Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 7 E 8/01

Direto da Redação

10/01/2006 na edição 363



CASOY DEMITIDO
Eliakim Araujo

Boris Casoy: a queda do Muro de Berlim, 4/01/06

‘Não acredito nessa história de que Boris Casoy teve o contrato rescindido pela Record por interferência do Planalto, como andam espalhando. Aparentemente, é mais uma maledicência que tentam imputar ao governo do presidente Lula. Quem conhece os bastidores da emissora do bispo, sabe que era antigo o desejo da Record de se livrar do jornalista. Pelo menos desde julho último, este colunista, que vive longe da metrópole, sabia dessa intenção. O que aconteceu é que a emissora resolveu antecipar o desligamento, que estava previsto para fevereiro, logo após as férias do apresentador.

Quem ganha e quem perde com a saída de Boris? Para um segmento limitado de telespectadores, que se acostumaram com os bordões do apresentador, ele vai fazer falta. Para esses, Boris era visto como um justiceiro implacável, a palmatória do mundo sempre pronta para bater nos corruptos e safados de toda espécie. Na época em que começou, a mídia escrita, especialmente a de São Paulo, de onde Boris tinha saído, louvou a novidade porque de certa forma sua ascensão representava um esvaziavamento dos apresentadores tradicioniais, de carinha bonita, formatados no Jardim Botânico. Boris logo ganhou a alcunha de âncora, como são chamados nos EUA os principais apresentadores dos telejornais, embora seu estilo nada tivesse a ver com o daqueles grandes e respeitados jornalistas do horário nobre como Peter Jennings, Dan Rather e Tom Brokaw (todos fora do vídeo atualmente por morte ou aposentadoria).

Para a maioria, entretanto, o estilo Boris cansou. Seus comentários e frases feitas deixaram de ser novidade e acabaram se revelando vazios e inúteis, mais parecendo jogadas de efeito para agradar a torcida. O telespectador, que não é tão bobo quanto imaginam os editores do JN, acabou descobrindo que o jornal do Boris não iria salvar o Brasil e muito menos melhorar a vida do brasileiro. Boris deixou de ser novidade e perdeu o bonde da história ao não renovar-se profissionalmente, o que é fatal em televisão. Manteve-se fiel ao projeto lançado em 1988 quando inaugurou o Telejornal Brasil no SBT.

Boris foi parar na televisão meio por acaso, graças ao olhar clínico de Marcos Wilson, profissional experiente que estava assumindo o departamento de jornalismo da emissora de Silvio Santos. Não conseguindo tirar nenhum apresentador da emissora dos Marinho, Marcos Wilson e sua equipe inovaram ao escalar um profissional que era a antítese do que o público estava acostumado a ver: um apresentador já passado nos anos, gorducho e de óculos. O anti-galã global, mas que trazia para a TV a credibilidade conquistada na mídia impressa, sobretudo na Folha de SP.

Um desentendimento profissional entre criador e criatura, acabou originando uma grave divisão no jornalismo do SBT. Para abafar a crise, Silvio Santos deu a Boris o privilégio de ter sua própria redação, um núcleo independente do departamento de jornalismo da emissora com equipe própria. Surgia assim o primeiro ‘muro de Berlim’ da TV brasileira. Repórter do TJ Brasil não podia entrar nos outros telejornais da rede e vice-versa. Era comum ver-se nas reportagens de rua, dois microfones com o logotipo do SBT, um do jornalismo e outro do jornal do Boris. Uma divisão inconcebível do ponto de vista empresarial e editorial.

Em 1997, quando Silvio resolveu desativar o jornalismo do SBT, que não conseguia os dois dígitos que ele tanto espera, Boris transferiu-se para a Record, levando junto as mesmas virtudes e os mesmos defeitos dos tempos do SBT. Boris não agrega, ele divide. E exigiu montar sua própria equipe, praticamente a mesma que começou com ele, e um núcleo exclusivo que não se misturasse com os demais profissionais do jornalismo da emissora. Com o fim da era Boris, cai o ‘muro de berlim’ para satisfação geral na redação da Record.

A questão mais delicada que vejo na saída de Boris é a editorial. Discordando ou não de seus comentários, temos que admitir que Boris gozava de uma liberdade de opinião como nenhum outro apresentador da TV brasileira. Não está muito claro ainda até que ponto essa liberdade de Boris estava incomodando a cúpula da emissora ou, em última análise, da Igreja Universal. Já se anuncia que ele será substituído por um casal de apresentadores convencionais, nos moldes da Globo. Tudo indica que a Record ficou traumatizada com a passagem de Boris por lá e não quer mais um âncora com liberdade de opinião. Afinal, questões políticas e editoriais são extremamente ‘sensíveis’ e o controle deve ficar totalmente nas mãos da empresa, como de resto acontece nas outras redes e na mídia brasileira em geral.

O tempo dirá se a saída de Boris significa um retrocesso ou um avanço no telejornalismo brasileiro.

(*) Ancorou o primeiro canal internacional de notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi âncora do Jornais da Globo, Manchete e SBT e noticiarista da Rádio JB. Tem uma empresa de assessoria em jornalismo e marketing.’



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