Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
Menu

ENTRE ASPAS >

Evandro Vieira Ouriques

24/08/2004 na edição 291

‘Recentemente, em uma conhecida lista de discussão a respeito de ética e mídia, alguém qualificou Mahatma Gandhi e Dom Hélder Câmara de ‘falsos profetas’, chegando a esta conclusão inquietante, e sintomática como procurarei mostrar, apenas avaliando dois pensamentos destes homens, que haviam sido gentilmente postados na lista por outra pessoa.

Dom Hélder foi considerado ‘falso profeta’ por ter dito algum dia que ‘o segredo para ser e permanecer sempre jovem, mesmo quando o peso dos anos castiga o corpo, é ter uma causa a que dedicar a vida’. Isto foi considerado um sofisma, pois para se viver se precisaria saúde, e em relação a se ter uma causa para isto, foi recomendado cuidado, pois Hitler também ‘tinha, e bem definida, uma causa’. Por sua vez, o crime de Gandhi foi ter dito, também um dia, que ‘a satisfação está no esforço e não no resultado final’. Esse princípio, central no pensamento gandhiano, foi considerado uma ‘falácia’, pois ‘em qualquer atividade o importante é o resultado’.

Eles foram assim sumariamente julgados e condenados em exatas 57 palavras, incluindo a assinatura da mensagem a qual analiso: tanto Gandhi, o homem prático que recusou os modelos simplificadores e criou uma ética operacional política que libertou os ‘intocáveis’ e a Índia por meios não-violentos, fundando assim um novo regime político e um Estado, e pondo a pá-de-cal no Império Britânico; quanto Dom Hélder, o ganhador do exigente Prêmio Popular da Paz, defensor enérgico da Teologia da Libertação e da Não-violência durante a sombria Ditadura Militar brasileira.

Reflitamos um pouco sobre este caso. O que Gandhi -que nunca foi profeta, quanto mais falso- fez ao falar do desapego em relação ao resultado das ações, é negar o produtivismo, essa mentalidade doentia que, hoje de forma ainda mais intensa do que nos dias gandhianos, sincroniza os aspectos sombrios do capitalismo tardio com a irreferência da pós-modernidade, paradoxalmente referenciada no ‘livre’ exercício de quaisquer desejos, cuja legitimidade é apenas a de sentí-los, e no dinheiro como equivalente geral, como Marx o denominava.

O que está em vigência hoje, sabe-se, é a mercantilização absoluta das relações, quando nos obrigamos a calcular o lucro que cada ação e cada relação nossa nos trará, para que o acumulemos, como se isto fosse felicidade. É esta mentalidade, precisamente, que fez com que a cultura de comunicação fosse sucedida pela atual cultura da informação, pois a experiência de comunicação é aquela da ordem da diferença, e portanto, aquela que se produz apenas no entre, nas relações.

A cultura da informação, ao contrário, é exatamente a que se constrói no dirigir-se a, ou seja, é aquela a qual só interessam os resultados da atividade, que serão obtidos junto à audiência pela transmissão da informação dirigida a ela, da maneira a ‘mais eficaz possível’. É daí que temos a cultura da eficácia, do produtivismo, e o entendimento da Comunicação não como communication mas apenas como communications, ou seja, apenas como meios de comunicação, meios de persuasão. (Im)puro convencimento.

Lembramos como esta perspectiva interessa ao sistema, já que é ela que o sustenta ao garantir o esquecimento da experiência -sempre livre e desinteressada- da comunicação (pois nunca podemos saber onde as conversações nos levam) em prol da ação interessada no mundo, da transformação do mundo em mercado, do sujeito em consumidor e do pensante em idiota, seja lá qual for a cor de sua pele.

Gandhi fala exatamente do oposto. Ele não age porque vai ganhar alguma com isso no sentido vulgar. Ele age porque este comportamento é da ordem da ética. É ético. E por ser ético, basta a si próprio, não necessitando de nenhum resultado ‘objetivo’.

Se alguém está entendendo estas rápidas considerações como mera divagação, o que é compreensível pela falta de hábito capitalista e pós-moderno de pensar, ainda mais com vagar, sublinho que do ponto de vista o mais pragmático que seja, é através do desapego dos resultados da ação que podemos eliminar, por exemplo, a correspondente frustação e depressão -um dos padrões psiquícos mais presentes na humanidade hoje- que teremos que incorporar e administrar se vivemos na expectativa do reconhecimento alheio para cada atitude nossa.

Generosidade é outro nome deste desapego, que certamente é da ordem da solidariedade, aquela a qual o Forum Social Mundial, por exemplo, tanto se refere quando examina se um outro mundo é possível, ou nós quando trabalhamos para saber se uma outra comunicação é possível. Ou, a rigor, se a experiência de comunicação ainda é possível.

A precipitação deste julgamento infeliz me faz lembrar de todos os meus próprios julgamentos infelizes, que acabaram por me convencer, inclusive a partir do exemplo de pessoas extraordinárias como Gandhi e Dom Hélder, que se queremos ética, e consequentemente ética na mídia, devemos avaliar sempre de maneira profunda e vagarosa tudo o que se apresenta, começando por nossos desejos e idéias, pois, como se sabe, a superficialidade promovida pela velocidade extrema é exatamente pilar da cultura tecno-lógica. E acabamos sendo pensados e sendo sentidos pelo discurso que nos atravessa e que, pelo hábito e pela ‘objetividade apressada’ em obter resultados com nossas atividades, terminamos tragicamente acreditando ser nosso.

Neste sentido, em relação a Gandhi, por exemplo, sugiro para os que querem superar o jugo do Império Americano (‘o estado de espírito bárbaro está em cada um de nós’, citando Maffesoli), a leitura de O caminho é a meta, Gandhi hoje, de Johan Galtung (Editora Palas Athena, 2003). Ele é o pioneiro e renomado cientista social especialista em estudos para a paz e teoria dos conflitos, que atua nas universidades do Havaí, de Witten/Herdecke, de Tromsoe e na Universidade Européia da Paz, e fundador da Transcend (transcend.org), e que já trabalhava pelo jornalismo para a paz na década de 70. Antes, portanto, de grande parte dos participantes desta lista, suponho, ter nascido.

O que Gandhi fez, em essência, foi constituir uma moral pelo exemplo, aplicando à sua própria vida as reformas que pregou e conclamando os cidadãos a demonstrarem a capacidade política de se governarem, através do exercício diário do auto-domínio, estimulando o outro, através do exemplo, a modificar o seu comportamento: lutando, portanto, primeiro contra si próprio para dominar-se em relação à série infantil eu-quero-porque-quero (a lógica da sociedade de consumo) e dessa forma ganhar ascendência sobre si, a maneira, aí sim, mais eficaz de nos livrarmos da obsessão do poder.

(*) Cientista político, jornalista, terapeuta e consultor de Desenvolvimento Humano e Organizacional. Dirige o Centro de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência-CETCC, que criou em 1981 na Escola de Comunicação da UFRJ. Seu livro mais recente é Diálogo entre as Civilizações: a Experiência Brasileira (www.unicrio.org.br, biblioteca), que organizou a convite da ONU. Leciona disciplinas a respeito da construção de estados mentais não-violentos na mídia; das relações entre imagem e formação da consciência; e da construção da utopia a partir da economia psíquica pós-moderna. Ministra também cursos avançados de especialização nestas e outras conexas, para comunicadores, terapeutas e tomadores-de-decisão em geral.’



MÍDIA & CRUELDADE
Karla Dunder

‘Como arte e mídia abordam a crueldade’, copyright O Estado de S. Paulo, 22/08/08

‘Expressões da violência e crueldade são analisadas por pesquisadores do Rio em diversos artigos reunidos no livro Estéticas da Crueldade (Atlântica, 270 págs., R$ 38), organizado pelas professoras da Universidade Federal Fluminense Ângela Maria Dias e Paula Glenadel. A proposta das organizadoras é fornecer subsídios para uma reflexão sobre a presença da crueldade no imaginário artístico e midiático da sociedade contemporânea. O fio condutor é a literatura, mas as análises se estendem para outras searas, como filosofia, cinema, política e ecologia.

De um curso para pós-graduação nasceu a idéia de debater a crueldade e as professoras decidiram fazer um seminário, em junho 2003, sobre o tema. ‘Nós nos restringimos aos pesquisadores do Rio porque queríamos caracterizar um tipo de pensamento carioca’, diz Ângela. O resultado foi a diversidade de abordagens, agrupadas em quatro tópicos: Teorias da Crueldade, Crueldade, Artes e Mídia, As Narrativas da Crueldade e Poéticas da Crueldade. Os textos abordam as várias facetas do tema, de maneira geral; os artigos não abordam temas novos, mas apontam para questões atuais. ‘A crueldade sempre existiu, basta olhar para a tragédia grega. A arte lida com isso há anos, mas o enfoque agora é na sociedade contemporânea.’

Para abrir a discussão, Ângela aborda as representações do cruel na cultura brasileira em três instâncias: a crueldade propriamente dita; a do exotismo, distante e estetizada; e a melancólica, indiferente. ‘A crueldade pode se desenvolver em alguns sentidos, no estranhamento, na hostilidade e na violência. Mas ela também pode surgir de formas mais sutis, como ver o outro a distância, sem nenhum tipo de empatia e até mesmo como se fosse apenas um objeto. Já a indiferença, no sentido psicanalítico, nasce como uma forma de defesa diante de uma sociedade competitiva.’

A mídia tem papel preponderante no que diz respeito à cultura violenta. De acordo com Ângela, no afã de noticiar, a mídia acaba insuflando essa violência ao banalizar o tratamento da questão e não aprofundar o debate. ‘A mídia expõe para vender e as pessoas compram, porque gostam de ver aquilo que é do outro. O resultado é que de uma maneira geral a sociedade fica apenas na imagem, não gera reflexão, nem simbolização’, afirma Paula Glenadel.

Outro aspecto importante está no glamour e apologia da violência nos filmes e games. ‘Devemos lembrar que a crueldade é inerente ao ser humano, como observa Freud; ela não tem contrários e é irredutível, não podemos nos livrarmos dela. No entanto, devemos encarar o problema e usá-lo positivamente, muitas vezes precisamos destruir um princípio visando à transformação, o que o modernismo fez, por exemplo’, destaca Ângela, que frisa a necessidade de não escamotear a crueldade, mas enfrentar as situações, sem falsa idealização e clichês.

Entre os textos vale destacar Marcinho VP (Um Estudo sobre a Construção do Personagem), no qual João Camillo Penna ressalta os episódios que transformaram o traficante Márcio Amaro de Oliveira em um ‘marginal midiático’. Penna analisa a contratação de Marcinho VP e seus comandados como seguranças para a equipe de filmagem, durante as gravações de um clipe do cantor Michael Jackson na favela Dona Marta, o envolvimento com o cineasta João Moreira Salles por conta das filmagens de Notícias de Um Guerra Particular e, por fim, a publicação do livro Abusado, do jornalista Caco Barcellos, e a morte do traficante. O artigo faz uma crítica ao discurso midiático, a forma como a imprensa tenta mostrar o cotidiano e apenas cria personagens e produz uma ficção.

Angela Gandier analisa o filme O Invasor ao tratar dos encontros inesperados, quando elementos de classes sociais diferentes se unem em torno de interesses marginais comuns, em O Invasor de Marçal Aquino: Quando os Manos e os Bacanas Cheiram o mesmo Pó.’



PRÊMIO AYRTON SENNA
Carlos Chaparro

‘Por uma rebeldia criativa nas redações’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 20/08/08

‘O XIS DA QUESTÃO – Os trinta trabalhos finalistas do Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo permitem acreditar que há espaço, sim, para uma rebeldia criativa nas redações. E para estimular a humanização da narrativa jornalística, vale a pena ler o livro Por um fio, de Drauzio Varella. São páginas repletas de gente que tem nome e história, que pensa, fala, se emociona – protagonistas, falas e emoções que a ação narrativa submete a pontos de vista do autor, no desvendamento do que existe antes e para além dos fatos.

1. Livro fascinante

Em cada um dos 35 episódios que compõem o livro Por um fio, e no magnífico texto de introdução, o dr. Drauzio Varella dá lições emocionantes de como escrever para o outro. Em descontraído exercício da arte de narrar, o médico escritor recorta experiências da sua relação com a morte, expondo emoções guardadas em lembranças e registros que vêm desde os quatro anos, idade em que perdeu a mãe.

Drauzio coloca o ser humano no centro poético da vida, que, para todos nós, em determinado momento se esgota. Nessa perspectiva, ele busca e alcança o âmago dos conflitos mais íntimos dos seus protagonistas, todos doentes terminais de quem cuidou. Ao mesmo tempo, escreve com simplicidade de sábio, para aclarar e espalhar ao mundo saberes científicos da Medicina.

Em uma das histórias do livro, Drauzio Varella relata o reencontro com um antigo mestre dos tempos de faculdade. Atacado por um câncer que lhe destruíra o vigor e a vontade de viver, esse antigo mestre só aceitou sair do refúgio da solidão, para uma internação, com a garantia de que ficaria sob os cuidados do ex-aluno que se tornara famoso. Na história costurada em diálogos, correm as conversas que entremearam os episódios da luta clínica pela sobrevivência possível do paciente. Numa dessas conversas, quando o próprio doente reconhecia a inevitabilidade da morte próxima, e a desejava, perguntou-lhe Drauzio:

– O que você espera que eu faça?

E ouviu a seguinte resposta:

– O que existe de mais difícil em nossa profissão: reconhecer o momento em que a morte é iminente e ajudar o paciente a atravessá-lo sem sofrer, conduzi-lo com sabedoria e arte, para permitir que a vida se apague em silêncio, como uma vela.

Na resposta, a síntese do livro. Um livro para o qual o dr. Drauzio aguardou a lucidez intelectual da maturidade – porque não seria possível, na juventude, ‘compreender o que sente um senhor de oitenta anos ao perceber que não sairá vivo do hospital’, ou ‘imaginar o sofrimento de uma mulher ao perder o companheiro de quarenta anos de convivência harmoniosa’.

2. Interlocutor certo

Por que escolher o livro de Drauzio Varella como tema da coluna, esta semana, em vez de voltar ao debate sobre as ameaças que dos palácios têm soado, contra o direito à informação?

Por dois motivos. Em primeiro lugar, porque os devaneios autoritários se diluíram, reprimidos pelo debate que provocaram. Ao menos aparentemente, o governo recolheu as armas. Esperemos que tenha aprendido a lição. Mas a razão principal da escolha do tema está no fato de o livro de Drauzio Varella ter qualidade para entrar em bibliografias de referência, nos cursos de jornalismo.

O que nos ensina o dr. Drauzio, em Por um fio?

Antes de responder à pergunta, convém reafirmar a opinião, já aqui manifestada em outros textos, de que considero o jornalismo de hoje melhor que o de épocas anteriores. Apesar de todas as críticas que lhe podem ser feitas, o jornalismo atual informa e analisa melhor que o de antigamente. Em boa parte, porque melhoraram os níveis de independência.em relação ao poder político e porque se tornou mais rigorosa a vigilância ética, por parte da sociedade.

Mas falta ao jornalismo de hoje algo que dá tom e conteúdo ao livro de Drauzio Varella: a narrativa humanizada. O livro está recheado de protagonistas valorizados pelos discursos direto e indireto, habilmente dosados. São páginas repletas de gente que tem nome e história, que pensa, fala, se emociona. Mas protagonistas, falas e emoções que a ação narrativa submete a pontos de vista do autor, no desvendamento do que existe antes e para além dos fatos.

Com um detalhe, fundamental: em todos os momentos do livro, o escritor interage apenas com um interlocutor – o leitor para quem escreve. E o transporta para as interações da interpretação, no amplo espaço das entrelinhas.

3. É possível!

Claro, o dr. Drauzio Varela escreve sem as limitações do jornalismo. A limitação do espaço reduzido, por exemplo, e a das formas de escritura herdadas da tradição – notícia, reportagem, entrevista, artigo… Principalmente, a limitação do dever de se ater aos fatos, ou, se preferirem, a submissão à expectativa social da veracidade. Em Por um fio, o autor pode-se afirmar plenamente, e o faz, com liberdades para trânsitos entre a ficção e a realidade.

Mesmo sem liberdades para tais trânsitos, será que não se pode enxertar no jornalismo de hoje a narrativa humanizada e o texto de autor, mesmo em reportagens curtas?

Penso que sim. Mas sei que estou cercado pela descrença dos que vêem, nos modos de produção e nas condições de trabalho das redações, circunstâncias limitantes mais do que suficientes para um NÃO exclamativo.

Ainda assim, insisto que existe, sim, espaço para uma rebeldia criativa nas redações. Há coisas da boa narração jornalística que quaisquer bons repórteres, bons editores, bons pauteiros podem fazer. Qualquer que seja a empresa, o patrão ou o diretor de redação. E porque acredito nisso, estarei nesta quarta-feira (18 de agosto de 2004) na cerimônia de proclamação e premiação dos vencedores da 7ª edição do Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo.

São trinta os trabalhos finalistas, cinco em cada uma das seguintes categorias: Jornal; Revista; Rádio; Televisão; Mídia, Jovem e Infantil; e Fotojornalismo. As temáticas aparecem nos títulos, e pinço alguns, ao acaso: Infância Perdida; Confissões de Família; A Cor do Brasil; Este Homem é um Escravo Brasileiro; Série sobre Trabalho Infantil Doméstico; A Infância Roubada; Redescobrindo o sentido da palavra Família; Operários da Igualdade…

Há trabalhos de vários Estados, doze deles produzidos fora do eixo Rio-São Paulo. E não tenho dúvidas de que todos os trabalhos resultaram da iniciativa, do idealismo, do inconformismo e dos méritos profissionais dos respectivos autores.

Portanto, é possível!’



MERCADO EDITORIAL
Antonio Gonçalves Filho

‘Planeta quer ser líder na América Latina’, copyright O Estado de S. Paulo, 22/08/08

‘A investida da Planeta do Brasil no mercado, que começou tímida no ano passado, toma agora outro rumo. A editora, presente em outros países, quer ser nada menos que líder na América Latina. Isso, em outras palavras, significa investimento pesado e disputa agressiva com gigantes do mercado editorial brasileiro. A briga já começou. Para começar, a editora pretende publicar algo em torno de 120 títulos no próximo ano, o dobro dos livros que saíram da Planeta em 2003. Entre esses títulos estarão inéditos de nomes disputados no mercado como Fernando Morais, Carlos Heitor Cony e Zuenir Ventura.

O leitor informado reconhece esses autores associados a editoras de grande poder de fogo, como a Companhia das Letras, um dos alvos dessa batalha que ameaça virar guerra. O Brasil sempre esteve na mira da espanhola Planeta, gigante editorial fundada em 1949 que, entre outros trunfos, concede o maior prêmio literário europeu, superior a 600 mil euros. Também aqui, imitando o exemplo da matriz, a Planeta do Brasil vai instituir um prêmio no próximo ano. Interessados em conhecer o último vencedor na Espanha poderão ler em outubro a tradução de El Baile de la Victoria (O Baile da Vitória), do chileno Antonio Skármeta.

Anônimos – O autor de O Carteiro e o Poeta submeteu sua novela ao júri com outro título, Los Perros de la Libertad (Os Cães da Liberdade). Nela, Skármeta propõe aos militares chilenos um gesto de reconciliação com a sociedade civil. Ele jura que não a escreveu para ganhar o prêmio Planeta, cobiçado por dez entre dez autores. Aqui, o formato do prêmio não deverá ser diferente. Apenas o valor será menor, revela o diretor editorial Pascoal Soto. Os escritores terão de submeter-se anonimamente ao julgamento.

Enquanto o prêmio não vem, a Planeta investe na contratação de autores que freqüentam a lista dos mais vendidos no Brasil. São fortes candidatos a entrar igualmente no ranking mundial. Uma das vantagens oferecidas pela editora é a facilidade de lançar quase que simultaneamente seus livros em todo o mundo civilizado – e o mercado latino não é nada desprezível para um autor brasileiro, habituado a vendas modestíssimas quando comparadas às dos mercados colombiano, venezuelano, mexicano e argentino.

Essa perspectiva é ainda mais sedutora entre os que nem sequer sonham com as listas nacionais de best-sellers. Para os novos autores, a Planeta promete o céu. Habituados a tiragens mínimas, que raramente ultrapassam 3 mil exemplares, eles poderão sonhar com números bem mais gordos e passagem livre para o mercado de língua espanhola. Novos valores já se inserem no seleto grupo da Planeta do Brasil, entre eles o carioca Alexandre Plosk (de Livro Zero) e o paulista Santiago Nazarian (de Parati para Mim), este último um jovem DJ de 27 anos que escreveu roteiros de telessexo, foi barman e agora tem seu segundo romance, Feriado de Mim (em breve, pela Planeta), transposto para o cinema pela cineasta Eliane Caffé. Ainda fazem parte da turma Clara Averbuck, José Paulo Cuenca e João Carrascoza.

Identidade – ‘Falta profissionalismo na captação e cuidado com os autores’, critica o diretor-geral da Planeta do Brasil, o argentino César Alejandro González de Kehrig. Mesmo insatisfeitos com seus editores ou a falta de investimento na promoção de seus livros, os autores, de modo geral, ficam atrelados a uma casa editorial por falta de opção. As grandes editoras têm lançamentos demais para se preocupar com os novatos. As pequenas têm dinheiro de menos para investir neles. A Planeta do Brasil, garante o diretor, vai mudar essa relação assimétrica.

O diretor editorial Pascoal Soto não vê o convite a autores vinculados a outras editoras como uma estratégia que fere princípios éticos. ‘Não queremos exclusividade e nem achamos justo que uma editora tenha poderes sobre o autor’, esclarece, adiantando que todos os novos projetos contratados são específicos e, por vezes, sugeridos aos escritores pela editora. É caso do primeiro projeto global da Planeta do Brasil, uma série histórica de quatro livros em que o jornalista e escritor gaúcho Eduardo Bueno refaz o caminho dos primeiros exploradores. E também o da biografia do controvertido presidente venezuelano Hugo Chávez, que teve garantida sua permanência no poder até janeiro de 2007 com o plebiscito de domingo passado. A vida de Chávez será contada pelo jornalista Fernando Morais, veterano no gênero (Olga, Chatô). Morais escreve ainda a história da agência de publicidade de Washington Olivetto, a W/Brasil.

Filosofia de grupo – Pela variedade de gêneros e títulos é possível concluir que a Planeta do Brasil não segue o modelo das pequenas editoras, ainda em busca de um nicho no mercado. Ela quer entrar em todas as searas. Seu livro de maior vendagem é a biografia de um líder espírita (As Vidas de Chico Xavier) escrita pelo jornalista Marcel Souto Maior, que já vendeu mais de 120 mil exemplares. Seu segundo livro pela Planeta, Por Trás do Véu de Ísis, segue pelo mesmo caminho.

‘Não temos preconceitos’, justifica o editor González de Kehrig. ‘A Planeta espanhola tem mais de meio século e tornou-se líder ao incorporar outros selos editoriais e todos os gêneros’, conclui. A referência mais próxima da Planeta no Brasil é a Record, que agrupou as editoras Bertrand, Civilização Brasileira, Difel e José Olympio, publicando de Morris West a Steinbeck.

Sétimo maior grupo de comunicação do mundo, a Planeta incorporou em meio século importantes selos espanhóis (Seix Barral, Emecé) e portugueses (Publicações Dom Quixote), trazendo essa experiência para a América Latina.

O posto mais antigo da editora espanhola aqui está na Argentina, que responde por um faturamento entre US$ 15 milhões e US$ 20 milhões. O Brasil, segundo González de Kehrig, ainda não atingiu um quinto do mercado argentino, mas a editora deve crescer até 40% no próximo ano. Nada mal para quem começou com um investimento de US$ 1,5 milhão.’

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem