Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 13 E 14/01

Folha de S. Paulo

16/01/2007 na edição 416

FUTEBOL & ESPETÁCULO
Rodrigo Bueno

Beckham é o maior

‘O CARA simplesmente deixa de ser galáctico para ir para o Galaxy. Ironia? Talvez. Decadência? Que nada. Como escreveu Phil Ball no ‘New York Times’ em junho de 2003, ‘David Beckham pode não melhorar um time, mas pode mudar um país’. Era época em que ele aterrissava em Madri para estourar recordes de venda de camisas, despertar teorias mirabolantes (tipo ‘Lost’) para o número 23 e para ofuscar as outras estrelas. Se o que o Real fez nos últimos anos foi só marketing, o melhor foi Beckham. Ele é imbatível. E como ele sai de cena (desculpe, é impossível), como sai da Espanha? Assinando o mais vantajoso contrato de um atleta do mais popular esporte. Em popularidade, Beckham desafia até Pelé.

O mercado dos EUA só esbarrou no futebol. Fifa, Copa, MLS, Pelé, Beckenbauer, Cruyff, Maradona, Romário, Valderrama, Adu… Nada pode ser tão perfeito para o Tio Sam quanto Beckham. Hollywood é a praia do galã que já atuou na trilogia ‘Goal!’. Fala inglês melhor que o Rei, é mais descolado nas roupas que Beckenbauer, tem nariz mais certinho que Cruyff e cabelo mais acessível que o de Valderrama, não exibe a figura agressiva de Maradona e é um ‘kicker’ melhor que a maioria das lendas do futebol. Victoria, a spice esposa, já procurava nos último dias casa em Los Angeles, meca para um casal que substituiu, no Reino Unido, Charles e Diana.

Em meio à brava crise do Real, os EUA posavam como ‘zebra’ para Beckham. Mas não seriam um refugo, tal qual a Arábia Saudita seria para Ronaldo (Figo já está lá, e você pouco ouvirá falar dele). Foi cartada de mestre. O mundo está caindo na cabeça do Real Madrid e seus mais ilustres funcionários. Nuvens negras para todos, mas a luz brilha para um. Beckham não ‘foi saído’ do time, saiu para uns US$ 50 milhões/ano, por baixo. John Lennon se achava Jesus nos Beatles, mas foi para os EUA virar Deus. O U2 era show na Europa, porém ganhou o pop e o mundo após abraçar a América.

O que será de Fabio Capello, sensacional técnico ainda invicto no quesito demissão? Ronaldo atenderá Xico Sá e disputará posição com Souza no Flamengo, sem receber salário em dia, ou levará chineladas na Vila Belmiro por marcar menos gols que o Jonas? Zidane já encontrou seu pior final possível. Roberto Carlos, meia boca perto do que já foi, só é bem recebido hoje em dia (e noite) nas baladas de Madri. O amigo Robinho está longe do fim, mas as noitadas não são um bom começo. E Cannavaro, esse perto do fim, vira mesmo o pior melhor do mundo.

Talvez Ronaldinho sorria tanto porque não é jogador do Real nos últimos tempos. E Beckham deve estar morrendo de rir agora. Mesmo sem ser brasileiro, gênio, campeão e sem estar em um dos dois clubes mais ricos do mundo, está na crista da onda. Sorriu ontem na primeira página da Folha e do mundo.

‘…o meu destino é ser star.’

BAPTISTA É O MELHOR

O ex-são-paulino Júlio, que certa vez foi testado como atacante por Nelsinho Baptista (?!@#), fez quatro gols no Liverpool no Anfield Road pela Copa da Liga da Inglaterra (6 a 3 Arsenal) e ainda perdeu um pênalti. Só um outro brasileiro conseguiu feito parecido na Inglaterra: Gustavo Nery (#@!?), que marcou quatro vezes em um Bolton 3 x 6 São Paulo. Sério!

TADDEI É O MELHOR

Já vi matéria no Brasil fazendo link entre Falcão, o ‘Rei de Roma’, e o ex-palmeirense, que até gol de bicicleta marcou no calcio. Pára o mundo que eu quero descer.

LEONARDO É O MELHOR

O marrento carioca virou a esperança do meu Ajax, em crise até com seu histórico 4-3-3. Hora de mudar?’

José Geraldo Couto

Fazer a América

‘DAVID BECKHAM deixa o Real Madrid para jogar no Los Angeles Galaxy, por US$ 250 milhões por cinco anos de contrato. Ou seja: US$ 50 milhões por ano, o que o torna o atleta mais bem pago da América, à frente até mesmo dos zilionários astros do basquete.

Ele merece? No mundo globalizado do espetáculo, a questão nem se coloca. Se alguém oferece a Beckham uma fortuna como essa, é porque sua imagem rende muito mais do que isso. Outros estão ficando ainda mais ricos do que ele. O episódio é revelador da economia política do entretenimento em nossos dias, em que a teoria do valor, esmiuçada por Karl Marx em ‘O Capital’, foi virada de cabeça para baixo. Pois, em princípio (mas só em princípio), o que Beckham tem a vender no mercado é a sua capacidade de jogar futebol. Se é o mais caro esportista da modalidade, deveria também ser o melhor. Mas o fato é que ele não o é. Nem de longe.

Costumo dizer aos amigos que considero Beckham um Marcelinho Carioca piorado. Eles riem, acham que é piada. Mas não é. Tudo o que o inglês faz bem em campo (lançar, bater faltas e escanteios) Marcelinho fazia melhor. Além disso, o ex-corintiano tinha mais habilidade e inventividade com a bola nos pés. Se Marcelinho era melhor do que Beckham, o que dizer de Kaká, Ronaldinho, Messi, Henry? Mas fiquemos no cotejo com Marcelinho.

O que ele tem que o carioca não tem? Várias coisas. É boa pinta como um galã do cinema, casou-se com uma estrela da música pop e administra como poucos a imagem de celebridade. Seu futebol não evoluiu muito desde que surgiu no Manchester, há mais de dez anos. Mas a cada semana ele lança um penteado, deixa escapar cuidadosamente uma inconfidência para a imprensa de fofocas, cultiva a aura de metrossexual, seja lá o que vem a ser isso.

E há também a força inercial das cifras. Milhões (de fãs, de euros) atraem outros milhões. Não é por acaso que os filmes de grande bilheteria incluem a renda já alcançada na propaganda, assim como os ‘best-sellers’ anunciam triunfalmente os milhões de exemplares vendidos. Cria-se o curioso efeito manada: ‘Se todo mundo está vendo isso, também preciso ver’. Claro que nada disso tem a ver com o verdadeiro cinema, a verdadeira literatura, o verdadeiro futebol.

‘Fazer a América’ sempre foi a expressão utilizada para designar o sonho dos imigrantes de enriquecer no Novo Mundo. Milhões de italianos, judeus e irlandeses chegaram pobres aos EUA e em poucas gerações, se não em uma única, construíram fortunas. Pelé, o maior futebolista que o mundo já viu, também foi para lá completar o seu pé-de-meia no fim da carreira. O que ganhou no Cosmos não chegou nem a um décimo do que Beckham vai ganhar no Galaxy, mas foi mais do que o que ele tinha recebido em quase duas décadas de Santos. Não, caro leitor, isto não é um lamento contra o ‘desconcerto do mundo’ de que falava Camões. É só uma constatação a mais de que vivemos numa época em que as aparências contam muito mais que as coisas em si. A tão falada ‘crise de valores’ da sociedade contemporânea é literal: temos dificuldade em saber quanto valem os objetos e, mais ainda, os indivíduos. Uma bolsa de grife custa mais que o alimento necessário para manter uma família num mês. Uma beldade que exibe coxas e sorrisos do Big Brother ganha mais dinheiro e notoriedade que um cirurgião ou um cientista de ponta.

Pensando bem, ainda que seja tolo e inútil, este texto é sim um lamento contra o desconcerto do mundo. Só sei que, no meu time de pelada, se tivesse que escolher entre Beckham e Marcelinho, ficaria com o segundo.’



INTERNET
Roberto Romano

Cabe à Justiça proibir a divulgação de imagens pela internet? A censura é inaceitável, sempre

‘A VIDA política e social de nossos dias tem a marca da visibilidade. As formas domésticas de segredo e recato são violentadas pelos vários poderes (do religioso ao político, deste ao policial e ao militar). À cidadania resta o espaço público como lugar de convívio civil, submetido a regras válidas para todos.

A maior parte dos países atuais exerce a razão estatal que define uma diferença entre dirigidos e governantes. Os primeiros são vigiados pelos segundos, sem a contrapartida. Diminuem os setores protegidos em proveito do olhar sem peias do fisco, da polícia, de autoridades judiciais. A igreja inventou a censura moderna e iniciou a expropriação da privacidade na Contra-Reforma, com o famoso ‘Livro do Estado de Almas’, ideado por Carlos Borromeu. Em formulários, os padres recolhiam dados sobre a vida familiar, os costumes, as posses, as crenças religiosas e políticas, as profissões e vícios dos leigos. Era tempo de caça a protestantes, ateus, agnósticos e devassos.

O programa tridentino, sintetizado nas fichas de Borromeu, abriu caminho para técnica semelhante, usada pelo Estado. No mundo político atual, tudo é passível de ser visto pelos que dirigem a burocracia. Se o funcionário superior desconfia de alguns cidadãos, ele põe -com alguns riscos- a polícia para bisbilhotar as reais ou supostas irregularidades cometidas.

A crítica ao panoticismo estatal não é privilégio democrático ou do liberalismo. Donoso Cortés, conservador, descreve a lógica política e põe na boca dos governos o seguinte: ‘Temos 1 milhão de braços, não basta. Precisamos de 1 milhão de olhos’. E tiveram a polícia, diz o autor. ‘Não bastou ao governo 1 milhão de olhos, ouvidos, braços (…) Os governantes disseram: precisamos ter o privilégio de nos encontrar ao mesmo tempo em todas as partes’. E tiveram isso também, diz Cortés, ‘pois se inventou o telégrafo’.

Em dias de internet, o milhão de ouvidos, olhos e braços do poder político é multiplicado a serviço dos governos. E, para sacralizar a espionagem oficial da cidadania, encontra-se, como elemento estratégico, a Justiça. No Brasil, são numerosos os casos de autorização de quebra de sigilo sem base jurídica ou factual. A polícia prende e arrebenta ou invade escritórios de advocacia, ferindo todos os direitos. As vítimas se queixam ao bispo. Poucos se levantam contra o voyeurismo oficial. Contudo, muitos desejam censurar a mídia quando se trata de pessoas que gratuitamente agridem o pudor da sociedade civil.

Como existem espiões oficiais em demasia, o espaço social onde os indivíduos são livres das cadeias estatais (pelo menos idealmente) merece reverência. Para garantir um mínimo de respeito aos que pagam impostos, há regras não escritas de etiqueta. Se alguém usa a praia para copular, agride o recato dos veranistas, invade a vista alheia, suscita recriminação. E levanta paixões miúdas, como a inveja. É contra-senso exigir que a Justiça puna fotógrafos, pois reprimido antes deve ser quem violou o decoro.

Proibir o instrumento de comunicação é ilógico, pois assim se admite a licença, no mesmo passo em que se proclama aos ricos e famosos o seu pretenso direito de usar o espaço social para exibir dotes físicos, riqueza, privilégio. Se eles assim agem, desejam pelo deboche ampliar e reforçar suas riquezas, como Narcisos exibicionistas, com proteção jurídica. Usar censura para garantir o indecoro sob a máscara da ‘privacidade’ é mais obsceno do que uma cópula na praia. É desejar que a Justiça permaneça alheia às violações do trato civilizado, garantindo aos deuses da moda e da propaganda o direito ao estupro do pudor alheio.

Crimes como pornografia infantil e golpes contra a fé pública devem ser punidos com rigor. Mas que não sirvam de pretexto para exasperar o controle dos cidadãos pelo Estado. ‘Escândalo’ vem de um vocábulo grego que significa ‘mancar’. No episódio em epígrafe, mancaram a modelo, o seu parceiro, os censores e os ‘escandalizados’ que silenciam ante o vilipêndio ao direito público cometido pelos monopolistas da força física, da norma jurídica e dos impostos. A censura da comunicação é o primeiro e pior sinal do poder regido pelo despotismo.

ROBERTO ROMANO , 60, filósofo, é professor titular de ética e filosofia política na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor de, entre outras obras, ‘Moral e Ciência – A Monstruosidade no Século XVIII’.’

Francisco César Pinheiro Rodrigues

Cabe à Justiça proibir a divulgação de imagens pela internet? Os direitos e os limites

‘SÓ POSSO dizer sim. Não há outra resposta, a não ser que admitamos que o que ocorre no mundo virtual paira em outra dimensão, em um mundo fantasmagórico, livre de qualquer peia moral ou legal. Algo não aceitável porque, seja qual for o avanço da informática, sempre restará no homem um núcleo duro de exigência de respeito a seus direitos. O problema está em como compatibilizar as exigências éticas e legais com a técnica, cada vez mais complexa e mutável, da comunicação eletrônica. Como casar direitos e deveres com as possibilidades de efetivo controle na transmissão via internet? Eis o grande desafio a ser enfrentado. Pela internet até mesmo se mata.

Segundo informação de um juiz italiano, a Máfia, inconformada com a ‘impunidade’ do ‘traidor’ que revelou seus tenebrosos segredos visando a delação premiada, passou a assassinar parentes do ‘pentito’. Em certo caso, a Máfia mandou matar um irmão do fugitivo. Ele levou três tiros, mas não morreu. Permaneceu na UTI com vários aparelhos conectados ao corpo. Impossibilitada de ‘terminar o serviço’ com chumbo, a Máfia contratou um hacker na Suíça para penetrar no sistema do hospital e desligar os aparelhos que mantinham vivo o irmão do arrependido. Menciono isso, ‘en passant’, para frisar o potencial da internet, para o bem e para o mal.

Voltando ao Brasil, cabe frisar que a Constituição dispõe que ‘são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação’. Dispõe também que ‘é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato’. Se a CF nos assegura o direito de preservar a intimidade e a vida privada, e outras normas legais garantem o acesso aos tribunais para a efetivação desses direitos, é obrigação incontornável do Judiciário examinar cada pedido e tomar as providências cabíveis.

Isso ocorre com todos os abusos, ou alegados abusos, na mídia. O juiz profere uma decisão provisória, liminar, que será, ou não, futuramente mantida, após instrução do processo. Exigir que o juiz nunca conceda liminares sem ouvir a parte contrária é, em certos casos, utópico. Haveria uma espera de muitos dias, aguardando a resposta. E, nessa espera, quando fosse deferida a liminar, o dano (abalo da reputação) estaria consumado. Não adianta argumentar que sempre resta o consolo de um pedido de indenização, pois, por vezes, o prejudicado está mais interessado na reputação que no dinheiro. E o ofensor nem sempre tem recursos para indenizar.

Alguém pode alegar que, quando se trata de artistas, não há por que deferir nenhuma liminar, pois todo artista estaria interessado em aparecer e suscitar polêmicas. Nem sempre. Juridicamente, não há como retirar de nenhum cidadão o direito de preservação da imagem. ‘Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza’, diz o caput do art. 5º da Constituição. A proteção legal não pode ser retirada de artistas, políticos ou outras figuras notórias.

A circunstância de ser figura notória apenas influirá na avaliação das provas da sinceridade da ‘indignação’ da vítima, ou suposta vítima. O juiz levará em conta que figuras públicas devem ter precauções de conduta em público muito superiores às de figuras comuns, porque se sabem mais observadas. Se a ‘vítima’ abusou no pedido, pode responder patrimonialmente por isso. Não se alegue que a CF proíbe a censura prévia. Proíbe-a, realmente, mas proíbe também crimes, entre eles a calúnia e a difamação. Se o leitor souber que alguém colocou na internet uma série de deslavadas mentiras visando desmoralizá-lo, certamente concordará que a liberdade de difusão não pode ser encarada de modo absoluto. Tentará impedir, judicialmente, que a calúnia se espalhe.

Isso é lícito e nada tem a ver com a nobre liberdade de comunicação. Qualquer norma legal deve ser interpretada como concebida para proteger direitos e interesses, porém legítimos.

FRANCISCO CÉSAR PINHEIRO RODRIGUES, 74, desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, é membro do Instituto dos Advogados de São Paulo e da Academia de Ciência de Nova York.’



MEMÓRIA / BENTO PRADO JR.
Folha de S. Paulo

Morre aos 69 o filósofo Bento Prado Jr.

‘Morreu na madrugada de ontem, por volta da 1h, o filósofo Bento Prado de Almeida Júnior, 69, um dos nomes mais importantes da disciplina no Brasil. Ele sofria de câncer na laringe havia quatro anos e estava internado na Santa Casa de Misericórdia de São Carlos, no interior de São Paulo.

O pensador foi enterrado na tarde de ontem no cemitério Nossa Senhora do Carmo, em São Carlos, e a reitoria da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), onde lecionava desde 1977, decretou luto oficial por três dias.

Prado Jr., ou Bento, como era chamado pelos amigos e colegas, não deixou que a doença afetasse seu trabalho: só interrompeu as atividades acadêmicas há dois meses. Sua obra, bastante eclética, pode ser dividida em pelo menos cinco grandes áreas de atuação: a história da filosofia, a filosofia da psicanálise, a filosofia da linguagem, a crítica literária e a poesia.

Além da erudição, a ironia e a elegância do estilo foram traços destacados desde cedo pelos colegas em Prado Jr. Muitos o têm como o maior ensaísta da filosofia brasileira.

Seus livros, porém, demoraram a aparecer. Vários escritos dormiram na gaveta por mais de 20 anos até a publicação de ‘Alguns Ensaios: Filosofia, Literatura e Psicanálise’ (Paz e Terra), em 1985.

Sua tese de livre-docência, ‘Presença e Campo Transcendental: Consciência e Negatividade na Filosofia de Bergson’ (Edusp, 1989), foi escrita e defendida 25 anos antes. É anterior ao clássico ‘Le Bergsonisme’ (P.U.F.), que Gilles Deleuze publicou em 1966.

Num momento em que a França revaloriza o legado bergsoniano, ‘Presença e Campo Transcendental’ ganhou versão francesa em 2002, com lançamento no Collège International de Philosophie.

‘O Capital’

Antes disso, Prado Jr. foi um dos membros do famoso seminário sobre ‘O Capital’, de Marx, que reuniu, a partir de 1958, nomes como Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, Paul Singer e Roberto Schwarz, entre outros.

Nascido em Jaú (SP), em 21 de agosto de 1937, cursou filosofia na USP de 56 a 59. Sua curiosidade intelectual, porém, vem de antes. Seu pai era filólogo e tradutor de literatura, além de ser, como dizia Prado Jr., ‘um grande leitor de Pascal’, não por acaso um dos seus pensadores preferidos.

Tornou-se professor de história da filosofia na USP a partir de 1961, até ser cassado pelo regime militar, em 1969. Exilou-se na França. Lá escreveu um ensaio importante sobre a retórica de Rousseau.

Voltou ao Brasil em 1974. Em 77, foi convidado a trabalhar na UFSCar. Também foi colaborador de instituições como a Unicamp, a Unesp e a PUC. Em 1998, recebeu o título de professor emérito da USP.

Sua vida pública começou nos círculos literários da ‘boêmia intelectual’ dos anos 50, quando freqüentava a Biblioteca Municipal e ficou amigo do sociólogo Maurício Tragtenberg e de diretores e atores como Manoel Carlos, Flávio Rangel e Fernanda Montenegro.

REPERCUSSÃO

ANTONIO CANDIDO, crítico literário e professor emérito da faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da USP:

‘Bento Prado Júnior foi uma inteligência poderosa, um espírito profundo e gentil, que nunca se deixou enlevar pela projeção de pensador dentro e fora do país. Era simples, discreto, cheio de humor, muito poético, capaz de olhar o mundo com uma lucidez singularmente revestida de pureza. E não houve amigo mais encantador nem mais leal, como sempre sentimos minha mulher e eu. Mortes como esta diminuem demais a graça da vida.’

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI,

professor emérito da faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da USP:

‘Eu e o Bento sempre estivemos muito próximos, apesar de a gente sempre divergir. Ele foi meu aluno na primeira turma que lecionei, em 1952. Depois nós começamos juntos o ‘Seminário Marx’ e, já naquele momento, nós tínhamos interpretações muito diferentes. Eu sempre puxando para a lógica e ele para a antropologia.’

RENATO MEZAN, psicanalista e colunista da Folha:

‘O que sempre me impressionou no pensamento dele era a elegância; era amável sem nunca perder o rigor. Isso aparecia na forma elegante como construía os argumentos e como usava o humor, de modo refinado.’

RUY FAUSTO, filósofo e professor emérito da USP:

‘Lamento primeiro o indivíduo Bento. Num meio tão violento como a universidade, tinha a característica de nunca jogar bruto. Em segundo lugar, choro o intelectual. Como filósofo, Bento era de primeiríssimo time.

Seu Bergson é um dos primeiros, senão o primeiro livro de filosofia que se escreveu no Brasil. Muito bem pensado, admiravelmente escrito. Bento foi sempre homem de esquerda, mas nunca acreditou em mitologias. Mesmo porque humor é o que não lhe faltava.

Adeus, Bento. Fica a imagem do filósofo de 18 anos, leitor de Sartre e de Trotsky, subindo as escadas do velho edifício da rua Maria Antonia, gravata borboleta e cabelo repartido ao meio…’

OLGÁRIA MATTOS, professora de filosofia da USP:

‘Foi importante pela formação erudita que tinha, com filosofia, literatura, antropologia, poesia -ele lia um texto filosófico com o rigor analítico e ao mesmo tempo com a força poética e retórica das obras. Foi guia espiritual, guia intelectual, trazia luz: ele desmanchava qualquer situação de tensão.

Uma pessoa pura de coração e íntegra de caráter.’ FRANKLIN DE MATTOS, professor do departamento de filosofia da USP:

‘Seu livro sobre o Bergson tem sido muito encarecido na França mesmo. Seus trabalhos sobre Rousseau, que ainda dispersos em revistas, precisam ser reunidos.’

RENATO JANINE RIBEIRO, professor titular de ética e filosofia política da USP:

‘Foi um pensador muito original, que teve um papel importante na formação de muitas pessoas. Manteve sempre bom humor e via a filosofia como algo criativo.’

OSWALDO GIACOIA JR., professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas:

‘Todas as coisas que o Bento fez, as opções políticas, os autores que estudou, a maneira como ele ensinou, foram sempre de uma conseqüência extraordinária.’’

Manuel da Costa Pinto

Pensador inovou escrita

‘‘Uma ilha de literatura cercada de filosofia por todos os lados’. Assim, Paulo Arantes definiu Bento Prado Jr. em ‘Um Departamento Francês de Ultramar’, estudo sobre a formação do curso de filosofia na USP (Universidade de São Paulo).

Citada isoladamente, a frase sugere que Bento Prado Jr. foi menos rigoroso do que acadêmicos voltados para questões conceituais puras. Entretanto, universitários e pesquisadores são unânimes em reconhecer que ele inaugurou uma nova forma de escrever filosofia no Brasil, associando uma tradição conceitual que ajudou a consolidar à herança do modernismo, presente em interpretações de escritores como Drummond e Guimarães Rosa.

Prado Jr. cresceu na convivência com a geração uspiana que entronizou o método estrutural (disciplina de leitura dos clássicos que não deve ser confundida com o estruturalismo dos anos 60). Seu pendor para a literatura introduziu um elemento perturbador nesse ambiente austero.

Isso se devia, em parte, a suas próprias aptidões de poeta bissexto e ao gosto pela vida boêmia -a ponto de ter participado do grupo dos ‘Adoradores de Estátua’, como ficaram conhecidos os estudantes que nos anos 50 transitavam entre a Biblioteca Mário de Andrade e os bares do centro de São Paulo.

Mas também dizia respeito a um tipo de intelectual cujo modelo era Sartre. Tal como este -e na contramão da filosofia ‘técnica’ -, esteve aberto para as formas como a consciência responde a apelos da experiência, algo que a literatura explicita, tornando-se tão importante quanto o estudo das condições do conhecimento.

O admirador de Sartre, porém, não era um ‘discípulo’. Pois se o filósofo existencialista defendia a idéia de que se deve ‘pensar contra si mesmo’, no caso de Bento Prado Jr. isso significou ‘pensar contra Sartre’.

Assim -como explicou em entrevista no livro ‘Conversas com Filósofos Brasileiros’ (ed. 34)-, ele se dedicou a um estudo hoje clássico sobre Bergson, à época lido como antípoda da linhagem sartriana. Essa independência na escolha das referências (que em determinado momento passaram a incluir a psicanálise) nunca o afastaram de questões mais árduas. Exemplo disso é um de seus últimos livros ‘Erro, Ilusão, Loucura’, que discute as diferenças entre ‘necessidade’ e ‘universalidade’ em Wittgenstein.’



CARTUM
Eduardo Simões

Jeremias, o Bom, volta em charges inéditas

‘Jeremias, o carioca, está de mudança para São Paulo. O ‘Bom’, personagem criado pelo cartunista Ziraldo, 74, nos anos 60, vai batizar um bar no bairro da Bela Vista, onde, no dia 20 de janeiro, próximo sábado, acontece o relançamento de um álbum de 1969. O livro compilava charges de Jeremias, publicadas, naquele seu último ano de existência como personagem semanal, pela revista ‘O Cruzeiro’.

A reedição, da editora Melhoramentos, vem com mais páginas do que o original, por conta de mais de dez cartuns inéditos em livro, que Ziraldo na época achou melhor deixar de fora, por conta de seu conteúdo político.

‘Sempre que um personagem meu acabava, eu publicava algumas de suas histórias em livro, para eternizá-lo. Não houve censura prévia por parte dos editores para o álbum do Jeremias. Mas meu temor era colocar aquelas piadas políticas e os livros acabarem sendo apreendidos pela polícia. Aí não teria sentido’, diz Ziraldo à Folha.

O temor do cartunista não era em vão. Cerca de um ano antes da publicação do álbum ‘Jeremias, o Bom’, pela Expressão e Cultura, Ziraldo participou de uma coletânea da mesma editora, chamada ‘Dez em Humor’, que tinha ainda Millôr Fernandes, Jaguar e Henfil, entre outros. O lançamento aconteceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de dezembro de 1968, quando foi editado o AI-5. ‘No dia seguinte eu fui preso em casa’, conta o cartunista, então levado para o Forte de Copacabana, considerado ‘elemento perigoso’.

Nasce um estilo

Jeremias, o Bom, surgiu nas páginas do ‘Jornal do Brasil’, onde foi publicado entre 1965 e 1969, quando migrou para ‘O Cruzeiro’. Ziraldo já assinava uma página dominical de cartuns no jornal, abordando temas diversos do Brasil, mas achava que não tinha tanta repercussão. ‘Faltava um personagem. Como o Amigo da Onça, que era um malandro, fazia sucesso, resolvi criar um anti-Amigo da Onça’, conta Ziraldo, referindo-se à criação de Péricles Maranhão (1924-1961), celebrizada nas páginas daquela mesma revista.

Inicialmente um personagem voltado para a crítica de costumes, Jeremias ‘aderiu’ à política durante as cerca de 20 semanas em que foi publicado, segundo Ziraldo, sem que os editores de ‘O Cruzeiro’ notassem as críticas ao regime militar. A militância de Jeremias acabou causando a demissão do cartunista da revista.

O personagem, diz Ziraldo, inaugurou um estilo que ele voltou a utilizar em outras criações, como a Supermãe e o Menino Maluquinho. Depois de anos desenhando ‘A Turma do Pererê’, o cartunista queria se livrar do que chama de ‘condicionamento’ de seus personagens de histórias em quadrinhos, e criar uma ‘anatomia menos convencional’.

‘O traço do Jeremias era mais moderno, com aqueles pés de ferro elétrico, como dizia o Borjalo’, conta Ziraldo. Espécie de Dom Quixote, como compara Ziraldo em texto de apresentação da nova edição do álbum, Jeremias era flamenguista roxo, aceitava ficar de fora de uma pelada, mesmo sendo o dono da bola, e, dizem, era tão bom, tão bom, que nem causou dor a sua mãe ao nascer. Além desse lado ‘comportamental’, de crítica de costumes, como coloca Ziraldo, o livro apresenta Jeremias em sua curta fase política, quando aparece num festival de música, aplaudindo um cantor parecido com Geraldo Vandré, autor do quase hino ‘Pra Não Dizer que Não Falei de Flores’. E ainda participando de passeata estudantil ou ajudando agricultores nordestinos a assistirem a uma missa clandestina do ex-arcebispo de Pernambuco Dom Hélder Câmara, o ‘bispo vermelho’, como era conhecido.

JEREMIAS, O BOM

Autor: Ziraldo

Editora: Melhoramentos

Quanto: R$ 39 (144 págs.)

Lançamento: dia 20, a partir das 12h (Jeremias, o Bar, r. Avanhandava, 37, Bela Vista, s/tel.)’



TELEVISÃO
Laura Mattos

Band investe em ‘futebol descolado’

‘Com o início do Campeonato Paulista de Futebol, na próxima quarta-feira, a Bandeirantes tenta se firmar novamente como ‘o canal do esporte’.

Desta vez, no entanto, buscará emplacar uma linguagem mais ‘suave’, a fim de atrair telespectadores jovens e de não afastar por completo as mulheres, público no qual vinha investindo fortemente desde que abandonou o futebol, há cinco anos. O conceito é chamado nos bastidores de ‘sport entertainment’, ou seja, ‘esporte entretenimento’.

A emissora fechou acordo com a Globo, detentora dos direitos de transmissão dos principais campeonatos do país, e volta às competições.

Nos últimos dias, sondou o apresentador Milton Neves, da Record, sem sucesso.

Para comentar as partidas, foram contratados os ex-jogadores Neto e Marcelinho Carioca. Luciano do Valle narra a estréia do Paulistão (Santos x Barueri), nesta quarta, a partir das 21h45. Após o jogo, entra no ar o novo ‘Bola no Chão’, com 40 minutos de duração.

Comandado por Nivaldo Prieto, será exibido sempre depois das partidas com a participação de Müller, Marcelinho Carioca, Neto e Valle.

A novela ‘Paixões Proibidas’, que vai mal no Ibope, não deverá ser exibida às quartas.

Na linha mais ‘soft’, estréia no dia 22 o ‘Band Esporte Clube’, apresentado por Luize Altenhofen e Guilherme Arruda (do canal AXN), de segunda a sábado, em horário nobre.

Bonitos e atletas, eles foram convocados para dar um ar ‘descolado’ ao programa.

Além de futebol, o programa terá reportagens sobre comportamento e cobrirá outros esportes, como tênis e basquete. O cenário lembra um loft, moderno apartamento em que não há paredes para separar os ambientes. Televisores de plasmas espalhados pelo chão vão exibir videoclipes, e obras de artistas plásticos farão parte da decoração. Haverá ainda uma nova mesa-redonda aos domingos à noite e outro esportivo diário na hora do almoço.’

Pedro Cirne

Canal Brasil traz 2 curtas de Otto Guerra

‘O Canal Brasil exibe hoje, às 21h, duas animações do cineasta gaúcho Otto Guerra: ‘Cavaleiro Jorge’, de 2000, e ‘Rocky & Hudson’, de 1994. ‘Cavaleiro Jorge’ é um curta-metragem de 14 minutos que mostra uma aventura de são Jorge antes de ele virar santo, quando era apenas um cavaleiro com dúvidas existenciais.

Mais antigo e mais famoso, ‘Rocky & Hudson’ é uma adaptação bem-humorada das histórias em quadrinhos homônimas de Adão Iturrusgarai. São dois episódios: ‘A Pistola Automática do Dr. Brain’ e ‘Pé na Estrada’. Rocky e Hudson são dois valentes caubóis homossexuais que moram juntos e estão sempre à disposição para ajudar o delegado Omar Xerife na luta contra o crime. No primeiro episódio, isso significa enfrentar doutor Brain e sua pistola de controle remoto.

‘Pé na Estrada’, o segundo episódio, destaca-se por não ser uma aventura propriamente dita: não há combates, vilões ou missões heróicas. Apenas Rocky, Hudson, a tia Beti e o cavalo Silverado em uma viagem que se faz durante o caminho: vamos colocar o pé na estrada e ver aonde ela nos levará. Otto Guerra leva a sério o conceito de ‘animação para adultos’. Palavrões, arrotos, menções a sexo, piadas politicamente incorretas… Nada parece ser um empecilho para ele: o que importa é o humor.

MOSTRA OTTO GUERRA

Quando: hoje, às 21h

Onde: Canal Brasil’



RC vs. PLANETA
Folha de S. Paulo

Notificada, editora não pára venda de biografia sobre o Rei

‘A editora Planeta recebeu ontem uma notificação cível pedindo a retirada de circulação, em cinco dias, do livro ‘Roberto Carlos em Detalhes’, biografia do cantor escrita pelo historiador Paulo Cesar de Araújo. Os advogados de Roberto argumentam que houve delitos como ‘invasão de privacidade’.

Pascoal Soto, diretor editorial da Planeta, disse, em comunicado, que os editores estão ‘tranqüilos’ e que continuarão a vender o livro por terem certeza de que publicaram ‘uma obra séria, fruto de um trabalho exaustivo de pesquisa, realizado por um dos mais importantes historiadores da música popular brasileira.’

Araújo disse à Folha que tem ‘fé que o Roberto mude de idéia, quando ler o livro’.

O advogado do cantor, Marco Antônio Campos, afirmou que, se a editora insistir, entrará com uma ação na quarta, pedindo além da interrupção da circulação, uma indenização: ‘Entendemos que, se a editora continua querendo publicar, ela compactua com os ilícitos que estão incluídos nele’.

Na segunda-feira, ele impetrará uma ação penal contra o autor da obra.

A biografia foi lançada em dezembro. Um dos trechos que teriam incomodado o Rei é aquele sobre a doença de Maria Rita.’

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