Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Etienne Jacintho

05/07/2005 na edição 336

‘O canal Sony estréia na quinta-feira, às 21 horas, o drama hospitalar Grey’s Anatomy, que trata do universo dos médicos residentes – assim como E.R. (Plantão Médico), com ênfase nos problemas pessoais dos personagens e não tão focado em doenças e cirurgias. Na série, a atriz Ellen Pompeo (de Vida que segue e Prenda-me se for capaz) é a protagonista Meredith Grey, filha de uma renomada cirurgiã. A história gira em torno dela e de seus colegas. Dias antes da estréia da série nos Estados Unidos, em janeiro, a atriz conversou com o Estado, em Los Angeles.


Qual foisua reação ao ler o roteiro de ‘Grey’s Anatomy’?


Quando me mandaram o roteiro, segui lendo. Geralmente não passo da sexta ou sétima página, então…


Como é seu personagem?


Interpreto Meredith, que tem muitas coisas com que lidar: aprender como se tornar uma médica, aprender como manter um relacionamento com o seu chefe – ou não -, provar para mim mesma se quero ser médica porque gosto ou porque minha mãe, uma famosa cirurgiã, disse que eu jamais seria capaz. E há o relacionamento com minha mãe que sofre de Alzheimer. Tenho de cuidar dela e trabalhar 80 horas por semana…


Você assistiu à cirurgias para fazer o papel?


Sim. Quando você vê essas cirurgias reais e pessoas que têm essa profissão, você pensa: ‘Graças a Deus que só interpreto uma médica.’ Esse papel fez com que eu apreciasse ser uma atriz mais do que tudo na minha vida (risos)!’




GORDOS NA TV
O Estado de S. Paulo


‘‘Expor os obesos em cadeia nacional de TV é algo degradante e humilhante’’, copyright O Estado de S. Paulo, 3/07/05


‘A situação proposta pelo reality show O Grande Perdedor, exibido pelo SBT, em que os obesos são confinados e ganhará aquele que perder mais peso, é contrária à idéia de saúde. Primeiro porque todas as associações para estudo e tratamento da obesidade afirmam que a perda de peso deve ser lenta e gradual, para que não ocorra tanta perda de massa magra, não se desenvolvam deficiências nutricionais e haja menor possibilidade de recuperação do peso perdido.


O programa segue na direção contrária, pois premiará aquele que perder mais peso num curto período, ou seja, o que emagrecer de modo menos saudável.


Em segundo lugar, para atingir o objetivo, os participantes podem praticar atividade física excessiva, adotar restrições alimentares extremas e provocar vômitos, sem que a produção perceba.


Em terceiro, o programa reforça a discriminação. O senso comum acredita que o obeso é um sujeito sem força de vontade, que cede à gula e à preguiça e só não emagrece porque não quer.


A ciência já constatou que isso não é verdade, que sabemos pouco sobre as reais causas da obesidade e que a própria discriminação é responsável por vários problemas de saúde, especialmente os psicológicos.


Finalmente, consideramos que expor em cadeia nacional os problemas alimentares é algo degradante e humilhante. Alguém toleraria piadas sobre outras doenças, como o câncer e o diabetes, por exemplo? Por que devemos tolerar essa discriminação contra os obesos?’




BRASIL EM IMAGENS
Antonio Brasil


‘As imagens do Brasil’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 28/06;05


‘Recordar é viver. José Fernando Carneiro, pesquisador e escritor gaúcho, assim descreve um de nossos primeiros e mais polêmicos jornalistas:


‘A vida de Karl Von Koseritz, ou Carlos de Koseritz, como também assinava, é pouco conhecida no Brasil de hoje. Conhecem-na uns poucos eruditos, e existe publicada pela Editora da USP uma tradução magnífica do seu livro IMAGENS DO BRASIL (Bilder aus Brasilien). Koseritz, Carlos Julia Cristiano Adalberto Henrique Fernando, filho do barão Von Koseritz, nasceu em Dessau, capital do ducado de Anhalt, na Alemanha no dia 7 de junho de 1830’.


Em 1851, com 21 anos, chegou no Rio de Janeiro e logo após se estabeleceu no Rio Grande do Sul. ‘Brasileiro naturalizado, casado com uma riograndense, pai de quatro filhas brasileiras, amando o Brasil e muitas das nossas coisas, escrevendo fluentemente tanto o alemão como o português, tinha o orgulho de suas origens e o proclamava sem qualquer astúcia. Orgulho, todavia, que nada tinha a ver com qualquer forma ostensiva ou dissimulada de racismo’.


Koseritz queria que os teuto-brasileiros do Sul do Brasil conquistassem importância política e, ao mesmo tempo, repelia qualquer influência política dos governos e dos cônsules estrangeiros sobre os colonos.


E nesse ponto a sua posição era nítida, muito diversa, portanto da ambigüidade com que depois muitos já não dizemos alemães natos, mas brasileiros de origem alemã, vieram a se exprimir sobre as relações entre o Brasil e a Alemanha.


Ainda segundo José Fernando Carneiro: ‘Entretanto, o que havia naquela alemão inquieto, eufórico e às vezes injusto, era apenas lealdade’. Com outros jornalistas de origem alemã no Brasil, Koseritz, criaria um capítulo importante da história da nossa profissão: o jornalismo teuto-brasileiro.


Brummers


As atividades de homens como Carlos de Koseritz e Frederico Hansel contribuíram para aproximar da vida brasileira as populações dos núcleos coloniais. Eles ficaram conhecidos com a denominação de ‘Brummers’ – Legião de soldados e oficiais alemães que o império mandara buscar para sua luta contra Rosas e que ficariam no Rio Grande exercendo grande influência social e econômica. Exercendo as mais diversas atividades, ‘serviram de peça intermediária entre a colônia, como seus horizontes estreitos, sua vida insular, seu tradicionalismo germânico e o Brasil. Eles não eram expressões coloniais, não haviam nascido nem trabalhado nas picadas, mas, muito naturalmente aceitos, tornaram-se os intérpretes daqueles pequenos agricultores e pequenos industriais, exercendo uma liderança autêntica a qual os melhores anseios de qualquer grupo humano permanecem informulados ou se manifestam de maneira patológica. Ao mesmo tempo eles se articulavam pelo espírito universalista ao Brasil, à vida cultural e política do país que habitavam.’


Imagens do Brasil: TV do século XIX


Em 1883, Koseritz escreveu sua melhor obra: Imagens do Brasil (Bilder aus Brasilien), ‘uma coleção preciosa de artigos, cheios de observações agudas e de descrições, ou melhor, de aquarelas feitas com mão de mestre’.


Trata-se de um dos primeiros exemplos de um jornalismo considerado ‘moderno’, descritivo, mais objetivo, sem, contudo, perder a identidade própria do jornalista e de suas opiniões. Alguns trechos em que Koseritz descreve a capital do império brasileiro, a cidade do Rio de Janeiro, sob a perspectiva do olhar estrangeiro, infelizmente, ainda continuam atuais. Crítico contundente, Koseritz não perdoa nada e ninguém. Ele destaca a sujeira e abandono da cidade, o barulho ensurdecedor com milhares de vendedores de rua – em especial os jornaleiros – o calor insuportável e as doenças urbanas como a famigerada febre amarela carioca. No entanto, reserva seus maiores elogios para a aprazível cidade imperial, Petrópolis.


Querem dar um olhada nas imagens do Brasil segundo o olhar do velho Koseritz, enviado especial do jornalismo teuto-brasileiro ao Rio de Janeiro? Nos trechos abaixo, ele descreve com grande precisão e ainda maior ironia e sarcasmo, a decadência da monarquia. Trata-se do ‘comparecimento do Imperador à reabertura das Câmaras’. O texto jornalístico e moderno de Koseritz cria imagens precisas em nossa imaginação. Ele faz uma TeleVISÃO do século XIX somente com palavras. Algumas dessas mesmas imagens e críticas continuam atuais e nos remetem a tantas outras ‘cortes’ e celebrações do Brasil de hoje.’


‘Uma depois de outra pararam as velhas carruagens diante da entrada e esvaziaram a sua carga: uma dama de honra, (a Baronesa de Surui), velha e horrenda, mas fortemente decotada, e cinco ou seis familiares da corte, metidos em uniformes verdes outrora brilhantes, bordados a ouro, o tricornio sob o braço, o espadim aa cinta e as pernas finas metidas em calções e meias de seda, – assim saltaram eles dos seus carros, fazendo pensar num Carnaval’.


‘A Princesa envelheceu rapidamente, seus traços ganharam qualquer coisa de duro, mas o seu cabelo louro vai sempre bem com a sua tez saudável e as suas formas cheias. Ela estava vestida com bastante simplicidade e trazia poucos diamantes. O povo deixou-a caminhar por entre alas no mais absoluto silêncio, e somente aqui e ali se ouviram alguns sarcasmos sobre o conde, que não goza de nenhuma grande estima’.


‘Finalmente aparece o Imperador: quatro batedores de libre nova, belos cavalos com ricas arreatas e uma carruagem, senão nova, pelo menos completamente restaurada, guarnecia e ornada de prata e a coroa imperial sobre a portinhola, anunciaram a sua chegada. Nenhum aplauso o saudou, nem mesmo um simples ‘viva’. Ele próprio pareceu sentido com isto porque, depois de descer do carro, endireitou-se em toda a sua altura e mergulhou um olhar longo e agudo sobre o povo que o cercava. Não lhe pude achar majestade, com seus sapatos de fivela, meias de seda, calções, gola de penas e manto de veludo verde, sob o qual brilhavam as condecorações de ouro. Especialmente o curioso ornamento de penas, (papo de tucano), produz uma impressão quase carnavalesca. O Imperador caminha um pouco curvado e envelheceu muito ultimamente. Também está ficando visivelmente calvo, e as grandes preocupações, talvez também os padecimentos físicos, cavaram-lhe fundos sulcos nas faces. Na sua frente servidores carregam a coroa e o cetro, e a espada pende aa sua esquerda. Depois de ter lançado um longo olhar sobre o povo silencioso, que se acumulava ali, endireitou em passos relativamente rápidos e de cabeça alta para a entrada, e com isso terminou para nos o espetáculo’.


‘Em conjunto, a impressão total da festa era mais de molde a sugerir o sentimento do cômico que do respeito. Quando a monarquia exibe o seu luxo, deve ser de forma imponente e grandiosa, o que não é o caso, aqui. Eu sei bem que o Imperador não pode ter uma corte brilhante porque ele emprega a sua lista civil em fins de caridade; mas por mais nobre que isto seja, não justifica a falta de tato de se apresentar velhos cacarecos como luxo imperial’.


Jornalista polêmico


Lutou com todo o vigor em prol da imigração européia para o Brasil. Queria, todavia, imigrantes ‘colonos’ e não ‘braços para as lavouras’ dos latifundiários. Pretendia estender a todo o Brasil o benefício da propriedade convenientemente parcelada, como já se via no Sul do país.


Daí a sua posição contra a imigração chinesa que, em 1883, os fazendeiros paulistas estiveram a pique de conseguir como uma forma de transição entre a escravatura e o trabalho livre.


‘É uma singular coincidência que a chegada desse filho do Celeste Império se dê justamente no momento em que se apela para a fundação de uma grande sociedade que teria o objetivo de cuidar da imigração alemã e italiana. Nós declaramos guerra ao latifúndio e tentamos levar à vitória o sistema de pequenas propriedades, com a introdução de colonos agricultores. Os barões do café pretendem continuar a sua vida de vagabundos e se esforçam por isso na procura de novos escravos de cor amarela, em substituição aos antigos pretos’.


Blog do Koseritz


Em 1 de janeiro de 1882, Koseritz lançava o seu próprio jornal, o Koseritz Deutsche Zeitung, que logo suplantou a concorrência em influência e círculo de leitores.


Apesar do sucesso junto ao público, Koseritz enfrentava constantes problemas financeiros. Tentou diversos empreendimentos como exposições internacionais e tantas outra ‘aventuras’ no mundo dos negócios sem muito sucesso. Certamente Koseritz pensava em ganhar algum dinheiro, ‘pois era homem sem posses, que vivia de suas letras e que chegou a escrever e vender artigos para outros assinarem.’


Jornalista vira político


Koseritz, brasileiro naturalizado que era e não mais inelegível, graças à lei promulgada em 1881, foi candidato às eleições provinciais no Rio Grande do Sul. Em dezembro do ano seguinte, foi eleito com larga maioria e depois, sempre reeleito, permaneceu na Assembléia Provincial de 1883 a 1889.


‘Lutou contra os coletores que afligiam os colonos; a favor de melhores estradas; pela realização das obras de engenharia tendentes a facilitar a navegação entre as cidades do Rio Grande e de Porto Alegre’.


Interculturação e aulas públicas


Koseritz lutou pelo processo que chamaríamos hoje de ‘inteculturação’, e não de simples ‘assimilação’ por parte das comunidades de origem alemã no sul do país. Ele acreditava em uma integração que preservasse sempre uma identidade cultural. Em seu jornalismo étnico – um capítulo tão importante quanto popular do próprio jornalismo em outros países como os EUA – Koseritz dava voz às minorias de imigrantes europeus. Milhares de colonos recém-chegados em um país estranho, com uma língua e cultura desconhecidas, mas dispostos a construir um novo mundo.


Em um de seus diversos artigos sobre o tema, o jornalista, agora político, Koseritz fazia questão de descrever os problemas e apontar as soluções. Em um país de ‘excluídos sociais’, sua idéias ainda são relevantes e atuais. Koseritz acreditava no poder do jornalismo, mas também acreditava no poder da educação, principalmente na educação pública.


‘O único meio de conseguir esta identificação tão necessária das duas nacionalidades, de deitar abaixo esta muralha da China que ainda cerca as colônias de origem alemã é exatamente a multiplicação de aulas públicas, mas providas por professores que manejem os dois idiomas’.


Sempre em busca de uma boa briga, Koseritz era um ‘encrenqueiro’. Em seus artigos, lutou com paixão contra o excessivo poder da Igreja Católica no Brasil e contra os privilégios injustos dos nossos ricos e poderosos. Sempre avançado para sua época, foi defensor convicto da ciência, das teorias de Darwin, além de se dedicar à antropologia. Como bom ‘geminiano’ – signo da curiosidade – e jornalista moderno, seus interesses eram muitos e diversos. Acreditava na abolição da escravatura, na federação, na liberdade de cultura, mas, apesar de na juventude, ainda na Alemanha ter lutado em revoluções sociais, apoiava a monarquia. No final da vida, esse apoio iria lhe custar muito caro.


A morte do jornalista


O seu jornalismo étnico possuía evidentes objetivos políticos. Koseritz, assim como outros jornalistas teuto-brasileiros, eram militante das grandes causas. Anos antes da Internet, além de informar, eles demandavam a participação dos seus leitores. Koseritz fazia a história do jornalismo, mas também criava inimigos poderosos.


‘Sabendo-se visado pelo situacionismo, Koseritz se recolhera, em maio de 1890, à chácara de um amigo que morava em Pedras Brancas, defronte de Porto Alegre. Mas a polícia enviou 12 homens, que cercaram a casa, e, durante oito dias, mantivera-no incomunicável. Koseritz viu-se insultado, humilhado, ameaçado de morte. Em face de protestos de amigos, pôde afinal regressar à sua casa em Porto Alegre, onde faleceu em 29 de maio de 1890.


Mesmo preso e ameaçado de morte, Koseritz não deixa de ser um bom jornalista. Em artigo publicado em 29 de maio de 1890, narrou a violência de que fora vítima nos mínimos detalhes: ‘Só um grande rebelde, sentenciado à morte, ou algum malvado assassino, condenado à morte, podia ser guardado como eu fui no primeiro dia por seis soldados de carabina Spencer em punho, ficando um deles sentado a seis passos de distância da minha pessoa, com a carabina apontada para mim.’


Ainda segundo José Fernando Carneiro, ‘a morte repentina, no dia mesmo em que escreveu o artigo narrando os episódios de sua prisão, mostra o abalo que ela lhe causou. A prisão de Koseritz, ilegal, injustificada, ato de perseguição política e nada mais, fora maquinada ao que se disse, pela gente do órgão oficial do Partido República, A Federação, contra o jornalista vigoroso que discutia com eles quase todos os dias’.


‘A morte de Koseritz foi grandemente sentida. Ao seu enterro ocorreu uma grande parte da população de Porto Alegre, sendo o caixão carregado, a pé, todo o tempo, primeiro pelos liberais, mais adiante pelos representantes da imprensa’.


‘Nenhum reparo de cunho nativista poderia em verdade ser articulado contra esse alemão, brasileiro naturalizado, que tão espontaneamente amou o Brasil e aqui lutou por suas idéias, com toda a sem-cerimônia, sentido-se integralmente em sua casa. Cometeu erros, mas viveu sempre inserido na vida nacional, debatendo-se dentro do Brasil, querendo modificá-lo, jamais um absenteísta, um escapista, um mazombo, um estrangeiro e nosso meio’.


‘O desaparecimento súbito de Koseritz veio deixar sua família na penúria. Trabalhador e lutador infatigável não deixava nem dinheiro nem propriedades’. Mas seus amigos imediatamente lançaram um apelo aos admiradores e adeptos do morto e ampararam a viúva e as quatro filhas de Koseritz, Carolina, Zelinda, Zebrina e Adelaide, todas muito queridas, sobretudo Carolina em cujos braços ele falecera. A mesma Carolina Koseritz que, anos mais tarde, assim como o pai, se tornaria grande jornalista e reconhecida escritora.


Como disse no início, recordar é viver, mas também é homenagear. Carlos Koseriz, pioneiro do jornalismo teuto-brasileiro, autor do clássico ‘Imagens do Brasil’ – leitura recomendada para todos que estudam a história do nosso jornalismo e cujo título tem tudo a ver com esta coluna de TV – é meu tataravô, e Carolina Koseritz, minha bisavó. Com muito orgulho!’

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