem com crises e instabilidades, nacionais e internacionais. Quando o entrevistei, vinte e poucos anos atrás, ele comandava, como principal acionista, um dos mais importantes conglomerados industriais e financeiros do país. Um conglomerado que crescia continuamente, principalmente depois das crises. Portanto, esse senhor sabia muito bem do que falava quando me disse:

‘As crises são ótimas. Quando elas ocorrem, fazemos o que não pode ser feito em tempos normais. Racionalizamos processos e métodos, enxugamos quadros, reduzimos custos, melhoramos padrões de produtividade. Nos encolhemos. E aproveitamos o momento para comprar concorrentes falidos. Quando a crise passa, damos o salto maior.’

Era um predador. Como predadores são os que, escondidos atrás do simulacro dos índices, se divertem e ganham dinheiro com mais essa crise que a fantástica difusão jornalística espalha em efeitos pelo mundo.

Sim, caros colegas: a cobertura jornalística da crise é um concerto muito bem regido por maestros ocultos.

(*) Manuel Carlos Chaparro é doutor em Ciências da Comunicação e professor livre-docente (aposentado) do Departamento de Jornalismo e Editoração, na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, onde continua a orientar teses. É também jornalista, desde 1957. Com trabalhos individuais de reportagem, foi quatro vezes distinguido no Prêmio Esso de Jornalismo. No percurso acadêmico, dedicou-se ao estudo do discurso jornalístico, em projetos de pesquisa sobre gêneros jornalísticos, teoria do acontecimento e ação das fontes. Tem quatro livros publicados, sobre jornalismo. E um livro-reportagem, lançado em 2006 pela Hucitec. Foi presidente da Intercom, entre 1989-1991. É conselheiro da ABI em São Paulo e membro do Conselho de Ética da Abracom.’

COMUNIQUE-SE
Cassio Politi

Apuração para valer só em último caso, 13/08/07

‘Seria muito bom se o Comunique-se cobrisse o que acontece no mercado de comunicação do Brasil – sobretudo em redações e assessorias de imprensa – com a mesma atenção com que cobre a organização Repórteres Sem Fronteiras. Mas andei me perguntando: e se um dia os sites que servem de fonte errarem? Na semana passada, lamentei por ter obtido a resposta. Compare as duas matérias relacionadas à RSF:

* ‘Pequim 2008: correspondentes são detidos’

(publicada em 07/08)

* ‘Correspondentes na China não foram detidos’

(publicada em 08/08)

O segundo título é bisonho, mas é ela – a segunda matéria – que esclarece o caso. Na primeira, o Comunique-se se baseou em outros dois sites e deu uma informação errada. No dia seguinte, corrigiu a lambança baseando-se no relato de um jornalista brasileiro. Ou seja, demorou 24 horas para lembrar que é preciso apurar sempre.

Antes que se crie a polêmica: tenho profundo respeito pela RSF. A crítica que faço aqui nada tem a ver com a atuação dessa entidade. A questão é o fato de a boa e velha apuração, ingrediente básico no jornalismo, ter virado artigo de luxo.

E o nome?

Vejo que não estou sozinho nesta incomodidade. A matéria sobre uma nova editoria do jornal O Globo, retirada integralmente de outro site, foi alvo do petardo de um leitor:

* E quem vai comandar a editoria? Informação básica, não?

Com decisões judiciais acontece o mesmo: a fonte é sempre o Consultor Jurídico. É uma boa fonte? Claro que sim. O conteúdo do ConJur é de qualidade inquestionável. Mas deveria apenas pautar o Comunique-se – de vez em quando.

Agência de notícia, release, e-mail, Orkut: tudo isso é pauta. Mas cada vez mais as redações encaram essas commodities da comunicação como produto pronto para ir para a prateleira.

Cassio Politi é jornalista. Atua na Internet desde 1997, com passagens por projetos pioneiros e grandes portais, como o UOL. Ministra cursos de Jornalismo On-Line e Videorreportagem desde 2001. Deu aulas em 25 estados brasileiros para mais de 2,5 mil jornalistas. Em janeiro de 2007, tornou-se o primeiro ombudsman do Comunique-se, empresa na qual também ocupa o cargo de diretor da Escola de Comunicação.’

TELEVISÃO
Antonio Brasil

Ver TV discute a espetacularização dos telejornais, 13/08/07

‘Esta semana fui convidado a participar do Ver TV, ‘o programa para quem gosta de televisão’. O Ver TV é uma realização da TV Nacional (Radiobrás) em parceria com a TV Câmara, com o apoio da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. É apresentado pelo colega professor Lalo Leal, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Pesquisador na área de políticas da Comunicação, Lalo é autor de livros importantes como ‘Atrás das câmeras – Relação entre Estado, Cultura e Televisão’ e ‘A melhor TV do mundo – O modelo britânico de televisão’.

O programa também contou com a participação do professor e pesquisador de telejornalismo Flávio Porcello da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Rodrigo Vianna, jovem e talentoso repórter da TV Record (ele concorre ao prêmio Comunique-se 2007).

O tema central dos debates era ‘Telejornais: informação ou espetáculo’. A pauta surgiu em função da polêmica sobre as imagens do suicídio de uma jovem após o acidente do Airbus da TAM. Naquela ocasião, a TV Cultura – única emissora a captar a queda – decidiu não exibir as imagens como também optou por não disponibilizá-las para as demais emissoras.

Sedução e excesso

Há muitos anos produzo e pesquiso jornalismo e telejornais. O debate sobre a espetacularização das noticias é tão antigo quanto o próprio jornalismo. Desde os seus primórdios, os jornalistas são acusados de ‘espetacularizarem’ a realidade.

No programa, procurei defender a tese de que a questão não é uma opção entre ‘informação ou espetáculo’. E, sim, uma adição ou cumplicidade de ‘informação e espetáculo’. Contar uma boa história em um meio como a televisão requer saber lidar com o poder das imagens e a emoção do espetáculo. Mas fazer ‘espetáculo’ nos telejornais também significa uma parceria, um contrato entre os produtores de conteúdo, os jornalistas, e o público receptor.

Ao contrário da impressão vigente, o público não é formado de espectadores inocentes. Eles são parte fundamental para a realização do espetáculo dos telejornais.

Vale aqui observar a etimologia da palavra. A palavra espetáculo é originária do latim spectaculu, daí o verbo spectu, spectare, que significa observar, ver, contemplar. Em latim, espetáculo designava tanto os jogos de circo, as lutas de gladiadores, o teatro, as diversões, e o entretenimento, como também os lugares onde se sentavam os espectadores.

Isto quer dizer que no espetáculo tanto a cena quanto o publico são ‘as duas faces que o constituem’. Nesse sentido, pode-se afirmar que ‘o público é parte constitutiva do espetáculo ou, em outras palavras, para haver espetáculo é preciso haver um predisposto a ver o que é colocado em cena’.

Para o pensador francês Marc Augé, a TV e os telejornais fazem parte da indústria cultural que inclui a ‘banalização e prazer ilusório que a sociedade do consumo, pautada na espetacularização, produz’. Ou seja, a cumplicidade existe. A promessa de ‘espetáculo’ faz parte do contrato entre o espectador e a TV.

De qualquer maneira, o prazer do espetáculo é sempre sedutor. Mas dentro dessa mesma perspectiva o espetáculo seria uma promessa jamais cumprida. A cada instante o olhar voyeurístico do público-espectador é simultaneamente preenchido e esvaziado.

Para Guy Debord, ‘o consumidor real torna-se consumidor de ilusões. A mercadoria é essa ilusão efetivamente real, e o espetáculo é sua manifestação geral’. É possível dizer que o espetáculo apresenta duas principais característica que se relacionam entre si: O espetáculo é ficção. O espetáculo se constitui pelo e com o excesso.

É comum ver na TV o real reproduzindo a ficção e não mais o contrário como se poderia crer: ficção imita o real, mas o real que reproduz a ficção. Relacionamo-nos com a TV de modo mágico. E as fronteiras entre a realidade e fantasia são constantemente transgredidas em uma programação que privilegia a imagem, o espetáculo, o olhar, o contemplar.

O processo de espetacularização faz parte da dinâmica da nossa atual forma de organização social, baseada principalmente no excesso (de informação e de imagens)

O telejornal da noite, por exemplo, dentro da estrutura de grade de programação, inserido entre duas novelas, leva-nos diariamente, de forma quase imperceptiva do ‘familiar ao estranho e deste para o familiar’. O telejornal ou seja a realidade a cada dia mais se parece com a ficção, com o espetáculo e a ficção, as telenovelas, cada vez mais realistas, tendem a se parecer com a realidade. A confusão na cabeça do espectador – que não é assim tão inocente – entre a informação e o espetáculo está… in-formada!

Também discutimos outros temas no programa. Mas a questão da espetacularização das notícias foi uma constante nos debates. O tema é relevante e importante para todos que se interessam pela TV e pelo jornalismo. Afinal, a televisão ‘ainda’ é a principal fonte de informações para a maioria dos brasileiros.

Agora só nos resta conferir mais esse ‘espetáculo’ na próxima quinta-feira na TV ou na internet. O Ver TV vai ao ar toda quinta-feira às 22h30 na TV Câmara, TV Nacional e NBR e todos os programas estão disponíveis no site.

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar ‘Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica’ e ‘O Poder das Imagens’. É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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