Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ENTRE ASPAS > CONVERGÊNCIA DIGITAL

Ethevaldo Siqueira

25/01/2005 na edição 313

‘Vale a pena entender o que vem por aí em matéria de produtos eletrônicos. Para antever essa evolução, nada melhor do que eventos como o Consumer Electronics Show (CES), aqui em Las Vegas, realizado sempre no começo de janeiro. Um dos painéis deste CES 2005 debateu, a propósito, as tendências da eletrônica de consumo nos próximos 10 anos, com a participação de Stephen Manes, colunista da Forbes, e da PC World, como moderador, e quatro especialistas da indústria: Jeffrey Belki (Qualcomm), Kevin Kahn (Intel), Rudy Provoost (Philips) e Stephen Schwartz (consultor da General Dynamics).

A partir das opiniões desses e de outros especialistas, resumo a seguir as tendências mais prováveis da convergência digital, bem como as possíveis maravilhas eletrônicas que estarão ao nosso alcance, leitor, ao longo dos próximos 10 anos. Aqui vão as tendências para 2015, com a mesma ressalva feita pelo moderador do painel no CES: ‘Não nos cobrem nada daqui a uma década sobre algumas coisas estúpidas que dissermos aqui’.

1) A primeira grande tendência é a popularização de equipamentos de entretenimento portátil, da chamada tecnologia pessoal, tão atraentes como os tocadores de MP3, computadores de mão (handheld computers), PDAs, câmeras gravadoras de DVD, celulares multifuncionais e laptops de alta performance e capacidade de comunicação em banda larga. Um exemplo dessa tendência é o iPod da Apple, um multifuncional revolucionário, que grava e toca música MP3, armazena e exibe fotos digitais e já se acopla a uma dúzia de acessórios.

2) Outra tendência é a maturação da terceira geração (3G) do celular, que associa mobilidade, banda larga e conteúdos cada dia mais diversificados e sofisticados. Esse novo celular viabilizará o comércio eletrônico móvel (m-commerce), tornando realidade a interatividade em multimídia wireless. Na telefonia fixa, teremos a vitória arrasadora da tecnologia da voz sobre protocolo IP (VoIP, na sigla em inglês).

3) Triunfo da imagem de alta definição, a começar pela TV a cabo, nos monitores de computadores, nos projetores de alta performance (e baixo custo) e telões de cristal líquido a preços mais acessíveis. O home theater e o som surround estarão ao alcance da classe C. E, para quem ainda tem dúvidas, vale lembrar que ainda este ano chegará ao mercado o DVD de alta definição, o Blu-ray disc. Num exemplo de convergência total, nossos telões domésticos de alta definição poderão mostrar tanto as cenas e imagens vindas do outro lado do mundo quanto do quarto vizinho, dos provedores de conteúdo on demand, áudio de rádio digital de alcance mundial, hiperinformação online (jornais, revistas, TV aberta ou TV por assinatura), lojas virtuais e todas as formas de comércio virtual.

4) Milhões de cidadãos terão acesso à banda larga sem fio (Wi-Fi ou Wi-Max), nos locais públicos de maior densidade populacional, como aeroportos, shopping centers, hotéis ou restaurantes, para conexão gratuita de nossos laptops e celulares. Com a expansão das redes sem fio Bluetooth, poderemos eliminar todos os fios de conexão existentes em nossas casas, dos mouses, teclados, impressoras, caixas acústicas, fones de ouvido, telefones fixos, de tudo. Já suspiro de alívio.

5) E a internet? Estará no auge, com acesso em banda larga, a 10 megabits por segundo (Mb/s), em sua maioria sem fio, não apenas em escritórios e empresas, mas em aviões, residências de melhor padrão, universidades, hotéis, escolas de primeiro grau, lojas e shopping centers.

6) Servidores de mídia domésticos estarão presentes em pelo menos 60% dos domicílios de classe média nos Estados Unidos, integrando o televisor e o computador e gravando tudo digitalmente. A esses servidores e mídia centers estarão conectadas também jukeboxes capazes de armazenar até alguns terabytes de informação, guardando e tocando todo nosso acervo audiovisual doméstico.

7) Carros digitais oferecerão um festival de entretenimento e informação, com recepção de TV e rádio digital via satélite, navegadores GPS integrados ao celular, sistemas de informação de utilidade pública, internet de alta velocidade e, creiam, um servidor de multimídia dentro do veículo para controlar tudo.

8) Os sensores pareciam coisas de ficção. Pois daqui a 10 anos utilizaremos esses dispositivos em profusão, em sistemas de identificação biométrica, em computadores vestíveis, ou seja, em roupas capazes de checar nossa saúde dia e noite, monitorar nossa malhação nas academias de ginástica ou nas esteiras domésticas. Com sensores, poderemos abrir portas, dialogar com terminais, abrir o sinal verde dos semáforos, identificar pessoas, controlar a entrada de visitantes, proteger as residências e automatizar casas e escritórios.

9) A nanotecnologia decolará, seguramente, nos próximos 10 anos, produzindo as primeiras máquinas e robôs do tamanho de algumas moléculas ou átomos. Alguns nanodispositivos poderão revolucionar a eletrônica, nos chips, memórias e componentes eletrônicos mais sofisticados.

10) Finalmente, a revolução do conteúdo será, predominantemente, voltada para o entretenimento, pois, na visão dos líderes, ‘tudo terá que ser um pouco mais divertido daqui para frente, seja trabalho, educação e, principalmente, os meios de comunicação’.

No seu estilo mordaz e cético, o moderador Stephen Manes concluiu o debate formulando apenas um desejo: ‘O que eu espero, mesmo, é que todos esses aparelhos, a começar dos celulares, funcionem bem, antes de 2015. Nada mais’.’



TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
Sonia Racy

‘Parcerias entre Brasil e China de olho no mercado de software e TI’, copyright O Estado de S. Paulo, 22/1/05

‘O fluxo de empresários e representantes governamentais entre Brasil e China continua forte. Esta semana, foi a vez de um grupo de dirigentes do governo chinês, chefiados pelo diretor de Planejamento do Ministério da Indústria de Informática da China, Zhang Chunlin, desembarcar em Brasília para encontros com técnicos do Ministério do Desenvolvimento. Em pauta, comércio eletrônico, produção de software e desenvolvimento da internet, áreas em que os dois países iniciam uma promissora parceria, de olho num mercado que no ano passado movimentou US$ 700 bilhões em todo o mundo. Só a Índia abocanhou cerca de US$ 7 bilhões em exportações de software e acha que tem condições de chegar aos US$ 50 bilhões daqui a quatro anos.

Brasil e China têm trabalhado para intensificar os projetos conjuntos, complementando experiências. Entre eles, estão parcerias para o desenvolvimento do software livre. Uma prévia disso deverá ocorrer durante a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, que ocorrerá no segundo semestre deste ano em Túnis, capital da Tunísia, em que os dois países pretendem construir posições conjuntas em software livre. Essa participação também foi tema de discussão esta semana em Brasília.

Outro projeto conjunto, este já em andamento, é tocado pela Softex – Sociedade para Promoção da Excelência do Software Brasileiro, criada na década de 90 como instituição do governo, mas que hoje é tocada pela iniciativa privada. Com recursos do Finep, a entidade criou na cidade paraibana de Campina Grande um Tech Out Center. Os chineses fizeram o mesmo na cidade de Zhao Kiang, próxima a Cantão. O que isso significa? Os Tech Out Centers têm como objetivo identificar demandas e buscar as empresas que podem desenvolver as soluções necessárias para atendê-las. Hoje, há 14 empresas de software brasileiras sendo avaliadas pelos chineses para fornecimento de soluções dentro desse programa. O principal projeto em andamento é um piloto de governo eletrônico que está sendo tocado com o apoio do governo chinês.’



SABOTAGEM NA WEB
Ana Paula Sousa

‘Estante Clandestina’, copyright Carta Capital, 26/1/05

‘Editores tentam enfrentar na Justiça movimentos de fundo anarquista, que lançam livros ilegalmente na internet

Ninguém sabe como eles se chamam e nem de onde vêm. Mas suas publicações já estão se tornando conhecidas nos corredores das universidades e no setor editorial brasileiros. Eles se auto-intitulam sabotadores. E sua editora é o site Sabotagem. No slogan, disparam sua filosofia: Conhecimento não se Compra. Se Toma.

A subversão dos direitos autorais e a criação de um sistema alternativo de difusão de livros, um dos temas-chave do Fórum Social Mundial (que acontece de 26 a 31 de janeiro em Porto Alegre), tem nos integrantes do Sabotagem seus representantes mais radicais. O site oferece, para download gratuito, cerca de 200 títulos.

De ilegalidade, eles podem ser acusados. De mau gosto, não. Nessa biblioteca clandestina há de Foucault, Dostoievski e Kafka a títulos recentes de José Saramago, Gabriel García Márquez e até Chico Buarque, passando ainda por poesias e textos políticos.

Eles também já fizeram suas incursões pelo mundo real, com a impressão de dez livros, todos com capas novas e um editorial do grupo. A tiragem mínima, de cerca de 200 exemplares, tem um sentido mais simbólico – para não dizer provocador – do que prático, já que a distribuição é para lá de amadora. Os livros impressos saem pelo preço de custo, de R$ 6 a R$ 10.

Ocultos sob endereços de e-mail, os integrantes do site orgulham-se de dizer que, em geral, se recusam a dar entrevistas. ‘Para a revista em que trabalhas, abrimos uma exceção’, asseguram. Mas não sem ditar as regras. Num primeiro momento, parece que laçá-los é missão para hacker.

Apenas cinco dias após o envio do primeiro e-mail CartaCapital obteve retorno do grupo. Na ligação, feita de um orelhão de Porto Alegre, sugeriram que a entrevista fosse feita via Messenger, um sistema de conversação on-line. O argumento de que tal método seria confuso não convenceu Julia, a garota do outro lado da linha. ‘É bem melhor por Messenger. Assim tu vais poder sentir melhor o coletivo. É importante falar com vários membros e, como fica cada um num lugar do País, esse é o único jeito.’

Imposição aceita, no dia e hora marcados pipocaram na tela do computador os apelidos Poe, Giulietta, Gorilla, Baudelaire e Monet. Para se ter uma idéia de quem são esses jovens, um breve perfil de dois deles: Poe tem 24 anos, é professor de Geografia do Ensino Médio e mora em São Paulo; Giulietta, tem 21, mora no interior do Rio Grande do Sul e concluirá o curso de Direito no meio do ano.

A explicação para os codinomes tem um pé no intelecto e outro na prática. ‘A identidade oculta é a nossa principal estratégia e a possibilidade de agir sem ser visto sob o véu de uma identidade coletiva’, explica Poe. Graças a essas identidades ‘voláteis’, também escapam de umas e outras.

Em meados de 2004, quando digitalizaram Stupid White Men, de Michael Moore, entraram na mira da Câmara Brasileira do Livro (CBL), a pedido da W11, editora de Moore no Brasil. Mas não receberam a notificação que detonaria um possível processo judicial porque, simplesmente, ninguém os encontrou.

Wagner Carelli, diretor da W11, não pode nem ouvir falar neles. ‘Eles são ladrões e covardes, uns filhinhos de papai que não têm mais nada para fazer’, ataca. ‘Ficam aí bancando o Robin Hood, mas o que eles querem mesmo é a pequena publicidade.’ Carelli pondera que essa pirataria não atinge o seu negócio, já que ninguém deixa de comprar um livro por causa do site. ‘Mas eu pago imposto, não vivo de trambiques e, moralmente, não posso aceitar que essa gente fique roubando livros!’

Os sabotadores, obviamente, não se acham criminosos. O site, garantem eles, está ancorado numa ideologia. Durante a entrevista, fazem referências a autores como Hayke Bey, Baudrillard, Chomsky e Luther Blissett e a grupos com iniciativas semelhantes às suas, como o coletivo italiano Wu Ming e o movimento Squatt da Europa.

Antes de entrar para o grupo, todos já haviam participado de outros movimentos, de rádios livres a atos anarquistas. ‘O que atrai no Sabotagem é a possibilidade de ação direta, de atacar noções e práticas que considero não democráticas. Agimos politicamente na desconstrução de um discurso que atende ao status quo’, define Giulietta.

Poe defende que, só com a democratização da informação, pode-se pensar numa transformação social. E exemplifica: ‘Há três meses, recebi um e-mail de um menino do interior do Nordeste perguntando qual seria o melhor modo de imprimir os livros. Ele disse que, finalmente, a escola pública onde a mãe dele trabalha poderia ter uma biblioteca. Eu fiquei de queixo caído’.

Para que mais gente possa imitá-los, os sabotadores incluem no site um manual que detalha o processo de digitalização dos livros originais – escanear página por página, passar corretor ortográfico e, depois, encontrar um provedor estrangeiro que abrigue o site, uma vez que, no Brasil, seriam logo descobertos.

Questionados sobre a situação dos autores, que deixam de ser remunerados, os jovens se dividem. Alguns defendem que o dinheiro não deve ser o único estímulo de um escritor, que ele deve escrever pensando num ‘bem maior’; outros destacam que os direitos autorais protegem a editora, e não o autor. Giulietta arremata: ‘Quem diz que o que fazemos é pirataria não está interessado em publicar nossos argumentos nem em falar sobre o que estamos propondo’.

O Sabotagem chama a atenção pelo extremismo e pelo anonimato, mas, na verdade, outros tantos grupos – ou pessoas isoladas – vêm rejeitando a propriedade intelectual e a estrutura do copyright. Felipe Corrêa, de 26 anos, formado em Editoração, é um deles. Um dos criadores da editora Faísca, que não possui nem registro nem costuma pagar direitos autorais, Corrêa é contra o copyright tradicional, mas também não acha justo, simplesmente, atropelar os autores.

Antes de publicar qualquer coisa, ele telefona para o escritor pedindo autorização. Fez isso, por exemplo, com Noam Chomsky quando quis colocar no prelo Notas sobre o Anarquismo, lançado em parceria com a editora Imaginário. ‘Ele autorizou imediatamente. Mas eu não sou radicalmente contra o direito autoral. Às vezes, até pagamos alguma coisa para o autor, mas nunca o valor de mercado’, explica.

Por não existir juridicamente, a Faísca não pode colocar seus títulos em livrarias e, claro, está sob permanente ameaça. Mas isso está longe de preocupar Corrêa: ‘Meu propósito é divulgar textos militantes, que ajudem a esclarecer as pessoas’.

Nesse mesmo trilho corre José Roberto Abrahão, da Alexandria Virtual, que disponibiliza em seu site ou títulos já em domínio público ou aqueles autorizados pelos autores. ‘Não acho que seja uma questão financeira, uma vez que duvido que os downloads causem prejuízos reais. É uma questão de postura mesmo’, defende. ‘Além disso, a tendência é que cada vez mais autores autorizem a divulgação de seus textos na internet.’

Não é o que pensam as editoras tradicionais. Mauro Lorch, dono da editora Guanabara Koogan e diretor da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), diz que, este ano, a principal meta da entidade – que age em conjunto com a CBL – é coibir a expansão desses movimentos. ‘A democratização da leitura se dá através das bibliotecas e do barateamento do produto’, lembra. ‘Por enquanto, essas ações não atingem diretamente o nosso negócio. Mas, se não agirmos rapidamente, passarão a atingir.’

De sua sala em Brasília, o diretor de políticas digitais do Ministério da Cultura, Cláudio Prado, dá a entender que não se alinha com a ABDR. ‘A internet é um veículo da pirataria ou da democratização do acesso?’, provoca. ‘A lei deve ser respeitada, mas também não podemos deixar de olhar para esses movimentos. Eles evidenciam a necessidade de flexibilização dos direitos autorais e mostram que existe uma demanda por um novo modelo de gestão dos produtos culturais.’’

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