Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 17 E 18/11

Comunique-se

20/11/2007 na edição 460

SILVIO SANTOS
Milton Coelho da Graça

Quem levará as fichas do supercamelô?, 16/11

‘O jornal Valor publicou uma matéria de leitura indispensável para os profissionais da comunicação sobre os dilemas criados pelo narcisismo centralizador de Sílvio Santos e a recusa da família (mulher e filhas) de incluir o SBT em seus planos de vida, atuais e futuros.

Como a rede de TV, além disso, é a única empresa do grupo SS que dá prejuízo, é natural que se cogite no mercado a sua possível venda. E uma eventual bilionária batalha entre Globo e Record – com aliados reais ou laranjas – caso não apareça alguma surpreendente e ainda invisível terceira força.

Uma fonte que sabe muito mas fala pouco sobre o business da televisão levanta a hipótese de que a família Marinho poderia enfrentar um problema muito comum em famílias com três ou mais gerações de proprietários, o de se manter unida nessa batalha. Já surge uma nova geração de Marinhos, já qualificada em universidades de alto nível e nem todos os seus componentes poderão estar necessariamente interessados num império da comunicação. Os Murdoch (News Corp.), os Bancroft (Wall Street Journal) e outras poderosas famílias desse clube cada vez mais restrito e mais globalizado, já se dividiram diante de mirabolantes ofertas, projetos diferentes de vida (vide caso dos Santos), chatíssimos problemas ou imperiosa necessidade de assumir novos riscos.

A Record, sob comando único e férreo, poderia contar com alguma vantagem inicial, especialmente se tiver disponibilidade maior de novos recursos – próprios ou alheios, daqui mesmo ou do exterior. Essa caixa farta foi comprovada na vitória para a transmissão das Olimpíadas de Pequim e na megaoferta pelo Campeonato Brasileiro de Futebol. E a mesma fonte mencionada acima informa que a conquista da transmissão das Olimpíadas é mais do que meio passo para garantir a transmissão da Copa do Mundo de Futebol. O interlocutor da operação é a mesma organização internacional.

Sílvio Santos, a caminho dos 80 anos, talvez tenha perdido o pique e o cacife para continuar na mesa de pôquer desse clube. E provavelmente terá de decidir para quem passa as fichas ainda na sua frente.

Efeto de númeors é diferente na China

A China anuncia que o crescimento econômico no terceiro trimestre deste ano foi de 11,4% e que a inflação chegou a 6,1%, os dois índices em relação ao mesmo período do ano passado. A expectativa é de que esses números sejam 11,2% e 5,9% no quarto trimestre. Um relatório do Banco Mundial praticamente confirma essas taxas de crescimento do PIB e também informa que o crescimento do produto industrial em outubro atingiu 17,9% em relação a outubro do ano passado.

Comparem esses números com os nossos e comparem também as reações dos dois Bancos Centrais. A taxa real de juros por lá está abaixo da metade da nossa e o depósito compulsório dos bancos foi elevado para 13,5% – uma medida tão ou mais eficiente do que aumento da Selic. O Federal Reserve Bank dos Estados Unidos reduziu sua taxa de juros por razões contrárias às do Brasil e China – está mais preocupado em evitar a recessão.

(*) Milton Coelho da Graça, 76, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.’

JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

Jô Soares racista?!?!?!, 14/11

‘Estamos numa ilha, em nossa volta

a maré de gritos, fome,

estamos amarrados, as cordas mostram

que seremos enforcados.

(Celso Japiassu in O Itinerário dos Emigrantes)

Jô Soares racista?!?!?!

O considerado Vito Diniz despacha de seus domínios em São João da Barra, terra daquele histórico ´conhaque-do-milagre´:

Escrevo, depois de longo inverno, para dizer que, ao ler artigo de Rui Martins, da Suíça para o site ´Direto da Redação´, deparei com algo que não sei definir se é um esperneio-patético-políticamente-correto ou falta de assunto mesmo.

Eis que o Rui Martins ´analisou` uma entrevista no Programa do Jô, viu as maiores (e piores) coisas e colocou uma maldade descabida naquilo que foi dito. Acessando o link que ele disponibiliza em outro sítio, fiquei espantado, porque das duas uma: ou perdi a sensibilidade herdada de meu pai para a defesa dos direitos humanos, para o respeito com os semelhantes e a busca pela igualdade entre todos, independentemente de cor, credo, religião, preferência sexual ou time de futebol, ou virei uma besta total, completamente tomado pela mídia globalizada que nos transforma em terríveis boçais.

Vejo no texto uma maldade sem tamanho. Chamar o Jô de racista e pedófilo enrustido, por causa da entrevista, é um pouco demais. Aliás, no outro sítio há uma série de artigos sobre o mesmo tema, o que para mim é uma total falta de assunto.

O artigo de Rui Martins está aqui e o link do Programa do Jô aqui.

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Jornalista escritor

Amanhã, sexta-feira, 16/11, às quatro da tarde, o colunista experimentará a subida honra de participar de uma palestra/debate ao lado dos mestres Alberto Dines e Carlos Chaparro, no Memorial da América Latina, sob o tema ´biografias, jornalismo e literatura´.

O encontro faz parte da programação do I Salão Nacional do Jornalista Escritor, organizado por Audálio Dantas para comemorar os primeiros cem anos da ABI. Visite o site.

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Cabo não é rabo

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal em Brasília, que fica bem pertinho do lugar onde a onça bebe água, pois Roldão encostou os jornais, abriu a revista Super Interessante, leu de cabo a rabo, principalmente rabo, e escreveu ao editor:

No número especial (244-A) intitulado Todas as Guerras do Mundo, p. 54/55, usa-se indevidamente o termo ´tropa` como sinônimo de ´soldado´. Por exemplo: ´80 mil soldados – número aproximado de tropas americanas no Japão e na Coréia´.

Tropa é um termo coletivo para soldado. Em inglês é que troop é também sinônimo de soldado de infantaria, mas em português não é.

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Celso Japiassu

O poeta deixa caminhar a emoção encerrada no peito e a vida exibe sua ruína em De profundis, cujo excerto encima esta coluna. Leia este e outros poemas em Uma Coisa e Outra, o site do autor.

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De raposas

Janistraquis leu que o TSE vai devolver ao prefeito de Barbalha (CE) o mandato cassado em 2004 pelo crime eleitoral de utilizar veículo do município para distribuir material de campanha. O nome do prefeito é Francisco Rommel Feijó, o que levou Janistraquis a divagar:

´Considerado, o pai do hoje prefeito deve ter sido grande admirador do marechal-de-campo Erwin Johannes Eugen Rommel, conhecido como ´A Raposa do Deserto´; então, o filho fez o que pôde: cresceu, entrou para a política do sertão e se transformou na ´Raposa da Caatinga.`

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Por fora…

A considerada Viviane Costa de Menezes, advogada paulistana, leu no blog Boa Saúde, hospedado no UOL:

Amamentar não faz os seios ´caírem´, segundo especialistas

Mesmo que os benefícios da amamentação para mãe e bebê sejam inquestionáveis, algumas mulheres escolhem não amamentar com medo dos seios ´caírem´. Porém, segundo estudo apresentado esta semana na conferência da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (SACP), a amamentação sozinha não tem nenhum impacto no formato e na aparência dos seios.

Viviane, que está por dentro do assunto, pois amamentou três filhos, não fuma, não bebe e malha um bocado, enviou o excerto com o seguinte e lacônico comentário:

Então, tá…

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´Justiça` brasileira

Júri condena assassino de Felipe e Liana a 110 anos de prisão, deu em toda a mídia disponível, até mesmo em bocas-de-matildes. A revista jurídica Última Instância, que sabe das coisas, informou:

Paulo César da Silva Marques, o Pernambuco, deverá cumprir a pena em regime inicialmente fechado pelos crimes de homicídio triplamente qualificado contra Liana (meio cruel, impossibilidade de defesa da vítima e morte para ocultar o crime); e duplamente contra Felipe (impossibilidade de defesa e ocultar o crime). Além disso, três estupros, duas participações em estupro, seqüestro e cárcere privado.

Pela lei brasileira, Pernambuco só poderá ficar preso por 30 anos e, após cumprir um sexto da pena, tem direito a requerer progressão de regime. Ele também poderá protestar por novo julgamento, por ter sido condenado a uma pena superior a 20 anos.

Janistraquis fez as contas, levou em consideração a frase ´deverá cumprir a pena em regime inicialmente fechado` e concluiu:

´É… talvez o assassino fique uns seis meses preso; depois, devidamente recuperado, voltará ao seio da família… dos outros.`

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Perigo à vista

A considerada Arlete Ferreira Chaves, médica e mãe de advogado em São Paulo, pergunta por Regiani dos Santos, a juíza da Vara de Execuções Criminais que soltou o maníaco homicida da Cantareira, e Olga Regina, outra juíza que pediu dinheiro ao traficante colombiano Gustavo Bautista.

´Por que a imprensa ´esquece` os maus profissionais que ela mesma denuncia? Façam uma enquete e vejam quantas pessoas ainda se lembram dessas figuras que comprometem a decência do Judiciário!´

Pois é, doutora Arlete, há alguns anos Janistraquis diz a si mesmo e repete aos botões do Datena: o Brasil ainda vai se f…der com um Judiciário que abriga tantos desonestos e analfabetos, pessoas inteiramente despreparadas para julgar até se um pitbul precisa ou não de focinheira.

Nunca antes neste país que enterrou o bom senso se incensou tanto a ignorância; quais são os juízes e juízas que já ouviram falar em notório saber e ilibada reputação?

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Ferro no marginal

Deu no UOL Esportes:

Celtic identifica e bane torcedor que invadiu gramado

O Celtic (Escócia) identificou o torcedor que invadiu o campo durante a partida em que o time escocês derrotou o Milan por 2 a 1, válida pela segunda rodada da Liga dos Campeões. Como punição, o homem, de 27 anos, que não teve o seu nome revelado, não poderá freqüentar o estádio pelo resto da vida.

Janistraquis aprovou:

´É isso aí, considerado, é isso aí! Se nos estádios brasileiros também punissem torcedores safados e bandidos, estaríamos livres de coisas como risco verde, mancha preta, pincelada amarela, pichação azul e demais excrescências.´

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E tenho dito!

Depois da camiseta com o dístico ´Cansei´; depois daquela do Lobão com ´Peidei´, Janistraquis obrou e pôs à venda uma t-shirt inteiramente negra com a seguinte divisa em amarelo-cheguei: ´Caguei & andei´.

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Nota dez

O considerado Alberto Dines escreveu no Observatório da Imprensa, sob o título Estado Novo, 70 anos depois:

(…) Apesar de transcorrida há 70 anos esta abjeta experiência totalitária precisa ser expurgada. Não se trata apenas de rememorá-la. Apesar das duas festivas redemocratizações (1945 e 1985), a grande catarse ainda não aconteceu. Há muitos fascismos por aí, mesmo com o pretexto de denunciar o fascismo.

Janistraquis, que tem pavor do discurso terceiro-mandatista, se me permitem, arregalou os olhos:

´Considerado, do jeito como seguem as coisas, meu medo é que os historiadores acabem por concluir que, de 1937 a 45, o Brasil era feliz e não sabia…´

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Errei, sim!

´PROJETO ARQUIVADO – Deu na coluna Zózimo, ex-do Jornal do Brasil, hoje em O Globo: ´Arquivado desde 1958, o projeto da construção de uma estrada transoceânica ligando as cidades de San Lorenzo, no Equador, a Manaus, voltará a ser discutido(…)´

Janistraquis comentou: ´Considerado, uma estrada transoceânica será certamente parecida com aquela que Charlton Heston, com um simples aceno, abriu no Mar Vermelho. Hoje, como Ele anda afastado da construção pesada, o custo será inimaginável para simples mortais.´

Meu secretário aposta no arquivamento do projeto.` (julho de 1993)

Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP), ou japi.coluna@gmail.com.

(*) Paraibano, 65 anos de idade e 45 de profissão, é jornalista, escritor e torcedor do Vasco. Trabalhou, entre outros, no Correio de Minas, Última Hora, Jornal do Brasil, Pais&Filhos, Jornal da Tarde, Istoé, Veja, Placar, Elle. E foi editor-chefe do Fantástico. Criou os prêmios Líbero Badaró e Claudio Abramo. Também escreveu nove livros (dos quais três romances) e o mais recente é a seleção de crônicas intitulada ´Carta a Uma Paixão Definitiva´.’

FUTEBOL
Marcelo Russio

Um blog que vale como notícia, 13/11

‘Olá, amigos. Ouvir entrevistas da imensa maioria dos nossos boleiros é um exercício de paciência e criatividade para quem precisa escrever páginas e mais páginas de informação sobre o dia a dia dos clubes de futebol. A mesmice e a falta de personalidade e inteligência nas declarações fazem com que as notas quase pudessem ser feitas de véspera, tamanha a previsibilidade dos entrevistados.

Lendo os blogs de atletas estrangeiros, principalmente norte-americanos, percebi que alguns deles fazem frente às fases mais inspiradas de grandes frasistas da bola, como Romário, ou excelentes entrevistados, como Edmundo. O blog do armador Gilbert Arenas, do Washington Wizards, da NBA, é, seguramente, um dos mais divertidos e interessantes de se ler. Não só pelo bom humor do atleta, que comenta com rara personalidade os fatos que envolvem não só a si, mas todos da NBA, mas também pela oportunidade de lermos um atleta com tamanho talento para escrever.

Veja bem, nós temos aqui poucos jogadores de futebol com habilidade para dar entrevistas interessantes. Mas sites oficiais ou blogs de boleiros, quando há, são puramente institucionais, sem opinião quente ou sequer uma análise própria sobre o que os cerca. É um festival de comunicados oficiais sem o menor atrativo, que certamente poderiam ser enviados pelas assessorias de imprensa.

No caso do blog de Arenas, chamado ´Agent Zero´, em referência ao número de sua camisa, o blog é um palco para que o atleta desfile sua irreverência e até promova jogos contra times mais fortes provocando os principais jogadores dos times rivais e, de quebra, a própria torcida dos adversários. O resultado é um número cada vez maior de acessos e comentários por parte dos internautas.

O mais legal de tudo é que o jogador se diverte fazendo o seu blog, e se esmera nas declarações e nos textos, sempre muito interessantes. Não é raro ver Arenas falando sobre assuntos que nada têm a ver com o esporte, como política, relações internacionais e séries de TV.

Está dada a dica para uma boa leitura durante a temporada regular da NBA.

(*) Jornalista esportivo, trabalha com internet desde 1995, quando participou da fundação de alguns dos primeiros sites esportivos do Brasil, criando a cobertura ao vivo online de jogos de futebol. Foi fundador e chegou a editor-chefe do Lancenet e editor-assistente de esportes da Globo.com.’

O XIS DA QUESTÃO
Carlos Chaparro

Sem valores, para que serve a tecnologia?, 16/11

‘Talvez por todas as razões que alimentam as esperanças de Manuel Castells, o seminário sobre a ´Comunicação do Futuro´, organizado pelo Banco do Brasil, e no qual as novas tecnologias motivavam as discussões, foi permeado por um argumento que o programa não previa nem nominou, mas que preponderou nos espaços do inconsciente e da subjetividade: o argumento dos valores.

1. Debate qualificado

Os novos desafios da comunicação; A comunicação pública e as novas tecnologias; Blogs: democratização X limites; O papel do Endomarketing no futuro das empresas e instituições; Comunicação com o cidadão. Para ouvir e debater idéias em torno desses temas, passei esta semana dois dias e algumas horas em Brasília, num seminário promovido pelo Banco do Brasil. Foi um bom seminário, tanto no formato quanto no conteúdo. Trata-se de um evento já tradicional, que o Banco do Brasil há onze anos organiza para formação e atualização dos seus profissionais de comunicação, mas com abertura de inscrições para outros interessados, inclusive estudantes.

Este ano, nas nove sessões temáticas em que se dividiu o Seminário, calculei em 150 o número médio de inscritos presentes, em alta percentagem, jornalistas que atuam em áreas de assessoria de imprensa e/ou de comunicação. Mas também havia gente de marketing, relações públicas e publicidade, além de estudantes e professores de jornalismo interessados em novas idéias.

Entre os expositores, gente boa não faltou, quase todos da área de Jornalismo: Nilson Lage, Eduardo Tessler, Elizabeth Saad, Luiz Carlos Azenha, Alon Feurwerker, Luciano Martins Costa, Sérgio Gwerman, Bernardo Kucinski, Ricardo Voltolini, Ricardo Kotscho, Ciro Marcondes Filho, Paulo Nassar, Sandro Vaia, Fábia Angélica Dejavite, Analisa de Medeiros Brum, Evandro de Medeiros Brum e Eduardo Castro.

Como se vê, nomes do primeiro time, em ótima mescla de professores e profissionais do batente.

O sentido prioritário das exposições e dos debates foi terminado pelo megatema que dava título ao evento: ´O Futuro da Comunicação´. Como seria de esperar, apenas com uma ou outra exceção, nem expositores nem debatedores ousaram avançar pelo terreno movediço das predições. Em vez de encarar os mistérios do futuro, escolheram o sábio caminho de tentar desvendar e entender as complicações do presente. E os resultados oscilaram entre o bom e o ótimo, em todos os momentos do seminário.

Com uma constante, no mínimo curiosa: também com inevitáveis e raras exceções, quem olhava os cenários da comunicação pelos binóculos do jornalismo, mostrava-se perplexo, em alguns casos até assustado, com as mudanças impostos pelas novas tecnologias aos modos de pensar, produzir e fazer circular os conteúdos da atualidade. Ao contrário desses, os que olham as transformações por perspectivas não-jornalísticas, mostravam-se encantados com as mudanças. Para eles, as novas tecnologias, especialmente as de difusão, garantem às suas atividades a mais-valia que potencializa a capacidade de agir e alcançar resultados.

2. Argumento silencioso

Talvez esteja na assimetria de reações aos efeitos das novas tecnologias o reflexo de uma transformação de essência ocorrida nas relações do jornalismo com o mundo em que atua: por mais de um século, os jornalistas viam-se e atuavam como os grandes sujeitos da atualidade. Olhavam e tratavam o mundo como seu objeto. Agora, no mundo novo que Castells chama de ´informacional´, o jornalismo parece ter virado ´objeto` do mundo, apropriado pelos sujeitos que produzem os conteúdos da atualidade – dos quais fazem parte os deslumbrados pelas tecnologias e suas maravilhosas mudanças.

Manuel Castells diz isso de outra maneira: os meios de comunicação, que antes eram (ou pensavam ser) a mensagem, tornaram-se mensageiros.

Ele acha isso bom. E eu também, embora isso precise ser bem explicado.

Mas como a minha opinião vale bem menos que a de Castells, peço licença para transcrever a reflexão que ele propôs ao mundo no parágrafo final da sua indispensável trilogia A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura (São Paulo, Paz e Terra, 1999):

´A promessa da Era da Informação representa o desencadeamento de uma capacidade produtiva jamais vista, mediante o poder da mente. Penso, logo produzo. Com isso, teremos tempo disponível para fazer experiências com a espiritualidade e a oportunidade de harmonização com a natureza sem sacrificar o bem-estar material de nossos filhos. O sonho do Iluminismo está ao nosso alcance. Todavia, há enorme defasagem entre nosso excesso de desenvolvimento tecnológico e o subdesenvolvimento social. Nossa economia, sociedade e cultura são construídas com base em interesses, valores, instituições e sistemas de representação que, em termos gerais, limitam a criatividade coletiva, confiscam a colheita da tecnologia da informação e desviam nossa energia para o confronto autodestrutivo. Esta situação não é definitiva. Não há mal eterno na natureza humana. Não existe nada que não possa ser mudado por ação social consciente e intencional, munida de informação e apoiada em legitimidade. Se as pessoas forem esclarecidas, atuantes e se comunicarem em todo o mundo; se as empresas assumirem sua responsabilidade social; se os meios de comunicação se tornarem os mensageiros, e não a mensagem; se os atores políticos reagirem contra a descrença e restaurarem a fé na democracia; se a cultura for reconstruída a partir da experiência; se a humanidade sentir a solidariedade da espécie em todo o globo; se consolidarmos a solidariedade intergeracional, vivendo em harmonia com a natureza; se partirmos para a exploração do nosso ser interior, tendo feito as pazes com nós mesmos.Se tudo isso for possibilitado por nossa decisão bem informada, consciente e compartilhada enquanto ainda há tempo, então, talvez, finalmente possamos ser capazes de viver, amar e ser amados´.

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Creio que por todas as razões que alimentam as esperanças de Castells, o seminário sobre a ´Comunicação do Futuro` foi todo ele permeado por um argumento que o programa não previa nem nominou, mas que preponderou nos espaços do inconsciente e da subjetividade, no ambiente e nas mentes: o argumento dos valores.

Porque ao lado da tecnologia, e até em decorrência dela, a face do mundo que os mecanismos culturais consolidam é a face dos valores. Daí, a importância crescente da Ética como fonte de razões e critérios para o uso das tecnologias. No jornalismo e fora dele.

(*) Manuel Carlos Chaparro é doutor em Ciências da Comunicação e professor livre-docente (aposentado) do Departamento de Jornalismo e Editoração, na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, onde continua a orientar teses. É também jornalista, desde 1957. Com trabalhos individuais de reportagem, foi quatro vezes distinguido no Prêmio Esso de Jornalismo. No percurso acadêmico, dedicou-se ao estudo do discurso jornalístico, em projetos de pesquisa sobre gêneros jornalísticos, teoria do acontecimento e ação das fontes. Tem quatro livros publicados, sobre jornalismo. E um livro-reportagem, lançado em 2006 pela Hucitec. Foi presidente da Intercom, entre 1989-1991. É conselheiro da ABI em São Paulo e membro do Conselho de Ética da Abracom.

TELEVISÃO
Antonio Brasil

Quem vai cassar a concessão da CNT?, 13/11

‘O ministro das Comunicações, Hélio Costa, deve ter razão: a TV brasileira é certamente uma das melhores do mundo. Mas se você ainda tiver dúvidas, recomendo assistir à ´novíssima` programação da ´nova` rede CNT.

Para quem não conhece, não lembra ou adoraria esquecer, a Central Nacional de Televisão, CNT, era, até algumas semanas, a TVJB, Prêmio Brasil 2007 para a pior TV brasileira. Mas também já foi a rede OM e rede…CNT.

Aqui no Rio, o famigerado canal 9 também já foi TV Continental, TV Record, TV Copacabana e TV Corcovado. Mudaram os nomes, os donos e os ´interesses` políticos, mas o que realmente interessa para o público, a programação, continua sendo a mesma: muito, muito ruim. Hoje, sem dúvida, a CNT conseguiu o impossível: é a pior rede de TV brasileira de todos os tempos.

Crer no amanhã

Esta semana, resolvi conferir a ´novíssima` programação do que restou da rede CNT. Após o fracasso do ´arrendamento` da rede para o grupo CBM, Companhia Brasileira de Multimídia, do polêmico empresário Nelson Tanure, o que já era ruim conseguiu ficar ´inacreditável´.

Pude assistir a programas religiosos de ´nível internacional` como ´Cristo vive´, ´Vitória em Cristo` e ´Igreja Nazareno´. Mas para demonstrar o ecletismo e a liberdade religiosa também assisti ao ´Despertar Espírita´. Incrível!

Mas nem tudo eram novidades na CNT. Pegos meio de surpresa com o fracasso previsível e anunciado do nebuloso negócio de ´arrendamento` de uma rede de TV, uma concessão pública, alguns programas eram…repetições.

Tem programa jovem, um tal de ´Whoohoo` – não me perguntem o que significa, é algo meio indescritível, o ´Sabbá Show´: versão piorada e tresloucada do Amaury Junior. Também pude assistir a uma maratona de velhos musicais como o Agnaldo Rayol Show. Imperdível!

Esses velhos programas da CNT são tão ruins que não deveriam e não poderiam ser exibidos e, ainda menos, repetidos. São programas tão ruins que se tivéssemos ´controle de qualidade´, deveriam ser proibidos. Televisão pode fazer muito mal a saúde.

Outros programas, no entanto, lançam um pequeno sinal de esperança para o público. Cito alguns exemplos como ´Criatividade sem limite´, ´Desfrutando a vida diária (sic)´, ´Salto Quântico` – é sério, ´Salto Quântico´, ´Transforme o seu mundo` (minha sugestão: mude de canal ou desligue a TV) ou o melhor, o mais irônico de todos os novos programas da CNT: ´Posso crer no amanhã´. Posso mesmo?

Qualquer governo

Todos os programas da CNT são muito, muito ruins. A única dificuldade é escolher o pior.

Mas o verdadeiro problema é saber de quem é a responsabilidade pelo conteúdo das redes de TV brasileiras? Afinal, quem vai cassar a concessão de uma rede de TV tão ruim como a CNT?

O ministério das Comunicações certamente vai dizer que não tem nada a ver com isso. A regulamentação é um assunto técnico e a concessão do canal é uma questão de ´favores políticos´. Afinal, ´é dando que se recebe´.

Se vivêssemos em um país sério, redes como a CNT já teriam perdido sua concessão há muito tempo. Mas é sempre muito mais fácil e conveniente gastar dinheiro público montando uma nova e caríssima rede de TV ´pública` do que fazer o que um governo deveria fazer: regular, monitorar e fiscalizar as televisões que já existem.

Não consigo entender que não haja ninguém, nenhuma agência responsável pela gestão de uma concessão pública tão importante como as TVs abertas brasileiras. Não consigo entender por que não há um acompanhamento de suas gestões administrativas para evitar ´arrendamentos` e monitoramento do conteúdo de suas programações.

Afinal, rádios comunitárias ou rádios piratas são muito bem monitoradas, investigadas e, muitas vez, até fechadas, por órgãos oficiais como o Dentel ou pela Polícia Federal. Por que não monitoramos, investigamos e fechamos nossas redes de TV?

Empresas aéreas como a BRA, mesmo tardiamente, têm suas concessões investigadas e revogadas pelas agências reguladoras do setor. Qual é a agência que investiga nossas TVs?

Temos que discutir de forma mais aberta e transparente o processo de concessão e renovação das concessões da redes de TV brasileiras. Não é só a CNT que merece ser investigada, Todas as redes de TV brasileiras precisam ser monitoradas por órgãos independentes e confiáveis. Não se podem mais admitir em hipótese alguma concessões e renovações automáticas em negociatas nebulosas. No Brasil, televisão é assunto muito sério. Demasiadamente sério para ser deixado somente na mão de governo. De qualquer governo. A televisão brasileira pertence a todos nós.

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar ´Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica` e ´O Poder das Imagens´. É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão.’

ABI – 100 ANOS
Eduardo Ribeiro

O nome dele é Audálio Dantas, 14/11

‘O Memorial da América Latina abre suas portas nesta quarta-feira, 14 de novembro, às 17h30, para o I Salão Nacional do Jornalista Escritor, iniciativa que marca o início das comemorações do centenário e de fundação da ABI, e que só se transformou em realidade graças à obstinação dessa lenda viva do jornalismo brasileiro chamada Audálio Dantas, a quem tive a honra e o privilégio da acompanhar nos últimos meses, ora aprendendo, ora aprendendo e ora aprendendo.

Tínhamos quatro meses para organizar o evento e nenhum tostão para viabilizá-lo e se isso era para quase todos os membros do Conselho Consultivo, o qual tenho a honra de integrar, motivo mais do que decisivo para adiar ou mesmo cancelar o projeto, para ele era apenas um detalhe. Obstinado, pôs-se em marcha visitando empresas atrás de recursos, de veículos em busca de espaço e de jornalistas escritores renomados, para garantir audiência e prestígio ao evento. O resultado dessa peregrinação poderá ser conferido ao vivo e em cores nesses próximos quatro dias, quando monstros sagrados do jornalismo e da literatura brasileira, como Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Veríssimo, Ruy Castro, Fernando Morais, Moacyr Scliar, Caco Barcellos, Zuenir Ventura, Ziraldo, Jaguar, Mino Carta, entre muitos outros, desfilarão pelo Auditório Simon Bolivar e demais dependências do Memorial da América Latina, no bairro da Barra Funda, em São Paulo.

Audálio foi recebido com carinho especial pelo Ruy Mesquita, do Estadão, que só encerrou a conversa a pedido do próprio Audálio, que não quis ficar tomando mais o tempo do diretor de Opinião do Grupo Estado, que, certamente, teria ficado quase a tarde inteira confabulando e contando histórias comuns que enfrentaram juntos, algumas delas nos tempos da ditadura. Johnny Saad, presidente da Band, concedeu mais de hora para ele, e na saída o acompanhou até a porta do elevador, deixando vários outros interlocutores à espera e também seus afazeres. Otavio Frias Filho, da Folha de S.Paulo. o Otavinho, o recebeu tendo ao lado a editora-executiva, Eleonora de Lucena, e o editor de Brasil, Fernando de Barros e Silva. À saída, o acompanhou até a calçada da Barão de Limeira, num gesto de respeito e apreço incomum. Respeito que obviamente se deve à ABI, mas também – e muito – à história de vida e à trajetória de luta de Audálio.

Ah, e o que o Audálio foi fazer nesses encontros? Comunicar a realização do Salão e pleitear o apoio dos veículos ao Salão, já que a ABI não dispunha de recursos para bancar uma campanha publicitária. Foram várias visitas e várias conquistas. Todos os veículos com os quais ele conversou decidiram apoiar com publicidade e espaço editorial a iniciativa.

Das peregrinações surgiram os recursos necessários para fazer um Salão como se deve, com profissionalismo, atrações, bem organizado. Somaram-se à iniciativa organizações de prestígio como a Volkswagen, a Imprensa Oficial de São Paulo, a Telefônica, a Petrobras, o Santander, o BNDES, o Banco Cruzeiro do Sul. Audálio, talvez muitos dos jovens leitores deste Comunique-se não saibam, desempenhou um papel relevante no processo de redemocratização do Brasil, por sua atuação num dos momentos mais graves de nossa história política: o assassinato de Vladimir Herzog nas dependências do Doi-Codi, pelas forças da ditadura militar, em outubro de 1975. À época, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Audálio, ao lado de vários outros companheiros, ajudou a sacudir este País, mobilizando as forças civis num crescente bloco de oposição aos militares e à repressão, movimento que contribuiu decisivamente para inibir a truculência e também para redemocratizar o País.

Festejado repórter, com vários prêmios de jornalismo no currículo, ele já naquele tempo enveredou pela literatura, com obras como O Circo, reportagem de grande fôlego mais tarde transformada em livro. Foi deputado federal, presidiu a Fenaj, atuou em empresas públicas, como Eletropaulo e Imprensa Oficial, e nos anos 90 montou o seu próprio escritório, a Allcom, hoje transformada acertadamente em Audálio Dantas Comunicação. Apesar de ainda precisar trabalhar para sobreviver, aos mais de 70 anos de idade, boa parte de seu tempo ainda é reservado para atividades institucionais, entre elas o trabalho na ABI, que concilia com algumas outras que surgem quase que diariamente em sua concorrida agenda (são convites para palestras, curadoria de eventos, entrevistas, participação em júris e por aí afora, quase todos voluntários, ou seja, sem remuneração).

Autor de memoráveis reportagens, ele acaba de escrever mais uma com a realização desse I Salão Nacional do Jornalista Escritor, evento com entrada gratuita, aberta ao público em geral e para o qual todos os leitores deste Comunique-se estão convidados desde já. Quando o convidou para integrar a diretoria nacional, como vice-presidente, e depois para ser o presidente da Representação São Paulo, o presidente da ABI, Maurício Azêdo, sabia que finalmente a instituição passaria a ser representativa também em São Paulo, ganhando distinção e importância na capital paulista.

Acertou na mosca.

Quem quiser conferir a programação do Salão e demais eventos programados, como o Salãozinho, com lançamentos infanto-juvenis, a Exposição de capas de livros de Elifas Andreatto, tardes-noites de autógrafos, etc, é só dar uma conferida no www.jornalistaescritor.org. Está tudo ali. Outras informações podem ser obtidas na própria Representação São Paulo da ABI, com JAL (José Alberto Lovetro), braço direito do Audálio nesse projeto, no 11-3801-1357 ou pelo e-mail contato@jornalistaescritor.org.

Apareçam. Será um prazer encontrar com leitores deste C-Se pelos corredores do Memorial, ao lado de tantas feras do jornalismo. Claro, e da literatura.

(*) É jornalista profissional formado pela Fundação Armando Álvares Penteado e co-autor de inúmeros projetos editoriais focados no jornalismo e na comunicação corporativa, entre eles o livro-guia ´Fontes de Informação` e o livro ´Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia´. Integra o Conselho Fiscal da Abracom – Associação Brasileira das Agências de Comunicação e é também colunista do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, além de dirigir e editar o informativo Jornalistas&Cia, da M&A Editora. É também diretor da Mega Brasil Comunicação, empresa responsável pela organização do Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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