Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ENTRE ASPAS > TERÇA-FEIRA, 30/5

Corrida presidencial: Alckmin ataca Lula na TV

Por Leticia Nunes  em 30/05/2006 na edição 383

Leia abaixo os textos desta sexta-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Terça-feira, 30 de maio de 2006


BRIGA POLÍTICA
Folha de S. Paulo


Na TV, Alckmin ataca Lula e diz que não ‘convive com o crime’


‘O PSDB utilizou seus programas regionais de TV ontem para se defender dos ataques do PT por conta da crise na segurança em São Paulo e mostrar realizações do presidenciável Geraldo Alckmin.


O pré-candidato ao Planalto atacou a conduta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no episódio do mensalão. ‘Não sou o tipo de governante que diz que não sabia, que convive com o crime e com a corrupção na sala ao lado.’


Já José Serra, candidato ao governo de São Paulo e ex-prefeito da capital que abriu o programa paulista, não comentou a crise, desencadeada por ataques do PCC, e evitou críticas diretas ao PT.


Líder nas pesquisas de intenção de voto para o governo do Estado, Serra preferiu destacar realizações do período em que ocupou o Ministério da Saúde na gestão FHC, como os mutirões contra a catarata, e de seus 15 meses à frente da prefeitura.


Ele justificou sua renúncia para disputar a eleição: ‘Muitas vezes, é um desafio que nos chama para a luta. Se é pelo bem comum, é uma luta que vale a pena’.


Depois disso, um apresentador falou sobre os ataques. Defendeu a polícia e citou o ‘aproveitamento político’ do caso. ‘Semana passada, o partido do presidente Lula usou este espaço para falar mal da polícia de SP. Logo o PT, do presidente Lula, que tem ministros afastados e cassados por corrupção. E os 40 envolvidos no mensalão continuam soltos.’


Alckmin fechou o programa com críticas a Lula, líder nas pesquisas de intenção de voto. ‘Não é justo que o presidente Lula, que nunca ajudou nosso Estado, venha agora atacar a polícia.’


Em seguida, foi apresentado como ‘a nova liderança que surge no Brasil’. Imagens do pré-candidato com o governador Mario Covas, morto em 2001, foram utilizadas para destacar os quase 12 anos em que o PSDB governou São Paulo.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Ressurgência nacionalista


‘Lula falou no ‘Café com o Presidente’, no rádio, e os canais de notícias ecoaram que ele ‘quer acordo com os países ricos até julho’, na rodada Doha.


No exterior ecoou mais, com Dow Jones e outras agências, em sites como o nyt.com, noticiando que o brasileiro, no ‘Coffee with the President’, ‘convocou EUA e Europa a acelerar negociações’.


‘O Brasil está aberto a fazer sua parte’ foi uma das frases destacadas de Lula.


Não tardou e o comissário europeu de comércio, Peter Mandelson, saiu dizendo à Dow Jones que ‘deixou claro’ também está pronto para cortar subsídios, ‘se vierem com propostas satisfatórias’.


E logo Durão Barroso, que preside a Comissão Européia, repisou à correspondente da Globo News em Bruxelas que ‘todos os países devem fazer esforços e concessões’.


A negociação arrastada está sob risco. Barroso, a caminho do Brasil, chegou a criticar ‘as novas tendências populistas’ latino-americanas, ontem.


Ele está atrasado no debate hemisférico, centrado agora na ação dos ‘petro-estados’, da Bolívia à Rússia e o Reino Unido. Ontem foi a vez do cientista político José Luís Fiori, no site Carta Maior:


– O que se vê por todo lado é uma tendência alimentada pela segurança energética e que o ‘NYT’ identifica como ‘ressurgência mundial das políticas nacionalistas’.


E não populismo, é o que ele escreve, para encerrar:


– O tufão está no início, mas já paralisou a Europa, atropelou o Mercosul e deve enterrar em breve os sonhos liberalizantes de Doha.


Populista, nacionalista ou tão-somente esquerdista, a onda chegou à Colômbia.


Para ‘El Espectador’, de Bogotá, ‘o fenômeno político’ da eleição presidencial foi ‘a maior votação já recebida pela esquerda’, com Cesar Gaviria. Um fato ‘histórico’, segundo ‘El Colombiano’, por tornar pela primeira vez a esquerda a segunda força do país.


Já para o ‘Washington Post’, como destacou a BBC, a reeleição de Álvaro Uribe, ‘educado em Harvard’, freia a onda esquerdista da região.


DO VODU À BELEZA


No site do ‘Sidney Morning Herald’, da Austrália, que é adversária do Brasil na primeira fase da Copa do Mundo, um dos destaques de ontem era o vodu em azul e amarelo de um jogador brasileiro (veja imagem abaixo).


É o tom geral que acompanha a cobertura pelo mundo, entre a exaltação e a ironia que ‘seca’ as celebridades brasileiras. Ontem, os enunciados traziam coisas como ‘Ronaldinho pronto para reinar’, no indiano Rediff, e ‘Esqueça vitória, o Brasil tem compromisso com beleza’, no britânico ‘Times’. No despacho da agência Reuters, também ontem, por todo lado, ‘Brazil despreocupado com a sua ausência de preocupação’.


2010


Com a propaganda do PSDB, os factóides da CPI dos Bingos, o novo ‘Roda Viva’ de Roberto Jefferson, a semana se anunciava contra Lula, pelo que prediziam os blogs de Fernando Rodrigues a Tereza Cruvinel, desde sábado.


Mas ela já começou torta, com FHC avaliando, segundo coluna na Folha Online, que ‘o problema de Alckmin é 2010’. Ou seja, que tucanos de Minas e São Paulo, de olho na eleição seguinte, pouco se dão para o candidato de 2006.


DESDE JÁ


Ontem, para agravar mais o quadro, o pefelista Cesar Maia e o tucano Alberto Goldman ressurgem no ataque on-line ao ‘choque de gestão’ feito pelo tucano Aécio Neves.


E o governador mineiro diz, à Jovem Pan, que Goldman agiu ‘no seu açodamento para permanentemente agradar ao ex-prefeito José Serra’.


COM OU SEM ALCKMIN


Na propaganda de ontem, Serra até posou com Alckmin, de passagem. E o candidato federal abriu fogo contra Lula, falando em corrupção.


Mas o bordão para o Estado de São Paulo se concentrou na defesa da ‘polícia’ contra as críticas do PT. É o discurso tão anunciado, à direita.


Por outro lado, início da noite e, na home da Folha Online, surgia o enunciado:


– Alckmin e Serra adiam a visita conjunta ao interior.


COM OU SEM QUÉRCIA


De sua parte, o petista joga com os peemedebistas de sempre. Na submanchete da Folha Online, fim do dia, ‘PT espera até o último momento pelo PMDB’. Ontem, Lula lá estava, com Orestes Quércia.’


 


IRAQUE
Folha de S. Paulo


Atentado mata 2 integrantes da TV CBS


‘A explosão de um carro-bomba ocorrida ontem no centro de Bagdá matou um câmera e um técnico de som da rede de TV CBS e deixou a correspondente da emissora gravemente ferida. Um soldado do Exército americano também morreu no incidente na capital iraquiana.Os britânicos Paul Douglas, 48, operador de câmera, e James Brolan, 42, responsável pela captação do som, além da jornalista Kimberly Dozier, 39, acompanhavam tropas do Exército dos EUA quando ocorreu um dos oito atentados a bomba registrados nos últimos dias, deixando ao menos 37 pessoas mortas em todo o Iraque.


De acordo com a CBS, a equipe fazia a reportagem fora de um Humvee (veículo blindado) no momento em que a explosão ocorreu.’


 


IVANDEL GODINHO
Folha de S. Paulo


Acusado de seqüestrar jornalista é preso


‘DO ‘AGORA’ – Foi preso em Itanhaém (98 km de SP) o comerciante Miguel José dos Santos, 24, considerado pela polícia um dos ‘maiores seqüestradores do Estado’ e suspeito de chefiar a quadrilha que seqüestrou e matou o jornalista Ivandel Godinho Júnior, em outubro de 2003, na zona oeste da capital.


Com a prisão, ocorrida na última sexta, a polícia acredita ter ‘grandes chances’ de conseguir achar o corpo do jornalista.


Segundo a polícia, o acusado confirmou ter matado Godinho. Ele é a quarta pessoa a ser presa pelo crime. Ainda há dois foragidos. De acordo com o delegado Wagner Giudice, diretor da DAS (Divisão Anti-Seqüestro), os dois foragidos foram os responsáveis pelo enterro do corpo, já carbonizado, a pedido do comerciante.


Miguel era motoboy, segundo Giudice. A trabalho, ia com freqüência ao prédio em que funciona o escritório onde Godinho atuava. ‘Foi ele quem escolheu a vítima, porque já havia ouvido comentários dando conta de que o Ivandel era um sujeito rico’, disse Giudice.


O suspeito preso e os dois que estão foragidos utilizaram duas motocicletas para render a vítima, num cruzamento da av. Brigadeiro Faria Lima, no Itaim Bibi (zona oeste). De lá, Godinho foi levado a um cativeiro no Capão Redondo (zona sul), onde, segundo Giudice, ficou vivo por mais três ou quatro dias. ‘A vítima devia tomar um determinado tipo de medicamento. Na falta dele, começou a gritar e a brigar com os seqüestradores. Foi nesta situação que um dos criminosos começou a dar coronhadas na vítima, que acabou morrendo.’


A morte de Godinho, segundo o delegado, não estava nos planos de Miguel: ‘Ele sabia que a vítima dispunha de uma quantia grande de dinheiro. Com a morte, perdeu o poder de barganha’.


A família pagou resgate, em janeiro de 2004, mas não teve mais notícias do jornalista. Um ano depois, três pessoas foram presas e apontaram um local onde estaria o corpo. A polícia achou fragmentos de ossos, mas exames mostraram que eram restos de animais.


A reportagem não teve acesso ao preso, e a polícia disse que ele não apresentou advogados.


Para Ivens Godinho, irmão de Ivandel, a polícia precisa apresentar provas concretas de que o suspeito foi responsável pela morte de seus irmãos. ‘Onde está o corpo, a ossada? Até ter provas concretas ainda acredito que ele continua vivo e que ele vai voltar.’’


 


COPA
Daniel Castro


Copa eleva concentração de dinheiro na TV


‘A Copa do Mundo está tomando os intervalos comerciais de quase todo o horário nobre e vai provocar uma concentração inédita das verbas publicitárias na TV aberta.


A TV Globo, que costuma fazer previsões conservadoras de crescimento, já reviu sua estimativa para 2006. Avalia agora que o mercado de mídia (que ainda inclui jornais, revistas, internet, rádio, TV paga, guias e listas e cinemas) deve crescer 12% ou 13% – e não mais 10%.


Por causa da Copa, a televisão aberta deverá ficar com 62% ou 63% de todo o dinheiro dos anunciantes investido em publicidade, estima Octavio Florisbal, diretor-geral da Globo. No ano passado, segundo o Projeto Intermeios (que afere a receita dos veículos de comunicação), a TV aberta concentrou 59,6% das verbas publicitárias _ou seja, de cada R$ 100 gastos com propaganda no país, R$ 59,60 passaram pelas TVs.


A receita bruta de todas as redes deverá ficar próxima de R$ 11 bilhões, dos quais mais de 6,5 bilhões líquidos (já descontadas comissões de agências) passarão pela Globo e afiliadas.


Neste ano, avalia Florisbal, as verbas publicitárias se concentrarão no primeiro semestre _devido à Copa. As redes devem faturar 15% a mais de janeiro a junho, o que ajudará a alcançar a média anual de 12%. A Copa também amenizará a falta de propaganda de obras de governos no segundo semestre, imposição da lei eleitoral.


‘BELÍSSIMA’ NO TOPO


Faltando pouco mais de um mês para seu final, ‘Belíssima’ está um ponto no Ibope atrás de ‘América’ _47 a 48. Mas a novela de Sílvio de Abreu já tem mais ‘share’ (participação no total de TVs ligadas) do que sua antecessora – 69% contra 65%.


ANÚNCIO EFICIENTE


Pesquisa do Datafolha mostra que fazer merchandising em ‘Belíssima’ (Globo) e ‘Prova de Amor’ (Record) é bom negócio. Os merchandisings nas duas novelas tiveram uma aprovação recorde pelos telespectadores de ambas. O Datafolha pesquisa a eficiência desses comercias desde 2004.


BARRIGA CHEIA


A Record já vendeu 40 ações de merchandising em ‘Prova de Amor’. Cada uma custa R$ 250 mil na tabela.


DIGITAL NO PLANALTO


O presidente Lula poderá ‘cumprir’ a promessa, de três anos atrás, de que iria assistir à Copa de 2006 em TV digital. É que a Globo oferecerá decodificadores de seu sinal em altíssima definição, irradiado via satélite, para o Palácio do Planalto, Granja do Torto e Congresso Nacional, em Brasília.


COPA NO SHOPPING


Já os brasileiros ‘comuns’ terão que disputar um convite para ver as demonstrações digitais que a Globo fará em mais de 150 pontos pelo país.


LE COQ


Ainda tendo como ‘gancho’ os ataques do PCC, o ‘Jornal da Record’ exibe a partir de hoje série especial mostrando que esquadrões da morte, formados por policiais, continuam existindo no país.’


 


SIMONE DE BEAUVOIR
Sylvia Colombo


Flagrante existencialista


‘‘Homem travesso’, foi a única observação que Simone de Beauvoir fez ao amigo Art Shay no momento em que ele capturou a surpreendente imagem que você vê ao lado. A escritora tinha, então, 42 anos, e já se havia tornado um ícone feminista além de ter publicado alguns dos textos que a celebrizariam, como ‘O Segundo Sexo’ (1949). A foto, assim como um punhado de boas e inéditas histórias sobre Beauvoir e seu parceiro não menos notório Jean-Paul Sartre estão em ‘Tête-à-Tête’, livro da inglesa Hazel Rowley, 54, que remonta a vida do casal de intelectuais existencialistas franceses por meio de cartas e novas entrevistas. Mas a grande surpresa do trabalho de Rowley, para nós, brasileiros, é bem outra. A autora recolheu indícios de que Sartre, quando esteve aqui com Beauvoir, em 1960, teria tido um caso com Cristina Tavares, uma jornalista pernambucana que, posteriormente, se tornaria deputada federal. ‘A passagem deles pelo Brasil é pouco estudada e muito mais importante do que ficou registrado. Foram dois meses em que conversaram com muita gente e tiveram intensa atividade intelectual’, disse Rowley, em entrevista à Folha, de Nova York, pouco antes de embarcar para suas investigações por aqui. Segundo ela, Sartre teria conhecido Tavares enquanto Beauvoir estava internada com suspeita de febre tifóide num hospital de Recife. A pesquisadora tem esperanças de encontrar cartas de Sartre para a brasileira, que morreu de câncer, com membros de sua família. O interesse da autora por Beauvoir vem de longe. Quando era estudante de francês na universidade de Adelaide, na Austrália, entrou em contato com a obra da escritora. Tornou-se PhD em existencialismo e, em 1976, conseguiu marcar uma entrevista com Beauvoir. O encontro, entretanto, foi tenso. ‘Fiquei com a impressão de que ela havia incorporado demais seu personagem e não conseguia sair dele.’ Em ‘Tête-a-Tête’, Rowley tenta questionar os estereótipos relacionados a ela e a Sartre, para além do legado intelectual e político. Rowley concentra-se, por exemplo, em mostrar que o modelo de ‘relacionamento aberto’ de que tanto se orgulhavam e que serviu de modelo para toda uma geração, deixava Beavoir deprimida em muitas ocasiões, ao mesmo tempo em que se tornava motivo de tensões entre o círculo de amigos e amantes existencialistas que os rodeavam. Por outro lado, a pesquisadora defende que Beauvoir, diferentemente do que comumente se diz, não foi transformada de filha obediente da burguesia francesa em livre-pensadora apenas pelo toque mágico de Sartre. ‘Ela já tinha feito suas escolhas pessoais e intelectuais, Sartre foi apenas um estímulo’, diz. Rowley recusa-se, ainda, a ver Sartre como um homem que enganava suas mulheres. ‘Ele lhes dava algo em troca, intelectualmente e, muitas vezes, financeiramente.’


Pesquisa


Em contradição com os princípios de transparência defendidos pelo casal, estudá-los hoje não é tarefa fácil. Rowley conta que boa parte das cartas e da documentação sobre Sartre e Beauvoir está na mão de particulares e é de difícil acesso. Além disso, há vários documentos dispersos, muito pela prolixidade dos dois, mas também pela falta de uma pesquisa que abarcasse tudo o que foi produzido. A foto de Shay, por exemplo, já havia sido publicada num álbum, nos anos 60. Quando foi editar o livro, Rowley o procurou e pediu autorização para divulgá-la. ‘Por muito tempo essa imagem foi, para os amigos de Beauvoir, uma foto controversa, pois mostrava uma mulher que era tida como dura e combativa numa pose sensual, vulnerável, feminina demais.’ O ponto alto do livro é a narrativa dos últimos meses de Sartre. ‘Chorei quando escrevi o seu funeral, pois tinha acompanhado pelas cartas a maneira como Simone havia começado a sofrer com aquilo tudo muito antes. De alguma forma, ambos acabaram ali’, diz Rowley. A autora reconhece ter sido influenciada pelo modelo de relacionamento para o qual ambos apontaram. E, apesar de ter mostrado que a tensão era um elemento recorrente na vida de ambos, ela é otimista quanto a seu legado. ‘O modo como viveram, como cada um quis que o outro vivesse uma vida completa para mim ainda é o mais importante. E acho que há muito a se tirar dessa experiência até hoje’, conclui.


TÊTE-A-TÊTE


Autora: Hazel Rowley


Tradução: Adalgisa Campos da Silva


Editora: Objetiva


Preço: R$ 54,90 (462 págs.)’


 


CANNES
Amir Labaki


Premiação surpreende em Cannes-2006


‘O conjunto dos premiados de Cannes 2006, encerrado anteontem, foi surpreendente e heterodoxo, mas com certa coerência interna. O veterano Ken Loach, pela oitava vez na competição e pela 12ª no festival, levou finalmente sua Palma de Ouro por ‘The Wind that Shakes the Barley’ (O vento que balança a cevada).


O filme devolve-o à melhor forma, depois de um começo de década menos inspirado. Loach volta a câmera para outra guerra civil. Depois da espanhola (‘Terra e Liberdade’) e da nicaragüense (‘A Canção de Carla’), dramatiza o conflito anglo-irlandês do início dos anos 20. Radiografa tanto a luta independentista como os traumas internos à causa irlandesa.


Com ‘Volver’, Almodóvar nos ofereceu seu filme mais autobiográfico, centrado em sua região natal, em La Mancha espanhola. É outro potente drama familiar feminino que vilaniza como nunca a figura masculina. Um grande filme em chave baixa, contido e espetacularmente interpretado. Não surpreende, assim, que tenha valido o prêmio de conjunto para o sexteto de atrizes encabeçado por Penélope Cruz e Carmen Maura. Já a atribuição do prêmio de roteiro a Almodóvar parece mero gesto de consolo.


As surpresas prosseguiram com o Grande Prêmio do Júri para ‘Flandres’, do francês Bruno Dumont, uma alegoria antibelicista parcialmente inspirada por ‘Nascido para Matar’, de Kubrick. Premiou-se aqui sobretudo o cinema de artifício caro a Wong Kar-wai.


Soou como tapinha nas costas, atribuído por um júri conflitado, o tímido prêmio de melhor diretor ao mexicano Alejandro González Iñárritu. Rodado em três continentes, combinando astros como Brad Pitt e Gael García Bernal a atores não-profissionais, é um poderoso afresco sobre a incomunicabilidade e o desarmamentismo.


Um segundo prêmio de conjunto de interpretação, para os cinco atores protagonistas de ‘Indigènes’, de Rachid Bouchareb, no papel de argelinos e marroquinos que lutaram pela libertação da França ainda colonialista sob jugo alemão, destaca um belo filme com forte e atual mensagem integracionista e anticolonial numa França hoje sacudida pela nova legislação antiimigratória encaminhada pelo ministro do interior Nicolas Sarkozy.


Por fim, a britânica Andrea Arnold levou o Prêmio do Júri com ‘Red Road’, ainda segundo o presidente do júri, devido ao ‘grande feito para um filme de estréia’. Selecionar Arnold foi abrir mão de lembrar, por exemplo, outra bela fábula sobre excluídos, do finlandês Aki Kaurismäki, ‘Lights in the Dusk’. Não há Cannes sem injustiças.’


 


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O Globo


Terça-feira, 30 de maio de 2006


MORDAÇA
Luiz Garcia


A imprensa menos livre


‘O leitor de um jornal de cidade grande provavelmente acredita que existe liberdade de imprensa no país inteiro.


Não é bem assim. Pode ser bastante verdadeiro, num índice próximo de cem por cento, para aquilo que nós mesmos batizamos de ‘a grande imprensa’. Mas não nos municípios médios e pequenos, Brasil afora. Neles, a lei pode ser manipulada a favor de quem manda. Não é difícil: afinal, a Lei de Imprensa data do tempo do regime militar, e é legislação feita para não incomodar quem manda.


O caso de Ester Gameiro, diretora do ‘Correio do Estado’ há 52 anos, publicado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, é exemplar, no pior sentido. Ela nos conta que insiste em publicar reportagens denunciando um ex-prefeito, hoje pré-candidato do PMDB a governador. Suas informações, diz, têm como fonte investigações do Ministério Público Federal, da Controladoria-Geral da União e notícias de outros jornais.


Mas, segundo Ester, o jornal está perdendo a guerra, esmagado por um aluvião de ‘direitos de resposta’, Para se ter uma idéia, a contra-ofensiva do ex-prefeito já incluiu pedir à Justiça — e conseguir — direito de resposta até para o registro do adiamento do julgamento de um processo.


A publicação maciça, obrigada por decisão judicial, de respostas extensas e com vaga ou inexistente relação com as notícias publicadas, vai aos poucos estrangulando o jornal. As ordens dos tribunais incluem a ameaça de força policial e prisão caso supostas ‘respostas’ — nas quais mais se ofende o jornal do que se estabelece uma defesa — não sejam publicadas imediatamente. As publicações obrigatórias expulsam das páginas notícias de interesse público. E o público se desinteressa.


Todas as informações aqui relacionadas foram fornecidas por Ester. Ela relaciona 17 processos contra o jornal. Numa das sentenças, o juiz determina que ‘opiniões desfavoráveis’ do jornal ‘não extrapolem os limites da crítica literária, artística ou científica’. Seria engraçado se não fosse uma agressão, tosca mas contundente, à liberdade de imprensa.


As denúncias do jornal não representam caso isolado. A Associação Nacional de Jornais tem revelado freqüentemente episódios de esmagamento da liberdade de informação sob uma massa de processos judiciários. Existe liberdade de imprensa para organizações jornalísticas financeiramente saudáveis e estabelecidas em centros de grande população e opinião pública atenta. Mas, no Brasil remoto, por assim dizer, a independência da mídia pode ter preço alto, muitas vezes de pagamento impossível.


Não pode ter vida longa um jornal pequeno, se é a todo momento forçado a gastar fortunas para se defender de processos — e ainda por cima encher seu espaço com mais ‘direitos de resposta’ do que notícias de interesse da comunidade. Quando um jornal combativo morre, é quase sempre substituído por outro, obediente e medroso. Como os autores da Lei de Imprensa instituída pelo regime militar desejavam que fossem todos os jornais do país.’


 


YOUTUBE
Gilberto Scofield Jr.


À beira de um ataque de nervos


‘O que era apenas um bate-boca entre dois anônimos num ônibus em Hong Kong acabou virando um dos maiores fenômenos de mídia da China. Explique-se: há algumas semanas, alguém pôs no site YouTube — um website que permite o compartilhamento de vídeos caseiros — uma seqüência de seis minutos de bate-boca provocado quando um jovem bate no ombro de um passageiro e pede que fale mais baixo ao celular.


A reação do sujeito, visivelmente perturbado pela reprimenda do outro, seria cômica não fosse absolutamente ridícula. Gesticulando muito, o sujeito começa a gritar com o jovem: ‘Eu não te conheço. Você não me conhece. Por que está fazendo isso?’. O jovem mal reage, o que só faz aumentar a ira do passageiro: ‘Eu estou sob pressão! Você está sob pressão. Por que me provoca?’. Ou, quando o jovem pretende dar o bate-boca por encerrado: ‘Não está terminado! Não está terminado!’.


O que ninguém esperava era que o vídeo — chamado ‘Bus uncle’ — fosse fazer tanto sucesso na internet, com 1,7 milhão de espectadores em duas semanas, a ponto de transformar as frases do irado passageiro do ônibus no bordão mais hype das ruas não apenas de Hong Kong, mas das grandes cidades de Guangdong, província da China onde se fala o cantonês.


Frases foram sampleadas e viraram hits nas rádios


E mais: as frases do ‘Tio do ônibus’ passaram a ser copiadas e sampleadas, transformando-se em hits de música eletrônica que fazem o maior sucesso em rádios, bares e karaokês da região hoje. Muitos passaram a usar o ‘Eu estou sob pressão!’ como o som de aparelhos celulares quando recebem chamadas. E o bordão agora vai estampar uma série de camisetas e canecas por uma empresa de Hong Kong. Os jornais se dedicaram a estudar o fenômeno, com especialistas garantindo que o sucesso do vídeo advém do fato de que a maioria das pessoas, em Hong Kong, anda mesmo é à beira de um ataque de nervos.’


 


LOST
Thaís Britto


Perdidos como nunca


‘A série ‘Lost’ — que a AXN exibe aqui toda segunda-feira, às 21h — estreou com estardalhaço nos Estados Unidos no dia 22 de setembro de 2004. Poucos dias depois, a saga dos sobreviventes do vôo 815 da Ocean Air já tinha ganho status de cult no mundo todo. Com o passar dos meses e dos episódios, no entanto, a febre ‘Lost’ perdeu um pouco a sua força. A falta de respostas para os muitos mistérios apresentados pelo seriado criado pelo über-nerd JJ Abrams (de ‘Missão Impossível 3’) começou a irritar seus milhões de fãs. O frustrante último episódio da primeira temporada foi a pá de cal.


Passado pouco mais de um ano da exibição do último episódio da primeira temporada nos Estados Unidos, no dia 25 de maio, a lostmania chegou a níveis inimagináveis. Exibido no último dia 24 nos EUA, o último episódio da segunda temporada — que passa no Brasil no dia 7 de agosto — foi assistido por cerca de 18 milhões de pessoas. No Brasil, a série é a mais assistida na TV paga na sua faixa, às 21h. Por causa de Jack, Kate, Sayid e cia., o faturamento da AXN aumentou nada menos que 76% .


O número de sites, blogs e comunidades dedicados ao programa cresce numa velocidade impressionante. Num capítulo ainda inédito no Brasil, o personagem Sawyer aparece lendo o manuscrito de um romance chamado ‘Bad twin’. Semanas depois, o livro desembarcou nas livrarias americanas e imediatamente se tornou um best-seller. Seu autor é Gary Troup, uma das pessoas mortas no acidente aéreo que serviu de pontapé para as mil tramas de ‘Lost’.


Especula-se que Gary Troup (um anagrama de ‘purgatory’, purgatório) seja na verdade o escritor Stephen King, fã confesso do seriado. Diferentemente de alguns fenômenos ocorridos na ilha de ‘Lost’, a volta por cima do seriado tem explicação: um salto de qualidade nos roteiros da segunda temporada. Cada episódio novo continua trazendo novos mistérios. Aos poucos, no entanto, alguns dos antigos estão começando a ser resolvidos. Num episódio que será exibido em breve no Brasil, por exemplo, Claire descobre onde ela esteve nas duas semanas em que ficou desaparecida na primeira temporada.


Três mistérios serão resolvidos


No último episódio da segunda temporada, nada menos que três mistérios são resolvidos. E estamos falando de mistérios importantes. O público vai descobrir por que o avião da Ocean Air caiu, o que acontece quando os números de Hurley não são digitados no computador e onde está Walt. Três episódios antes, mais dois personagens vão ser assassinados.


No passado, assistir a um capítulo de ‘Lost’ por semana bastava para muitos fãs do seriado. Por conta da virada da série, isso mudou. A historiadora Juliana Ramanzini, por exemplo, passa cerca de cinco horas diárias procurando novidades e fofocas sobre ‘Lost’ na internet. Juliana é uma das idealizadoras do blog ‘Dude, we are lost!’ (algo como ‘Cara, estamos perdidos!’).


— Fiz amizade na internet com outros fãs e achamos que seria legal colocar comentários e imagens sobre a série num blog. Começamos com duas pessoas e, logo na semana de estréia, o blog estourou. Chamamos amigos e hoje são oito pessoas na equipe — conta Juliana, de Porto Alegre.


Um dos colaboradores do blog é o jornalista Carlos Alexandre Monteiro, também vocalista da banda de surf music Netunos. Assinada por ele, a coluna ‘Direto da escotilha’ trata dos mais diversos aspectos da série: da relação entre pais e filhos à trilha sonora, passando pelas similaridades com a trilogia ‘Star wars’:


— Tento não fazer comentários diretos sobre a história. Minha idéia é divagar. Faço isso porque acho realmente que há muito mais em ‘Lost’ do que a narrativa principal, e é isso que faz dela uma série muito especial — explica ele.


Davi Garcia é moderador da maior comunidade dedicada à série no site de relacionamentos Orkut, a Lost Brasil, que hoje tem mais de cem mil membros. Ele passa boa parte do seu dia em sites e fóruns como o o Lost Media, o Lost Forum e o Lost TV.


— Se você estiver a fim mesmo, fica o dia inteiro nisso. Eu normalmente entro em um ou dois desses para ver as novidades. É um roteirinho que eu sigo diariamente — conta o estudante de marketing. — Acho que esse fenômeno deve-se à mistura de conceitos: não é apenas uma série de mistério, ela explora também os dramas dos personagens com um grau de comédia e ainda tem aventura. É uma mescla de estilos que agrada a todos.


Garcia conta que está tentando achar ‘Bad twin’ na internet.


— Ainda não consegui baixar. E estou com o ‘O terceiro tira’ (que segundo um dos roteiristas de ‘Lost’, Craig Wright, traria pistas importantes sobre o seriado) . Gosto de ler esses livros porque certamente os autores beberam em várias fontes, e conhecê-las ajuda a aproveitar melhor a série.


A advogada Teresa Garcia transformou a paixão pelo seriado numa brincadeira.


— Eu e uns amigos fizemos um curta chamado ‘Bost’. É uma paródia. Agora, com o fim da segunda temporada, estamos prontos para fazer o ‘Bost 2’. A seleção de elenco está a todo vapor — diz ela, que nunca foi fã de séries americanas até se deparar com os sobreviventes do vôo 815. — Acho que o mais interessante de ‘Lost’ é que ninguém é de todo bom ou de todo mau. Todo o mundo tem qualidades e defeitos, e os flashbacks sempre nos deixam em dúvida sobre os motivos reais e as intenções dos personagens. Como na vida real, não há vilões e mocinhos. (colaborou Bruno Porto)’


 


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O Estado de S. Paulo


Terça-feira, 30 de maio de 2006


DEUS NÃO, O HOMEM
Henry I. Sobel


O papa em Auschwitz


‘Domingo, encerrando sua viagem de quatro dias à Polônia, o papa Bento XVI fez uma visita carregada de emoção ao antigo campo de concentração nazista de Auschwitz. O próprio papa disse que fazer tal visita era ‘estarrecedor’ para ele, como cristão e alemão, mas não podia deixar de fazê-la. Num gesto de grande sensibilidade, o papa optou por falar em italiano, e não em sua língua materna, o alemão, a fim de não ferir os sentimentos dos judeus, para quem a língua alemã está inextricavelmente associada aos horrores da era nazista.


Ao rezar durante uma cerimônia religiosa em memória das vítimas do Holocausto, o papa perguntou, com a voz embargada: ‘Por que, Deus, o Senhor se calou? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava o Senhor naqueles dias?’


Quando nos deparamos com o mal e a tragédia no mundo, é natural perguntarmos: onde está Deus? Como Ele pode deixar que tal coisa aconteça? A meu ver, porém, não são estas as perguntas primordiais. O que nos devemos perguntar não é onde está Deus, mas, sim, onde está o homem. Não como pode Ele, Deus, permitir que tais coisas aconteçam, mas, sim, por que ele, o homem, permite que essas coisas aconteçam. O que é que o ser humano tem feito para impedir as barbaridades?


O biógrafo de Sigmund Freud conta o caso de um importante cirurgião vienense que, ao se encontrar com Freud pela primeira vez, num corredor do hospital onde ambos trabalham, lhe mostrou um osso corroído pelo câncer, testemunho de uma vida que ele tinha sido incapaz de salvar, e lhe disse sentir-se profundamente magoado: ‘Sabe, doutor Freud, se algum dia eu me encontrar frente a frente com Deus, vou sacudir este osso em Sua face e perguntar-Lhe por que Ele permite uma doença destas.’ E Freud respondeu-lhe: ‘Se eu, algum dia, tiver essa oportunidade, vou formular a queixa de um modo diferente. Não vou indagar por que Ele permite o câncer, e sim por que Ele não deu a mim, ou ao senhor, ou a qualquer outra pessoa, a inteligência para descobrir a cura desta doença.’


Antes de perguntarmos ‘onde está Deus’, cabe-nos formular a outra pergunta: ‘Onde está o homem?’ O que está fazendo o homem com o mundo que Deus lhe deu?


A 2ª Guerra Mundial e os campos de concentração constituem o maior desafio à teologia em nossa época. Creio que todas as religiões deveriam rever seus conceitos, tendo em vista o que Auschwitz e Treblinka nos ensinaram sobre Deus e o homem.


Quando Hitler proclamava publicamente sua perversa política racial, por que as pessoas concordaram em aceitá-lo como líder? Onde estava o homem quando os eleitores da Alemanha disseram: ‘Antes Hitler, com suas idéias esquisitas sobre os judeus, do que a inflação ou o socialismo’? Onde estava o homem quando Hitler subiu ao poder e começou a concretizar suas loucas ameaças? Onde estavam os advogados, os juízes, os médicos e tantos outros que seguiram e apoiaram passivamente os decretos de Hitler?


Se os advogados tivessem lutado pela dignidade de sua profissão, se os juízes tivessem defendido a justiça, se os médicos se tivessem importado com a vida humana, não haveria necessidade de perguntar mais tarde: ‘O que houve com Deus?’


Onde estava a Igreja? Onde estavam as autoridades eclesiásticas, tão prontas para exaltar a santidade da vida humana, enquanto milhões e milhões de vidas inocentes estavam sendo aniquiladas? Onde estavam os líderes dos governos aliados que deram um jeito de olhar para o outro lado e não conseguiram encontrar um canto em seus países para os judeus refugiados? Temos, certamente, o direito de perguntar onde estava Deus em 1940, mas temos o dever de perguntar, antes, onde estava o homem em 1940. O que poderia ele, homem, ter feito para impedir o inferno do Holocausto… e não fez?


Existe uma lenda sobre um rabino que se preparava para viajar de Israel para Roma. Na noite anterior à sua partida, ele teve um sonho no qual viu um mendigo esfarrapado sentado às portas de Roma. No sonho, ele ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Vê este homem? Este é o Messias vestido de mendigo.’ O rabino acordou e não conseguiu mais esquecer o sonho. Continuou a pensar nele durante toda a viagem. Finalmente, ao aproximar-se de Roma, avistou um homem maltrapilho, sentado exatamente no local que havia visto no sonho. O rabino chegou-se a ele e questionou: ‘É verdade que você é o Messias?’ E o homem respondeu: ‘Sim.’ O rabino, então, perguntou: ‘O que é que você está fazendo às portas de Roma?’ E o homem replicou: ‘Estou esperando.’ Ao que o rabino retrucou: ‘Esperando?! Num mundo tão cheio de miséria, ódio e guerra, num mundo onde o povo de Israel está disperso e oprimido, num mundo onde existem crianças famintas, você está aqui, sentado, esperando?! Messias, pelo amor de Deus, o que é que você está esperando?’ E o Messias respondeu: ‘Tenho esperado por você, para poder lhe perguntar, em nome de Deus, o que é que você está esperando.’


A visita do papa Bento XVI a Auschwitz, no domingo, o fez reviver um capítulo muito doloroso da História humana. Diante das lápides simbólicas naquele local em que ocorreu o maior massacre de todos os tempos, o papa sentiu a necessidade de perguntar onde estava Deus enquanto a bestialidade nazista agia impune.


Com todo o respeito, permito-me responder ao Sumo Pontífice: Deus estava onde sempre esteve, esperando que os homens assumissem o seu dever.


Henry I. Sobel, rabino, é presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista e coordenador da Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-Judaico, órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil’


 


BRIGA POLÍTICA
O Estado de S. Paulo


Na TV, Alckmin alfineta Lula‘O PSDB deu mostras ontem, durante exibição de seus programas regionais, da nova linha a ser adotada na campanha de Geraldo Alckmin ao Planalto. O ex-governador paulista foi duro com o principal adversário, o presidente Lula, e não fugiu do principal problema de sua administração: a segurança pública – em evidência com a onda de violência que atingiu São Paulo há pouco mais de duas semanas.


Logo na primeira aparição, Alckmin disse que ‘com bandido não há acordo nem conversa’ e não é do ‘tipo que diz que não sabia e que convive com a corrupção na sala ao lado’. O presidenciável seguiu o tom introduzido segundos antes, quando um locutor mencionou o mensalão e disse que o governo Lula tem ‘ministros afastados por envolvimento com corrupção’.


Para arcar com os gastos da pré-campanha de Alckmin e José Serra (a governador) – o programa ontem custou cerca de R$ 250 mil -, o PSDB paulista realiza hoje o segundo de uma série de jantares para arrecadar recursos. Foram postos à venda 250 ingressos, a R$ 3 mil cada. Ontem, 215 já haviam sido comprado. No cardápio, opções para todos os gostos. Tudo regado a champanhe e uísque 12 anos.’


 


CULTURA HACKER
O Estado de S. Paulo


‘Trabalho com o impulso da ética hacker’, confessa Gil


‘O ministro da Cultura, Gilberto Gil, defendeu ontem em Barcelona a cultura hacker, na abertura do Congresso Global da Internet que analisará tendências e desafios do mundo em rede. ‘Eu, como ministro de Cultura do Brasil e como músico, trabalho a cada dia com o impulso da ética hacker.’


De acordo com o ministro, é preciso diferenciar os hackers dos ‘crackers’ que, em sua opinião, são piratas da informática comuns.Ele classificou os hackers como os primeiros ‘militantes da contracultura a ver no computador uma fantástica ferramenta de comunicação’.


Gil opôs o mundo ‘hacker’ ao que chamou de ‘ortodoxia analógica reacionária’, defendeu a aposta no software livre e disse que ‘a internet permite criar espaços de igualdade’.


Para o ministro, ‘os hackers inovam, resolvem problemas e exercitam a organização de cooperação mútua e voluntária’, o que se encaixaria perfeitamente no espírito inicial da internet. Gil, no entanto, advertiu que ‘a revolução tecnológica não pode se justificar por si mesma, ela deve ser refletida no benefício e bem-estar dos povos’.


Ele citou, como exemplo, o programa Um PC para Todos, desenvolvido pelo governo federal para oferecer computadores a preços acessíveis e equipados com software livre. ‘Graças à internet, um índio do Amazonas pode oferecer seus cestos artesanais a compradores do Primeiro Mundo evitando intermediários e conseguindo um preço cem vezes superior ao que recebia antes e, ao mesmo tempo, o comprador consegue descontos enormes.’’


 


IVANDEL GODINHO
Fabiano Rampazzo


Ivandel está morto, diz seqüestrador


‘Com a prisão de Miguel José dos Santos Júnior, o Juninho, a polícia espera esclarecer o seqüestro do jornalista Ivandel Godinho Júnior, feito refém por bandidos em 22 de outubro de 2003. Juninho contou detalhes do crime e disse que, já no terceiro dia de cativeiro, Ivandel foi morto a coronhadas por um comparsa. O fato, contudo, não impediu a quadrilha de prosseguir com a extorsão.


Juninho era o negociador do bando e foi preso sexta-feira, em Itanhaém, sem resistência. Além de confirmar grande parte do que havia sido contado por Fabiano Pavan Prado, Wilson Moraes Silva e pelo menor G.M.S., presos em janeiro de 2005, Juninho apontou novos caminhos e deu detalhes sobre o caso. O delegado Eduardo de Camargo Lima, que cuida do caso desde o início, tentava até a noite, com equipes de busca, achar o corpo.


Outros dois envolvidos no seqüestro continuam foragidos: Wellington Ricardo da Silva, de 26 anos, o Neneco, e Sidnei Correa, de 22, conhecido como Sidnelson. Juninho confessou participar de mais seis seqüestros. ‘Estamos confrontando os depoimentos anteriores com o do Juninho e, com base nisso, direcionando as buscas pelo corpo’, disse o delegado Wagner Giudice, da Divisão Anti-Seqüestro (DAS) do Departamento Estadual de Investigação contra o Crime Organizado (Deic).


Segundo Juninho, Ivandel foi seqüestrado por três homens, em duas motos. O jornalista deixava a sede da empresa que dirigia – a In Press, na Faria Lima – em um táxi. Foi levado pelo bando em uma das motos.


Juninho explicou por que o bando decidiu seqüestrar Ivandel. O bandido havia trabalhado como motoboy na empresa e indicou a vítima aos comparsas. ‘Esses detalhes, sobre a rotina e posses de Ivandel, foram colhidos pelo Juninho quando ele ainda era trabalhador’, explicou Giudice.


Segundo Juninho, já no cativeiro, no Jardim Ângela, zona sul, Ivandel não passou do terceiro dia. ‘Ele tomava medicamentos e precisava deles. No terceiro dia, teve uma crise nervosa, gritou e acabou se envolvendo em uma briga com Turu (Wilson Moraes Silva). Ele era o único dos seqüestradores que estava lá no cativeiro naquele momento’, contou o delegado.


Segundo Giudice, Juninho contou que Turu matou Ivandel a coronhadas, o que o irritou: com Ivandel morto, a extorsão ficaria mais difícil. No início das negociações, os bandidos exigiram R$ 5 milhões. Meses depois, receberam US$ 50 mil.


Giudice explicou que todos os envolvidos no seqüestro apontam Turu como autor das coronhadas que teriam matado o jornalista. ‘Menos ele, que diz que foi outro. Mesmo Turu diz que foram as coronhadas que mataram a vítima, de forma que está clara a maneira como o crime aconteceu.’ O delegado se disse animado com o fim do mistério. ‘Em um ou dois dias, o caso deve estar resolvido.’


PRECIPITAÇÃO


Em janeiro de 2005, a DAS anunciou ter encontrado a ossada de Ivandel no Capão Redondo, zona sul. Dias depois, descobriu que os restos mortais eram de porco e cabrito.


Na época, o filho de Ivandel, Hugo Godinho, de 24 anos, disse repudiar a investigação policial. ‘A polícia foi precipitada, leviana e incompetente. O delegado apareceu na televisão dizendo que os ossos encontrados tinham 99% de chance de serem do meu pai’, disse.


O empresário Ivens Godinho, de 55 anos, mantém esperança de encontrar irmão vivo. Segundo Ivens, a polícia continua ‘perdida’ nas investigações. ‘Conversei com dois acusados. Ambos me disseram que confessaram sob tortura’, acrescentou o empresário.


Ivens ressaltou que ainda não apareceu nenhuma prova do assassinato do irmão: ‘Onde está o corpo? Dizem que foi queimado, mas cadê a arcada dentária e os ossos? As investigações continuam nebulosas.’


O empresário lembrou que outros casos, muitos de repercussão, foram investigados e não esclarecidos. ‘Eu e meus irmãos esperamos que a Polícia Civil acerte o rumo e siga o caminho certo. Nossa família está esperançosa e sente que Ivandel um dia vai aparecer.’


Colaborou Josmar Jozino’


 


CANNES
Luiz Carlos Merten


Ken Loach confirma: o realismo não morreu


‘Pedro Almodóvar estava visivelmente irritado na cerimônia de encerramento do 59.º Festival de Cannes, domingo à noite. Considerado o grande favorito deste ano com seu belo Volver, ele deve ter começado a desconfiar de que não levaria a Palma de Ouro quando sua família de atrizes foi chamada ao palco do Grand Théâtre Lumière para compartilhar o prêmio de interpretação. Teve certeza quando ele próprio foi chamado para receber o prêmio de roteiro. De nada adiantaram as palavras de Penélope Cruz, que o encheu de elogios. Chamou-o de ‘gênio, mestre’, agradecendo muito não apenas pelo que ele fez por elas, suas atrizes, mas pelas mulheres em geral. Pobre Pedro. De favorito, baixou à categoria dos prêmios de consolação. A noite seria de Ken Loach, o último chamado para subir ao palco e justamente para receber a cobiçada Palma, pelo também belo The Wind That Shakes the Barley.


O júri presidido por Wong Kar-wai fez uma escolha política, não exatamente no sentido de chegar a uma premiação consensual – o que ocorreu -, mas no de escolher filmes que expressassem um certo comentário sobre o mundo atual. Não deixou de ser uma escolha um tanto surpreendente, pois Loach não estava entre os favoritos e a fama do presidente do júri, Kar-wai, é de esteta, mais preocupado com o erotismo e a elegância formal do que propriamente com a discussão político-ideológica. Por isso mesmo, havia o temor de que ele se rendesse à pressão de revistas como Cahiers du Cinèma e premiasse Marie Antoinette, de Sofia Coppola, essa sim, a grande perdedora de Cannes em 2006. Era favorita, como Almodóvar, e não ganhou nada. Kar-wai explicou a escolha – ‘Ficamos comovidos com esse filme; nossa decisão foi unânime.’ Devem ter ficado, mesmo, pois The Wind That Shakes the Barley foi o primeiro filme a ser exibido na competição, o que não deixou de ser um recado do júri para o diretor artístico da seleção oficial, Thiérry Frémaux. Se não foi uma perda de tempo assistir a 20 filmes nos dez dias seguintes, foi quase.


Ken Loach já veio 13 vezes a Cannes participando da seleção oficial e de seções paralelas. Ganhou prêmios importantes – o último, em 2002, o de melhor roteiro, por Sweet Sixteen -, mas era sempre esquecido para a Palma de Ouro, mais ou menos o que ocorreu com Almodóvar. Mais tarde, durante a coletiva dos vencedores, Almodóvar, mais calmo, disse que não estava irritado, mas cansado. ‘Chamaram-me às 8 da manhã em Madri para dizer que eu deveria regressar imediatamente. Passei o dia viajando para estar aqui.’ Ele acrescentou que estava muito feliz por sua família de atrizes (Penélope, Carmen Maura, com quem voltou a filmar depois de 17 anos, Lola Dueñas, Blanca Portillo, Yohana Cobo, Chus Lampreave), dizendo que o roteiro que escreveu e filmou nunca estaria completo sem a vida que elas deram às personagens.


Almodóvar pode até ter fingido que estava tudo bem, mas ficou possesso com a esnobada que o júri lhe deu. Fez um comentário ferino – ‘Ser favorito é uma maldição. É a única maneira de não ganhar.’ Ken Loach, em contrapartida, estava surpreso. ‘Confesso que não esperava’, disse e parecia verdade. The Wind pode não ser o melhor filme dele, mas tem as qualidades de estilo e o compromisso humanista que têm feito a glória do cineasta ingles que completa, em junho, 70 anos. A história passa-se na Irlanda, nos anos 1920, mostrando como o combate nos nacionalistas contra os ocupantes britânicos virou um a guerra civil. The Wind That Shakes the Barley é a prova de que o realismo, ao contrário do que muitos afirmam, não está morto no cinema. E Loach, o último esquerdista, avança em relação a Terra e Liberdade, sobre a Guerra Civil na Espanha. Lá, o maniqueísmo era flagrante; aqui, os bons e maus dividem-se entre os que combatem no mesmo lado e até ontem eram irmãos. Loach define o próprio filme como um degrau para a discussão necessária sobre o imperialismo britânico. Ele disse que a discussão sobre a realidade de ontem também os leva (os ingleses) a encarar a realidade de hoje. Embora trate da Irlanda, há 80 anos, o recado é para Tony Blair e seu alinhamento com George W. Bush na Guerra do Iraque.


Com exceção do prêmio do júri para Red Road, da estreante Andréa Arnold, e do grande prêmio para Flandres, limite da exasperação do olhar de Bruno Dumont sobre o que há de bestial na humanidade, os demais prêmios foram bem recebidos. O prêmio de interpretação coletiva para as mulheres de Volver abriu caminho para que o júri também outorgasse um prêmio coletivo de interpretação masculina e ele foi para o elenco de Indigènes, de Rachid Bouchareb (Jamel Debbouze, Samy Nacéri, Roschdy Zem, Sami Bouajil). O filme faz justiça aos pieds noirs, os norte-africanos das antigas colônias (Argélia, Marrocos e Tunísia) que deram a vida para liberar a França, durante a 2.ª Guerra, embora enfrentassem todo tipo de discriminação no racista Exército francês. Finalmente, o prêmio de direção para Alejandro González-Iñarritu, por Babel, legitimou o cineasta mexicano e recompensou outro dos favoritos do público e da crítica. Babel, com suas histórias interligadas e sua crítica à globalização, pode ter fissuras na sua estrutura dramática (e o episódio japonês é particularmente discutível, você vai ver), mas o impacto do filme foi grande. O cineasta disse que recebia seu prêmio como diretor latino-americano no maior festival de cinema do mundo. Falou pouco e falou bem. Cannes talvez tivesse apresentado uma seleção melhor, se a competição se abrisse mais para o cinema da América Latina. Foi, aliás, o que disseram jornais como France Matin, Libération e Le Figaro. Todos acharam o Palmares (a lista dos premiados) meio morno, mas disseram que dificilmente poderia ser melhor.


Prêmios


PALMA DE OURO: The Wind That Shakes the Barley (Le vent se lève), de Ken Loach


GRANDE PRÊMIO: Flandres, de Bruno Dumont


DIREÇÃO: Babel, de Alejandro Gonzalez Iñarritu


ROTEIRO: Volver, de Pedro Almodovar


PRÊMIO DO JÚRI: Red Road, de Andrea Arnold


INTERPRETAÇÃO FEMININA: Penelope Cruz, Carmen Maura, Lola Duenas, Blanca Portillo, Yohanna Cobo, Chus Lampreave, de Volver


INTERPRETAÇÃO MASCULINA: Jamel Debbouze, Samy Naceri, Roschdy Zem, Sami Bouajila, Bernard Blancan, de Indigènes


CURTA-METRAGEM: Sniffer, de Bobbie Peers


CAMÉRA D’OR: A Fost Sau n-a Fost?, de Corneliu Porumboiu


JÚRI ECUMÊNICO: Babel


UN CERTAIN REGARD: Voiture de Luxe, de Wang Chao


QUINZENA DOS REALIZADORES: David Cronenberg


CINÉFONDATION: Ge & Zeta, de Gustavo Riet


FRANCE CULTURE: Alain Cavalier, pelo conjunto da obra


TROPHÉE DU FESTIVAL: Anouk Aimée


LEGIÃO DE HONRA: Sidney Poitier


HOMENAGEM DO ANO: Alejandro Jodorowsky’


 


COBRAS & LAGARTOS
Keila Jimenez


O carma das sete


‘Há mais de um mês no ar, Cobras & Lagartos, trama das 7 da Globo, ainda não conseguiu reerguer a audiência no horário. O ibope da novela anda na casa dos 32 pontos, média abaixo da de sua estréia, 35 pontos, em abril. Corre nos bastidores que grupos de discussão e constantes reuniões com a direção da trama vêm sido feitas na Globo para diagnosticar os ‘problemas’ do folhetim, que pegou a audiência baixa no horário deixada por Bang Bang.


Mas não é preciso muito para perceber que Cobras tem bom argumento, boa dose de comédia – Foguinho (Lázaro Ramos) é um achado – mas patina em algumas coisas. A primeira delas é a escolha dos vilões. Leona (Carolina Dieckmann) e Estevão (Henri Castelli) não convencem na categoria casal do mal.


A trama ainda vem enfrentando no horário Prova de Amor, da Record, que subiu sua média para 20 pontos. Há também a acusação de plágio que pesa sobre o autor, João Emanuel Carneiro, processado por João Moreira Salles por colocar no ar a história de um motoboy. O autor não fala sobre o assunto, a Globo evitar divulgar audiências da trama. Sinal de que a crise existe.’


 


INSPIRAÇÃO
O Estado de S. Paulo


Versão inglesa da Dança dos Famosos


‘Quer saber de onde Faustão tirou a Dança dos Famosos? Estréia na próxima segunda-feira, no canal pago People & Arts a série Dancing with the Stars, às 21h. Na série, dez casais famosos – sempre uma celebridade e um bailarino – ensaiam diferentes ritmos e são julgados no ar. Produzida pela BBC, a série é uma versão americana do formato britânico – pai de todas as atrações e quadros do gênero, Strictly Come Dancing. No SBT, um formato parecido já está em produção. A Dança dos Famosos é responsável pelos picos de audiência do Domingão do Faustão.’


 


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