Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > GOVERNO LULA & FSM

Cristiane Jungblut e Evandro Éboli

08/02/2005 na edição 315

‘Preocupado com as críticas dos movimentos sociais ao governo durante o Fórum Social Mundial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou um grupo de ministros para um jantar na Granja do Torto, anteontem, para fazer uma avaliação da participação do governo no encontro de Porto Alegre. Embora o presidente, que foi vaiado no Fórum, tenha considerado positiva sua passagem pelo evento, a avaliação comum foi que ficou claro que há um distanciamento, de fato, das bases sociais que sempre estiveram no ou ao lado do PT. A estratégia agora do governo e do partido é aprofundar o diálogo com os movimentos sociais e entidades civis.

Convenção em maio com os movimentos sociais

O PT pretende se reaproximar dos setores dissidentes. O presidente do partido, José Genoino, que esteve ontem no Planalto, disse que em maio haverá uma convenção com os petistas que atuam em movimentos sociais.

— Nesse ponto, governo e partido têm o mesmo interesse. Aprofundar o relacionamento com os movimentos sociais. Dialogar e mostrar que taticamente governo e movimento podem atuar de forma diferente, mas que o objetivo final é o mesmo. Em maio, o PT vai fazer uma conferência nacional com os movimentos sociais — disse Genoino.

No jantar, alguns ministros ressaltaram também as críticas de personalidades internacionais à condução e aos rumos do governo petista, como as do escritor português José Saramago. Incomodaram o presidente os ataques sobre a suposta guinada à direita do governo do PT e o fato de até mesmo a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, ter sido criticada por ambientalistas no Fórum Social.

Governo precisa explicar melhor seus programas

Como em outras reuniões, Lula reiterou anteontem que o governo precisa explicar melhor os seus programas, principalmente as ações sociais e os bons resultados que têm sido conquistados. Participaram do jantar, entre outros, os ministros que estiveram no Fórum e os assessores César Alvarez e Marco Aurélio Garcia.

Lula quis saber de cada ministro o que fora apresentado no Fórum e as avaliações. Em conseqüência da reunião, o ministro das Cidades, Olívio Dutra, determinou ontem que cada secretário de sua pasta faça um relatório da participação no Fórum.

Apesar do discurso de que críticas fazem parte da democracia, o governo ficou incomodado com a repercussão das vaias a Lula. Na avaliação do Planalto e dos ministros, os aplausos foram em maior número que as vaias, ‘retratadas de forma exagerada pela imprensa’. O próprio Lula já tinha comentado com assessores que achava que a repercussão fora exagerada.

Ministros avaliam que proteção funcionou

Apesar das vaias, os ministros avaliaram que a proteção em torno do presidente em seu discurso no Fórum funcionou. Além de uma reunião com os organizadores do Fórum na véspera, foi preparada no dia uma claque de apoio ao presidente, com pessoas vestindo camisetas escritas ‘100% Lula’ e gritando palavras de apoio, na tentativa de abafar as vaias.’



Merval Pereira

‘Fantasia x realidade’, copyright O Globo, 4/2/05

‘Com a divulgação de um documento não oficial, mas representativo do pensamento predominante no Fórum Social Mundial, e de diversos artigos e entrevistas de alguns dos seus principais organizadores, fica cada vez mais evidente a distância que separa o hoje presidente Lula de seus antigos companheiros.

Mais ainda, fica clara a necessidade de Lula persistir no intento de fazer uma ponte entre os Fóruns Social e Econômico, que o motivou desde a primeira vez em que compareceu aos dois encontros, assim que foi eleito, numa demonstração de que considera essencial pelo menos tentar equilibrar essa correlação de forças.

Continuo achando uma bobagem a declaração do presidente Lula de que mudou a agenda de Davos, mas já não a considero risível, antes ao contrário. Identifico agora nela não a pretensão de mudar o mundo, mas uma tentativa de convencer seus companheiros de esquerda de que vale a pena tentar influir politicamente na mudança dos rumos do mundo.

Em vez de risível, o esforço de Lula para trazer para o campo da negociação política o radicalismo dos organizadores do Fórum Social Mundial mostra-se quase patético, e não apenas pelas vaias que recebeu. A maneira estereotipada com que alguns dos organizadores do Fórum Social definem os participantes do encontro de Davos, falando em ‘homens de mala preta’ ou de ‘colarinhos brancos prepotentes’, não é apenas infantil ou ultrapassada. São bobagens que impedem reais avanços. Dividir a humanidade entre os ‘homens bons’ que estão todos em Porto Alegre, e os ‘maus’, que se reúnem em Davos, é de um primarismo surpreendente.

A criação do Fórum Social, há cinco anos, em contraposição ao Fórum Econômico, foi uma bela idéia, que deu certo em pouco tempo e ajudou, aí sim, a mudar a agenda puramente econômica de Davos. O passo seguinte foi uma inédita conferência entre representantes dos dois Fóruns, em tempo real, que deveria ter evoluído para um encontro de representantes dos dois grupos. O presidente Lula, recém-eleito, assumiu a tarefa de fazer essa ponte, e até agora tem esbarrado na intransigência do Fórum de Porto Alegre.

Veja-se pontos do documento divulgado após o Fórum Social: alguns assuntos estão na pauta mundial, como o perdão da dívida dos países pobres e a taxação internacional sobre movimentações financeiras, saídas que também foram apoiados no Fórum Econômico por políticos de direita como o presidente da França, Jacques Chirac, e o ministro inglês Gordon Brown.

O presidente Chirac reagiu negativamente quando o presidente Lula fez a primeira proposta, de taxar as vendas internacionais de armas para formar um fundo contra a fome. O G-8, então, nem levou o assunto em consideração. Não era para menos: no final de janeiro, o governo francês enviou ao Parlamento um relatório onde aparece como o terceiro maior exportador mundial de armamentos, atrás apenas dos Estados Unidos e da Inglaterra, e à frente da Rússia e da Alemanha. Esses cinco países, por sinal, dominam 90% do mercado internacional.

Os 10% restantes do mercado são ocupados por outros seis países, entre eles o Brasil. O presidente Lula contemporizou e disse em Davos este ano que qualquer taxa lhe agradaria, desde que criasse um fundo para combater a pobreza, dando margem a que Chirac aderisse à idéia. Mas, como não acreditam que a política seja a arte do possível, os signatários do Documento de Porto Alegre exigiram também o impossível, sem entender que assim fazendo anulam a possibilidade de conseguir vitórias verdadeiras.

O documento pede o fim dos paraísos fiscais, das bases militares estrangeiras, a transferência da ONU para fora dos Estados Unidos, ‘preferencialmente para um país do Sul’, e o fim do livre comércio sob a coordenação da Organização Mundial do Comércio. Já o presidente Lula, pragmaticamente preso à realidade de um governo democrático num mundo globalizado, tem outro tipo de enfoque: leva o governo brasileiro a disputar mais espaços nos organismos internacionais, mesmo que esse possa ser um caminho discutível, como a briga por um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Há quem considere que esse deveria ser um tema prioritário para o governo brasileiro, já que mesmo que ganhe um lugar permanente, o Brasil, como os demais novos integrantes do novo Conselho de Segurança, não teria poder de veto, o que deixaria as coisas no mesmo lugar e nos daria apenas mais chance de desgaste com os Estados Unidos, contra o qual nos opomos historicamente nas votações da ONU.

Também na Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil vem atuando com bastante eficiência, sendo o seu mais festejado feito a criação do G-20, grupo de países em desenvolvimento que, unidos, têm conseguido avanços nas negociações internacionais. Ser contra os organismos multilaterais internacionais como a OMC é ser contra os países pobres, é querer que a ‘lei da selva’ se imponha nas negociações internacionais, com o óbvio resultado de que os mais fracos perderão sempre.

Assim como imaginar ser possível organizar o mundo livre do poder hegemônico dos Estados Unidos é apenas alimentar mais um sonho impossível. Ao contrário, enfrentar essa hegemonia organizando um amplo apoio regional na América do Sul, com o fortalecimento do Mercosul, e tentando que a ‘geografia comercial’ do mundo se altere em favor dos países em desenvolvimento, pode ser também uma fantasia, mas é um sonho possível. Mesmo que, em política internacional, o melhor talvez seja apenas lidar com as realidades.

Como se vê, o presidente Lula, que certa ocasião classificou o Fórum Social Mundial de uma feira ideológica onde qualquer um apresenta qualquer idéia, tinha razão nas suas críticas. O duro é desconfiar que se não tivesse vencido a eleição em 2002, Lula poderia estar entre os signatários desse documento.’



Carlos Heitor Cony

‘Tempo dos gordos’, copyright Folha de S. Paulo, 2/2/05

‘O secretário de imprensa da Presidência da República, Fábio Kerche, mandou-me e-mail retificando notas que li na imprensa sobre o colete à prova de balas que Lula teria usado no Fórum de Porto Alegre.

Diz o secretário que já desmentira a existência e o uso do tal colete -parece que a imprensa não tomou conhecimento do desmentido oficial. Folguei com a notícia, o presidente não merece atentados, embora mereça eventuais vaias por aí.

Incorri no engano não apenas porque fui informado erradamente, mas porque vi pela TV o presidente fazendo um discurso, que me pareceu excelente, tirante os excessivos trechos dedicados ao auto-elogio de seu governo.

Reparei que o presidente usava um blusão que o tornava mais rechonchudo do que o habitual, embora seja voz geral, na Aeronáutica, que recebeu o novo avião, e no próprio Ministério da Saúde, que o presidente deve perder alguns quilos para melhor caber na cama voadora colocada à sua disposição. E, de quebra, motivar a população a evitar a obesidade e a ingestão excessiva de calorias.

Com as recentes garotas de Ipanema, que são gordas e tchecas, mais um presidente também gordo, mas nascido em Garanhuns, podemos dar a impressão ao resto do mundo de que somos um país de obesos, não se justificando as estatísticas oficiais que nos dão como um povo com carência de proteínas, de vitaminas e de sais minerais.

E como poderemos vender ao mundo o Fome Zero com um presidente rotundo e garotas de Ipanema mais gordas que as banhistas de Renoir?

A propósito do avião, acredito que os fabricantes pensavam que o presidente do Brasil fosse o Marco Maciel. Longe de mim insinuar que Lula fique tão esbelto assim. Tal como está, mesmo para aqueles que não gostam de seu governo, ele faz o tipo do brasileiro comum, gente nossa que podemos louvar ou esculhambar e tudo fica na mesma.’



O Globo

‘Discurso e prática’, copyright O Globo, 2/2/05

‘Se o Fórum Social, o encontro mundial das esquerdas e forças contrárias à globalização, contribuiu em algo para seu contraponto de Davos foi no alerta para as desigualdades em escala planetária, particularmente a fome e a miséria extrema. Nesse contexto é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se a grande estrela nos Alpes suíços, em 2003, ao participar pela primeira vez do encontro de Davos.

Lula se propunha a construir uma ponte entre os dois universos. Desta vez, o presidente não repetiu o impacto de há dois anos, por já não ser uma novidade. Mas se manteve firme na pregação por medidas práticas para tornar o mundo justo. Sem entrar na polêmica desimportante sobre a primazia no lançamento dessa agenda, é certo que o combate às mazelas sociais em escala global, tema adotado pela ONU nas Metas do Milênio, converteu-se numa unanimidade no discurso dos líderes políticos de qualquer ideologia.

O grande desafio é como agir, como definir programas eficientes e executá-los de forma competente. Pois as experiências com a ajuda aos países pobres, seja via ONU ou agências multilaterais, são pouco animadoras. Há fartos relatos de como a doação de alimentos e dinheiro costuma esvair-se em esquemas de corrupção nos países beneficiários. Desvios como os do Bolsa Família não são uma peculiaridade brasileira.

A boa intenção, quando se alia à ansiedade, costuma resultar em retumbantes fracassos. A simples remessa de alimentos e dinheiro para regiões miseráveis, uma necessidade imperiosa em situações de emergência, é quase sempre inócua quando transformada em política.

Hoje, numa população mundial de quase 6,5 bilhões de habitantes, duas em cada cinco pessoas vivem na miséria. É preciso de fato agir. Mas tudo indica que, sem prejuízo de um ou outro programa humanitário para casos específicos, a rota mais segura para reduzir os desníveis entre os povos é a liberalização do comércio internacional. Com destaque para a redução dos bilionários subsídios à agricultura do Primeiro Mundo.

Assim, o antídoto mais poderoso contra a miséria está mais nos avanços da diplomacia comercial do que em discursos inflamados em fóruns multinacionais.’

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