Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ENTRE ASPAS > ANATEL

Daniel Rittner

18/01/2005 na edição 312

‘Às voltas com a procura de um nome para assumir o comando da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por uma solução ‘tapa-buraco’: indicou o conselheiro Elifas Chaves Gurgel do Amaral para chefiar interinamente a agência. Ele terá poderes para adotar medidas e assinar atos não só agora, entre a saída de Pedro Jaime Ziller do comando e a nomeação do novo chefe, mas sempre que o presidente da agência se afastar para viagem, férias ou por impedimentos legais.

Um decreto foi publicado ontem no ‘Diário Oficial da União’ designando Gurgel como ‘substituto eventual’ do presidente da Anatel. No mês passado, o conselho diretor da agência já havia aprovado o nome dele para o cargo de vice-presidente, embora o estatuto interno não preveja a existência de tal função. Próximo do ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, Gurgel tem chances razoáveis de assumir definitivamente a presidência. Segundo assessores do Palácio do Planalto, Lula já recebeu alguns nomes como sugestão e analisa as possibilidades. Ele discutiu o assunto com o ministro na semana passada.

Poucos acreditam nas chances de Ziller manter-se no cargo. O mandato dele como presidente, em substituição a Luiz Guilherme Schymura, terminou no fim da semana passada. A Anatel chegou a ficar durante 48 horas sem comando oficialmente.

Gurgel, um dos favoritos na sucessão, é conterrâneo do cearense Eunício Oliveira, de quem foi assessor especial. Entre 2003 e 2004, até a sua nomeação para conselheiro da Anatel em novembro do ano passado, atuou como secretário de serviços de comunicação eletrônica do Ministério das Comunicações. De carreira militar, tem formação como engenheiro da computação.’



SPEAK ENGLISH?
Jamil Chade

‘Jornal suíço ironiza decisão do Itamaraty sobre idiomas’, copyright O Estado de S. Paulo, 15/1/05

‘A decisão do governo de realizar mudanças no processo de admissão do Itamaraty, retirando da prova de inglês o caráter eliminatório, virou notícia no exterior. O jornal Tribune de Genéve, um dos mais antigos da cidade-sede da ONU e da OMC, destacou em artigo ontem a mudança nas regras para a formação de um diplomata no Brasil. ‘O português basta para o diplomata brasileiro’, ironiza o título da matéria.

O jornal explica que o chanceler Celso Amorim teria adotado tal decisão como forma de romper o caráter elitista da carreira diplomática, supostamente para ‘evitar que os embaixadores se reproduzam entre eles, como gatos de luxo’. ‘O Brasil quer democratizar a nobre carreira’, observa o Tribune. Segundo o artigo, depois da retirada do francês como obrigatório na década de 90, é a vez de o inglês mudar de status. ‘O português não poderia servir de esperanto em 2005?’, ironiza.

O artigo ainda lembra que a iniciativa não tem a aprovação unânime no Brasil e cita o ex-chanceler Celso Lafer, para quem a decisão revela ‘visão curta’.’



Elio Gaspari

‘O Itamaraty precisa hablar espanhol’, copyright O Globo, 16/1/05

‘Não se deve confundir o fim da exigência de domínio da língua inglesa para o ingresso na carreira diplomática com um estímulo à formação de um serviço exterior de monoglotas. Uma coisa é um jovem de 20 anos que fala um inglês insuficiente (como o do ministro Antonio Palocci), outra seria um diplomata incapaz de se expressar em inglês. O Brasil teve diversos chanceleres acorrentados ao idoma de Camões. O mais famoso deles foi o ministro Magalhães Pinto, ex-governador de Minas e dono do Banco Nacional. Só falava português e, ainda assim, preferia ouvir calado.

O ministro Celso Amorim deveria pisar mais fundo, determinando aos delegados brasileiros que discursem em espanhol nos foros internacionais, sempre que o português não for uma das línguas oficiais da reunião.

Um chanceler brasileiro já passou pelo constrangimento de ser interpelado por um diplomata mexicano na Nações Unidas, que lhe disse:

‘Amigo, são línguas oficiais da ONU o espanhol, inglês, francês, russo e chinês. Vocês, brasileiros, são latino-americanos e insistem em falar inglês, mas ninguém entende o que vocês dizem’. À época, o embaixador brasileiro na ONU acreditava que tinha sotaque britânico.

A Viúva já sustentou diversos embaixadores brasileiros que falavam mal o português. Um deles, referindo-se ao candidato à Presidência da República que prometia mudar a capital para Brasília, comentou: ‘Acredito que esse senhor Oliveira sairá vitorioso’. (Era Juscelino Kubitschek de Oliveira.).’



Eliane Cantanhêde

‘Só inglês pra ver’, copyright Folha de S. Paulo, 16/1/05

‘O inglês deve ou não ser eliminatório nas provas do Instituto Rio Branco? That´s the question.

Queiramos ou não, chiem as ONGs ou não, o fato é que o mundo está cada vez mais globalizado, e a língua global é o inglês. Daí que parece elementar, meu caro Watson, que diplomatas do Brasil, do Japão, de Moçambique e da Cochinchina falem fluentemente o inglês.

Não é porque o presidente da República, o vice-presidente da República e o presidente da Câmara (terceiro na linha sucessória) não têm curso superior que passou a ser o maior barato não ter diploma.

Não é porque metade do governo tem viés ideológico antiamericano que os EUA deixaram de ser o maior parceiro comercial do Brasil.

E não é porque 90% dos petistas não sabem dizer ‘Hello!’ que o inglês caiu de moda e se pode fazer diplomacia falando português.

Nem Celso Amorim consegue. No máximo, discursa em espanhol e dá entrevista em francês em plena Nova York, o que serve para uma coisa: puxa, o chanceler é poliglota!

A discussão sobre democratizar o acesso à carreira diplomática é válida, relevante, até porque os resultados das provas do Rio Branco parecem obedecer ‘cotas’.

A primeira é para filhos, netos e aparentados de diplomatas, especialmente de embaixadores; a segunda é para oficiais de chancelaria e funcionários que desejam entrar na carreira; o resto é o resto. Sempre há vagas para os mais brilhantes. Os que são ‘tão brilhantes quanto’, mas sem sobrenome, sobram.

O Itamaraty diz que transformar o inglês em classificatório, não sendo mais eliminatório, é para ‘deselitizar’ o acesso, pois um ás em direito, geografia e história que não teve oportunidade de morar fora do país pode depois, no curso, aperfeiçoar o inglês.

A idéia de ‘deselitizar’ é simpática, mas será que quem sonha em ser diplomata pode ser um ás nas outras matérias e medíocre em inglês? Ou será que a mudança tem alvo dirigido? Resta saber por que, para que e, muito especialmente, para quem.’



Celso Ming

‘Inglês para principiantes’, copyright O Estado de S. Paulo, 18/1/05

‘Os jornais e as revistas semanais mostram a preocupação da opinião pública com a decisão do Itamaraty de não mais considerar a língua inglesa como matéria eliminatória no vestibular do Instituto Rio Branco, a escola que prepara os diplomatas.

É como dispensar brevê para candidato a piloto de Boeing. Um diplomata tem de defender os interesses do País no exterior. E se há um idioma que tem de dominar é o inglês, que, gostemos ou não, é o mais falado e compreendido no mundo. Mas – monkeys shall bite me! – o grupo que dá as cartas no Itamaraty entendeu que dominar o inglês não é essencial para quem representará o País no exterior. Ao contrário, passou o recado de que exigir uma coisa dessas concorre para elitizar o acesso à carreira.

O mais grave não é a decisão em si mesma, mas o que está por trás dela. E o que está por trás é um antiamericanismo primário, como se os Estados Unidos fossem o território do diabo, a ser enfrentado com água benta e soberania lingüística que implique certo grau de desdém pela língua de Shakespeare.

O problema é que essa postura dos cartolas do Itamaraty, que não é compartilhada pela corporação, permeia toda a política externa do Brasil. É a postura dos que vinham proclamando que a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) é um projeto de anexação do Brasil e do resto da América Latina aos Estados Unidos; dos que boicotam as negociações comerciais com a União Européia, como ocorreu no ano passado, porque os países ricos da Europa têm de ter uma resposta à altura; que aceitam um desaforo após o outro da Argentina, só porque o governo Lula pretende liderar a América do Sul e não quer ficar mal com eles.

Essa afirmação patriota sobre a língua inglesa é parte, também, da armação que dá prioridade a um esquema que deve garantir a liderança do Brasil sobre o maior número possível de países pobres para, assim, supostamente enfrentar o imperialismo dos ricos. Está relacionada com essa mentalidade a decisão de despachar tropas para o Haiti, sem antes saber o que fazer e quanto tempo por lá permanecer. E é a que vem passando para os diplomatas como lição de casa o fichamento de meia dúzia de livros de conteúdo nacionalista. Esse espírito revela mais complexo de inferioridade do que identificação com os interesses nacionais.

A próxima jogada consiste em montar um esquema que institucionalize barreiras no Mercosul, como reivindicadas pela Argentina. Uma delegação chefiada pelo vice-chanceler Samuel Pinheiro Guimarães teve dia 10, em Buenos Aires, uma reunião sigilosa destinada a preparar o encontro marcado para o dia 25 de janeiro, no Rio, que tem em sua pauta a tomada de decisões sobre a adoção de salvaguardas dentro do Mercosul.

Dessa reunião foram alijadas autoridades do governo brasileiro ligadas aos mecanismos de solução de controvérsias que se têm notabilizado por argumentar que há limites para as imposições argentinas. O coordenador da Comissão de Monitoramento Bilateral, Márcio Fortes, não foi avisado dessa reunião. O ministro do Desenvolvimento, Luiz Furlan, responsável pela área de Comércio Exterior, só tomou conhecimento do que ocorria após os jornais de Buenos Aires noticiarem o encontro. Em compensação, à equipe do Brasil foram incorporados representantes da Casa Civil.

Agora se sabe que, a despeito da decisão do presidente Lula de vetar a criação de salvaguardas no Mercosul como exige a Argentina, o Itamaraty trabalha agora para institucionalizar mecanismos que erguerão barreiras mais ou menos automáticas todas as vezes que os argentinos não gostarem do volume de produtos brasileiros que fluírem para seu mercado.

Para essa gente, defender o cumprimento dos tratados do Mercosul é tão nocivo quanto exigir domínio do inglês no vestibular do Instituto Rio Branco. That´s why, Sam, the cow goes to the swamp.’

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