Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > QUARTA-FEIRA, 11/01

Entrevista de Kucinski
chega à grande imprensa

Por Luiz Antonio Magalhães em 11/01/2006 na edição 363

A entrevista concedida pelo professor Bernardo Kucinski à Agência Repórter Social, reproduzida por este Observatório, chegou à grande imprensa. A Folha de S. Paulo publicou os principais trechos da entrevista e tentou ouvir o jornalista, atualmente responsável pelo boletim diário Cartas Críticas, uma espécie de clipping analítico que o presidente Lula e alguns ministros do chamado núcleo duro do governo recebem diariamente com a análise do que sai na imprensa. Kucinski confirmou a entrevista à Folha e não vez novos comentários.


Um assunto presente em todos os grandes jornais desta quarta-feira é a mudança anunciada no atendimento da agência Fischer. Segundo a Folha, o movimento revela que ‘grandes agências de publicidade iniciaram um processo de reestruturação de seus negócios nos últimos meses buscando o óbvio: melhorar sua relação com os clientes.’


O Estado de S. Paulo traz uma reportagem sobre uma denúncia de ‘apropriação artística e má-fé, entre outros deslizes éticos’ por parte da TV Cultura. Quem acusa é o cineasta paulistano Ivo Branco (do curta premiado Eh, Pagu!, de 1981), informa o jornal.


O Globo continua apostando no caso da inserção de anúncios publicitários da Petrobrás na revista Sem-Terra, do MST. Desta vez, o jornal dá a versão da petroleira, que justifica o gasto com a propaganda na publicação.


Por fim, vale a pena ler a reportagem de Ester Scotti, publicada no Blog Fazendo Media, sobre os 79 parlamentares que são donos de emissoras de rádio e televisão no Brasil. A matéria se baseia na representação do Projor, entidade mantenedora deste Observatório, ao Ministério Público Federal.


Leia abaixo os textos desta quarta-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Quarta-feira, 11 de janeiro de 2006


DIRCEU & MORAIS
Marcelo Coelho


O marketing do sucesso e da penitência


‘Leio e releio, dobro e desdobro a página do jornal, mas ainda não tenho certeza de ter entendido o famoso Réveillon que José Dirceu e Paulo Coelho passaram juntos, numa cidadezinha do sul da França. A reportagem de Mônica Bergamo saiu na Ilustrada de 3 de janeiro; lá estão, lado a lado, ‘o bruxo e o feiticeiro’, como diz o título, e a foto principal mostra os dois, de perfil, ao pé de uma igreja azulada e severa.


Não parecem peregrinos. Entretanto, estão vestidos de modo quase idêntico: sobretudo escuro, chapéu preto, cachecol. José Dirceu leva consigo uma caixa de papelão branco: serão provas de inocência em algum processo? Ou garrafas de um Grand Cru que terá ganho de presente?


A dupla tem um ar empenhado, como se envolvida em algum empreendimento sigiloso: poderiam ser corretores de imóveis, levando adiante uma demorada negociação com as autoridades do mosteiro. Também poderiam ser investigadores da Sûreté, enviados diretamente de Paris para elucidar uma série de envenenamentos suspeitos -só ilações, por enquanto- nas aldeias ali perto.


O clima, seja como for, é de mistério. Em situações assim, os franceses têm uma recomendação célebre: ‘Cherchez la femme’. Procuro, procuro, mas não encontro mulher nenhuma por trás do caso. O que encontro, isso sim, é a barba cerrada, as sobrancelhas grossas e o charuto de Fernando Morais. O escritor elabora simultaneamente a biografia de Paulo Coelho e as memórias de José Dirceu. Não foi má idéia, em termos de ‘marketing’ literário, que todos se congregassem num mesmo Réveillon.


Se Fernando Morais fosse pós-moderno, até que poderia juntar dois livros num só. Esse tipo de coisa andou em moda nos anos 80: o encontro de Mao e Nixon virou uma ópera, por exemplo; outro compositor imaginou Dorothy Lamour e James Joyce surfando no litoral paulista; já se escreveram peças em que Marx contracenava com Sherlock Holmes e com Jack, o Estripador… e por aí vai.


Certamente, a verossimilhança não é o forte de Paulo Coelho nem de José Dirceu, e os espíritos do realismo socialista terão de baixar com força no laptop de Fernando Morais para que as duas biografias adquiram a consistência de ‘Olga’ ou de ‘A Ilha’.


Mas o que significa esse triplo encontro em torno da igreja de Notre-Dame de Betharram? ‘La Rencontre à Betharram’ poderia ser o título de um romance de Mauriac ou Bernanos. De fato, alguns temas ao gosto dos romancistas católicos franceses estavam subliminarmente em jogo naquele Réveillon: os da culpa, do pecado, da danação e da desgraça.


Paulo Coelho constitui o caso mais fácil de interpretar. Sabe-se que, na década de 70, flertava com os espíritos do Mal. Posteriormente, converteu-se à Luz. Quanto maior o êxito de seus livros, mais intenso o processo de sua demonização pela crítica e pelos estratos intelectuais. ‘Já beijei a lona’, declarou à reportagem. ‘Sei como é.’


Tantas vezes patrulhado, Paulo Coelho abre então os braços para um novo anjo caído, o antigo patrulhador, o ateu renitente, o político maquiavélico e arrogante, o homem das mil malvadezas, o político dos mil disfarces, o clandestino de todos os regimes, José Dirceu.


Emergindo do pântano da auto-ajuda, o ‘mago’ se reabilita junto aos setores mais duros da esquerda petista. Articulador finório dos bastidores do mar de lama, o ex-ministro pisa humildemente o seco chão de Betharram. Encapotados, impávidos, Paulo Coelho e José Dirceu enfrentam juntos os anátemas dos ‘formadores de opinião’. Lado a lado, potencializam as respectivas auras de ‘figura maldita’. É o que lhes restará de melhor, quando as últimas convicções se esvaírem por completo. A danação é o único sopro divino a que podem aspirar, junto com a fumaça dos charutos.


Eis um ponto capaz de atrair as simpatias de Fernando Morais. Apesar de seu pedigree de esquerda, o autor de ‘A Ilha’ sempre manteve distância do estilo persecutório do moralismo petista em seus bons tempos. Sua proximidade de longa data com Orestes Quércia, por exemplo, sugere um entendimento muito realista da atividade política -a quilômetros daquilo que, em outra época, se chamava ‘principismo pequeno-burguês’.


É provavelmente nisso que José Dirceu estaria pensando, aliás, quando afirmou não estar mais disposto a participar das atividades do PT. Ficar ouvindo discursos de Tarso Genro e Raul Pont, confidenciou com um sorriso, ‘não dá…’. Como Paulo Coelho, José Dirceu já ascendeu a outro patamar de sabedoria, conhece melhor os homens, não persiste em antigas ilusões.


Sem dúvida, o ânimo de José Dirceu não tem nada de penitente, e Paulo Coelho não dá a mínima para o que a esquerda petista pense dele. A lógica deste evento é puramente midiática, e se apresenta como tal: Paulo Coelho dá as boas-vindas a José Dirceu num universo que se situa além do julgamento ético de quem quer que seja. É o universo das celebridades, onde qualquer coisa -separações, bebedeiras, conversões espirituais, escândalos de alcova, cirurgias de lipoaspiração- é avaliada apenas pelas fotos e pelo barulho que possa causar.


Estar entre os famosos equivale a ter razão. Agir como vitorioso já é sinal de vitória. Comemorar à tripa forra é prova de inocência. A casca espiritualizante, sacramental e meditativa do encontro lhe traz um quê de festa temática. A caminhada numa manhã de inverno imitava os passos do Calvário; mas o que conta é a Ceia que a confraria ‘degustou’ na véspera: ravioli de foie gras, coquilles St. Jacques com trufas e endívias caramelizadas etc. Não é a última: muitas outras virão.’


ENTREVISTA / BERNARDO KUCINSKI
Folha de S. Paulo


Para assessor, Lula tornou imprensa ‘desnecessária’


‘Auxiliar que elabora crítica diária da imprensa para Luiz Inácio Lula da Silva desde 1998, Bernardo Kucinski disse em entrevista ao site ‘Agência Repórter Social’ que ‘o governo Lula decepcionou’ porque ‘não foi capaz de mudar o país como prometeu’. Afirmou que o presidente ‘eliminou a necessidade da imprensa’ e que o petista ‘não se submete a questionamentos’ de jornalistas, com quem teria tido relação ‘sempre muito ruim’.


Assessor especial da Secom (Secretaria de Comunicação de Governo), Kucinski afirmou que ‘ninguém [no governo] tem coragem para dizer a verdade para o presidente claramente’ -e ele a diz ‘todos os dias’. Atacou, por exemplo, a política econômica.


‘Nós fomos ousados em alguns campos sociais, na política externa, mas absolutamente conservadores, retrógrados e até burros na política econômica’, disse.


Kucinski confirmou que deu a entrevista em 4 de dezembro. Ontem, ele preferiu não fazer mais comentários.


A assessoria de Lula não se manifestou sobre a entrevista.


Jornalista e professor licenciado da USP (Universidade de São Paulo), Kucinski contou que suas críticas, antes batizadas de ‘Cartas Ácidas’, passaram a ser chamadas de ‘Cartas Críticas’ na campanha de 2002 porque Lula achava que não podia começar o dia ‘com raiva da imprensa’.


Na avaliação do assessor, ‘a palavra de ordem [na mídia] é acusar e linchar [o governo]’. Disse que os jornalistas ‘estão possuídos por um sentimento genuíno de indignação’ por conta da crise do ‘mensalão’. ‘Eles se sentem parte de uma cruzada moral.’


Kucinski disse que a imprensa está ‘discriminando’ o PT na cobertura da crise política, gerando ‘um fenômeno interessante, parecido com o macartismo [campanha anti-comunista do senador americano Joseph McCarthy]’.


O assessor considerou que o publicitário Duda Mendonça, que fez a campanha presidencial de Lula e perdeu a conta da Secom após admitir ter recebido recursos de caixa dois, teve ‘presença perturbadora’ ao circular no governo de ‘maneira informal’.


O auxiliar disse que o publicitário dava palpites sobre como o governo deveria se comunicar e fazia as principais ações. ‘O Duda ficava dos dois lados do balcão.’


Para Kucinski, o PT ‘errou’ no trato com a mídia quando chegou ao poder. ‘O presidente tem de falar com a imprensa e, através dela, falar com a nação. Eu acho que faltou ao Lula e ao governo essa percepção.’


Sobre o ex-ministro da Secom Luiz Gushiken, disse que ‘ele não era do ramo’. Criticou a área de comunicação. ‘Você não tem um sistema que decide qual é a fala do dia, você perde oportunidades. Não há o menor planejamento.’


Segundo Kucinski, a mídia teria ‘maltratado’ Lula durante sua carreira política. ‘Tudo era distorcido para mostrá-lo como propenso à corrupção.’ Kucinski disse que os jornalistas nunca tiveram ‘respeito com a pessoa do Lula’ e que isso teria contribuído para o petista, na Presidência, ter relação ruim com a imprensa.’


PROPAGANDA OFICIAL
Catia Seabra


São Paulo assiste a guerra publicitária


‘O governo federal e a Prefeitura de São Paulo estão disputando, palmo a palmo, a atenção dos moradores da cidade. Do fim do ano para cá, foram fixados, ao todo, 580 outdoors e placas em São Paulo, para divulgação das ações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do prefeito José Serra. Desde sábado, a cidade é tomada pelos outdoors para campanha sobre investimentos da União em seis Estados.


São oito modelos diferentes, com textos como ‘A pobreza caiu 8%: 2.600.000 brasileiros saíram da miséria’ e ‘Saneamento básico: 1,4 bi investidos em São Paulo’. A campanha apresenta ainda a criação de 3,7 milhões de emprego com carteira assinada no país e o atendimento de 860 mil famílias pelo Bolsa-Família só em São Paulo.


A reforma dos aeroportos de Viracopos e Congonhas mereceu um outdoor. Além dele, a Infraero traz outro com ‘Congonhas de cara nova’.


Responsável pela campanha no país, e procurada a pedido da Secretaria de Comunicação, a agência Lew, Lara remeteu à Presidência a divulgação dos dados. Segundo o Planalto, a campanha toda tem custo de R$ 20 milhões. Segundo empresas que venderam espaço ao governo, foram instalados 300 outdoors, para 14 dias, de 6 a 20 de janeiro. A opção foi pelo roteiro especial, em que o contratante escolhe a região de exibição.


Em São Paulo, a campanha se concentrou em bairros como Morumbi e Itaim-Bibi. Foram 150 outdoors em ‘roteiro nobre’ (de frente para rua) e 150 na lateral. Pela tabela, o custo de cada é R$ 2.400. Com 30% de desconto, teria chegado a R$ 1.700, com total de R$ 510 mil.


Na av. Juscelino Kubitschek, foram seis, sendo quatro da altura do número 900 ao 986. São nove do parque do Ibirapuera ao final da av. Rubem Berta, quatro deles numa só esquina. Na marginal Pinheiros e na av. Sumaré, prefeitura e União dividem espaço. Só num trecho das Nações Unidas, são quatro placas da prefeitura no canteiro central. À margem, os outdoors.


De dezembro até hoje, a prefeitura fixou 280 placas para divulgação de obras em curso. Cada uma tem seis metros por três. Como são reaproveitáveis -bastando substituir a obra-, o custo unitário é de R$ 2.700, num total de R$ 750 mil.


Segundo o secretário municipal de comunicação, Sérgio Kobayashi, a medida foi adotada para atendimento de uma exigência constitucional -de detalhamento das obras- e ‘porque a população precisa saber o que a prefeitura está fazendo’.


Existem, segundo ele, 400 obras na cidade e a idéia inicial é fixar placas em todas. Distribuídas pela cidade, trazem inscrições como ‘Esta é uma obra da prefeitura para melhorar nossa cidade. Uso do dinheiro público com responsabilidade’ ou ‘Trabalho vencendo desafios’.


Além deles, a Secretaria de Subprefeituras fez um acordo com as empreiteiras para fixação de faixas -ao custo de R$ 6 cada uma- em obras de recapeamento. Só na av. Brasil são 11 delas. Seis na av. Paulo 6º.’


PUBLICIDADE
Adriana Mattos


Fischer muda comando e corta atendimento


‘Grandes agências de publicidade iniciaram um processo de reestruturação de seus negócios nos últimos meses buscando o óbvio: melhorar sua relação com os clientes.


E estão radicalizando: a Fischer America, com escritório em nove países e quase R$ 700 milhões em receita anual, troca hoje de comando e acabou com a área de atendimento da empresa- um dos pilares da operação, sustentada ainda nos segmentos de planejamento, mídia e criação.


Fez isso por, basicamente, uma razão: percebeu que existiam falhas internas na interface entre o cliente e a agência – algo que é de responsabilidade dos profissionais da área de atendimento.


Serão as duplas de criação que passarão a fazer esse trabalho a partir de agora, de forma a se aproximar mais do cliente e ouvir da boca dele o que ele quer.


‘Não pode haver falhas nessa intermediação, e aí é que está o problema. O que as empresas mais reclamam hoje é que as agências não criam coisas relacionadas com o que o cliente deseja. Isso é básico e é a maior crítica ao negócio da publicidade hoje’, afirmou ontem Antonio Fadiga, o novo presidente da Fischer, que a partir de agora ocupa a vaga de Eduardo Fischer.


‘Isso não é um ataque à área de atendimento. O dia-a-dia é cruel e sobrecarrega essa turma que precisa não só fazer toda a intermediação do cliente, verificar o que ele quer e ainda a gerir os trabalhos e a produção da agência’, completa.


Ao acabar com a área de atendimento, pelo menos metade dos 12 funcionários do segmento foram demitidos.


Mccann


Há cerca de dois meses foi a vez da americana Mccann Erickson -grupo de R$ 850 milhões de faturamento e dona de contas como General Motors e Colgate- iniciar um processo de reestruturação. Admitiu que era preciso ser ‘líder em inovação’, que precisava ser ‘mais permeável às idéias dos jovens profissionais do setor’. A empresa mudou o comando e reformulou a casa.


Com a intenção de mexer nas estruturas para ‘romper com um modelo’, diz Fadiga, foi preciso ver lá fora que sistema as agências no mundo usam. Ele visitou agências inglesas e americanas no final de 2005. Por aí, para especialistas, implica dizer que as agências brasileiras parecem estar atrasadas nesse processo de reformulação de seus negócios em comparação com outros países.


Acreditar nesse ‘atraso’ esbarra num problema delicado dentro do setor: os custos e os ganhos das agências. Toda empresa de publicidade recebe o chamado BV (Bônus de Veiculação), e é isso que mantém boa parte das agências de pé. Se uma agência compra um gordo pacote numa emissora de TV para um cliente, a emissora paga esse BV para a agência como uma espécie de ‘gratidão’ pelo volume de mídia comprado. É bom para a empresa de comunicação e para a agência, que embolsa o dinheiro. O BV está no código de normas do setor.


A questão é que os modelos já implantados há anos na publicidade mundial tira da agência exatamente a área responsável por essa negociação do BV. Lá fora, quem faz isso é uma empresa especializada que compra e revende o espaço diretamente para o anunciante. Se isso acontece no Brasil, a fonte seca. No exterior, por causa disso, as agências estão se transformando cada vez mais em ‘empresas criativas’, que vendem o serviço de criação, basicamente. É aí que a situação complica: no país, as agências resistem a esse modelo.


A decisão da Fischer de acabar com o atendimento é parte desse processo de reestruturação das agências, que ainda esbarra na prática do bônus de veiculação.’


TV DIGITAL
Luís Nassif


A TV digital e o cabo


‘A questão da TV digital envolve vários atores e interesses. Foram constituídos até um grupo gestor e um comitê consultivo, compostos por representantes dos setores de radiodifusão, TV comunitária, SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).


Em um ano e meio de funcionamento, não houve nenhuma reunião conjunta nem a presença de um ministro de Estado sequer -o que demonstra uma imprudência e falta de transparência do governo Lula similar a essa questão da transposição das águas do São Francisco. Está se montando uma ficção para justificar uma escolha fundamental.


O problema do padrão não é essencial. Antes do padrão, precisa se definir o que se pretende em um país continental, de baixo poder aquisitivo e alta taxa de analfabetismo. A partir dessas definições, escolhe-se o padrão. É essa a posição da Associação Brasileira de Televisão por Assinatura, presidida por Alexandre Annemberg, um dos setores que serão afetados pela nova tecnologia.


Por exemplo, as TVs abertas defendem um modelo focado na alta definição. No fundo, significaria preservar o modelo atual, com melhor definição de imagem. Por trás dessa questão, existe outra de cunho político. Cada TV aberta tem uma concessão de 6 MW no espectro da radiofreqüência. Se não se implantar a TV de alta definição, há a necessidade de um pedaço ínfimo desse espectro para a TV digital. Com a alta definição, as emissoras atuais continuarão dominando todo o espectro. Porém não se praticará um modelo de TV de baixo custo, com alta penetração e com possibilidade de se tornar instrumento de inclusão digital.


Parte interessada na questão, a ABTA tem propostas a apresentar ao governo.


A primeira proposta é tornar o setop-box (a caixinha pela qual transita o sinal digital) o mais universal e acessível à grande massa. Que seja modular, multifuncional e escalável. Ou seja, com um único aparelho, seria possível atender à TV aberta digital, ao cabo e a outras formas de transmissão, ao consumidor de baixa renda, com modelos mais simples, e ao consumidor mais sofisticado.


A segunda proposta é disponibilizar a infra-estrutura de cabo das emissoras fechadas, que, embora tenham apenas 3 milhões de assinantes, passam por 14 milhões de residências. Segundo Annemberg, essa estrutura poderá ser utilizada para educação à distância, sistemas de segurança, aplicações em saúde. Em São Paulo, existem 60 mil prédios cabeados. Quando introduzir a TV digital, esse cabeamento terá que ser aproveitado, evitando a superposição de trabalho e investimento. Seria impossível montar uma nova estrutura nos prédios já cabeados.


Em toda essa discussão, na posição das diversas partes envolvidas -que tenho procurado trazer aqui-, há uma carência básica: a definição clara de quem serão os novos agentes, nessa era de convergência digital.


A rigor, são três: o produtor de conteúdo (no caso, emissoras de rádio e TV e produtores independentes), distribuidores (como as empresas de cabo) e redes. Mas isso é tema para outra coluna.’


TV GLOBO
Daniel Castro


Globo começa a criar para internet e celular


‘De olho nas novas tecnologias que um dia substituirão o televisor convencional, a Globo vai instituir até o final deste ano uma divisão para novas mídias. O novo setor será instalado no Projac, a central de estúdios da emissora em Jacarepaguá (Rio).


Segundo Octávio Florisbal, diretor geral da Globo, a partir deste ano os profissionais da emissora ‘vão criar para a TV aberta, mas pensando também em internet de banda larga e em telefonia celular’. A orientação tem a ver também com a implantação no país da TV digital, que deverá promover a convergência de mídias _o televisor, a médio prazo, será também um microcomputador.


Assim, novas novelas e programas terão subprodutos para internet e celular. Será mais do que já se oferece no ‘reality show’ ‘Big Brother Brasil’, que usa a internet e a telefonia móvel para interatividade _para o público votar. A nova divisão irá oferecer conteúdos da programação da TV na internet e no celular _mais também do que o portal Globo.com já oferece: trechos de novelas e programas jornalísticos.


A princípio, a Globo criará apenas derivados de seus programas. Com o crescimento da base de assinantes de banda larga e melhora na qualidade dos vídeos transmitidos por celular, a Globo pretende se tornar provedora de conteúdos exclusivos. ‘Quando a base aumentar, poderemos ter produtos específicos’, diz Florisbal.


OUTRO CANAL


Concorrência As principais redes de TV fecharam um acordo de cavalheiros para a implantação da TV digital. Elas se comprometeram a, inicialmente, usar apenas um canal da nova tecnologia. A TV digital permite que uma mesma freqüência seja ocupada por até quatro canais e, assim, uma emissora se divida em quatro. Com o acordo, as redes terão que investir menos.


Clarão Mesmo com a queda de audiência na última semana de 2005 e na primeira de 2006, por causa das férias, a novela ‘Belíssima’ continua no topo do ranking das novelas das oito mais vistas da Globo. Está com 46 pontos de média desde o primeiro capítulo, empatada com ‘Senhora do Destino’, à frente de ‘América’.


Escapada No capítulo de ‘Belíssima’ do próximo dia 25, será revelado que André (Marcello Antony) e Érica (Letícia Birkheuer) vêm mantendo um tórrido romance às escondidas. Os dois se encontram já há algum tempo à noite na mansão dos Falcão/ Assumpção, mas Júlia (Glória Pires), diferentemente de muitos telespectadores, não desconfia de nada.


Rojão A Band comemorou com estardalhaço interno. A reestréia de ‘Mandacaru’ (adquirida da extinta Manchete), anteontem, deu média de cinco pontos, com picos de sete _resultado muito bom para a emissora.’


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O Globo


Quarta-feira, 11 de janeiro de 2006


SEM TERRA COM PETROBRAS
Maiá Menezes


Em busca de ‘formadores de opinião’


‘A Petrobras justificou ontem o pagamento de espaço publicitário na revista ‘Sem Terra’, do MST, como uma tentativa de ‘alcançar um público formador de opinião, como professores, profissionais liberais, sindicatos urbanos, partidos políticos e apoiadores internacionais, além do público alvo – camponeses, agricultores e sem terra’. Em nota oficial, a estatal informa que gastou R$ 45.500 em anúncios nas quatro últimas edições da revista.


Em artigo publicado anteontem no GLOBO, o filósofo Denis Rosenfeld, da Universidade do Rio Grande do Sul, criticou o uso de recursos públicos que deveriam ser destinados à cultura na revista. O filósofo sustentou que a revista não tem qualquer cunho cultural e que atende a um projeto ideológico do Movimento dos Sem Terra. O MST reagiu, afirmando que a revista mantém uma editoria de cultura e que as afirmações do filósofo eram antidemocráticas. O movimento afirma ainda que, desde que respeite crenças religiosas, políticas e orientações filosóficas, qualquer veículo pode receber anúncio estatal ou privado.


Estatal afirma que não financia projetos políticos


A Petrobras informou ainda, na nota divulgada ontem, que anuncia em grandes veículos de comunicação, mas também em mídias segmentadas, interessadas em públicos específicos. A companhia afirma também que a veiculação de propaganda não faz a estatal estabelecer vínculo com o conteúdo editorial de jornais e revistas. Na nota, a estatal frisa que ainda que não está a serviço de projetos políticos.


Na nota, a estatal sustenta que defende a diversidade de meios de comunicação para divulgar suas peças publicitárias e ‘não concorda com quaisquer opiniões ou medidas que induzam ao preconceito e à discriminação’.


A estatal ressalta ainda que a publicidade de seus programas culturais tenta atingir públicos produtores de cultura popular. ‘Nada mais adequado, portanto, que os anúncios em questão’. A Petrobras afirma que ‘o acesso de todos os públicos a informações sobre os programas culturais da Petrobras é a melhor forma de garantir esses direitos, além de difundir e multiplicar as ações da companhia nesse setor’.


Empresa destinou a projetos culturais R$ 160 milhões


De acordo com a Petrobras, a empresa mantém sua tradição de investir em projetos culturais. Desde 2001, foram selecionados mais de 500 projetos de cinema, música, artes cênicas, artes visuais, patrimônio imaterial e memória das artes em todas as regiões do país. Os recursos, segundo a empresa, chegam a mais de R$ 160 milhões.’


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Quem paga a conta


‘NÃO HÁ qualquer razão técnica para justificar a decisão da Petrobras de anunciar numa revista do MST. Quem é do ramo sabe disso.


A TRANSFERÊNCIA de dinheiro da estatal para a organização é apenas mais um dos casos que acontecem quando a administração direta e estatais são aparelhadas por grupos políticos.


COMO SEMPRE, a conta, de alguma maneira, é paga pelo contribuinte. Na Petrobras, também por milhares de acionistas, no Brasil e no exterior.’


POLÊMICA CULTURAL
Editorial


Dirigismo cultural


‘Discussões sobre financiamento público à produção cultural já foram cativas de rodas de intelectuais e bares da moda. Com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, no entanto, o assunto rompeu o ciclo das elites – como se diz em Brasília – e ganhou importância política por referir-se a questões-chave para a sociedade, como a liberdade de expressão e a subordinação dos que fazem cultura ao gosto estético, ideológico e partidário de burocratas. Essa serpente saiu do ovo quando foi divulgada a proposta, engendrada no Ministério da Cultura, da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual, a Ancinav, que a pretexto de regular o setor instituía mecanismos de interferência nos conteúdos e na própria intimidade administrativa das empresas. Diante das críticas e da justa resistência à criação anacrônica de um modelo soviético de controle de parte da produção artística, o governo Lula recuou.


Mas as pontes entre a intelectualidade e o Ministério da Cultura continuam suspensas. É o que comprova o recente entrevero entre, de um lado, o poeta Ferreira Gullar, e, de outro, o secretário de Políticas Culturais do MinC, Sérgio Sá Leitão, com bate-bocas pelos jornais envolvendo até mesmo amigos históricos como o ministro Gilberto Gil e Caetano Veloso. À denúncia de Gullar de que há muita centralização no MinC, Leitão respondeu acusando o poeta de stalinista, o que terminou gerando um abaixo-assinado contra o secretário e em apoio a Gullar.


Ao entrar no debate ao lado do poeta, Caetano levou Gil a fazer a irônica recomendação de que pedissem a cabeça dele a Lula. Se qualquer mal-estar entre Gil e Caetano não resistiu a uma conversa entre os dois, o centro da questão continua vivo, exposto à discussão. Há no BNDES R$ 10 milhões para financiar filmes. O edital seria dirigido para, salvo exceções, alijar grandes nomes, punir o sucesso. A centralização na destinação dos recursos, presume-se, estaria a serviço de uma pretensa democratização cujo resultado prático seria privilegiar apaniguados, a mediocridade e aparelhados em geral. A ver.


A experiência com a Ancinav e a tentativa de controlar a imprensa por meio do Conselho Federal de Jornalismo aconselham que se acompanhe de perto a distribuição dessa e outras verbas. Pois o risco de dirigismo nessa área do governo é sempre presente.’


PUBLICIDADE
Ronaldo D’Ercole e Erica Ribeiro


Fischer mais longe da Fischer


‘SÃO PAULO e RIO. A Fischer América, uma das maiores agências de publicidade do país, anunciou uma ampla reestruturação, que incluiu a saída de Eduardo Fischer da direção executiva e a extinção da área de Atendimento. Ele passa a tratar de questões estratégicas do grupo Total, holding que controla a agência e mais três empresas, e o dia-a-dia da Fischer América fica a cargo de Antonio Fadiga, sócio e diretor da holding.


Com o fim do Atendimento, cerca de dez dos 140 funcionários da Fischer devem ser demitidos. Mas a agência diz que vai reforçar a área de Operações, que vai dividir com a Criação as funções do Atendimento.


As mudanças ocorrem num momento em que a Fischer pode perder uma de suas grandes contas, a da cerveja Nova Schin. O mercado publicitário dá a troca como praticamente certa. A Schincariol iria para uma nova agência, que seria criada pelo publicitário Átila Francucci, que está deixando esta semana a JWT. Francucci assinou a criação da campanha ‘Experimenta’ e dos filmes em que Zeca Pagodinho recomendava a Nova Schin, que ajudaram a Schincariol a roubar uma boa fatia de mercado da AmBev. Além disso, ele sempre teve um bom relacionamento com Adriano Schincariol, que dirige a cervejaria.


A Schincariol não confirma nem desmente os rumores. Perguntado sobre o assunto, Fischer disse ontem não ter recebido qualquer comunicado do cliente. Especula-se no mercado que a relação entre ele e a Schincariol teria mudado depois de a Polícia Federal, em junho de 2005, ter prendido os principais executivos da cervejaria sob acusação de sonegação de impostos. Mas a Fischer ainda é responsável pela campanha de verão da Nova Schin.


No Rio, a Agência 3 também anunciou que seus sócios estão deixando o dia-a-dia da operação. Enquanto o diretor de criação Alvaro Rodrigues presidirá a agência, os sócios vão captar novos negócios. A empresa quer entrar em São Paulo, associando-se a outra agência de médio porte, ou como acionista minoritária de uma agência maior. Também estuda criar outra agência no Rio.’


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O Estado de S. Paulo


Quarta-feira, 11 de janeiro de 2006


FRAUDE NA SCIENCE
O Estado de S. Paulo


Snuppy é clone mesmo. Todo o resto do sul-coreano é fraude


‘Investigação da Universidade Nacional de Seul diz que estudo de 2004 também foi forjado


A fraude foi completa. Tanto o trabalho de 2004 como o de 2005 do pesquisador sul-coreano Hwang Woo-Suk foram totalmente falsificados, segundo o relatório final das investigações conduzidas pela Universidade Nacional de Seul. Em ambos os estudos, supostamente pioneiros, o cientista dizia ter produzido embriões humanos clonados e linhagens de células-tronco embrionárias humanas. Não fez nada disso. O único que se salvou foi o cãozinho Snuppy – que, segundo os investigadores, é um clone de verdade.


A confirmação da fraude no estudo de 2004 foi uma bomba para cientistas e pacientes esperançosos. Ao contrário do que dizia Hwang, ninguém ainda foi capaz de fazer a chamada clonagem terapêutica, técnica que produz células-tronco embrionárias geneticamente idênticas aos pacientes para uso no tratamento de doenças.


‘Não digo que voltamos à estaca zero, porque há muita gente avançando na área. Mas foi um banho de água fria para todos’, disse o pesquisador brasileiro Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que trabalha com células-tronco embrionárias.


NENHUMA PROVA


A investigação em Seul já havia atestado que o trabalho mais recente, de 2005, era fraudado. Ainda restava a esperança, porém, de que o estudo de 2004 (o pioneiro) fosse verdadeiro. Mas não. Segundo o relatório divulgado ontem, Hwang e sua equipe não forneceram ‘nenhuma prova de que células-tronco embrionárias clonadas foram criadas’.


‘O trabalho de 2004 foi escrito a partir de informações fabricadas para mostrar que as células-tronco tinham o mesmo DNA da doadora, o que não era verdade’, afirma o texto.


O terceiro grande feito de Hwang foi a primeira clonagem de um cachorro, anunciada em agosto de 2005. Esse, pelo menos, parece ter sido verdade. Segundo o relatório da investigação, testes independentes comprovaram que Snuppy, da raça afghan hound, é, de fato, um clone. A revista Nature, na qual o estudo foi publicado, também encomendou uma verificação independente da clonagem. Os resultados, ainda preliminares, também indicam que Snuppy é um clone verdadeiro.


Ainda assim, está difícil acreditar. ‘Não ponho minha mão no fogo por mais nada que ele publicou’, diz a geneticista Mayana Zatz, pró-reitora de Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). Ela levanta a possibilidade de que Snuppy seja apenas um gêmeo idêntico do animal adulto, produzido por fertilização in vitro. ‘Ele podem ter gerado um e congelado o outro, para gerá-lo mais tarde como se fosse um clone.’


A repercussão negativa deverá afetar não só a carreira de Hwang, mas a confiabilidade do processo científico no mundo todo. Especialmente para pesquisadores da Coréia do Sul. ‘Vai levar muito tempo para o país recuperar sua credibilidade’, avalia Rehen. Para ele, a fraude é uma conseqüência do ‘momento frenético’ que a ciência vive, marcado pela competição entre pesquisadores e revistas científicas.


RETRATAÇÃO


Os dois estudos de Hwang sobre clonagem foram publicados na revista americana Science, que compete com a britânica Nature. O periódico anunciou ontem que vai fazer a retratação de ambos os trabalhos e estuda mudanças no processo de avaliação de novos estudos para publicação.


Hwang não aparece em público há semanas. Em suas últimas declarações, disse que tinha, sim, a tecnologia para clonar embriões e que alguém havia trocado as células em seu laboratório. Ele ainda poderá ser alvo de uma investigação criminal. Os estudos são assinados por dezenas de co-autores. COM AP’


PUBLICIDADE
Carlos Franco


Agências perdem contas para os próprios clientes


‘O empresário Gustavo Paulus apresenta hoje os planos e um novo sócio da agência de publicidade G7, que tem como principal cliente a CVC, negócio da sua família que é líder no País no segmento de viagens. O novo sócio é o ex-diretor de Criação da Fischer America, Pedro Cappeletti, que irá se juntar ao publicitário João Fernando Vassão, que deixou a direção-geral da mesma Fischer America há dois meses. Vassão comandará os negócios ao lado de Paulus com a intenção de disputar novas contas no mercado.


Só que analistas do setor garantem que o movimento tem a ver com uma forte retomada das chamadas ‘houses’, as agências da casa de grandes empresas. É o caso do Pão de Açúcar que, no fim do ano passado, rompeu os contratos com as agências Africa (Pão de Açúcar), F/Nazca (Extra) e Duda Propaganda (CompreBem e Sendas) assumindo a responsabilidade pela comunicação por meio da ‘house’ PA.


As especulações sobre a retomada das ‘houses’ ganharam ainda mais fôlego com a possibilidade de que Adriano Schincariol, que comanda o grupo cervejeiro paulista, dê força para que o publicitário Átila Francucci crie uma agência para atender a cerveja Nova Schin, hoje em poder da Fischer America. Francucci deixa a vice-presidência de Criação da JWT Brasil no fim desta semana.


O jornal especializado Propaganda & Marketing, que chegou às bancas no domingo, deu como certa a saída da conta de Nova Schin da Fischer America para Francucci, o criador do famoso bordão ‘Experimenta’, usado no lançamento de Nova Schin em setembro de 2003. Na ocasião, Francucci era funcionário da Fischer America. O controlador da agência, Eduardo Fischer, disse ontem ‘não ter recebido nenhuma comunicação oficial de rompimento da relação comercial’. A empresa também não confirma o rompimento do contrato.


O Grupo Schincariol investiu R$ 280 milhões em marketing no ano passado e, além da Fischer, é atendido pela agência Lew, Lara, que cuida de refrigerantes e das marcas Primus e Glacial.


A família Klein, dona das Casas Bahia, líder do mercado anunciante, também está assumindo as rédeas do marketing. Não abriu mão da agência Y&R, mas anunciou a saída do executivo Allan Barros, substituído no posto de diretor de Marketing por Rafael Klein, neto do controlador Samuel Klein.’


TV CULTURA DENUNCIADA
Jotabê Medeiros


Diretor acusa Cultura de má-fé


‘A TV Cultura está sendo acusada, pelo cineasta paulistano Ivo Branco (do curta premiado Eh, Pagu!, de 1981), de apropriação artística e má-fé, entre outros deslizes éticos.


O caso pode ser resumido assim: em agosto, o cineasta e produtor Branco procurou a emissora com o projeto de um documentário, Dercy de Cabo a Rabo, sobre a vida e a obra da atriz Dercy Gonçalves. Branco já tinha produzido a primeira parte de seu trabalho, com 10 a 12 horas de papo com a lendária estrela de chanchadas, hoje com 98 anos, além de entrevistas com ex-parceiros, atores e amigos. A TV Cultura teria demonstrado entusiasmo pelo projeto e pediu um book a Branco, com o roteiro e todo seu projeto. A idéia era exibi-lo como obra inaugural da série Brasileiros e Brasileiras. Em outubro, a emissora informou a Branco que não iria co-produzir seu projeto por falta de dinheiro.


‘No dia 1º de janeiro, fui surpreendido com a exibição, no primeiro filme da série Brasileiros e Brasileiras, com um documentário sobre a Dercy’, disse Branco. Era Dercy por Dercy – E por Alguns Amigos, filme co-dirigido por Delfino Araújo e Ricardo Carvalho, da Argumento Produtores, que foi mostrado no primeiro dia do ano-novo, às 21 horas.


‘Um caso flagrante de falta de ética e desrespeito, para não dizer de roubo’, desabafa o cineasta Ivo Branco, que pretende enviar protesto formal ao Conselho da Fundação Padre Anchieta, gestora da Rádio e TV Cultura. ‘Isso é uma coisa que acontece muito em TV comercial. Mas, quando isso ocorre numa emissora pública, você passa a não confiar em mais ninguém’, diz.


Curioso é que, logo após ter ‘recusado’ o projeto de Branco, a TV Cultura já iniciou a produção de seu novo documentário sobre Dercy Gonçalves. A nova produtora contatada foi atrás de Dercy apenas um mês e meio antes da exibição da obra.


A emissora informou ao Estado que ‘desconhecia’ o projeto de Ivo Branco. Segundo Mauro Garcia, diretor de Programação e Produção da TV Cultura, as biografias de Ruth Escobar e Dercy Gonçalves foram sugeridas pela diretoria de Programação e Produção ao jornalista Ricardo Carvalho, que idealizou e produziu a série Brasileiros e Brasileiros. ‘Portanto, não houve, em hipótese alguma, má-fé da TV Cultura’, disse.


A emissora desqualificou os dois interlocutores que Branco diz ter tido na entrega do seu projeto à casa: Ivan Isola e Beto Tibiriçá. ‘Ivan Isola não faz parte do Departamento de Documentários da emissora. Ele responde pela área de Animação da TV Cultura’, diz a nota. ‘Embora Beto Tibiriçá pertença à área de Documentários, ele não faz parte da estrutura que compõe a diretoria de Programação e Produção da emissora – área que deu origem à produção e gravação da série Brasileiros e Brasileiras com Ruth Escobar e Dercy Gonçalves’.


A nota da TV Cultura admite, no entanto, que as biografias de Dercy (e a de Ruth Escobar) não faziam parte da lista de nomes sugerida inicialmente pelo jornalista Ricardo Carvalho, da Argumento, para a primeira fase da série de programas Brasileiros e Brasileiras. O produtor sugeriu séries sobre Lygia Fagundes Telles, Gianfrancesco Guarnieri e Inezita Barroso.


Quanto à alegada falta de dinheiro para a produção – dinheiro que surgiu para produzir com outro diretor -, a Cultura informa o seguinte: ‘A verba para a produção do programa Brasileiros e Brasileiras foi obtida a partir de receita publicitária gerada em novembro pelo Departamento Comercial da emissora.’


Ivo Branco não é exatamente um estranho à estética da TV Cultura. Dirigiu ali programas de Língua Portuguesa e História da série Projeto Ipê e a narração da série canadense Show de Ciências. Premiado curta-metragista, também teve o roteiro de Quem Matou Baumgarten? premiado em concurso da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, e As Meninas do Belo Monte premiado no da Secretaria Municipal de Cultura. É integrante da Associação Paulista de Cineastas (Apaci).


A TV Cultura informou que pretende gravar 30 biografias este ano com algumas das mais importantes personalidades brasileiras, caso consiga recursos.’


TELEVISÃO
Keila Jimenez


Contra o som alto no comercial


‘Sua TV aumenta o volume durante os intervalos comerciais? Apesar de muitas redes negarem qualquer oscilação no som da transmissão durante o intervalo comercial, acaba de chegar à Câmara projeto de lei que pretende acabar com isso. Segundo a proposta, de autoria do deputado Ivo José (PT-MG), as emissoras de rádio e TV que elevarem o volume de suas transmissões durante os comerciais poderão ser cassadas.


Na lei em vigor, a 10.222, que visa a regular os sinais de áudio das TVs e rádios, as emissoras que não cumprirem a padronização dos sinais estão sujeitas a suspensão por 30 dias.


Segundo o projeto, que será analisado em caráter conclusivo na Câmara nos próximos meses, a rede que aumentar o volume durante o break receberá uma multa. No caso de reincidência, terá sua transmissão de intervalos comerciais suspensa por 30 dias. Somente se abusar uma terceira vez, pode ter sua outorga cancelada.


Na Globo, a explicação para as constantes reclamações de telespectadores sobre a oscilação do volume durante os intervalos comerciais é o tom mais dinâmico que algumas propagandas são gravadas. É esse tom, segundo a rede, que dá a impressão de que o volume do comercial está mais alto.


Para técnicos da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), essa oscilação de volume existe, e é bem maior do que se imagina. Eles alegam que algumas produtoras de comerciais enviam os filmes publicitários com o volume mais alto do que deveriam, deixando o ajuste para os operadores de áudio das emissoras, o que nem sempre acontece. As produtoras, por sua vez, se eximem da culpa e dizem que tudo o que gravam está dentro das normas. Talvez com punição os culpados apareçam.’


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Fazendo Media (www.fazendomedia.com/)


Quarta-feira, 11 de janeiro de 2006


PARLAMENTARES & CONCESSÕES
Ester Scotti


Congresso Tem 79 Donos De Mídia


‘Constatar que, no Brasil, poder político e propriedade de veículos de comunicação caminham juntos não é nenhuma novidade. Como bem se sabe, a família do ex-presidente Fernando Collor de Melo controla o principal grupo de mídia alagoano. Os conhecidos sobrenomes Sarney e Magalhães, por sua vez, imperam nos conglomerados de comunicação do Maranhão e da Bahia.


Segundo investigação do Professor Venício de Lima, do Núcleo de Estudos de Mídia e Política da Universidade de Brasília (UnB), só na Câmara Federal 51 deputados são concessionários diretos de empresas de radiodifusão. A tabela, divulgada no início de novembro pelo sítio Congresso em Foco, inclui somente os nomes que constam no cadastro oficial do Ministério das Comunicações. Veja a relação.


Dos 51 empresários licenciados, 14 são do PMDB, oito do PFL, sete do PP e seis do PL. PSDB, PSB E PTB empatam, cada um com quatro legisladores. Dos que sobram, dois são do PPS, um do PV e um do PDT. Dois parlamentares incluídos na lista – José Borba (PMDB-PR) e Carlos Rodrigues (PL-RJ) – não são mais deputados. Renunciaram ao mandato após serem acusados de envolvimento com o mensalão. Outros dois, Wanderval Santos (PL-SP) e Romeu Queiroz (PTB-MG) – respondem a processos de cassação pelo mesmo motivo.


Em relação ao Senado, a pesquisa estatística foi feita pelo Instituto de Estudos e Pesquisa em Comunicação (Epcom), sediado em Porto Alegre. Na amostragem, 28 senadores foram confirmados como detentores de empresas de radiodifusão, ou seja, 35% do total de parlamentares. Os critérios contemplam os veículos que estão em nome de filhos, mulheres e maridos de senadores, além de terceiros que mantém com eles relações políticas ou comerciais.


Fruto do trabalho dos pesquisadores James Görgen e Daniel Herz, a análise só foi provável ‘graças à iniciativa do ex-ministro das comunicações Miro Teixeira, que em novembro de 2003 decidiu, pela primeira vez, publicar na página do Ministério na internet, a relação dos concessionários públicos de rádio e tv’, explica Görgen.


A listagem inclui grandes nomes da política nacional. O senador licenciado e atual Ministro das Comunicações Hélio Costa (PMDB-MG) e caciques do Congresso como José Sarney (PMDB-MA), o ex-presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), o presidente nacional do PSDB, Tasso Jereissati (CE), e o líder do PFL no Senado, José Agripino Maia (RN), compõem o time.


Ao todo, 15 senadores possuem controle direto das empresas de radiodifusão. O estudo, encerrado em 2004, abarca 9 senadores do PFL, oito do PMDB, seis do PSDB e dois do PT. Os três restantes pertencem a PTB, PSB e ao recém-criado Partido Municipalista Renovador (PMR).


PEC tenta driblar restrições constitucionais


O artigo 54 da Constituição Federal diz que deputados e senadores não podem ‘firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público’ ou serem ‘proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público’.


Não é o que se repara na prática. O descumprimento do dispositivo constitucional é tão evidente e a cara de pau tão grande que tramita na Câmara dos Deputados uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), de autoria de Alceste Almeida (PMDB-PR), que autoriza os parlamentares a serem proprietários de empresas jornalísticas, emissoras de rádio e canais de televisão.


Dos 189 deputados que assinam a PEC, 32 são membros da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI), reduto dos donos da mídia, com cerca de 16 deputados sócios de veículos. Entre os signatários, figuram o ex-ministro das Comunicações, Eunício Oliveira (PMDB-CE); o primeiro vice-presidente da Câmara, José Thomaz Nonô (PFL-AL); e o presidente do Conselho de Ética, deputado Ricardo Izar (PTB-SP).


Como forma de repulsa a tal contradição, o ProJor – instituição jornalística mantenedora do site Observatório da Imprensa – entrou com representação no Ministério Público Federal a fim de sustentar a apuração dos fatos e a punição dos parlamentares que contrariam as determinações da lei. O jornalista Alberto Dines, um dos autores do pedido, ataca que ‘todas as distorções e aberrações da mídia eletrônica brasileira germinam nesta questão: os meios de comunicação não podem estar nas mãos do poder político. O grande problema da concentração da comunicação brasileira começa quando o parlamentar se autoconcede uma emissora e depois vai negociá-la com uma grande rede de TV ou rádio’.


Os jornalistas José Carlos Marão, Luiz Egypto, Mauro Malin e Alberto Dines, coordenadores do ProJor, encaminharam ao subprocurador-geral da República Roberto Monteiro Gurgel Santos os resultados da pesquisa que assinalam vestígios de ilegalidade nas outorgas e nas renovações de concessões públicas.


Em análise preliminar, Gurgel entendeu que não há indícios de ocorrência de crime, segundo dados do sítio Congresso em Foco. Agora, o inquérito corre em instância inferior e os autores da representação esperam um aprofundamento das investigações, além de uma revisão no posicionamento do subprocurador.


Fontes: Instituto de Estudos e Pesquisa em Comunicação (Epcom); Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).’


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