Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > JORGE FURTADO

Diogo Mainardi

11/01/2005 na edição 311

‘Jorge Furtado é o Amaral Neto do petismo. Faturou 700.000 reais para dirigir um comercial do Banco do Brasil sobre o tema da fraternidade. O comercial faz parte da campanha ufanista ‘O melhor do Brasil é o brasileiro’. Na ditadura militar, Amaral Neto exaltava o orgulho nacional mostrando a construção de hidrelétricas. Jorge Furtado, o maior propagandista do lulismo no meio cinematográfico, mostrou a construção de uma quadra de futebol na periferia de Porto Alegre. A quadra custou 120.000. Foi financiada pelo próprio Furtado, com o dinheiro pago pelo Banco do Brasil. Furtado elegeu a si mesmo como exemplo de fraternidade, portanto. E usou o dinheiro do Banco do Brasil com a desenvoltura de um deputado maranhense, que constrói quadras de futebol em seu curral eleitoral, com a verba do Fundef. Não todo o dinheiro, claro: se a quadra de futebol custou 120.000, e outros 130.000 foram gastos em impostos, sobraram 350.000 para Furtado. É assim que funciona a fraternal contabilidade petista.

Furtado já declarou que, em parte por motivos ideológicos, não aceita fazer publicidade em sua produtora de cinema. Exceto publicidade do PT. Ele é o mais requisitado marqueteiro petista do Rio Grande do Sul. Dirigiu as duas campanhas de Tarso Genro à prefeitura de Porto Alegre e as duas campanhas de Olívio Dutra ao governo do estado. Valeu a pena. O governo gaúcho, na administração Olívio Dutra, premiou seu filme O Homem que Copiava com 1,3 milhão de reais. E deu mais 1,1 milhão para seu sócio. Furtado está entre os maiores captadores de recursos públicos para o cinema do país. Leva dinheiro de todos os lados. Só nos últimos tempos, recebeu 250.000 da Petrobras, 380.000 da Ancine, 400.000 do BNDES, 370.000 do Ministério da Cultura, uma ajudinha camarada dos Correios, outra ajudinha camarada da velha prefeitura petista de Porto Alegre.

Não é só com o apoio de estatais que Furtado financia seus filmes. Meu Tio Matou um Cara, atualmente em cartaz, contou também com o patrocínio da Brahma. Furtado diz que não faz publicidade, mas o filme está repleto de merchandising de cerveja. Seus sólidos princípios ideológicos valem tanto quanto os de Lula. Como todo petista, Furtado protestou violentamente contra a privatização das empresas de telefonia. Agora, com a maior naturalidade, passa o pires na Brasil Telecom e na TIM. Quando o PT estava na oposição, Furtado acusava Fernando Henrique Cardoso de representar ‘décadas de concentração de renda e exclusão social, patrocinadas pela mesma elite que continua no poder: ACM, Sarney, Maluf, Delfim’. Os quatro antigos vilões foram alegremente absorvidos pelo fisiologismo petista, e Furtado deixou de se escandalizar com isso. Afinal, além de patrocinar a concentração de renda e a exclusão social, a tal elite também patrocina seus filmes.

A esquerda, durante a ditadura militar, deu a Amaral Neto o apelido de ‘Amoral Nato’. Furtado tem uma vantagem: se alguém quiser aplicar-lhe um apelido depreciativo, nem precisa estropiar seu sobrenome.’



SERRA EM AÇÃO
Barbara Gancia

‘Governo Serra’, copyright Folha de S. Paulo, 7/01/05

‘Depois de tantos vendavais, espera-se rigor absoluto da administração José Serra. A população quer ver a prefeitura ceifar despesas e eliminar seus benefícios. Usar o ‘Diário Oficial’ para fazer propaganda do ‘melhor ministro da Saúde que o país já teve’ é justamente o tipo de atitude que São Paulo não deseja ver.

Especialmente na primeira semana da nova administração.’



MÍDIA & LEGISLATIVO
Carlos Heitor Cony

‘Excesso de dosagem’, copyright Folha de S. Paulo, 8/01/2005

‘Num dia da semana que está acabando, contei as páginas que os jornais dedicaram ao futuro presidente da Câmara dos Deputados. Uns pelos outros, deram cerca de três páginas compactas ao emocionante evento, com fotos dos personagens envolvidos e do onipresente Zé Genoino coordenando os trabalhos, boxes, previsões de ‘cenários’ e retrospectos explicativos, na base do ‘entenda melhor o caso’.

Não me dei ao respeito de ler nada dos textos, passei os olhos pelos títulos e, logicamente, fiquei sem entender o caso. Mesmo que lesse tudo, letrinha por letrinha, pouco entenderia. Nas TVs, os especialistas no complicado xadrez da política também deitaram e rolaram sobre o assunto.

O tsunami que devasta corações e mentes na seara específica se resume ao fato de haver dois candidatos do PT para a mesma cadeira, um do próprio partido, parece que lançado por si mesmo, outro do mesmo partido, mas ungido com as bênçãos do presidente da República.

Tudo nos conformes da missão e profissão dos políticos, que vivem e dependem de cadeiras, espaços, cenários e compensações. Estão lá para isso mesmo e não merecem ser criticados por exercerem o direito de serem como são.

O que me espanta é o entusiasmo da mídia ao cobrir um fato da rotina parlamentar, que não chega a trazer substancial auxílio ou prejuízo à vida nacional, aos desafios que deverão ser enfrentados, aos problemas que realmente preocupam o governo e a sociedade.

Sabemos que a mídia, principalmente a impressa, tem sofrido um êxodo progressivo de leitores e consumidores. Em linhas gerais, nunca os meios de comunicação se apresentaram tecnicamente tão bem aparelhados, tão sedutores na maneira de veicular notícias e comentários.

Lembro uma revista que dedicou oito páginas ao casamento de uma das filhas de um dos donos da empresa. Socialmente, um acontecimento. Mas o exagero da cobertura afastou leitores e publicidade.’



COMUNICAÇÃO & DEMOCRACIA
Ruy Altenfelder

‘Comunicação na era moderna’, copyright Folha de S. Paulo, 6/01/05

‘Nos regimes democráticos e na economia globalizada, a comunicação é área estratégica e fundamental para o sucesso das organizações públicas e privadas. Comunicação é ciência. Tem princípios e contornos próprios. Quem não diz claramente o que é permite que pensem o que não é. A comunicação não pode ficar à jusante do processo de decisão. As empresas e os órgãos públicos e privados recorrem à comunicação para se mostrarem à comunidade, às vezes com um certo folclore, para cativarem o seu público externo, ganharem simpatia interna.

Infelizmente, não são muitos os gestores que têm exato conhecimento de que a comunicação deve ser tratada a montante do processo de decisão e manejada como uma ferramenta estratégica de gestão. Também ainda são poucos os que a encaram como um investimento, e não como um custo. É por meio da comunicação que, no âmbito de cada comunidade, estabelece-se o conjunto de valores -políticos, religiosos, econômicos e comportamentais- que constitui o universo cultural, os usos e costumes de cada tribo, nação e civilização.

Durante milhares de anos a comunicação limitou-se, nas sociedades primitivas, à linguagem oral. A escrita, forma mais sofisticada de comunicação, surgiu por volta de 4.000 a. C., na Mesopotâmia, Egito, China, Palestina e Índia. Os povos que habitavam essas regiões constituíram as primeiras civilizações do planeta e tinham em comum a prática da agricultura, a criação de animais, a metalurgia, a escultura, sistemas religiosos e políticos organizados e, claro, a escrita. Esta última virtude permitia-lhes deixar para as sucessivas gerações todo o conhecimento adquirido.

Todas as grandes transformações que se seguiram na história apoiaram-se na capacidade da comunicação. A exemplo do que ocorria nas sociedades primitivas, a comunicação é o sistema que oferece coesão e referências culturais harmônicas à civilização globalizada deste início de milênio, a cada país, Estado, cidade, bairro, empresa, família etc. É por isso que, cada vez mais, essa atividade apresenta-se, no universo empresarial, como ferramenta imprescindível à conquista de resultados.

A comunicação empresarial deste século se caracterizará por três grandes vertentes:

a crescente expansão do suporte eletrônico. A comunicação vai deixando de ser escrita e passa a utilizar modernos instrumentos, como vídeos, sítios na internet e nas intranets, boletins eletrônicos e multimídias. A internet revolucionará a publicidade.

A segunda vertente diz respeito à redução das fronteiras entre comunicação interna e externa, com ênfase na qualidade.

A terceira refere-se ao predomínio da emotividade sobre a racionalidade. A comunicação tende a se tornar menos cinzenta e mais colorida. Será preciso seduzir, cativar, apelar aos sentidos e despertar as emoções e os afetos.

Uma análise puramente científica demonstra não haver comunicação sem retórica. Essa consideração é fundamental para que se discuta o verdadeiro papel e a dimensão ética do chamado jornalismo institucional, conceito atual que define, de forma genérica, as atividades de assessoria de imprensa e a edição de jornais, revistas e vídeos institucionais, destinados ao público interno ou externo das organizações. Em ambas as vertentes, que representam um importante nicho para o mercado de trabalho dos jornalistas, a retórica é uma característica presente. Estabelecer os seus limites, contudo, é fundamental para não esbarrar na ética.

Outro ponto que deve ser destacado é o papel da comunicação empresarial no campo social. A participação dos empresários nessa área tem crescido de forma significativa, convencidos que estão de que o governo, sozinho, não conseguirá resolver os graves problemas sociais que afligem o país. Afinal, o sucesso de uma empresa irá depender do vigor de seu mercado consumidor. O conceito de cidadania empresarial vem sendo cada vez mais discutido e praticado, pois o exercício da responsabilidade social acaba acarretando maior produtividade e qualidade dos produtos e serviços oferecidos pelas empresas. A empresa moderna não pode ser simplesmente uma unidade de produção e consumo, voltada apenas para o lucro financeiro.

A comunicação da era moderna não pode deixar de ser humilde e procurar fazer tudo com presteza, eficiência e, acima de tudo, com a humildade que o notável Albert Sabin, no final de sua vida, referindo-se à sua preciosa e salvadora descoberta -a vacina contra a poliomielite-, professou: ‘Tudo o que fiz foi um esforço concentrado para aliviar um pouquinho a miséria humana’.

Ruy Martins Altenfelder Silva, 65, advogado, é presidente do Centro de Estudos Avançados e Estratégicos do Ciesp. Foi secretário da Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado de São Paulo (2001-2002).’

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