Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Esther Hamburger

01/02/2005 na edição 314

‘‘Mad Maria’ ainda não disse a que veio. Mas certamente não faz jus às referências ao filme ‘Apocalipse Now’, de Francis Ford Coppola, ou a ‘Coração das Trevas’, livro de Joseph Conrad, clássicas alusões aos embates da ‘civilização’ em terrenos ‘selvagens’, que teriam inspirado a produção da Globo.

Na linhagem cinematográfica, a série talvez pudesse se aproximar de ‘Fitzcarraldo’ (1981), de Werner Herzog, se tivesse optado por abrir com o espetáculo do piano se espatifando nas corredeiras selvagens.

O tema é bom. A história da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, como sugere o livro ‘Trem-Fantasma’, de Foot Hardman, recentemente reeditado em versão ampliada, é adequada para pensar a selva como domínio do medo -do inusitado, do incontrolável, geografia especialmente sugestiva para representar o encontro com o desconhecido.

O empreendimento insano de construir, na virada do século 20, uma ferrovia que domasse a mata, marcando a superioridade incontestável da tecnologia, expressa a confluência de uma prepotência humana predatória e um fascínio nativo com as maravilhas da ciência moderna. A vocação modernista de conectar lugares distantes, de vencer os limites do tempo ganha, no caso, contornos surreais.

Cem anos depois da aventura, o desafio permanece atual, em outros termos. A selva mantém seu apelo simbólico. Hoje, inúmeras experiências de crescimento sustentado propõem a convivência orgânica com a floresta como novo parâmetro de vida.

Mas, como sugere a experiência dos que já tentaram, a floresta não é fácil de capturar em imagens. A selva amazônica permanece, em larga medida, intransponível.

Diante da dificuldade, o apelo da floresta se dilui na minissérie. Assim como as lindas fotos do Rio de Janeiro antigo ou da própria construção da estrada que ilustram a abertura e marcam as passagens da narrativa.

Os recursos técnicos e de talento envolvidos, que não são poucos, das tomadas em plano-seqüência, os efeitos especiais empregados se perdem em uma narrativa fragmentada e sem força.

A epopéia que foi a construção da ferrovia fica reduzida a mero pano de fundo de intrigas palacianas, enfrentamento étnico de homens violentos e amores melosos.

A insistente melancolia da trilha sonora sobreposta evita os significativos sons e silêncios da floresta. A cenografia limpinha não convence. O excesso de goma em figurinos que não amassam é artificial. Insetos, quinino e malária não apareceram na estréia. A selva domesticada mais parece um jardim de delícias.

A superprodução começou morna. O romance água-com-açúcar falou mais alto. O tom do primeiro capítulo, que privilegiou a apresentação de pares românticos, cônjuges e amantes, é sintomático.

O médico de Fábio Assunção, um Finnegan, como os outros estrangeiros, sem sotaque, borboleteia, como sua cara-metade, a delicada senhora Consuelo de Ana Paula Arósio, a caprichosa dona do piano.

No Rio, alguns de nossos grandes atores interpretam homens poderosos, ministros, presidentes, comandantes de uma política do tititi, com repercussões no trabalho dos engenheiros e doutores americanos que se aventuraram na mata a comandar grupos de trabalhadores imigrantes do mundo inteiro.

O que importa é aquela convencional troca de olhares, amor à primeira vista, que sinaliza o início de algo. ‘Ele vai voltar’, repetiu várias vezes a personagem de Priscila Fantin, depois de ser comida pelos poderosos olhos do sr. J. de Castro, vivido por Antônio Fagundes.

As minisséries de época, com inspiração pseudodidática na história do Brasil, vêm se tornando uma regra. Referências a heróis e vilões nacionais legitimam folhetins sem grandes pretensões dramatúrgicas ou estéticas.

O resultado é um aviltamento da história, reduzida à função de ilustrar caprichos e galanteios fúteis. A história torna-se recurso de retórica, instrumento banal de construção de verossimilhança, desprovida da carne e do sangue que define os rumos do mundo, em articulações muito específicas, a cada momento e lugar.

Na selva amazônica do Projac, não estamos longe das dunas de Agadir. O presidente Hermes da Fonseca e o esclarecido dr. Rui Barbosa que o digam.

Esther Hamburger é antropóloga e professora da ECA-USP’



Marcelo Camacho

‘Loucura na selva’, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 22/01/05

‘Que Maria Fumaça, que nada. Mad Maria. Ou, em bom português, Maria Louca. O nome não soa muito apropriado para uma locomotiva, mas é perfeito. Afinal, tudo não passou de uma grande loucura mesmo. Se, ainda hoje, a coisa toda parece uma empreitada insana, imagine 100 anos atrás, quando não havia vacinas, garrafas de água mineral ou telefone celular. ‘Mad Maria’ é o título da nova minissérie da Rede Globo, que estréia na próxima terça-feira. Com texto de Benedito Ruy Barbosa, baseado no romance homônimo de Márcio Souza, conta a história da construção, no início do Século 20, da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, um gigante de 366 quilômetros de extensão instalado em plena selva amazônica. Maluquice das boas, em que se gastaram rios de dinheiro e na qual cerca de seis mil homens morreram no intervalo de cinco anos – praticamente três mortes por dia. Não foi à toa que a obra ficou conhecida como Ferrovia do Diabo.

‘Mad Maria’ é o que se costuma chamar, no jargão televisivo, de superprodução. Talvez seja a superprodução das superproduções. Com elenco estelar, no qual despontam Ana Paula Arósio, Fábio Assunção, Tony Ramos e Antônio Fagundes, a minissérie consumiu dois meses de gravações em Rondônia. Durante vinte e cinco dias, cerca de 400 pessoas trabalharam numa locação no meio da Floresta Amazônica, a quatro quilômetros de distância da cidadezinha mais próxima, Abunã. Nunca, antes, a Globo havia ido tão longe no interior do Brasil e com uma estrutura tão caprichada.

As gravações ainda continuam no Rio de Janeiro – em estúdio, em duas cidades cenográficas e em lugares históricos, como o Palácio do Catete, sede do governo federal em 1911, ano em que a história se passa. Quando os 35 capítulos de ‘Mad Maria’ chegarem ao fim, no dia 25 de março, terão custado aos cofres da emissora sete milhões de reais – média de 200 mil reais por capítulo. O programa vem sendo anunciado como o prato principal das comemorações dos 40 anos da Globo.

Para entender a magnitude de uma produção como ‘Mad Maria’ é preciso, antes, conhecer a história da construção, entre 1907 e 1912, da Madeira-Mamoré. A ferrovia era um projeto antigo do Brasil e, principalmente, da Bolívia. Havia décadas, o país vizinho sonhava com um acesso ao Oceano Atlântico – por intermédio dos rios das Amazônia brasileira – para escoar sua produção de látex para os fabricantes de borracha mundo afora. Mas havia um empecilho para conquistar esse caminho até o mar. A navegação pelo Rio Madeira era – e continua sendo – praticamente impossível num trecho levemente encachoeirado e cheio de corredeiras que se estende por 350 quilômetros.

Tudo por causa do Acre

Durante muito tempo, brasileiros e bolivianos até tentaram fazer, de barco, o percurso dos rios Mamoré, Madeira e Amazonas em direção ao Atlântico. Mas os naufrágios, em que se perdiam vidas e cargas preciosas de látex, eram freqüentes. Daí a necessidade de uma ferrovia que ligasse o Rio Mamoré ao Rio Madeira, deixando de fora do trajeto a parte perigosa do Madeira.

Coube ao Brasil a construção da estrada de ferro. Tudo obra do Tratado de Petrópolis, firmado em 1903, no qual o país anexou ao seu território o pedaço de terra que hoje corresponde ao estado do Acre. Em troca, a Bolívia recebeu dois milhões de libras esterlinas – montante que foi pago em duas parcelas – e o compromisso de que o Brasil, finalmente, tiraria do papel a ferrovia Madeira-Mamoré.

A quem estiver se perguntando por que cargas d’água o Brasil entrou nesse negócio, uma rápida explicação: por causa da grande seca de 1877, um contingente significativo de imigrantes cearenses rumou para a Bolívia para trabalhar na extração de látex. Em 1899, depois de conflitos com as autoridades locais, esses trabalhadores revoltaram-se, proclamaram a independência do Acre e pediram sua anexação ao Brasil. A Bolívia mandou tropas militares para reprimir a revolta. O Brasil fez o mesmo, só que em defesa de seus interesses. A pendenga se arrastou durante alguns anos até que o Tratado de Petrópolis fosse firmado. Pois é, tudo isso por causa do Acre…

Construir a ferrovia não foi tarefa fácil. Pelo contrário. A empresa Madeira-Mamoré Railway Co., do empresário americano Percival Farquhar, dono de incontáveis negócios no Brasil, levou para o meio do nada amazônico milhares de operários recrutados em todas as partes do mundo, na maioria homens com experiência na construção de ferrovias em países como Cuba e Guatemala. Trabalhadores chineses abriam a mata. Barbadianos preparavam o solo – havia muitos pântanos na região – e assentavam os dormentes. Alemães montavam os trilhos. Espanhóis faziam a segurança, principalmente contra os ataques de animais selvagens e dos índios Caripunas e Parintintins.

E todos brigavam entre si. Havia ainda gente da Turquia, Índia, Grécia, Itália, Estados Unidos, Panamá, Colômbia, Inglaterra, Cuba, Martinica, França, Hungria, Jamaica, Trinidad, Polônia, Dinamarca e por aí vai. ‘Era uma verdadeira Babel’, diz o historiador Francisco Foot Hardman, autor do livro ‘Trem Fantasma – A Ferrovia Madeira-Mamoré e a Modernidade da Selva’, de 1988, que está sendo relançado, em edição revista e ampliada, pela Cia. das Letras.

Bolivianos e brasileiros eram minoria na empreitada. Ganhavam mais dinheiro extraindo látex das árvores do que abrindo picadas e fincando dormentes. Atraídos por um suposto Eldorado em plena floresta brasileira, os estrangeiros não estavam preparados para o calor – úmido, insuportável – e as condições inóspitas do lugar. Nem patrões, nem empregados. Por causa da malária, da febre amarela, do beribéri, da pneumonia e de uma série de outras moléstias, a vida na floresta era curta – em geral, cada trabalhador tinha apenas três meses de saúde plena antes de adoecer ou morrer.

A situação era tão grave que até um hospital – o da Candelária – foi construído, em 1908, no vilarejo de Santo Antônio, nas margens do Rio Madeira, onde as obras haviam começado um ano antes. Atendia somente os funcionários da Madeira-Mamoré Railway Co., os únicos habitantes da região além dos índios. ‘O Hospital da Candelária era equipado com a mais sofisticada tecnologia da época para o tratamento de doenças tropicais’, diz o escritor Márcio Souza, autor de ‘Mad Maria’. ‘Era o melhor de toda a Amazônia.’

Para escrever o livro, Márcio Souza teve acesso, entre outros documentos, ao relatório que resultou da visita que o sanitarista Oswaldo Cruz fez, em 1910, ao canteiro de obras da ferrovia. O médico teria ficado tão espantado com o que viu que chegou a dizer que a população local não sabia o que era ‘estado saudável’, já que a condição de ser enfermo era a ‘normalidade’. Não tinha jeito. Mesmo com um hospital bem equipado, muita gente morria. Não que isso fosse um grande problema para os construtores, já que, todo mês, cerca de 500 novos funcionários chegavam às frentes de trabalho. Substituíam os mortos e doentes, para, dali a alguns meses, eles mesmos serem trocados por uma nova leva de trabalhadores. Calcula-se que, do início ao fim da construção da Madeira-Mamoré, trinta mil homens tenham passado por lá.

É esse cenário infernal que a minissérie ‘Mad Maria’ pretende reconstituir. Parte da ação se passa na obra da ferrovia. É lá que aparece a personagem Consuelo (Ana Paula Arósio), uma pianista que sobrevive a um naufrágio nas corredeiras do Rio Madeira. Muito ferida, ela acaba no canteiro da Madeira-Mamoré, onde é socorrida – e se apaixona – pelo médico americano Richard Finnegan (Fábio Assunção). Também faz parte desse cenário o engenheiro americano Stephan Collier (Juca de Oliveira), o obstinado responsável pelo andamento dos trabalhos.

Refazendo a saga

Para dar maior realismo à minissérie, o diretor Ricardo Waddington optou por gravar em Rondônia, no local exato em que a Madeira-Mamoré foi construída no início do século passado. Mas existia um problema capital. Desativada desde 1972, a ferrovia havia sido tomada pela floresta e pelo descaso. A solução foi recuperar alguns de seus trechos. ‘Com o apoio do governo do estado, passamos quatros meses, antes das gravações, literalmente desenterrando seis quilômetros de trilhos na região de Abunã’, conta Waddington. Outros dois quilômetros de trilhos foram restaurados nas proximidades de Porto Velho, na região da antiga Vila de Santo Antônio, no Rio Madeira.

A capital, Porto Velho, foi o ponto de partida para a grande aventura da Globo na Amazônia. De lá, a equipe de 130 pessoas – atores, diretores, câmeras, figurinistas, maquiadores, cenógrafos, produtores de arte, contra-regras etc – que havia saído do Rio de Janeiro seguiu de carro até Guajará-Mirim, no Rio Mamoré, a 400 quilômetros de distância onde ficou hospedada. O cenário das gravações, na região de Abunã, ficava a 160 quilômetros de Guajará-Mirim, na direção de Porto Velho. ‘Todos os dias, durante 25 dias, percorríamos 160 quilômetros até Abunã. E os mesmos 160 quilômetros de volta até Guajará-Mirim’, lembra o diretor.

Uma vez em Abunã, dois quilômetros floresta adentro eram feitos de carro. E mais dois a pé. Lá, ficavam os seis quilômetros de trilhos restaurados que aparecem na minissérie como se estivessem sendo construídos. No lugar foram instaladas três grandes lonas, cinco contêineres refrigerados e vinte banheiros químicos para dar apoio à produção, que, além da equipe da Globo, contava com 150 figurantes locais e outros 120 trabalhadores de todos os tipos – seguranças, motoristas, bombeiros, policiais federais.

Em Guajará-Mirim, a Globo contratou um serviço de bufê que, todos os dias, servia cerca de 350 refeições à base de frango, carne, peixe e macarrão numa das tendas armadas no meio da floresta, em Abunã. Em intervalos, por volta das 11 da manhã, passava uma rodada de picolés ou de frutas frescas. ‘O horário de trabalho era determinado pelo mosquito da malária, que morde até nove horas da manhã e depois das cinco horas da tarde’, relata Ricardo Waddington.

De prontidão, havia uma UTI móvel, equipada até com desfibrilador – e médicos, naturalmente. Se aparecesse uma cobra, uma aranha caranguejeira ou uma onça, a Guarda Florestal estava lá para afastar o animal, sem machucá-lo. E os animais apareciam, sim. ‘Várias vezes, quando chegávamos de manhã para gravar, havia pegadas de onça na locação’, diz Ricardo. Todos foram vacinados contra sarampo, hepatite A, difteria, tétano, caxumba e rubéola. Ninguém ficou doente. ‘Tive o prazer e a coragem de levar 130 pessoas para lá e o orgulho de tê-las trazido de volta.’ É claro que teve gente que passou mal – por causa do calor ou de alguma coisa que comeu. ‘Mas não aconteceu nenhum incidente relacionado com os perigos da região.’

A difícil trilha da reconstituição

Se havia trilhos na mata era preciso também uma locomotiva. Afinal, é daí que vem o título da minissérie. A equipe da produtora de arte Ana Maria Magalhães rodou o que foi preciso para encontrar uma máquina semelhante à descrita por Márcio Souza no livro. ‘Procuramos em museus de Campinas, Porto Velho e Guajará-Mirim’, conta Ana, referindo-se à etapa da produção em que ainda se cogitava gravar toda a minissérie no Rio de Janeiro. Se o trem tivesse que sair de Campinas para o Rio, melhor. ‘Mas a locomotiva que queríamos estava em Guajará-Mirim. Era impossível trazê-la para o Rio. Levá-la de caminhão até Abunã já foi um tormento.’

Reformar a Maria Fumaça foi outra tarefa daquelas. Tudo estava em péssimo estado de conservação. A maquinaria foi restaurada por antigos funcionários da ferrovia Madeira-Mamoré. A pintura e a recuperação da parte interna da locomotiva coube à equipe de produtores de arte da Globo. Não bastasse toda essa trabalheira, Ana Maria Magalhães também enviou do Rio de Janeiro para Rondônia dois caminhões repletos de objetos de cena, como malas antigas, lampiões, redes, reproduções de ferramentas usadas na construção de ferrovias no começo do século. ‘Parecíamos uma escola de samba.’

Boa parte da reconstituição de época de ‘Mad Maria’, nas cenas da ferrovia e do acampamento ao seu redor, foi possível graças a uma coleção de cerca de 200 fotografias antigas do americano Dana Merrill. Contratado pela Madeira-Mamoré Railway Co. para documentar a construção da estrada de ferro, Merrill deixou o trabalho que tinha na prefeitura de Nova York e seguiu para a Amazônia em 1909. Ficou lá pouco mais de um ano, tempo em que registrou – muitas vezes de ângulos ousados, como do alto de uma árvore ou de dentro do rio – trabalhadores em ação, dormitórios, locomotivas, trilhos, além de exemplares da fauna local.

‘As fotos dele foram fundamentais para o nosso trabalho’, diz Ana Maria Magalhães. Dana Merrill resolveu ir embora do Brasil depois de perseguido por uma onça no meio do mato. O animal foi morto por um caçador, mas o fotógrafo ficou com tanto medo de morrer que decidiu pedir as contas e voltar para casa. Não sem antes, é claro, fazer um auto-retrato em que aparece ao lado da pele esticada da onça abatida.

O rei da selva

As cenas de ‘Mad Maria’ gravadas no Rio de Janeiro incluem os personagens que mandavam e desmandavam no país em 1911. J. de Castro (Antônio Fagundes) é o ministro de Viação e Obras Públicas, figura nacionalista inspirada no ministro da vida real J.J. Seabra, do governo Hermes da Fonseca. Na minissérie, Castro é o principal opositor do empresário Percival Farquhar (Tony Ramos), dono da concessão para a construção da Madeira-Mamoré, onde não pára de morrer gente, coisa que irrita o ministro.

Farquhar é outro personagem da vida real que aparece – como vilão – em ‘Mad Maria’. Não chegou a tanto na sua versão em carne e osso. ‘O livro ‘Mad Maria’ é muito esquemático, maniqueísta’, diz o historiador Francisco Foot Hardman. ‘Os americanos aparecem como demônios imperialistas. Isso pode até servir muito bem à dramaturgia, mas não corresponde à verdade dos fatos.’

Percival Farquhar era um rico herdeiro americano com fome de bons negócios. No início do Século 20 resolveu investir pesado na América Latina, com especial interesse no Brasil. Por aqui, foi dono de todo o tipo de empreendimento: portos, ferrovias, hotéis, gado, linhas de bonde, companhias de gás, luz, telefone, mineração. Investiu 11 milhões de dólares do próprio bolso na Madeira-Mamoré em troca da concessão da exploração da ferrovia pelo período de 60 anos, mais uma área na Amazônia de 60 mil quilômetros quadrados de seringais.

Mau negócio. Em 1913, um ano após a conclusão da Madeira-Mamoré, o preço internacional da borracha teve sua maior queda na História. Para completar, a Inglaterra, grande consumidora da borracha brasileira e boliviana, começou a colher os frutos dos seringais que plantou em suas colônias na Ásia – e parou de comprar o látex latino-americano. ‘Quando terminou de ser construída, a Madeira-Mamoré já era uma ferrovia destinada ao fracasso’, diz Francisco Foot Hardman. Com o crack da bolsa de Nova York, em 1929, Farquhar foi ao chão e, em 1931, sua ferrovia foi encampada pelo governo nacionalizante de Getúlio Vargas. Dali em diante, a Madeira-Mamoré só fez minguar – até ressuscitar, agora, em grande estilo, na tela da Globo.’



Taíssa Stivanin

‘‘Mad Maria’ é indiferente’, copyright O Estado de S. Paulo, 27/01/05

‘O enredo é bom, o elenco e a direção também, mas Mad Maria é Globo demais. Sim, é difícil reproduzir um fato histórico da proporção da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, que dizimou milhares de trabalhadores com péssimas condições de trabalho e pragas dos confins da floresta amazônica.

Tão difícil que a emissora levou 20 anos para realizar. Seria falso, entretanto, dizer que a minissérie tem mais esmero na produção do que qualquer outra boa atração da Globo, como A Muralha, A Casa das Sete Mulheres ou tantas outras.

Talvez o primeiro capítulo não seja suficiente para dimensionar Mad Maria. Existiu um trabalho de pré-produção incomum, gravações durante semanas às margens do Rio Abunã, onde a ferrovia foi construída de fato, e um alarde danado em torno da recuperação da locomotiva Mad Maria e dos trilhos colocados no meio da selva. Há que se reconhecer que a cenografia fez um bom trabalho reproduzindo fielmente o acampamento da ferrovia, utilizando como referências as imagens do fotógrafo Dana Merril, que registrou a construção da Madeira-Mamoré.

No fim das contas, o problema é esse. Tudo é certinho demais. O índio que rouba objetos no acampamento tem a pele lustrosa, o cabelo tão brilhante que até parece que fez chapinha. O engenheiro Collier (Juca de Oliveira), que no livro tem uma micose no braço que dá um aspecto asqueroso, foi vítima de uma maquiagem pouco convincente. Seu cotovelo mostra uma casca de ferida sem nenhum inchaço, incomum a picadas de insetos. As roupas dos trabalhadores estão perfeitamente sujas e passadas que parecem saídas direto do museu para o tintureiro.

Voltando o foco agora para o casal da minissérie Doutor Finnegan (Fábio Assunção) e Consuelo (Ana Paula Arósio): após algumas horas sentado na locomotiva, Finnegan está com o terno impecável e sem uma gota de suor no rosto, encantado com a floresta.

O troféu bola-fora, entretanto, vai para a cena em que a pianista Consuelo (Ana Paula Arósio) está tocando piano em cima de uma barca, cruzando o Rio Amazonas. O piano foi importado da Alemanha, mas permanece afinadíssimo. Consuelo também está linda, maquiada, bem-vestida, tudo muito estranho para um calor de 42º e um pré-naufrágio.

Mad Maria certamente não vai causar um furor tão grande quanto sua antecessora, Hoje É Dia de Maria, mas talvez o público goste. É o que mostra o Ibope. A audiência entre as duas produções não foi muito diferente: 31 média com 49% de participação. Hoje É Dia de Maria teve 34 e 52% de share.’



TV RECORD
Keila Jimenez

‘Record começa a produzir ‘Essas Mulheres’’, copyright O Estado de S. Paulo, 28/01/05

‘As gravações já estão marcadas, a estréia também. Já o elenco… Herval Rossano, diretor de teledramaturgia da Record, tem enfrentado dificuldades para formar o elenco de Essas Mulheres, título provisório da próxima novela da rede, que estréia em maio. A trama será uma união de três livros de José de Alencar – Lucíola, Senhora e Diva -, e entrará no lugar de A Escrava Isaura, que termina em abril. Terá também toques de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo.

Para a adaptação, Rossano contratou Rosane Lima, Bosco Brasil e Cristiane Fridman (todos ex-Globo). O folhetim, que terá 140 capítulos, começa a ser gravado em março. O título da trama, Essas Mulheres, – refere-se à personalidade forte das três protagonistas da história, mulheres muito parecidas com as heroínas dos livros de Alencar. Para o elenco, Rossano está pensando em nomes como Giulia Gam – que negocia com a rede – e Christine Fernandes, que já fechou sua participação na novela. Lavínia Vlasak recusou o convite. Carlo Briani e Danton Mello estão ainda negociando com o canal.

Um dos problemas do momento é o mocinho da história. A Record queria que Márcio Garcia aceitasse a missão, mas ele já deixou claro que não quer fazer novelas na casa. Outro empecilho na formação do elenco, segundo fontes da Record, seria a Globo. A emissora estaria voltando a propor contratos de três anos aos artistas, para segurá-los por mais tempo em seu cast. Há dois anos, a maioria dos contratos globais era fechado por apenas de um ano.

Assim como Isaura, que vem alcançando ótimos índices de audiência, Essas Mulheres será uma novela de época e estreará o novo estúdio da Record, que tem cerca de mil metros quadrados e fica ao lado da sede da emissora, na Barra Funda, zona leste de São Paulo.

No segundo semestre, a Record deverá inaugurar um segundo horário de novelas, após o Jornal da Record, no horário das 21h.’



CHICO NA DIRECTV
Adriana Del Ré

‘Chico, no papel de si mesmo’, copyright O Estado de S. Paulo, 26/01/05

‘E tem início a maratona Chico Buarque no canal 605, da operadora Directv. A partir de hoje, vai ao ar o primeiro capítulo de um especial-documento, dividido em três partes, no qual o próprio Chico revisita sua obra, sem resquícios de saudosismo ou nostalgia. Os méritos, em grande parte, recaem sobre o diretor Roberto de Oliveira, amigo de Chico e com quem mantém uma relação profissional de anos. Oliveira conseguiu extrair do compositor uma empatia com sua câmera, a ponto do próprio Chico assumir o papel de personagem-condutor da história e se aprofundar em pontos-chaves de sua obra audiovisual.

O primeiro episódio, Meu Caro Amigo, leva Chico ao Rio, cidade onde nasceu, mas de onde saiu ainda criança e sobre a qual ainda hoje conserva um olhar quase estrangeiro. Pelas ruas cariocas, o compositor aparece caminhando. Toma água de coco na praia, contemplando o mar. Anda – e parece passar despercebido pelos transeuntes. Nada é sem sentido. Caminhar está estritamente relacionado ao seu processo de criação. ‘Muitas vezes, estou com um impasse no trabalho, um pedaço de música, um livro, uma letra. Se eu não puder andar, o livro não anda, a música não anda’, revela. ‘Andar não é um exercício, não é programa social. Eu ando a serviço, ando a trabalho.’

E se no seu dia-a-dia, Chico pode caminhar sem rumo, em Meu Caro Amigo, seus passos apressados o levam à Biblioteca Nacional, onde está abrigada uma exposição cujo tema é ele. Chico passa os olhos, de um tom de verde incomum, em fotos históricas, em que está ao lado de parceiros históricos ou ainda jovenzinho, em festivais de música.

Com o silencioso interior da biblioteca ao fundo, pega como ponto de partida músicas suas e desfia uma série de histórias de vida, de carreira e parcerias. As tão amadas parcerias, que estão entre lances mais saborosos desse documentário-musical, como define Roberto de Oliveira. ‘Procuramos mostrar as músicas na íntegra, a partir do testemunho de Chico, sem ser redundante. Ele conta sobre sua vida, sobre a carreira, sem explicar a música.’

O compositor carioca fala sobre sua relação com parceiros e intérpretes, fala sobre suas influências musicais, dando atenção especial a cada um deles. Relembra Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Francis Hime, Toquinho, entre outros. Divertindo-se com as próprias memórias, Chico lembra-se de um episódio envolvendo Jobim e Piazzolla. Na verdade, uma pequena confusão causada pelo hábito de deixar sem letra algumas músicas que lhe dão. Não que seja uma hábito impelido pela displicência, mas simplesmente pelas crises de criatividade.

Chico havia combinado com o compositor argentino que letraria uma música sua. A música ficou parada e, muito tempo depois, quando Piazzolla veio ao Brasil, resgatou-se a promessa da parceria. Piazzolla deu novo arranjo à canção e Chico ficou de entregar a letra em cinco dias, para gravá-la. Chico não fez. Ele se lembra de Piazzolla ter ficado p. da vida, sendo segurado por Tom Jobim. Lembra-se ainda de Jobim ter dito a seguinte frase para o artista argentina, numa tentativa de acalmá-lo e convencê-lo que o problema não era pessoal, era com todos: ‘Ele vai jogar futebol e deixa a gente sem música’, consolou Jobim.

Se Jobim foi o mestre que acolheu Chico com paciência quando ele estava no início de carreira, aprendendo, Vinicius de Moraes via nas parcerias uma forma celar a amizade. ‘Como quando ele se apaixonava pelas mulheres, queria se casar com todas’, diz Chico. Vinicius era amigo da família e freqüentador da casa de seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Já com Dorival Caymmi, a relação é de influência: Chico diz ter crescido ouvindo o baiano, um compositor, segundo ele, com um estilo muito próprio, ‘difícil de imitar’.

ESPECIAL EM DVD

A parte musical do programa é abastecida com históricas imagens de arquivo, do acervo da TV Bandeirantes. São 13 canções, interpretadas por ele e pelos amigos, entre elas: Choro Bandido, com Edu Lobo; Maricotinha e A Vizinha, com Caymmi, Meu Caro Amigo, com Francis Hime; Pois É, com Elis. ‘A carreira dele está registrada no cinema e TV. Esse material estava em desordem e estava na hora de disponibilizá-lo’, comenta Roberto de Oliveira. É um dos motivos pelo qual Chico concordou em ligar seu nome a esse projeto. ‘Ele sentiu que era um momento bom para organizar seu acervo.’

Partindo de um grande volume de material de acervo, Oliveira percebeu que renderia 12 ou 13 temas diferentes. Escolheu-se 10 temas e os três primeiros serão exibidos agora, no primeiro semestre deste ano. O segundo episódio, À Flor da Pele, filmado em Paris, estréia na programação do canal no dia 23 de fevereiro e o terceiro programa, Vai Passar, feito em Roma, vai ao ar a partir de 23 de março. Todos serão reapresentados.

O especial, filmado em high definition (HD), deve ganhar mais sete capítulos, adianta Oliveira. Exibido na operadora Directv para um público restrito e privilegiado, o projeto será ‘democratizado’, afirma o gerente de Programação da Directv no Brasil, Rogério Brandão. ‘Será lançado em três DVDs no final do ano.’ De acordo ainda com ele, numa conversa informal com Roberto de Oliveira, pensou-se na possibilidade de programar sessões em algumas salas de cinema. Se isso realmente acontecer, os fãs de Chico agradecem.’

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