Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ENTRE ASPAS > LÍNGUA VIVA

Deonísio da Silva

11/01/2005 na edição 311

‘Aves e animais foram requisitados, sem licitação, para expressar diversas metáforas no alvorecer de 2005. No Senado, na Câmara Federal, nas Assembléias Estaduais e nas Câmaras Municipais, há sempre quem dê rasteira até em cobra.

Assim, convidado a comentar o que se passou na Câmara de Vereadores de São Paulo, no primeiro dia de trabalho do novo ano, alguém disse: ‘Abater tucanos é moleza’. Disse outro: ‘Aquilo é um ninho de cobras’.

Disse mais outro: ‘Em conversas reservadas, o próprio presidente Lula, ao saber do que fizeram certas estrelas do PT em São Paulo, soltou cobras e lagartos’. E foi profetizado que agora os tucanos vão se vingar no Congresso, derrotando Eduardo Greenhalgh.

São Paulo conhece velhas histórias de corrupção. Há alguns anos, vereadores da banda sã tomaram providências contra colegas que acobertavam uma certa máfia de fiscais. Vários gatunos e ratazanas disfarçados de vereadores foram parar na cadeia. Outro disse que fizeram uma cachorrada com o prefeito José Serra, recém-empossado, ao romper acordo que dava como certa a eleição de candidato da base aliada.

Para esclarecer que certo acordo estava perdido, outro disse que a vaca foi pro brejo, pois havia mão de gato nas combinações e o prefeito pagou o pato.

Tucano, cachorro, gato, cobra, pato, vaca, o que fazem essas aves e animais na língua viva? Ajudam a expressar e a entender o que se passa. Foi para isso que foram invocados. Prestam-se a metáforas, a comparações que ilustrem e esclareçam os conceitos emitidos.

Bons motivos devem ter levado os fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) para escolher como símbolo o tucano, mas o inconsciente não deixou de armar uma tramóia. Os tucanos vivem em pequenos bandos e não raro pilham os ninhos de outras aves.

Aves que recorrem a alianças com outras espécies já no nome, pois há o tucano-boi e o tucano-cachorrinho, que ainda no berço pilharam outros partidos que os abrigavam, o maior dos quais era o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que, aliás, já fizera o mesmo com a lagarta que o transformara em borboleta, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o grande rival da falecida Aliança Renovadora Nacional (Arena), o maior partido do Ocidente, segundo insólita definição do deputado Francelino Pereira. O escritor paranaense Nelson Padrella, ao ser convidado para filiar-se à Arena, replicou com outra metáfora: ‘Entrar para a Arena? Mas na condição de cristão ou de leão?’

Houve tremendas injustiças na invocação de aves e animais. O cachorro é o melhor amigo do homem. Como pode, então, prestar-se para designar má ação humana? Se os cachorros falassem, a metáfora seria invertida e justa. Os cachorros têm motivos de sobra para desconfiar dos homens, freqüentemente ingratos com eles, verdadeiros símbolos da verdadeira fidelidade, muito diferente da fidelidade partidária.

O gato, então, orgulhoso de ser o proprietário do lugar que generosamente divide com inquilinos humanos intrometidos, jamais roubou, rouba ou roubará. Ao contrário, pega o que de direito lhe pertence. É obrigação do homem manter abastecida a despensa. Chamar ladrão de gatuno é grave ofensa ao bichano.

O rato não rouba, confisca. Qualquer juiz o absolveria por razões famélicas. Ele não rouba para locupletar-se, como fizeram os políticos já condenados.

O pato jamais é consultado para os pactos. Pagam por ele aqueles aos quais é apresentada a conta dos acordos, que nunca estão presentes quando acertam os termos. Quanto às cobras, todo prefeito conhece muito bem os seus ninhos e o que elas fazem quando alguém os invade.

E por fim é bom que todos saibam que a vaca só conhece o brejo quando nele atola.’



ESTUDOS CLÍNICOS
Folha de S. Paulo

‘Problema remediado’, copyright Folha de S. Paulo, 10/01/05

‘Depois de intensa pressão por parte da comunidade científica, da mídia especializada e leiga e de dois escândalos relativos à segurança de novos medicamentos (Paxil e Vioxx), a indústria farmacêutica finalmente anunciou que concorda em ampliar a publicação de dados dos ensaios clínicos que patrocina.

Representantes de alguns dos maiores laboratórios do mundo acertaram uma auto-regulamentação para o setor. Não há dúvida de que o fazem para tentar evitar que governos nacionais criem leis mais rigorosas para tornar obrigatória a divulgação desses estudos. Mesmo assim, trata-se de um passo importante, que deverá resultar em maior disponibilidade de informações técnicas acerca de novas drogas. E é óbvio que quem vai tomá-las tem o direito de ter acesso a todos os dados disponíveis sobre o produto.

Pelo que ficou acertado, ensaios clínicos bancados pela indústria devem ser registrados numa base de dados na internet até 21 dias depois de iniciados. Seus resultados devem ser publicados até um ano depois da aprovação da droga para o mercado. No caso de produtos já aprovados, o prazo é de um ano após o encerramento do trabalho.

Se a idéia dos laboratórios é reconquistar a confiança do consumidor, o projeto ainda precisa ser melhorado. Os prazos para divulgação dados à indústria parecem excessivos. Por que esperar um ano ou mais para dar a conhecer as conclusões do trabalho? Pior, drogas em fase 1 (primeiros testes com humanos) estão isentas de registro -o que não faz sentido quando se considera que elas já estão protegidas por patentes.

O sistema não vale para produtos antigos. Ora, tanto o Paxil como o Vioxx eram medicamentos que já se encontravam havia muito no mercado -e isso não bastou para torná-los seguros. Freqüentemente são necessários vários anos de uso em grandes contingentes populacionais para conhecer todos os efeitos.

É positivo que os laboratórios tenham dado o passo de tornar mais transparente sua relação com a comunidade científica e o público, mas ainda se pode e se deve exigir mais.’



HÉLIO BLOCH
Jornal do Brasil

‘Obituário: Hélio Bloch 1926 – 2005’, copyright Jornal do Brasil, 11/01/05

‘Multimídia: ator, jornalista e músico

Precursor do homem multimídia, o jornalista, ator, músico, escritor, dramaturgo, violinista e tradutor Hélio Bloch faleceu por volta das 11h de ontem, vítima de insuficiência respiratória, aos 79 anos, no hospital Cardio-Trauma, em Ipanema, onde estava internado há duas semanas. Ele vinha lutando há seis meses contra um câncer de pulmão.

Hélio Bloch nasceu no Rio de Janeiro em 1926. Foi diretor da Revista Manchete e do jornal Última Hora. Como crítico, viu na peça de Sartre O Diabo e o Bom Deus uma inspiração para Glauber Rocha filmar Deus e o diabo na Terra do Sol.

A novela A Tartaruga Cibernética, que finalizou pouco antes do AI-5, demorou alguns anos para ser publicada. O protagonista, Salatiel Ventura, constrói não uma obra, mas uma reputação. É um frasista brilhante, crítico, culto, engenhoso e, no entanto, incapaz de colocar as idéias em prática. A capa do livro foi feita pelo cartunista Ziraldo e o prefácio é do jornalista Artur Xexéo.

Hélio Bloch fundou o Teatro Santa Rosa e assinou, em 1967, a comédia musical A Úlcera de Ouro. Como publicitário, prestava consultoria a agências de propaganda. Também foi consultor de campanhas políticas e trabalhou na agência MPM.

Músico competente, se apresentou em espetáculos, executando, ao violino, trechos de músicas eruditas e populares, associando-as a políticos e personalidades que ele conheceu ao longo de meio século.

Hélio ainda assessorou a Associação Comercial do Rio, o Sebrae, Firjan e Fecomércio. De acordo com pesquisa feita pela Folha de São Paulo, conseguiu a façanha de ser a pessoa que mais deixou Jô Soares sem falar no talk show, ocupando quase 80% do tempo da entrevista, um recorde diante do apresentador, humorista e entrevistador tarimbado.

O vigor profissional o acompanhou durante toda a vida. Segundo sua esposa, a artista plástica Éster Bloch, ele tinha projetos para lançar quatro livros. Além de vasta obra, Bloch deixa três filhos e oito netos.

O corpo de Hélio Bloch será sepultado hoje, às 16h, no Cemitério Israelita do Caju.’

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