Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > LAS PUTAS TRISTES...

Fernando Gabeira

04/01/2005 na edição 310

‘Às vezes vou à livraria com a sensação de urgência de quem vai à farmácia. Preciso de ficção nas veias, e logo nos primeiros parágrafos a coisa faz efeito.

Nessas ocasiões, prefiro os textos mais curtos, que os americanos chamam de novela. Ou um conto mais longo, se você quiser. No gênero, estão dois livros que marcaram minha formação; ‘O Estrangeiro’, de Camus, e ‘O Velho e o Mar’, de Hemingway.

Em ‘Memorias de Mis Putas Tristes’ (Editorial Sudamericana/Mondadori), Gabriel García Márquez conta com traços fortes e rápidos, a história de um homem que, ao completar 90 anos, resolve ter uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.

O homem tem uma vida medíocre, dá aulas, escreve uma crônica para jornal, vive numa casa, herdada da mãe, luminosa e com piso de mosaicos florentinos. Seu consolo são as putas que freqüentou com regularidade ao longo dos anos. Por causa delas, meteu-se numa longa farra de despedida de solteiro e abandonou no altar a única noiva que teve.

O mesmo universo que o roubou de uma vida familiar é o único que conta agora para realizar o sonho dos 90. Sua cúmplice é uma cafetina chamada Rosa Cabarcas, também apresentada com economia de traços. ‘Ai meu sábio triste’, diz ela, ‘você desaparece 20 anos e volta para pedir o impossível’.

Ela se revela também num curto diálogo, em torno do café da manhã com o velho. As refeições de Rosa tinham uma carga de pimenta que o faziam chorar. Assim que mastigou o primeiro bocado de fogo vivo, reclamou: essa noite não precisa de lua cheia ‘para que me arda el culo’.

Rosa já conhecia essa fragilidade do homem, disse apenas: não reclame, se arde é porque você ainda o tem, graças a Deus.

O sopro de vida que vem da novela de Márquez talvez seja o de ver um homem de 90 anos, enamorando-se perdidamente, escrevendo crônicas de amor, ajustando as contas com uma vida que lhe deu muito pouco e também muito pouco foi enriquecida por ele.

Lembro-me de um impacto assim com a novela ‘Quincas Berro d’Água’, de Jorge Amado. Essa não encontrei em livraria, mas na banca de jornal. Esperava religiosamente a chegada da revista ‘Senhor’ à banca da rua Halfeld. ‘O Urso’ de Faulkner, contos inéditos de Clarice Lispector, cada mês uma surpresa maravilhosa.

Quincas Berro d’Água morre e refaz sua vida, com as farras e prostitutas, longe da antiga vida familiar. O velho de Márquez dá uma guinada em plena vida, aos 90. Ele não deixa um mundo opressivo para cair na gandaia. Dentro do próprio universo dos prostíbulos é que vive o sonho do amor. A passagem não se faz pela morte para a família. O encontro de uma adolescente virgem é apenas mais uma tarefa difícil para Rosa Cabarcas.

Quincas vive uma espécie de vida dupla. O velho de Márquez realiza uma síntese: apaixona-se e transforma o puteiro de Cabarcas numa nave nupcial.

No momento em que o tema prostituição infantil está na ordem do dia, o livro de Márquez poderá ser criticado pela visão politicamente correta. Mas seria um mal-entendido, como analisar ‘O Estrangeiro’ a partir da morte de um árabe ou achar que o velho Santiago pescou um peixe maior do que poderia comer.

Esses livros não têm os cheiros e as cores de um romance, não acumulam detalhes. Funcionam um pouco como argumentos, onde você imagina o filme de uma vida e logo se dá conta de que aquilo é mais que uma vida, de uma certa forma é a condição humana.

Nas férias curtas estava um pouco sufocado por fatos, biografias, imagens. Fui salvo por esse impulso que me levava à banca da rua Halfeld, na época, já influenciado por más companhias e dependente de todas essas histórias.

O mais recente livro de Márquez que tinha lido fora sua autobiografia. Descreve muitos detalhes da vida em jornal. Mas o ‘Diario de La Paz’ que aparece na história curta são apenas pinceladas, pois o velho escrevia suas crônicas em casa. Mesmo assim, um simples traço, como o presente de uma secretária (cuecas com beijos estampados) serve para ilustrar a distância entre o velho que escrevia à mão e um veículo industrial a que servia.

Por isso que às vezes acho que essa expressão ‘história curta’ não define bem o gênero. Algumas parecem longas histórias que foram sendo depuradas e ficaram apenas com um esqueleto essencial.

Tanto Amado com atmosfera de Salvador como Márquez na sua Colômbia já haviam descrito, com muitos detalhes, prostitutas e prostíbulos. Talvez o domínio do tema tenha permitido que enxugassem o texto, descrevendo apenas aquilo que o personagem vislumbra.

Dentro de alguns meses ‘Mis Putas Tristes’ deverá sair em português. Não o comparo com Camus nem Hemingway. Apenas digo que essa sede que persegue algumas pessoas, empurrando-as para a busca de histórias, é algo que justifica o ato de escrever .

O velho de 90 anos lendo ‘O Pequeno Príncipe’ para uma virgem adormecida no prostíbulo de Rosa Cabarcas mostra que os escritores conhecem essa sede.

E a saciam constantemente. Como na primeira frase de Camus (‘A mãe morreu hoje, ou ontem, não sei…) ou na última das ‘Putas Tristes’ de Márquez:

‘Era, enfim, a vida real, com meu coração a salvo e condenado a morrer de um bom amor na agonia feliz de qualquer dia depois dos meu cem anos’.’



TRUMAN CAPOTE
Tomas Eloy Martinez

‘A moralidade dos abutres’, copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 2/01/05

‘Quase todos os escritores dizem que sem entrega não pode haver literatura de verdade. Rigorosamente falando, a paixão humana não tem significado algum a menos que o eu se deixe envolver totalmente por ela. Em 1956, William Faulkner levou essa idéia aos extremos da individualidade e da imoralidade. O escritor declarara à Paris Review que o artista era inteiramente responsável por seu trabalho. Acrescentou ainda que se o artista fosse bom não teria misericórdia alguma (…) e nada haveria que não estivesse disposto a abandonar: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo para poder escrever seu livro.

São afirmações aparentemente chocantes, mas não exageradas: no mundo da literatura, o homem torna-se sua obra antes de ser ele mesmo.

Em meados de outubro, a Random House, de Nova York, publicou finalmente um volume de cartas de alguém que pensava como Faulkner, mas o superava em astúcia: Truman Capote. O livro, Too Brief a Treat (algo como ‘um prazer breve demais’) compilado pelo biógrafo Gerald Clarke, traz poucas revelações.

É interessante observar que as cartas desmentem o mito de que Capote preferia a diversão à disciplina. Ele era uma pessoa obsessiva, para quem o trabalho vinha antes de qualquer coisa. E, assim como Faulkner, o autor parecia viver em um mundo povoado por pessoas, no qual poucas coisas aconteciam que não dissessem respeito a elas ou àqueles que as rodeavam. Answered Prayers, o grande fracasso de Capote, foi também o romance que mais ocupou sua atenção. Ele o menciona inicialmente em uma carta de 1958 a seu editor (e também fundador e publisher da Random House), Bennett Cerf, dizendo-lhe que seria melhor do que Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

‘Não devo, porém, falar muito’ sobre o tema, disse, ‘para não assustar certas pessoas’. Como todos sabem, o susto terminou em desespero e suicídio para alguns.

Pressionado por seus editores, que haviam antecipado a ele uma fortuna pelo livro, o autor consentiu que a Esquire publicasse um capítulo, La Côte Basque, no final de 1975. Ali, sentados à mesa do famoso restaurante nova-iorquino, apareciam reunidos milionários adúlteros e princesas mexeriqueiras facilmente identificáveis. Em questão de horas, Capote perdeu quase todos os amigos, bem como o glamour de que desfrutava em seu convívio social. Ninguém mais o procurava e nem retornava suas ligações. Em vez de gênio, passaram a chamá-lo de crápula.

Em suas cartas, entretanto, o autor não procura evitar os rumores e as fofocas. Pelo contrário, pede em sua correspondência para que lhe contem mais, sobretudo o que for mais sórdido. Quando lhe perguntam sobre um conhecido qualquer que teria encontrado por acaso na Califórnia, ou em Taormina, o autor responde de modo evasivo que não poderia escrever a esse respeito no momento, que falaria sobre o assunto posteriormente. Ou então que estava envolvido demais para falar o que quer que fosse.

Até 1956, Capote fora o menino de ouro que todos admiravam. Desde os 21 anos tinha suas histórias publicadas na revista mais sofisticada dos EUA, a New Yorker, onde trabalhara anteriormente como auxiliar de escritório. Sua linguagem era etérea e elegante, e nela se percebia um eco qualquer de Carson McCullers e Eudora Welty. Seus hábitos eram a antítese da prática jornalista. Ele escrevia diversas versões da mesma história a lápis, geralmente deitado ‘na cama ou no divã’, disse. Deixava então o texto repousar durante algumas semanas antes de decidir se deveria ou não publicá-lo. Na época em que trabalhava em A Sangue Frio e fazia pesquisas para o romance, o álcool começava a cobrar seu preço. No início de 1966, ano em que publicou seu romance de não-ficção, não houve elogio bastante que o satisfizesse. Em suas cartas, o autor se queixa incessantemente de que seus livros jamais haviam ganho os grandes prêmios concedidos a seus imitadores, entre os quais cita Norman Mailer e Gore Vidal. As tragédias e as trivialidades do mundo são agora uma sucessão de boatos sobre mulheres que haviam feito plástica no rosto ‘pela quarta vez!’, ou sobre celebridades como Greta Garbo, que ele arrasa em poucas palavras ao dizer que parecia ‘a morte, só que bronzeada’.

No memorável prefácio a Música para Camaleões, Capote se pergunta por que nunca, nem sequer uma vez em toda a sua vida de escritor, explorou totalmente tudo o que sabia.

Pouco antes de sua morte, em 1984, em conversa com o autor e editor Charles Ruas, Capote resumiu assim a resposta à pergunta que fizera: porque a liberdade na qual vivera estava longe de ser completa, porque não havia se drogado tanto quanto deveria, porque se aproximara da realidade com escrúpulos, e não com marcas de sangue, como lhe pedia sua consciência. Um escritor não deve se desgastar cuidando das personagens que mais lhe satisfazem, diz o autor em suas cartas. Quando alguém sai de cena, outro ser humano toma o seu lugar. Não seria a humanidade uma fonte inesgotável? O limite não estaria no cálculo profissional, conclui, e sim no grau de ternura que se professa pela espécie.

Em uma carta de 1958, Faulkner dizia que gostaria de reencarnar como abutre, um ser a quem ninguém ama, odeia ou inveja, e do qual ninguém precisa. Em Nocturnal Turnings, último capítulo de Música para Camaleões, Capote copia sem pudor algum a frase de Faulkner ao dizer que gostaria de reencarnar como abutre. Um abutre não se preocupa com a aparência, tampouco com seu poder de sedução, diz. Não perde tempo fazendo pose. Afinal de contas, ninguém jamais gostará dele: é feio, indesejável e mal recebido aonde quer que vá. Contudo, acrescenta, muito se poderia dizer da liberdade que essa sua condição lhe proporciona.

Faulkner e Capote não se preocupavam com a crítica que lhe pudesse fazer a história. Preocupavam-se exclusivamente com seu trabalho, isto é, com o banquete de abutres no qual toda realidade, até mesmo a mais vazia, podia se transformar em palavras imortais.

Tomas Eloy Martinez é jornalista e escritor, autor de O Cantor de Tango’



MERCADO EDITORIAL
Antonio Gonçalves Filho

‘Cresce o interesse pela história entre os leitores’, copyright O Estado de S. Paulo, 2/01/05

‘As perseguições sofridas por grupos étnicos, repetindo hoje tragédias do passado, respondem parcialmente pelo segmento do mercado editorial que mais evoluiu no ano que passou, o dedicado aos livros de história. Não se registrou um mês sem o lançamento de pelo menos uma obra importante sobre o assunto, desde janeiro de 2004, quando o polêmico livro do jornalista americano Edwin Black, A Guerra contra os Fracos (Editora A Girafa, R$ 68), chegou às livrarias para revelar que os Estados Unidos foram pioneiros no racismo científico. Numa época dominada pela biotecnologia e obcecada pela clonagem, o livro de Black mostra que a eugenia não foi superada com a trágica lição do nazismo, outro tema que domina as publicações de história desde o começo do ano passado. Exemplo disso foi o lançamento, já em fevereiro, de Tu Carregas Meu Nome (Record, R$ 30,90), da dupla alemã Norbert e Stephen Lebert, que trata da vida dos descendentes de oficiais nazistas, estigmatizados por sobrenomes como Hess e Góring.

Pode-se esperar para 2005 um crescimento ainda maior no segmento histórico com a comemoração dos 60 anos do fim da 2.ª Guerra Mundial, ou a redescoberta de autores que se dedicaram à análise do conflito. Concorrendo com os livros de história, os ensaios foram, ao lado das biografias, os dois gêneros que mais cresceram em 2004. Entres as biografias do ano destaca-se a de Stalin (dois volumes, Nova Fronteira, R$ 39 cada um), do russo Dmitri Volkogonov, estudo minucioso da formação do ditador realizado por um autor que fez carreira no Exército Vermelho e teve o pai morto pela polícia stalinista, em 1937. Volkogonov traça um retrato equilibrado desse ditador desprovido de talento intelectual e falso como um Cartier de camelô. Sobre o expurgo stalinista e os campos de prisioneiros mantidos na União Soviética dos anos 30 aos 80 do século passado, a jornalista americana Anne Applebaum lançou, aliás, um estudo magistral, Gulag (Ediouro, R$ 84,90).

As editoras apostaram também em projetos sobre personagens da terra. A biografia de Dona Veridiana (A Girafa, R$ 59), de Luís Felipe D’Ávila, conta o desafio dessa mecenas das artes, uma das primeiras mulheres a assumir a separação do marido numa época de moral rígida (fim do século 19). Outra biografia de um herói fora dos padrões provocou certo barulho pelo teor de suas revelações, a de Santos-Dumont, Asas da Loucura (Objetiva, R$ 41,90), escrita pelo americano Paul Hoffman. O pai da aviação é descrito como um dândi excêntrico e suspeito de traição pelo governo francês. Mais ambiciosa é a biografia do conde Francisco Matarazzo, sobre o imigrante italiano que começou como mascate e morreu dono de duas centenas de fábricas no Brasil. São dois volumes: Matarazzo – Colosso Brasileiro (Planeta, R$ 49,90) e Matarazzo – A Travessia (Planeta, R$ 49,90), de Ronaldo Costa Couto.

Nossa história, passada e recente, foi contemplada com o mais antigo registro conhecido sobre o País, A Primeira História do Brasil (Jorge Zahar, R$ 34), escrito por Pero de Magalhães Gandavo e publicado em 1576. O livro é curioso: traz, por exemplo, a descrição de um monstro marinho que aparecia nas praias de São Vicente, uma espécie de serpente de Loch Ness dos trópicos. Menos anedótico é o quarto volume da série do jornalista Elio Gaspari sobre o regime militar que dominou o Brasil por 20 anos, A Ditadura Encurralada (Companhia das Letras, R$ 56). Gaspari conta como Geisel demitiu seu ministro do Exército, Sylvio Frota, e, ao lado do general Golbery, provocou o desmonte da ditadura.

Na linha dos ensaios políticos, três se destacam. O primeiro foi escrito pelo autor israelense Amós Oz. Chama-se Contra o Fanatismo (Ediouro, R$ 24,90) e reúne três ensaios sobre as possíveis origens do conflito no Oriente Médio, que Amós Oz não vê como histórica disputa entre árabes e israelenses, mas uma luta entre o fanatismo e a tolerância. Sobre essa questão de tolerância, um ensaio curioso é o da professora espanhola de literatura María Rosa Menocal, O Ornamento do Mundo (Record, R$ 44,90), que descreve a convivência pacífica entre árabes e judeus na Espanha medieval. Outro ensaio publicado este ano parece ter como referência o mundo de hoje, mas foi lançado há 40 anos por John Steinbeck, A América e os Americanos (Record, R$ 59,90). Os últimos dos 65 textos são os mais polêmicos. Mostram os Estados Unidos como uma nação de ‘puritanos públicos e devassos privados’.

Considerado veneno de livraria até recentemente, um segmento que cresceu foi o de textos jornalísticos. Gay Talese, forjador do chamado ‘new journalism’ (gênero em que o real e a ficção se entrecruzam) compareceu em abril com seu Fama e Anonimato (Companhia das Letras, R$ 52). Talese é engraçado. Traça, entre outros, o perfil de Frank Sinatra sem nunca ter entrevistado o cantor americano. Outro livro do gênero que merece atenção é o do crítico inglês Kenneth Tynan, A Vida como Performance (Companhia das Letras, R$ 48). Organizado pelo colunista do Estado, Daniel Piza, este sim é um livro com entrevistas reais de personalidades das artes e da literatura. Na área de ficção, as editoras procuraram aprimorar o catálogo com versões diretas do russo (as de Dostoievski, pela Editora 34) e japonês (as de Kawabata, pela Estação Liberdade). A reedição de clássicos deve continuar em 2005, ano do quarto centenário de Dom Quixote, de Cervantes.’

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