Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 1 E 2/12

Folha de S. Paulo

04/12/2007 na edição 462


TV PÚBLICA
Folha de S. Paulo


EBC, BBC e TV Brasil


‘A EBC, Empresa Brasil de Comunicação, criada por Lula para dar corpo a seu
conceito de TV pública, pretende louvar-se no exemplo da BBC britânica. A julgar
por seu esboço institucional, é pouco mais que fantasia. Para ser pública, a TV
Brasil teria de ser independente, mas não existe garantia disso.


De imediato, há a questão do vício de origem, sua criação por medida
provisória. Não se trata só da óbvia falta de urgência da matéria, requisito
constitucional sempre ignorado. A via eleita denota já a disposição de afastar a
instituição da emissora do escrutínio público, como ocorreria com o envio de
projeto de lei.


Até o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, reconhece o risco de
manipulação política pelo governo. De fato, a própria BBC por vezes é acusada de
partidarismo. Mas o ministro parece acreditar que a independência fica
assegurada pelos 15 ‘representantes da sociedade civil’ no Conselho Curador
-todos nomeados por Lula.


Se o governo de fato almejasse tornar incontroversa a independência dos
conselheiros, teria precedido sua escolha de algum tipo de consulta pública. As
vagas para completar o corpo de 12 ‘trustees’ da BBC são anunciadas, e os
candidatos passam por processo de seleção. A decisão cabe ao
primeiro-ministro.


O poder do Conselho Curador da EBC se concentra em emitir, por maioria
absoluta, votos de desconfiança em diretores da TV, dois dos quais bastariam
para destituí-los. Não parece crível que o caráter honorário do conselho deixe
espaço para tanto.


Há também o problema do financiamento da TV, condição para a independência. A
BBC se sustenta com uma taxa de radiodifusão paga pelos contribuintes. A EBC
dependerá de verbas orçamentárias sujeitas a intempéries, além de fontes
problemáticas -de comissões por distribuição de publicidade legal à veiculação
de anúncios institucionais.


Uma TV manipulável, paga com impostos, mas sem controle público sobre
conteúdo e gastos. A TV de Lula nasce com pouco de BBC e muito do velho
Brasil.’


Leandro Beguoci


Oposição terá espaço na TV, diz Cruvinel


‘Tereza Cruvinel, 51, foi escolhida para chefiar a TV Brasil após 25 anos de
carreira no jornalismo político, especialmente no jornal ‘O Globo’, onde
mantinha uma coluna diária. Ela assegura que vai levar à emissora o mesmo padrão
que aplicava na mídia privada. A TV Brasil estréia hoje de maneira restrita. A
partir das 14h, irá ao ar uma programação que mescla conteúdos da TVE do Rio e
da Radiobrás, transmitida para o Rio, DF e Maranhão. Ainda não há data para
chegada do sinal a outros Estados. Para a jornalista, a emissora não está livre
de pressões políticas -o que, segundo ela, não aconteceu até o momento- e só a
fiscalização do Conselho Curador e da sociedade vai evitar qualquer desvio de
rota. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.


FOLHA – O Brasil precisa de uma TV Pública?


TEREZA CRUVINEL – Algumas tarefas de comunicação e informação só podem ser
cumpridas por uma TV com esta natureza pública, independente em relação aos
poderes econômico e político. Entre estas tarefas, a oferta de uma programação
diferenciada, voltada para a formação crítica do cidadão, para o debate das
grandes questões nacionais, para a expressão da diversidade regional.


FOLHA – O governo criou a TV pública porque acha que a mídia não gosta dele?


CRUVINEL – Não. Vi essa informação em uma matéria da Folha, nunca ouvi essa
justificativa para a criação da TV pública.


FOLHA – A sra. acha que a mídia não gosta do governo?


CRUVINEL – Não, nunca falei isso. Minha vinda não tem relação com minha
avaliação sobre a imprensa.


FOLHA – A sra. não teme pressões do governo por uma cobertura favorável? Uma
dúvida prática. A TV Pública vai usar o termo mensalão?


CRUVINEL – A Radiobrás fez uma cobertura exemplar do caso mensalão em 2005,
que resultou até em reclamações pontuais de áreas do governo e do PT. Isso já
expressava a criação de uma cultura de TV pública na Radiobrás na gestão do
Eugênio Bucci. Esse mesmo jornalismo que se guia pelos fatos, não briga com os
fatos, nem para favorecer o governo nem para criticar o governo, é que será
seguido pela TV Brasil.


FOLHA – Lula não terá mesmo qualquer tipo de interferência?


CRUVINEL – Não posso assegurar que ninguém do governo vá tentar, em algum
momento, alguma boa vontade da TV pública. Agora, para garantir a independência
dela, mais do que a virtude profissional dos seus dirigentes, pesará a
vigilância do Conselho Curador e da própria sociedade.


FOLHA – O conselho tem uma grande gama de perfis, intelectuais, economistas,
políticos. Mas nenhum deles é claramente identificado com idéias da oposição.
Por quê?


CRUVINEL – Para isso teríamos de ter representantes partidários e a opção foi
por não ter representação de partidos. A diretoria executiva não participou da
escolha de conselheiros. Não sugeriu nomes para guardar a distância ética
recomendável entre quem vai fazer e o fiscalizador. Quanto mais efetivo for o
poder do conselho, quanto mais independente for, melhor para a TV pública.


FOLHA – Além da BBC, a sra. tem por meta um padrão de qualidade?


CRUVINEL – Eu nem tenho falado em BBC, especificamente. Acho que há muitas
experiências bem sucedidas de TV pública mundo afora. Acho a TV canadense muito
boa, acho a RTP de Portugal muito boa, acho a TV espanhola muito boa. Na
construção da programação renovada, que virá dentro de aproximadamente três,
quatro meses, a TV Brasil vai procurar não apenas atender aos objetivos
específicos de investir em reflexão, formação do cidadão, oferta de produtos
culturais a um país que consome pouca cultura, como também poderá inovar do
ponto de vista estético. Inovar a linguagem também é um compromisso.


FOLHA – Os parlamentares da oposição terão espaço na TV Pública?


CRUVINEL – Certamente, quando houver debates que envolvam questões políticas,
problemas nacionais em debate, a pluralidade de opiniões é um compromisso da TV
Brasil.


FOLHA – O presidente Fernando Henrique Cardoso também?


CRUVINEL – Não existe veto.


FOLHA – Entre 2003 e 2004, a sra. prestou serviço à Câmara quando João Paulo
Cunha (PT) era presidente. As pessoas a vinculam ao governo por causa desse
episódio?


CRUVINEL – Isso foi uma maldade da Folha de S.Paulo. Vincular um trabalho de
pesquisa histórica sobre uma parlamentar do mais alto valor, como foi Cristina
Tavares [morta em 1992], à gestão, à prestação de serviços à Câmara. A série
perfis parlamentares é antiga e sempre foi feita por historiadores e
jornalistas. Muitos outros jornalistas escreveram perfis de outros parlamentares
falecidos. Foi uma contribuição intelectual à Câmara por um pagamento irrisório
[R$ 15,68 mil, entre 2003 e 2004] pelo valor do trabalho. Mas a Folha de S.Paulo
não fez matérias com outros jornalistas que também escreveram perfis.


FOLHA – Qual a relação da sra. com o PSDB?


CRUVINEL – Muito boa, tenho excelente diálogo com todas as forças
políticas.’


 


TV DIGITAL
Daniel Castro


Padrão japonês encarece a TV digital


‘A escolha do padrão japonês de TV digital encareceu o custo da nova
tecnologia aos consumidores. A TV digital que começa a operar oficialmente hoje,
em São Paulo, é boa para as redes de TV, mas não trouxe ganhos aos país
previstos pelo governo quando anunciou sua escolha, meados de 2006.


Os investimentos de empresas japonesas não vieram, nem nossos vizinhos
aderiram ao padrão escolhido, o que não permitiria produção em grande escala,
barateando os produtos aos consumidores. Isso pode comprometer o futuro da TV
digital.


Especialistas ouvidos pela Folha apontam o padrão japonês como o responsável
pelo conversor de TV digital a mais de R$ 500. Esse conversor, que ainda não
oferece interatividade nem alta definição, foi prometido pelo governo federal,
há um ano e meio, a R$ 200. Começou a ser vendido nas lojas na semana passada,
porém não havia estoque para pronta-entrega. Os aparelhos mais sofisticados
chegam a R$ 1.100.


‘Se não houver medidas para viabilizar conteúdos atrativos à população e,
mais do que isso, conversores e televisores a baixo custo, a televisão digital
pode se tornar um grande fracasso’, afirma Valério Brittos, professor de
pós-gradução em ciências da comunicação da Unisinos (RS), co-autor do livro ‘A
Televisão Brasileira na Era Digital’.


Além de ter optado pelo parceiro de menor mercado, o Japão, descartando o
padrão europeu e o americano, o Brasil decidiu incorporar elementos nacionais (o
middleware Ginga, ainda não disponível nos conversores à venda) e inovações
tecnológicas, como o compressor H.264. Isso torna a tecnologia adotada no Brasil
híbrida. Só serve para o Brasil. Logo, não podemos comprar aparelhos do Japão.
Estamos isolados.


Assim, o conversor brasileiro está caro porque falta escala industrial.
Defensora da tecnologia européia, a coalização DVB Brasil estima que, para ser
competitivo no mundo atual, um produto de alta tecnologia tem que ocupar pelo
menos 15% do mercado global. Segundo a coalização, o Brasil representa 2,8% da
população mundial. Mesmo que conquiste para seu padrão os países que ainda não
optaram por nenhuma tecnologia, terá só 6,5% do mercado internacional.


Até entre as redes de TV, que sempre defenderam o padrão japonês, há dúvidas
sobre a escolha. ‘Eletronicamente, o [padrão] japonês é o melhor. Para o Brasil,
o americano seria melhor, teria mais troca e escala. Isso não vai mudar’, afirma
João Carlos Saad, presidente do Grupo Bandeirantes de Comunicação.


Semicondutores


Outro fator que encarece o conversor digital nacional é o fato de o governo
ter escolhido um sintonizador (turner) que privilegia a robustez do sinal,
possibilitando uma recepção melhor. Os maiores beneficiados desse recurso são as
redes de TV, que precisam de transmissores menos potentes. Ou seja, o consumidor
paga a conta dessa robustez.


Na semana passada, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, maior defensor
do padrão japonês dentro do governo, afirmou, indignado, que o consumidor não
deve comprar conversor pelos preços cobrados atualmente -os que oferecem alta
definição (HDTV) custam a partir de R$ 700.


Costa, no entanto, ignorou estudos do CPqD, instituto de pesquisa em
telecomunicações que elaborou extensos relatórios sobre os padrões de TV digital
da Europa, dos EUA e do Japão, antes da decisão do Brasil. Um desses relatórios,
financiados pelo dinheiro público, apontava que o conversor na tecnologia
japonesa não custaria menos de R$ 700. Enquanto isso, na Europa, é possível hoje
comprar conversores básicos, produzidos na China, por menos de R$ 150.


Pouco antes do anúncio oficial da escolha do padrão japonês, o preferido das
redes de TV, Costa deu entrevistas dizendo que iria exigir, como contrapartida,
a instalação de fábricas de semicondutores no Brasil.


Os acordos entre Brasil e Japão, entretanto, não passaram de declarações de
intenções vagas. ‘O governo do Japão espera a retomada do investimento japonês
na indústria de eletrônica no Brasil’, promete um dos documentos.


Sobre os preciosos semicondutores, memorando assinado entre os ministérios
das Relações Exteriores do Brasil e dos Negócios Estrangeiros do Japão, em abril
de 2006, diz apenas que o governo japonês ‘cooperará’ com o governo brasileiro
‘na elaboração, por parte do Brasil, de um plano estratégico para o
desenvolvimento da indústria de semicondutores, com vistas a investimentos
japoneses no Brasil’. E conclui: ‘O governo do Brasil espera que empresas
brasileiras possam participar neste projeto de investimento juntamente com os
fabricantes japoneses’.


‘O acordo com o Japão é completamente subalterno. Na verdade, o Brasil está
comprando uma tecnologia. Não há cláusulas de transferência de tecnologia para o
Brasil. A escolha do ISDB [o padrão japonês] foi ruim para o país’, afirma
Gustavo Gindre, membro do Comitê Gestor da Internet, criado pelo governo para
estabelecer políticas para o setor, e integrante do Conselho Consultivo do SBTVD
(Sistema Brasileiro de TV Digital), órgão que deveria ter sido consultado pelo
governo antes da escolha do padrão, mas que foi ignorado.


Outro ponto obscuro do acordo Brasil-Japão, que preocupa empresas, é a
isenção de royalties sobre patentes. Existe apenas uma carta de empresas
japonesas oferecendo a gratuidade. ‘Isso pode ser uma estratégia. Você faz a
virada tecnológica sem pagar royalties e depois é obrigado a pagar. O acordo é
frágil juridicamente’, diz Gindre.


Outro lado


A Folha tentou entrevistar o ministro Hélio Costa na semana passada. Uma
entrevista foi agendada, mas a assessoria do ministro a desmarcou, afirmando que
‘o bicho tá pegando nesta semana’.


O Ministério das Relações Exteriores informou que Roberto Pinto Martins,
secretário do Ministério das Comunicações, falaria sobre o acordo com o Japão. A
Folha procurou o secretário, via assessoria do ministério, mas não conseguiu
falar com ele.’


 


Laura Mattos


Saia justa entre as TVs marca o início das transmissões


‘Uma saia justa entre as emissoras marca o lançamento da TV digital hoje no
Brasil. A Gazeta enviou carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na última
quinta, reclamando por não ter sido convidada para a cerimônia de inauguração do
novo sistema, nesta noite, na Sala São Paulo. A MTV também afirma não ter sido
chamada.


Na carta ao presidente, Sérgio Felipe dos Santos, superintendente-geral,
afirma que a Gazeta vem ‘manifestar sua indignação pelo fato de ter sido
preterida pelas demais emissoras (…) na solenidade que marca o início das
transmissões digitais em São Paulo’.


José Wilson Fonseca, diretor-geral da MTV, afirmou à Folha que não entendeu
por que a emissora musical não foi chamada, atitude que considerou ‘um pouco
deselegante’.


O evento foi organizado por cinco das principais redes de televisão do país
-Globo, SBT, Record, Bandeirantes e Rede TV! – e contará com a presença de Lula,
do ministro das Comunicações, Hélio Costa, da ministra da Casa Civil, Dilma
Rousseff, do governador de São Paulo, José Serra, e do prefeito da capital,
Gilberto Kassab.


A cerimônia, que começa às 20h, será apresentada em formato de um telejornal,
com um âncora de cada uma das cinco redes organizadoras, além de um da TV
Cultura, chamada a participar como representante das emissoras públicas.


Os jornalistas escolhidos foram Willian Waack (Globo), Carlos Nascimento
(SBT), Marcos Hummel (Record), Ricardo Boechat (Band), Rodolfo Gamberini (Rede
TV!) e Heródoto Barbeiro (TV Cultura).


No evento, serão exibidos trechos de programas em alta definição produzidos
pelos canais e haverá discursos das autoridades. Os pronunciamentos de Lula,
Hélio Costa e provavelmente o de Dilma Rousseff serão transmitidos em pool pelas
redes a partir das 20h30.


Também fez parte da organização da cerimônia o Fórum do Sistema Brasileiro de
TV Digital, formado pelas emissoras de TV, fabricantes de equipamentos e
entidades de ensino e pesquisa. Curiosamente, Gazeta e MTV fazem parte da
entidade.


‘A Gazeta e a MTV não foram convidadas por uma falha de comunicação’, disse
ontem à Folha Luis Olivalves, diretor de interatividade da Bandeirantes e um dos
representantes do fórum de TV digital.


‘A cerimônia começou a ser organizada pelo fórum e depois, por questões
financeiras, ficou nas mãos das redes, que concordaram em financiá-la. Elas
tiveram menos de um mês para organizar o evento, foi muito corrido e algumas
acabaram ficando de fora’, disse.


A reclamação da Gazeta gerou um jogo de empurra-empurra entre as TVs. A
Central Globo de Comunicação afirmou que o responsável pela organização do
evento seria a assessoria da Presidência da República, que negou, dizendo que as
TVs é que estão promovendo a solenidade. Band, Record e SBT afirmaram que o
fórum era o responsável.


Barrados no baile


A Gazeta, segundo sua assessoria, tentou fazer parte da solenidade, mas não
foi aceita nem obteve respostas sobre o motivo de sua exclusão.


Luis Olivalves, do fórum de TV digital, diz que posteriormente a Gazeta foi
convidada a comparecer o evento. ‘Foram enviados convites para a Gazeta e a Mix.
Só não daria tempo para incluir um âncora deles na apresentação nem o logotipo
no palco. Mas eles e a MTV serão mencionados’, disse.


A Gazeta nega ter recebido qualquer convite. A emissora, diferentemente da
MTV, não irá transmitir os discursos de Lula e dos ministros. ‘Fomos barrados no
baile. Gostaríamos de estar lá, mas estamos felizes e vamos fazer a nossa festa
particular no lançamento’, brinca Fonseca, diretor-geral da MTV.’


 


Investimento das grandes redes em programação de HDTV ainda é tímido


‘O investimento das redes em programação de alta definição ainda é tímido.
Record e SBT, que disputam a segunda colocação no Ibope, praticamente só têm
filmes a oferecer em HDTV. A Globo e a Band são as que mais investiram em
programas na nova tecnologia.


A alta definição é uma das características da TV digital. Ela oferece uma
resolução de imagem seis vezes maior do que a analógica. Teve grande peso na
escolha do padrão japonês.


A tecnologia japonesa permite às TVs transmitirem um sinal em alta definição,
um em baixa para celulares e miniTVs e dados para interatividade, ocupando uma
única freqüência de 6 MHz. Nas tecnologias européia e americana, a transmissão
para celulares é feita por operadoras de telefonia.


A Globo e a Band já transmitem novelas em alta definição (veja quadro). A
partir de amanhã, a alta definição chegará aos telejornais da Band.


A Globo prevê transmitir todo o Campeonato Paulista e 66% do Brasileiro de
2008 em HDTV. Das próximas novelas, apenas a das oito está confirmada em HDTV.
Parte dos novos programas que estrearão no horário nobre em abril também será em
alta definição.


‘Ainda não dá para dizer quanto haverá de produção em HDTV daqui a um ano.
Vamos esperar a resposta do mercado’, afirma Raymundo Barros, diretor de
engenharia da TV Globo em São Paulo.


Outra característica da TV digital é a interatividade, mas ela não está
disponível nos conversores à venda atualmente nem é muito interessante para as
redes, pois teme-se perda de audiência. Por enquanto, a TV Cultura é a única que
declara não ter interesse em HDTV. Ela usará sua freqüência para transmitir
vários canais (um deles de educação).’


 


Laura Mattos


Alta definição deixa rugas dos atores e imperfeições do cenário mais
evidentes


‘Na apresentação à imprensa da programação em alta definição da MTV, a VJ
Marina Person perguntou ao diretor de engenharia do canal: ‘É verdade o que
andam dizendo, que atrizes e apresentadores têm de ficar preocupados porque a
alta definição mostra mais as rugas?’.


Ela é protagonista do seriado ‘Casal Neuras’, que estréia hoje nova temporada
em alta definição. O engenheiro Walter Pascoto foi elegante na resposta. Afirmou
que isso não deveria preocupar os VJs da MTV, todos ‘bonitos e jovens’.


Mas sim, Person, sua questão tem fundamento. A alta definição, principal
novidade da televisão digital, apresenta uma nitidez até seis vezes maior do que
a imagem digital comum.


Com isso, o telespectador perceberá detalhes que antes passavam
despercebidos, como nuances de cores, rugas e outras imperfeições da pele,
falhas no cenário e na iluminação. Mesmo quem ainda não tem o conversor digital
já pode observar as diferenças nas novelas ‘Duas Caras’, da Globo, e ‘Dance
Dance Dance’, da Band, as primeiras gravadas em câmeras de alta definição.


A qualidade se aproxima à do cinema, o que deixa tudo mais evidente nas
cenas. Quem tiver televisor e conversor digitais verá a partir de hoje uma
imagem melhor do que a do DVD.


Para evitar que as imperfeições venham à tona, as redes de TV estão
investindo em equipamentos e profissionais com experiência em cinema e
publicidade (veja quadro acima).


Esse aspecto ‘revelador’ da alta definição, que pode preocupar as divas da
televisão, tem um aspecto positivo, na opinião da psicóloga Rosely Sayão,
colunista da Folha, por maquiar menos o passar dos anos. ‘É bom que a sociedade
não negue o envelhecimento’, afirma.’


 


Camila Rodrigues


Confira dicas para escolher o conversor


‘Nas últimas semanas, fabricantes conhecidas e desconhecidas começaram a
anunciar seus conversores. São poucos os modelos já nas lojas e eles são caros:
o preço varia de R$ 499 a R$ 1.099.


Para comprar esse eletrônico, é importante saber qual é o tipo de definição
de sua TV. As televisões, de tubo ou de tela fina, podem ter 480, 720 ou 1.080
linhas. Se a sua é muito antiga, provavelmente ela se encaixa no primeiro
grupo.


Os conversores, inicialmente, podem ser de 480 linhas ou 1.080 linhas. Quem
estiver disposto a experimentar a novidade e comprar o aparelho deverá escolher
um que tenha definição igual ou maior do que a do seu televisor.


A Folha avaliou seis conversores de TV digital: cinco com 1.080 linhas e um
com 480 linhas. Para isso, foi utilizada uma antena interna da Philips, uma TV
de LCD de 32 polegadas com resolução de 1.080i, da LG, e uma TV de tubo de 14
polegadas da Semp Toshiba.


Foi possível notar que a qualidade da imagem e do sinal não depende do
conversor. Mas o uso de conversor de 480 linhas não oferece boa qualidade de
imagem em TVs de alta resolução.


O DigiTV Positivo, de 480 linhas, foi conectado à TV de LCD; o resultado foi
uma imagem ligeiramente sem resolução e que, com o tempo de exposição, provocou
incômodo. Na TV convencional, o aparelho funcionou bem.


Para conversores de mesma resolução, os diferenciais vêm no preço, no design,
na portabilidade e na compatibilidade com entradas de vídeo.


Com exceção dos dois modelos da Positivo, todos os conversores avaliados
possuem entradas para vídeo e som, além da USB e da Ethernet.


A USB serve para plugar pendrives e atualizar o sistema interno quando as
fabricantes disponibilizarem as atualizações -como funciona em um computador.
Nos modelos da Philips e da TeleSystem, foi possível tocar músicas que estavam
no pendrive.


Em relação ao visual, os modelos da TeleSystem, da Semp Toshiba e,
principalmente, o da Aiko se parecem muito com um videocassete, o que não os
deixa mais baratos: este último custa R$ 999.


Aliás, preço é a questão mais crítica. O mais barato, da Positivo, custa R$
500, o suficiente para comprar uma TV de tubo de 29 polegadas e tela plana.


Também foram anunciados o modelo de 1.080 linhas da Gradiente (R$ 799), o de
480 linhas da CCE (R$ 499) e o da Sony (R$ 999), que só funciona com as
televisões Bravia.’


 


Adaptadores permitem assistir à TV digital pelo computador


‘Já é possível sintonizar os canais chamados de OneSeg no PC ou no laptop
utilizando dispositivos USB. A Folha testou dois modelos: o MobTV, da TecToy (R$
369) e o PenTV, da TeleSystem (cerca de R$ 300). A Gradiente e a Philips
anunciaram produtos semelhantes, por R$ 399 e R$ 370, respectivamente, mas é
difícil encontrá-los nas lojas.


O PenTV vem com uma antena externa, que permitiu sintonizar três canais a
mais do que sem ela. O acessório, com ímã, pode ser fixado em superfícies
metálicas, como o capô de um carro.


Para utilizá-los, é preciso instalar o software que vem com o aparelho. Os
sistemas testados contam com um botão para gravar os programas da TV. O problema
é que ambos salvam o filme em formatos que só podem ser vistos quando o USB está
plugado.


O gerente de desenvolvimento da TeleSystem, Marcos Santos, explica que é um
meio de proteger os direitos autorais do conteúdo das emissoras.’


 


Televisor portátil cabe na palma da mão


‘Outro meio de aproveitar o sinal portátil das emissoras abertas são os
televisores portáteis, que estão aparecendo no mercado. A Folha testou dois
modelos que cabem na palma da mão, o DTV-500 (R$ 800), da Gradiente, e o PockeTV
(R$ 650), da TeleSystem.


Ambos utilizam uma bateria interna, recarregável, como a de alguns tocadores
de MP3. Eles têm uma antena retrátil, e a tela LCD ocupa quase toda a
superfície. Para o som, o ideal é usar fones de ouvido.


O da Gradiente, com 7,2×9,5×0,8 cm, é compacto. Os botões para mudar de canal
e controlar o volume são um tanto incômodos para quem tem dedos maiores e pouca
paciência. Após apertar a tecla para mudar de canal, demora cerca de quatro
segundos para que a troca se efetive.


O PockeTV é um pouco maior, 10×8,2×1,1 cm, mas vem com entrada miniUSB e de
cartãoSD. Além de ser um televisor, o portátil tem recurso de tocador de MP3,
visualizador de fotos e vídeos.


Sua interface de navegação é menos bonita que a da Gradiente, mas não é
difícil de usar. A vantagem é que os botões de navegação são maiores.


Assim como no caso dos conversores, a imagem depende do sinal e da qualidade
da imagem que é gerada pela emissora.


Em março, a Semp Toshiba também deve lançar uma TV semelhante, segundo fontes
da empresa.’


 


Tatiana Resende e Simone Cunha


Consumidor ainda terá restrições no novo formato


‘Não é só a área geográfica que vai limitar o número de pessoas com acesso à
TV digital aberta. Com a transmissão do sinal restrito à Grande São Paulo por
enquanto, e com previsão de cobrir todo o Brasil apenas em 2013, o sucesso da
novidade vai depender do investimento dos consumidores em novos aparelhos (pelo
menos R$ 500), que podem não funcionar nas chamadas áreas de sombra.
Diferentemente do sinal analógico, em que a recepção é possível mesmo com
chuviscos e fantasmas, o digital pega ou não pega, sem meios-termos.


O representante de um dos fabricantes consultados pela Folha, que preferiu
não se identificar, disse que não há vantagens em comprar logo uma TV com
conversor embutido porque, quando a interatividade plena (envio de dados para a
emissora) for possível, o televisor terá que ser novamente trocado para usufruir
dessa interação, assim como os conversores, mas, pelo menos com esses, o
‘prejuízo’ será menor.


Por todas essas limitações, os órgãos de defesa do consumidor aconselham os
telespectadores a esperar um pouco mais para entrar no ‘mundo digital’.


Para Luiz Fernando Moncau, advogado do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa
do Consumidor), ‘o melhor é esperar’. Conforme orientação no site da entidade,
‘a ordem é não se afobar e não comprar aparelhos que prometem muito e, no fundo,
pouco fazem’.


A Fundação Procon-SP, ligada à Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania
do Estado, vai monitorar as vendas de conversores e televisores com o aparelho
já embutido e fazer fiscalizações em breve para avaliar as informações que
constam no manual de instruções, nas embalagens dos produtos e como os clientes
estão sendo atendidos pelos vendedores das lojas.


Carlos Coscarelli, assessor-chefe da entidade, argumenta que é o consumidor
quem deve decidir se a compra vale a pena, mas ele tem de estar bem informado
para fazer essa escolha conscientemente. Maria Inês Dolci, coordenadora
institucional da Pro Teste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor),
disse que o órgão vai acompanhar se as restrições da TV digital estão sendo
repassadas adequadamente ou se os fabricantes estão fazendo propaganda enganosa.
Vale lembrar que, como o sinal analógico estará disponível até 2016, não é
preciso ter pressa.


O custo alto de lançamento dos aparelhos vai determinar o público-alvo, que
deve ser, em princípio, o aficionado por novas tecnologias. Para Eduardo Tude,
presidente da Teleco, consultoria especializada em telecomunicações, não se pode
ter expectativa muito alta com a TV digital agora. ‘O importante é começar’,
afirma.’


 


Sem sinal, aparelho pode ser devolvido, dizem entidades


‘As entidades de defesa do consumidor afirmam que é possível devolver o
televisor com receptor acoplado ou o conversor se sua casa não receber o sinal
digital.


Hoje, 56% das casas de São Paulo recebem sinal analógico de baixa qualidade,
segundo estudo da Universidade Mackenzie. Com a transmissão digital, 98% terão
boa qualidade.


A cobertura digital, mostra o estudo, alcança toda a capital, mas Gunnar
Bedicks, coordenador de TV Digital da instituição, diz que há regiões que podem
não receber o sinal por suas condições topográficas. ‘No Parque D. Pedro [região
central], dificilmente vai chegar sinal porque é um buraco.’


Guido Lemos, da UFPB, diz que as emissoras podem resolver o problema
instalando transmissores de baixa potência. ‘Em regiões mais baixas da cidade ou
com muitos prédios, pode acontecer [de não haver sinal], mas será exceção.’


Daniel Slaviero, presidente da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de
Rádio e Televisão), diz que pode haver diferença na recepção do sinal em uma
mesma rua, como acontece hoje com o sinal analógico.


Segundo Carlos Coscarelli, do Procon-SP, o consumidor deve testar o produto
em casa, já que não há como saber de antemão se a transmissão digital vai
funcionar, e, se houver problema, pode devolver o produto. ‘É como adquirir
internet onde não há acesso’, diz a coordenadora da Pro Teste, Maria Inês Dolci.
Para Luiz Moncau, do Idec, ‘há grande chance de o consumidor levar um produto
que não atende as expectativas’.’


 


Interatividade só deve chegar no fim do 1º semestre


‘A TV digital chega sem interatividade plena. O coordenador de
desenvolvimento do Ginga, software que viabiliza o recurso, Guido Lemos, da UFPB
(Universidade Federal da Paraíba), diz que as indústrias estão finalizando e
testando o aplicativo, por isso não há equipamentos completos. ‘Há pelo menos
cinco empresas tentando desenvolver o Ginga.’


Uma delas é a TQTDV, joint venture entre as empresas de software Totvs e
Quality, que fecharam contrato com a Gradiente para produzir o Ginga pelo preço
estimado de R$ 5 por equipamento mais os royalties de alguns componentes. ‘O
valor não inviabiliza a interatividade’, diz o presidente da Totvs, Laércio
Cosentino.


A empresa promete entregar o produto à Gradiente no primeiro semestre do ano
que vem. A Gradiente, no entanto, não informou a partir de quando os conversores
completos devem estar nas prateleiras.


A norma técnica para o desenvolvimento do Ginga, problema alegado pelas
indústrias para não vender equipamentos completos, foi publicada ontem pela ABNT
(Associação Brasileira de Normas Técnicas).


Um especialista, que não quis ser identificado, disse que falta interesse das
TVs abertas em ter a interatividade. ‘Um comercial interativo desvia sua atenção
do próximo, que não vai ser assistido. E, nesse modelo de negócio, o que o
empresário quer é audiência.’


A interatividade remota, que permite o acesso a informações enviadas pelas
emissoras, como a escalação de um time, estará disponível nos aparelhos já à
venda.’


 


Tatiana Resende


TV por assinatura se prepara para mudança


‘A qualidade de imagem disponível a partir de hoje na TV aberta, e apenas na
Grande São Paulo, já é realidade na TV paga, que transmite o sinal digital para
parte dos clientes -que já possuem decodificador digital. Por isso, para o
vice-presidente de tecnologia da ABTA (Associação Brasileira de TV por
Assinatura), Antonio João Filho, pouca coisa vai mudar.


‘Quando a TV digital aberta estiver sendo transmitida na definição padrão,
será igual à TV paga.’ No entanto, quando for em alta definição, a TV aberta
terá imagem melhor.


‘Agora que a TV digital aberta está chegando, é o momento também de colocar
os canais de TV paga em alta definição’, disse. A Globosat vai disponibilizar
para os assinantes da Net, em duas semanas, um canal com toda a programação em
alta definição, mas repetindo as atrações de outros canais.


É a mesma estratégia da TVA, que já tem um canal nos mesmos moldes desde o
ano passado. Segundo Virgílio Amaral, diretor de estratégia e tecnologia da
empresa, o novo decodificador sai até março e será cedido sem custo para os
assinantes que compraram por R$ 899 o aparelho lançado em junho de 2006 -já apto
a receber o sinal digital e em alta definição da TV paga, mas não da TV aberta.
Para os outros assinantes, o custo não foi divulgado. A concorrente Sky afirmou
apenas que vai lançar o novo equipamento ao longo de 2008.


Com isso, a Net será a única a disponibilizar, neste ano, o decodificador com
conversor embutido, que permite a recepção do sinal digital das TVs aberta e
paga. O aparelho, cedido em comodato, vai custar R$ 799 e deve chegar em duas
semanas à casa dos clientes da Grande São Paulo que o solicitarem, mas terá que
ser devolvido se o assinante cancelar a TV paga.


Márcio Carvalho, diretor de produtos e serviços da empresa, afirma que o
aparelho já vem com um software que dispensa a troca quando a interatividade
plena estiver disponível. O programa foi desenvolvido fora do Brasil e é
equivalente ao nacional Ginga, que vai permitir essa interatividade na TV
aberta, mas que ainda não está sendo produzido comercialmente, por isso os
conversores que estão chegando ao varejo terão de ser trocados. Além disso, até
março, esse aparelho poderá gravar 80 horas, com uma atualização do
software.


O conversor mais barato para TV digital aberta para televisores de alta
definição custa R$ 699 -R$ 100 a menos que o novo decodificador da Net (também
indicado para esses tipos de aparelho), mas Carvalho não quis revelar o subsídio
dado pela empresa, que deve ter sido alto, para fidelizar o cliente.


Atualmente, a Net, assim como outras TVs por assinatura, já tem transmissão
digital, mas não em alta definição, o que só será possível com o novo
decodificador, direcionado para quem tem pacotes a partir de R$ 119,90, nos
quais o assinante já tem a chamada Net Digital.


O vice-presidente da ABTA afirma que a programação de canais consagrados,
como HBO e Fox, já está em alta definição nos seus países de origem. ‘Só não
vinha em alta definição para o Brasil porque não tinha infra-estrutura de
distribuição.’


Porém, mesmo com essa infra-estrutura agora disponível, ainda vai demorar
para esse conteúdo chegar ao país como foi produzido pelas emissoras no
exterior. ‘Isso vai acontecer quando as operadoras de TV por assinatura tiverem
bastante caixas de alta definição instaladas. É preciso ter um mínimo de massa
crítica. Isso aconteceu nos Estados Unidos da mesma forma. Até hoje em dia, eu
diria que 30% do conteúdo da TV por assinatura é em alta definição’,
argumentou.


João Filho ressalta ainda que, na maioria dos horários, as emissoras da TV
aberta terão transmissões em definição padrão, logo o assinante de TV paga que
já tem sinal digital e um telespectador que compra um televisor de alta
definição com o conversor embutido ou apenas o conversor para adaptar a TV
antiga ‘estarão vendo a mesma coisa, com a mesma qualidade’. Quando chegar o
horário nobre, para o caso dos programas transmitidos em alta definição, o
telespectador deve então perceber a diferença na qualidade. ‘Porém, em qualquer
circunstância, na TV de tubo, ele sempre vai estar vendo em definição
padrão.’’


 


Veridiana Sedeh


Na estréia, falta televisor com conversor embutido à venda


‘A transmissão digital começa hoje na Grande São Paulo, mas o comércio não
está bem preparado para atender aos consumidores que querem contar com a
tecnologia já na primeira exibição.


O televisor com o conversor embutido está em falta. Foi encontrado à venda
pela reportagem na Fnac -o consumidor, porém, pode esperar até 20 dias a entrega
do produto ou se contentar em levar para a casa o mostruário (Samsung, 52
polegadas, por R$ 14.999 à vista).


A Casas Bahia tem dois modelos de televisores digitais em exposição -LG e
Samsung- na Super Casas Bahia, megaloja de Natal da rede, mas diz que os
aparelhos ‘só estarão à venda quando os fabricantes disponibilizarem’ os
produtos.


Os conversores -que permitem que as TVs já disponíveis no mercado recebam o
sinal digital- começaram a ser vendidos apenas poucos dias antes do início da
transmissão. Em alguns lugares, como no Ponto Frio, a venda só começa hoje.


Na sexta-feira, Extra e Wal-Mart iniciaram as vendas de conversores, mas sem
previsão da chegada das TVs com o equipamento. O Carrefour passaria a vendê-los
ontem, e as Lojas Americanas, no dia 12.’


 


RÚSSIA
Clóvis Rossi


A Rússia é aqui?


‘SÃO PAULO – Há mais semelhanças entre Brasil e Rússia do que o fato de
estarem no Bric, acrônimo para Brasil, Rússia, Índia e China inventado por uma
firma financeira para fantasiar sobre as potências mundiais lá por 2020.


Pelo menos é o que se percebe lendo o texto do notável repórter Igor Gielow
na Folha de ontem. Comecemos pela bovina mansidão da sociedade, tema inúmeras
vezes tratado neste espaço. Na Rússia, é assim, segundo Roman Schleinov, editor
do jornal ‘Novaya Gazeta’: ‘Não existe uma sociedade civil na Rússia ainda.
Existem espasmos, aqui e ali, mas o que temos é isso: um monte de gente indo de
um lugar para o outro’.


Passemos agora ao tema mídia, sempre segundo Schleinov: ‘Existe, sim,
liberdade de imprensa na Rússia. Há dificuldades fora de Moscou e São
Petersburgo, nas regiões afastadas. O problema real é outro, é que ninguém dá
importância às críticas. Se 10%, 15% da população dos grandes centros se
preocupa, é muito’.


Acrescenta o analista Sergei Markov, conselheiro informal do presidente
Putin: ‘A imprensa é livre, pode criticar o quanto quiser. O que importa é que o
governo tenha as maiores TVs sob controle, porque elas são instrumentos de
propaganda, e é o que interessa’. No Brasil, como o governo não tem as maiores
TVs sob controle, cria a sua própria TV, porque, cá como lá, o público se
informa é pela televisão, que jornais são para os 10% ou 15% mencionados pelo
jornalista russo.


Parêntesis: é cedo para decretar que a TV pública brasileira será
‘chapa-branca’. Mas que foi criada porque o noticiário da Globo não agradou ao
poder, é inegável.


Até na sede pela perpetuação no poder há semelhanças entre Putin e setores do
PT. Não há modelos melhores do que a Rússia no supermercado global?’


 


VENEZUELA
Fabiano Maisonnave


Votação abre era de incerteza para Chávez


‘Prestes a completar nove anos no poder, o presidente da Venezuela, o
esquerdista Hugo Chávez, enfrenta hoje um inédito desafio nas urnas para aprovar
sua controvertida reforma constitucional, que encerra um ano inesperadamente
turbulento para o governo.


A maioria das pesquisas divulgadas na semana passada mostra que, ao contrário
das últimas nove eleições -entre referendos e disputas presidenciais e
regionais-, Chávez e seus aliados não chegam ao final da campanha com uma
vantagem clara. Praticamente todos os levantamentos dão uma vitória do ‘não’ ou
um empate técnico. A exceção é a Consultores 30-11, próxima do governo, que dá
uma vantagem de 11 pontos percentuais ao ‘sim’.


As pesquisas mostram também que, mesmo entre chavistas, há forte oposição à
reforma, principalmente contra a implantação da reeleição indefinida só para
presidente e mudanças na propriedade privada.


O diretor do respeitado instituto Datanálisis, Luis Vicente León, tem dito
que essa desvantagem é a grande novidade da campanha eleitoral deste ano. Mas
ele adverte que o governo tem mais poder de mobilização do que a fragmentada
oposição, que só fez um chamado claro ao voto na reta final.


Tempos difíceis


O referendo é o último evento político importante de um ano especialmente
difícil para Chávez, que um ano atrás comemorava uma vitória fácil nas eleições
presidenciais, com mais de 60% dos votos válidos.


Logo após a vitória, Chávez deixou claro que sua proposta de ‘socialismo do
século 21’ não seria apenas retórica e anunciou uma agenda radical, que incluiu
a criação do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), a nacionalização da
principal empresa de telecomunicações, a Cantv, o fim da concessão da emissora
oposicionista RCTV e uma ampla reforma constitucional.


A maior resistência inicial à agenda chavista foi uma inesperada rebelião na
base: o partido Podemos se recusou a diluir-se no PSUV e, aos poucos, opôs-se
também à reforma constitucional. E isso logo após conseguir, em dezembro,
759.826 votos à reeleição de Chávez (6,5% do total), sendo a segunda força do
oficialismo.


A surpresa seguinte para Chávez foi a onda de protestos de estudantes
universitários contra a não-renovação da concessão da RCTV, medida que, segundo
pesquisas de opinião na época, era rechaçada pela maioria da opinião
pública.


Assim como ocorreu com o Podemos, os estudantes fazem uma dura oposição à
reforma constitucional, protagonizando protestos que muitas vezes terminaram em
choques com policiais e chavistas.


A terceira surpresa desagradável para Chávez foi o rompimento do general da
reserva Raúl Isaías Baduel, um colaborador antigo que até julho estava no
comando do Ministério da Defesa. Recentemente, Baduel chamou a reforma de ‘golpe
de Estado’, transformando-se em um dos porta-vozes contrários às
modificações.


Além desses desgastes políticos, Chávez também tem sido cada vez mais
responsabilizado pelo problema de abastecimento no país, que já dura cerca de um
ano e atinge produtos básicos, como leite e ovos.


Chávez tem negado as dificuldades e mantém a estratégia de vincular a
oposição ao ‘império americano’ e de concentrar a campanha em torno de sua
figura -com cerca de 60% de aprovação, ele é bem mais popular do que a
reforma.


‘Os que votam pelo ‘sim’ estão votando por Chávez, os que votam pelo ‘não’
estão votando contra Chávez’, disse ao encerrar a campanha.’


 


PARÁ
Fernando Barros de Mello


‘Violência é banalizada’, dizia Ana Júlia


‘Como senadora, Ana Júlia Carepa (PT), atual governadora do Pará, marcou sua
carreira com discursos condenando a violência contra mulheres. Em 2004, por
exemplo, afirmou que a agressão contra a mulher é ‘uma dimensão da violência
ainda mais banalizada’.


No mês passado, o Pará virou tema nacional, após a descoberta de que, em
Abaetetuba (137 km de Belém), uma menina de 15 anos permaneceu encarcerada com
mais de 20 homens. A menor foi submetida a estupros e violências seguidas.


Para o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), há uma diferença entre o que a
senadora pregava antes e o que faz na prática. ‘Normalmente, o PT sabe como
ninguém fazer oposição e discursos. Mas, quando eles recebem a responsabilidade
de administrar o Estado do Pará, não têm competência de organizar o governo’,
afirma.


Em 2003, a até então senadora Ana Júlia se dizia orgulhosa por ter sido
relatora da lei 10.778, que estabelece ‘notificação compulsória do caso de
violência contra a mulher que for atendida em serviços de saúde públicos ou
privados’.


No mesmo ano, apresentou requerimento pedindo ‘ao Ministério da Justiça
informações sobre a implantação do Programa de Administração Carcerária, no
Estado do Pará’.


Eleita para o Senado em 2002, ela exerceu o mandato até 2006. ‘Nós, grandes
mulheres, não queremos mais estar atrás dos grandes homens, queremos estar lado
a lado, sim, deles, construindo uma outra sociedade, justa, igualitária, humana,
lutando pela paz, porque nós, mulheres, que concebemos a vida, vamos defendê-la
até o último momento’, discursou em 2003.


Segundo Ana Júlia, um dos desafios do país seria a ‘liderança feminina no
cenário político e social’. ‘Consultei o significado da palavra liderança e pude
verificar que se trata de um conceito sempre ligado a um partido ou a um grupo.
Ou seja, sempre há um coletivo, não existe líder sem liderados.’


Em 2004, ela dizia que ‘mais do que o corpo, a violência atinge a alma,
destrói sonhos e acaba com a dignidade.’ Parafraseando o folclorista Câmara
Cascudo, segundo quem ‘o melhor do Brasil são os brasileiros’, disse, em 2005,
que ‘o melhor mesmo são as brasileiras’.’


 


Governadora não falará com imprensa nacional, disse assessoria


‘A Folha tentou entrevistar a governadora desde quarta-feira, quando a
assessoria de imprensa disse que, naquele dia, ela não iria ‘falar com a
imprensa nacional’, mas que o pedido seria ‘encaminhado, para possível
agendamento’. A reportagem não conseguiu entrevistá-la nos dois dias seguintes.
Na sexta, Ana Júlia disse, no Pará, que a situação é grave e alegou problemas
‘estruturais’ e ‘culturais’.’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Globo testa ‘James Bond do amor’ em especial de Natal


‘‘Dicas de um Sedutor’, programa que a Globo testará neste final de ano,
trará Luiz Fernando Guimarães como ‘um quase James Bond, com um pé no
super-herói’, a orientar mulheres em crises amorosas.


A definição é de José Lavigne, diretor do especial e um dos autores, ao lado
de Rosane Svartman e Ricardo Perrone.


Segundo Lavigne, que também dirige o ‘Casseta & Planeta’, ‘Dicas de um
Sedutor’ nasceu ‘da idéia de Rosane, cansada de ver suas amigas de 30 e poucos
anos desiludidas, arrumando namorados que não querem se envolver com elas’.


No programa, que poderá virar seriado em 2008, Guimarães será Santiago, um
‘supersensível’ que abre uma agência de ‘gerenciamento amoroso’ após ver sua
filha, de 16 anos, ser enrolada pelo namorado.


‘Ele ajuda as mulheres a desvendarem os segredos dos homens. Santiago é um
traidor dos homens’, diz Lavigne.


Segundo o diretor, Santiago não é apenas experiente no amor. Também possui
uma capacidade de ‘escaneamento’: ‘Ele tem uma personalidade muito aguçada para
detectar problemas. Só de ver uma mulher, em um restaurante, ele já descobre o
problema dela’.


O personagem, diz, não tira proveito de seus ‘poderes’. ‘Ele tem uma ética.
Não ‘pega’ nenhuma cliente. Mas tem namorada e pratica os golpes que ajuda a
desvendar’, adianta.


Entre as clientes de Santiago, ‘que também presta assistência gratuita’,
estarão Claudia Abreu e Roberta Rodrigues. As gravações começam quarta.


QUASE LÁ


Apesar das farpas trocadas entre José Padilha e GloboFilmes, estão cada vez
mais avançadas as negociações do cineasta com a Globo para transformar ‘Tropa de
Elite’ em série. Na rede, Padilha negocia com Érico Magalhães, um dos mais
diplomáticos executivos da Globo. Em entrevista ao ‘New York Times’, Padilha
disse que a Globo queria impor um final feliz a ‘Tropa de Elite’.


FÉRIAS FANTÁSTICAS


Depois de nove anos dando vida às mais diferentes mulheres no quadro ‘Retrato
Falado’, Denise Fraga, 42, deve se afastar do ‘Fantástico’ em 2008. Neste ano, a
atriz não foi feliz na revista da Globo. Seu novo ‘Te Quiero America’ foi mal
avaliado e acabou encurtado. Denise agora se prepara para gravar a minissérie
‘Queridos Amigos’. Ela interpretará Bia, uma perseguida pela ditadura militar
que reencontra os amigos após 20 anos, em 1989. ‘É bom sair um pouco da ilha [o
‘Fantástico’]. Não para descansar a imagem, mas para fazer uma coisa diferente,
noutro tom’, diz.


PÂNICO NA BAND


Sucesso na Argentina, Itália, Espanha, França e Israel e sete vezes indicado
ao Emmy Internacional, o humorístico ‘CQC – Caiga Quien Caiga’, algo como um
‘Pânico’ melhorado e mais político, terá versão brasileira no primeiro semestre
de 2008. A Band comprou o formato da produtora Eyeworks-Cuatro Cabezas e já está
à procura de atores para montar o elenco nacional. A emissora, por enquanto, não
revela mais detalhes da produção. Original da Argentina, o ‘Caiga Quien Caiga’
(expressão que pode ser traduzida como ‘doa a quem doer’) é tido como um
programa ‘moderno, com alto teor de acidez e irreverência’. Os alvos prediletos
de seus humoristas são as autoridades e os políticos. Tem tudo para pegar no
Brasil.


DONA DA HISTÓRIA


Criada por Íris Abravanel, mulher de Silvio Santos, a novela ‘A Revelação’
pode estrear no SBT já em 2008. A emissora negocia com a Televisa, com quem tem
contrato de exclusividade total, uma brecha para poder produzir um texto
brasileiro. Se a Televisa não ceder, a história -que Íris escreve com cinco
roteiristas, sob supervisão de Yves Dumont- só poderá estrear em 2009.


Pergunta indiscreta


FOLHA – Luciana, o que você fez para dar certo?


LUCIANA GIMENEZ – (apresentadora do ‘Superpop’) – Eu dei certo, pois tudo o
que faço é com muita paixão!’


 


Laura Mattos


Febre do poste


‘Depois de amanhã é o grande dia. A estilista Márcia, 34, vai deixar as
filhas com a babá e levar o marido ao motel. Na suíte, dará a ele, com quem é
casada há dez anos, seu presente de aniversário: um show de pole dancing, a
dança do poste, que há dois meses ensaia secretamente em uma academia da Vila
Madalena, em São Paulo.


A modalidade, na qual a mulher, de salto alto e roupa sensual, dança e faz
acrobacias em uma barra vertical, deixou de ser exclusividade das dançarinas de
striptease e se tornou sucesso entre mulheres ‘normais’. Em vários países, como
EUA, China, Portugal, Inglaterra e Argentina, é a nova onda das academias, que
instalam dezenas de postes nas salas de aula. A Demi Moore de ‘Striptease’
baixou também nas celebridades. A cantora Britney Spears, depois de ter aulas
particulares com a patricinha Paris Hilton, gravou um clipe no qual dança o pole
dancing. A top model Kate Moss sacudiu o esqueleto no poste em videoclipe do duo
roqueiro White Stripes. Na semana retrasada, um cassino de Las Vegas realizou um
concurso no qual pagou US$ 10 mil à melhor pole dancer.


A febre começa a chegar ao Brasil, impulsionada por duas novelas -Flávia
Alessandra dança de forma ousada em ‘Duas Caras’, da Globo, e Juliana Baroni faz
uma performance mais comportada em ‘Dance Dance Dance’, da Band. Dois programas,
o ‘Pânico’, da Rede TV!, e o ‘A Noite É uma Criança’, da Band, farão
concursos.


Em São Paulo, a pioneira é a Galeria Pilates, na Vila Madalena, onde a Folha
fez uma aula (leia ao lado). Há um ano, quando a academia foi inaugurada, só
duas alunas se interessaram. Agora são 25. Além das aulas (R$ 30 cada uma),
Kitty do Rio vende um CD com músicas para strip e, pelo salgado preço de R$
1.700, até um poste para ser instalado em casa.


A estilista Márcia e a advogada Carol (os nomes foram trocados a pedido das
entrevistadas), 38, se matricularam com a intenção de malhar e preparar uma
coreografia para os maridos. Descobriram um motel que tem suítes com barras.
Carol escolheu o Natal para presentear o marido. ‘Se você ler no ‘Notícias
Populares’ ‘Marido é assassinado no motel’, pode saber que é porque ele deu
risada quando dancei’, brinca. ‘Eu mato com o salto.’


Os maridos nem imaginam que elas treinam a dança que gerou polêmica em ‘Duas
Caras’ -o Ministério da Justiça quer subir a classificação de 12 para 14 anos.
Carol, casada há quase 15 anos, dois filhos, nunca fez strip para o marido. ‘O
que virá com a dança ninguém sabe’, diverte-se a advogada.


Kitty, 47, era professora de dança moderna e há dois anos começou a pesquisar
vídeos de pole na internet. ‘É uma boa atividade física. Trabalhamos o
alongamento, abdominais e a parte cardiovascular.’


Outra que está faturando com a onda é a ex-stripper Alexandra Valença, 26.
Dançarina de casas de strip e suingue (troca de casais), foi contratada pela
Globo para ensinar pole dancing a Flávia Alessandra. Suas aulas, antes restritas
às garotas das boates, foram abertas a qualquer dona-de-casa. E já são 15 as que
pagam R$ 200 por mês para freqüentar aulas vespertinas em pleno palco do clube
de strip Solid Gold, em Moema (zona sul de SP). Ela também abrirá suas aulas às
‘mortais’ na casa de suingue Enigma Club, e no sex shop Artes Sensuais, ambos em
Moema.


A ‘personal sex trainer’ Fátima Moura também pegou carona com a pole dancing
e incluiu passos da dança do poste em seus workshops (R$ 150).


As professoras dizem que não é preciso uma performance perfeita, só entrar no
clima. Para os homens, a regra é uma só: não rir em hipótese alguma.’


 


Bia Abramo


O congestionamento de novelas


‘QUEM VÊ tanta novela? Nada menos do que 11 novelas, contando com as
reprises, vão ao ar todos os dias da semana na TV aberta.


A partir das 20h, começa um verdadeiro congestionamento. O SBT dá a largada
com ‘Amigas e Rivais’, às 20h15, e a maratona de vilões, mocinhas, amores
possíveis e impossíveis só termina com o final de ‘Caminhos do Coração’, às
22h30. Isso só na fatia mais disputada do horário nobre, porque antes vêm as
novelas das seis e das sete da Globo e, de tarde, há reprises no SBT, na Globo e
na Bandeirantes, além de ‘Malhação’.


Essa situação é um tanto circunstancial, mas talvez possa constituir uma
outra explicação, bem mais simples, para a crise de ibope das novelas da Globo.
É novela demais e, no fundo, são todas muito parecidas. Olhando de perto, as
diferenças não são menores do que as semelhanças.


Mesmo formato, mesma matriz melodramática, mesmo ritmo -só muda de canal e/ou
de horário. Aliado a alguma concorrência que façam outras mídias (internet, TV
paga, DVD), esse excesso pode dar sua contribuição, sobretudo, para as
dificuldades de fidelização na novela. A cena da novela 1 está chata? Zapeia-se
para a outra, da emissora concorrente, que lá vai ter uma outra cena mais
excitante.


Simples assim.


Como o passo da novela é lento, arrastado, não faz lá muita diferença perder
um capítulo aqui e ali; acompanha-se a trama de qualquer maneira. Além disso, os
‘próximos capítulos’ deixaram de ser um mistério: a informação sobre o que vai
acontecer na novela circula com uma antecedência que é possível o espectador
escolher se vale a pena ver ou não determinado capítulo.


Todos esses elementos podem apontar para uma mudança que está para além do
alcance do que se pode fazer em termos de história e/ou produção da novela.
Trata-se, antes, de transformações que incidem nos hábitos e nas maneiras de ver
novela.


***


Difícil escapar de comentar o bafafá em torno de ‘Duas Caras’. Duas semanas
atrás, esta coluna sugeriu que o blog mantido por seu autor, Aguinaldo Silva,
andava mais excitante do que a trama da novela. A coluna errou. Depois de férias
antecipadas, auto-exílio em Portugal, passaporte vencido, crise de hipertensão
e, por fim, volta triunfal, quem tem razão é o Tutty Vasques: ‘É o primeiro
autor de novela que vira protagonista de sua trama’, disse em seu blog,
blog.estadao.com.br/blog/tutty.


Aguardemos novas e surpreendentes reviravoltas.’


 


PROIBIDO FOTOGRAFAR
Marco Aurélio Canônico


Novo site abriga fotos tiradas em locais proibidos


‘A plaquinha é familiar para os freqüentadores de museus, shows, galerias,
teatros: ‘É proibido fotografar’.


Como nem todo mundo respeita o sinal (afinal, quando você vai estar em frente
ao ‘Davi’ de Michelangelo de novo?), há um vasto arquivo de fotos proibidas
espalhadas por aí, e foi para juntá-las e deixá-las acessíveis que foi criado o
www.strictlynophotography.com.


Lançado há cerca de um mês, o site já reúne 1.500 fotos que foram enviadas
por usuários comuns, registrando coisas tão distintas quanto obras de Andy
Warhol, um treinamento militar em Chiapas (México), um show de Bob Dylan e, sim,
o ‘Davi’ de Michelangelo.


‘Não somos um site de paparazzi’, disseram os criadores do Strictly No
Photography (estritamente proibido fotografar) à Folha, por e-mail.


‘Nosso objetivo é construir referências que não existiam. É também sobre
liberdade. Fala-se muito em discurso livre, mas e a liberdade de visão? Como
eles podem colocar câmeras minúsculas em nosso celulares se não querem que
fotografemos?’, afirmou o grupo, que preferiu não se identificar nem dizer sua
nacionalidade.


A participação no site é aberta a qualquer pessoa e já há colaboradores
registrados de diversos países, incluindo o Brasil. ‘Recebemos fotos de gente de
Porto Alegre, Brasília, São Paulo e Rio. Queremos mais fotos do Brasil, o resto
do mundo certamente quer vê-las.’


Um dos brasileiros participantes -que usa o codinome jewbr (judeu br)- enviou
uma série que ganhou destaque no site, mostrando o checkpoint de Atarot, na
fronteira entre Rammalah e Jerusalém.


Na encolha


Previsivelmente, a maioria das fotos disponíveis no site não chama atenção
por sua qualidade artística, já que não são feitas por profissionais e as
condições em que são obtidas não permitem muito capricho.


A graça está em ver locais de acesso restrito e imagens de obras de arte (de
gente como Warhol, Damien Hirst, Banksy) e de museus notórios por seu rígido
controle de fotos.


Segundo os organizadores, não houve até agora ameaças de processo por parte
dos fotografados. ‘Estudamos a fundo antes de criar o site, não estamos
infringindo lei nenhuma.’’


 


LITERATURA
Maria Lúcia Pallares-Burke e Peter Burke


Hiato de uma vida


‘Dada a importância de Gilberto Freyre na história intelectual do Brasil, ele
certamente merece uma biografia extensa que acompanhe o desenvolvimento de seu
pensamento, colocando seus muitos livros e artigos em seus contextos culturais.


O livro de Enrique Larreta e Guillermo Giucci [‘Gilberto Freyre – Uma
Biografia Cultural’, tradução de Josely Vianna Baptista, ed. Civilização
Brasileira, 714 págs., R$ 80] propõe-se a fazer exatamente isso, mas se
restringindo ao período 1900-1936. Os autores reivindicam a novidade de seu
ambicioso empreendimento referindo-se ao ‘exame preciso da documentação
histórica’ a fim de corrigir uma falha nos estudos freyrianos, marcados, como
dizem, por ‘um hiato entre o conhecimento de fontes primárias sobre Gilberto
Freyre e a acumulação de comentários baseados em leituras secundárias’.


Infelizmente o livro não é tão inovador quanto os autores pretendem.
Diferentemente de vários estudos recentes como, por exemplo, os de Ricardo
Benzaquem, Ronaldo Vainfas, Marcos Chor Maio, Antonio Dimas, Simone Meucci e
Jeffrey Needell, ele não oferece ao leitor nem novas interpretações do trabalho
de Freyre nem a apresentação e discussão de novos documentos importantes. É, ao
contrário, essencialmente um trabalho de síntese.


Ora, trabalhos de síntese são obviamente indispensáveis, e tão mais
bem-vindos quanto escritos de modo acessível e fluente como este.


No entanto, mesmo como um trabalho de síntese, a nova biografia está aberta a
sérias críticas, duas em especial: utiliza acriticamente muitas de suas fontes e
reconhece insuficientemente o trabalho de outros estudiosos de Freyre. Os dois
autores contam a história do jovem Freyre (em detalhes nem sempre
significativos) baseando-se amplamente nas palavras do próprio biografado, um
autor que falava muito de si mesmo e que, como tantas figuras ilustres, esteve
muito envolvido na sua auto-apresentação.


Textos de Freyre -desde o conhecido ‘diário’ ‘Tempo Morto’ [Global], que é
uma autobiografia em forma de diário, até os menos conhecidos, como um longo
manuscrito autobiográfico, a ser publicado proximamente também pela Global- são
citados e amplamente parafraseados, fazendo com que grande parte dos capítulos
iniciais da biografia seja um pastiche do rico material autobiográfico que
Freyre deixou.


‘Ficções da memória’


Apesar de Larreta e Giucci estarem aparentemente conscientes da propensão de
Freyre para o que eles chamam de ‘automistificação’ ou ‘auto-estilização’ e de
se referirem em nota ao caráter problemático de ‘Tempo Morto’ como fonte
histórica, eles desconsideram suas próprias advertências, lendo literalmente
como narrativa de vida o que não passa, muitas vezes, de ‘ficções da memória’,
ou seja, palavras de um homem maduro, de prosa brilhante e convincente,
revivendo sua juventude.


Como resultado, vemos opiniões de Freyre sendo apresentadas como fatos
consagrados, enganos serem perpetuados e recordações idealizadas pela nostalgia
sendo tomadas como documentação de realidades vividas. Para só mencionar dois
exemplos, seu amigo Bilden não ‘afogou-se no álcool’ e Oscar Wilde não era
‘considerado vulgar’ na Oxford que Freyre conheceu, como é afirmado.


Com um sistema de notas nada convencional, para não dizer totalmente falho,
que confunde o leitor, ao invés de esclarecê-lo, o livro lhe dá a entender que
esses são ‘fatos’ pesquisados pelos autores, quando são, na verdade, opiniões de
Freyre. É ele que escreve em ‘Tempo Morto’ que em Oxford ‘quase não se fala de
Oscar Wilde. É considerado vulgar’.


Já o modo como os autores tratam de seus muitos predecessores no estudo de
Gilberto Freyre levanta outras sérias questões sobre procedimento intelectual.
Muitas vezes eles resumem interpretações de outros estudiosos sem dar as devidas
referências no texto ou em notas, de tal modo que leitores incautos ou
desinformados provavelmente lhes darão crédito por descobertas e interpretações
que não são originalmente suas. Mas, muito mais importante do que isso, tal
procedimento representa uma grande descortesia para com o leitor e um
empobrecimento lamentável do diálogo intelectual.


Biografia interrompida


Para citar um único exemplo, em três ocasiões eles discutem o diálogo de
Freyre com autores espanhóis, como Angel Ganivet, sem fazer nenhuma referência
ao livro de Elide Rugai Bastos, ‘Gilberto Freyre e o Pensamento Hispânico’
[Edusc], que trata magistralmente do mesmo assunto. A parte mais valiosa e
original do livro não é tanto a biografia, mas os comentários de textos de
Freyre e de seus contemporâneos, incluindo a discussão dos primeiros críticos de
‘Casa-Grande e Senzala’ [ed. Global], apesar de que aqui novamente os autores
devem mais do que admitem ao seu predecessor Edson Nery da Fonseca.


A biografia é interrompida em 1936 e é afirmado que a partir dessa época a
obra de Freyre seria ‘sobretudo a ampliação e o desenvolvimento das idéias e
intuições anteriores’. Para quem acredita, no entanto, que uma biografia tem de
dar espaço para as transformações, o fluxo e as contingências da vida -e
resistir ao impulso de estruturar a vida de alguém muito cedo e redutoramente
num padrão de explicação- resta muito a ser feito.


No nosso entender, um grande desafio é agora reconstruir, analisar e
interpretar as atividades e o pensamento de Freyre entre 1936 e 1987, quando ele
se tornou um ídolo, ou uma ‘instituição nacional’, como dizem os autores, e, tal
como um monumento coberto de grafite, passou a ser venerado por uns e execrado
por outros.


MARIA LÚCIA PALLARES-BURKE é professora aposentada da USP e pesquisadora
associada do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Cambridge. É
autora de ‘Gilberto Freyre – Um Vitoriano dos Trópicos’ (Unesp).


PETER BURKE é professor de história cultural da Universidade de Cambridge e
autor de ‘Uma História Social do Conhecimento’ (Zahar). Escreve na seção
‘Autores’, do Mais! .’


 


CULTURA
Antoine Compagnon


Paris em brasas


‘‘A morte da cultura francesa’: esse é o grande título na capa do novo número
da versão européia da revista ‘Time’ (3/12). A edição norte-americana não
considerou necessário publicar o artigo: sua abstenção confirma que, do ponto de
vista da Entertainment Industry (a Time Warner também é proprietária de AOL, HBO
e CNN), a cultura francesa já está bem enterrada -decididamente nula e
inexistente. É uma velha arenga. Há três anos, o ‘London Review of Books’
publicou dois artigos tonitruantes do sociólogo marxista Perry Anderson sobre ‘A
Queda da França’ (em 2/9 e 23/9/ 2004).


Don Morrison, o responsável pela edição européia de ‘Time’, houve por bem
enumerar os sintomas do mal cultural francês: 727 novos romances nas livrarias
no início de 2007, mas menos de uma dúzia traduzidos nos EUA por ano; cerca de
200 filmes produzidos por ano na França, mas quase 50% das receitas de
bilheteria para o cinema americano; Paris abandonada pela criação musical e pelo
mercado de arte. Tudo isso apesar de um orçamento para a cultura desproporcional
(1,5% do PIB, contra 0,7% na Alemanha, 0,5% no Reino Unido, 0,3% nos EUA).


Em suma, uma cultura sob alimentação intravenosa, amplamente subvencionada
pelo Estado, as regiões ou os municípios, mas sem ecos além das fronteiras. As
causas desse isolamento são citadas: o francês é somente a 12ª língua falada no
mundo; a cultura de Estado desencoraja as iniciativas privadas; os subsídios
permitem que a criação sobreviva internamente, sem enfrentar o mercado mundial;
o ‘nouveau roman’ e a teoria literária esterilizaram a ficção, embora os
franceses prefiram ler romances épicos americanos.


Sem dúvida poderíamos alegar que Paris é o destino preferido dos turistas de
todos os países, dos americanos em particular, que o francês continua sendo a
principal língua estrangeira ensinada nos EUA (pois o espanhol não é mais uma
língua estrangeira) ou que ‘Suíte Francesa’, de Irène Némirovsky, prêmio de
tradução da Fundação Franco-Americana em 2006 (eu fiz parte do júri), está há
várias semanas na lista de best-sellers do ‘New York Times’.


Três dos principais acontecimentos musicais deste outono em Nova York nos
foram oferecidos por Pierre Boulez, substituindo Claudio Abbado na direção da
orquestra do Festival de Lucerna na ‘Terceira Sinfonia’ de Mahler, no Carnegie
Hall; pelo pianista Pierre-Laurent Aimard, em Haydn, Mozart e Beethoven com a
orquestra de câmara Mahler; e por Natalie Dessay, durante sua estréia na
Metropolitan Opera em ‘Lucia di Lammermoor’. Mas a bela contrapartida de Irène
Némirovsky não recompensa a literatura viva, e Boulez não é mais um jovem.
Assim, seria irracional ignorar o veredicto de nossos amigos americanos sobre a
pane da cultura francesa.


Olhar para si mesmo


Vistos de além-Atlântico, depois do existencialismo e do estruturalismo,
depois de Malraux, Sartre e Camus, ou Barthes, Foucault e Derrida, os artigos de
Paris não inspiram mais a vanguarda intelectual. Eu mesmo leio os últimos Philip
Roth, Thomas Pynchon ou Don DeLillo com mais vontade que a última autoficção de
Saint-Germain-des-Prés [bairro de Paris], farsa minimalista ou ditado
pós-naturalista.


Segundo Douglas Kennedy, citado pela ‘Time’, enquanto ‘a ficção
norte-americana trata da condição americana, os romancistas franceses fazem
coisas interessantes, mas o que eles não fazem é olhar para a França’.


Como as regras do jornalismo norte-americano exigem sempre ‘tornar positivo’,
o editor europeu da ‘Time’ pelo menos nos afaga a alma na conclusão. Afinal, não
fazemos às vezes bons filmes, como ‘Taxi’, de Luc Besson, ou ‘Amélie Poulain’?
Acontece que eu os vi (é o tipo de filme aos quais a Air France expõe os
prisioneiros de seus aviões), mas eles não me dão motivos especiais para ter
esperanças.


Mais seriamente, tendo acabado com o colonialismo, a França se tornou ‘um
bazar multiétnico de arte, música e escrita das periferias e de cantos díspares
do mundo não-branco’, o que a torna ‘um paraíso para os amantes das culturas
estrangeiras’. Que a cultura francesa pare, portanto, de choramingar sobre sua
decadência para se realimentar em suas margens, que ela se abra sem
ressentimentos à globalização -essa é a recomendação da ‘Time’. Adotemos a
receita multicultural e estaremos salvos.


Mas atenção! Como metrópole da diáspora pós-moderna, como capital do mundo do
século 21, Paris não será rival de Nova York, não mais que na Bolsa ou nas salas
de leilões.


Romance no prelo


A saída do declínio passa pela refundação da escola, a volta à moda da
leitura, a reparação do hiato entre a literatura e o mundo, a introdução do
ensino artístico na escola secundária, a concorrência das universidades ou a
liberalização dos assuntos culturais, como prescrevem o presidente da República
e seus ministros da Educação Nacional, do Ensino Superior e da Cultura?


Talvez, mas apostemos sobretudo, para desmentir todos os Perry Anderson e Don
Morrison, que o romance da França contemporânea está no prelo.


ANTOINE COMPAGNON é professor nas universidades Columbia (EUA) e Paris 4
(França). A íntegra deste texto foi publicada no ‘Le Monde’. Tradução de Luiz
Roberto Mendes Gonçalves .’


 


MULHER MARAVILHA
George Gene Gustines


Ela, enfim, tem a força


‘Com a publicação da edição nº 14 da ‘Mulher Maravilha’, que chegou às lojas
há duas semanas, Gail Simone se tornou a escritora regular das superaventuras
dessa amazona espantosa, publicadas pela DC Comics. Ela é a primeira mulher a
ser escritora regular nos 66 anos de história da personagem. É a iniciativa mais
recente da DC Comics para promover a imagem da Mulher Maravilha, que ocupa o
terceiro lugar no rol dos super-heróis da companhia, perdendo apenas para
Superman e Batman.


Simone conta que desde cedo foi leitora ávida dela, tendo seu hábito sido
auxiliado pela recepção irregular do sinal televisivo. Os programas que chegavam
até sua família eram ‘ou maçantes ou de golfe’. Na Universidade de Oregon, que
freqüentou por dois anos no início dos anos 1980, suas matérias principais foram
redação criativa e teatro.


Em 1999, durante o que descreveu como ‘uma fase difícil’, foi aconselhada a
tentar alguma coisa criativa. Isso a levou a criar ‘Women in Refrigerators’
[Mulheres em Geladeiras], uma crônica on-line do sofrimento vivido por
personagens femininos de quadrinhos. O site chamou a atenção. ‘Eu estava dura e
passando fome. Basicamente, precisava descobrir uma maneira de ganhar a vida’,
disse. ‘Ser cabeleireira ainda era um trabalho de tipo criativo.’


O fato de ter crescido pobre a ensinou a contar com uma profissão
alternativa, além dos trabalhos artísticos que não lhe rendiam dinheiro
suficiente para viver.


Atrasos


‘Quando você pega esses personagens que já existem há 50 ou 60 anos
-especialmente quando, como foi o meu caso, o trabalho anterior era de
cabeleireira-, é algo que assusta um pouco’, disse ela.


Diferentemente da ascensão relativamente direta de Gail Simone, a história
recente da Mulher Maravilha vem tendo alguns altos e baixos. Sua HQ foi
relançada em 2006 por Allan Heinberg, conhecido roteirista de TV. Mas a história
em cinco partes, que começou em junho de 2006, sofreu vários atrasos e só foi
concluída em setembro passado, como edição especial.


A próxima na linha foi Jodi Picoult, autora de best-sellers que construiu uma
trama em cinco partes vinculada a uma minissérie separada em quadrinhos sobre um
ataque contra os EUA pelo povo da Mulher Maravilha, as amazonas. O livro foi
lançado dentro do prazo, mas perdeu alguns leitores. Simone reconhece as
frustrações causadas pelos adiamentos: ‘Pretendemos terminar dentro do prazo’.


A primeira história de Simone vai tratar de uma tentativa (nunca antes
mencionada) de assassinato da Mulher Maravilha no próprio dia de seu nascimento,
e a idéia é que saia em quatro edições. ‘Temos o primeiro e o segundo ano já
mapeados’, disse Simone. ‘Pretendo continuar por aqui enquanto a DC Comics
quiser me manter.’


A íntegra deste texto saiu no ‘New York Times’. Tradução de Clara
Allain.’


 


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