Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Folha de S. Paulo

30/06/2009 na edição 544

SENADO
Editorial

A crise continua

‘ARRASTA-SE , por um caminho já muitas vezes percorrido de descrédito e denúncias, a crise que acomete o Senado Federal. Concentra-se hoje na figura de seu presidente, José Sarney (PMDB-AP), como anteriormente aconteceu com Renan Calheiros, Jader Barbalho ou Antonio Carlos Magalhães.

Mudam os nomes, o problema permanece. A instituição se tornou território dividido entre um grupo de mandatários que parece reproduzir, no plano federal, o gênero de atitudes que sempre lhes garantiu, em seus Estados de origem, o domínio quase feudal da máquina pública.

O sentido do termo ‘máquina pública’ parece, aqui, especialmente apropriado -na medida em que as técnicas do empreguismo, da utilização de funcionários e verbas de exercício do mandato para fins estritamente pessoais e da troca de favores parecem funcionar de modo perfeitamente azeitado e automático.

Aceite-se a visão mais benévola possível do fenômeno -e o quadro não será menos deprimente. Não é impossível, dadas as condições vigentes, que alguns senadores até mesmo tenham ficado sinceramente surpreendidos ao se verem criticados por procedimentos que, na sua rotina de privilégios e de desconsideração pela conduta exigida pelos cidadãos, se lhes afiguravam como normais.

Não seria impossível, tampouco, que alguns senadores nem mesmo soubessem dos funcionários fantasmas que tinham lotados em seus gabinetes.

A multidão de apaniguados, a intransparência geral, os costumes cordialíssimos da camaradagem e da fisiologia -tudo contribui para que os senadores vivam não apenas num mundo separado daquele do conjunto da população, mas também num plano de mandarinato político em que as comezinhas tarefas de nomear parentes, providenciar mordomias e vantagens podem ser delegadas a prepostos de confiança, sem os incômodos da responsabilidade pessoal direta.

Numa de suas diversas declarações em meio à crise, o senador José Sarney afirmou que, ocupando um alto cargo político, não lhe competia gerir administrativamente a Casa, ou cuidar das contas ‘da despensa’. Disso, como se sabe, cuidam funcionários -servidores nomeados por senadores, vale ressaltar.

Ocorre que, se de alta política se trata, cumpre pensar no Senado como uma instituição a ser reformada em profundidade -eliminando a grande maioria dos cargos nomeados, impondo austeridade e transparência nas suas contas internas, rompendo com uma teia de vantagens das quais todos os seus membros se beneficiam.

Atribuindo a uma ‘campanha midiática’ a sequência de escândalos que atinge a Casa que preside, o atual presidente do Senado segue o caminho inverso. É aquele, bastante conhecido, do desgaste que atingiu vários predecessores seus; e que continuará condenando a instituição a ser não o palco de elevadas decisões, mas a despensa de luxo onde se abastecem os agregados e familiares dos donos do poder.’

 

Eliane Cantanhêde

Dolorosa decisão

‘BRASÍLIA – José Sarney perdeu a guerra da opinião pública e enfrenta agora outra guerra, em que ele é estrategista há meio século: a política. Trata-se de vida ou morte para este quase octogenário, último grande coronel da política brasileira com a saída de cena de ACM.

Sarney sabe guerrear e tem tropa e armas para evitar a renúncia à presidência. A mais poderosa delas é o apoio de Lula, a quem ele gritou por socorro na última quinta, quando soltou nota dizendo-se vítima de um complô político por (imagine!) ser aliado do governo e de Lula.

Parece piada, ou um contorcionismo esquizofrênico, já que Sarney é apoiado pelo oposicionista DEM e se sente apunhalado pelos petistas Tião Viana e Aloizio Mercadante. Mas é uma clara tentativa de usar Lula para aglutinar PT, esquerdas e aliados em geral no seu exército da salvação.

A segunda grande arma de Sarney é a falta de opções para substituí-lo. Ele próprio foi eleito por eliminação. Não havia outro. E não há. Uma regra na política é nunca deixar o vácuo para o adversário, para o azar, para surpresas. Até Collor só caiu depois de Itamar estar maduro no meio político, na mídia, no empresariado e até na área militar. Primeiro, constrói-se o sucessor. Depois, abre-se a vaga.

A situação, pois, está no seguinte ponto: Sarney não tem condições de ficar, mas quer e tem de ficar, enquanto Lula se move para garantir-lhe sustentação e a dupla PMDB e DEM tenta salvar sua hegemonia de muitos anos no Senado, rezando por uma trégua do ‘inimigo’ invisível que devassa as velhas práticas patrimonialistas dos Sarney. A munição acabou? Improvável.

Se, ao contrário de ACM, Jader e Renan, Sarney resistir, deve saber que mudar o final do filme é mudar também o papel do protagonista. O risco é deixar de ser presidente de fato e se contentar com a constrangedora posição de fantasma rondando a própria cadeira. Com todo o respeito, ele jamais será o mesmo.’

 

DITADURA
Folha de S. Paulo

Dilma contrata laudos que negam autenticidade de ficha

‘A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, encaminhou à Folha dois laudos técnicos, por ela custeados, que apontaram ‘manipulações tipográficas’ e ‘fabricação digital’ em uma ficha reproduzida pela Folha na edição do último dia 5 de abril.

A ficha contém dados e foto de Dilma e lista ações armadas feitas por organizações de esquerda nas quais a ministra militou nos anos 60. Dilma nega ter participado dessas ações. A imagem foi publicada pela Folha com a seguinte legenda: ‘Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu’.

O laudo produzido pelos professores do Instituto de Computação da Unicamp (Universidade de Campinas) Siome Klein Goldenstein e Anderson Rocha concluiu: ‘O objeto deste laudo foi digitalmente fabricado, assim como as demais imagens aqui consideradas. A foto foi recortada e colada de uma outra fonte, o texto foi posteriormente adicionado digitalmente e é improvável que qualquer objeto tenha sido escaneado no Arquivo Público de São Paulo antes das manipulações digitais’.

O laudo produzido pelo perito Antonio Nuno de Castro Santa Rosa da Finatec (Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos), ligada à UnB (Universidade de Brasília), chega às mesmas conclusões.

A ministra anexou o laudo da Unicamp em carta ao ombudsman da Folha. ‘Diante da prova técnica da falsidade do documento, solicito providências no sentido de que seja prestada informação clara e precisa acerca da ‘ficha’ fraudulenta, nas mesmas condições editoriais de publicação da matéria por meio da qual ela foi amplamente divulgada, em 5 de abril de 2009’, escreveu Dilma.

Em reportagem publicada no dia 25 de abril, intitulada ‘Autenticidade de ficha de Dilma não é provada’, a Folha reconheceu ter cometido dois erros na reportagem original. O primeiro foi afirmar, na Primeira Página, que a origem da ficha era ‘o arquivo [do] Dops’. Na verdade, o jornal recebera a imagem por e-mail. O segundo foi tratar como verdadeira uma ficha cuja autenticidade não podia ser assegurada, bem como não podia ser descartada.

O jornal também publicou um Erramos com os mesmos esclarecimentos. A ministra se disse insatisfeita, questionou a nova reportagem e decidiu contratar um parecer técnico.

Para a análise, os professores descartaram a imagem da ficha reproduzida pela Folha em sua edição impressa. Captaram na internet cinco imagens ‘com conteúdo similar ao utilizado pelo jornal Folha de S.Paulo’. Dentre elas, escolheram como ‘objeto do laudo’ a imagem divulgada no blog do jornalista Luiz Carlos Azenha, que reproduz artigos que criticam o jornal e questionam a autenticidade da ficha.

Para os peritos, a imagem do blog era a que tinha ‘a maior riqueza de detalhes’. Goldenstein disse à Folha que ‘todas as imagens são de uma mesma família’ e que a qualidade da imagem publicada pelo jornal não é boa o suficiente para ‘análise nenhuma’.

Os professores compararam a imagem com documentos reais que supostamente teriam alguma semelhança (papel, caracteres) com a ficha questionada. Trata-se de cópias de fichas de presos pela ditadura, hoje abrigadas no Arquivo Público paulista. Escolheram as produzidas entre 1967 e 1969.

Contudo, no Erramos e na reportagem publicados no final de abril, a Folha havia explicado que a origem da ficha não era o Arquivo Público. A imagem não é datada -relaciona eventos ocorridos entre 1967 e 1969, mas pode ter sido produzida em data posterior.

Para concluir que a fotografia foi ‘recortada e colada’, os professores compararam a foto de Dilma com fotos que encontraram no mesmo arquivo. A ficha questionada não informa que a foto de Dilma foi obtida naquele arquivo.

Sobre a impressão digital contida na ficha, os peritos apontaram não ser possível nenhuma conclusão, devido à baixa qualidade da imagem.

Crimes negados

Ouvido pela Folha na última quinta-feira, Goldenstein disse que não leu o blog do jornalista em que captou a imagem analisada e tampouco a reportagem original da Folha. ‘Não estou criticando o que a Folha fez. Vou ser bem sincero, eu nem li a reportagem original da Folha. Não cabe a mim julgar absolutamente nada. Meu papel é analisar essas imagens digitais que estão circulando na internet. O que a ministra me pediu: ‘É possível verificar, é possível um laudo sobre a autenticidade/origem da imagem? É possível dizer se vieram ou não do Arquivo Público?’.’

Doutor em ciência da computação pela Universidade de Pennsylvania (EUA), ele diz que foi o primeiro laudo externo que produziu em sua carreira. A ficha questionada era uma das imagens que ilustrava a reportagem original cujo título foi: ‘Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto’.

Na carta à Folha, Dilma escreveu: ‘Reitero que jamais fui investigada, denunciada ou processada pelos atos mencionados nesse documento falso e de procedência inidônea, ao qual não se pode emprestar nenhuma credibilidade’.

A Folha tem procurado checar a autenticidade da ficha. Foram contatados três peritos de larga experiência na análise de documentos e um especialista em imagens digitais.

Todos disseram que teriam dificuldades em emitir um laudo, pois necessitavam do original da ficha, que nunca esteve em poder da reportagem. Disseram que a análise de uma imagem contida num e-mail não seria suficiente para identificar uma eventual fraude.’

 

CENSURA
Raul Juste Lores

‘Blogs são imprensa livre que não temos’, diz blogueiro do Irã

‘Em fevereiro, o jornalista e blogueiro iraniano Roozbeh Mirebrahimi, 30, foi condenado pela Justiça iraniana a dois anos de prisão e 84 chicotadas, por ‘propaganda contra o sistema’, por ‘difamação do Supremo Líder’ e por ‘perturbar a ordem pública’.

A sentença saiu quando Mirebrahimi já estava em Nova York -ele fugiu há dois anos do Irã, depois de ficar desempregado nos primeiros dois anos do governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad, cuja reeleição no último dia 12 provocou uma inédita onda de protestos contra o regime islâmico.

‘Fiquei em uma lista negra’, diz o jornalista.

Mirebrahimi estava no grupo dos quatro primeiros blogueiros que foram presos no Irã, no final de 2004, depois de revelar detalhes de uma investigação sobre a morte de uma jornalista no país.

Ele apanhou, foi torturado e abusado sexualmente nos 60 dias em que ficou preso. ‘Envelheci trinta anos na prisão’ é o máximo que ele diz hoje sobre o período.

Formado em ciência política pela Universidade de Teerã, a melhor do país, ele nasceu em 1979, ano da vitória da Revolução Islâmica, em um vilarejo às margens do mar Cáspio. Filho de um taxista com uma costureira, Mirebrahimi morava em uma pequena casa na zona sul de Teerã, a mais pobre da capital, com a mulher, também jornalista e blogueira.

Tratado como herói na blogosfera iraniana, hoje ele edita um jornal sobre o Irã no exterior e colabora com a ‘resistência-cyber’, enviando programas que ajudam a driblar a censura iraniana para seus amigos que ainda estão no país.

Ele conversou com a Folha por telefone sobre as manifestações que perdem fôlego no Irã sob a repressão do regime. Mirebrahni diz que internet sozinha não faz revolução.

Passeata e CNN

Não se faz revolução só pela internet. É bom ter passeata, ter manifestação, com cartazes. O povo precisa estar na rua, fico pessimista ao ver que as pessoas estão apavoradas em casa, com medo de apanhar, da prisão ou de morrer. É bom conquistar blogs, mas precisamos estar na CNN, no ‘New York Times’, na imprensa tradicional. Achar que dá para mudar o regime só no Twitter [portal de mensagens breves] é ingênuo.

Driblar a censura

Há centenas de blogueiros iranianos, como eu, que tiveram que fugir do país. Uma de nossas responsabilidades é suprir quem ficou com os mais modernos filtros, vpns, proxies [mecanismos de conexão indireta] que sirvam para driblar a censura.

Blogosfera livre

A TV estatal iraniana tem martelado diariamente que os opositores são malvados, violentos, irresponsáveis. A raiva só aumenta. Com 30 anos de TV estatal iraniana, pouca gente nas cidades acredita no que ela fala, só mesmo em vilarejos, no campo. As pessoas buscam outras fontes de informação. A blogosfera é a imprensa livre que nós não temos.

De porta em porta

Quando o governo cortou toda a comunicação por celulares e tirou a internet do ar, tive amigos imprimindo discursos em papel e colocando por debaixo das portas. Outros gritam de janela em janela. Os jovens iranianos estão desesperados por mudança.’

 

***

‘Governo fez cada um se ver como repórter’

‘Na segunda parte de sua entrevista, Roozbeh Mirebrahimi conta por que as iranianas aparecem sem véu na página de relacionamentos Facebook.

Cidadão-repórter

Cada celular é uma câmera no Irã, então toda essa repressão será retratada. Ao expulsar a imprensa estrangeira, o governo fez com que cada iraniano se veja como um repórter. Antes das eleições, a blogosfera e a internet iranianas tinham muito de entretenimento, mas, com a crise, virou grito de guerra, de sobrevivência.

Não dá para o governo ‘desligar’ a internet o dia inteiro, porque isso prejudica os seus próprios interesses. Então, se a internet funciona três horas por dia, é nesse tempo que os jovens mandam centenas de fotos, vídeos, mensagens entre si e para o mundo.

Estados Unidos

Moro em Nova York e, ao contrário da propaganda iraniana, adoro os Estados Unidos. Na verdade, quando um governo tenta obrigar você a gostar ou a odiar alguma coisa, você acaba fazendo o oposto. Veja a Turquia, passaram décadas obrigando os turcos a serem seculares e eles se tornaram bem religiosos; já no Irã, tanto nos obrigaram a ser religiosos, que eu diria que temos uma das sociedades mais seculares do mundo muçulmano. E a juventude ama o Ocidente, a maneira de as garotas se vestirem, a liberdade dos namorados, a música, dançar à noite. A propaganda não funcionou.

Garotas sem véu

A internet é um espaço de liberdade que não temos no mundo real. Veja o Facebook no Irã. Todas as garotas colocam suas fotos sem véu, sem lenço, sem xador. Por quê? Porque elas não gostam de usar o véu e só usam em público porque são obrigadas. Então, no Facebook, que é uma rede social, e que você pode controlar o que só seus amigos verão, elas se comportam como gostariam se tivessem liberdade.

Sem emprego

Diz-se que reformistas e conservadores são iguais, mas há diferenças. Fui preso em 2004 por conta de textos no meu blog, fui torturado, foi horrível. O governo era do presidente reformista Mohammad Khatami [1997-2005], mas a polícia é dos ultraconservadores. Então o governo pediu minha libertação, houve uma comissão para interceder por mim, e fiquei preso só dois meses.

Com [Mahmoud] Ahmadinejad, as prisões triplicaram, e ninguém intercede por você. Ele também é totalmente contrário à liberdade de expressão. Perdi meu emprego como jornalista, jornais opositores foram fechados e passei quase dois anos sem trabalho. Aí decidi emigrar aos EUA.’

 

PUBLICIDADE
Cristiane Barbieri

Campanha de Obama leva prêmio em Cannes

‘A campanha de Barack Obama à Presidência dos EUA levou dois principais prêmios no Festival Internacional de Publicidade de Cannes. A campanha usou as ferramentas de internet para mobilizar os eleitores americanos em torno do então desconhecido senador.

O engajamento popular também arrecadou recursos a serem gastos na eleição, principalmente em mídia tradicional, que também influenciou muitos indecisos. A campanha venceu os prêmios Titanium e Integrated. ‘Essas categorias envolvem ideias que criam um movimento e estão longe de serem descartáveis’, afirma David Droga, presidente do júri.

‘Inspirar pessoas é o melhor que a publicidade pode fazer e essa campanha provou que pode fazer história’, disse.

Duas agências de propaganda brasileiras ficaram com o primeiro e o segundo lugar como Agências do Ano. A DM9DDB ficou em primeiro lugar e a AlmapBBDO, na segunda posição. Essa foi a quarta vez que a DM9 foi eleita Agência do Ano, sendo que a última vez tinha sido há dez anos.

Para ser elegível a essa posição, as agências têm de obter prêmios em duas de quatro categorias.

Um anúncio para TV também ligado à eleição americana recebeu menção honrosa na categoria filmes. É o Wassup’08, que mostra quatro amigos americanos falando ao telefone e, ao mesmo tempo, vivendo grandes tragédias como a Guerra no Iraque, o desemprego, a perda no valor das ações e mesmo um furacão. Nada os comove, até que Obama aparece na TV e eles vêm a perspectiva de mudança.

O Grand Prix da categoria filmes foi para a Philips. Interativo, ele permite que o internauta mude a trilha sonora e o roteiro. É possível também ver diferentes cenas dentro do filme. Ele pode ser assistido em http://www.cinema.phi lips.com/?ls=pt-pt.’

 

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O futuro da propaganda

‘Chaminés gigantescas foram viradas de cabeça para baixo em anúncios e se tornaram turbinas anticrise. Pedaços de outdoors passaram a ser vendidos aos consumidores, para que uma cervejaria pudesse continuar veiculando sua marca. Spots de rádio passaram a vender bilhetes de classe executiva, a preço de econômica, em sonhos de um maluco..

Na mão dos publicitários que mostraram seu trabalho no Festival Internacional de Publicidade de Cannes, a crise, como não poderia deixar de ser, ganhou seu lado mais criativo e até mesmo engraçado.

Descobrir como sair da recessão -e mesmo o que será desse mercado após uma eventual recuperação da economia mundial- é bem mais difícil. ‘Bem que eu gostaria de saber a resposta’, afirma Martin Sorrell, presidente do maior grupo de agências do mundo, o WPP, quando questionado sobre como será o mercado após a crise (leia a entrevista abaixo).

Além de teorizar muito sobre a recessão, os publicitários tentaram buscar pistas sobre o futuro, durante o encontro. Um seminário realizado na sexta-feira, por exemplo, reuniu grandes empresas como Procter&Gamble, Kraft Foods, Johnson&Johnson e McDonald’s para discutir a crise.

Segundo os anunciantes, o maior problema não é falta de recursos, mas traduzir os desejos do consumidor -mostrados de todos os ângulos em pesquisas, mas não interpretados corretamente. ‘Queremos gerar valor para nossos produtos’, diz Marc Pritchard, chefe de marketing global da Procter&Gamble. ‘É preciso que a comunicação interprete e traduza isso para o consumidor.’

A insistência das agências em fazer campanhas cada vez mais digitais, integradas, em redes sociais e repletas de novas modas a cada ano, também é apontada pelos anunciantes como exagerada. Os formatos tradicionais de mídia -mesmo nos países maduros- ainda são mais eficientes.

‘Em nenhuma dessas salas [do festival] se falou de publicidade tradicional’, diz Brian Perkins, vice-presidente corporativo da Johnson&Johnson. ‘Nós amamos televisão, colocamos um bom dinheiro em mídias tradicionais e vamos continuar a fazê-lo por um bom tempo’, observou.

Mary Dillon, chefe de marketing global do McDonald’s, concordou com Perkins e disse que a mídia tradicional ainda é o jeito mais eficiente de chegar ao consumidor. ‘Todos sabem que as pessoas passam cada vez mais tempo no computador’, afirmou Dillon. ‘Mas isso não quer dizer que elas serão atingidas pela publicidade.’

Eric Schmidt, presidente do Google, é claro, pensa o contrário. Segundo ele, os consumidores mudaram suas buscas por causa da crise, passam mais tempo pesquisando preços, mas continuam comprando.

‘As pessoas deixaram de buscar casas para ir atrás de advogados que cuidarão de suas dívidas e de financiamento para renegociação de hipotecas’, diz Schmidt. ‘Elas estão buscando como resolver seus problemas e também como fazer dinheiro pela internet.’

De acordo com Sérgio Valente, presidente da DM9DDB, com a crise, os clientes brasileiros -que já davam prazos restritos- passaram a exigir respostas ainda mais rápidas das agências. ‘Somos o antiácido da crise’, diz Valente.

‘Mesmo depois que ela terminar, teremos de ser ainda mais rápidos para ajudá-los em parceria’, afirma.

Além do ponto levantado por Valente, Ehr Ray, presidente da Borghierh/Lowe, aponta que também tende a aumentar a cobrança por resultados concretos. Um dos itens de maior peso, durante o julgamento das campanhas em Cannes, foi exatamente o retorno -em vendas, lembrança de marca ou mídia gerada- proporcionado por cada anúncio.

‘A proximidade com o anunciante, que se perdeu ao longo dos anos, deve voltar a ganhar força’, diz Ray. ‘Será a volta da dupla anunciante e criativo.’’

 

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Emergentes puxarão alta no setor, diz executivo

‘Martin Sorrell comanda o WPP, maior grupo de agências de propaganda do mundo. São 2.000 escritórios em 107 países, com mais de 135 mil empregados e US$ 15 bilhões em faturamento. No grupo, estão agências como JWThompson, Ogilvy e Hill&Knowlton. Considerado um visionário, Sorrell recebeu a Folha no hotel Carlton, em Cannes.

FOLHA – Como ficará o mercado de publicidade após a crise?

MARTIN SORRELL – Eu bem que gostaria de saber [risos]. Steve Ballmer [presidente da Microsoft] afirmou que o mercado de publicidade, em relação ao PIB, será igual ou menor no futuro. Acho que será igual ou maior.

Depende do que você define como publicidade.. Se envolver propaganda e serviços de marketing, como construção tradicional de marca, mídia, relações públicas, pesquisas de mercado, áreas digitais interativas, internet, entre outras, será definitivamente maior. Certamente, esse mercado vai crescer no Brasil, na América Latina, na Ásia, na Europa Central e do Leste, na África e no Oriente Médio. A visão de Steve é mais americana, de um mercado maduro. Nos Brics e no que chamamos de os próximos 11 [mercados emergentes], que respondem por 27% dos nossos negócios, os resultados vão crescer. A Europa Ocidental vai ficar estável, e nos EUA talvez cresçam um pouco.

FOLHA – Sua estratégia de diversificação é regional?

SORRELL – Temos três estratégias de crescimento. Uma é de novos mercados, que respondem por quase 30% do faturamento. Outra são novas mídias, que equivalem a 25% dos US$ 15 bilhões que faturamos ao ano. E, finalmente, entendimento do consumidor. São US$ 4 bilhões de pesquisas. Dados sobre consumidores são cada vez mais importantes.

FOLHA – Se no longo prazo a área vai crescer, como será no curto?

SORRELL – Este ano será muito difícil. No primeiro trimestre, tivemos baixa de 5,8% nos negócios, mas a América Latina teve alta. Em abril e em maio, houve mais pressão na região, mas ainda está estável. Esperamos que o Brasil, neste ano, tenha desempenho estável ou pequena queda. O México, apesar da gripe suína, está indo bem. A Colômbia também, e a Argentina está incrivelmente forte. Crescemos dois dígitos por lá, talvez por causa das eleições. A posição do Brasil no mundo está muito mais forte. Apesar de no curto prazo ser difícil, vamos ver um pouco de recuperação em janeiro de 2010. Vai parecer um pouco melhor porque, na comparação com o ano anterior, a base vai ser fraca.

FOLHA – No Brasil, a mídia tradicional segue muito forte. Quanto tempo isso vai durar?

SORRELL – O Brasil é um mercado dominado pela televisão, mas celulares, PCs e a penetração da internet estão ficando mais importantes. Jornais e revistas sentirão cada vez maior pressão das comunidades on-line e das redes sociais. O Brasil irá se tornar semelhante aos mercados maduros.

FOLHA – As empresas de tecnologia vão avançar na comunicação?

SORRELL – No ano passado, recebi num painel Google, Microsoft, Yahoo e AOL. As empresas de tecnologia ainda não entenderam -ou não querem aceitar- que são empresas de mídia. Elas não são diferentes, na nova área de mídia, de NewsCorp, Viacom, CBS ou Disney. São atores da mídia.’

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Gianecchini e Ximenes serão vilões em novela das oito

‘Cansado de ver Mariana Ximenes chorando e Reynaldo Gianecchini fazendo papel de mocinho? Graças a Silvio de Abreu, seus ‘problemas’ vão acabar. Os dois atores, ícones da geração 2000, interpretarão seus primeiros vilões na próxima novela do autor, a estrear na Globo em meados de 2010 -a trama substituirá ‘Viver a Vida’, que em setembro entra no lugar de ‘Caminho das Índias’.

Na novela, que tem o nome provisório de ‘Passione’, Gianecchini e Mariana formarão uma dupla de vigaristas que age entre São Paulo, onde a novela se passa, e uma cidade na região da Toscana, na Itália. O foco principal de suas falcatruas será uma riquíssima família paulistana. A personagem de Fernanda Montenegro será a matriarca dessa família.

Silvio de Abreu e Denise Saraceni, diretora-geral da novela, já escolheram as locações em que ‘Passione’ será gravada na Toscana. Abreu e Denise vão repetir a parceria de ‘Belíssima’ (2005). O autor, cujas marcas na teledramaturgia são a comédia e o policial, ainda não revela detalhes da trama.

A história terá duas fases. A primeira será na Itália e a segunda, no Brasil. No elenco, além de Mariana Ximenes, Reynaldo Gianecchini e Fernanda Montenegro, estarão Tony Ramos, Cleyde Yáconis, Sergio Brito, Cauã Reymond, Aracy Balabanian, Marcelo Médici e Leandra Leal. Fernanda Montenegro e Tony Ramos farão personagens que infernizam a vida dos outros.

Revelado em ‘Laços de Família’ (2000), Gianecchini fez no ano passado o protagonista de ‘Sete Pecados’, novela das sete. Mariana Ximenes foi mocinha sofredora em ‘A Favorita’ (2008) e em ‘Cobras e Lagartos’ (2006).

A PRIMEIRA VEZ

Aos 42 anos, a atriz Heloísa Perissé finalmente vai estrear em novelas. Estará em ‘Pelo Avesso’, próxima novela das seis da Globo. ‘Vão tirar minha virgindade’, brinca ela, que está em cartaz no Teatro Folha com ‘Advocacia segundo os Irmãos Marx’. ‘Sempre fui muito autoral, tive meus próprios projetos, mas chegou uma hora em que tive vontade de fazer novela’, diz. Heloísa será Taís, uma mulher ambiciosa e engraçada. ‘Ela é muito fogosa, usa roupas justas’, conta.

A EXCEÇÃO À REGRA

Apresentadora do ‘Starte’, programa sobre cultura e arte da Globo News, a jornalista Bianca Ramoneda (foto) vai aparecer em ‘Viver a Vida’, próxima novela das oito da Globo. Ela participa do primeiro capítulo, como repórter de um fictício programa de moda, e entrevista a protagonista Helena (Taís Araújo). A Globo tem como regra não permitir que jornalistas façam papéis fictícios em novelas, como será o caso, mas com Bianca foi diferente. É que ela também é atriz de cinema e teatro, o que justifica a exceção à regra.

ELENCO

Otávio Muller, Leonardo Medeiros, Viviane Pasmanter, Carolina Dieckmann, Felipe Camargo, Grazi Massafera, Antonio Fagundes, Daniel de Oliveira e Jairo Matos já estão confirmados na próxima novela das sete da Globo, ‘Bom Dia, Frankenstein’, de Bosco Brasil.

PEGADINHA

Na semana passada, vários sites atribuíram a Roberto Justus a frase ‘Estou pronto para uma nova jornada em minha vida’, sobre sua contratação pelo SBT. Mas Justus nunca disse isso. A frase foi tirada de um falso perfil do publicitário na rede social Twitter..

MÃOS VAZIAS

Eliana fechou contrato com o SBT, mas não conseguiu tirar da Record o diretor de seu programa, Carlos Cesar Filho. Cesinha, como é chamado, recusou a proposta de um salário bem acima da média do mercado. O profissional começou como estagiário de Eliana e só virou diretor graças à apresentadora. Ele não foi o único que se recusou a trocar a Record pelo SBT. É que boa parte das pessoas que trabalharam com Eliana não gostam da apresentadora. Acham-na ‘difícil’.

A BOLSA SOBE

Na próxima novela das oito, ‘Viver a Vida’, Camila Morgado será Malu, uma repórter de economia de um canal pago. A personagem será alvo do fetiche de Gustavo (Marcelo Airoldi), casado com Betina (Letícia Spiller). Segundo o autor, Manoel Carlos, Malu ‘desperta um enorme tesão’ no homem, que sonha transar com a jornalista enquanto ela ‘fala sobre o movimento da Bolsa de Valores, a cotação do dólar e notícias sobre a crise econômica’. A trama promete.’

 

***

Quem quer ser um milionário?

‘Fazia tempo que a TV brasileira não passava por dias tão agitados como nas últimas três semanas. A proposta da Record para tirar Gugu Liberato do SBT provocou uma reação em cadeia. Em resposta ao ataque, Silvio Santos passou a assediar profissionais da concorrente.

A disputa teve capítulos decisivos na semana passada. Na quinta, a Record anunciou a aquisição do passe de Gugu Liberato, que receberá R$ 288 milhões apenas em salários nos oito anos de contrato. Na véspera, o SBT já havia finalizado as negociações com Eliana.

Mas a troca de emissora mais surpreendente foi a de Roberto Justus, 54. Alçado à condição de apresentador pela Record, em 2004, o presidente e sócio do Grupo Newcomm (que comanda a maior agência de publicidade do país, a Young & Rubicam) é o mais novo empregado (ele prefere ser chamado de sócio) de Silvio Santos.

Especula-se que Justus ganhará cerca de R$ 1 milhão por mês. ‘Estão chutando. A única coisa que revelo é que fiz com ele [Silvio Santos] uma sociedade nos resultados do meu programa’, diz o ex-apresentador do reality show ‘O Aprendiz’.

As negociações entre Justus e SBT duraram só três dias. Começaram na quinta, 18, e foram fechadas na sexta, 19. O contrato de quatro anos, parcialmente redigido pelo próprio publicitário, foi assinado no sábado, 20. Consultada, a Record não cobriu a proposta do SBT.

‘O Silvio me ligou e fez uma pergunta: ‘Você tem contrato com a Record?’ Eu falei: ‘Não’, conta. Justus revela uma ponta de mágoa da Record. ‘A Record cometeu um erro, na minha opinião. Como é que você tem um apresentador que está com você há seis anos, produzindo o programa de maior rentabilidade da emissora, com as audiências de dois dígitos, com o público AB que trouxe para a emissora, e você não amarra esse cara a longo prazo, não faz um contrato com ele?’, diz, referindo-se a si mesmo.

A Record fazia um contrato para cada edição de ‘O Aprendiz’. O último vence na terça.

‘A Globo amarra atores e atrizes sem colocar no ar para não dar chance de perdê-los. É natural isso, construir relações de longo prazo com pessoas que te dão retorno. Não é possível! Eles não amarraram!’, diz.

Além disso, o ego de Justus foi seduzido por Silvio Santos. ‘Quando o Silvio me chamou na casa dele, ele falou: ‘Você é uma das poucas pessoas que conheci que tem um perfil parecido com o meu. Você tem talento de apresentador e é um grande empresário’, afirma.

Justus não tem dúvidas de que Silvio fala a verdade. ‘Eu comecei bem, mas terminei muito melhor’, diz, sobre sua atuação em ‘O Aprendiz’.

Conta que, caso continuasse na Record, faria apenas mais uma edição do programa. Estava na hora de descolar sua imagem da do reality, avalia.

Dois programas

A partir do final de agosto ou início de setembro, Justus ocupará a faixa das 23h à 0h30 das quartas do SBT. O contrato estipula que o horário não poderá mudar sem seu consentimento.

A ideia do apresentador é fazer dois programas por ano, um em cada semestre. Diz que os formatos ainda não estão definidos, que há uma equipe trabalhando nisso e que só tem dormido quatro horas por noite, de tanto pensar no assunto. Mas solta algumas pistas.

‘Não precisa ser um quiz show, mas um game, uma coisa que tenha dinâmica, que dê prêmios grandes, que as pessoas falem ‘Nossa, o Justus tornou a pessoa milionária!’. Isso combina comigo’, abre.

Justus nega que sua ida para o SBT seja um primeiro passo para, mais para a frente, comprar parte da emissora. ‘Nem sonhando eu tenho recursos para comprar o SBT’. Diz que, por enquanto, ‘está mais interessado na carreira de apresentador’, mas não nega que pode ir além. ‘Que eu tenho interesse de crescer nessa televisão, de fazer outras coisas, eu tenho.’

Sem demissão

Filho de imigrantes húngaros, Justus nasceu e cresceu em São Paulo. Seu pai era empreiteiro. Ele nunca foi empregado. Em 1981, fundou sua primeira agência de publicidade.

Além de apresentador, vem investindo na carreira de cantor. Há um ano, lançou um CD de covers, que vendeu 16 mil cópias. Empolgado, mostra ao repórter DVD em que, ao lado de Agnaldo Rayol, imita Frank Sinatra. ‘Nunca imaginei que conseguiria isso’, suspira.’

 

***

TV Record nega ter errado com Justus

‘A Record emitiu nota em que rebate a afirmação de Roberto Justus de que a emissora errou ao não fazer um contrato de longo prazo com ele.

‘A Record renovava os acordos com Roberto Justus seguindo a mesma sequência de compromissos com a dona do formato, a Mark Burnett. A empresa licenciadora do reality show só aceita negociar contratos a cada ano. Antes da final do último ‘Aprendiz’, acertamos que Justus faria, além do reality show, outro programa, e houve um acordo de um contrato mais longo’, diz a nota.

Cadeiras

A contratação de Gugu Liberato pela Record, e o ‘troco’ do SBT, com a conquista de Roberto Justus, beneficiou outros profissionais.

A apresentadora Eliana, levada de volta para o SBT após dez anos de Record, foi a que mais tirou proveito da situação. Ela corria o risco de não ter seu contrato renovado pela Record.

Após perder Justus e Eliana, a Record tratou de renovar rapidamente contrato com profissionais assediados pelo SBT. O jornalista Celso Freitas teve seu contrato estendido até 2014. A apresentadora Ana Hickmann assinou na quinta um novo contrato de oito anos. E terá um novo programa, semanal, além do ‘Hoje Em Dia’.

Preferido do Silvio Santos para o lugar do ‘Domingo Legal’, o ‘Pânico na TV’ acertou sua permanência na Rede TV!, na semana passada, por condições bem mais vantajosas.’

 

Silas Martí

‘Meu melhor amigo é o espelho’, ensina ‘Esquadrão da Moda’

‘Isabella Fiorentino chega atrasada e implora por uma pinça. Diz que devolve com um beijo na boca. Segundos antes de gravar o que acha o momento mais emocionante de seu ‘Esquadrão da Moda’, começa a costurar o cinto no colar.

‘É bom ter uma caixinha de costura para não ser pega de surpresa’, diz, esbaforida. Chega uma figurinista e esconde o lacinho de sua calcinha dentro da calça enquanto um cabeleireiro dá retoques no penteado com escovas e um secador que parece tirar do bolso..

Nem parece que Isabella e o stylist Arlindo Grund, quando não estão atrás das câmeras, ensinam os participantes do programa a se vestir melhor -com tática de guerrilha.

Na gravação acompanhada pela Folha semana passada, os consultores de moda abordam uma participante num desfile da São Paulo Fashion Week. Tânia Jannuzzi, funcionária pública com tara pela cor vermelha e igual paixão por decotes, é a vítima da vez, indicada pelo marido ao programa.

Na franquia brasileira do inglês ‘What Not to Wear’, levada ao ar às terças, pelo SBT, amigos ou parentes de alguém com notório mau gosto denunciam seus deslizes à produção.

Uma equipe do ‘Esquadrão’ então persegue, escondida, o delinquente do estilo, acumulando flagras para mostrar de uma só vez ao participante e à família. No que chamam de ‘momento plasma’, as cenas são exibidas num monitor desse tipo acompanhadas de comentários pouco ou nada simpáticos da dupla de apresentadores.

E vai daí a pior, porque o momento seguinte é a hora do lixo: Isabella e Arlindo jogam fora todas as roupas ‘medonhas’ e ‘cafonas’ da participante, que terá R$ 10 mil para montar um novo guarda-roupa.

Minutos depois de ser abordada e topar fazer parte do programa, Tânia recebe um telefonema da filha, que diz que passaram por lá e levaram todas as suas roupas. ‘Tudo? Não sobrou nada?’, reagiu. ‘Eu gosto das roupas que eu tenho. Estou com o coração na mão.’

Passado o susto, Tânia encara o espelho com as roupas velhas e é obrigada a admitir o horror.. ‘Na frente do espelho, elas veem que não dá mesmo para vestir aquilo’, diz Arlindo. ‘Aí cai o véu da cafonice.’

‘Cara de pavor’

Se pegam pesado? Isabella e Arlindo dizem que não. ‘Eu é que fico constrangida ao ver uma mulher com um superpotencial usando roupas medonhas’, diz Isabella. ‘Eu fico mal quando vejo uma mulher de 40 anos que se veste mal há 40 anos’, conclui Arlindo.

‘Não é nosso objetivo constranger, mas a gente tem que fazer um show’, diz o diretor do programa Aldrin Mazzei. ‘Nenhuma participante saiu do programa insatisfeita’, frisa.

Também desmente boatos de que é tudo armação. Ele diz que os participantes não sabem que estarão no programa até o momento da abordagem e que tudo é cancelado se descobrem antes da hora. ‘A cara dela é de pavor na hora da abordagem’, diz Mazzei. ‘Eu preciso que ela se surpreenda, é fundamental..’

Entre o flagra e os momentos finais, Isabella e Arlindo estudam a vida da participante e depois vão às compras com ela para compor os novos looks. ‘Se ela tem estilo, a gente mantém isso com tecidos mais nobres e roupas mais apropriadas’, diz Isabella. ‘A gente tenta levar um pouco de tendência para a pessoa, mas não é um programa sobre moda’, diz ele.

Tânia, como todas as participantes até agora, acaba concordando com as observações da dupla. ‘É assustador, eu fiquei chocada, mas agora eu sei que não preciso me vestir todo dia de vermelho’, diz ela. ‘Meu melhor amigo é o espelho; essa é a melhor dica da Isabella.’

PROGRAMA É UM DOS MAIS VISTOS DO SBT

Mesmo indo ao ar no mesmo horário que o reality ‘A Fazenda’, da Record, ‘Esquadrão da Moda’ tem marcado sete pontos de média no Ibope, índice satisfatório para o SBT. ‘Eles [‘A Fazenda’] têm as aberturas mais indecentes, é sempre a bunda de uma mulher’, diz o diretor do programa. ‘Tenho que competir só com consultores de moda.’

Além de estar entre os dez programas mais vistos da emissora, ‘Esquadrão’ tem 40% do público nas classes A e B e virou arma do SBT para atrair anúncios.’

 

Bia Abramo

A disputa pelo segundo lugar

‘É BRIGA de cachorro grande. A semana passada foi agitada pelos ataques do SBT à Record e da Record ao SBT. Até o fechamento desta coluna, a contagem de baixas estava assim: o SBT levou Roberto Justus e Eliana; a Record ficou com o apresentador Gugu Liberato. Há pilhas de dinheiro envolvidas em cada uma dessas negociações e em outras que, possivelmente, se seguirão. A transferência de Gugu para a emissora do bispo, por exemplo, chega à soma de R$ 300 milhões e é, segundo o colunista da Folha Online Ricardo Feltrin, maior negociação já feita com um único artista na TV brasileira. Os anunciantes devem estar estampando o mesmo sorriso de muitos dentes que enfeita o rosto de Gugu nas fotos em que aparece assinando o contrato. Nessas remexidas, contratos de publicidade são renegociados, há expectativa de aumento de audiência etc. Quem não vai ganhar nadica de nada, no entanto, é o espectador. Qual é mesmo a diferença entre ver a mesmice de Gugu Liberato ou Eliana em um ou outro canal? No caso de Roberto Justus, a diferença deverá ser para pior: se à testa do reality show ‘O Aprendiz’ ele funciona bem no papel de empresário/animador, com um programa semanal sabe-se lá se não teremos de aguentar seus incríveis números musicais… É um tanto desanimador quando fica assim tão claro que a concorrência entre as emissoras não tem nada a ver com a programação. Nenhum espectador é ingênuo a ponto de não entender que TV é um negócio, mas, ainda assim, quando esses números astronômicos vêm a público e a perspectiva de ter uma programação mais variada, interessante, divertida não está em nenhum lugar nesse horizonte, a gente se sente ainda mais trouxa… Essas transações de ‘mais do mesmo, só que em outro lugar’ falam muito sobre a natureza da concorrência na televisão brasileira. As emissoras, em geral, se aferram à mesmíssima maneira de fazer TV, apenas querendo roubar uma da outra um apresentador que deu certo, a fórmula da novela que já foi boa, as celebridades ou subcelebridades que estão em voga… Trata-se de repetir, de copiar, de tomar emprestado -e não de procurar novos caminhos, descobrir o que anda acontecendo com a audiência, inventar nem que seja um pouquinho. O problema é que, nessa toada, as outras alternativas de informação e entretenimento vão ganhando terreno -e uma hora, vai ser tarde demais para a TV aberta.’

 

AINDA SIMONAL
Claudio Manoel

Alguns probleminhas

‘Produtor de ‘Ninguém Sabe o Duro Que Dei’, sobre Wilson Simonal, critica reportagem publicada no Mais! de domingo passado

***

No último domingo, Simonal foi, mais uma vez, julgado e condenado. Desta vez, pela Folha, numa matéria sensacionalista, enorme (com destaque na primeira página e tudo), assinada por Mário Magalhães.

Foram diversas páginas, todas provocadas pela ‘descoberta de um fato novo’, um documento inédito que provaria de maneira cabal e definitiva que Simonal foi um informante do Dops. Então tá! Mas só que existem alguns probleminhas. Em primeiro lugar, o documento inédito não é inédito.

Ao tentar se defender da acusação de que teria sido mandante do sequestro do seu ex-contador, Simonal (orientado por seus advogados, segundo depoimento da própria vítima, no documentário ‘Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei’, meu, de Micael Langer e Calvito Leal) afirmou que havia prestado queixa anterior de supostas ameaças terroristas e, por isso, tinha pedido que o Dops investigasse.

O que o tal documento usado como base na reportagem diz é, mais ou menos, isto: Simonal tenta tirar o corpo fora do imbróglio policial que protagonizou dizendo que era alvo constante dos subversivos, porque simpatizava com o regime de 1964, e acreditava que o Dops poderia ajudá-lo, já que o órgão também atuava no meio artístico, à procura de opositores etc. e tal…

Por isso, ele emprestou seu carro (um Opala) para ajudar nessa ‘operação’.

Quando fui procurado pelo autor da já citada reportagem, seu tom era grave. Ele havia descoberto documentos, tinha tido acesso a mais de 600 páginas, lido vários depoimentos que acusavam Simonal; e, o mais importante, num documento (o tal) anterior ao caso do sequestro de Raphael Viviani (o contador), o ‘rei da pilantragem’ assume que tinha vínculos com o Dops.

Respondi que conhecia direitinho as tais 600 páginas, já que possuo cópias do processo inteiro há mais de cinco anos, e que não lembrava de nenhuma menção com data anterior ao sequestro. O repórter, simplesmente, me afirmou que o documento foi lavrado às 15 horas do mesmo dia em que Viviani seria sequestrado (às 23h). A princípio não entendi.

Disse para ele que, exatamente pela coincidência do dia, isso provaria o oposto. Que o tal depoimento comprometedor tinha a maior cara de ser meio ‘construído’, de ser alguma espécie de álibi, de história de cobertura. Simonal, pra dar coerência a sua linha de defesa, apresentou uma queixa dada anteriormente (que também poderia ser ‘fabricada a posteriori’).

Ou seja, o tal documento não é anterior ao caso do sequestro, é parte tão fundamental dele que o próprio Simonal o divulga, na grande imprensa, em 1971 (no documentário, há duas dessas reportagens: ‘Terror ameaça Simonal’ e ‘Simonal se diz de direita e com bons serviços prestados à Revolução’).

Também perguntei, já que ele estava tão interessado nos aspectos jurídicos do caso, se não tinha lido o arrazoado do juiz ao proferir a sentença que condenou Simonal.

Em sua argumentação final, o ilustre meritíssimo alega que não tem como julgar os agentes do Dops, já que estávamos vivendo um estado de exceção e, por isso, não era da competência dele avaliar atos que poderiam ser de ‘segurança nacional’, mas Wilson Simonal, que era civil, não tinha esse tipo de cobertura; portanto, pena de cinco anos e quatro meses pra ele.

Essa questão não seria um pouco mais intrigante para um jornalista? Se Simonal pertencesse, de fato, a algum mecanismo de repressão em plena ‘era Médici’, por que ele não teve nenhuma proteção?

Seu caso foi o único processo que envolveu agentes do Dops, tortura, prisão ilegal que saiu em toda a mídia da época. No período de censura mais dura, Simonal apanhou sem ser socorrido. Para um cara que era ‘amigo dos hômi’ ele não foi uma presa fácil demais ?

Lendo os depoimentos do processo, testemunhos de defesa e acusação no julgamento, fica-se muito mais com a impressão de uma grande confusão, de uma vendeta boçal que degringolou, do que se joga luz em ligações políticas bizarras.

Também é fajuta a argumentação, citando promotores e juízes (e depois desmentindo ‘en passant’ centenas de linhas depois), que, na época, a Justiça aceitou as provas de que Simonal era informante ou colaborador. Ele nunca poderia ter sido condenado por ser informante simplesmente porque isso não é crime.

E, mais, se em 1971 fosse provado que era um colaborador, jamais seria julgado por isso -seria condecorado. Não é curioso que um ‘crime’ (delação), que além de não ser um crime tipificado e de ser, praticamente, impossível de provar, não prescreva nunca?

Por que, depois de décadas, de esquecimentos, perdões e mudanças de conjuntura, a pergunta que só querem fazer é se ‘ele era ou não era’? Não fica meio subentendido que, ‘se ele fosse’, então era merecedor de todo o castigo e muito mais? Delatar é mesmo a coisa mais imperdoável que um ser humano pode fazer?

Não existem perguntas ainda mais interessantes ou originais? Naquela época, a luta era, realmente, entre democratas e autoritários? Os que queriam pluralidade, diversidade de opiniões, liberdade de expressão não eram, na verdade, minoria?

No espectro político-ideológico da época, quem, ao alcançar o poder, não queria prender e eliminar opositores? Quantos, em nome da luta contra a ditadura, tinham seus próprios projetos totalitários e defendiam com ardor (e também com pôsteres e camisetas) genocidas de vários calibres?

Também não entendi a citação sobre a facilidade que o repórter teve para contactar o ex-contador do Simonal. Se era tão fácil, por que só fez o contato cinco anos após termos conseguido seu depoimento inédito e esclarecedor para o nosso documentário?

E, voltando ao velho Simona e à questão de ele ser um famigerado colaborador da ditadura: era, realmente, justo esperar que um negro, pobre, favelado tivesse a mesma percepção dos ‘anos de chumbo’ que alguém com formação universitária, classe média alta etc. e tal?

CLAUDIO MANOEL é produtor e diretor do documentário ‘Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei’. A íntegra deste texto foi publicada em http://blog.simonal.com/’

 

Mário Magalhães

Inconveniência dos fatos

‘É desonesto o jornalista que apresenta como novidade informações que ele mesmo veiculou antes.

E é mentiroso quem, com base em falsidades, acusa de reciclagem quem buscou informações novas. A reportagem no Mais! no domingo passado descreveu, entre seus destaques, três fatos:

a) Wilson Simonal declarou em depoimento ao Dops da Guanabara, em 24/8/71, ter comparecido ao órgão ‘visto aqui cooperar com informações que levaram esta seção a desbaratar por diversas vezes movimentos subterrâneos… subversivos no meio artístico’;

b) nas alegações finais e na apelação do processo 3.540/ 72 da 23ª Vara Criminal, Antonio Evaristo de Moraes Filho, advogado de Simonal, avalizou a declaração do cantor;

c) relatório confidencial do Dops, de 30/8/71, classificou o artista como ‘elemento ligado não só ao Dops, como a outros órgãos de informação’.

Há muito mais na reportagem, na qual inexiste uma só crítica ao documentário de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.

Ontem e hoje

Ainda assim, sobreveio a agressão. Na TV Cultura, Langer atacou na terça-feira: ‘Acho que é questão de ética profissional, de um jornalista [este repórter], que se diz jornalista pelo menos, de usar um documento que ele mesmo já usou e falar que é um documento novo’.

A única reportagem que eu escrevera sobre o assunto, ‘Juiz apontou cantor como informante’, saiu na Folha em 26/7/00.

Convido Langer a citar trecho em que conste algum documento enumerado acima. Se conseguir, evidencia reciclagem. Caso contrário, desmascara quem de fato mente e fere a ‘ética profissional’.

Em 2000, só tive acesso a 11 folhas do processo, que contém 655 -a íntegra foi obtida semanas atrás. Eram as 11 páginas da sentença, que ignora as declarações de 24/8/71, as manifestações do defensor e o relatório do Dops.

Formar juízo

Em referência ao depoimento de Simonal sobre delações, Langer afirmou: ‘Ele é usado no filme’. Faltou esclarecer em que sequência, já que o documento não é exibido nem mencionado na obra.

Sobre o mesmo documento, Manoel assinala quando ele ‘aparece’ no filme: ‘O próprio Simonal o divulga, na grande imprensa, em 1971. (Inclusive, no nosso documentário exibimos duas dessas reportagens: ‘Terror ameaça Simonal’ e ‘Simonal se diz de direita e com bons serviços prestados à Revolução’)’.

A verdade: essas reportagens (a primeira de ‘O Dia’ de 28/8/71 e, a segunda, do ‘Jornal do Brasil’ de 29/8/71) antecipam ou noticiam o teor de outro depoimento de Simonal, prestado na 13ª DP do Rio em 28/8/71 e datilografado em 111 linhas, quando ele se definiu como ‘homem de direita’, mas nada falou nem foi indagado sobre ser informante da ditadura militar.

Como a Folha anotou há uma semana, esse depoimento ‘vazou à imprensa’.

As reportagens evocadas por Manoel -cópias à disposição- nada informam acerca da declaração anterior de Simonal ao Dops, em 24/8/71, reconhecendo-se informante, e que embasa a reportagem de domingo deste jornal.

Manoel especula que a declaração do cantor se dizendo informante, feita antes da prisão do escriturário Raphael Viviani, poderia ser ‘fabricada a posteriori’.

A teoria conspiratória exigiria um advogado fraudador processual ou inepto a ponto de ser enrolado por Simonal e pelos torturadores de Viviani. Quem conheceu o ‘doutor Evaristinho’, gigante do direito e homem digno, não o imagina nesses papéis.

Porém, a hipótese de ‘história (de) cobertura’, formulada por Manoel, constou da reportagem. O jornal contemplou versões distintas e inconciliáveis, editando um painel plural.

Ao gênero jornalístico da reportagem não cabe patrocinar opiniões ou causas, mas difundir fatos e ideias que contribuam para que o leitor forme juízo. Os fatos são inconvenientes para quem prefere ocultá-los e agora tenta desqualificar uma reportagem sóbria e precisa desqualificando o jornalista.

O cartaz do filme sobre Simonal pergunta: ‘Culpado ou inocente?’. Na busca da resposta, há quem sonegue informações históricas. A autenticidade dos documentos publicados pela Folha foi confirmada por todas as partes na Justiça, inclusive Simonal. Eles são registros da trajetória do grande cantor, e o jornalismo não deve apagá-los.’

 

 

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