Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

ENTRE ASPAS > LÍNGUA PORTUGUESA

Deonísio da Silva

10/08/2004 na edição 289

‘Semana passada, em discurso escrito provavelmente por assessores, o presidente Lula citou Ulysses Guimarães, Fernando Pessoa, Chico Buarque e Caetano Veloso. Lembrou a liderança que o célebre político empreendeu na resistência à ditadura militar.

Alguns mistérios e muitas imprecisões envolvem a biografia do deputado que, presidente da Câmara, promulgou a Constituição de 1988 – e também avalizou, muitos anos antes, em Rio Claro, no interior de São Paulo, o primeiro contrato de Didi, o inventor da folha-seca.

Os generais pontificaram na presidência da República de 1964 a 1985. Para suceder a Médici, em 1973, o sistema tinha indicado Ernesto Geisel. Em setembro daquele ano, surpreendendo a todos, Ulysses Guimarães lançou-se anticandidato.

Na ocasião, disse no discurso: ‘Senhores Convencionais, a caravela vai partir. As velas estão pandas de sonho, aladas de esperança. O ideal está no leme e o desconhecido se desata à frente. No cais alvoroçado, nossos opositores, como o Velho do Restelo de todas as epopéias, com sua voz de Cassandra e seu olhar derrotista, sussurram as excelências do imobilismo e invencibilidade do estabilishment. Conjuram que é hora de fiar e não de se aventurar. Mas no episódio, nossa carta de marear não é de Camões e sim de Fernando Pessoa ao recordar o brado navegar é preciso, viver não é preciso. Posto hoje no alto da gávea, espero em Deus que em breve possa gritar ao povo brasileiro: alvíssaras, meu capitão, terra à vista! Sem sombra, medo e pesadelo, à vista a terra limpa e abençoada da liberdade.’

As frases citadas, freqüentemente atribuídas a Caetano Veloso, pelos que somente ouvem, e a Fernando Pessoa, pelos que lêem um pouco, não são de nenhum dos dois. Os redatores do discurso do presidente aumentaram a confusão: ‘Talvez sejam do Chico’.

A autoria não cabe, porém, a nenhum dos três. Quem as tornou famosas foi o general romano Pompeu, persuadindo marinheiros a zarpar com os navios carregados de alimentos, mesmo em meio a uma tempestade, porque havia muita fome em Roma.

O circo não seria suficiente para conter rebeliões, se faltasse o pão. Pompeu as pronunciou num latim desjeitoso, segundo nos informa Plutarco: ‘Navigare necesse est, vivere non necesse est’, mas as frases, depois transformadas em versos, já existiam também em grego. Em resumo, ao tempo de Pompeu já tinham caído em domínio público.

Ulysses Guimarães adorava fazer citações. Outra de suas frases preferidas foi retirada de uma fábula do escritor francês Jean de la Fontaine: ‘Quem vai pôr o guizo no pesco do gato?’ Ele presidia a Câmara dos Deputados quando estava sendo redigida a atual Constituição. A cada vez que os parlamentares decidiam algo difícil de executar, fazia a pergunta.

De acordo com a fábula, os ratos resolvem em assembléia pôr um guizo no pescoço do gato, o eterno inimigo. Assim, eles perceberiam a tempo sua aproximação e fugiriam a cada ataque. Um rato velho, calado durante todo o tempo, endossou o plano, mas fez a pergunta que se tornou famosa, dando conta de que entre as palavras e as ações há uma certa distância, às vezes intransponível.

Mas a bom entendedor meia palavra basta. Dando conta de que poucas palavras são suficientes para um bom entendimento, a expressão está coberta de sutilezas. Um de seus registros, mas com a variante ‘a buen entendedor, breve hablador’, foi feito por Cervantes no Dom Quixote.

Outras frases asseguram que o silêncio é de ouro e a palavra é de prata. O povo resume de modo mais simples: em boca fechada não entra mosca.

Em 1992, em companhia de várias outras personalidades, Ulysses desapareceu no mar, depois de desastre de helicóptero. Todos os corpos foram encontrados, menos o dele.’



JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

‘Bassin de natation’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 5/08/04

‘Profissional bem informado e de bom gosto, o considerado leitor Fernando de Barros Rodrigues Perez, diretor de marketing da Silicon Networks, examinava a Folha Online quando deparou com esta jóia de sinceridade jornalística:

03/07/2004 – 11h21

Erramos: Paris terá ‘piscinão’ durante quatro semanas

Diferentemente do publicado em ‘Paris terá ‘piscinão’ durante quatro semanas’ (Mundo – 02/07/2004 – 16h43), a profundidade da piscina é de 1,2 metro, e não 1.200 metros.

Fernando, que desde a leitura do jornal de segunda-feira estava temeroso de, nas próximas férias, mergulhar nesse abissal Piscinon de Rameaux, como Janistraquis chama a praia artificial dos parisienses, suspirou:

‘Ainda bem! Não é por nada, mas 1.200 metros de profundidade a gente não encontra com facilidade nem nos poços de petróleo da Bacia de Campos…’

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Elogio é isso!

Sob o título Morre o fotógrafo Henri Cartier-Bresson, o site do Estadão publicou nesta quarta-feira, 4/8, matéria cuja abertura é a seguinte:

Paris – O fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson, um dos mais importantes mestres da fotografia do século 20, um dos pais do fotojornalismo, que capturou imagens dos dramas humanos durante meio século. Fundou com Robert Capa a famigerada agência cooperativa de fotos Magnum, em 1947.

‘Famigerada? Alguém errou na tradução… Pobre Cartier-Bresson.’

A contribuição à coluna e o protesto são de Antonio Marcello, jornalista, há 18 anos em Brasília ‘sem nunca ter trabalhado no serviço público’.

Janistraquis acha, ó resistente Marcello, que para ficar ‘tudo combinandinho’ o Estadão deveria ter se referido ao genial fotógrafo como ‘tristemente famoso’.

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O melhor jornalismo

Nosso considerado Luiz Maklouf de Carvalho, um dos maiores repórteres do Brasil, informa:

Segue link atualizado da Biblioteca Virtual do Livro-Reportagem, já com quase 500 livros, no site Profissão:repórter.

Esta coluna recomenda a inclusão do endereço entre os nossos favoritos. Trata-se de leitura mais do que obrigatória para os antenados no melhor jornalismo.

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Gratuíííto sai caro

Janistraquis via o agora excelente Jornal da Band, com Carlos Nascimento e Joelmir Beting, quando o repórter que improvisava matéria sobre o debate dos candidatos à prefeitura de São Paulo se referiu ao ‘horário gratuííííto’.

Meu secretário, sabem os leitores, já pediu ao Mestre Roldão Simas Filho inscrição entre os que perderam definitivamente a paciência; então, trocou de canal e ampliou a voz nalguns decibéis:

‘Considerado, não é possível que Nascimento e Joelmir escutem tal barbaridade e não tomem nenhuma providência!!!’

É mesmo. Somente o paternalismo faz ouvidos moucos a tamanha barbaridade. E olhem que esta se multiplica pelas emissoras afora, como se fosse o fluííííído de freio da Varga.

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Comendo mosca

Amigo desta coluna infiltrado no Palácio do Planalto jura que o link abaixo é o mais acionado pelo Presidente da República; é que Sua Excelência e principais auxiliares precisam de ação para resolver os problemas deste país já farto de comer mosca!

Cliquem AQUI, considerados leitores, e conheçam a fonte do desempenho presidencial, pois toda a Nação precisa se manter atenta aos propósitos do, com licença da expressão, Primeiro Mandatário.

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‘Gianistrachis’

Giulio Sanmartini, nosso correspondente internacional baseado em Belluno, Itália, nos fala sobre uma coluna publicada no Corriere della Sera, de Milão, e intitulada Esame – Giornalismo. É assinada por Giulio Nascimbeni, que o outro Giulio, o Sarmartini, chama de ‘nostro Gianistrachis’:

Esta semana, Nascimbeni traz duas pérolas, uma publicada na Venerdi, revista encartada nas edições de sexta-feira do jornal La Repubblica, na qual um artigo ignora solenemente Harriet Beecher Stowe e atribui a autoria de A Cabana do Pai Tomás a Mark Twain. A outra besteira, nosso Gianistrachis ouviu numa emissora de rádio, segundo a qual a invenção da penicilina se deve a Ian Fleming; conclui-se, portanto, que Sir Alexander Fleming seja o verdadeiro criador de James Bond, o popular Agente 007.

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Bom ou ruim?

Deu na coluna do considerado Ancelmo Gois:

O palhaço, o que é?

O ministro Gilberto Gil vai dar R$ 1 milhão para revigorar o circo no Brasil. Muito legal.

Ancelmo, vê-se, aplaude a decisão ministerial; Janistraquis leu, releu, de vez em quando ainda dá uma olhadinha e até agora não sabe se a notícia é boa ou ruim.

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Nova regência

Celsinho Neto, esperto (no bom sentido) e considerado diretor de nossa sucursal no Ceará, telegrafou diretamente da rede armada na Praça do Ferreira:

‘Ou estou enganado ou a negada do jornal O Povo está criando nova regência verbal. Vejam este título: Falta informações. Não seria Faltam informações???

‘Seriam, Celsinho, seriam!!!’, grita lá de dentro Janistraquis, tão atrapalhado que anda a confundir vassoura de bruxa com tesoura de vento…

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Caju e castanha

Deu na coluna do considerado Arnaldo Jabor:

‘(…) Por isso, vendo o discurso de Kerry outro dia na convenção democrata, fiquei emocionado. Com sua cara de caju, Kerry estava até bonito, realmente indignado, realmente motivado a tirar a América desse abismo de burrice e conformismo (…)’

Janistraquis, que quando menino vivia a assaltar os cajueiros da estrada João Pessoa-Cabedelo, lembra ao Jabor que caju é o conjunto formado pelo pedúnculo mais a castanha — e o senador tem mesmo é cara de castanha.

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Chuva da pomba!

Implacável diretor de nossa sucursal no Planalto, de cujo janelão flagra-se a careca de Henrique Meirelles a emitir sinais de fumaça, o considerado Roldão Simas Filho lia o caderno Cidades, do Correio Braziliense, quando escorregou neste traiçoeiro textinho, ensopado sob o título A maior chuva do ano:

‘De acordo com informações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) choveu 41,2 mm de água (sic) por metro cúbico.’

Roldão já não sabia se estava diante de uma vassoura de bruxa ou uma tesoura de vento: ‘Claro que só pode ter chovido água. Do contrário teria sido uma catástrofe! E a unidade mm/metro cúbico também soa muito estranha. Não será por metro quadrado?’

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Nota dez

O mais instigante texto da semana nasceu da implacável acuidade de Augusto Nunes, grande mestre na ciência de desvendar enigmas; leiam o enunciado e acessem o link do site No Mínimo para acompanhar o ‘drama goiano’.

O banco pode exigir a orelha

Para os apreciadores do gênero, Zezé di Camargo e Luciano formam uma boa dupla sertaneja, das melhores do país(…) Estão cada vez mais ricos. Só enriquece no Brasil quem sabe ser duro na queda, e isso pelo menos Zezé di Camargo, desde sempre chefe da dupla, isso Zezé aprendeu. Essa faceta foi escancarada entre 16 de dezembro de 1998 e 21 de março de 1999, enquanto durou o seqüestro do irmão caçula Wellington José Camargo. Deficiente físico, com problemas de alcoolismo, autor de composições medíocres, Wellington vivia com a mulher num subúrbio de Goiânia quando foi capturado por um grupo de encapuzados. Os capítulos seguintes, desdobrados por 94 dias, incluiriam momentos brutais. E a penosa exposição das fotografias das almas.

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Errei, sim!

‘ATÉ CHAFURDA – A revista Globo Rural apresenta matéria de capa: Sangue azul na pocilga. Meu secretário balançou a cabeça: ‘Considerado, que sina essa da princesa Diana, hein? Virar assunto na Globo Rural…’. Era pura manifestação de cinismo de Janistraquis, porém encerra preciosa lição: não se deve ler apenas os títulos das matérias; bem informado é aquele que esmiuça o texto, escava, disseca e, se for o caso, até chafurda.’ (dezembro de 1996)’



JORNALISMO CULTURAL
Ana Maria Bahiana

‘Balanço da (falta de) bossa’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 3/08/04

‘Não me ligo mesmo em calendário gregoriano, então por que não fazer um balanço de meio-ano agora? Em agosto? Considerando que, na realidade, o ‘ano’ só começa na semana depois do carnaval, não estaríamos tão longe assim dos parâmetros ‘normais’.

De todo modo o balanço não será/seria muito extenso – a situação do jornalismo cultural do Brasil continua basicamente a mesma, ou seja, não muito boa.

Isto seria menos deplorável se 1. num passado não muito distante o Brasil já não tivesse conhecido e praticado o melhor do gênero; e 2. o fenómeno fosse, de fato, uma tendencia mundial. Mas não é. Em que pese a epidemia de celebridades e mini-celebridades, as ‘contenções de despesa’ e as revoadas globais de passaralhos, ainda se faz bom, ótimo, excelente jornalismo cultural pelo mundo afora. Parece que, neste momento pelo menos, estamos perdendo o compasso.

Um amigo me diz que estou muito pessimista. Não é impossível, mas é bastante improvável. Tenho uma constituição implacavelmente otimista, que se revela, com impressionante consistência, em qualquer sistema de auferição – de eneagramas a astrologia. Não dá pra ser Polyanna, mas é um bom sustento em tempos dificeis. E no entanto não consigo ir muito adiante neste balanço – como em 2003, o jornalismo cultural por aqui continua, em sua maioria, superficial, apressado, mal informado e sem imaginação. E mal escrito – mas isso, parece, é tormento coletivo, considerando que outro dia havia um erro peludíssimo de concordância na primeira frase do editorial de um grande jornal…

Serei otimista, pois. O que o jornalismo cultural brasileiro, hoje, faz bem? Serviço. Isso ele faz com grande desenvoltura mesmo em tempos ásperos. As pautas de cidade, por exemplo, de usos e costumes, têm melhorado bastante, e espero que a atual ‘guerra dos suplementos’, no Rio, estimule e apure essa produção.

Mas quase tudo fora do calendário, do release, do dia a dia acaba escapando. Em que pesem bons momentos isolados, frequentemente longe do que se espera. Por exemplo: uma das melhores entrevistas do ano, até agora, foi a de Lobão na revista Oi! de maio. Coisas cruciais foram ditas ali. Mas, que eu saiba, ninguém lhes deu a atenção merecida ou a suíte necessária.

A tarefa de realmente pensar a cultura, suas ramificações e conexões com o social e o econômico, o passado e o futuro, escorregou cada vez mais para a internet. É um universo vasto demais para ser comprimido no dedal de uma apreciação tão rápida quanto esta, mas tenho lido coisas consistentemente boas no cliquemusic, no no.minimo e no digestivo cultural.

Existem os blogs, onde lampejos de real talento podem ser apreendidos, de tempos em tempos, e cujo verdadeiro papel nesta história toda ainda está longe de ser definido. Serão eles, hoje, os fanzines de ontem, e como tal cumprindo o papel de levantar confusamente a caça e revelar caoticamente os caçadores, para futuras empreitadas? E se tais empreitadas jamais acontecerem? E se todas as árvores caírem na floresta sem que ninguém ouça? Terão elas de fato caído?

O que mais me incomoda nos blogs não é nem seu narcisismo compulsório nem seu amadorismo essencial, mas a angustiante sensação de que eles não passam de ilhas microscópicas num imenso oceano amorfo de nada. Pequenas vozes no vazio. O oposto do que sempre vi definido como ‘comunicação’ e ‘cultura’.

Mais sobre tudo isso semana que vem.’

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