Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > FRANÇA / LEI DO VÉU

Deborah Berlinck

07/09/2004 na edição 293

‘Oito horas da manhã. Duas meninas com lenço na cabeça se aproximam da Escola Jacques Brel, no bairro de La Courneve, na periferia de Paris. Dezenas de alunos esperavam na calçada o portão se abrir. As duas são imediatamente cercadas por uma equipe de TV, algumas rádios e toda a parafernália de equipamentos.

– Você acha que vai conseguir entrar assim? O que você acha dessa lei? – perguntou uma jornalista britânica, com o microfone em punho, pedindo que respondesse em inglês.

Parecia a personagem ideal. No ano passado, a escola tinha 52 alunas que usavam o véu islâmico e foi palco de muita discussão. Mas já passava das 8h, os portões iam ser abertos e não havia véu islâmico à vista.

– Não acho que seja uma boa lei, porque é intolerante. Não é porque você usa isso (ela apontou para o lenço) que é mau – esforçava-se a menina, num inglês enrolado.

Logo depois, sentindo a confusão, Samantha Ntoya, de 16 anos, que não era muçulmana, mas uma cristã do Zaire, mudou para o francês e disse:

– Espera aí. Isso aqui não é véu islâmico! Só botei isso hoje porque não arrumei o cabelo.

A volta às aulas de milhões de estudantes na França ontem virou um circo midiático. E, na caça às bruxas, todo mundo encenou um papel. Uma professora entrou na sala e tirou uma cruz do pescoço. Alguns alunos tiraram até bonés. Com dois jornalistas franceses ameaçados de execução no Iraque, por extremistas inconformados com a nova lei que proíbe o uso de véu islâmico nas escolas, os alunos foram recebidos na porta da escola por um batalhão de repórteres do mundo inteiro.

Adotada em março, a lei proíbe o uso de símbolos religiosos ostensivos em escolas, entre eles o solidéu judaico e grandes cruzes católicas. Mas muçulmanos engoliram mal a lei. Para eles, o alvo é óbvio. Grupos islâmicos e educadores passaram meses se preparando para um confronto. Mas com a crise dos reféns, muitos estamparam um sorriso e empurraram o problema para mais tarde, atendendo ao apelo de autoridades laicas e muçulmanas. A ordem era: não barrar meninas com véus na porta – embora’



O Estado de S. Paulo

‘Contrariadas, jovens acatam ‘Lei do Véu’’, copyright O Estado de S. Paulo, 3/09/04

‘Sem o registro de incidentes graves, entrou em vigor ontem nas escolas públicas francesas a ‘Lei do Véu’, que proíbe a ostentação de símbolos religiosos pelos estudantes – cristãos, judeus e muçulmanos. Mas era visível a contrariedade no rosto das alunas muçulmanas – as grandes atingidas pela legislação.

Pelas leis do Alcorão, elas devem cobrir a cabeça quando se expõem em público. Muitas jovens só retiraram os véus quando entraram na escola.

‘Para as muçulmanas, isso equivale a tirar a roupa’, comentou Myriam Banaluche, de 15 anos.

‘Há um montão da garotas que não sabe como será seu futuro’, disse Sofia Rahem, universitária de 23 anos, referindo-se a colegas que não querem ou são impedidas pela família de andar com a cabeça descoberta.

‘Eu me sentia ameaçada, constrangida e, dessa forma, decidi andar sem véu’, confessou Nadia Arabi, 16, dando a entender que até concordara com a proibição.

‘O imã me disse que tirar o véu não é um mal’, ressaltou Linda Atlas, 16.

‘Ele me aconselhou a cumprir a lei.’

Na cidade de Estrasburgo, duas meninas se recusaram a descobrir a cabeça.

Foram impedidas de entrar na escola. Mas não serão expulsas. A lei é flexível e propõe muita negociação antes da adoção de providências drásticas. Os pais delas foram convocados para uma conversa.

O ministro da Educação, François Fillon, fez uma avaliação positiva do primeiro dia de vigência da lei, aprovada em março. ‘Vamos esclarecer a situação: estamos diante de uma ameaça à nossa coesão nacional’, disse, tentando justificar a proibição.

Uma forma de contornar o problema, segundo especialistas, seria o uso de bandanas discretas. Se houver restrições contra esse recurso, a União das Organizações Islâmicas da França promete levar a questão a uma corte internacional de justiça.

A família de Fátima Chafi, de 18 anos, encontrou uma solução que, aparentemente, não poderá ser contestada: comprou uma peruca de cabelos castanhos na Turquia para a estudante. ‘Pôr peruca é psicologicamente duro. Mas vou ter de me acostumar’, comentou Fátima, resignada. (AP e AFP)’



Folha de S. Paulo

‘O véu da crise’, Editorial, copyright Folha de S. Paulo, 3/09/04

‘Começou a vigorar ontem a lei que bane o uso de símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas da França. A medida, concebida para impedir jovens muçulmanas de usar o véu, é tão polêmica que teve sua estréia marcada por uma crise internacional. Dois jornalistas franceses que se encontravam no Iraque foram seqüestrados por radicais islâmicos que exigiram a revogação da lei para libertá-los com vida.

A França, acertadamente, negou-se até a discutir a possibilidade de voltar atrás na aplicação do dispositivo legal, mas fez um grande esforço diplomático para obter a soltura dos repórteres. Seria de fato um precedente perigoso se Paris tivesse cedido, dando a terroristas a sensação de que está a seu alcance derrubar leis nacionais através da chantagem.

Se a França acertou ao não retroceder, o mesmo não se pode dizer em relação ao teor da nova lei. Os objetivos do governo são, como com quase toda proposta equivocada, louváveis. A meta é integrar todos os cidadãos franceses, muçulmanos e não-muçulmanos, ao secularismo laico e republicano. A pergunta que se coloca é se o remédio escolhido para fazê-lo é o mais adequado.

Mesmo considerando plausível a hipótese de que muitas alunas muçulmanas francesas só usem o véu por imposição familiar, parece precipitado afirmar que esse adereço esteja totalmente desprovido de valor cultural. Enfim, não é impossível que muitas alunas desejem vesti-lo e se identifiquem positivamente com suas origens islâmicas.

Com efeito, a proibição pura e simples de símbolos religiosos é uma violência grande demais contra alunos que tenham feito opção por alguma fé. A medida também reflete uma visão discutível de democracia, na qual a tolerância e o respeito à diversidade ficam diminuídos.

A escola pública deve ser laica, e a integração secular é um valor a perseguir. Só que essas metas não podem ser buscadas à custa da mais elementar liberdade individual, que é a de possuir uma individualidade e exprimi-la de forma pacífica.’



BRASIL NA FRANÇA
Gilles Lapouge

‘Atriz brasileira é recordista de audiência na França’, copyright O Estado de S. Paulo, 4/09/04

‘Francis Huster e Cristiana Reali formam um casal de atores admirável tanto por seu talento como por sua fidelidade e seu trabalho em comum. Nesse verão, no entanto, eles estão separados: Francis ocupa as noites do TF1 (o canal de televisão privada), enquanto Cristiana ilumina a novela do canal público, o Antenne 2, Le Miroir de L’Eau (O Espelho d’Água).

A separação momentânea trouxe sucesso a eles e também à televisão: na TF1, com Zodiaque (um ‘policial’ em torno da máfia de Marselha), Huster conquista 50% da audiência. Cristiana, pela Antenne 2, não fica atrás: em agosto, a minissérie de quatro episódios (estrelada por Cristiana e Line Renaud) derrubou os recordes do canal: 40% de audiência. Trata-se de uma história patética, ocorrida sob as luzes cintilantes da Provance, envolvendo alguns tenebrosos segredos família que estão enterrados e exumados, e de episódios paranormais que não fariam vergonha a uma telenovela brasileira.

O Parisien Libéré celebrou demoradamente o sucesso com o título: ‘O espelho, um sucesso histórico’. O jornal observa: ‘O espelho atraiu, com seu quarto episódio, 9,3 milhões de espectadores, algo jamais visto em onze anos em uma novela de verão neste canal. Os quatro capítulos foram acompanhados por pelo menos 8,5 milhões de fãs. O canal France2 conquistou, assim, sua segunda melhor audiência do ano, atrás da Eurocopa. A concorrência resignou-se, sem combater. A série Navarro, com Roger Hanin, não atraiu mais que 22% da audiência. E um filme com Lino Ventura, pela France2, não passou de 2%’.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > DROGAS

Deborah Berlinck

Por lgarcia em 08/08/2001 na edição 133

DROGAS

"Europa reavalia política contra drogas leves", copyright O Globo, 5/8/01

"Mais do que nunca, a maconha e o haxixe estão em alta na Holanda. E essa alta se reflete no aumento dos cafés que vendem drogas: já são 800 espalhados por todo o país, quando se contava nos dedos os bares desse tipo em Amsterdã no início dos anos 80. Só a Holanda ousou desafiar de forma tão aberta os adeptos da repressão total às drogas.

Mas o aumento da demanda num país que há mais de duas décadas tolera o consumo das chamadas ?drogas leves? ? com apenas 330 mil usuários regulares numa população de 16 milhões de pessoas ? nem de longe atesta um fracasso da política, diz Tom Kramer, chefe da Unidade de Drogas e Assuntos Internacionais do Ministério da Saúde holandês.

O consumo de drogas ilícitas, na verdade, está em alta em quase todos os países da Europa desde o fim dos anos 80.

? Hoje reina entre os jovens o hedonismo. Eles buscam o prazer pleno. Não há lei que controle isso ? diz Richard Müller, diretor do Instituto Suíço de Prevenção contra o Alcoolismo e outras Toxicomanias.

O paulista José Bertolote, da Divisão de Saúde Mental e Toxicomanias, da Organização Mundial de Saúde (OMS), diz que não há dúvidas sobre os malefícios das drogas, seja maconha ou cocaína. Mas uma política centrada apenas na repressão, para ele, é um erro:

? Experiências centradas na repressão isoladamente não deram bom resultado. Do ponto de vista da saúde pública, a questão é prevenção, e não repressão ? acredita Bertolote.

Essa constatação levou Portugal a dar uma virada em sua política. Depois de um boom no consumo de heroína injetável nos anos 80, o país se viu com um dos maiores números de portadores do vírus HIV por uso de drogas: 15 mil. O consumo de drogas leves ou pesadas continua proibido, mas desde o dia 1 de julho deixou de ser punido com a prisão.

Quem for apanhado usando maconha ou heroína não é mais levado a um Tribunal de Justiça, mas a uma comissão especial, composta por um jurista e dois profissionais de saúde (médicos, psicólogos), que tem como principal objetivo o tratamento ou a prevenção.

A medida revela uma tendência na Europa. Itália e Espanha também descriminaram o consumo de drogas e, na semana passada, a medida ganhou a defesa da mais importante revista européia, a britânica ?The Economist?, que publicou um amplo estudo sobre o tema. Na Suíça, metade dos viciados em heroína recebe a droga do governo, como parte do tratamento. O governo suíço gasta US$ 650 milhões por ano só com o problema: 50% em repressão e o restante em prevenção, tratamento e pesquisa. Há ainda um projeto tramitando no Parlamento que prevê a descriminação de maconha e haxixe.

Uma grande pesquisa feita em 1999 entre alunos de nível médio, de 16 anos, em 30 países da Europa e nos EUA, confirmou a tendência do aumento do consumo de drogas. Inglaterra, República Tcheca e Irlanda encabeçam a lista na Europa.

Mas nenhum país europeu chega perto dos índices de consumo entre os estudantes dos EUA, curiosamente um dos países que pregam a mais forte repressão. A proporção de estudantes que revelaram já ter fumado maconha foi de 41%, contra 35% em França e Inglaterra. Quando se fala em drogas mais pesadas, a diferença é ainda mais gritante: 24% nos EUA contra 12% na Inglaterra, o país europeu com maior percentagem.

Segundo a ONU, os americanos gastam US$ 60 bilhões por ano na compra de drogas, especialmente maconha, cocaína e heroína. E mesmo com os cafés onde vendem drogas, os holandeses consomem menos maconha que os americanos.

Na Suíça, país que investe na prevenção e tratamento, o consumo também está em alta. A proporção de estudantes que consumiram maconha pelo menos uma vez na vida é de um para cada cinco jovens. Estudos na Holanda e na Suíça mostram que o tipo de política quase não tem peso na decisão dos que optam pelo uso de drogas.

? Achamos que o uso de drogas é muito mais influenciado pela moda na cultura jovem. É um fenômeno internacional ? diz o holandês Kramer.

Por que, então, os Estados Unidos insistem na forte repressão ao consumo? Porque a política da droga é ilógica, segundo Richard Müller.

? Vinte por cento são ciência. O restante é ideologia e valores. E a ideologia e os valores são o que contam.


Drogas legalizadas

Suíça: O governo gasta cerca de US$ 650 milhões com a política de drogas ? 50% com a repressão e o restante com tratamento de viciados, prevenção e pesquisas. O estado distribui heroína ou seu substituto (metadona) aos viciados incuráveis. Em 1999, 16 mil dos 30 mil viciados em heroína e outras drogas pesadas estavam recebendo metadona com acompanhamento médico. O número de mortes causadas por drogas caiu. Em 1990, 280 pessoas morreram. Em 1999, os mortos foram 181.


Portugal: Consumir drogas leves ou pesadas não é mais crime, mas existem quantidades máximas estipuladas pelo governo. O país estuda distribuir heroína para os viciados.


Holanda: Tem 800 cafés que vendem drogas com autorização do governo. O consumidor pode escolher o grau de THC, princípio ativo da maconha.

"Não dá mais para ignorar", copyright O Globo, 5/8/01

"Um dos mais conhecidos defensores da descriminação da maconha, o deputado trabalhista Paul Flynn, acredita que a tendência britânica é legalizar todas as drogas.

O último relatório de Keith Hellawell (czar antidrogas da Grã-Bretanha) recomenda ao Governo a não descriminação da maconha. O senhor concorda?


Paul Flynn ? Essa conclusão justifica o fracasso de uma política ineficiente de combate às drogas. Não por outro motivo o czar está deixando o cargo. Trata-se de um relatório irresponsável, que põe em risco a vida de milhares de pessoas. Há gente morrendo nas ruas por consumir droga contaminada, há outras tantas sendo corrompidas na prisão por traficantes inescrupulosos, e mais uma grande parcela da população, sofrendo de doenças terminais, que não tem acesso às drogas, como a maconha, para uso medicinal. Nossas pesquisas mostram que 45% dos britânicos, em idades variando entre 16 e 34 anos, defendem a legalização da maconha. Os 43% que a condenam pertencem a uma faixa etária mais velha.

O senhor quer a legalização de todas as drogas?


Paul Flynn ? Em um primeiro estágio, defendo a descriminação da maconha. Na Holanda, o consumo da droga, principalmente entre jovens, foi reduzido a níveis surpreendentes. Num segundo estágio, partiríamos para a legalização de todas as drogas. Isso terá um efeito menos nocivo do que a atual proibição. Álcool e nicotina não são altamente nocivos? Por que o governo não estende a legalização a outras substâncias que causam dependência? Seria um duro golpe no tráfico. Existem enormes riscos ao cidadão envolvendo o plantio, transporte e venda das drogas pelos traficantes. Com a legalização, os preços vão cair, e só então elas estarão disponíveis para o tratamento de doenças terminais. Os maiores prejudicados com a proibição são os países mais pobres e produtores das drogas, como Colômbia, México e Jamaica, onde o tráfico financia e corrompe a polícia e o sistema político.

Se o programa experimental em Brixton (por determinado período, quem for pego fumando maconha não será preso) for bem-sucedido, a tendência britânica será pela legalização?


Paul Flynn: Acho que sim. Aqui 40% dos jovens adultos já experimentaram maconha. Entre a população mais velha, 25% já fumaram a droga. Não dá mais para ignorar essa realidade."

    
    
                     
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