Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > GOVERNO LULA

Elio Gaspari

16/11/2004 na edição 303

‘Depois do resultado da eleição municipal Lula precisa redescobrir o rumo do seu governo. Como? Revendo (sozinho) ‘Entreatos’, o documentário que João Moreira Salles rodou sobre os 33 dias finais e triunfantes de sua campanha de 2002. O filme estréia dia 26, mas o Paradiso-Alvorada tem cópia.

Tem muito petista que ainda não entendeu o que aconteceu com seu partido, seu governo e seu presidente. O que fazer? Ver o documentário do João. Ninguém jamais tinha visto Lula sem os lugares comuns de seu cotidiano retórico (‘nunca neste país’ ou ‘não temos o direito’, por exemplo). Salles e Walter Carvalho, o bruxo da câmera, registraram coisas que os jornalistas políticos não perceberam ou não conseguiram expressar.

Lula recebeu 52 milhões de votos. Muita gente apertou 13 e teve a falta de sorte de perder o emprego. Muita gente acha que votou numa coisa e recebeu outra. Há eleitores docemente surpresos, zangados ou amargamente traídos. O que é que houve? O documentário do João mostra quem era em 2002 o cidadão que foi eleito presidente.

Nenhuma das cenas ou barulhos que sua equipe (sete pessoas) presenciou podia vazar. Tiveram acesso a bastidores da campanha. Lula nada pediu. Só viu o trabalho depois de pronto.

Moreira Salles filmou 240 horas, inclusive o exato momento em que caiu a ficha: o ex-sindicalista tinha sido eleito presidente da República.

Há dois famosos documentários saídos de campanhas eleitorais. O ultimo é ‘The War Room’ (A Sala de Guerra), de 1993, com a cozinha da campanha de Bill Clinton. O de João Moreira Salles é melhor, por dois motivos: Lula deu-lhe mais acesso e ele soube tirar melhor partido do material que capturou. Esticando um pouco a corda, ‘Entreato’ chega a ser melhor que ‘Primary’, o pai do gênero, filmado por Robert Drew em 1960. Nele, os senadores John Kennedy e Hubert Humphrey disputam a indicação pelo partido democrata no inverno do Wisconsin. (Vendo-o, aprende-se que no mano a mano Humphrey era mais simpático que Kennedy.) Drew criou um estilo. Salles conseguiu uma proeza do jornalismo político: se algum lhe perguntar como é o Lula, talvez não saiba responder. Certamente, muitas pessoas depois de verem seu documentário poderão explicar ao próprio Moreira Salles ‘quem, e como, é o Lula’.

Como ‘Olga’ dividiu o mundo entre juízes de filmes e a patuléia que compra ingressos, vai aqui uma sugestão: procure ver ‘Entreatos’ sem ler a respeito. ‘Entreatos’ é um documentário, mas também um fato político. Se a opinião dos críticos pode ser útil para o julgamento de um filme, o julgamento do fato político enriquece-se na reflexão individual. A sugestão vale porque hoje, como em 2002, há uma relação prática entre o que se acha de Lula e o futuro de quem vai ao cinema.’



Fernando de Barros e Silva

‘Filme revela bastidores da campanha de Lula’, copyright Folha de S. Paulo, 12/11/04

‘‘No Brasil de hoje -esse é um dado triste-, a única figura de dimensão nacional sou eu.’ Estamos na reta final, a poucos dias do segundo turno da eleição presidencial de 2002. Quem fala é o futuro presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Está a bordo de um jatinho, suado e com cabelo desalinhado, indo de Macapá, no Amapá, para Belém, no Pará.

Esta é apenas uma das muitas imagens e declarações preciosas dos bastidores da campanha que conduziu Lula ao poder. Estão reunidas no documentário ‘Entreatos’, dirigido pelo cineasta João Moreira Salles, previsto para estrear em circuito comercial em São Paulo e no Rio no dia 26.

Antes disso, o filme terá sua pré-estréia na terça-feira, em São Paulo, dentro de um ciclo no qual também será apresentado pela primeira vez o filme ‘Peões’, documentário dirigido por Eduardo Coutinho com depoimentos colhidos em 2002 de ex-metalúrgicos que conviveram com Lula durante as greves do ABC.

‘Entreatos’ está longe de ser um retrato oficial ou oficialesco da campanha petista. Apesar da afeição inequívoca do diretor pelo personagem central, a imagem de Lula que sai do filme é controvertida e no mínimo ambígua. Além disso, o filme joga nova luz sobre muito do que se viu de lá para cá, em quase dois anos de governo.

Das 240 horas de gravação que acumulou entre o final de setembro e o dia 27 de outubro, quando Lula derrotou José Serra, o cineasta privilegiou nas quase duas horas que chegarão ao público a intimidade do candidato e de seu entorno, mostrando coisas que hoje podem constranger ou incomodar o presidente e seus próximos.

‘Está gravando?’

A percepção de que a exposição das entranhas da campanha poderia ser inconveniente ou perigosa está registrada no próprio filme. Lula e alguns auxiliares estão reunidos em torno de uma mesa redonda para discutir a estratégia para um debate na TV ainda no primeiro turno. José Dirceu toma a palavra. Mal começa a falar e percebe que está sendo filmado.

‘Tá gravando? De quem é esse pessoal? Do João? Que João?’, pergunta Dirceu. Informam que se trata de um documentário combinado com Lula. ‘Vão fazer uma cena e vão embora. São de confiança’, diz Duda Mendonça. E Dirceu: ‘Eles são de confiança, mas não existe confiança absoluta porque a fita de Lula sobre Pelotas acabou na mão dos nossos inimigos’. Gilberto Carvalho argumenta: ‘A fita é guardada no cofre todo dia’. E Dirceu contra-ataca: ‘Vai nessa… Se você soubesse o que eu tenho das outras campanhas, você não falaria isso, Gilberto Carvalho’.

A citação refere-se à frase de Lula flagrada no intervalo de uma gravação e divulgada em 2000, segundo a qual Pelotas era ‘um pólo exportador de veado’.

O mal-estar com Dirceu é o momento mais tenso do filme, o único em que a equipe é hostilizada.

Favre, macacão e álcool

A espontaneidade de Lula durante as filmagens é responsável por vários momentos reveladores do documentário. No intervalo de uma gravação, o candidato pega o telefone e finge falar com o ‘companheiro Bush’. A seguir, em ‘portunhol’, simula falar com Eduardo Duhalde, então presidente argentino: ‘Olá, Duhalde, quieres Favre de vuelta? Yo mandaré’. A piada com o marido de Marta Suplicy arranca risos no estúdio. Passagens jocosas e prosaicas como essa abundam no filme.

Logo no início, Lula conversa no jatinho com o vice, José Alencar, sentado ao seu lado. A certa altura, diz, referindo-se ao Palácio da Alvorada: ‘Aquele palácio é triste porque o Fernando Henrique Cardoso nunca jogou bola. Ele não dança’. ‘Não bebe um gole’, emenda Alencar. ‘Não bebe um gole’, repete Lula.

O consumo de bebida alcoólica aparece em outro trecho, em que Lula relembra os tempos do sindicato. ‘A gente tomava três, quatro doses de pinga na hora do almoço, comia em 15 minutos e ia jogar bola num sol quente […] Não tenho um milímetro de saudade. Tenho saudade só dos amigos.’

É também nesta seqüência, durante a preparação para uma sessão de gravações para a TV, quando está escolhendo sua gravata, que Lula critica aqueles que condenam seu aburguesamento.

‘Outro dia um companheiro xiita do PT disse: ‘Eu prefiro o Lula de macacão, não o Lula de gravata’. (…) Eu não estava presente, me contaram. Aí fui no microfone e falei: ‘Tem um companheiro aqui que disse que prefere o Lula de macacão. Vamos fazer o seguinte: eu dou meu macacão de graça pelo terno e gravata dele. Ele vai trabalhar numa fábrica para ver se é bom’. Só fala isso quem não conhece o que é trabalhar de macacão debaixo de uma telha de Brasilit. Depois do almoço aquela porra esquenta e você fica todo suado até três horas da tarde.’

A obsessão de Lula com sua aparência é recorrente no filme. Logo no começo, a seis dias do primeiro turno, quando termina de fazer a barba e cortar o cabelo em São Bernardo, ele se olha no espelho e diz, sorridente: ‘Se minha mãe me visse assim, ia dizer ‘mas que baianinho jeitoso’.

Duda em ação

A atuação de Duda Mendonça é um capítulo à parte. A imagem do marqueteiro intuitivo e estelar, meio malandrão, sai reforçada do filme. Também ficam explícitas as técnicas de construção da imagem do candidato, o controle que exerce o aparato de propaganda sobre o político -fato sabido, mas que ganha outra dimensão quando escancarado. Duas passagens se destacam.

Numa delas, Duda grava o primeiro programa de TV de Lula para o segundo turno. Dirige um auditório repleto de personalidades e petistas, ensaiando-os a fazer um gesto sincronizado com o braço e a gritar juntos a palavra ‘vem’. No palco, estão Ciro Gomes, o novo aliado, e Alencar, além de Lula. Na platéia, perto da primeira-dama, Marisa Letícia, as futuras radicais Heloísa Helena e Luciana Genro, depois expulsas do PT, e Fernando Gabeira, que desembarcou do governo atirando. A ação de Duda lembra Silvio Santos ou Faustão.

Em outra cena, Moreira Salles mostra a filha do marqueteiro, Eduarda. Ela está longe dos estúdios da Globo, onde se realiza o último debate da campanha. Acompanha sem ser vista, como num Big Brother, um grupo de eleitores que assiste ao debate numa sala. Com o celular na mão, Eduarda vai transmitindo ao vivo os resultados da pesquisa qualitativa (as reações do grupo) a Luiz Gushiken. Diz em detalhes e em tom afirmativo o que Lula deve fazer, como deve falar, o que está funcionando e o que corrigir. A seqüência é muito pedagógica.

O documentário termina com uma longa filmagem do dia da vitória, realizada quase toda no hotel Meliá, em São Paulo, pela filha do senador Aloizio Mercadante, Mariana. Lula está com a família e a cúpula do PT. São cenas memoráveis, ao mesmo tempo íntimas e históricas. Dois detalhes chamam atenção quando a TV anuncia o sucessor de FHC: o choro discreto de Antonio Palocci ao fundo e o abraço formal e sem jeito que Dirceu dá no presidente eleito.’



Mauro Ventura

‘Diários de uma campanha’, copyright O Globo, 14/11/04

‘O cineasta João Moreira Salles achou que estava tudo acabado quando, numa reunião privada, José Dirceu interrompeu a fala, olhou desconfiado para a câmera e perguntou: ‘ Tá gravando isso aí? De quem é esse pessoal?’. Alguém se apressa em explicar que é a equipe de João Salles, que está fazendo um documentário sobre a campanha de Lula à Presidência da República. ‘Quem é João Salles?’, quer saber o então presidente do PT, ouvindo de volta que eles são de confiança absoluta. ‘Não existe confiança absoluta porque a fita do Lula sobre Pelotas acabou na mão do nosso inimigo’, retruca, referindo-se a uma brincadeira de bastidores feita em 2000, quando o petista disse que a cidade gaúcha era pólo exportador de veados. Nem ao ouvir que as fitas são guardadas todo dia num cofre, Dirceu se dá por satisfeito: ‘Vai nessa…’ Em entrevista para divulgação do filme, o diretor revelou sua preocupação: ‘Ali eu pensei que o filme tinha acabado.’

Ao contrário do que Salles temia, as filmagens puderam continuar. E, ao contrário do que Dirceu receava, as fitas ficaram ao abrigo do público até agora. No próximo dia 26, entra em cartaz ‘Entreatos’, documentário que acompanha Lula do dia 25 de setembro até o dia da vitória, 27 de outubro de 2002, flagrando momentos de intimidade, instantes de descontração, situações tensas, reuniões estratégicas e cenas que, vistas agora, soam curiosas. Como na hora em que Lula revela uma frustração: ‘Eu nunca aprendi a batucar.’ Ao seu lado, o marqueteiro Duda Mendonça, preso recentemente numa rinha de galo, exibe talento com as mãos. ‘De marketing político eu sou uma merda, mas de briga de galo e batuque…’, brinca, no que é interrompido pelo então candidato: ‘É claro. Briga de galo não é você que briga.’

Foram filmadas 240 horas, que o montador Felipe Lacerda reduziu para 1h57m. Salles e o diretor de fotografia, Walter Carvalho, registraram momentos públicos – comícios, carreatas, entrevistas coletivas – e situações privadas – reuniões, camarins, encontros familiares. Mas, na edição final, privilegiaram as imagens mais reservadas. Parte do material deixado de fora – as cenas públicas – será incluído num futuro DVD. A última filmagem foi no dia 28: o telefonema de Bush para seu colega brasileiro. ‘A cena era ótima, mas não entrou porque concluiria o filme de modo, digamos, glorioso: o operário falando com o presidente americano. Preferi terminar de uma forma mais ambígua, com o Lula sendo engolido pela imprensa’, contou Salles.

Palavrões, brincadeiras e comentários privados

Os bastidores da campanha revelam muito do perfil de Lula. Salles não esconde a afeição pelo personagem, mas não deixa de fora palavrões, brincadeiras e comentários privados. Num dado momento, Lula critica com o atual ministro da Fazenda, Antonio Palocci, as formalidades do cerimonial da Presidência: ‘Aqueles militares atrás de mim dando palpite, como dão lá para o Fernando Henrique Cardoso, me incomoda demais.’ Em outro momento, mais descontraído, Lula diz: ‘Aquele Palácio ( Alvorada ) é triste porque Fernando Henrique Cardoso nunca jogou bola. Ele não dança.’ O atual vice-presidente, José Alencar, completa: ‘Não bebe um gole.’

‘Lula é, seguramente, um grande personagem, que a câmera gosta de filmar’, disse Salles. As filmagens mostram a frustração de Lula em não ter ganho no primeiro turno, a transformação do petista radical em ‘Lulinha paz e amor’, conduzida por Duda, e a irritação com o assédio dos fotógrafos – ‘Esses caras andam atrás de mim o dia inteiro, porra’. Não foi fácil acompanhar os passos do candidato. A presença da equipe era negociada a todo momento, como explicou o cineasta: ‘Entreatos’ tem uma característica de filme de guerrilha, sem luz nenhuma, entrando no avião somente com uma câmera e sem aparelhagem de som, o que explica muitas falas precisarem das legendas para ajudar na compreensão.’

A mania de Lula com o figurino está presente em várias cenas. ‘Passei 30 anos na fábrica e não me acostumei de macacão, mas ( bastaram ) três dias de gravata…’. Depois, ele diz: ‘Contrataram um costureiro famoso. O cara não acerta uma camisa minha. Todas que fazem não prestam.’ Em seguida, imita os trejeitos de um estilista e brinca: ‘O cara é chique, o cara é chique. Eu mando no meu de Jurubatuba e não falha uma.’

Também se vê a apreensão com o novo cargo. ‘É uma coisa que tá tão fora da sociologia… Não tava no livro que eu poderia chegar aonde eu cheguei. (…) O que eu sei é que a partir de segunda-feira começa uma cobrança para que eu faça tudo que eu falei esses anos todos.’ Num dos momentos mais inesperados, a equipe entrevista, num vôo, um rapaz que Walter Carvalho imaginava tratar-se de alguém íntimo do candidato, já que estava no mesmo jatinho. Nada disso. O passageiro estava no aeroporto de Florianópolis e tinha perdido o avião para Porto Alegre, quando viu Lula e disse: ‘Deixa eu te dar um abraço que eu já perdi meu dia e você é a compensação.’ Lula, por sua vez, ofereceu: ‘Então você vai com a gente.’ E lá estava o desconhecido. Pegando carona no jatinho particular que levava o futuro presidente do Brasil.’



Milton Coelho da Graça

‘Vem aí uma greve em defesa do emprego?’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 12/11/04

‘Humberto Barreto era assessor de imprensa do ditador-presidente Ernesto Geisel e, logo no início do governo, jornalistas o procuraram para saber a respeito de uma reunião ministerial que a Rádio Corredor do Planalto anunciava para aquele dia. Barreto informou que não sabia de nenhuma reunião. Mas esta aconteceu pouco depois.

Barreto foi depois ao gabinete presidencial e disse a Geisel que estava deixando o cargo porque não poderia ser assessor de imprensa sem saber com antecedência que o ministério iria se reunir. O ditador ficou surpreso e reagiu de maneira incomum em sua biografia: garantiu que isso não ocorreria mais.

Essa história, contada por Élio Gaspari, me veio à lembrança com a retirada de Brasília realizada por nosso companheiro Ricardo Kotscho, embora seus motivos para deixar o Planalto sejam alegadamente outros. Ele vinha sendo suavemente ‘escanteado’ por outras figuras importantes do governo e, especialmente, os ligados à comunicação, que o consideram principal responsável por induzir o presidente Lula a aprovar e encaminhar o projeto do Conselho Federal de Jornalismo, preparado pela Fenaj e endossado pelo Ministro do Trabalho.

Até hoje, nenhum jornalista sério e conhecedor do currículo combativo e democrático de Kotscho entende como ele concordou com a tentativa da Fenaj de ‘orientar’, ‘controlar’, ‘disciplinar’ e ‘punir’ profissionais dos meios de comunicação. Kotscho chegou a escrever a mais articulada e competente defesa do CFJ em artigo publicado pela Folha de São Paulo. Mas o monstrengo imaginado pelos herdeiros da pelegada do Estado Novo claramente representava um perigo muito maior para as liberdades de pensamento e expressão do que as razões apontadas por Kotscho para justificar o Conselho – embora estas existam.

A saída de Kotscho ainda deixa uma indagação final: a Fenaj, cuja principal bandeira de luta para se justificar é uma ineficaz defesa do mercado de trabalho, vai ficar caladinha diante da nomeação de um não-jornalista para assumir um dos cargos mais ambicionados da profissão? Fábio Kerche nunca a exerceu nem sequer se preparou para ela. É doutor em Ciência Política.’

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