Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ENTRE ASPAS > SEXTA-FEIRA, 18/7

Dinheiro público financia 62% da compra da BrT

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 18/07/2008 na edição 494

Leia abaixo a seleção de sexta-feira para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Sexta-feira, 18 de julho de 2008


 


BRT-OI
Fernando Nakagawa e Renato Cruz


Bancos estatais financiam 62% da compra da BrT


‘O apoio dos bancos estatais à operação de compra da Brasil Telecom pela Oi (antiga Telemar) já chega a R$ 6,869 bilhões. O número inclui um empréstimo de R$ 4,3 bilhões do Banco do Brasil, anunciado na quarta-feira, e R$ 2,569 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), sendo R$ 1,33 bilhão de empréstimos à Andrade Gutierrez e à La Fonte (Carlos Jereissati), controladores da Oi, e R$ 1,239 bilhão destinados a um aumento de capital da Telemar Participações, holding da Oi.


O total de dinheiro público que já foi colocado na operação equivale a 62% dos R$ 11 bilhões que a Oi deve gastar na compra da Brasil Telecom. Esse montante não inclui o dinheiro que os fundos de pensão (Previ, Petros e Funcef) vão desembolsar na reestruturação societária da Oi. Segundo algumas estimativas, esse valor pode chegar a R$ 3 bilhões.


O governo apóia abertamente a compra da Brasil Telecom pela Oi. O Ministério das Comunicações solicitou à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) uma mudança na regulamentação para que isso seja possível. Em 2005, a Oi, então chamada Telemar, investiu R$ 5 milhões na empresa Gamecorp, que tem entre seus sócios Fábio Luis Lula da Silva, filho do presidente Lula. Além disso, a Andrade Gutierrez, que está no controle da Oi, foi a maior doadora da campanha do Partido dos Trabalhadores em 2006.


A mudança do chamado Plano Geral de Outorgas (PGO), necessária para a aquisição, está em consulta pública. ‘O empréstimo do Banco do Brasil é preocupante’, disse Luis Cuza, presidente da Associação Brasileira das Empresas Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (TelComp), que reúne as concorrentes das concessionárias locais. ‘As empresas que estão na Bolsa podem captar dinheiro privado baseado na sua eficiência. É mais um motivo para prorrogar o prazo do PGO.’ A Telcomp pediu que a consulta pública seja prorrogada por 75 dias.


A Oi e o Banco do Brasil defendem o empréstimo. O banco o considera ‘legítimo, vantajoso e sem qualquer favorecimento’. Segundo a instituição, o juro cobrado está em linha com o praticado no mercado. Para reforçar a avaliação, a Oi informou que a segunda parte da operação, que está sendo fechada com Bradesco, Itaú e Santander, tem condições semelhantes às acertadas com o BB.


O empréstimo com o BB tem juros equivalentes à variação do CDI (referência no crédito interbancário) acrescida de 1,30% ao ano. Alguns analistas criticaram a operação ao citar que a taxa teria sido vantajosa para a Oi, de forma a favorecer a fusão. Mas a diretoria do BB diz que as condições são ‘de mercado’ e que, por isso, a operação é ‘legítima’ e ‘vantajosa comercialmente para o BB’.


O diretor de Finanças e Relações com Investidores da Oi, José Luis Salazar, afirmou que as linhas de crédito do BB e dos bancos comerciais são competitivas do ponto de vista de custo. ‘Quando você compara as duas operações, temos custos parecidos e absolutamente compatíveis com o praticado no mercado atualmente’, disse.


A segunda parte do empréstimo será anunciada em agosto e vai envolver o grupo de três bancos privados. Salazar se antecipa e afirma que, se houver alguma diferença na taxa a ser anunciada, a explicação estará no formato da operação. Com o Bradesco, Itaú e Santander, o empréstimo está sendo feito com notas promissórias, que são isentas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Já com o BB, foram usadas cédulas de crédito bancário, que pagam o imposto. ‘A composição é diferente, mas os custos são compatíveis.’


Outro aspecto citado pela diretoria do BB é que uma eventual diferença ante o juro do empréstimo anunciado na quarta-feira poderá ser atribuída à mudança das condições macroeconômicas. Isso porque o empréstimo entre o banco federal e a Oi foi fechado em maio, antes da alta da Selic de 0,5 ponto porcentual em junho. Houve, ainda, deterioração do quadro inflacionário doméstico e das condições externas no período, o que torna as operações mais ‘caras’ para o tomador do empréstimo.


Para o consultor Juarez Quadros, ex-ministro das Comunicações, a Oi teria condições de fechar com bancos privados a operação feita com o BB. ‘Com os problemas judiciais do Opportunity, é importante manter uma separação bem distinta dos interesses públicos e dos interesses privados’, afirmou Quadros. O Banco Opportunity, de Daniel Dantas, é acionista da Brasil Telecom e deve receber R$ 981,5 milhões por sua participação.


DINHEIRO PÚBLICO


R$ 4,3 bilhões foi o empréstimo do Banco do Brasil anunciado pela Oi


R$ 1,33 bilhão foram emprestados pelo BNDES aos grupos Andrade Gutierrez e La Fonte, controladores da Oi


R$ 1,239 bilhão foram destinados pelo BNDES ao aumento de capital na reestruturação societária da Oi


R$ 11 bilhões é quanto a Oi prevê pagar pela Brasil Telecom, incluindo o pagamento aos minoritários’


 


 


Michelly Teixeira


Prazo para negócio pode crescer


‘A Oi pode ganhar um prazo de mais 125 dias para fechar a compra da Brasil Telecom (BrT). O gatilho para a extensão do prazo – que hoje é de 240 dias, a contar de 25 de abril – é aparecer algum questionamento na Justiça entre a mudança do Plano Geral de Outorgas (PGO) e a liquidação da operação.


Liminares suspendendo os efeitos do novo texto do PGO, que está em consulta pública, disparariam esse dispositivo contratual. O mesmo aconteceria na hipótese de surgirem ações movidas por credores do Opportunity, um dos principais acionistas da BrT, cujo sócio-fundador, Daniel Dantas, está sob investigação da Polícia Federal (PF).


A aquisição da BrT pela Oi está condicionada a mudanças no PGO, decreto presidencial que hoje proíbe a união de concessionárias de áreas diferentes. Também depende da anuência prévia da Anatel para a transferência do controle.


Se essas condicionantes não se confirmarem no prazo de 240 dias estabelecido em contrato, a Oi terá de pagar multa de cerca de R$ 500 milhões à Brasil Telecom. Uma demora na aprovação do novo PGO não permite prorrogar o prazo regulamentar – somente o surgimento de contestações de natureza judicial durante ou depois do processo de alteração do PGO, informou uma fonte ligada à Brasil Telecom.


Mesmo que o prazo para fechamento da compra fique perto de expirar, esse interlocutor acredita que a Oi não deixará de fazer seu lance pela Brasil Telecom, já que pagou mais de R$ 300 milhões para que os acionistas da BrT suspendessem suas brigas judiciais e não estaria disposta a desembolsar mais uma multa de quase R$ 500 milhões.


Os controladores da Oi acompanham de perto os desdobramentos da consulta pública do PGO, que estava marcada para durar até 17 de julho, mas foi prorrogada para 1º de agosto. É grande a pressão, especialmente da parte de entidades de defesa do consumidor, para a Anatel ampliar ainda mais o período de discussões, já que o novo marco regulatório vai nortear a atuação das teles nos próximos 17 anos, quando terminam os contratos de concessão.’


 


 


Mônica Ciarelli e Irany Tereza


Desistências não inviabilizam acordo Oi/BrT


‘Protegido por cláusulas de confidencialidade, o documento que selou o compromisso de compra da Brasil Telecom (BrT) pelo Banco Credit Suisse (comissário jurídico da Oi/Telemar) está blindado contra eventuais desistências de vendedores ou compradores, afirmam fontes que participaram das negociações. O Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas – que foi um dos principais complicadores para o fechamento do acordo -, pode até recuar isoladamente da decisão de venda, mas nem isso impedirá a transferência do controle da BrT.


Ao chegar ao Rio na última sexta-feira, depois de deixar pela segunda vez a carceragem da Polícia Federal, em São Paulo, Dantas chegou a atribuir sua prisão à conclusão do acordo que permitirá a criação da ‘supertele’ nacional, projeto que conta com o aval do governo. ‘Eu até imaginava que quando assinasse o acordo evitava isso, e não estimulava’, disse o banqueiro ao Estado, ao desembarcar no Rio, referindo-se à operação policial.


A compra do controle da BrT custará à Oi R$ 5,8 bilhões – excluindo-se a oferta aos minoritários. A Telemar Participações, que controla o grupo Oi, já desembolsou R$ 351,460 milhões como uma espécie de indenização pelo fato de Opportunity e BrT terem desistido de ações mútuas na Justiça. O banco recebeu R$ 175,730 milhões e a operadora de telefonia, parcela igual. A multa de cerca de R$ 500 milhões imposta pela BrT à Oi em caso de não fechamento da compra elevaria a despesa da operadora para mais de R$ 850 milhões, que seriam contabilizados como prejuízo, pois não haveria aquisição de ativo.


Para os vendedores, o acordo amarra uma multa de 30% sobre a participação não vendida, em caso de desistência, mesmo que parcial. Também obriga o grupo controlador a repassar pelo menos 60% da participação acionária ordinária (ON), o suficiente para manter o controle da BrT com a Oi. Ou seja, mesmo que uma parcela volte atrás, a venda está garantida. Além disso, os desistentes terão de arcar automaticamente com os prejuízos de ações judiciais de perdas e danos.


Esse é um acordo típico dos chamados ‘contratos de gaveta’, feitos à espera das condições ideais para sua efetivação. Nesse caso, a condição é a alteração do Plano Geral de Outorgas, o regulamento da Agência Nacional de Telecomunicações que determina as regras para operadoras de telefonia fixa. Uma delas é o veto a fusões ou incorporações de empresas ou grupos de acionistas que operam em áreas de concessão distintas. Mas, ao contrário do que o mercado previa, o fechamento do acordo não ficará impedido caso não ocorra a mudança do PGO. Nesse caso, uma das alternativas é que o comissário (Credit Suisse) efetive a compra e negocie a empresa posteriormente.


O acordo foi fechado em 25 de abril, estipulando prazo até 25 de dezembro para a substituição do ‘comissário jurídico’ pelo comprador de fato, a Oi/Telemar, depois da mudança na legislação, que está sendo elaborada pelo governo.


A prisão de Daniel Dantas colocou em dúvida o fechamento da operação. Mas, segundo fontes, o seu poder de barganha no negócio já foi diluído. O acordo entre os acionistas da BrT e da Telemar Participações prevê o pagamento de R$ 981,5 milhões ao banco Opportunity, montante que será corrigido, no fechamento do negócio, pelo rendimento do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) desde assinatura da promessa de compra e venda até o fechamento do negócio.’


 


 


TELEVISÃO
Cristina Padiglione


Portaria faz um ano


‘Lançada após uma série de controvérsias que tinha defensores do Estatuto da Criança e do Adolescente (Eca) de um lado e o pessoal de criação e de negócios de TV do outro, a portaria 1.200, do Ministério da Justiça, completou um ano no último dia 11. O balanço desses 12 meses sob novas regras para a classificação indicativa de TV mostra que as emissoras, de modo geral, têm apresentado comportamento exemplar no quesito da autoclassificação.


Segundo dados do Departamento de Classificação Indicativa do MJ, de 1.800 obras supervisionadas pelo setor nesse período, apenas 50 processos foram indeferidos, para aumentar ou diminuir a faixa inicialmente proposta na autoclassificação.


A exclusão da análise prévia de sinopses, item que constava numa versão anterior da portaria, foi o capítulo mais comemorado pelas emissoras de TV há um ano. Já o respeito à transmissão da programação de acordo com o fuso horário de cada Estado, alvo de contestação por parte dos radiodifusores, foi problema resolvido recentemente com a lei que alterou o fuso do Acre, Pará e Amazonas, onde a novela das 21h chegava a ir ao ar às 19h.’


 


 


 


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Folha de S. Paulo


Sexta-feira, 18 de julho de 2008


 


BRT-OI
Sheila D’Amorim


Empréstimo à Oi foge de padrão do BB


‘Com o empréstimo de R$ 4,3 bilhões junto ao Banco do Brasil anunciado anteontem, a empresa de telefonia Oi se tornará o maior tomador de crédito da instituição controlada pelo governo federal, ultrapassando até o limite normal de exposição a um único grupo econômico previsto na política de crédito do banco.


Segundo a Folha apurou, isso só será possível porque ela passará a integrar um segmento especial de empresas que a diretoria do BB considera estratégico para investir e, portanto, permite uma maior concentração de crédito.


Considerando os últimos dados disponíveis do balanço do BB, referente ao primeiro trimestre deste ano, o maior tomador de crédito, uma companhia pertencente ao setor de metalurgia e siderurgia cujo nome não foi divulgado, devia ao banco R$ 4,182 bilhões. Isso representava 4% dos R$ 104,574 bilhões emprestados só a grandes empresas com faturamento superior a R$ 90 milhões por ano (o chamado segmento ‘corporate’).


A operação com a Oi, que será usada para financiar a compra da Brasil Telecom uma vez que a lei a permita, atinge 4,1% desse total e também está no topo dos maiores devedores do BB quando se considera o volume global de empréstimos do banco. A carteira total de crédito do BB junto a empresas privadas -incluindo micro, pequenas e médias- fechou o primeiro trimestre com R$ 138,124 bilhões concedidos.


O empréstimo para empresa de telefonia representa 3,1% desse total, percentual ligeiramente superior aos 3% detidos até então pelo maior credor privado pessoa jurídica do BB.


Os R$ 4,3 bilhões também extrapolam o limite de 10% do patrimônio de referência do banco fixado pela diretoria do BB para operações com um mesmo grupo empresarial, segundo a Folha apurou -o banco nega esse limite (leia texto abaixo).


Para esse cálculo, é utilizado o patrimônio de referência, que, no caso do BB, em março equivalia a R$ 36,4 bilhões. Se seguisse o teto de 10%, o banco só poderia emprestar R$ 3,6 bilhões à Oi. No entanto, há uma exceção para empresas consideradas clientes estratégicos e de bom retorno para a instituição. Nesse grupo estão, por exemplo, a Vale do Rio Doce, a Petrobras e a Votorantim. Todas companhias que integram o setor de metalurgia e siderurgia, o que mais toma empréstimos junto ao BB. Nesses casos, vale o limite de exposição de 25% do patrimônio de referência, determinado pelo Banco Central. Ou seja, até o empréstimo à Oi, o BB usava um critério mais restrito que o do BC para outros setores que não o de metalurgia e siderurgia.


Em março, esse segmento tinha R$ 11,517 bilhões em crédito do banco, 11% do total concedido às grandes empresas. Telecomunicações, em que está incluída a Oi, ocupava a 17ª posição, com R$ 2,1 bilhões. Agora, deverá ficar entre os seis principais segmentos.


Para Luís Miguel Santacreu, analista da Austin Rating, não é comum um negócio dessa magnitude. ‘Sobretudo porque um dos interessados no negócio entre a Oi e a Brasil Telecom é a Previ, fundo de pensão dos funcionários do BB.’ Ele diz não acreditar que seja uma operação ruim, já que a empresa Oi é considerada sólida. No entanto, para ele, claramente, a operação foge do padrão do BB. ‘O BB não é um banco de investimento. Ele poderia ganhar mais dinheiro fazendo operações de crédito no varejo.’


O BB argumenta que o setor de telefonia é estratégico pelas oportunidades que surgirão no mercado com a tecnologia 3G. A idéia, segundo executivos do banco, é que isso permitirá fazer de telefones celulares computadores de bolso, atendendo a uma demanda reprimida no país por essa tecnologia.’


 


 


Roberto Machado


Especialista vê boas condições para a tele


‘As condições do financiamento oferecidas pelo Banco do Brasil e o nível de endividamento assumido pela Oi dividem especialistas sobre o empréstimo de R$ 4,3 bilhões para a compra da Brasil Telecom (BrT), visto como indispensável para a conclusão do negócio. A aquisição ainda depende de mudança na legislação, o que pode alterar as condições da aquisição.


‘Para a Oi, as condições do empréstimo são boas, sem dúvida’, diz Alex Pardellas, do banco Banif. A previsão dele é que a operadora precise captar mais de R$ 12 bilhões no mercado para viabilizar a compra da BrT.


André Segadilha, do banco Prosper, avalia que se trata de operação normal, mas alerta: ‘O endividamento preocupa, principalmente com o aumento de juros’.


Para ele, as restrições ao negócio que estão em estudo na Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) podem prejudicar a Oi -principalmente a separação dos serviços de banda larga e telefonia fixa em empresas distintas: ‘Isso reduz as sinergias, impede que se usem plenamente as inovações.’


Se não efetivar a compra da BrT 240 dias após o fato relevante que anunciou a compra da Brasil Telecom, no dia 25 de abril, a Oi terá de pagar multa de R$ 490 milhões à BrT.


O advogado Francisco da Costa e Silva, integrante do Conselho de Administração do Banco do Brasil, defendeu a operação.


‘Foi perfeita do ponto de vista bancário. Passou por todas as áreas do banco: comitê de crédito, diretoria, Conselho de Administração. O risco de crédito é excelente. Seria inadmissível se o Banco do Brasil não tivesse participado, num mercado competitivo’, diz Costa e Silva, ressaltando que se declarou impedido de votar na reunião do conselho do BB por ter sido um dos advogados envolvidos na elaboração da proposta de compra da BrT pela Oi.


O empréstimo do BB será feito por meio da emissão de cédulas de crédito bancário, com prazo de oito anos, e juros pagos semestralmente a partir de maio de 2010.


Em nota divulgada anteontem, a Oi declarou que o empréstimo do Banco do Brasil ‘constitui-se no primeiro movimento de captação de recursos’ que, em seguida, contará com ‘emissão de notas promissórias com os bancos Santander, Bradesco e Itaú’.


O empréstimo do BB é o segundo obtido em instituição financeira pública para a compra da BrT. Antes, o BNDES já havia anunciado apoio da ordem de R$ 2,56 bilhões, para promover a reestruturação acionária da Oi.’


 


 


OPERAÇÃO SATIAGRAHA
Fernando de Barros e Silva


A corrupção dos outros


‘SÃO PAULO – Com o olhar agitado, evitando as câmeras e a multidão de repórteres, e a fala alterada, denotando desconforto e irritação, o presidente Lula dizia anteontem que, ‘moralmente, este cidadão tem de continuar no caso’, ‘a não ser que diga publicamente e espontaneamente que não quer’. O que não pode, seguia a bronca, ‘é vender insinuações à sociedade’.


Protógenes Queiroz desde então nada disse -nem pública nem espontaneamente. O governo decidiu falar pelo delegado. Fez liberar fragmentos de uma reunião gravada na PF, na qual Protógenes estaria jogando a toalha por sua escolha. Mentira. A fala editada do outro que não quis falar é coisa de regime de exceção -teatrinho stalinista.


Protógenes foi afastado à revelia de suas funções, como sabe qualquer adulto. E não caiu em função de seus erros -muitos e graves-, mas porque parte deles, junto com os acertos da investigação, chegou perto demais do coração do poder sem que os palacianos percebessem a dimensão da encrenca em curso.


Não foram, é claro, imagens como a de Celso Pitta de pijama e algemado o que derrubou Protógenes. Caiu porque usou arapongas da Abin para espionar o presidente do STF -supremo delírio. Mas sobretudo porque entrou com o grampo no Palácio do Planalto e instalou uma bomba perto demais de Lula.


Seu chefe-de-gabinete, Gilberto Carvalho, foi flagrado num diálogo pouco republicano com Luiz Eduardo Greenhalgh, petista histórico a serviço de Humberto Braz, capanga dileto de Daniel Dantas.


O papel vexatório de Greenhalgh -lobista com anel de doutor- o coloca na rabeira de uma longa fila de petistas e/ou amigos de Lula que já caíram na folha de pagamento de Dantas, do advogado Kakay ao compadre Roberto Teixeira. O deputado Zé Eduardo Cardozo diz que nada tem com isso -hummm…


O PT e o governo têm mesmo razões de sobra para se preocupar.


E a oposição tucano-democrata, tão loquaz na condenação da tapioca, emudeceu agora, diante deste suculento banquete de tubarões.’


 


 


CULTURA
Ricardo Macieira


Qual é o papel da cultura?


‘O PAPEL da cultura é o de definir valores, um papel prioritário, central.


Todas as revoluções, independentemente dos sonhos que as acalentaram, provocaram mudanças, mesmo que não tenham sido as desejadas. Hoje, essas mudanças se sucedem numa velocidade vertiginosa. Os textos e as obras de arte são compostos agora das mais diversas fontes. Vivemos a era da convergência, da conexão, do ritmo acelerado de circulação de idéias, conceitos e estéticas, um período de muitas possibilidades.


Experimentamos, porém, uma ausência de referências para uma apreciação estética criteriosa das manifestações culturais e para o desenvolvimento das políticas públicas de cultura, especialmente na América Latina e no Brasil, celeiro de novidades no mercado global. A banalização da atividade artística é o efeito mais perverso de um mercado generalista em que tudo virou ‘projeto cultural’.


Essa revolução conceitual, porém, demanda um grande debate cultural:


várias vezes me pergunto em que bases vamos construir nosso futuro como nação. Será sobre a nossa força de trabalho e a nossa capacidade solidária de transformar ou será sobre a base do individualismo e da acumulação desesperada?


Construir um país pressupõe a existência de políticas públicas e de consenso. O debate de idéias é prioritário. A função do Estado não pode restringir-se a ofertar bens culturais de um acervo tradicional. A gestão pública se identifica e se faz legítima como espaço de diálogo e de ação e palco de todos os setores e atores que intervêm no fazer cultural. A cultura pode e deve exercer uma função articuladora como instrumento de transformação e de desenvolvimento.


Dois fatores interferem na gestão cultural: o primeiro está relacionado à noção de diversidade e à questão da oportunidade; o segundo, à importância da cultura para o crescimento econômico de uma cidade, a partir de uma produção variada e de qualidade, que atraia interesse de outros mercados, ampliando o valor de seu capital simbólico. Continuar a ver a cultura como privilégio de poucos é perder a oportunidade de interferir na realidade. Todo cidadão, independentemente da faixa etária ou do grupo social, é produtor e consumidor de cultura.


Não preservar e não estimular a diversidade da produção cultural é negar a sua identidade.


Os principais cenários das manifestações artísticas nas sociedades contemporâneas são as cidades. O cosmopolitismo é a continuidade e a expressão da modernidade. Ser cosmopolita não é, necessariamente, ser urbano, ambiente privilegiado de encontro e de troca de experiências diferentes. É antes de tudo uma predisposição para receber todos os mundos.


Investir na reflexão crítica é a melhor forma de estimular a internacionalização das cidades, por meio de projetos que possam fazer circular idéias e programas.


A cultura cumpre papel de convergência. Todas as ações se interligam de forma estratégica, como instrumentos de inclusão e mobilidade social. Mesmo assim, temos que nos esforçar para que novos lugares de manifestação criativa apareçam, implicando novas abordagens e temas no interior das culturas, para que cheguem a todos os cidadãos.


Muitas das novas práticas culturais e artísticas têm surgido fora do ambiente de ensino e dos espaços tradicionais. São exemplos a relação da arte com a paisagem contemporânea, a cultura decorrente das preocupações ecológicas e ambientais, do multiculturalismo e das experiências de hibridização proporcionadas pelas novas tecnologias da comunicação.


Por isso, é importante criar projetos artísticos com os quais uma comunidade se reconheça e se revitalize.


Mais desejável que a sucessão de espetáculos, de filmes e de exposições é existir, além das programações institucionais, uma gama de eventos diferenciados que podem se realizar em sítios não convencionais.


Se é verdade que há um patrimônio e uma memória que justificam o presente e devem ser a todo momento reinterpretados, é também verdade que, hoje, sofremos e nos alegramos de outras maneiras e criamos mundos de modos diferentes.


Por isso, é possível esperar pelo inimaginável, o repertório surpreendente da cultura do futuro, uma cultura em desenvolvimento, um desenvolvimento a partir da cultura.


RICARDO MACIEIRA, 51, arquiteto, é secretário das Culturas da cidade do Rio de Janeiro.’


 


 


MACHADO
Leandro Fortino


Fernanda Montenegro dá voz a versão de Capitu nos 111 anos da ABL, no Rio


‘No ano do centenário da morte de Machado de Assis, Capitu finalmente pôde contar sua versão da história em alto e bom tom. E na voz de Fernanda Montenegro, que fez ontem, no aniversário de 111 anos da Academia Brasileira de Letras, leitura de ‘Capitu, Memórias Póstumas’, de Domício Proença Filho.


O texto dramatizado foi adaptado pelo acadêmico, com a ajuda da atriz, especialmente para o evento, intitulado ‘Fernanda Montenegro É Capitu’ e realizado no teatro da ABL, no Rio. Cerca de 280 pessoas assistiram à leitura.


Narrada apenas pela perspectiva subjetiva de seu marido, Bentinho, que a acusa de adultério, Capitu nunca teve a chance de dar o seu depoimento sobre o triângulo amoroso (completado por Escobar, grande amigo de Bentinho) que é o centro da obra ‘Dom Casmurro’, de 1899.


Mas, há nove anos, Proença Filho resolveu celebrar os cem anos do lançamento dessa obra-prima fazendo o que Machado de Assis nunca fez: justiça. E, nas 288 páginas do livro, Capitolina conquistou a oportunidade de se defender.


‘Como ela não tem muito direito nem espaço na obra do Machado, o Domício deu voz a ela, deu espaço suficiente para ela se apresentar. Por isso eu pude fazer. Se fosse a leitura da obra do Machado, teria que ter um ator fazendo o Bentinho’, afirmou a atriz.


Fernanda interpretou o texto usando a cadeira e a mesa que pertenceram a Machado, em exposição na ABL. ‘Ela é milagrosa. Conhece o poder encantatório das palavras. É realmente gratificador e consagrador você ter um texto seu lido por Fernanda’, elogiou Domício.’


 


 


LIMITE E TRANSGRESSÃO
Laura Capriglione


Escola expulsa aluno que vandalizou prédio para discutir arte


‘O estudante Rafael Guedes Augustaitiz bem que tentou um diploma superior. Durante quatro anos, ele cursou como bolsista o Centro Universitário Belas Artes, na Vila Mariana.


Vencidos todos os créditos, bastava apresentar um TCC (trabalho de conclusão de curso) para conquistar o título de ‘bacharel em artes visuais’. Mas, ontem, ele recebeu o aviso do reitor Paulo Antonio Gomes Cardim: foi expulso da escola.


Motivo alegado: ‘Prática de atos de vandalismo, lesivos à propriedade particular e (…) incongruentes com o espírito universitário; agressão ou ofensa a funcionários; ato sujeito a ação penal’.


A escola não levou na esportiva o que aconteceu em 11 de junho, quando Augustaitiz apresentou o que considerou seu TCC. Nas palavras dele, tratava-se de ‘ação performática e de protesto para discutir os limites e o conceito da arte’.


Na prática, o que se viu foram 40 jovens armados com sprays, chegando todos juntos a pé, muitos deles mascarados, por volta da 21h, e sacando, de repente, as latas que escondiam sob as roupas. Cobriram a fachada, recepção, escadas e salas de aula com as letras pontudas de difícil decifração que caracterizam a pichação paulista.


Seguranças e pichadores trocaram socos e pontapés por dez minutos, até que chegou a PM e levou sete jovens presos -Augustaitiz, entre eles.


No dia seguinte, a escola já limpara os rastros deixados pelos pichadores. ‘O impulso e a cegueira fizeram com que apagassem a minha obra. Quem vai me indenizar?’, pergunta o estudante, a sério.


‘Considero criminosa a ação do aluno. Não considero esta ação como arte. Não considero a possibilidade de aceitar essa manifestação como trabalho de conclusão de curso’, tachou Helena Freddi, professora de Augustaitiz, em carta endereçada ao reitor, dias depois.


A faculdade -que outorgou em abril o título de professor honoris causa ao prefeito Gilberto Kassab, pela implementação do Cidade Limpa- montou uma comissão de inquérito para decidir o que fazer. Presidida pelo advogado Carlos Alberto Rufino, dela participaram a chefe da biblioteca, Leila Rabello, e Marco Antonio Frascino, professor de legislação e ética em publicidade. Foi nessa comissão que se formou a convicção pró-desligamento.


Segundo o supervisor acadêmico Alexandre Estolano, a faculdade está, sim, interessada em discutir ‘limite e transgressão’. ‘Mas não desse jeito. Vamos patrocinar um seminário sobre o tema, em agosto.’


‘Limite e transgressão, até onde vai a arte e a liberdade de expressão’, segundo o texto de divulgação, serão debatidos por ‘jornalistas, artistas consagrados, colecionadores de arte, galeristas, curadores de museus’. E por nenhum pichador.


Ontem, começou a circular um abaixo-assinado em solidariedade ao expulso, pedindo que a escola dê a ele a chance de se defender: ‘Pixação’ pode ser crime (?), mas também é arte, e a faculdade perdeu a chance de surfar na vanguarda da mais moderna e atual de todas elas. Sempre foi assim. O Moma (Museu de Arte Moderna de Nova York) torceu o nariz para os trabalhos de Andy Warhol e Basquiat foi ridicularizado pelos mesmos acadêmicos que hoje o idolatram. A arte de verdade incomoda e às vezes demora a ser entendida’.


Entre os signatários, estão os grafiteiros Otavio e Gustavo Pandolfo, Osgemeos, cujo trabalho está até agosto em exposição na Tate Modern, em Londres. No dia 3 de julho, um mural gigante da dupla, na Bela Vista, foi coberto com tinta cinza por uma empresa a serviço da prefeitura.’


 


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Neto de Maysa será filho dela em minissérie


‘Próxima minissérie da Globo, ‘Maysa’ será uma obra bem ‘familiar’. Escritos por Manoel Carlos, os nove capítulos da história da cantora que escandalizou o Brasil dos anos 50 serão dirigidos por Jayme Monjardim, filho de Maysa (1936-1977). O diretor, por sua vez, será interpretado por seus dois filhos: André Escobar Monjardim Matarazzo, 10, o Dedé, e Jayme Monjardim Matarazzo Filho, 21, o Jayminho.


André fará o papel do pai quando ele tinha entre 7 e dez anos. Jayminho viverá o pai na juventude. André já era nome certo na minissérie. Jayminho também, mas como estagiário de assistente de direção _ele estuda cinema. Estimulado pelo pai, ele fez teste como ator na última terça-feira. ‘Ele foi maravilhoso no teste’, conta Monjardim, orgulhoso.


‘Bacana é que essa minissérie será feita mais com coração do que com técnica’, afirma Jayminho, que aparecerá no último episódio. ‘É estranho [interpretar o próprio pai], mas é também gostoso, porque vou conhecer melhor minha família. Tenho que deixar de lado a visão que tenho dele como pai.’


Filho da atriz Daniela Escobar, André ‘já nasceu ator’, nas palavras de Monjardim. Possui no currículo três participações em filmes. ‘O André quer fazer um curso de interpretação só para crianças. Na minissérie, terá cenas fortes, sozinho, que só dependem dele’, antecipa Monjardim.


DUBLAGEM


A rede CNT é a mais nova parceira da Televisa no Brasil. A partir de agosto, exibirá diariamente, no início da noite, duas novelas mexicanas, dubladas. Uma será infantil.


ADAPTAÇÃO


A Televisa também negocia uma parceria com a Record, mas para a adaptação no Brasil de textos mexicanos. O bispo Honorilton Gonçalves, todo-poderoso da Record, acaba de retornar de viagem ao México.


FOTOCÓPIA


A TV MS, afiliada da Record no Mato Grosso do Sul, segue a tática da cabeça-de-rede de copiar a Globo. Contratou profissionais da Globo local, adotou o slogan ‘Nós mudamos, mude você também’ e passará a chamar seus telejornais de ‘TV MS’ (na Globo, é ‘MS TV’).


ELA CRESCEU


Revelação de ‘Hoje É Dia de Maria’, Carolina Oliveira será Shanti, uma adolescente indiana, preparada para o casamento arranjado, em ‘Caminho das Índias’.’Como todo adolescente, ela cometerá suas transgressões, mas não vai se insurgir’, conta a autora, Glória Perez.


BALCÃO DE EMPREGO


Alguém ligado a Thati Bione, participante do último ‘BBB’, pediu a Glória Perez, no blog da autora, ‘uma oportunidade para a jovem atriz, que luta pelo sucesso desde os oito anos’.


HDTV READY


‘Mar de Gente’, espetáculo de Ivaldo Bertazzo que a Cultura reprisa domingo, foi o primeiro da emissora captado em alta definição. Mas não será transmitido em HDTV. A TV ainda não está pronta para tal.’


 


 


Audrey Furlaneto


‘Tal e Qual’ olha latinos com descuido


‘Três especiais feitos para a televisão em Porto Rico, Cuba e Argentina são o mote do programa ‘Tal e Qual’, parceria da Cultura com a TAL (Televisión América Latina), que a primeira exibe hoje, às 20h30. ‘Documentários que impactam pela beleza’, anuncia o apresentador cubano Amaury Wilson. Já no primeiro dos três, o tal impacto pela beleza não surge. ‘Quando o Pequeno se Torna Grande’, de Porto Rico, é um bom vídeo sobre a história do país, que teve a Marinha dos EUA instalada na ilha de Vieques por 60 anos para testes de bombas. Preocupação estética, porém, não há. O vídeo intercala cenas que lembram as de publicidade turística com entrevistas e imagens do caso político na TV porto-riquenha. Já o cubano ‘Sosabravo’ deixa o artista plástico de seu título, Alfredo Sosabravo, narrar sua história -para uma câmera pouco ávida por beleza, que, entre um depoimento e outro, percorre as telas do artista. Por fim, há o argentino ‘Bombonera, La Boca’, sobre a história do estádio do Boca Juniors. Outra vez, nada demais -ainda mais quando o apresentador conclui o programa com a frase: ‘A luta, a arte e os esportes da América Latina estão representados no ‘Tal e Qual’.’ Que representação será essa?


TAL E QUAL


Quando: hoje, às 20h30


Onde: TV Cultura


Classificação indicativa: não recomendado para menores de 12 anos’


 


 


Folha de S. Paulo


‘30 Rock’ e ‘Mad Men’ lideram indicações ao Emmy


‘A Academia de Artes e Ciências de Televisão divulgou ontem os indicados ao prêmio Emmy deste ano, que conta com o favoritismo da comédia ‘30 Rock’ e do drama ‘Mad Men’. Ambas foram as mais lembradas nas categorias mais populares -17 e 16 vezes. A minissérie ‘John Adams’ concorre em 23 categorias. A cerimônia de premiação acontece no dia 21 de setembro.’


 


 


CINEMA
Folha de S. Paulo


Estúdio Lionsgate fecha acordo com YouTube


‘O presidente-executivo do Google, Eric Schmidt, anunciou anteontem que o controverso site YouTube fará uma parceria com o estúdio de cinema Lionsgate. Com o acordo, o YouTube transmitirá, por meio de um canal exclusivo, filmes da Lionsgate como ‘Dirty Dancing’ e ‘Jogos Mortais’, além da série de TV ‘Weeds’. O projeto ainda não tem data para começar.’


 


 


 


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