Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 3 E 4/11

Folha de S. Paulo

06/11/2007 na edição 458

DEBATE PÚBLICO
Carlos Heitor Cony

A pureza da raça

‘RIO DE JANEIRO – Acompanhei por alto a polêmica declaração do Sérgio Cabral a respeito da relação entre explosão demográfica e a onda de violência que atravessamos. Creio que o governador não foi bem entendido. Fizeram de seu comentário o ponto de partida para um tipo de eugenia semelhante à do racismo.

A posição de Sérgio não difere da pregação de diversas religiões, inclusive a católica, que combate o aborto e prega a paternidade responsável. Famílias sem condições de gerar filhos saudáveis, capazes de receber a educação básica da sociedade, deveriam evitar a paternidade por outros meios que não o aborto.

Seria necessário um mutirão colossal na sociedade para que os casais tivessem consciência das reais condições em que vão gerar os filhos. A longo prazo, a taxa da violência diminuiria radicalmente, e a melhora não seria apenas no setor do crime, mas nas relações gerais do indivíduo com a comunidade, na família, na escola, no trabalho.

A solução do aborto, além de envolver uma discussão moral, social e religiosa, está longe de ser uma panacéia salvadora que livraria a sociedade de vários males, o da violência e o da miséria.

Já contei há tempo, neste espaço, o caso de uma mulher na Alemanha no século 18. Com mais de 52 anos, não tinha idade segura para engravidar, mesmo assim engravidou. Era pobre, sofria de tuberculose, tinha hemoptises diárias, fora internada diversas vezes em asilos por distúrbios psiquiátricos.

Um médico examinou-a e solicitou ao Departamento de Saúde Pública de Bonn a licença para interromper a gravidez, que, entre outras coisas, colocava em risco a vida da mãe e do filho.

A licença foi negada. O filho nasceu. Era desconjuntado, surdo, anti-social. Seu nome: Ludwig von Beethoven.’

TELEVISÃO
Daniel Castro

Record troca terroristas por fusão de ‘Machos’ com ‘Lobas’

‘A próxima novela das dez da Record será uma fusão da chilena ‘Machos’ com a inédita ‘As Lobas’, de Lauro César Muniz. A primeira é um painel do machismo latino. A segunda, uma história de mulheres independentes, em busca de afirmação e em crise de meia-idade.

A fusão de ‘Machos’ com ‘As Lobas’ é, na verdade, um ‘plano B’. Muniz queria que a substituta de ‘Caminhos do Coração’ fosse uma novela sobre o envolvimento acidental de uma brasileira com o grupo terrorista Al Qaeda, que planejou os atentados de 11 de setembro.

‘A idéia é atraente. Narra as conseqüências dessa relação, com desdobramentos no Brasil. Ficção pura, mas apoiada em pesquisas’, diz Muniz. A cúpula da Record, porém, avaliou que a trama ficaria melhor em uma minissérie. E a engavetou.

A fusão de ‘Machos’ com ‘As Lobas’ será ambientada no Rio.

A trama central de ‘Machos’, marco da telenovela chilena, gira em torno de Ângelo, um homem espartano, capaz de tudo para que seus sete filhos se tornem ‘verdadeiros machos’. Seu lema é ‘sejam duros, sejam homens’. Mas cada um desses sete filhos, com seus dramas, tenta fugir ao controle do patriarca. Nessa busca, eles cruzam com as personagens ‘feministas’ de ‘As Lobas’.

Entre elas, haverá uma mulher de 45 anos, Laura Orlin, presa a um casamento com um homem que dissimula seu machismo (ao contrário dos ‘machos’). A partir da descoberta da traição, ela traçará um novo rumo para sua vida.

OS ‘FOFOS’ DA TV CULTURA

No ar há menos de um mês, a dupla Gabriela França, 17, e João Victor D’Alves, 26 (‘mas com cara de 18’), são os novos queridinhos da TV Cultura. Eles apresentam o criativo ‘Pé Na Rua’, com dicas culturais e comportamento para adolescentes. A atração, com apenas dez minutos (às 12h30 e às 19h20), já alcançou picos de três pontos, um feito para a Cultura. Gabriela já é bem conhecida de seu público. Até pouco tempo atrás, era a Gabi da ‘Patrulha Nick’ (Nickelodeon). João Victor também é um ‘veterano’. Começou na TV Cultura há 19 anos, em ‘Rá-Tim-Bum’. Hoje ator e jornalista, quer investir em teatro e se diz encantado pela arte de rua. ‘Tem uns caras pintando em bueiros’, conta. Gabi vai prestar vestibular e quer ser apresentadora de telejornal.

NO TEMPLO DA MACONHA

Famosa pelo seriado ‘Três É Demais’, em que revezava no mesmo papel com a irmã gêmea, Ashley, a atriz Mary-Kate Olsen (foto), 21, é uma das novidades da terceira temporada de ‘Weeds’, no ar a partir de amanhã no canal GNT (23h30). A loirinha anoréxica marca seu retorno à TV interpretando Tara Lindman, uma garota cristã que vive em uma comunidade religiosa nas imediações da fictícia Agrestic. Ela se torna a nova paixão de Silas (Hunter Parrish), filho de Nancy (Mary-Louise Parker), a viúva que virou traficante de maconha para sustentar a família. A série cult explora os conflitos entre uma sociedade conservadora e uma família fora do padrão. A certinha personagem de Mary-Kate logo se vê nesse ambiente -e queimando um baseado.

ESTRELAS 1

A Globo já definiu quase todo o elenco dos especiais que irá testar no fim de ano. O interativo ‘Faça sua História’ terá Mariana Ximenes, Malvino Salvador e Ney Latorraca, entre outros.

ESTRELAS 2

Já Deborah Secco, Daniel-le Winits, Marcos Pasquim, Daniele Valente e Rodrigo Faro estarão em ‘Guerra e Paz’, de Carlos Lombardi.

ESTRELAS 3

Escrito por Marcius Melhem, ‘Casos e Acasos’ contará com Danton Mello, Thiago Fragoso, Antonio Calloni, Francisco Cuoco, Taís Araújo e Humberto Martins.

MAU EXEMPLO

Apresentador do ‘Viagem ao Centro do Brasil’, programa exibido pela MTV, o cantor Otto apareceu na edição desta semana dirigindo sem cinto de segurança e com uma cerveja na mão.

Pergunta Indiscreta

FOLHA – Você convidaria Zeca Baleiro para o ‘Caldeirão’ depois que ele escreveu na Folha que você não deveria ter reclamado publicamente do assalto do Rolex?

LUCIANO HUCK (apresentador) – O ‘Caldeirão’ é um programa popular. Toca o que as pessoas querem ouvir. O dia em que Zeca Baleiro compuser ou cantar uma canção que faça sucesso, terei muito prazer em convidá-lo.’

Laura Mattos

Ex-BBB, Jean volta à TV e faz ‘Friends’ gay na internet

‘‘Eu não sou mais um nesse mar de ex-BBBs que querem ter um programa de TV. Não quero apresentar o ‘TV Fama’.’ A frase apimentada é de Jean Willys, vencedor do ‘Big Brother Brasil’ 5, o que revelou também Grazi Massafera, a ex-miss que virou atriz. E, para quem não sabe, foi Siri, a loira caipira e ex-BBB 7, que passou a fazer bico como apresentadora do ‘TV Fama’, na Rede TV!.

Mas vamos ao Jean Willys, protagonista de um dos poucos momentos construtivos do ‘Big Brother Brasil’ -ele foi escolhido vencedor pelo público após se assumir gay ao vivo.

Professor universitário e jornalista, Jean, 33, apresentará um programa sobre a cultura do universo GLS no Canal Brasil, o primeiro do gênero na TV brasileira. O nome escolhido: ‘Armário Embutido’. ‘Estamos todos relacionados ao armário. Ou dentro ou fora dele. O programa, apesar de voltado à comunidade GLS, é para qualquer pessoa inteligente’, diz.

Será dirigido e co-apresentado pelo veterano ator e cineasta Luiz Carlos Lacerda, conhecido por Bigode, 62 (‘For All’).

Para dar uma idéia do formato, Jean, que também é roteirista do programa, conta como ficou o piloto (teste), que acaba de ser finalizado -a estréia é prevista para março. ‘Fizemos uma entrevista com Edwin Luisi sobre a peça em que interpreta o travesti Charlotte Von Mahlsdorf, que sobreviveu às ditaduras nazista e comunista na Alemanha. Há também reportagens sobre as paradas, Aids, miss Brasil gay e Rogéria.’

Paralelamente ao ‘Armário Embutido’, Jean trabalha no projeto de uma programação de televisão para o site da revista ‘G Magazine’, a ‘Playboy’ dos gays. Colunista da publicação, ele desenvolve o roteiro de uma série de teledramaturgia. ‘Seria uma espécie de ‘Friends’ gay’, diz, referindo-se à famosa série (1994-2004) sobre um grupo de amigos de Nova York.

Segundo o ex-BBB, o seriado não será erótico e muito menos pornográfico, a exemplo de parte do conteúdo do site. ‘É para mostrar a convivência de um grupo de amigos gays. Nada mais diferente de um gay do que outro gay’, filosofa Jean.

Em busca de patrocínio, o projeto da GTiVi, a web televisão da ‘G Magazine’, prevê ainda um programa jornalístico, do qual ele também seria roteirista e possivelmente apresentador, e um reality show.

De acordo com ele, se o ‘Friends’ gay for bem sucedido na web, há planos de tentar levá-lo para algum canal pago.

Ana Maria Braga

Quando levou o prêmio de R$ 1 milhão do ‘BBB’, em 2005, Jean foi convidado pela Globo a trabalhar como roteirista e repórter do ‘Mais Você’, de Ana Maria Braga. Após um ano e meio, pediu demissão. O motivo, segundo ele, foi o ‘pouco espaço’ que tinha para veicular suas reportagens, o que atribui a uma suposta insegurança da apresentadora. ‘Quando entrei no ‘Mais Você’, tinha acabado de vencer a mais vista das edições do ‘BBB’. Além do carisma e da enorme popularidade, principalmente entre mulheres, gozava de prestígio por ser jornalista e professor universitário. Acredito que essas características assustaram a Ana e a deixaram insegura em relação à minha presença no programa.’

Sobre a declaração, Ana Maria enviou à Folha, por e-mail, o seguinte comentário: ‘Sempre recebi Jean Willys de braços abertos no meu programa. No tempo em que esteve no ‘Mais Você’, ele colaborou bastante conosco. E, para falar a verdade, nem sei por que saiu.’’

Luciana Coelho

‘Daily Show’ escracha política americana

‘Tão logo sentou-se na cadeira de entrevistada, Lynne Cheney (a mulher do vice-presidente americano) sacou um boneco do vilão Darth Vader e o pôs, sorridente, na mesa do apresentador. Era uma alusão ao apelido e à fama de nefasto de Dick Cheney, diariamente lembrada pelo sujeito à sua frente. Em seguida, fala da homossexualidade da filha, tabu total. Quem consegue tal comportamento inédito é o comediante Jon Stewart, cujo ‘Daily Show’ a Sony começa a exibir semanalmente nesta terça.

Prestes a completar 45 anos, oito deles à frente do programa, Stewart acumula prêmios Emmys, convites das grandes redes abertas americanas (que recusa, dizendo que no pequeno canal a cabo Comedy Central tem mais liberdade), um best-seller (‘America’, 2004) e a apresentação do Oscar.

Mas nenhum de seus feitos é tão impressionante quanto o fato de pesquisas em 2004, ano da segunda eleição de George W. Bush, terem mostrado que seu programa se tornara a principal fonte de informação política para americanos com menos de 30 anos. Afinal, trata-se de um programa de humor.

Feridas americanas

Poucos, no entanto, foram tão hábeis em unir política, informação e risadas. Aqui, mesmo sendo tão vasta nossa seara de humor político, não há correlatos. O que Stewart faz é engraçado e também sério. Suas entrevistas são tão despudoradas em cutucar feridas da pudica sociedade americana que acabam produzindo resultados como o que inicia este texto.

Para o público médio americano, acostumado a poucos matizes, ele é necessário. Seu programa cobriu as eleições de 2004 melhor do que qualquer outro, sob a irônica vinheta de ‘Indecisão 2004’. Para a Guerra do Iraque, seus afiados roteiristas saíram com ‘Mess-on-Potamia’, um trocadilho com o nome da região e a palavra ‘mess’, bagunça.

Como escada para Stewart, há um time de humoristas de primeira linha que atuam como ‘correspondentes’. Já partiram para carreiras solo Steve Carrell, que hoje protagoniza a versão americana de ‘The Office’, e Stephen Colbert, que encarnou um conservador espumoso de raiva em seu ‘Colbert Report’, exibido nos EUA logo após o ‘Daily Show’. Difícil é saber se um programa como esse vai ‘vingar’ aqui.

Afinal, são piadas sobre política americana e internacional, nem sempre fáceis de entender sem o contexto. A Sony optou por exibir a edição internacional do programa, que é semanal e não diária -ela seria mais ‘digerível’ para quem não lê o ‘New York Times’.

Mas é também a versão que corta as engraçadíssimas pseudo-reportagens que desnudam a estupidez de alguns americanos sem nenhuma necessidade de contextualização política, muito antes de Borat existir.

DAILY SHOW

Onde: Sony (ter., 22h30)’

Bia Abramo

Vila Sésamo segue em forma aos 38 anos

‘DE INÍCIO , a gente pode até desconfiar que ‘Vila Sésamo’ ficou, de alguma maneira, obsoleta.

Mesmo que se olhe apenas o universo dos programas infantis educativos, aconteceu muita coisa dos anos 70, quando foi exibida a primeira versão brasileira da ‘Vila Sésamo’, para cá. A idéia de que tudo que se apresenta para as crianças deve auxiliar o processo de aprendizagem se disseminou por toda a parte.

Muitas vezes, é claro, entre o impulso educativo e a competência para realizá-lo há um abismo que ora é preenchido por tatibitate moral, ora por um despejar de informações sem lá muito sentido.

De qualquer maneira, a noção está bem incorporada em boa parte do que se produz para crianças -menos na publicidade, é claro, que parece sempre se conduzir na direção oposta, ou seja, apostando na deseducação.

Há um canal inteiro, por exemplo, na TV fechada, é verdade, dedicado a desenhos e programas com preocupações educativas. Até mesmo uma apresentadora como a Xuxa teve de abandonar a sua incitação histérica à ‘alegria’ infantil e optar por esquetes e brincadeiras de teor mais pedagógico.

E, claro, muita coisa se inspirou em ‘Vila Sésamo’, de maneira que ver ‘Vila Sésamo’ em 2007 poderia soar, de alguma forma, velho ou repetitivo, se não fosse o carisma dos bonecos criados por Jim Henson. Mesmo depois que a técnica se espalhou e inspirou outros tantos personagens-bonecos, eles são incrivelmente atraentes, engraçados e empáticos.

Nesta versão brasileira, a característica se manteve -o novo Garibaldo amarelo (o dos anos 70 era azul) e sua amiga rósea, Bel, criada especialmente para o Brasil, estão à altura do Ênio e do Beto, de Caco, o Sapo e do Come-Come. E, é claro, a favor de ‘Vila Sésamo’ também joga a longevidade do programa: seus 38 anos de experiências testadas e retestadas funcionam como um selo de qualidade.

Ao mesmo tempo, ele tornou-se mais multicultural e moderno, mostrando, por exemplo, imagens de família de várias origens étnicas e possibilidades de composição (uma mulher e uma criança, dois homens e uma criança e assim por diante). O reparo vai para os horários escolhidos pela TV Cultura para exibição, 8h30 e 14h, nos dois casos talvez cedo demais para deixar as crianças começarem a assistir televisão.’

LITERATURA
Luiz Fernando Vianna

Editora plagiou traduções de clássicos

‘Em negociação para ter 75% de suas ações compradas pela Objetiva, braço brasileiro do poderoso grupo espanhol Santillana/Prisa, a Martin Claret é uma editora que já plagiou traduções. Os nomes dos verdadeiros tradutores foram omitidos e seus direitos, violados.

Criada nos anos 70, em São Paulo, pelo gaúcho Martin Claret, a empresa tem em seu catálogo cerca de 500 títulos de domínio público (de escritores mortos há mais de 70 anos) publicados em formato de bolso (preços de R$ 10,50 a R$ 18,90). Quatro casos de plágio estão confirmados: edições de ‘Os Irmãos Karamazov’, ‘A República’, ‘As Flores do Mal’ e de três novelas de Franz Kafka reunidas num único volume-’A Metamorfose’, ‘Um Artista da Fome’ e ‘Carta a Meu Pai’.

Lançada em 2003, a edição de ‘Os Irmãos Karamazov’, de Fiodor Dostoievski (1821-1881), tem como tradutor um certo Alexandre Boris Popov, que não consta entre os poucos nomes que costumam passar obras do russo para o português. Na verdade, é cópia da tradução concluída em 1944 por Boris Schnaiderman para a extinta editora Vecchi.

As versões são praticamente idênticas. Apenas algumas expressões foram trocadas pela Martin Claret, como ‘muito encontradiço’ por ‘bastante freqüente’ na primeira página. Schnaiderman, um dos maiores especialistas em literatura russa do país, assinou o trabalho com o pseudônimo de Boris Solomonov e o renega.

‘Eu era muito novo, precisava de dinheiro e cometi uma leviandade. Fiz o que podia na ocasião, mas minhas condições eram limitadas’, diz ele, que, aos 90 anos, não pensa em processar a Martin Claret. ‘Na minha idade, quanto menos complicação, melhor’, justifica.

Ele foi alertado do plágio pela editora 34, que pretendia lançar sua tradução, mas, diante da recusa, encomendou uma a Paulo Bezerra para 2008.

Coincidência impossível

‘A República’, de Platão (428/27 a.C. – 347 a.C.), saiu neste ano pela Martin Claret com tradução assinada por Pietro Nassetti. O repórter Euler de França Belém mostrou na edição de 14 de outubro do jornal ‘Opção’, de Goiânia, que o texto é uma ‘adaptação’ -com mudanças de palavras para ficar mais ‘acessível’- da tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, uma das maiores especialistas portuguesas em Grécia Antiga.

A Folha confrontou os dois livros e comprovou que as diferenças são insignificantes, coincidência impossível no caso de uma tradução tão complexa. O livro da Fundação Calouste Gulbenkian foi lançado em Portugal em 1972 e está na 10ª edição. Procurada, a fundação não comentou o assunto.

No caso de ‘As Flores do Mal’, outro lançamento de 2007 assinado por Nassetti, foi o poeta e tradutor Ivo Barroso quem apontou o plágio num artigo na revista virtual ‘Agulha’. A edição copiada é de 1958, da série Clássicos Garnier, da Difusão Européia do Livro, com os versos de Charles Baudelaire (1821-1867) traduzidos pelo poeta paulista Jamil Almansur Haddad (1914-1988).

‘É impossível haver identidade absoluta entre todos os versos de um poema. O máximo são dois versos iguais. Mas as únicas mudanças feitas foram de palavras difíceis por outras de mais fácil compreensão, e ainda alterando a métrica e a rima’, explica Barroso, tradutor da poesia completa de Rimbaud. Herdeiros de Haddad não foram encontrados pela Folha.

Tradução 24 horas?

Em 2000, respondendo a uma intimação judicial da Companhia das Letras, a Martin Claret reconheceu ter usado uma parte das traduções de Modesto Carone para três novelas de Kafka (1883-1924): ‘A Metamorfose’, ‘Um Artista da Fome’ e ‘Carta a Meu Pai’.

Indenizou Carone e retirou de circulação o livro, que tinha como tradutores Nassetti e Torrieri Guimarães.

A nova edição, de 2007, é assinada só por Guimarães, um jornalista de 74 anos que fez várias traduções de Kafka para a editora Hemus e de outros autores para a Martin Claret.

Um caso menos grave é o da editora Hedra, que reconheceu notas de sua versão de ‘Metamorfoses’, de Ovídio, nas da Martin Claret.

Como a tradução e a maioria das notas são do poeta português Bocage (1765-1805), que já está em domínio público, descartou-se medida judicial.

Suspeita-se que muitos outros livros da Martin Claret usem traduções plagiadas, já que poucos e desconhecidos nomes -como Alex Marins e Jean Melville- assinam um arco eclético de títulos.

Pietro Nassetti teria traduzido Shakespeare, Maquiavel, Descartes, Rousseau, Voltaire, Schopenhauer, Balzac, Poe e outros.

‘Se esse cara trabalhasse 24 horas por dia durante 60 anos, não traduziria nem a décima parte disso’, afirma o especialista Ivo Barroso.

Segundo o artigo 184 do Código Penal, os plagiadores estão sujeitos a detenção de três meses a um ano. Na área cível, podem arcar com danos morais e materiais.’

Claret admite dois plágios, mas nega um

‘Martin Claret completará 80 anos em fevereiro. Gaúcho de Ijuí, diz que chegou a São Paulo nos anos 60 e trabalhou, entre outros ramos, na indústria automobilística antes de criar, na década seguinte, a editora com seu nome.

‘A dificuldade era grande, tínhamos poucos autores e enveredamos para o livro de domínio público em formato pocket’, diz.

Em conversa por telefone com a Folha nesta semana, Claret assumiu ter indenizado Modesto Carone por causa das traduções de Kafka: ‘Acertamos tudo’. Reconheceu também a cópia de ‘A República’, mas, ao contrário do que afirmara ao jornal goiano ‘Opção’, não culpou Pietro Nassetti.

‘Eu estou assumindo a responsabilidade. Se tiver que ressarcir alguém, estamos dispostos a ressarcir. Se houver um erro, estamos dispostos a corrigir. Talvez possa ter havido alguma ingenuidade nossa, falta de habilidade profissional’, justifica.

Apesar dos indícios, Claret negou que sua edição de ‘As Flores do Mal’ seja plágio: ‘Não houve nada’. E disse ‘não estar a par’ do caso de ‘Os Irmãos Karamazov’.

O editor afirmou que Pietro Nassetti era o tradutor dos vários livros em que aparece seu nome. ‘Ele precisava, trabalhava bastante’, disse Claret, pouco antes de pedir o telefone do repórter para ligar depois, o que não aconteceu.

De acordo com mensagem deixada por uma filha de Nassetti num grupo de discussões da internet, seu pai morreu em janeiro de 2005, ‘nunca foi um tradutor fantasma’ e pode ter sido prejudicado por erros de revisão da editora. A Folha localizou outra filha, mas ela desligou o telefone enquanto o repórter falava. Foram deixados dois recados, mas não houve resposta.’

Objetiva diz que reavaliará negócio, mas quer dar ‘benefício da dúvida’

‘Em 24 de setembro, Objetiva e Martin Claret divulgaram nota informando que tinham assinado um protocolo de intenções. Se uma auditoria não encontrasse obstáculos, a primeira editora compraria 75% das ações da segunda, talvez ainda neste ano.

‘A auditoria estava avançando bem, mas agora a gente vai considerar essa questão. É um fato novo, relevante’, disse à Folha Roberto Feith, editor da Objetiva, ao ser informado dos casos de plágio das traduções da Martin Claret.

Feith contou que, depois do anúncio da carta de intenções, recebeu telefonema de um outro editor alertando-o de que poderia haver problemas com traduções da Martin Claret.

‘Conversei com o Claret e ele me disse que, se problemas existissem relativos ao passado, assumiria plena responsabilidade, honraria os compromissos no sentido de pagar o que tivesse de ser pago, sanearia a questão. Acho que o senhor Claret é um homem sério e acredito que ele vá fazer isso. Quero dar o benefício da dúvida’, afirmou Feith.

Invasão espanhola

A Martin Claret está no entroncamento de dois processos em curso no mercado editorial brasileiro. Um deles é a invasão de fortes grupos estrangeiros, em especial espanhóis.

O Santillana/Prisa, proprietário do maior jornal da Espanha, o ‘El País’, entrou em 2001 no Brasil comprando, por R$ 150 milhões, a Moderna, uma das maiores no setor de livros didáticos.

Também adquiriu a Salamandra, originalmente voltada para livros infantis, e em 2005 arrematou 75% da Objetiva por R$ 20,3 milhões.

O Brasil já responde por 15% do faturamento do grupo, sendo seu terceiro mercado -atrás de Espanha e México. Os investimentos feitos aqui estão na casa dos R$ 250 milhões.

O também espanhol Planeta, um dos dez maiores grupos do mundo, lançou há quatro anos uma editora com seu nome no Brasil, fazendo lances ousados como a retirada do best-seller Paulo Coelho da editora Rocco. Entre seus autores, estão o colunista da Folha Carlos Heitor Cony, Fernando Morais e Mario Prata.

Bolso

O outro processo é o do aumento das vendas de livros de bolso. O segmento é liderado pela editora gaúcha L&PM, que em dez anos vendeu cerca de 7 milhões de exemplares de seus quase 700 títulos.

A Companhia das Letras publicou 73 desde 2005, e a Record estreou em setembro passado com 24.

‘A Martin Claret nos permitiria entrar nesse mercado com uma escala ampla de distribuição, pois tem 2.400 pontos de exposição. O que nos motivou foi essa possibilidade de ter de pronto uma estrutura voltada para esse nicho’, explicou Roberto Feith.’

ENTREVISTA / ZÉLIA GATTAI
Luiz Francisco

Depois que Jorge se foi, não há nada que me assombre

‘Zélia Gattai, 91, diz não temer a morte. E afirma que prepara o 17º livro da carreira. Depois de várias internações neste ano, a viúva de Jorge Amado (1912-2001) interrompeu o trabalho. ‘Estou escrevendo, mas é um segredo. Quando estiver totalmente recuperada, volto ao computador’, disse à Folha na última terça.

Na sala do apartamento de Zélia em Salvador, tudo lembra Jorge Amado. São fotos, quadros, ilustrações, livros traduzidos em 50 idiomas e até o cachorro Fadul Abdala, nome de personagem criado por Amado em ‘Tocaia Grande: A Face Obscura’ (1984). No centro de uma mesa, o busto do escritor baiano mais conhecido, marido de Zélia por 56 anos. É nesse cenário de recordações que a escritora tenta enfrentar os problemas de saúde.

Desde janeiro, Zélia já foi internada dez vezes. Sentada em uma cadeira de rodas e inalando oxigênio, ela conversou com a reportagem por quase duas horas. ‘Não tenho medo da morte. Depois que Jorge Amado se foi, não há nada que me assombre’, disse. Durante a entrevista, ela ficou ao lado da filha Paloma, que pediu à Folha que evitasse temas que pudessem emocioná-la.

FOLHA – O que é viver para a senhora sem Jorge Amado?

ZÉLIA GATTAI – Desde a morte de Jorge, há um vazio, uma ausência muito grande em minha vida. Eu sonho muito com Jorge Amado. No mês passado, quando estava internada, queria sair logo do hospital, mas os médicos não me davam alta. Então, sonhei que estava em um local com muita palha. Uma mão se mexia, era uma mão muito gelada, era a mão de Jorge Amado. Então, falei assim: ‘Jorge, se você estiver me ouvindo, me leve, você já conhece tudo aí, está com os nossos amigos, quero ficar com você’.

FOLHA – Então, a senhora não tem medo da morte?

ZÉLIA – Claro que não tenho medo da morte. Depois que Jorge se foi, não há nada que me assombre.

FOLHA – A senhora sempre disse que o casamento com Jorge Amado foi perfeito. Vocês nunca brigaram, nunca tiveram crises?

ZÉLIA – Nunca briguei com ele. O que havia em nossa convivência era graça, cumplicidade, amor e respeito. E, seis anos após a sua morte, ainda o vejo todos os dias. No começo deste ano, quando estava novamente na cama de um hospital, senti uma mão tocando o meu tornozelo, subindo levemente até a panturrilha. Aí, sem que nada mais acontecesse, a sensação foi interrompida. Contei o que senti para o [escritor] João Ubaldo [Ribeiro], que também estava internado no mesmo hospital. E ele me respondeu: ‘Zélia, a mão não era do Jorge. Se fosse, ela não se contentaria em parar na panturrilha’.

FOLHA – Jorge Amado era então muito namorador?

ZÉLIA – Quando conheci o Jorge, ele era muito respeitador, não era daqueles rapazes que vão metendo a mão (risos). Depois, a nossa convivência evoluiu muito. Sempre nos amamos muito. Na casa onde moramos por quase 40 anos, no Rio Vermelho, a gente acordava muito cedo para caminhar de mãos dadas pelo jardim. E, todos os dias, ele me falava a mesma coisa: ‘Quando eu morrer, quero ficar por aqui [as cinzas do escritor foram depositadas ao lado de uma árvore da casa]’.

FOLHA – A senhora lembra com carinho dessa casa, mas o imóvel está hoje com péssima aparência e problemas de infra-estrutura. O que a senhora sente quando vai à casa?

ZÉLIA – Fico com o coração apertado em ver como está a casa que é um pedaço da minha vida. É uma pena que tudo isso tenha acontecido.

FOLHA – A senhora acha que falta vontade política para concretizar o sonho da família, que é a montagem do memorial Jorge Amado?

ZÉLIA – Acho que a situação deveria estar resolvida há muito tempo. Nós não pedimos verba para o governo. Nós elaboramos um projeto com base na Lei Rouanet. Entramos com um pedido de R$ 3,5 milhões e só conseguimos a liberação de R$ 150 mil para captarmos com empresas interessadas no financiamento. É evidente que esse dinheiro não é suficiente.

Depois, a Petrobras, que tinha demonstrado interesse na restauração, recuou. Mas agora as coisas parecem que estão caminhando. Como algumas pessoas dizem, parece que a gente não fez nada na casa depois que Jorge morreu, o que não é verdade. Nos últimos quatro anos, investimos quase R$ 600 mil na montagem do projeto do memorial e em reformas.

FOLHA – A Fundação Casa de Jorge Amado, que abriga todo o acervo deixado por seu marido, também atravessa grave crise financeira.

ZÉLIA – Pois é, houve um corte de verbas muito grande e os dirigentes da fundação foram obrigados a tomar medidas para conter as despesas, , mesmo que isso significasse colocar em risco o acervo deixado por Jorge. Mas não perco a esperança.

Recentemente, minha filha [Paloma] recebeu ligação de Fátima Mendonça [mulher do governador da Bahia, Jaques Wagner] dizendo que as coisas vão melhorar. Devemos muito ao João Ubaldo Ribeiro, muito passional, que levantou a bandeira da restauração.

FOLHA – Neste ano, a senhora perdeu um dos maiores amigos da família Amado, o senador Antonio Carlos Magalhães. A senhora acha que ele faz falta à Bahia?

ZÉLIA – Claro que faz falta. Antonio Carlos Magalhães foi um grande político, uma pessoa que sempre colocou os interesses da Bahia à frente de tudo.

FOLHA – Como a senhora avalia os dez primeiros meses da administração do governador Jaques Wagner?

ZÉLIA – O tempo é curto demais para qualquer avaliação. Mas existe uma esperança muito grande para que o governador melhore a vida dos baianos.

FOLHA – Qual a opinião da senhora sobre o governo do presidente Lula?

[Paloma não deixa a mãe responder e diz: ‘Vamos mudar de assunto para ela não ficar cansada. Os médicos me recomendaram muito repouso para ela se recuperar rapidamente’.]

FOLHA – Tirando Jorge Amado, quais os seus escritores preferidos?

ZÉLIA – Érico Veríssimo e João Ubaldo Ribeiro.

FOLHA – Depois da morte de Jorge Amado, a senhora releu livros dele?

ZÉLIA – Reli toda a obra e, cada vez, fico mais encantada com a sua forma simples de escrever, a facilidade que ele tinha para contar as histórias do povo, das pessoas humildes, da Bahia.

FOLHA – Quais os livros de Jorge Amado que a senhora mais admira?

ZÉLIA – ‘Capitães da Areia’ (1937) e ‘Tenda dos Milagres’ (1969) são fundamentais.

FOLHA – Como se conheceram?

ZÉLIA – Quando o conheci, já tinha lido uns dez livros dele e era admiradora de sua obra. Houve um comício no estádio do Pacaembu para comemorar a liberdade de Luiz Carlos Prestes [1898-1990, militar e líder comunista brasileiro]. Quando Jorge soube do comício, resolveu participar das comemorações, mesmo proibido de sair da Bahia sem permissão das autoridades. Eu estava no meio de milhares de pessoas quando ouvi: ‘Jorge Amado está aqui, Jorge Amado vai participar do comício’. Pouco tempo depois, vi um rapaz magro sendo cumprimentado por todo mundo.

FOLHA – Mas como a senhora se aproximou dele?

ZÉLIA – Foi incrível. No meio de tanta gente, ele pôs os olhos em mim e falou: ‘Você vai trabalhar comigo’. Tremi de emoção. Depois, ele me pediu para datilografar um telegrama, e eu disse que não sabia datilografia. Ele respondeu: ‘Você não sabe escrever à máquina? Que moça mais inútil (risos)’.

FOLHA – E o que aconteceu depois?

ZÉLIA – Como ele viu que eu não sabia datilografia, passei a colaborar com a organização do comício. Mas, no dia seguinte, eu me matriculei em uma escola e, em pouco tempo, escrevia com rapidez. Aí, cheguei para ele e disse: ‘Jorge, vou lhe ensinar datilografia porque você escreve só com dois dedos (risos)’.

FOLHA – E o namoro, como começou?

ZÉLIA – Como dizem os jovens, rolou um clima entre nós. Um dia, Jorge Amado me convidou para ir a um jantar em homenagem ao poeta Pablo Neruda (1904-1973). Após a confraternização, ele foi levar o Neruda ao hotel e me deu uma carona. Jorge nunca dirigiu na vida, então fomos de táxi. Em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, ele pediu para o motorista parar o táxi e comprou uma lata enorme cheia de cravos vermelhos e os atirou em mim. Tomei um banho de cravos, dos pés à cabeça, fiquei toda molhada. Esse foi o começo de uma vida em comum que durou 56 anos.

FOLHA – Além das fotografias, o que mais faz a senhora se lembrar de Jorge neste apartamento?

ZÉLIA – Tenho um quadro que ganhamos do Di Cavalcanti (1897-1976) que me lembra muito o jeito irreverente do Jorge. Você pode não acreditar, mas esse quadro foi trocado por um cachorro. O Di Cavalcanti ligou para o Jorge e propôs a troca. Ele ficou tão satisfeito com o negócio que veio pessoalmente trazer o quadro.

FOLHA – Na literatura brasileira, a senhora apontaria algum escritor com estilo parecido ao de Jorge Amado?

[Paloma não deixa a mãe responder: ‘Acho que essa pergunta não deve ser feita, porque ela está lendo pouco ultimamente por causa dos problemas de saúde’.]

FOLHA – A senhora tem planos para escrever um novo livro?

ZÉLIA – Estou escrevendo, mas é um segredo. Tive de interromper os trabalhos por causa da saúde. Mas, quando estiver totalmente recuperada, volto ao computador.’

 

COPA 2014
Francisco Alambert

Uma idéia no lugar

‘Paulo Coelho, Dunga, Ricado Teixeira, dona Marisa, Aécio, Martha Suplicy, Lula e Globo. Vai ter tanta simbologia assim em Zurique!

Para a alegria da galera e o deleite dos empresários e empreiteiros nacionais, a tropa da elite da nação trouxe a Copa de volta. Era o que precisávamos para acreditar que a modernidade nos deu uma segunda chance e que seremos amanhã a China que fomos anteontem.

O mito JK renascido em FHC e transmutado em Lula reviverá no mesmo Maracanã construído pelo sonho desenvolvimentista.

Com o milagre de Dunga (jogador cascudo que num passe de mágica se fez ‘professor’ da maior seleção que este país terá) e a fé refeita no progresso dessa terra em que o Cristo Redentor é uma das maravilhas do mundo, o anjo vingador mudará a história.

Teremos a vingança de 1950, aquele momento em que o Brasil ia dar certo, mas perdeu a Copa por ‘culpa’ de um brasileiro pobre, negro e de codinome Barbosa. O mago Paulo Coelho e o ‘baixinho’ (ah, as maravilhas da proximidade) Romário -este o mago dos pequenos espaços (e das negociatas vascaínas) e craque globalizado- estavam lá para garantir que a mágica será completa.

Pelé não estava lá, mas você há de convir que ele é meio ‘modernista’ demais (digamos que restará como uma das relíquias do getulismo). Nunca antes na história deste país o nacionalismo foi tanto uma idéia no lugar.

Desde o ‘gente que faz’ tucano, passando pelo brasileiro que não desiste, pelas minisséries da Globo, pela alegria de Galvão Bueno, pelos índices em alta do Banco Central, pelos índices em baixa de criminalidade do governo paulista (sempre tão questionados, mas quem se importa?), pelo sucesso de Kaká e dos ronaldos, até a retomada do cinema ‘de qualidade’: passadas as privatizações, voltamos a aceditar em nós mesmos de tal maneira que até empresários andam sacando a honra da nação para deter uma certa ‘invasão espanhola’.

Mas quem somos nós? O livro ‘A Cabeça do Brasileiro’ [de Alberto Almeida, ed. Record] e a revista ‘Veja’ nos mostram que somos dois.

A elite educada é democrática (não sei se Luciano Huck fez faculdade, mas ele é educadinho e democrata), e o povo é um poço de atraso e preconceito (seria o caso de Ferréz, que é escritor, mas não fez faculdade, e escreve o que passa na cabeça de gente ignorante e bárbara) -e a esquerda não sabe de nada disso.

Andam nos dizendo todos os dias que o péssimo salário dos professores não tem nada a ver com a péssima qualidade de ensino. Até o diretor de ‘Tropa de Elite’ [José Padilha] jura que pobreza não tem nada a ver com violência. A realidade é mais ‘complexa’.

Mas o que é ‘realidade’ para a elite e para a tropa? Uma pesquisa mundial da consultoria Nielsen mostrou que o Brasil (ao lado das Filipinas) é o país que mais acredita no que a publicidade diz que as coisas são. Somos fanáticos fundamentalistas da imagem manipulada: acreditamos nos comerciais assim como os talebãs acreditam em Alá.

Segundo a pesquisa, o ‘consumidor’ brasileiro acredita mais na referência vinda da TV do que na de um amigo. Nossa cordialidade foi transferida para o departamento de marketing. A propaganda é o ópio da tropa e da elite (a pesquisa foi feita com internautas, e não com desdentados analfabetos).

E foi esse espetáculo, essa máquina de criar super-realidades, que vimos sacramentar em Zurique o casamento do nacionalismo da Copa de 50 com aquele da Copa de 70.

Uma pergunta ‘estrangeira’ sobre violência quase estraga a festa. Mas tínhamos Ricardo Teixeira para defender as honras nacionais. Violência tem em qualquer lugar, ele responde a uma jornalista canadense (sic).

Mas o que ele não disse, e nem precisava, é que nosso novo nacionalismo se legitima de outra maneira: temos a elite pura (ainda que cansada), bem-pensante e democrática, a elite ex-sindical no governo, a elite do futebol mundial e agora também a ‘tropa de elite’ da elite. O Brasil agora é um país de elite, e a nossa combinada ação elitista irá nos levar para dentro da elite mundial.

Mas e a realidade de Terceiro Mundo? Isso a propaganda não vende, portanto não existe, é só uma permanência do pensamento de esquerda que também já morreu.

Crença nas imagens da propaganda, nas virtudes da elite rica e letrada e nos deméritos do povo ignorante: tudo isso mais o nacionalismo tresloucado que assistimos na TV, altar da nossa fé, constituirá a lona que cobrirá esse circo de horrores e delícias que será o Brasil daqui até 2014.

FRANCISCO ALAMBERT é professor de história contemporânea e de história social da arte na Universidade de São Paulo.’

MICHELANGELO
Ivo Barroso

Versos esculpidos

‘Um dos grandes nomes da Renascença, Michelangelo tem traduzidos 50 poemas que expressam uma personalidade em conflito

Poderia parecer que a poesia de Michelangelo não passasse de mais um exercício no espectro monumental de suas realizações artísticas. Considerado até hoje a expressão máxima da capacidade humana de se expressar por meio das artes plásticas, a poesia talvez lhe viesse como um simples adendo, um adereço do tipo ‘anch’io’ [eu também] no sentido de se ombrear com Petrarca e Dante, os grandes vultos poéticos de seu tempo, e em cuja leitura -ele, o autodidata supremo- bebeu os ensinamentos e adquiriu as ferramentas necessárias para se exprimir também em versos.

Uma visão mais próxima de seus sonetos revela, no entanto, um trabalho de cantaria semelhante à faina do escultor, uma dicção pétrea, um caminhar tortuoso, que faz de seus versos verdadeiras ‘coisas’, verdadeiros objetos de pedra, em vez de simples fluxos de palavras cadenciadas e etéreas.

Ou, como se expressou definitivamente Berni a esse respeito, ‘ele diz coisas, enquanto os outros falam palavras’.

Michelangelo deixou cerca de 300 ‘rime’ (composições, entre as quais uns 80 sonetos completos, 100 madrigais e 50 epitáfios, além de numerosos ‘fragmentos’).

Embora não lhes faltem verdadeiras pedras-de-toque (‘Vorrei voler, Signor, quel chio non voglio’, ‘Carico danni e di peccati pieno’, ‘Di morte certo, ma non giá dellora’ etc.) que os distinguem na literatura italiana, o certo é que sua feitura -penosa, arrastada, inconclusa ou digressiva- nada tem da maviosidade de seus modelos e lhes falta amiúde os ouropéis conclusivos, ficando seu entendimento prejudicado não raro pelo lio das idéias que se recusam se organizar como formas inteligíveis.

Em vez de se parecerem com suas luminosas estátuas, como o Davi (de Florença) ou a Pietà (de São Pedro), em que a obra de arte está a um passo da perfeição formal humana, eles lembram mais fortemente o abandonado, incompleto, esboçado estilo da Pietà (de Rondanini) e de outras obras deixadas inconclusas. São ásperos, quase ‘in natura’, mas bafejados por uma anteforma que prevalece sobre a realização definitiva. Sua leitura revela uma personalidade taciturna, em conflito consigo mesma, uma ambivalência dicotômica em que se debatem bem e mal, belo e horrendo, pecado e virtude.

Solidão profunda

Na maioria escritos em seus últimos 30 anos de vida, depois de se ter fixado finalmente em Roma em 1534, quando seus grandes rivais artísticos, Leonardo e Rafael, já tinham morrido, os sonetos de Michelangelo, longe de expressarem o conceito que dele tinham seus contemporâneos -ou seja, o de ‘alguém que alcançou o ponto culminante da ambição humana’-, demonstram o quão pouco essa glória significava para ele, autocondenado a uma solidão incontornável, a um conflito tormentoso entre o eroticismo e a virtude, entre a crença e a negação.

Revelam ainda, e de maneira acerba, a duplicidade patética de dois amores platônicos, sublimados ambos na angústia da irrealização impossível.

O poeta e tradutor Mauro Gama traz agora ao leitor brasileiro a transposição de 50 desses sonetos, numa seleção que obedece a critérios firmados, não deixando de fora nenhum dos poemas ‘fundamentais’.

Ali estão os sonetos dirigidos a Dante, a Tommaso de Cavalieri, a Vittoria Colonna, além daqueles que revelam sentimentos íntimos e cenas da vida cotidiana do artista, com menção a suas ferramentas de trabalho e aos objetos ou criaturas que o circundam.

Diversamente da onda que se apossou da maioria de nossos tradutores jovens, que os leva a ‘modernizar’ o texto original e até ‘facilitá-lo’ para benefício de um suposto leitor menos familiarizado com os ‘clássicos’, Gama optou por se valer das dicções coetâneas da literatura portuguesa (no caso, o código camoniano) para verter os poemas, condicionando-se inclusive a não usar termos ‘que não houvessem ou não fossem usados no período’, além de manter, na medida do possível, ‘a forma que cada vocábulo então apresentava’.

Para facilitar o trabalho do leitor, os poemas foram precedidos de um ‘pequeno glossário de peculiaridades do português quinhentista’.

Tais condicionamentos (que implicam, por exemplo, a contagem de ‘sua’, ‘tua’ como monossílabos, de acordo com a métrica da época) não presumem, no entanto, que a beleza intrínseca dos versos se tenha perdido na transposição, asfixiada por uma linguagem a que o leitor habitual não esteja acostumado.

Alguns momentos da tradução deixam à mostra como a sensibilidade tradutória de Gama, aliada à sua capacidade poética, puderam dar língua nossa aos lamentos angelescos dirigidos a Vittoria Colonna.

IVO BARROSO é poeta, crítico e tradutor. É autor de ‘A Caça Virtual’ (Record).

CINQÜENTA POEMAS

Autor: Michelangelo

Tradução: Mauro Gama

Editora: Ateliê (tel. 0/xx/11/ 4612-9666)

Quanto: R$ 36 (144 págs.)’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

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