Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > SEGUNDA-FEIRA, 29/5

Dicionário gay presta homenagem a Aurélio

Por Leticia Nunes em 30/05/2006 na edição 383

Leia abaixo os textos desta sexta-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 29 de maio de 2006


AURÉLIA
Nina Lemos


O dicionário sai do armário


‘Será lançada amanhã, em meio a polêmicas, a livra ‘Aurélia, A Dicionária da Língua Afiada’ (143 págs., R$ 24), pela Editora da Bispa. A frase acima está escrita na forma preferida de comunicação entre alguns dos integrantes do mundo gay, sempre colocando as palavras no feminino.


Isso, segundo os (ou as) autores do primeiro dicionário de expressões gays do Brasil, o jornalista Victor Ângelo, 38, que assina com o codinome de Ângelo Vip, e Fred Libi, que prefere não se identificar e é descrito na obra como um ‘gay de nascença que refugiou-se nos estudos para entender o mundo que o hostilizava’. De acordo com eles, o que era ‘o’,vira ‘a’ entre os homossexuais.


O título é uma alusão ao famoso ‘Aurélio’, de Aurélio Buarque de Holanda, um dos maiores lexicógrafos do Brasil, morto em 1989. ‘Aurélia’ contém 1.300 verbetes, todos descritos, na forma, como em um dicionário tradicional.


‘O nome é uma homenagem ao Aurélio. Ele é pop. Tanto que quando você fala em um Aurélio, se refere a um dicionário. Seria muito feio se fosse Houaissa [referência ao autor do ‘Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa’, de Antonio Houaiss]. A prova de que é uma homenagem é que não chamamos o livro de ‘Houaissa’, explica Victor Ângelo.


Homenagem dispensada


A tal ‘homenagem’ não agradou a família do dicionarista nem a editora Positivo, que detém os direitos sobre as edições e comercialização do ‘Aurélio’ desde 2003. O diretor de marketing do grupo Positivo, André Caldeira, afirmou que ‘tomaria todas as medidas judiciais cabíveis para defender a marca’.


‘Quero deixar claro que não é uma prática de homofobia. É proteção a uma marca’, disse. Segundo Caldeira, ‘Aurélia’ seria uma ‘deturpação do nome’. ‘Estão pegando carona em uma instituição muito importante.’


O advogado José Pinheiro, um dos proprietários da Editora do Bispo, discorda. ‘A própria Lei dos Direitos Autorais diz que são livres as paráfrases e paródias que não forem verdadeiras reproduções da obra original nem lhe impliquem descrédito. É o caso do ‘Aurélia’, que além de não desobedecer a lei, acaba prestando uma homenagem.’


A viúva de Aurélio Buarque de Holanda, a também lexicógrafa Marina Baird Ferreira, 83, afirmou, por e-mail, que a família ‘dispensa a homenagem’. ‘A família em nome do falecido autor declara-se contrária a qualquer demonstração de homofobia, mas dispensa essa ‘homenagem’ ao dicionário.’ De acordo com Ivan Junqueira, membro da Academia Brasileira de Letras, ‘é interessante que exista no Brasil um dicionário de expressões gays’. ‘Só acho que eles pegaram pesado com a brincadeira e erraram na mão. O Aurélio é uma instituição brasileira.’


Longe das polêmicas, o autor Victor Ângelo afirma que prefere chamar o livro de ‘dicionária’ e que acha que a catalogação das expressões gays é importante. ‘Além disso, o livro pode ser usado para que os pais entendam o que os filhos falam. E também para que bofes (heterossexuais masculinos) compreendam melhor as frases de suas namoradas, já que muitas mulheres falam como os gays.’


Código dos travestis


De acordo com ele, o livro foi feito por pesquisas realizadas por ele e Fred Lip há cerca de dez anos. ‘Começamos a perguntar para amiguinhos e amiguinhas. Conversamos com gente do Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará e também com amigos portugueses. E também entrevistei travestis’, explica Ângelo.


Os travestis são os responsáveis, de acordo com ele, por boa parte dos termos. ‘O bajubá [linguagem usada pelos travestis] é muito interessante, pois antes era um código entre eles. Quando dizem, por exemplo, ‘aqüenda o alibã’, querem dizer cuidado com a polícia.’


O tom de ‘Aurélia’ é bastante politicamente incorreto. Na primeira página, eles já avisam: ‘Este dicionário não tem a pretensão de ser politicamente correto. Muitos termos são chulos e pejorativos, podendo ser ofensivos para determinadas pessoas ou grupos. Nesse caso, recomendamos a interrupção imediata da leitura’.


‘Não teria graça alguma fazer um livro gay politicamente correto. E também, que coisa chata ter que ser chamado de gay. É viado, é bicha. Muitos grupos ficam com essa coisa de chamar de ‘homossexualidade’, o que é uma chatice.’


Apesar de escrito por dois homossexuais, o livro várias vezes tira sarro dos próprios gays. No verbete ‘piti’, por exemplo, eles explicam: ‘Nervosismo, histeria, ataque de bichice’.


Apesar de tão ‘incorreto politicamente’, parte da renda obtida será doada a instituições de apoio a soropositivos.


A noite de autógrafos é amanhã, às 18h30, na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, av. Paulista, 2.073, em São Paulo.’


 


Pasquale Cipro Neto


‘Aurélia’ cumpre o que promete, mas esquece ‘espada’ e opta pelo feminino


‘Está na página 5 da ‘Aurélia’, com todas as letras: ‘Este dicionário não tem a pretensão de ser politicamente correto’. Adiante, vem esta observação: ‘Nossa intenção é a de levantar o maior número possível de termos ligados de alguma forma à cultura gay e lésbica’. Pois aí já temos (ou teríamos) o primeiro embate relativo ao ‘politicamente correto’: o fundo da obra é a cultura gay e lésbica, mas a opção foi pelo (gênero) feminino (o subtítulo da obra é ‘A Dicionária da Língua Afiada’; o prefácio não é prefácio, é ‘prefácia’). O pau já começa a rolar entre os próprios produtores do ‘corpus’ do dicionário, digo, da dicionária. Espadas e bibas que se entendam.


No ‘Houaiss’, a segunda definição de ‘dicionário’ (que se dá por extensão da que todos conhecem) é esta: ‘Compilação de alguns dos vocábulos empregados por um indivíduo (por exemplo, um escritor), um grupo de indivíduos, ou usados numa época, num movimento etc.’. Pois é nessa categoria que se enquadra a ‘Aurélia’, cujo repertório inclui muitos termos que ‘são chulos e pejorativos, podendo ser ofensivos para determinadas pessoas ou grupos’. Resta saber se ainda há quem se ofenda com isso.


Quem tiver o trabalho de ler ‘a prefácia’ vai encontrar nela uma importante observação sobre esse tipo de dicionário, ‘exigido pela nossa época’. Trata-se do dicionário lingüístico, isto é, o que leva em conta não apenas a lexicologia (o estudo do vocábulo quanto ao seu significado, morfologia etc.), mas também a lexicografia (que diz respeito aos princípios de seleção do vocabulário, ao ambiente em que se usam determinados vocábulos etc. -à noção de valor, enfim).


Posto isso, convém dizer que muitos dos verbetes são dispensáveis, por não serem exclusivos do mundo gay-lésbico. Por outro lado, nota-se a falta de alguns que -supõe-se- lá deveriam estar. Um deles é justamente ‘espada’. Cadê?


Daqui para a frente, é com você, leitor. Com uma ou outra lacuna, a dicionária cumpre o que promete. Se o que ela retrata for de seu interesse, vá fundo. Se não for, deixe quieto.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


O medo da interferência


‘Richard Lapper, editor do ‘Financial Times’ para a América Latina, estava no final de semana em São Paulo, de onde participou de um programa da CNN e escreveu sobre América Latina.


Sua tese é que os investidores externos ‘reavaliam planos conforme cresce o medo de interferência’. O primeiro dos investidores é a Petrobras, que esperava ‘estabilidade’ na Bolívia e se viu ‘expropriada’.


A coisa não pára na Bolívia ou na Petrobras. O Equador vem de fazer o mesmo com a americana Occidental, bem como a Venezuela, antes.


Para Lapper, ‘uma nova sensibilidade quanto à região viu investidores reavaliarem compromissos’. Declara um anônimo ‘administrador de risco sediado em SP’:


– Se você está sentado em Houston ou Londres e assiste alguém sendo chutado na América Latina, isso vai afetar como você vê as coisas.


Mas que nada, respondem em seus blogs Sérgio Léo e Daniel Drezner -este célebre ‘republicano libertário’ da Universidade de Chicago.


O brasileiro avisa, ‘para quem pensa que abocanhar os ganhos das empresas com as reservas de petróleo virou moda de latino-americano’, que ela é global. Envia o leitor a Drezner, que destaca uma notícia do próprio ‘FT’.


Na Rússia, o ministro dos recursos naturais anunciou a ‘revisão’ dos contratos com os dois maiores investidores externos no país, Exxon e Shell. Segue Drezner:


– É claro, tal coisa jamais poderia ocorrer nos Estados Unidos… Oh, espere…


E ele envia o leitor ao site da Bloomberg, com a notícia da decisão aprovada na Câmara de Representantes, para rever contratos do Golfo do México e ‘retomar US$ 10 bilhões em incentivos dados para Exxon, ConocoPhilips e outras’.


Sérgio Léo ironiza, sobre a medida dos congressistas:


– Deve ser terrível operar num país com uma tamanha insegurança regulatória.


OS BRICS Jim O’Neill, da Goldman Sachs, com ‘a justa fama de guru’ mundial, falou ontem ao ‘El País’ e voltou a predizer, no título: ‘Brasil, Rússia, Índia e China podem superar o G7’. O Brasil, por ser ‘muito rico no que a China precisa’


DENTRO DO PRESÍDIO


‘Marcola’ anda pelos corredores no ‘Fantástico’, três telejornais, sites e até blogs


Locução que abriu o ‘Fantástico’, ontem:


– Presídio de segurança máxima… Aqui estão presos os bandidos mais perigosos, homens que ordenaram a onda de violência que assustou São Paulo.


Sábado, foi manchete no ‘JN’, ‘Jornal da Record’ e ‘SBT Brasil’. Concentrou de vez a cobertura da crise nos presídios. E não, jamais na segurança pública.


DIRTY HARRY 1


‘Nas ruas, 200 mil homens para garantir a segurança’, bradou a Globo. Era o aparato para as eleições na Colômbia, onde o conservador Álvaro Uribe deve ser reeleito com discurso linha dura.


Mas o enviado do ‘FT’ trata de sublinhar que, em favelas como Cazucá, em Bogotá, o comando hoje está a cargo dos ex-paramilitares de direita. A sigla da facção é AUC.


DIRTY HARRY 2


Por aqui, enquanto o spam de Cesar Maia espalha frases como ‘ah… como faz falta um Uribe por aqui’, Geraldo Alckmin ecoa o secretário que deixou na Segurança.


E, diz Kennedy Alencar na nota ‘Dirty Harry’, na Folha Online, ‘vestirá figurino linha dura ao tratar de segurança’ na TV -em contraposição a Lula e sua insistência com a educação, também na TV.’


 


A SELEÇÃO PROIBIDA
Adalberto Leister Filho, Mariana Bastos e Pedro Schaffa


Times servem de inspiração para filmes


‘O Mundial dos excluídos poderá ter a reedição de um dos mais inusitados jogos da história do futebol. Em 2001, o Tibete participou de seu primeiro amistoso ao enfrentar a Groenlândia, na Dinamarca.


Na ocasião, o jogo, apoiado pelos dinamarqueses, sofreu oposição chinesa. Mesmo sob ameaça de sanção da China, a Dinamarca prosseguiu com o apoio. Diante disso, a China solicitou à Fifa que impedisse o amistoso. Entretanto, como não se tratava de seleções filiadas, a maior entidade do futebol mundial não pôde intervir.


Em 30 de junho daquele ano, dois diretores dinamarqueses filmaram o duelo e fizeram o documentário ‘The Forbidden Team’ (em tradução livre, ‘A Seleção Proibida’), cujo subtítulo é ‘A história de uma seleção nacional sem nação’.


‘O jogo teve um grande significado para o Tibete. Eles ouviram o hino nacional, viram bandeiras tibetanas e sentiram a identidade nacional’, disse o diretor Rasmus Dinesen.


Outro participante da Copinha também serviu de inspiração para filme. Em 2005, uma equipe alemã produziu o documentário ‘O Sonho de Zanzibar’, que apóia a campanha de filiação à Fifa.’


 


JORNAL DO SBT
Daniel Castro


Silvio Santos tira ‘SBT Brasil’ da faixa nobre


‘O SBT terá uma nova grade de programação a partir da próxima segunda-feira. As principais novidades são a estréia da novela ‘Cristal’, provavelmente às 19h15, e grandes mudanças no jornalismo.


Apesar da reprovação da apresentadora Ana Paula Padrão, o ‘SBT Brasil’ sairá das 20h e passará a ser veiculado às 18h30. Isso significa que o principal jornal do SBT deixará o horário mais nobre da televisão. Essa era a decisão (sempre sujeita a revisões) de Silvio Santos até a noite de sexta-feira. Há um mês, o dono do SBT anunciou o ‘SBT Brasil’ às 18h30, mas depois, pressionado por Ana Paula Padrão, voltou atrás. Avisou, porém, que seu recuo era temporário.


Outra novidade no jornalismo será o lançamento de um telejornal local, o ‘SBT São Paulo’, às 18h. Esse jornal não será mais apresentado por Hermano Henning, como anunciado há um mês -mas sim por Carlos Nascimento.


A edição do ‘Jornal do SBT’ das 22h, ancorada por Nascimento, deixará de existir com apenas um mês de existência. Nascimento continuará à frente do ‘Jornal do SBT’ da 0h30.


A exibição da novela ‘Cristal’ às 19h15 ainda é dúvida. Depende de recurso do SBT contra ato do Ministério da Justiça que classificou a produção como inadequada para antes das 20h. A classificação indicativa não é obrigatória, mas as redes a têm cumprido.


OUTRO CANAL


MORTE EM ‘BELÍSSIMA’


A próxima vítima do misterioso criminoso de ‘Belíssima’ será Aquilino, cujo intérprete, Serafim Gonzalez, volta ao ar nesta semana. O pai de André (Marcello Antony) será enforcado na cadeia, após ser preso por tentar seqüestrar Sabina (Marina Ruy Barbosa).


QUEIMA DE ARQUIVO


Aquilino será morto numa queima de arquivo (ele é importante testemunha) e como represália a André. É que, na semana que vem, André se revolta contra o mandante e conta quase tudo para a vítima do esquema, Júlia (Glória Pires).


FLECHADAS


Ainda em ‘Belíssima’ na semana que vem, Pascoal (Reynaldo Gianecchini) tentará impedir o casamento de Safira (Cláudia Raia).


SEMANA S


Esta semana promete ser decisiva para o sistema de TV digital a ser implantado no Brasil. Técnicos do governo esperam fechar as negociações com os japoneses, que ainda não confirmaram se atenderão ao desejo do Brasil de instalarem uma fábrica de chips no país.


CARTADA


Os europeus farão uma última tentativa de emplacarem seu sistema. Nesta quarta, está prevista uma reunião do presidente Lula com José Manuel Barroso, novo presidente da Comissão Européia.


AREIA DIGITAL


Entidades que defendem a abertura de espaço para novos canais já se preparam para ir à Justiça caso o governo adote uma TV digital que só favoreça as grandes redes.’


 


SOM DIGITAL
Shin Oliva Suzuki


Blogs colocam na rede raridades da música brasileira


‘No último dia 13 de maio, um álbum raro, lançado em 1969 pelo grupo psicodélico regional O Bando, e ‘Meu Samba É Assim’, de Marcelo D2, só lançado oficialmente nove dias depois, tinham algo em comum. Não estavam nas lojas e achá-los nos programas de troca de arquivos na internet era tarefa impossível. Porém, para ouvi-los, bastava procurar outros caminhos dentro da própria rede: ambos eram oferecidos para download em blogs.


Mais conhecido como diário e expositor virtual da intimidade de garotos e garotas na primeira fase da adolescência, o blog agora ganha status de ferramenta para a circulação de raridades musicais. Nesses sites é possível encontrar álbuns que não ganharam reedição em CD, ou que até ganharam, mas estão com tiragem esgotada. Fora da web, esses títulos são vendidos a preço de ouro por negociantes de discos usados.


Sites como Hoje É Ainda Dia de Boa Música, Brazilian Nuggets e SaravaClub estão trazendo à luz, sem poeira nem cheiro de mofo, bolachas como ‘Herbie Mann & João Gilberto with Antonio Carlos Jobim’ (1965) e ‘Secos e Molhados – Ao Vivo no Maracanãzinho’ (1974) ou o divertido ‘Água Benta’ (1978), do trapalhão Mussum (veja quadro abaixo com os endereços dos blogs). Mas há também blogs que preferem as novidades e antecipam os lançamentos, caso do mais recente disco de Marcelo D2.


As páginas, na verdade, não armazenam os discos; normalmente trazem as informações visuais e comentários relacionados às obras (ou seja, são menos impessoais do que os programas de troca de músicas). A partir deles, o internauta tem acesso aos links que levam a sites de hospedagem de arquivos digitais de tamanho considerável. É lá que são feitos, gratuitamente, os downloads.


O jornalista mineiro Hever Costa, 40, dono do blog Música do Bem, no qual predominam os discos de jazz, ressalta o caráter comunitário dessas páginas. Para ele, o novo tipo de troca de informação, mais personalizado, geralmente tem eco e constrói elos entre quem oferece e quem pesquisa. ‘É um trabalho de resgate de músicas esquecidas. Já cheguei a orientar um grupo de teatro que estava montando a trilha sonora de uma peça por meio do blog.’


O curitibano Vinícius Franch, 22, que mantém o blog de rock psicodélico Vinil Velho, concorda. ‘É uma forma de conhecer, de obter informação sobre discos obscuros. E pode até ajudar a propagar a obra de algum artista’, comenta.


Hever Costa, que transformou boa parte de sua coleção de vinis em 50 mil arquivos digitais, afirma que não há interesse econômico por parte dos donos desses blogs. ‘Eu não faço isso para ganhar dinheiro. O espírito é botar na roda material que antes não estava disponível’, afirma.


E o fenômeno vem ganhando corpo. O Mercado de Pulgas, por exemplo, outro blog mineiro gerenciado por seis pessoas de gostos distintos, registra 23 mil visitas desde fevereiro deste ano, quando foi inaugurado.


O universitário André Henrique Macedo, 19, de Brasília, é um dos novos adeptos das páginas. ‘Serve como um complemento ao SoulSeek [programa de troca de arquivos pela internet]’, diz o estudante. Apesar da vantagem de encontrar blogs temáticos, que podem reunir centenas de músicas do mesmo estilo, o sistema também tem seus problemas. ‘As páginas de hospedagem falham de vez em quando na hora de fazer o download’, completa.


Disputa legal


No terreno legal, o advogado Nehemias Gueiros Jr., especialista em direitos autorais e professor direito da internet na Fundação Getúlio Vargas-RJ, diz que falta uma legislação específica para analisar as atividades desses blogs. ‘Ainda não existem instrumentos legais para punir esse tipo de troca eletrônica, muito menos jurisprudência ou precedente que possa embasar o raciocínio de um juiz’, afirma.


Segundo o advogado, que lança em agosto o livro ‘O Direito Autoral na Internet’ (ed. Millenium), somente duas pessoas foram processadas no Brasil até hoje por download ilegal. ‘Apesar de ser um dos países com maior número de usuários de internet, o intercâmbio de músicas ainda está restrito às camadas mais ricas da população’, afirma o advogado.


A Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), entidade que reúne as grandes gravadoras do país, disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que não havia nenhum diretor disponível para comentar o assunto. Atualmente, a instituição está mais empenhada em combater a forma mais tradicional de pirataria, ou seja, a de CDs e DVDs.’


 


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O Globo


Segunda-feira, 29 de maio de 2006


NOTAS
O Globo


Fraude em jornais


‘Seis ex-diretores dos jornais americanos ‘Hoy’ (em espanhol) e ‘Newsday’ se declararam culpados de inflar os números de exemplares vendidos, informou sábado o ‘Newsday’. Os dois jornais pertencem ao grupo Tribune Co. O ‘Newsday’, entre 2000 e 2004, informou aos anunciantes uma tiragem superior à real em cem mil exemplares, e o ‘Hoy’, o dobro da real.


SIGILO DOS ‘BLOGGERS’


Uma Corte de Apelações dos EUA rejeitou o pedido da Apple Computer para identificar as fontes que repassam informações da empresa para sites. Para o juiz Conrad Rushing, repórteres online e bloggers têm o mesmo direito à proteção que jornalistas tradicionais.


ACORDO CHILE E FRANÇA


O Chile pode comprar um satélite francês para uso civil e militar, disse o jornal ‘El Mercurio’, como resultado da visita, no fim de semana, do presidente da França, Jacques Chirac. O custo seria de US$ 40 milhões, segundo a imprensa local. O ‘El Mercurio’ disse que, antes de aprovar a compra, a presidente chilena, Michelle Bachelet, informaria aos países vizinhos que o objetivo primordial é civil.


CHÁVEZ: DÍVIDA BOLIVIANA


O Tesouro da Venezuela vai comprar US$ 100 milhões em títulos da dívida da Bolívia, informou a agência Bloomberg News, como parte dos tratados assinados entre o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e boliviano, Evo Morales. Os papéis terão juros menores e prazos mais curtos que os atuais títulos da dívida.’


 


FALA FOTO
Bruno Porto


Imagens que falam uma linguagem diferente


‘Hoje uma febre mundial, os celulares com câmera conquistaram a jornalista Cora Rónai em 2002. De lá para cá, a editora do caderno Info Etc e colunista do GLOBO tirou cerca de dez mil fotos com os chamados camera phones . Parte desse acervo — 150 fotos — ilustra o livro ‘Fala foto’ (Editora Senac), que Cora lança amanhã, às 19h30m, na livraria Argumento, no Leblon.


— O que eu tento mostrar é que celulares também são capazes de fazer boas fotos, e, sobretudo, que essas fotos falam uma linguagem diferente das fotos clássicas, em que as questões técnicas, como foco e definição, têm importância fundamental — explica Cora.


É o primeiro livro de que se tem notícia que reúne somente fotos tiradas com celulares. As 150 imagens estão distribuídas por nove seções. Uma das atrações são as fotos dos lugares visitados por Cora. Para ela, o Rio é a cidade mais ‘fotografável’ do mundo.


— O Rio é imbatível. Todo carioca devia nascer feito o japonês da piada, de câmera na mão. Fotografar Veneza também é covardia, mais ou menos como fotografar flor, gato ou pôr-do-sol — diz.


Cora avisa que ‘Fala foto’ 2 e 3 vêm por aí.


— O volume dois será o meu diário da Copa do Mundo. O três será inteiramente dedicado ao Rio — adianta ela.’


 


SOM NA REDE
Bernardo Araujo


Música digital para salvar a indústria do disco


‘A venda de música digital é a salvação da indústria fonográfica. A frase, repetida há anos pelas grandes gravadoras enquanto seus lucros despencavam, está a um passo (ou um ano) de se tornar realidade: enquanto o mundo continua comprando menos CDs e DVDs, os downloads musicais legais, para computadores ou celulares, estão finalmente equilibrando o jogo a favor da indústria. Em 2005, a queda nas vendas globais foi de apenas 3%, com países como o Japão, a Alemanha e a Itália escapando do prejuízo.


Música digital, incipiente, nem foi contabilizada


A má notícia é que as vendas de CDs e DVDs musicais no Brasil caíram 12,9%, de R$ 706 milhões em 2004 para R$ 615 milhões em 2005. Se apenas esses formatos fossem considerados, o país já estaria atrás das nações do Primeiro Mundo, onde a música em produtos físicos rendeu menos 6,7%. O que deixa o Brasil mais abaixo é a venda de música digital, que nem foi contabilizada na pesquisa da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) — embora os downloads para telefones celulares já tenham sua importância. A valorização do real frente ao dólar pôs o Brasil na décima posição no ranking dos países que mais faturam com a venda de música.


— O DVD, que em 2004 foi o nosso grande herói, transformou-se em vilão já no ano seguinte — lamenta o presidente da Universal Music no Brasil, José Antônio Éboli. — Naquele ano, ele teve um aumento de vendas de 100%, superando as expectativas. O DVD da Ivete Sangalo (‘MTV ao vivo’) , por exemplo, vendeu 400 mil cópias, foi o DVD musical mais vendido no mundo em 2004. Em 2005, além de não termos um produto tão popular, tivemos a concorrência da pirataria e dos DVDs de filmes. Achávamos que o formato teria um crescimento menor, mas ele acabou caindo 14%.


A Universal é uma das gravadoras que está preparando uma ofensiva na internet: os contratos já estão assinados e, no segundo semestre, boa parte do catálogo da gravadora estará à venda via download , em portais como o iMusica e a Megastore UOL — ambos já em funcionamento, mas com acervos ainda limitados. O iTunes, portal americano responsável pela revolução dos downloads pagos (a crença geral era que eles não seriam mais viáveis, devido à popularização da pirataria digital), no entanto, não tem previsão de chegada ao Brasil.


— Muito do sucesso dele deve-se ao fato de ter sido o primeiro — diz Éboli. — Na Alemanha, por exemplo, onde o iTunes demorou a instalar-se, o resultado já não é o mesmo. Mas no Brasil serão usados vários dos princípios que nortearam os americanos, como poucos parceiros e um bom impulso publicitário. O iTunes foi o ovo de Colombo da indústria fonográfica.


Outra grande gravadora, a Sony&BMG, também prepara sua entrada no mercado digital. Mas há dificuldades:


— Esse mercado está começando a surgir, com um grande potencial — diz Cláudio Vargas, gerente digital e de novos negócios da companhia. — Mas ainda existe uma batalha dura, pela conscientização sobre a existência dos serviços e sobre o fato de que trocar arquivos de música pela internet é uma forma de pirataria e, portanto, um crime. As pessoas vão desfrutar de serviços que vão lhes oferecer produtos de qualidade, com muita conveniência e segurança além da flexibilidade de empacotamento que as tecnologias digitais oferecem.


O lançamento oficial dos portais está marcado para agosto, o que faz a indústria brasileira do disco acreditar que o relatório de 2006 — que leva em conta o ano fiscal, de março a março — já traga boas notícias.


— Se o relatório da ABPD incluir as vendas de downloads para computadores e celulares, certamente os números serão mais favoráveis — diz Éboli. — Temos planos de disponibilizar discos que estão fora de catálogo, o que deve gerar muito interesse dentro e fora do Brasil.


Uma melhor posição no ranking mundial é outro sonho.


— Acho que temos potencial — diz Vargas. — Mas é preciso combater mais a pirataria, além de desenvolver o mercado digital.’


 


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 29 de maio de 2006


BRIGA POLÍTICA
Christiane Samarco


PFL decide usar programa de TV contra governo


‘PSDB e PFL vão atuar em dobradinha no horário gratuito de rádio e televisão nos próximos dias para tentar reverter a boa performance do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de intenção de voto. Enquanto o PSDB dedica seus preciosos 20 minutos de programa para tornar mais conhecido seu pré-candidato a presidente, Geraldo Alckmin, o alvo do PFL será o presidente Lula.


‘O PFL vai cumprir este papel de criticar o governo e o presidente Lula e vamos pegar sobretudo na questão ética’, antecipa o cientista político Antonio Lavareda. ‘Nossa expectativa é de que, só com os comerciais do PSDB em junho, o Alckmin suba de 5 a 10 pontos percentuais nas pesquisas de intenção de voto’, completa, referindo-se às inserções de 30 segundos – cerca de 50 no total, que a lei confere ao PSDB para distribuir ao longo da programação de rádio e tevê anualmente.


Segundo um dos dirigentes do PFL, cada segundo dos 11 minutos do partido em rede nacional será usado para ‘bater forte’ no governo. ‘Enquanto os tucanos usam seu tempo para falar do candidato e mostrar a biografia dele, nós ficaremos por conta de bater no Lula’, resume. Ele destaca que, além da motivação política, há uma razão legal para esta divisão de tarefas. Como o programa semestral é dedicado à doutrinação partidária, o PFL não pode ceder seu horário a um tucano nem falar da candidatura Alckmin que, do ponto de vista legal, ainda não existe. ‘Nós e o PFL temos, sim, que desmontar esta grande farsa que é o Lula’, diz o vice-presidente nacional do PSDB, deputado Alberto Goldman (SP).’


 


IRÃ
O Estado de S. Paulo


4 mortos em protestos contra caricatura


‘Quatro pessoas morreram e 43 ficaram feridas em manifestações em Nagadeh, noroeste do Irã, contra uma caricatura considerada ofensiva pela minoria azerbaijana. O jornal oficial Irã, que publicou a caricatura, foi fechado e o editor-chefe e o cartunistas foram presos. Manifestações também foram realizadas na capital Teerã.’


 


CANNES
Luiz Carlos Merten


O inglês Ken Loach leva a Palma de Ouro com filme sobre Irlanda


‘CANNES – Foi a mais inesperada das Palmas de Ouro – o júri presidido pelo cineastaWong Kar-wai atribuiu o prêmio do maior evento de filmes de arte do mundo para um veterano de muitas guerras na Croisette, Ken Loach. Inesperada, sim, porque se falava muito em Pedro Almodóvar, Sofia Coppola, mas surpreendente, não.


The Wind That Shakes the Barley (em francês, Le Vent Se Leve) é um belo filme de um diretor que tem nos confrontado muitas vezes com a história. Autor de filmes estilizados, eróticos, filmes de gênero que, em geral, desconstroem a narrativa, Kar-wai, nascido em Hong Kong, não parecia ser particularmente seduzido pelo realismo de cena e pela urgência do inglês Ken Loach.


A Palma está em boas mãos. Ao agradecer o prêmio, o diretor de The Wind That Shakes the Barley disse que seu filme é um primeiro passo no sentido de confrontar o público com o imperialismo inglês. Talvez, disse Loach, ao falar do passado, possamos entender o presente. No fundo, é o que lhe interessa.


A história que se passa na Irlanda dos anos 20, quando parte dos nacionalistas que combatiam os invasores ingleses aceitam um acordo de paz desfavorável – e que terminou sendo o ponto de partida para a verdadeira guerra civil -, é só um pretexto para que o diretor fale, metaforicamente, da Inglaterra de Tony Blair e do que está ocorrendo no Iraque, por exemplo.


Foi um prêmio político, que o júri (Kar-wai, Monica Bellucci, Lucrecia Martel, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Patrice Leconte, Helena Bonham Carter) atribuiu por unanimidade. Pode não ter premiado o melhor filme, nem o melhor filme de Loach, porque ele já esteve muitas vezes aqui, mas foi um prêmio defensável, digno, emocionante.


Houve escolhas, essas sim, surpreendentes . O Grande Prêmio do Júri para Flandres, de Bruno Dumont, por exemplo. Ele foi premiado mesmo com boatos de que era o favorito, mas só não seria premiado porque teria causado irritação, o que disse o próprio diretor. Seu final era muito mais explosivo, mas ele achou que valeria atenuá-lo em nome do diálogo com o grande público.


O prêmio de melhor atriz distribuído entre as mulheres de Volver recompensou não apenas um conjunto de mulheres extraordinárias (Penelope Cruz, Carmen Maura, Lola Duenas, Blanca Portillo), como – e Wong Kar-wai o disse, com todas as letras – o grande diretor que tem investigado com tanta sensibilidade o universo feminino. A intenção foi boa, mas Almodóvar, que ganhou também o prêmio de roteiro, visivelmente não gostou. Sua cara foi de desapontamento. Ele esperava, finalmente, sua Palma de Ouro, depois de vê-la escapar com Tudo Sobre Minha Mãe e Má Educação.


Em contrapartida, o elenco masculino de Indigenes, de Rachid Bouchareb, recebeu como uma consagração o prêmio coletivo. Jamel Debbouze, Samy Naceri, Roschidy Zem, Sami Bouajila, Bernard Blanca são todos descendentes de norte-africanos que deram para libertar a França durante a 2.ª Guerra.


Um dos favoritos para a Palma de Ouro, Alejandro Gonzalez Inarritu ganhou o prêmio de direção, por Babel, seu poderoso filme sobre a globalização. O perfil político da premiação inclui o prêmio do júri para Red Road,embora o filme da estreante Andrea Arnold tenha mais defeitos do que qualidades.’


 


PCC
Chico Siqueira


Diretor de presídios diz que autorizou filmagem de Marcola


‘O coordenador dos Presídios do Oeste Paulista, José Reinaldo da Silva, disse ontem que autorizou agentes penitenciários a filmarem a revista feita na segunda-feira passada em celas do Centro de Readaptação Penitenciária (CRP), em Presidente Bernardes, onde 152 detentos estão submetidos ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). Nas imagens, divulgadas pela imprensa no fim de semana, presos ameaçam e intimidam carcereiros. Entre eles, aparece Marcos Camacho, o Marcola, líder do Primeiro Comando da Capital (PCC). Nesta entrevista ao Estado, Silva disse que as filmagens foram feitas para que o Estado pudesse se defender das denúncias de que agentes estavam agredindo detentos no CRP:


O senhor tinha conhecimento das filmagens?


Não só tinha, como determinei que fossem feitas.Tínhamos relatos de denúncias feitas na Corregedoria e na Pastoral Carcerária de que presos do CRP estavam sendo espancados por agentes. Sabíamos que era mentira e seria difícil provar por meio de provas testemunhais. Então, usamos as filmagens como meio de defesa.


Essas filmagens vazaram para a imprensa…


Nunca houve uma tentativa de se evitar o vazamento. Pelo contrário, é importante que a sociedade saiba o que realmente se passa hoje nos presídios.


O que acontece então?


O detento encara a disciplina como ato de pressão. O preso sempre reage e nós temos de ficar quietos esperando o preso reagir.


Qual o motivo da revista?


Houve a denúncia de que o Cabrini (Roberto Cabrini, jornalista da TV Bandeirantes) tinha entrevistado o Marcola por telefone e então tivemos de entrar para saber se realmente havia celular no RDD, o que ficou comprovado que não havia.


Mas há relatos de detentos espancados na Penitenciária de Valparaíso, por exemplo, depois de um motim no dia 2.


Há casos em que a Tropa de Choque é obrigada a usar a força, porque os presos reagem. Foi o que aconteceu em Valparaíso. Houve presos feridos pelos colegas e também pelo Choque, mas nenhum com gravidade. E houve agentes e PMs feridos também. Não há como evitar conflitos. Foram transferidos líderes da rebelião, entre eles alguns feridos, mas nenhum em situação cirúrgica. Se o Choque tivesse intenção de matar alguém ou de machucar, os ferimentos seriam graves.


Mas há outras denúncias.


Há denúncias de 300 presos feridos durante a megarrebelião. Não sabemos se este número é correto. A ação da Tropa de Choque foi legítima para conter a revolta. Não houve um preso que morreu por culpa da PM ou dos agentes. Nove presos foram mortos por colegas. Em Presidente Prudente, a perícia constatou que o preso foi morto por colegas com uma barra de ferro enfiada no peito para simular um tiro de calibre 12.


Como ficam agora as condições dos detentos do RDD?


Há anos não havia ato de indisciplina lá. Agora, eles vão perder algumas concessões.’


Quais, por exemplo?


A visita do abraço. Como não é permitido contato com visitantes, alguns presos tinham o privilégio de sair para abraçar o familiar. Vão perder. E também deixarão de receber alimentos caseiros e livros.’


 


CAMINHOS DO JAZZ
Jotabê Medeiros


Nação do jazz ignora as fronteiras


‘Jefferson Mello, carioca de 44 anos, é fotógrafo de moda e publicidade. Em meados dos anos 90, o extinto Free Jazz Festival o convidou para um ensaio sobre jazz, para uma exposição que a mostra pretendia. Ele começou e desde então não parou mais.


Passou os últimos dez anos fotografando, invandindo templos do jazz de Los Angeles ao Leste Europeu, passando pelas ruas de New Orleans e as estações de metrô de Nova York. Foi ao funeral de Charles Bolden e ao show de Nicholas Payton. O resultado, mais de 4 mil imagens, foi editado e reunido por Mello no livro Caminhos do Jazz (R$ 160), e impressiona: lembra o trabalho dos grandes fotógrafos do jazz dos anos de ouro do gênero. Não há registro, no Brasil, de um trabalho semelhante.


Atual diretor do Botafogo de Futebol e Regatas, o fotógrafo correu mundo com uma Pentax e uma Nikkon 35 mm. E não pensa em parar. ‘Minha idéia é voltar a essas cidades e procurar todos os músicos que fotografei, ver o que aconteceu a eles’, conta Mello. ‘Já gravei parte do trabalho em VHS e digital video. Após o retorno, farei um documentário’.


Jefferson também foi aos templos de Rio e São Paulo, e diz que é perfeitamente possível de fato ouvir bom jazz fora dos seus nichos sagrados, como Nova York, New Orleans, Los Angeles. ‘Existem boas cidades fora essas três. Não é uma crítica destrutiva, mas em Tóquio, por exemplo, considero os músicos frios e muito presos às partituras. Isso dificulta na hora de fotografar, porque eles sempre deixam o instrumento em sua frente. Já em Praga, é impressionante notar a influência que eles têm da França’, disse.


Em Cuba, Jefferson conta que ‘adotou’ uma garotada de excelentes músicos, coisa que, na Ilha, parece nascer em árvore. ‘O que eu concluo é que existe bom jazz no mundo inteiro, mas obviamente, nos Estados Unidos, o clima e a atmosfera são incomparáveis’.


Foi também a Santiago, Chicago, Tóquio, Moscou. Nos países do Leste Europeu, os músicos que viveram na Cortina de Ferro desenvolveram apurado gosto para a música instrumental, incluindo o jazz, única forma na qual podiam se expressar sem risco de censura.


Mello salienta que não tentou fazer um livro ‘didático’ sobre o jazz, daí a pouca preocupação em identificar todos os músicos que aparecem nas fotos – alguns anônimos, outros bem conhecidos. Foi ao Bourbon Street Music Club, em São Paulo, e ao Mistura Fina, no Rio.


Dos anônimos cuja imagem ele capturou, pelo menos um já se tornou famoso: a trompetista alemã Sarah Kramer, bonitona como Diana Krall, que vive em New Jersey. ‘Quando fiz o seu ensaio em 1996, ela era garçonete e soube que já está tendo uma bela carreira em Los Angeles’, disse o autor.’


 


NOVO SOPRO
Beatriz Coelho Silva


Rádio MEC reativa seu selo musical com ousadia


‘A Rádio MEC reativa seu selo musical a partir de amanhã, com o CD Um Novo Sopro, em que o Quinteto Villa-Lobos interpreta repertório de compositores contemporâneos, entres eles Maurício Carrilho (a inédita Suíte Carioca) e o performático Tim Rescala (a faixa terá participação da pianista Maria Tereza Madeira). O lançamento será no Centro Cultural da Justiça Federal e este é apenas o primeiro de uma série de nove previstos para este ano.


O foco está nos artistas que fazem contraponto ao mercado fonográfico. ‘Seja pelo tipo de repertório ou pelo tamanho do grupo, o que às vezes inviabiliza o projeto comercialmente’, explica o diretor-geral da emissora, Orlando Guilhon. ‘Vamos aproveitar também nosso acervo de 83 anos da emissora, dos quais 70 são como estatal. Muita coisa antes dos anos 60 foi apagada porque não havia fitas magnéticas suficientes, mas depois disso temos preciosidades.’


A Orquestra Petrobrás Sinfônica, cujo disco será gravado ao vivo no dia 5, no Teatro Municipal, com Isaac Karabtchevsky regendo obras de Radamés Gnattali, é o caso de grupo cujo número de componentes inviabiliza a edição do disco. A sinfônica, que já completou uma década e meia de atuação, ainda não tinha seu cartão de visitas. ‘Como a Petrobrás é patrocinadora da Opes, ficou mais fácil a negociação para o disco’, conta Guilhon. A estatal patrocinou o selo nas suas quatro edições anteriores e, em 2006, destinou R$ 500 mil, pela Lei Rouanet, para a gravação e o lançamento de cinco CDs até o fim do ano.


Está prevista uma homenagem ao radialista Adelzon Alves, Os Melhores Samba de Raiz, em que compositores ainda desconhecidos do grande público vão ter suas músicas interpretadas por estrelas como Beth Carvalho, Dona Ivone Lara e Paulinho da Viola. Pouco conhecido fora do Rio, Adelzon é um ídolo entre sambistas. ‘Estamos em negociação também para ter Zeca Pagodinho’, conta o gerente-executivo da emissora, Xico Teixeira. ‘O quarto disco será com o Rio Maracatu, o grupo que participou do disco de Luiz Carlos da Vila e Cláudio Jorge, Negritude. E o quinto será da Orquestra UFRJazz, regida por José Rua, tocando Hermeto Paschoal e Francis Hime, entre outros compositores que escreveram peças em homenagem ao Rio. O título será Paisagens do Rio.


A Rádio MEC pretende recuperar seu acervo e receberá R$ 300 mil, via Lei Rouanet, com apoio do BNDES, para digitalizá-lo. Deste acervo vêm três lançamentos ainda este ano, O Assunto É Noel, com um programa do radialista Paulo Tapajós, feito em 1987, para lembrar os 50 anos da morte de Noel Rosa. Em Marlene Total, a cantora entrevista personalidades como Grande Otelo, Braguinha e sua arqui-rival, Emilinha Borba. ‘O terceiro disco é Os Melhores Momentos da Orquestra Sinfônica Nacional. No passado, foi a orquestra oficial da Rádio MEC e hoje está na Universidade Federal Fluminense’, diz Teixeira.


Ainda na rubrica homenagens, o selo lança, em 10 de julho, Fernanda Canaud (pianista)e David Chew (violoncelo)/100 de Radamés, em parceria com o Instituto Moreira Salles. Cada disco terá tiragem de 2 mil exemplares, metade para distribuição em escolas e bibliotecas públicas e o restante destinado às lojas.’


 


SERIADOS
Keila Jimenez


É chegada a hora do adeus


‘Está aberta a temporada de choradeira dos fãs de seriados da TV paga. As temporadas estão chegando ao fim, algumas, definitivamente. É o caso das séries The King of Queens, That’s 70’S Show, Will & Grace, Frasier e Acording To Jim, do canal pago Sony.


Na Warner, a despedida começa antes. Na próxima semana chegam ao fim as temporadas das séries do horário nobre do canal. Batizada de ‘Semana Clímax’, reúne final de séries como O.C. , Smallville, Supernatural e Invasion. No dia 5 serão encerradas as temporadas das investigativas Cold Case, without a Trace e Close to Home.


O final de O.C. tem duas notícias: uma boa e outra ruim. Vamos começar pela boa: a série termina no dia 7 e terá uma nova temporada. A ruim é que Mischa Barton, Marisa, deixa a produção. Supernatural termina no dia 6, assim como Smallville, que terá nova temporada.


No dia 9 é a despedida de fato de The West Wing, premiada série que chega ao fim de sua última temporada. What I Like about You, Freddie e Twins têm suas temporadas encerradas no mesmo dia.


No Sony, a choradeira começa no dia 26 de junho, com o final da temporada de Ghost Whisperer. No dia 27 vai ao ar um dos finais mais esperados: o último episódio de Will & Grace, que será encerrada. Será um especial com 1 hora de duração e será seguido pelo encerramento da temporada de CSI. No dia 30 de junho, Acording to Jim e Frasier também se despedem definitivamente do público.


No dia 4 de julho será a vez de That’s 70’S Show (que sai do ar) e Everbody Hates Chris. No dia 5 termina Charmed e no dia7, Everbody Loves Raymond, que terá só mais uma temporada, The King of Queens e Law & Order.


As novas temporadas e séries só em outubro e novembro. E dá-lhe reprises.’


 


VIOLAÇÃO ONLINE
Pedro Doria


Fim da inocência do e-mail


‘Daniel Santoro é um repórter importante na Argentina. Trabalha no Clarín, o principal jornal local, é presidente do Fórum de Jornalismo Argentino. No princípio de maio, teve de lidar com uma situação que é pesadelo para qualquer repórter. Apurava uma pauta delicada, daquelas de fazer primeira página por dias seguidos. Tinha boas informações. Repentinamente, viu o nome de sua principal fonte revelada para todo o país.


A responsabilidade coube a um ‘hacker’. A palavra vai entre aspas por alguns motivos – já chego lá. Era um caso de contrabando internacional de entorpecentes, daqueles em que não apenas o traficante de esquina está envolvido mas também a gente do dinheiro graúdo. Aqui no Brasil, como lá, é raro quem realmente ganha dinheiro ver seu nome nas páginas policiais. A principal fonte de Santoro era o juiz do caso. Os ‘hackers’ quebraram a segurança do e-mail do jornalista e divulgaram as mensagens.


O caso não rodava em sigilo de Justiça, de forma que o segredo não era absoluto. Ainda assim, provavelmente um juiz não devia conversar com um repórter. Mas quem devia? Freqüentemente, gente bem intencionada e com acesso conversa com jornalistas porque acredita que, dado o poder do sistema, certas coisas podem sair impunes a não ser que a população saiba o que está ocorrendo. Nos anos de chumbo, aqui o Estado fez jus a seu papel jornalístico usando deste tipo de fonte para informar o Brasil. Muitos jornais o fizeram.


É honesto. No limite, a democracia deve ser direta. Um povo bem informado julga por si. Segredos de Estado devem existir, ainda mais em questões de segurança nacional, mas certamente não era o caso. O juiz optou por fazer o que é comum: escapa da polêmica de divulgar abertamente mas providencia para que a população esteja informada para que nada se abafe. Não cometeu crime, mas preferia permanecer discreto.


Só que não deu: o ‘hacker’ achou que era certo divulgar a fonte, coisa que jornalista trata com muita delicadeza.


No fim de semana passado, vários argentinos receberam e-mails enviados, teoricamente, por jornalistas do Clarín e do La Nación, que prometiam segredos de Estado. Não vinham dos repórteres: vinham dos ‘hackers’. E, no site que apontavam, os argentinos encontraram senhas de acesso para caixas postais eletrônicas. Não foram apenas repórteres que tiveram seus e-mails violados: pelo menos o de um senador e o do chefe de gabinete da Presidência – equivalente nosso ao ministro da Casa Civil, o Golbery, o José Dirceu – foram invadidos. É uma epidemia.


Desconte-se nossa rivalidade histórica, a Argentina é um país fascinante, complexo – rico demais. Tanto quanto nós somos, diferentemente de todos nossos outros vizinhos. Apenas nós, cá na Sudamérica, produzimos música com sofisticação ímpar assim, e o arranque dolorido de Piazzolla e a existência leve de Jobim bem resumem nossas diferenças. Flávio Ribeiro de Castro, atual diretor da Assessoria de Imprensa FSB, em Brasília, foi correspondente de O Globo em Buenos Aires e conhece o país como a palma da mão.


A Operação Condor já caiu no passado, ele lembra, mas a estrutura de nossos serviços de inteligência ditatoriais continua presente. No caso argentino, continua ideológico e intolerante. Não vai, cá, uma acusação frontal: os jornais argentinos não o fazem. Estão assustados. Grupos de hackers têm motivações políticas libertárias no geral, quando não são apenas adolescentes querendo demonstrar suas prendas. Que não se defenda governo ou imprensa: a todos cabe o escrutínio. Mas, na Argentina, este mês, o e-mail de ambos foi violado.


É um alerta. Nestes últimos dias, quem foi sabendo da história de presto levantou objeções. Primeiro vai uma lembrança pertinente: o Pentágono, nos EUA, quando trata de coisa delicada, troca malotes, não e-mails. E existe o PGP, um protocolo público, acessível a todos, de criptografia para a troca de mensagens eletrônicas delicadas.


Até que se prove o contrário, é o primeiro caso público de invasão concomitante de e-mails de imprensa e governo. Não devia acontecer – mas, no vizinho ao sul, aconteceu. Os ‘hackers’ responsáveis ninguém sabe quem são – desconfia-se. É bem provável que a inocência do e-mail esteja chegando ao fim. Este foi apenas o primeiro alerta. Hora de aprender a usar o PGP.’


 


PRIVACIDADE
Ricardo Anderaos


O show de Truman


‘Nunca esqueço o dia em que levei minha filha mais velha da maternidade para casa. Tirar aquele bebezinho do silêncio do berçário e cruzar essa cidade alucinada com ela dentro do carro foi uma experiência assustadora. Nunca antes eu havia me dado conta da violência de nossa cidade em toda sua extensão. E nunca foi tão bom entrar em casa e bater a porta atrás de mim. Lar, doce lar…


Por um lado, a chegada do bebê virou nossa casa de pernas para o ar. Fomos invadidos por um exército de fraldas, mamadeiras, lenços umedecidos e brinquedos. Em compensação, Dora trouxe uma ordem que até então não existia. A geladeira sempre cheia, nada de música alta à noite e uma máquina de lavar chacoalhando no quintal.


O fato é que a residência do casal sem filhos mais parecia uma república de estudantes. Depois da chegada do bebê ela virou um ninho. Um lugar de privacidade e sossego. Isso quando Dora não tinha uma de suas épicas cólicas noturnas, bem entendido.


. . . .


Por ter essa experiência tão marcada na memória achei esquisita a notícia de que o professor Deb Roy, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA, transformou sua casa num Big Brother e seu filho recém-nascido numa espécie de cobaia. Tudo para entender como as crianças desenvolvem a capacidade de se comunicar verbalmente.


Ele instalou 11 câmeras digitais ‘olho-de-peixe’, que vêem tudo que acontece em cada aposento da casa, e mais 14 microfones. Essa traquitana digital vai ficar ligada 14 horas por dia durante os três primeiros anos de vida do bebê.


Deb Roy é professor de Mídia, Artes e Ciência no MIT. Já publicou mais de 50 trabalhos nas áreas de inteligência artificial, mineração de dados, robótica e desenho de interfaces homem-máquina. O nome de seu novo projeto é Human Speechome. Seu objetivo é capturar e analisar um fluxo contínuo de dados sobre as experiências do bebê.


É consenso entre os psicolingüistas que as crianças jamais conseguiriam articular a linguagem só ouvindo as conversas dos adultos. Mas onde está o ‘pulo-do-gato’ que nos permite falar e nos diferencia do resto dos animais?


É aí começa a controvérsia entre os pesquisadores. Alguns defendem a existência de um gene da linguagem, específico do Homo Sapiens. Outros acham que o segredo está num conjunto de estímulos não-verbais, como gestos e expressões faciais, que potencializam a capacidade superior de nosso cérebro.


Para saber como funcionam e qual o real papel desses estímulos, muitas pesquisas utilizaram gravações em vídeo de mães interagindo com seus bebês, tanto em casa quanto em laboratórios. Roy argumenta que, além da artificialidade do ambiente de laboratório, essas pesquisas não podem descobrir quais características do processo de aquisição da linguagem vão se desenvolvendo pouco a pouco e quais ocorrem aos saltos. Isso porque elas não monitoram todos os momentos do desenvolvimento infantil. Para resolver esse problema ele criou a rede de vigilância doméstica apelidada de Speechome.


Todo dia, às 8 da manhã, as câmeras começam a funcionar. As gravações só são interrompidas às 22 horas. Para garantir um mínimo de privacidade, todos os aposentos possuem uma tela de computador na qual Roy e sua esposa podem apagar trechos gravados que considerem embaraçosos.


Depois, o material é enviado para os computadores do MIT, onde programas especialmente desenvolvidos identificam atividades em áreas específicas de cada aposento. As conversas são transcritas automaticamente, e o texto é comparado com a atividade do bebê em cada seqüência de imagens.


Finalmente os pesquisadores complementam o trabalho dos computadores, agrupando o material gravado segundo ações como comer, brincar, lavar pratos e assim sucessivamente. Parte dos vídeos gravados já está disponível na internet, no endereço http://www.media.mit.edu/press/speechome.


. . . .


Não há como deixar de comparar a história de Deb Roy Jr. com a de Truman Burbank. Aquele sujeito que nasceu, cresceu e vive com uma câmera de TV mostrando o que acontece com ele, 24 horas por dia. A cidade em que mora e as pessoas com quem convive são falsas. Só ele não sabe.


O filme O Show de Truman, de Peter Weir, com Jim Carrey e Ed Harris, foi lançado em 1998. Tá certo que, às vezes, a vida imita a arte. Mas acho que Mr. Roy passou do limite. Tenho pena de seu filho.’


 


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