Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ENTRE ASPAS > QUINTA-FEIRA, 21/2

Deputado pede revogação da Lei de Imprensa

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 21/02/2008 na edição 473

Leia abaixo a seleção de quinta-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008


REVOGAÇÃO
Folha de S. Paulo


Lei de Imprensa


‘MAIS DE 40 anos depois de ter sido promulgada, em pleno regime militar, a Lei de Imprensa sobrevive numa espécie de limbo jurídico -e faz sentido a iniciativa do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), tomada nesta terça-feira, de requerer sua revogação ao Supremo Tribunal Federal.


Muitos dispositivos da Lei de Imprensa já foram invalidados na prática. Desde a entrada em vigor da Carta de 1988, já estavam felizmente relegados ao museu de aberrações do autoritarismo os aspectos mais violentos dessa lei. Previa-se, por exemplo, a prisão de jornalistas responsáveis pela publicação de ‘notícias falsas que perturbem a ordem’ e o fechamento de jornais que estimulassem ‘a subversão da ordem política e social’.


Também a jurisprudência recente fez letra morta de alguns dos 77 artigos que compunham o caudaloso documento. Não mais se leva em conta, assim, o teto de até 200 salários mínimos para indenização por dano moral, arbitrada agora caso a caso.


Eis um exemplo, aliás, das delicadas questões que se abrem com a proposta de uma revogação total da Lei de Imprensa. Se é necessário prover o cidadão de instrumentos para coibir os abusos de que for vítima por parte de um órgão jornalístico, não deixa de haver riscos para a liberdade de imprensa quando se abre a possibilidade de estipular, sem limites legais, indenizações que inviabilizem, na prática, a própria existência econômica de um meio de comunicação.


Extinta a atual Lei de Imprensa, seria o caso de substituí-la por outro documento? Valeria seguir apenas o Código Penal -nos delitos tipificados como injúria, calúnia e difamação- para enquadrar os eventuais delitos cometidos por jornalistas no exercício de sua profissão?


Há opiniões divergentes sobre o assunto. Se são maiores, evidentemente, as responsabilidades de quem se dirige ao grande público, também a própria natureza da atividade tende a aumentar os riscos de constrangimento penal imerecido a quem a exerce de boa-fé.


O próprio deputado Miro Teixeira é autor de anteprojeto regulando sucintamente um ponto que a revogação da Lei de Imprensa deixaria sem cobertura jurídica: o direito de resposta. Mesmo aqui, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação dá margem a discussões que, no Brasil e em outros países, mal começam a ser feitas. Como assegurar direito de resposta a uma reportagem inverídica no YouTube, por exemplo? Poderia o blog de um polemista individual ser regido pelas mesmas leis que disciplinam uma grande rede de televisão?


O assunto merece consideração minuciosa da sociedade. Trata-se não só de oferecer ao cidadão mecanismos que o protejam de potenciais danos causados pelos meios jornalísticos, mas também de garantir-lhe plenamente o acesso à informação. Décadas depois do fim da ditadura, não são poucos, nem desarticulados, os que ainda se empenham em restringi-lo.’


 


IMPRENSA NA JUSTIÇA
Folha de S. Paulo


Órgão internacional vê intimidação em ações contra jornais


‘Sociedade Interamericana de Imprensa manifesta preocupação com excesso de processos em nome de fiéis da Igreja Universal


Tarso Genro (Justiça) diz que não vê nenhum problema e que as pessoas ‘têm o direito de responder, de acionar e de contestar ação’


A SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) divulgou ontem comunicado em que manifesta preocupação com o excesso de ações judiciais em nome de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus contra jornais brasileiros.


Para Earl Maucker, presidente da SIP, ‘para além do respeito que devemos ter pelo direito de cada cidadão de recorrer à Justiça quando se sente ofendido por uma publicação, nesse caso concreto, e considerando-se o contexto, suspeitamos seriamente de que se trata de uma manobra cujo objetivo é intimidar e restringir a liberdade de expressão’.


Há mais de 50 ações contra a repórter Elvira Lobato e a Folha -inclusive em cidades onde o jornal nem circula, o que encarece e, principalmente, dificulta a defesa. Cinco já foram extintas, sendo que em dois casos os juízes condenaram os autores da ação por usar o Judiciário de forma indevida. Cabe recurso. Além da Folha, foram alvos de ações os jornais ‘Extra’, ‘A Tarde’ e ‘O Globo’.


Com mais de 1.300 publicações associadas em mais de 30 países, a SIP é uma organização sem fins lucrativos que se propõe a defender a liberdade de expressão e de imprensa.


Segundo o comunicado, a série de ações judiciais levanta a ‘possibilidade de que estejam fazendo com que a imprensa se autocensure e deixe de fazer várias investigações’. A SIP solicita que a Justiça ‘coloque a liberdade de imprensa e o direito do povo de receber informações acima de qualquer interesse particular’.


Para Gonzalo Marroquín, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação, o conjunto de ações da Universal contra os jornais é um fato inédito: ‘É uma tentativa sem precedentes de forçar os jornais a ter gastos financeiros e investimento de tempo extraordinários para que possam se defender. O que eles realmente querem é comprar o seu silêncio’.


A SIP lembra que há 36 processos de indenização por danos morais movidos em dezenas de cidades contra o jornal ‘A Tarde’, da Bahia, e seu repórter Valmar Hupsel Filho, após publicação de uma reportagem sobre a destruição de uma imagem católica por um membro da igreja. O mesmo fato foi relatado pelo ‘Extra’, do Rio, o que também gerou ações contra a publicação e seu diretor de Redação, Bruno Thys.


Ainda ontem, o ministro Tarso Genro (Justiça) disse que ‘as pessoas têm o direito de falar, têm o direito de responder, têm o direito de acionar e de contestar a ação. Não vejo nenhum problema aí, não só em relação à liberdade de imprensa, mas também de abuso no exercício de acionar o Poder Judiciário.’


Universal


Anteontem, a Universal divulgou nota em que diz que a igreja ‘respeita a liberdade de imprensa’ e ‘não tem qualquer interesse de orquestrar e incentivar processos individuais por parte de seus fiéis’. Um templo da Universal localizado em Pinheiros, zona oeste, foi pichado ontem de madrugada.’


 


Para sindicatos, há incitação à intolerância


‘Leia a íntegra da nota assinada em conjunto pela Federação Nacional dos Jornalistas, pelo Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro e pelo Sindicato dos Jornalistas da Bahia.


‘A Federação Nacional dos Jornalistas, o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, o Sindicato dos Jornalistas da Bahia e demais sindicatos do país filiados à Fenaj repudiam, com veemência, a atitude da direção da Igreja Universal do Reino de Deus, que desencadeia campanha de intimidação contra jornalistas no exercício da profissão.


Também apelam aos tribunais e ao Superior Tribunal de Justiça no sentido de alertá-los para ações que se multiplicam a fim de inibir o trabalho de jornalistas em todo o país. O acesso e a divulgação da informação garantem o sistema democrático, são direitos do cidadão, e o cerceamento de ambos constitui violação dos direitos humanos.


A TV Record, controlada pela Universal, chegou ao extremo, inadmissível, de estampar no domingo, em cadeia nacional, a foto da jornalista Elvira Lobato, autora de uma matéria sobre a evolução patrimonial da igreja, publicada na Folha de S.Paulo. Por esse motivo, Elvira responde a dezenas de ações propostas por fiéis e bispos em vários Estados brasileiros.


Trata-se de uma clara incitação à intolerância e do uso de um meio de comunicação social de modo frontalmente contrário aos princípios democráticos, ao debate civilizado e construtivo entre posições divergentes.


O fato de expor a imagem da profissional em rede nacional de televisão, apontando-a como vilã no relacionamento com os fiéis, transfere para a Igreja a responsabilidade pela garantia da integridade moral e física da jornalista.


A Federação Nacional dos Jornalistas, o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, o Sindicato dos Jornalistas da Bahia e demais sindicatos exigem que os responsáveis pela Igreja Universal intervenham para impedir qualquer tipo de manifestação de intolerância contra a jornalista.


O episódio nos remete à perseguição religiosa, absurda e violenta, praticada por extremistas contra o escritor Salman Rushdie, autor de ‘Versos Satânicos’, e as charges de Maomé publicadas no jornal dinamarquês ‘Jyllands-Posten’.


O jornalista Bruno Thys do jornal carioca ‘Extra’ também é processado pela Universal em cinco cidades do Estado do Rio de Janeiro. O repórter Valmar Hupsel Filho, na capital baiana, já responde a pelo menos 36 ações ajuizadas em vários Estados do Brasil, nenhuma delas em Salvador, sede do jornal ‘A Tarde’, onde trabalha.


Há evidência de que essas ações, com termos idênticos, estão sendo elaboradas de forma centralizada, distribuídas e depois impetradas em locais distantes, para dificultar e prejudicar a defesa, além de aumentar o custo com as viagens dos jornalistas ou seus representantes.


Encaminhados à Justiça com o nítido objetivo de intimidar jornalistas, em particular, e a imprensa, em geral, esses processos intranqüilizam e desestabilizam emocionalmente a vida dos profissionais e de seus familiares. Ao mesmo tempo, atentam claramente contra os princípios básicos da liberdade de expressão e manifestação do pensamento.


Em um ambiente democrático e laico, é preciso compreender e aceitar posições antagônicas e, mais ainda, absorver as críticas contundentes, sem estimular reações de revanche ou mesmo de pura perseguição.


Este episódio repete, com suas consideráveis diferenças, outras situações em que os meios de comunicação exorbitaram os fins para os quais foram criados. A Federação Nacional dos Jornalistas, o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, o Sindicato dos Jornalistas da Bahia e demais sindicatos sustentam que a imprensa não pode se confundir com partidos políticos, crenças religiosas ou visões particulares de mundo.’’


 


Frederico Vasconcelos


Judiciário não pode ser instrumento para cercear imprensa, diz presidente da AMB


‘‘A magistratura brasileira não permitirá que o Judiciário sirva como mecanismo para intimidar o pleno exercício do jornalismo’, diz o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, Mozart Valadares.


FOLHA – Juristas conclamam os juízes a cortar pela raiz o uso indevido dos juizados especiais para ações de indenização como as que estão sendo incentivadas pela Igreja Universal. Qual é a posição da AMB?


MOZART VALADARES – Nenhum juiz, nem a Constituição, proíbe que alguém ingresse em juízo quando se sentir prejudicado. Agora, nós não poderemos admitir que o Judiciário seja mecanismo para cercear ou limitar a ação de um segmento da sociedade, como a imprensa.


FOLHA – Alguns magistrados perceberam a orquestração. Como inibir a litigância de má-fé?


VALADARES – Ao perceber que essas ações estão sendo ajuizadas com objetivos que não o de restaurar um direito, o juiz vai punir a parte, com certeza. E terá a oportunidade de representar contra o advogado perante o seu órgão de classe.


FOLHA – Como evitar ações em série, em locais distantes, para dificultar a defesa e impor punição prévia?


VALADARES – Se o juiz sentir que há recursos judiciais com o objetivo que não seja discutir uma questão, ele tem como punir essa parte que está usando o Judiciário para fins não-éticos, de tentar intimidar e tentar limitar a atuação do jornalista.


FOLHA – A AMB, uma entidade nacional, teria alguma recomendação aos magistrados? O que ela pode fazer para evitar que esse mau uso do Judiciário se torne uma prática?


VALADARES – Não poderíamos fazer qualquer recomendação aos magistrados. Isso fere a independência dos juízes.


FOLHA – Não se trata da convicção do magistrado, mas de um alerta de que está havendo uma escalada…


VALADARES – Você não pode precisar a motivação de uma pessoa. Não posso afirmar que a motivação é essa, intimidar. Agora, pela natureza das ações, pelo número das ações, sempre da mesma parte, há um indício muito forte de que é uma tentativa de intimidação.


FOLHA – Essa escalada ameaça a liberdade de expressão?


VALADARES – Eu não posso afirmar isso, mas a minha leitura é que há indícios suficientes. Eu tenho certeza absoluta que a magistratura brasileira não permitirá que o Judiciário sirva como mecanismo para intimidar o pleno exercício do jornalismo. A magistratura está atenta para isso, que poderia arranhar o fortalecimento do Estado democrático do Direito.


FOLHA – Isso pode ameaçar a imagem do juizado especial?


VALADARES – Isso não vai descaracterizar os juizados especiais. Na medida em que a Justiça for condenando os litigantes de má-fé, multando a parte e representando contra os advogados, tenho certeza absoluta que vai inibir esse tipo de ação.’


 


RENÚNCIA DE FIDEL
Eliane Cantanhêde


E os cubanos?


‘BRASÍLIA – É impressionante como Fidel Castro consegue manter durante meio século o mito, o regime autoritário, o mesmo discurso, até o mesmo uniforme, o mesmo boné, a mesma barba. E dividir opiniões tão apaixonadamente!


Velhos choram sua renúncia como o fim do mundo. Jovens abominam o regime e ridicularizam seu líder. Talvez seja arrogância e falte olhar os personagens e suas circunstâncias, distinguir a simbologia libertária da prática autoritária; ver o processo, não o momento -nem só ontem, nem só hoje.


Fidel entra para a história, Cuba fica. Não tem peso econômico, com seu PIB de US$ 40 bi, nem pode exportar modelos e revoluções, mas existe, tem força simbólica e precisa vislumbrar um futuro.


‘Cuba não tem a menor importância’, ouve-se de embaixadores, de colunistas, de recém-formados que não passaram pela Guerra Fria nem tiveram passaportes com o carimbo esdrúxulo de ‘Não é válido para Cuba’. Se não tem importância, por que raios a maior potência do planeta decretou, manteve e até hoje insiste num embargo cruel contra a ilha?


Se é impressionante como Fidel pôde se manter o mesmo Fidel e na mesma Cuba por meio século, é igualmente impressionante como os EUA puderam se manter irredutíveis durante todo esse tempo.


É exatamente nesse espaço que se esgueira o Brasil, habilitando-se como mediador. Não só porque queira (não é a cara do Lula?), mas porque é chamado pelos dois lados e por parceiros como Espanha e México. Juntos num ‘grupo de amigos de Cuba’, como houve para a Venezuela, esses países vão tentar dar suporte a Raúl Castro para sair do isolamento e se integrar à comunidade internacional.


Mas ele tem de fazer a sua parte.


E, como em ditaduras não há pesquisas, não se sabe o que o povo da ilha quer. Antes de falar, é preciso ouvir. Com a palavra, os cubanos!’


 


Kenneth Maxwell


O coringa no baralho


‘FIDEL CASTRO continua a ser o coringa no baralho. Ele sabe que nenhum dos candidatos, em meio à campanha presidencial dos Estados Unidos, vai querer assumir um compromisso quanto a mudar radicalmente a política norte-americana com relação a Cuba, especialmente tendo em vista o fato de que a situação eleitoral na Flórida continua em aberto, como continuará até novembro. Assim, ao renunciar ao seu posto como chefe de Estado na terça-feira, Castro uma vez mais desconcertou seus inimigos e recolocou seu país na agenda internacional.


Os especialistas em assuntos cubanos estão confusos com o que está acontecendo; nisso eles não diferem muito dos velhos ‘kremlinólogos’, que foram apanhados completamente despreparados quanto o sistema soviético implodiu. Um famoso kremlinólogo que eu conhecia na época, quando questionado sobre o papel dos dissidentes, disse que ‘jamais conversou com eles’, o que explica muita coisa! Mas será que teremos uma transição tão descomplicada em Cuba como os especialistas acreditam?


Existem dois modelos de sucessão de ditaduras prolongadas que vale a pena considerar: Espanha e Portugal, nos anos 70. Em Portugal, o velho ditador Salazar morreu e foi sucedido por um de seus veteranos colaboradores, Marcelo Caetano. Mas Caetano era tímido demais.


Ele não pôs fim às guerras coloniais de Portugal na África e não procurou uma aproximação com forças democráticas moderadas na sociedade portuguesa, que desejavam ajudá-lo a modernizar a economia e as instituições do país. Em cinco anos, o edifício do regime ruiu completamente, e o país caiu no caos político e social.


Na Espanha, Francisco Franco também morreu de causas naturais. O velho ditador havia estabelecido procedimentos institucionais para perpetuar o regime. Mas o sucessor que escolheu, o rei Juan Carlos, não seguiu o roteiro. A Espanha negociou uma clara ruptura institucional com o passado, e a Europa acolheu o novo regime democrático em Madri e ajudou em sua consolidação por meio de uma grande transferência de verbas.


Cuba seguirá o exemplo de Portugal ou o da Espanha? Muito dependerá do bom senso dos governos latino-americanos, especialmente o brasileiro, bem como dos europeus. A verdade é que chegou a hora de criar um novo grupo de ‘amigos de Cuba’, uma organização de alto nível cuja função seria ao menos a de indicar aos Estados Unidos que a era das ações unilaterais norte-americanas contra Cuba é coisa do passado.


Castro jogou sua carta. E ele observará as conseqüências atentamente.


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.


Tradução de PAULO MIGLIACCI’


 


TELES
Rubens Glasberg


Por que a BrOi tem pressa ?


‘A PETROBRAS, a megaempresa de petróleo considerada estratégica para o Brasil, foi criada por lei aprovada no Congresso após memorável campanha popular. Não foram um decreto presidencial e muito menos a decisão de alguma autarquia que legitimaram o modelo de política nacional de petróleo vigente até hoje. A sociedade não foi informada na época, como o é agora no caso da criação de uma megaempresa brasileira de telecomunicações, por meio de reportagens em off, seguidas de notas oficiais desencontradas e balões de ensaio sem paternidade plantados em jornais e revistas. Dada por alguns órgãos de imprensa como fato consumado (que não vem se consumando há várias semanas), a compra da Brasil Telecom pela Oi, para criar a BrOi, é uma operação que pressupõe uma mudança no modelo de telecomunicações estabelecido há dez anos. Em lugar das três concessionárias fixas atuais, seriam apenas duas, mais a Embratel como concessionária na longa distância. Há dez anos, para se estabelecer o modelo atual, foi feita uma lei, criou-se uma agência, a proposta foi colocada claramente para a sociedade, e tudo isso passou pelo Congresso. Agora, o modelo está sendo montado em uma discussão fechada, em função de interesses imediatos de sócios que querem vender suas participações, sócios que querem ampliar suas participações, além do Opportunity, acusado na Justiça brasileira e norte-americana de tungar os próprios sócios e as empresas que administrou por sete anos.


Para liberar a fusão de Oi e Brasil Telecom, seria necessário mudar o Plano Geral de Outorgas, permitindo que um mesmo grupo controle duas concessionárias. A diferença entre um modelo com duas empresas e um com três é significativa, porque a BrOi teria uma área de atuação muito ampla, sendo a responsável pelo atendimento de quase 78% da população.


Ainda que o mercado não esteja se concentrando diretamente por meio dessa fusão, já que as duas não concorrem, elas passam a ter uma responsabilidade muito maior e, em caso de problemas, o impacto será muito mais significativo.


Acontece que o novo modelo só será isonômico (ou seja, não-casuístico) se permitir também que outras concessionárias se consolidem. E se a Telefônica e a Embratel resolverem se consolidar, em cenário hipotético? Qual será o argumento do governo para não permitir? E o mercado de telefonia celular, que hoje também é dividido pela regra de que um mesmo grupo não controla duas ou mais operações em uma mesma área? Se mudou o PGO, por que não mudar as regras da telefonia celular? Será difícil encontrar explicação para essas situações. Não por acaso, Telefônica e Embratel estão caladas. Será que esperam alguma benesse também?


Mas o mais grave é o argumento de que se está criando uma grande empresa nacional, que servirá de contrapeso aos dois gigantes internacionais que atuam no Brasil: Telefônica e Telmex/América Móvil. A garantia de que a BrOi será nacional será um mero acordo de acionistas. O BNDES e os fundos de pensão das estatais, em tese, são os garantidores dos interesses nacionais. Mas acordo de acionistas muda-se a qualquer hora, basta que os acionistas o queiram. E pior, cabe aos fundos e ao BNDES financiarem a operação e os acionistas, em uma engenharia maluca em que o negócio só será bom para o BNDES se a megatele der certo. E quem garante?


Sem diminuir a relevância dos problemas e vontades dos sócios controladores, a questão principal que se coloca é: qual o interesse público atendido com a incorporação da Brasil Telecom pela Oi? Não há ameaça imediata causada por espanhóis e mexicanos. Os resultados de balanço de Oi e BrT são muito bons. Por que a pressa?


Um fato é inegável: passados dez anos, o modelo do ministro Sérgio Motta, que promoveu um fantástico desenvolvimento das telecomunicações, começa a implodir. Baseado no binômio competição/universalização da telefonia convencional, o projeto não é mais adequado ao mundo da tecnologia IP e da convergência. O modelo de negócios da telefonia baseado na tarifação diretamente proporcional ao tempo de uso e à distância da ligação está morrendo. O que se vende hoje é banda. A disputa é pelo acesso em banda larga tanto por fio quanto sem fio (wireless). E mais: há uma crescente interpenetração dos serviços fixos e móveis. Deixaram de existir áreas estanques como fixo, móvel ou longa distância, sobre as quais se fundamenta toda a regulamentação atual. É preciso rediscutir o modelo, como já o fizeram vários países. Não será a mera fusão ou incorporação BrOi que resolverá questões básicas. A discussão tem que ser pública e no interesse público.


RUBENS GLASBERG, 64, é jornalista da revista especializada em telecomunicações ‘Teletime’.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


A quarta do mundo


‘Na manchete do UOL, à noite, ‘Bovespa quase zera perdas do ano’. Em despacho da Reuters, ‘Ações de Bovespa e BM&F sobem com conversa sobre fusão’.


Foi a notícia sobre o Brasil, no dia. As duas Bolsas anunciaram anteontem à noite, com eco imediato por Bloomberg e outras agências. E ontem o ‘Wall Street Journal’ já postou longa reportagem -e o ‘Financial Times’ adiantou análise sobre o eventual negócio.


No ‘WSJ’, o correspondente Antonio Regalado abriu dizendo que a Bolsa resultante da fusão ‘seria a quarta maior do mundo’, ‘consolidaria o Brasil como o mercado financeiro dominante da América Latina’ e que ‘deve voltar olhos para comprar outras Bolsas da região’, casos de Chile, Peru. A breve análise do ‘FT’ foi menos animada, dando como ‘consolidação’ -e por interesse dos acionistas das duas, nada mais.


PETROBRAS, PETROBRAS


Nas manchetes de Folha Online, Globo Online e outros, ontem ao longo do dia todo, ‘Dados furtados da Petrobras são de megacampo de gás em Santos’. São de Júpiter. E também o ‘Jornal Nacional’ acordou para a Petrobras, com ‘Uma revelação exclusiva: a lista de objetos roubados da Petrobras é maior do que a divulgada pela polícia’.


E PETROBRAS


Já o site do ‘WSJ’, também mais atento à estatal, deu que ‘Reservas de petróleo do Brasil atingem 12 trilhões de barris’, sem contar o campo ultraprofundo de Tupi’, e que ‘Petrobras e Mitsui formam joint-venture para duto de etanol, o primeiro do mundo’.


‘REVOLTA POPULAR’


Ontem até na AP, ‘Multidão ataca agentes antidesmatamento na Amazônia’. Para a agência, ‘revolta popular’.


Depois o ‘JN’ destacou longamente, na escalada, que ‘a polícia do Pará prende quatro suspeitos de incitar milhares contra fiscais do Ibama’.


AGORA, A BEBIDA


O ‘Christian Science Monitor’ deu que, após adotar uma das leis antitabaco ‘mais duras no mundo’, o Brasil agora visa bebidas alcóolicas. E o alvo é a publicidade, de novo.


RAÚL E O BRASIL


Kennedy Alencar noticiou na Folha que, para o irmão de Fidel, Raúl Castro, ‘o Brasil seria um parceiro mais conveniente do que a Venezuela’, agora. Ontem, em texto crítico à linha dura dos EUA com Cuba, o ‘Washington Post’ sublinhou que o Brasil, com linha de crédito de US$ 1 bilhão, ‘ofereceu uma alternativa’ contra a Venezuela. Outros, como o ‘WSJ’, registraram. E o ‘Miami Herald’ deu em título que ‘Raúl poderá buscar petróleo fora da Venezuela’, ou seja, ‘ele provavelmente vai abrir a porta para acordos de energia com o Brasil, em exploração de petróleo, mas também na produção de etanol de cana’.


‘BABY BRAZIL’


O ‘WSJ’ vai além e já descreve Cuba como ‘Baby Brazil’ para o etanol. Linkou estudos dos EUA dizendo que a produção poderia até se comparar à do Brasil -e como ‘o regime’ impediu a entrada de gigantes como a ADM


A ILHA


O jornalista Fernando Morais, autor de ‘A Ilha’ e ‘primeiro brasileiro a encontrar Fidel depois da revolução’, disse ao site Comunique-se que ‘não há perigo nenhum de que Cuba se renda ao capitalismo’. Defende o país citando cartaz que viu há duas décadas: ‘Esta noite 200 milhões de crianças vão dormir na rua. Nenhuma é cubana’. Acrescenta ele, ‘e é verdade’.


SEM DÚVIDA


E o jornalista Frei Betto disse à Reuters que ‘se iludem os que pensam que há qualquer sinal de volta do capitalismo’, sem Fidel. O efeito imediato da renúncia, avaliou o ‘castrista histórico’, é que, ‘sem nenhuma dúvida, Raúl será eleito’ presidente pela nova Assembléia Nacional.


RAÚL E OBAMA


Já o jornalista Ignacio Ramonet, editor do ‘Le Monde Diplomatique’ e co-autor de ‘Fidel Castro: Minha Vida’, escreveu ontem no britânico ‘Guardian’ o artigo ‘A saída de Fidel significa continuidade. Por mudança, olhe para Obama’. Avalia que ‘o futuro de Cuba vai depender de quem ganhar a Casa Branca’.


Barack Obama se distinguiu de John McCain na cobertura, anteontem, ao admitir ‘relaxar o embargo’, em caso de abertura democrática.


DOIS CONTRA UM


Obama venceu mais duas e, no enunciado do ‘New York Times’, ontem à noite, ‘é alvo de McCain e Clinton’. John e Hillary, juntos no ataque, com discurso contra a retórica supostamente vazia de Obama.’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Record coloca bispo para cuidar de novela


‘Quem manda no orçamento das novelas da Record agora é um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus. Presidente da Record Rio e acionista de sete rádios e três TVs controladas pela igreja, Marcelo Silva assumiu nesta semana o comando de toda a produção, incluindo controle de custos e fábrica de cenários, do RecNov _a central de estúdios da Record no Rio de Janeiro, onde são gravadas as novelas da emissora.


Silva tem o cargo de diretor de gestão administrativa financeira, mas, na realidade, manda tanto ou até mais do que Hiran Silveira, que continua como diretor-geral de teledramaturgia, principal cargo do RecNov. Silveira antes controlava todas as áreas do RecNov.


O departamento de comunicação da Record afirma que a mudança ocorreu porque Silveira estava ‘sobrecarregado’: agora responsável apenas pela parte artística das novelas, ele tem mais tempo para se dedicar a atores e roteiristas.


Nos bastidores, no entanto, a versão predominante é a de que Silva agora divide o comando do RecNov por ser da mais alta confiança do bispo Edir Macedo, líder da Universal. É praxe na Record a nomeação de membros da igreja para o controle de áreas financeiras.


A tendência é Silva, que tem muito mais status (bispo e presidente e acionista de emissoras) do que Silveira (ex-bancário e fiel da igreja), assumir a direção-geral do RecNov.


SÉRIES À VENDA 1 O SBT enviou ontem às agências material em que tenta atrair anunciantes para os seriados que exibe nas madrugadas _alguns muito bons, como ‘Studio 60’ e ‘Nip/Tuck’ (esta rebatizada como ‘Estética’). A emissora mostra que esses programas atraem público diversificado e maior do que o de Record e Rede TV! juntas.


SÉRIES À VENDA 2 ‘Segundo o Ibope, 34% dos paulistanos vêem TV de madrugada. Desses, 53%, ou 3,6 milhões, passam pelo SBT’, afirma Henrique Casciato, diretor comercial da rede.


REFORÇO A Record News, canal aberto de notícias da Record, terá um novo transmissor na Grande SP até o final de março, 50% mais potente que o atual.


RETOMADA Após sofrer uma pequena queda nas semanas do aniversário de São Paulo e do Carnaval, ‘Duas Caras’ voltou a subir. Já esbarra nos 45 pontos.


RECOLOCAÇÃO Ex-presidente da Eletros, entidade defensora dos interesses de fabricantes de televisores, nem sempre os mesmos das emissoras, Paulo Saab agora é diretor de expansão da Band.


PACIÊNCIA O próximo líder de ‘BBB’ será definido em uma prova que exigirá resistência e paciência. Um sensor obrigará os participantes do programa a ficarem praticamente imóveis.


VÍDEO SHOW Emissora de Portugal, a SIC vai lançar um programa que só fala de conteúdo da Globo.’


 


Bia Abramo


Comédia romântica sofre com ‘tema’


‘Emplacar uma novela de cara tem sido uma tarefa bastante árdua nesse quadro geral de perda de audiência da Globo. Fazer isso com uma autora nova e um elenco sem muitas estrelas podem torná-la impossível.


Os dois primeiros capítulos de ‘Beleza Pura’ sugerem, entretanto, que desse quadro de condições adversas talvez possa surgir uma daquelas novelas que vão ganhando o espectador aos poucos. Talvez pelo fato de a autora Andrea Maltarolli estar estreando no horário das sete e no formato novela, as cenas iniciais mostraram despretensão e agilidade.


A trama é centrada num clichê de redenção moral e existencial: Guilherme, o engenheiro simpático-mas-individualista, interpretado por Edson Celulari, empreende uma jornada em direção ao bem depois de ter sua vida transtornada por uma fatalidade. Como prêmio, ele vai ganhar a mocinha da história, Joana, a médica vivida por Regiane Alves. No meio, serão atrapalhados por rivais amorosos -Renato, o médico apaixonado por Joana vivido por Humberto Martins, e a Norma (Carolina Ferraz), engenheira que quer conquistar Guilherme.


O modelo é das comédias românticas hollywoodianas e estaria bem se ficasse nas intrigas amorosas e na transformação existencial que o protagonista deve enfrentar.


Da estética para a ética


Mas o diabo é que se convencionou que as novelas devem ter um ‘tema’ -neste caso, segundo entrevistas da autora que antecederam a estréia, trata-se da ‘estética como um caminho para a ética’ ou algo assim-, e daí pode se temer pelos resultados.


Além de determinar um universo de forma inverossímil e artificial, essa ambição de ‘discutir’ temas contemporâneos acaba servindo de camisa-de-força para o desenvolvimento da narrativa. Os diálogos, que já não são bons, ficam piores, as questões são tratadas no seu nível mais raso etc. Na verdade, o melhor que se pode esperar é que o tema fique ali no fundo, como paisagem, e não atrapalhe muito.


De resto, é fiar-se na supervisão de Silvio de Abreu para garantir a qualidade dos núcleos ou personagens cômicos da novela. O salão de beleza almodovariano da personagem de Zezé Polessa e sua filha desmiolada, a perua obcecada por tratamentos estéticos da ótima comediante Maria Clara Gueiros, prometem.’


 


Eduardo Simões e Janaina Fidalgo


É imoral e engorda


‘A mulher de cabelos e olhos negros, seios fartos e corpo calipígio leva o dedo indicador até os lábios carnudos e, com a ponta da língua, lambe, lançando um olhar safado para a câmera. A mulher em questão não é nenhuma estrela de filme erótico. É Nigella Lawson, a cozinheira e apresentadora inglesa, musa maior do ‘food porn’, espécie de movimento de fetichização da comida -que vai da apresentação luxuriante dos pratos às apresentadoras de televisão. E faz sua cama em blogs de gastronomia, vídeos e comunidades na internet, a maioria em inglês.


A sensualidade da cena descrita acima é uma marca registrada de Nigella, que estréia mais um programa, ‘Nigella Express’, no dia 29 deste mês, no canal pago GNT. Afora lamber os dedos, a inglesa por vezes tem sua imagem desfocada no vídeo -como se desse ao espectador espaço para fantasias gastro-libidinosas. E não raro é permissiva e, num arroubo de gula noturna, deixa sua cama para fazer uma boquinha na geladeira. Ou até preparar algo como uma suculenta rabanada com calda de morango, receita exibida em seu novo programa.


Pronta para o forno


Casada com o publicitário Charles Saatchi, dono da galeria londrina que leva seu nome e apadrinhou artistas plásticos como Damien Hirst, Nigella é mãe de duas crianças e filha de Nigel Lawson, barão e ex-membro do parlamento britânico.


Em novembro do ano passado, a cozinheira deu entrevista à edição inglesa da revista ‘Esquire’. O jornalista que a entrevistou abriu a reportagem afirmando que, após apenas três minutos em sua companhia, já estava sofrendo de ‘sobrecarga sensorial’. Em parte por conta do ‘muffin de banana e manteiga de amendoim’ que ela oferecera. E, sobretudo, por seu ‘decote cavernoso’ e ‘pele de alabastro’, atributos que a fazem parecer ter 27, e não 47 anos.


Nigella, que aparece na ‘Esquire’ embalada num vestido tomara-que-caia de papel alumínio e é chamada de a ‘gostosa da culinária’, justifica seu sex appeal: ‘Eu não sou chef, então só posso cozinhar se experimentar. Realmente não entendo como outras pessoas cozinham sem provar, pois para mim meter o dedo e lambê-lo fazem parte do preparo. Além disso, quando você lida com comida, não está sempre exibindo sua natureza sensual?’, indaga.


O chef brasileiro Alex Atala, que em 2006 posou seminu na capa da revista ‘Trip’, diz que a gastronomia está atualmente no centro das atenções, e associá-la ao sexo vende bem. Para Atala, Nigella não chega a ser uma musa. Mas mistura volúpia, com sua ‘figura meio maternal’, e indulgência, ao ‘levantar no meio da noite só para comer um bolo de chocolate’.


‘Se pé pode [ser alvo de fetiche], por que comida não pode?’, questiona o chef, com uma ressalva para si mesmo. ‘No D.O.M. temos uma preocupação de sublinhar o prazer de comer, mas não os outros. O que a Nigella vende não é o sexo óbvio. Ela põe uma certa água na boca usando outros artifícios. É, literalmente, uma mulher de peito grande, não tem mais o que falar.’


Polpetone


Nigella não é a única musa do ‘food porn’. Nos Estados Unidos, a ítalo-americana Giada De Laurentiis, 37, neta do produtor Dino de Laurentiis e da atriz Silvana Mangano, também confunde os apetites do espectador em seus programas do canal Food Network. Loira de olhos azuis, formada pela famosa escola francesa Le Cordon Bleu, a chef também já fez ensaio sensual para a ‘Esquire’ lambuzada em molho de tomate, dando uma indefectível mordiscada nos dedos.


Em reportagem do ano passado, o jornal ‘New York Times’ comparou o visual de apresentadoras como Nigella e Giada ao estilo provocante e retrô de Marilyn Monroe. Se nos anos 60 as feministas queimaram seus sutiãs, agora é a vez dessas musas atearem fogo aos aventais e adotarem blusas com decote V, muito justas e curtas. Uma guarnição e tanto.’


 


‘FOOD PORN’ É ASSOCIADO À PUBLICIDADE


‘‘Food porn’ é a expressão em inglês para se referir à interseção entre gastronomia e pornografia. O termo é associado à publicidade, sobretudo nos Estados Unidos e no Reino Unido. Em 2003, foi usado pela primeira vez pelo Center for Science in the Public Interest (EUA) para se referir a uma linha de hambúrgueres de até 300 g da rede de fast-food Hardee’s. A expressão era uma crítica à negligência com a epidemia de obesidade entre os americanos. Na Inglaterra, o uso do ‘food porn’ é notório em comerciais de produtos da rede Marks & Spencer. Uma imagem recorrente é a de produtos ‘suando’ como pessoas.’


 


Folha de S. Paulo


Greve causou um prejuízo de US$ 2,5 bilhões


‘Um estudo do economista Jack Kyser, do Departamento de Economia de Los Angeles, mostra que a greve dos roteiristas causou um prejuízo de US$ 2,5 bilhões à economia da cidade. A paralisação, que começou em novembro do ano passado, se encerrou no início deste mês após acordo com o sindicato dos roteiristas.


Na conta do trabalho de Kyser, ele incluiu programas de TV que foram cancelados, produções de filmes adiadas e outros serviços, como o aluguel de limusines e o comércio em floriculturas, por exemplo.


Segundo o economista, o cancelamento do Globo de Ouro foi responsável por um prejuízo de US$ 60 milhões.’


 


200 ANOS
Marcos Strecker


Diário da corte


‘É uma espécie de ‘reality show’ histórico. A intimidade da corte de d. João 6º poderá ser parcialmente vivenciada no Museu Imperial de Petrópolis (RJ) a partir de sábado, em um dos principais eventos programados para as comemorações dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil.


Não é exatamente um ‘Big Brother’, mas objetos pessoais e um navio cenográfico prometem dar uma experiência mais pessoal e cotidiana do que significava o universo da corte lusitana no início do século 19, a única que realizou a experiência singular de se transferir para sua colônia. No caso, para fugir às pressas da ameaça das tropas napoleônicas.


São duas exposições: ‘Travessias – Relatos Trágico-Marítimos da Passagem do Atlântico pela Corte Portuguesa e Outros Navegantes (1807-1808)’ e ‘Sonhos: Os Projetos e Feitos de um Príncipe Clemente e Inteligente, que Queria Ficar no Brasil para Sempre’.


A reprodução do navio ficou a cargo do cenógrafo Pedro Girao. Como subsídio para as exposições, a diretora do Museu Imperial Maria de Lourdes Parreiras Horta utilizou objetos e documentos representativos de época.


Como destaque, uma das jóias do acervo do museu, o livro ‘Exposição Analítica e Justificativa da Conduta e Vida Pública do Visconde do Rio Seco’, de Joaquim José de Azevedo, nobre português encarregado por d. João 6º de preparar a viagem da família real ao Brasil em 1807. O livro de 1821, que foi agora transcrito na íntegra, é uma tentativa de limpar a imagem do visconde, já que ele virou um dos grandes símbolos da corrupção e roubalheira do período joanino.


Documento conhecido dos historiadores do período, mas raro (há um exemplar na seção de obras raras da Biblioteca Nacional), é uma aula de como funcionavam os bastidores da corte, da transferência ao Brasil até o retorno de d. João 6º a Portugal, em 1821.


‘O visconde do Rio Seco era muito rico, é o homem que coordenou a transmigração da corte e da Coroa e estava sendo acusado de desvio de dinheiro. O documento é um libelo de autodefesa ‘ultra-atual’ para o Brasil, em que ele relata todos os serviços que prestou à coroa’, diz Maria de Lourdes Parreiras Horta.


Carlota Joaquina


Também estarão na exposição os códices secretos de Carlota Joaquina. Livros encadernados em couro, eles trazem a transcrição da correspondência em que ela mostra sua conhecida verve venenosa contra o marido e seus oponentes nas intrigas palacianas. E, como objeto pessoal do príncipe regente, um dos destaques é a camisola de cambraia de d. João 6º, uma espécie de parangolé ‘avant la lettre’, que vai ter destaque no prédio principal do museu de Petrópolis, conhecido por obrigar seus visitantes a usar pantufas.


Já a obra de Pascoe Granfell Hill, ‘Cinqüenta Dias a Bordo de um Navio Negreiro’, é um relato da experiência a bordo dos navios negreiros. Também pertencente ao acervo do museu, o livro já foi publicado pela José Olympio.


Escrito a partir de uma missão da Marinha britânica enviada para interceptar um navio negreiro, foi incluído na exposição para ampliar a percepção do que significava a experiência da travessia do Atlântico no século 19 e para lembrar que o Rio de d. João 6º já era um dos grandes portos escravagistas das Américas.


A diretora do museu, um dos mais populares do Brasil, está entre os historiadores que procuram dar uma estatura de estadista para d. João 6º. As exposições foram organizadas com essa percepção. A instituição lança este ano um DVD com todo seu acervo iconográfico ligado a d. João 6º (mais de 50 imagens, além de documentos).’


 


Visconde do Rio Seco ficou conhecido pela corrupção


‘É em ‘homenagem’ ao visconde do Rio Seco que se popularizaram provérbios como ‘quem pouco furta é ladrão, quem muito furta, barão’. Ele tornou-se um dos homens mais ricos do Brasil e ocupou diversos cargos de confiança de d. João 6º, inclusive como diretor do Banco do Brasil (que foi fundado em 1812 e já estava quebrado em 1820). Virou sinônimo de maracutaia.


Foi o encarregado de organizar às pressas a travessia da corte para o Brasil quando as tropas de Napoleão já avançavam em direção a Lisboa.


O livro de Rio Seco resgatado pelo Museu Imperial mostra o caráter da administração pública no período e é um exímio jogo de empurra, nesse caso para as costas de d. João, que já estava longe no período da publicação (1821). Começa com os preparativos da viagem, quando ele foi encarregado de distribuir os nobres nos navios e a população tentava entender (e era desinformada) sobre a movimentação da corte. Curiosamente, o próprio Rio Seco quase ficou para trás. Para Jurandir Malerba, autor de ‘A Corte no Exílio’, o livro é um importante material de consulta e foi muito trabalhado desde o clássico ‘D. João 6º no Brasil’, de Oliveira Lima (1867-1928).’


 


 


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O Estado de S. Paulo


Quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008


IMPRENSA NA JUSTIÇA
O Estado de S. Paulo


Apoio à intimidação da imprensa


‘O presidente Lula pode ser perdoado por não saber, talvez, o que são liberdades negativas. Cunhada por um dos mais notáveis filósofos políticos do século 20, Isaiah Berlin (1909-1997), a expressão designa, entre outras, a liberdade de não sofrer abusos ou de não ser intimidado. Nas sociedades abertas, elas fazem par com as liberdades positivas, a começar daquela da qual dependem todas as demais – a liberdade de expressão. Já o que não se pode perdoar a Lula é a sua solidariedade, acondicionada em transparente hipocrisia, aos atos intimidatórios desencadeados contra a Folha de S.Paulo e outros jornais pela Igreja Universal do Reino de Deus, ou, nominalmente, pelos seguidores do notório fundador da seita, o autoconsagrado bispo Edir Macedo. Para a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), trata-se de uma campanha coercitiva sem precedentes no País.


A pretexto de serem ressarcidos por alegados prejuízos morais – demandando valores suspeitamente modestos, não superiores a R$ 10 mil -, ‘pastores e fiéis’, como que em iniciativas distintas, mas com textos praticamente idênticos, pediram a abertura de 56 ações em 56 municípios espalhados pelo País. A orquestração foi caracterizada pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) como ‘uma iniciativa capciosamente grosseira e que afronta o Poder Judiciário, já que pretende usá-lo com interesses não declarados’. Não por outro motivo, dois dos cinco juízes que até agora se manifestaram sobre as petições, todos se recusando a acolhê-las, condenaram os seus autores por litigância de má-fé. Foi essa a ‘estréia’ da represália do ‘bispo’ Macedo, por interpostas pessoas, a uma reportagem da jornalista Elvira Lobato, publicada em 15 de dezembro na Folha, sobre o seu ‘império empresarial’.


Direta ou indiretamente, apontava a reportagem, ele é o maior detentor de concessões na mídia eletrônica brasileira – são 23 emissoras de TV, entre elas a geradora da Rede Record, e 40 de rádio. A elas se somam 19 outras empresas diversas. A extensão financeira do conglomerado, registrada no paraíso fiscal de Jersey, no Canal da Mancha, serviria para esquentar os dízimos recebidos pela Universal. Se a igreja e o seu fantasticamente bem-sucedido CEO pedissem a abertura de processo contra o jornal e a jornalista, no foro apropriado, seria um caso legítimo de quid pro quo. Nessa hipótese, o presidente Lula estaria certo ao dizer que ‘a liberdade de imprensa pressupõe isso’. Mas ele sabe que a liberdade de imprensa não pressupõe que a parte atingida responda com ações simultâneas em 20 Estados. ‘Isso’ é uma tentativa torpe de amordaçar os meios de comunicação sob a capa de uma busca legítima de reparação pela via judicial.


Ora – mais uma vez a pergunta se impõe -, a quem o presidente pensa que engana? Ele e Edir Macedo são aliados que confraternizam ostensivamente. O braço político da Universal, o PRB, faz parte da coalizão lulista. A ele é filiado o vice José Alencar. E por aí se chega à essência da questão. A ameaça de fundo à liberdade de imprensa – e à democracia que, segundo Lula, a avalanche de ações retaliatórias ‘vai consolidando no Brasil’ – reside na apropriação de um bem público, o espaço por onde trafegam os sinais de rádio e TV, por emissoras confessionais a serviço do interesse político de seus controladores. A concentração de poderes midiáticos em mãos de supostos salvadores de almas – que, de resto, se comportam como adeptos de Mammon, o deus pagão do dinheiro – não é menos nociva do que o chamado coronelismo eletrônico das oligarquias políticas regionais.


Onde a separação entre Estado e Igreja é um princípio inerente à ordem constitucional, como é o caso do Brasil, governo algum tem o direito de prestigiar um grupo político indissociável de uma entidade religiosa. Mas é o que faz, sem tirar nem pôr, o governo atual. É de pasmar a indiferença, ou a cumplicidade, do presidente da República com os golpes desferidos contra órgãos de mídia para lhes causar transtornos tais que possam induzi-los no futuro a hesitar a expor, a bem do interesse da sociedade, a face oculta de figuras e organizações que se nutrem da (ingênua) confiança popular. O lulismo já demonstrou antes que não é bem um baluarte da liberdade de imprensa. Agora, Lula foi além das tamancas.’


 


Moacir Assunção e Paulo Darcie


Juízes e OAB criticam ações da Universal contra jornais


‘A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) criticaram duramente ontem a multiplicação de ações judiciais de fiéis e pastores da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) contra empresas jornalísticas e repórteres. O presidente da AMB, Airton Mozart Valadares, considera ‘inadmissível’ que a Iurd tente usar o Judiciário para atingir a liberdade de expressão e de imprensa. ‘O que se busca não é justiça, mas sim intimidação por meio de pressão econômica’, completou o presidente nacional da Ordem, Cézar Britto


‘Tenho convicção de que o Judiciário não vai ser um instrumento para quem queira utilizá-lo para combater a democracia e vai inibir esse tipo de iniciativa’, afirmou Valadares, em referência às ações abertas por seguidores da Universal contra os jornais Folha de S.Paulo, Extra e A Tarde e contra os jornalistas Elvira Lobato, Bruno Thys e Valmar Hupsel Filho. Eles têm sido processados em todo o País, em cidades de difícil acesso, com alegações de teor idêntico, o que sugere orquestração.


Segundo frisou o líder da AMB, qualquer cidadão tem o direito de procurar o Judiciário, mas as ações dos fiéis demonstraram uma articulação que tenta usar o Judiciário para atingir fins distintos da reparação de danos à imagem. ‘Temos instrumentos como, por exemplo, a denúncia da litigância de má-fé, para evitar que qualquer pessoa ou instituição pensem em usar o Judiciário para atingir objetivos escusos.’


A reação do Conselho Federal da OAB veio por meio de nota, assinada por Britto. Ele concorda com Valadares, na avaliação de que tudo indica uma ação orquestrada. ‘Deixa claro que o que se busca não é justiça, mas o estabelecimento de forma oblíqua de censura, por meio de pressão econômica.’


ENTIDADES


Um dia após as críticas da Associação Nacional de Jornais (ANJ), as entidades do setor jornalístico continuam se manifestando. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro se posicionaram ontem por meio de uma nota conjunta, na qual apelam aos juízes e ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) ‘no sentido de alertá-los para ações que se multiplicam a fim de inibir o trabalho dos jornalistas’.


O vice-presidente da Fenaj, Celso Schröder, disse que os jornalistas não devem aceitar a censura prévia que ações dessa natureza tentam criar. ‘Também é profundamente condenável que a imprensa passe a refletir a visão somente de um grupo político ou religioso’, frisou.


OFENSAS


A advogada da Universal, Adriana Guimarães Guerra, explicou, em entrevista à Rede Record, que a igreja entrou com duas ações contra a Folha, nos âmbitos cível e criminal, por se considerar ofendida com uma reportagem sobre o destino do ‘dízimo’.


‘O que incomodou a igreja foi a insinuação da jornalista (Elvira Lobato) de que o dinheiro das doações, o dízimo, é esquentado em paraísos fiscais’, disse. Adriana contou que o departamento jurídico da Iurd deu orientação aos fiéis que se sentiram ofendidos – o que explica a similaridade das ações.


O advogado Raul Ferri, que representa dez fiéis da Iurd no Rio Grande do Sul, afirmou que a reportagem da Folha ultrapassou os limites da liberdade de imprensa. ‘Um jornal não pode publicar uma matéria baseado no que pensa o jornalista ou no que ouviu dizer.’


Elvira disse que em nenhum momento questionou a idoneidade dos fiéis, como sugerem as ações. ‘Nunca disse que o dinheiro deles era sujo. Acredito que os fiéis terão serenidade para entender que não fiz nenhuma crítica direta à Igreja em minha reportagem, que só relata extensa pesquisa em cartórios e juntas comerciais.’


Outro processado, Valmar Hupsel Filho, de A Tarde, diz que tratou com isenção sobre a destruição de uma imagem de 300 anos de São Benedito por um desempregado que se disse seguidor da Universal.’


 


Dora Kramer


Assim não é como lhe parece


‘O presidente Luiz Inácio da Silva pode estar apenas mal informado, mas pode ser também que esteja mal intencionado quando confere ares de naturalidade democrática à ofensiva orquestrada pela Igreja Universal do Reino de Deus contra os jornais Folha de S. Paulo e Extra e contra a agência A Tarde, da Bahia.


Todos eles, em particular a Folha, com reportagens de Elvira Lobato, publicaram material investigativo sobre as atividades que resultaram na formação de um império empresarial e de comunicação comandado por Edir Macedo, dito bispo da Universal.


‘Se a Igreja Universal utilizou o Poder Judiciário, ela está utilizando um dos pilares da democracia’, disse o presidente da República, cujo vice, José Alencar, pertence ao partido (PRB) que dá sustentação parlamentar à igreja, o negócio original mediante o qual Edir Macedo começou a construir seu imenso patrimônio.


Proposital ou involuntariamente, não está claro, o presidente confunde as coisas e acaba por usar os mesmos argumentos da ditadura que levaram o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC à intervenção nos anos 80 e puseram seu presidente à época, Luiz Inácio da Silva, alguns dias na prisão. As Leis de Segurança Nacional e de Greve serviram de embasamento jurídico para o ato, eram ‘pilares da ditadura’.


A Lei de Imprensa invocada agora, no auge do furor judicante da tropa mobilizada pelo dito bispo País afora, é outro pilar de sustentação, não da democracia, como acredita – ou diz acreditar – o presidente, mas do arcabouço remanescente do autoritarismo.


Ao pleitear as indenizações e punições previstas nessa legislação e por diversas vezes já consideradas em tribunais superiores desproporcionais às previstas para os cidadãos em geral no Código Penal e outros dispositivos, a Universal visa mais que a obter reparação. Quer instituir um padrão de intimidação aos veículos de comunicação.


Daí a impropriedade de o presidente da República associar-se ao mau combate. Abstrair-se de discernir entre o que seja recurso natural à Justiça e tentativa de fazer daquelas ações em curso um combate à liberdade de imprensa e, por conseqüência, um ataque ao direito da sociedade de se informar sobre a construção de um império político, comercial, religioso e de comunicação.


Assim como não é ‘normal’ – como já disse Lula – que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, imponha o fim das atividades de uma rede de televisão privada que exerce sua obrigação crítica sob o argumento do fim da licença de concessão, não é democrático que um empresário tente restringir investigações sobre suas atividades. Mais inaceitável ainda que o chefe de uma nação na vigência das liberdades empreste seu prestígio a esse ato.


Melhor proveito o presidente faria de sua alta popularidade se a usasse para, por exemplo, se aliar à luta do deputado Miro Teixeira em prol da revogação da Lei de Imprensa e esclarecer a população sobre o ganho à coletividade.


Não só a ele, que dispõe da prerrogativa da exceção da verdade na Lei de Imprensa, que impede o processado de produzir provas sobre a veracidade de suas afirmações e nutre notório desconforto com a atuação da imprensa, não parece interessar o enterro do entulho. Ao Parlamento também.


Há dez anos, o senador Jefferson Péres conseguiu aprovar no Senado um projeto revogando a Lei 5.250, de 1967. O assunto foi para a Câmara e lá dorme até hoje sem padrinho, pois aos políticos a Lei de Imprensa serve como instrumento de exceção, já que trata jornalistas e veículos de comunicação como inimigos da Nação.


Exatamente como fazia a ditadura com os cidadãos em geral, quando os submetia aos ditames da Lei de Segurança Nacional, e aos trabalhadores em particular, quando subtraia seu direito à reivindicação salarial mediante a Lei de Greve.’


 


TELES
O Estado de S. Paulo


Evitando constrangimentos


‘Veio a calhar para o governo Lula a iniciativa da Associação Brasileira de Concessionárias de Serviço Telefônico Fixo Comutado (Abrafix) de apresentar à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) um pedido de mudanças nas regras de operação do setor. O pedido deu início ao processo de discussão das mudanças na legislação das telecomunicações, necessárias para que se conclua a compra da Brasil Telecom (BrT) pela Oi, negócio pelo qual o governo Lula vem demonstrando interesse especial.


As mudanças precisam obedecer a um rito. O primeiro passo é apresentar à Anatel um pedido de mudança na legislação, ou seja, é preciso provocar o órgão regulador das telecomunicações. Depois, a Anatel consulta o Ministério das Comunicações para saber se há interesse em mudar as regras. Se o Ministério concordar, inicia-se a análise técnica do pedido. Depois, ele é submetido à análise jurídica para, em seguida, ser aberto à consulta pública. Por fim, será encaminhado ao presidente da República, que decidirá se fará ou não as mudanças.


Até agora, o usuário dos serviços não foi consultado. Apenas se manifestaram sobre o assunto empresas de telefonia fixa, controladores de operadoras de telefonia celular, sócios de empresas de televisão por assinatura e, claro, o governo – que, evidentemente, deseja as mudanças. Por isso, as coisas caminham com rapidez.


A Anatel encaminhou o pedido ao Ministério, que rapidamente enviou ofício ao órgão regulador pedindo-lhe que elabore uma proposta de mudança do Plano Geral de Outorgas, que atenda ao pedido da Abrafix e permita a compra da BrT pela Oi. Os argumentos apresentados pela Abrafix à Anatel – as mudanças tecnológicas ocorridas nos últimos dez anos e a transformação do mercado brasileiro de telecomunicações – dão fundamentação técnica a uma iniciativa que tem nítida motivação política. Com seu pedido, a entidade representativa das operadoras de telefonia fixa evitou que o governo Lula passasse pelo constrangimento de propor mudanças legais para facilitar um negócio privado envolvendo uma empresa, a Oi, que fez polpudo investimento na empresa Gamecorp, da qual é acionista Fábio Luiz da Silva, filho do presidente da República.


O presidente estaria preocupado com a repercussão que teria um decreto presidencial baixado só para tornar legal uma operação na qual o principal envolvido é patrocinador de seu filho. Como mostramos em editorial publicado domingo, reportagem recente da revista Piauí, sobre as atividades de José Dirceu como consultor internacional, fazia referência a uma queixa do ex-ministro da Casa Civil, ao presidente da República, sobre as atividades empresariais do seu filho. Em artigo na Folha de S.Paulo do dia 13, Dirceu negou que tenha dado essa informação à revista, mas foi desmentido no dia seguinte, no mesmo jornal, pela autora da reportagem.


O governo tem dito que seu interesse nesse negócio se deve à necessidade de constituição de uma empresa nacional com porte para enfrentar a concorrência de gigantes estrangeiras, como a espanhola Telefónica e a mexicana Telmex (controladora da Embratel e da Claro e sócia das Organizações Globo na operadora de TV a cabo Net). É curioso que empresas que sofreriam a maior concorrência, como é o caso da Telefônica, também estejam interessadas em apressar o negócio. Essas empresas são filiadas à Abrafix, que provocou o início do debate legal das mudanças nas regras do setor de telecomunicações.


O fato é que todas esperam ganhar com as mudanças. Obviamente, as primeiras interessadas são a Oi e a BrT. A Telefônica, que tem 50% do capital da Vivo, é sócia no exterior da controladora da TIM e gostaria de unificar as operações das duas empresas no Brasil, o que não é permitido pelas regras atuais. A Telmex, cujas empresas no Brasil não fazem parte da Abrafix, tem interesse na TV a cabo e gostaria de otimizar a utilização de sua infra-estrutura. Todas as operadoras querem ampliar suas áreas de atuação combinando transmissão de voz, dados e imagens.


Não está claro o interesse do governo nas mudanças, já que o aumento da concorrência – principal argumento oficial – não é certo. O que parece claro é que esse interesse é partilhado por José Dirceu.’


 


PARANÁ
Evandro Fadel


TRF multa Requião em R$ 200 mil


‘O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) manteve ontem o impedimento para o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), fazer promoção pessoal e críticas a autoridades, adversários políticos e imprensa, por meio da Rádio e Televisão Paraná Educativa. Eles também determinaram que o governador pague multa de R$ 200 mil, pois teria descumprido a decisão anterior.


O parecer dos desembargadores responde a ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal. O procurador-geral do Estado, Carlos Frederico Marés, afirmou que vai recorrer da decisão.’


 


TV PÚBLICA
Luciana Nunes Leal


Oposição tenta derrubar emendas da TV pública


‘A oposição fará uma ofensiva para acabar com a possibilidade de contratação temporária sem concurso público e para derrubar a contribuição que dará em 2008 mais R$ 150 milhões à TV Brasil, nova emissora pública que está no ar desde dezembro. Além desses esforços, os oposicionistas tentarão retirar parágrafo que dispensa licitação em dois casos: para firmar parcerias com entidades públicas ou privadas que explorem serviços de comunicação ou radiodifusão e para que a Empresa Brasileira de Comunicação (nome oficial da TV pública) seja contratada por instituições da administração pública, ‘desde que o preço seja compatível com o de mercado’.


As três emendas à medida provisória serão defendidas pelo DEM e pelo PSDB, na sessão marcada para a manhã de hoje. Como dificilmente haverá quórum, o mais provável é que a votação aconteça na terça-feira.


No caso da contratação sem concurso, Antônio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) diz que, embora temporária, a MP ‘garante emprego durante todo o governo Lula’. Para o tucano Luiz Carlos Hauly (PR), o máximo de contrato temporário deveria ser por um ano e ‘nada impede o governo de mandar uma mensagem tornando os empregos permanentes’.


Os petistas sustentam que a contratação sem concurso se justifica como caso de necessidade excepcional de interesse público, previsto em lei. ‘Não poderia haver paralisação nesta fase de implementação da empresa’, diz Maurício Rands (PE).


Em relação à licitação, a oposição rejeita dispensa para a contratação, embora o objeto seja principalmente divulgação de campanhas de serviço público. O argumento é que a Constituição proíbe privilégio de empresas públicas sobre privadas.


Para acabar com a contribuição de fomento, que será obtida com a transferência de 10% dos recursos do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações para a TV pública, o DEM argumentará que se trata de criação de novo imposto, o que não poderia ser feito por MP.’


 


Clarissa Oliveira


R$ 500 mi compram 2,5 mi de cestas


‘Com os R$ 500 milhões que irão para a TV Brasil, o governo Lula poderia estender a 718.390 famílias, por um ano, o benefício básico de R$ 58 pago mensalmente a participantes do Bolsa-Família. Isso ampliaria em 6,47% a abrangência do programa.


Os R$ 500 milhões seriam suficientes para distribuir 2,5 milhões de cestas básicas, se o preço médio de cada cesta for de R$ 200. E representam dois terços do que o governo está investindo na construção de 150 escolas técnicas.


Na área de transporte aéreo, o valor permitiria repetir, com sobra, o gasto de R$ 390 milhões na expansão do Aeroporto Santos Dumont (RJ).’


 


RENÚNCIA DE FIDEL
Carlos Alberto Montaner


A História jamais absolverá ‘el comandante’


‘Fidel Castro decidiu morrer como ex-presidente. Não agüenta mais. Depois de meio século gloriosamente vestido de verde oliva, disfarçado de guerrilheiro heróico, é muito difícil governar um país de moletom, sentado em uma cadeira de balanço.


O saldo destes cinqüenta anos é pavoroso. Não há como a História absolvê-lo. Isso é impedido pelos dois milhões de exilados, milhares de presos políticos, fuzilamentos, a ausência absoluta de liberdades em Cuba, as famílias destroçadas, e o maior fracasso material da história das ditaduras latino-americanas. Quase todos os regimes tirânicos, do paraguaio Alfredo Stroessner ao nicaragüense Somoza, foram corruptos e injustos do ponto de vista social, mas deixaram seus países mais ricos. Em Cuba foi diferente. Como conseqüência do torpe governo de Fidel Castro e do sistema comunista imposto ao país (responsável pela improdutividade quase assombrosa da ilha), os cinco itens que medem a qualidade de vida da população pioraram: alimentação, habitação, vestuário, transporte e comunicações. Hoje, além da ideologia, a vida em Cuba é um pesadelo insuportável.


Nada ocorreu de bom nesse período? Sim: o país dispõe de 800 mil profissionais, entre eles 65 mil bons médicos, para uma população de 11 milhões de habitantes. Mas esse dado, longe de eximir Fidel de culpa, o incrimina duramente. Só um governante minuciosamente incompetente pode manter na pobreza uma sociedade que conta com semelhante capital humano. Em todos os cantos do planeta os profissionais fazem parte da classe média e vivem com certo nível de conforto. Em Cuba eles vegetam sem esperança e em meio a uma imensa pobreza.


Creio que o general Raúl Castro acredita neste diagnóstico e deseja melhorar a vida dos cubanos. Raúl não tem, como Fidel, uma visão ideológica dos problemas sociais, mas sim uma visão prática. Antes dos 20 anos, depois de uma breve viagem de ‘turismo revolucionário’ ao Leste Europeu, tornou-se comunista por uma admiração ingênua da União Soviética, mas não por ter lido os textos da doutrina. Tem pouca densidade teórica o que, paradoxalmente, o torna mais humano. Raúl está mais perto do administrador do que do comissário. Desde 1959 comanda as Forças Armadas, instituição que, dentro do caos do país, funciona razoavelmente bem.


Raúl de fato vai empreender uma cautelosa reforma econômica. Quais serão as mudanças? Primeiro, mais espaço para os trabalhadores autônomos e pequenas empresas privadas que ofereçam os serviços que o Estado não pode proporcionar. Segundo, autorização para que os cubanos possam vender ou comprar livremente casas e automóveis. Terceiro, permitir a saída e entrada no país.


Não está prevista uma reforma política na direção da democracia, mas sim a libertação progressiva dos presos políticos e uma maior tolerância à dissidência interna, acompanhada de um clima mais aberto dentro do Partido Comunista, para que os camaradas possam examinar os problemas que afligem o país, sem serem perseguidos por isso. É provável, também, que Raúl cancele os ‘atos de repúdio’, violentos pogrons contra os democratas, e renuncie ao clima de confronto internacional, encenado pelo seu irmão desde o primeiro dia de governo. Seus dois grandes e secretos objetivos são fazer a paz com os EUA e conseguir tornar auto-suficiente a economia da ilha.


Por quê? Raúl, com seus 76 anos, sabe que não tem muito tempo para conseguir revitalizar a economia e fortalecer as instituições, destroçadas pelo peso de Fidel, para dotar o país de um meio legítimo de transmissão da autoridade, quando ele também sair de cena. O último presente envenenado que lhe deixou Fidel era a liderança fictícia de Hugo Chávez, com a sugestão de uma união entre as duas nações, mas a derrota sofrida pelo venezuelano no referendo de dezembro deixou clara a precariedade e o descrédito da revolução bolivariana. Raúl não ignora que colocar o destino nas mãos de Chávez, como desejava Fidel, mais do que uma estupidez seria uma irresponsabilidade suicida.


Que fará Fidel a partir de agora? Certamente, apoiará os chamados talebans, o setor mais stalinista, atuando como um franco-atirador, sabotando as reformas com seus comentários, convencido de que a humanidade espera ansiosa suas declarações de excelsa sabedoria para compreender a realidade. Assim são os narcisista, inclusive com um pé na cova. Como se disse tantas vezes: as pessoas são o que são até morrer.


*Escritor cubano exilado em Madri, escreveu este artigo para Firmas Press’


 


Roberto Lameirinhas


Renúncia é tabu na ilha de Fidel


‘Havana – Em Cuba, a palavra ‘renúncia’ é quase um tabu. Nos programas das emissoras oficiais de rádio e TV e nos poucos pronunciamentos de autoridades sobre a histórica decisão de Fidel Castro de afastar-se definitivamente do poder, fala-se em ‘recusa do ?comandante? a aceitar sua escolha para a presidência do Conselho de Estado’. Na lógica explicitada pelo discurso oficial, Fidel é um ‘revolucionário’ e os revolucionários não renunciam nunca.


As ruas de Havana permanecem em silêncio, quase apáticas, em relação à carta de terça-feira, na qual o homem forte do país há 49 anos anunciou sua retirada da linha de frente do governo para tornar-se uma espécie de guardião ideológico de sua revolução. Segundo os poucos cubanos que concordaram em falar com a reportagem do Estado na ilha, essa apatia se explica por duas razões principais. A primeira deve-se ao fato de que há mais de um ano e meio Fidel já estava afastado da cena política – pelo menos, oficialmente -, enquanto seu irmão Raúl Castro liderava o regime com a mesma ortodoxia política e quase nenhum sinal de disposição para uma abertura econômica real. Para muitos cubanos, a carta de Fidel nada mais é do que a formalização de uma situação de fato. Existe ainda a clara percepção de que, mesmo afastado do cargo, Fidel segue ditando as regras do regime.


A outra razão é a quase certeza de que nada muda no país. ‘Será uma surpresa se (na reunião da Assembléia Nacional de domingo) o Partido Comunista escolher alguém da geração posterior à revolução para a presidência do Conselho de Estado’, disse Alfredo (nome fictício), economista formado pela Universidade Nacional que faz ‘bico’ oferecendo-se como guia de turismo nos hotéis de Havana para tentar cobrir o orçamento da casa onde vive com a mulher e três filhos.


Raúl é o favorito para assumir o posto, que, na prática, já ocupa desde 31 de julho de 2006, quando Fidel lhe transferiu o poder e anunciou que sofria de uma doença intestinal. Os mais jovens – o secretário-executivo do Conselho de Ministros Carlos Lage e o chanceler Felipe Pérez Roque – correm por fora na eleição, mas não se descarta a possibilidade de que ampliem seu papel no regime (veja quadro com os possíveis candidatos à sucessão).


Uma análise comum em Havana é a de que o PC opte pela manutenção de Raúl na chefia do Estado para que o impacto político-psicológico da renúncia de Fidel seja reduzido. A mensagem implícita seria a de que a revolução segue em seu rumo, apesar do afastamento de seu principal personagem. Numa etapa posterior, a jovem guarda do partido assumiria as rédeas do regime, com a ascensão de um líder teoricamente menos avesso a uma limitada abertura econômica e a uma eventual reaproximação com dos EUA. De todo modo, qualquer avanço nessa direção só seria viável após a morte de Fidel.


‘A estagnação econômica de Cuba chegou a um ponto que, se por milagre o PC decidisse mudar os rumos da economia e abrisse os mercados do país como foi feito na China, por exemplo, ainda levaria alguns anos para que os benefícios chegassem à população’, disse Alfredo. ‘Em primeiro lugar, porque é um mito imaginar que os investidores estrangeiros estão impacientes para entrar aqui. A economia de Cuba é uma ficção e, entre os 11 milhões de cubanos, pouco mais de 10% têm poder real de consumo. Apesar da qualificação da mão-de-obra, qualquer empresa que decidisse, por exemplo, instalar uma planta industrial em Cuba teria de esperar anos até que se formasse um mercado capaz de consumir seus produtos.’


Além disso, de acordo com o economista, a infra-estrutura do país está sucateada. As termoelétricas que consomem quase todo o petróleo enviado pela Venezuela de Hugo Chávez são suficientes apenas para deixar as principais cidades do país à meia luz. As estradas são ruins, não há rede ferroviária e os principais portos operam no limite da capacidade. O serviço de telefonia é precário e o acesso à internet, em cumprimento do interesse do próprio Estado, é difícil e limitado.


‘Há cerca de 20 anos, quando a URSS ainda existia e patrocinava Cuba como uma vitrine do comunismo e o bloqueio comercial dos EUA era visto como a causa das dificuldades econômicas, a maior parte dos cubanos orgulhava-se da revolução e de seus líderes’, afirma outro cubano, sob a óbvia condição de não ter seu nome publicado. ‘Hoje, essa realidade é completamente diferente e há uma vasta geração de cubanos que se sente enganada pelo regime. A população de Cuba é hoje formada por um exército de dissidentes não assumidos.’’


 


TV DIGITAL
O Estado de S. Paulo


Costa anuncia conversor a R$ 180


‘O ministro das Comunicações Helio Costa recebeu um grupo de empresários da Zona Franca de Manaus que prometeu colocar em 60 dias no mercado conversores de TV digital a R$ 180. Segundo ele, esse conversor será produzido pela indústria Proziew. ‘Estamos a caminho da popularização da TV digital’, disse o ministro, após participar de solenidade no Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro disse ainda que a expectativa dele é de que até o fim do ano o conversor estará custando R$ 100.’


 


PUBLICIDADE
Marili Ribeiro


Brasil já tem seu time de jurados em Cannes


‘Há pelo menos um jurado brasileiro em cada uma das dez categorias que serão premiadas este ano no maior encontro global da propaganda, o Festival Internacional de Publicidade de Cannes. O evento, que chega este ano à 55ª edição, será realizado entre 15 e 21 de junho, na Riviera Francesa. No total, serão 11 publicitários do País integrando os dez júris do evento. Na categoria Cyber Lions, que contempla os melhores trabalhos criados para a mídia online, dois brasileiros fazem parte do júri.


O Brasil também volta a ter um representante na categoria Titanium & Integrated, que julga os trabalhos publicitários capazes de aplicações inovadoras em diferentes plataformas, da mídia tradicional – TV, jornais e revistas – às móveis e online, como internet e celular. No ano passado, o Brasil ficou de fora desse júri.


Sérgio Valente, presidente da agência DM9DDB, será o representante brasileiro na categoria e se diz desafiado pela tarefa. ‘Vamos julgar mais do que peças publicitárias, vamos analisar verdadeiros ?cases? que são um indicativo de para onde caminha a publicidade mundial’, diz. ‘Todas as outras categorias julgam o passado. Titanium julga o futuro.’


Como aconteceu nas últimas edições, um brasileiro está entre os presidentes de júri. Este ano, a função coube a Márcio Salem, da Salem Propaganda. Ele comandará a Direct Lions, categoria que julga as melhores soluções em ações de marketing direto.


A edição 2008 traz novidades que, na opinião do diretor de Mercado Anunciante do Grupo Estado, Claudio Santos, merecem menção. A de maior peso é a criação da categoria Design, que avaliará a criação de embalagens e identificação de marcas. Outra mudança é o fato de a categoria Filmes ter se desmembrado em duas: filmes feitos para televisão e cinema e os produzidos para outros canais.


‘Vale lembrar, ainda, que as peças da categoria Rádio não poderão mais ser adaptadas para o inglês. Terão de sofrer apenas tradução literal para o idioma’, explica Santos. ‘As versões acabavam prejudicando, porque nem sempre eram compreendidas.’


O jornal O Estado de S. Paulo é o representante oficial do evento no Brasil. Em 2007, o Brasil esteve presente no maior acontecimento mundial do meio publicitário com 2.203 peças, concorrendo às várias categorias em disputa, e contou com 440 delegados inscritos. No total, o Festival no ano passado teve 25.559 peças concorrendo a prêmios e 9.153 delegados. O Brasil conseguiu 30 Leões na última edição.’


 


FOTOGRAFIA
Simonetta Persichetti


Magnum, 60 anos a serviço do olhar livre


‘São 50 imagens de alguns dos integrantes da agência francesa Magnum, que completou 60 anos em 2007. E é a primeira vez que vão ser vistas no Brasil. A exposição Magnum 60 Anos, que começa hoje, com curadoria de João Kulcsár, foi dividida em quatro temas principais: A Tradição da Magnum; Retratos; Novas Perspectivas, Fotografia Documental Contemporânea; e Magnum Motion. Divisão estranha para um grupo que sempre quis se esquivar de etiquetas, amarras ou limitações estéticas. Na história da fotografia, a agência passou de lenda a sonho, de mito a história.


Dois anos após o fim da Segunda Guerra, quatro fotógrafos já habituados a ver suas imagens nas principais revistas do mundo, como Life, Paris Match e Vu, decidem montar uma agência fotográfica. Os quatro mosqueteiros eram Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, David ‘Chim’ Seymour e George Rodger. Fotógrafos de nacionalidades e estilos diferentes. A única coisa que os unia era a paixão pela fotografia. Muito mais do que agência fotográfica, a Magnum trabalhava como cooperativa, com total liberdade para que os participantes pudessem desenvolver de forma livre seus projetos. Hoje, com cerca de 80 fotógrafos associados, mais de um milhão de fotos, 100 livros publicados e mais de 120 exposições ao redor do mundo, a história da Magnum se confunde com a de seus fundadores. Seus registros também estão ligados a um tempo de guerras, transformações políticas e sociais do mundo. Os fotógrafos da Magnum estiveram presentes no Vietnã, nas manifestações pela paz nos EUA, nos movimentos estudantis em Paris de 68, na Primavera de Praga, nas guerras e guerrilhas latino-americanas, como El Salvador e Nicarágua. O espírito era o de ser o olho do leitor, transformar a imagem em foco de discussão, privilegiar a ação ao personagem, dar a impressão do tempo correndo, do imediato. O projeto era aprofundar uma estética iniciada nos anos 30, na Alemanha, por Erich Salomon, pai do fotojornalismo moderno, que trouxe a idéia do instantâneo, da imagem-átimo. Nos anos 30, porém, o equipamento ainda era de médio formato, o que impedia a realização do imaginado por Salomon. Os fotógrafos da Magnum passaram a usar a famosa Leica, a câmara 35 mm, que daria maior mobilidade e possibilidade de participação nos eventos. Desta maneira, o leitor se sentia dentro da cena. É famosa a frase de Robert Capa: ‘Se sua imagem não ficou boa, é porque você não chegou perto o suficiente.’ Assim como famosas são as imagens ‘roubadas’ pelas ruas de Paris por Cartier-Bresson, ou suas inesquecíveis fotos da Índia e da Rússia, e a guerra civil espanhola retratada por Chim. Um jornalismo engajado, sem ser militante, mas com certeza com empenho. Por isso mesmo, tornou-se o sonho de muitos fotojornalistas do mundo todo, que queriam entrar na Magnum ou criar algo parecido. Com o tempo, outros mitos da imagem foram se juntando: René Burri, Susan Meiselas, Eve Arnold, Marc Ribaud, Elliott Erwitt, Werner Bishof, Josef Koudelka, Raymond Depardon, alguns dos quais poderão ser vistos na mostra ao lado do trabalho de Paolo Pellegrin Antoine D’Agata, Dennis Stock, Steve McCurry, Jonas Bendiske, Philip Jones Griffits, Trent Park, Christopher Anderson e Martin Parr, entre outros.


Durante os primeiros anos, o olhar jornalístico de Robert Capa dominou a estética da agência. Com o tempo, porém, ela se abriu e hoje resta muito pouco daquele momento e sentimento. Não poderia ser diferente. Permanece, porém, a idéia da fotografia autoral, do olhar livre. Sua marca registrada. Assim como o jornalismo mudou nas últimas décadas, e em decorrência o fotojornalismo, a cooperativa tem transformado seu foco, sua forma de publicação. Nos últimos anos, lançou o Magnum in Motion, uma tentativa de se aproximar das novas tecnologias e formas de expressão da era digital. Por enquanto, ele ainda lembra muito o antigo audiovisual: imagens correm pela tela, uma música ao fundo e o fotógrafo narra suas aventuras ou conta como fez determinado trabalho, em suma descreve a matéria. Interessante como forma de pesquisa, de estudo, talvez curiosidade. Um pouco desse espírito e dessa passagem do tempo poderá ser visto na mostra. É importante reunir trabalhos, muitos deles já conhecidos e inseridos em nossa memória, e apresentá-los como vitrine da agência. Pode-se perceber que a Magnum permanece ativa e com trabalhos muitos bons e fotógrafos excelentes, mas a idéia dos quatro fundadores ficou mesmo no sonho.


Serviço


Magnum 60 Anos. Caixa Cultural – Galeria (Av. Paulista, 2.083, tel. 3321-4400). De 3.ª a sáb., 9 às 21 h; dom., 10 às 21 h. Até 6/4. Abre hoje’


 


TELEVISÃO


Etienne Jacintho


Dramalhão nacional SBT


‘Íris Abravanel, mulher de Silvio Santos, não quer falar com a imprensa sobre A Revelação, novela que estréia em março no SBT, da qual é a autora. Procurada pelo Estado, a Assessoria de Imprensa do SBT alegou que a autora deve esperar a coletiva da novela para se pronunciar – isso se ela aparecer no evento.


Apesar de a autora não se manifestar, a sinopse de A Revelação atesta que haverá política e mistério na trama, mas, ‘como ditam os mandamentos do velho e bom folhetim, as tramas relacionadas com os componentes de drama e paixão terão um peso maior na trama’, escreve a autora. A política será abordada como uma sátira aos governos latino-americanos e a autora já afirma o tom dessa abordagem a partir do nome da cidade fictícia da novela: Tirânia.


O protagonista Lucas Nogueira será interpretado por Sérgio Abreu. Para quem não se lembra, o ator viveu Tiago, o namorado de Rodrigo (Carlos Casagrande), na novela global Paraíso Tropical. Já Tainá Müller será a mocinha de A Revelação. A ex-modelo participou do filme Cão Sem Dono, de Beto Brant. O elenco conta ainda com Flávio Galvão, Cláudia Mello e Antonio Petrin.’


 


 


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